sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Amizade


A amizade é preciosa,
mas não é dizer apenas sim,
que com palavra enganosa,
há falsos amigos de mim.
Amigos de conveniência,
estão ali por breves momentos,
amigos de ausência,
fogem dos meus tormentos.
Amigos que viram costas
sempre que mais precisamos,
amigos de quem gostas,
com os que mais nos enganamos.
Amigos de circunstância,
que te aguentam enquanto ris.
Mas que depois vão com a distância,
quando simplesmente já não sorris.
Amigos de profissão,
cujo objectivo é descobrir
os teus pontos fracos
para com eles subir.
Amigos dos teus bens,
que te dão tanto sem pedir,
mas que quando nada tens,
estão prontos a partir.
Amigos que te enganam,
aqueles que gostam de te apoiar,
que com palavrinhas te acalmam,
mas que te querem tramar.
E quando estás no apogeu
das tuas vitórias na vida,
o maior ciúme é o seu,
gente de inveja roída.

Isto tudo não é amizade,
não é dar sem nada esperar,
não é elogiar sem com nada contar,
sentir a ausência e a saudade.
Isto não é amizade,
é um acto de cobardia,
para quem não se entrega e não sabe
que a amizade é alegria.
Alegrar-me pelos meus queridos,
mesmo estando muito triste,
são sentimentos merecidos
da amizade que persiste.
E um amigo verdadeiro,
não tem inveja, fica feliz, insiste,
é amigo por inteiro.

Mas, para além do que é bonito
de se dizer ou fazer,
um amigo também diz
coisas que nos fazem sofrer.
Os amigos abanam-nos
para nos chamar à razão,
mas não nos deixam de falar
até entenderem a nossa motivação,
o que nos levou a falar
a protestar, a objectar,
porque um amigo a sério,
perante uma atitude errónea,
é capaz de dizer não
mesmo que fique com insónia.

Ser amigo é ser capaz
de perdoar o que não tem perdão,
mas é também fazer finca-pé,
chamar o amigo à razão
e saber dizer não!

Não é ser amigo de sangue,
mas amigo de coração.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Quando for velhinha, se lá chegar

Quando for velhinha,

se lá chegar,

terei rugas de orgulho no rosto,

mãos calejadas e velhas,

com veias grandes, sinuosas

e muitas histórias para contar.



Sofrerei das costas,

do fígado, dos rins

e outras doenças afins…

Mas lúcida quero estar,

ter-te ao meu lado

e dos netos poder cuidar.



Mas não sei como será,

a Deus entrego o meu destino,

e calmamente, serenamente,

a velhice chegará,

entrará por minha casa adentro,

chegará para me vergar,

de um para outro momento,

chegará para se instalar.



Recebê-la-ei com complacência,

repousarei no seu regaço,

dela ganharei a sapiência,

que se sobreporá ao cansaço.



Serei de novo a criança

pura de coração,

e voltarei a fazer asneiras,

para chamar a atenção.



E quando ficar inválida,

e começar a dar trabalho,

A morte vir-me-á buscar.

Devagar, sem me aperceber,

pegar-me-á ao colo,

aninhar-me-á no seu peito,

e com ela ir-me-á levar.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Destino

Certo dia, depois das canseiras diárias,

Disse-me o Destino, com voz agonizante:

«Criei-te para a dor, para o sofrimento constante.

Da juventude foste privada.

Viverás uma vida angustiante.

Resta-te o pranto, a solidão.

Teus anos serão infaustos,

teus dias constante desilusão.»



Num gesto de desespero

chorei noites a fio.

Que futuro? Que presente?

Como suportar a desgraça iminente?



Foi então que decidi.

Invocado o mau Destino,

Respirei fundo e resisti

Troando a minha decisão:

«Não sucumbirei a ameaças vãs,

nem a presságios de desgraça.

As noites tornar-se-ão manhãs,

não é a noite, mas a aurora que me abraça.

À dor, reagirei com complacência;

ao sofrimento, com esperança;

à velhice, com confiança;

ao pranto, com um sorriso;

à solidão, com amor.



Agarrei o Destino com força,

nas minhas mãos em concha.

Depois, poisei-o devagar,

encolhido, resignado,

E deixei-o ali ficar.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Perda da inspiração

Fecho a porta da sala e dos segredos
com um arrebatador estrondo no peito,
o piano jaz mudo e contrafeito
pedindo ainda a carícia dos meus dedos.

Mas a inspiração dissipou-se,
a música perdeu a harmonia
e toda a casa emudeceu, silenciou-se,
evaporando-se com ela a fantasia.

E, lágrimas vindas directamente
de uma alma inconstante,
desavindas, teimosas, persistentemente
dilaceram-me como um punhal cortante

ferindo no fundo de mim,
sem motivo ou razão aparente;
com atitude fria e indiferente
dizem-me “chegou o Fim!”

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Revolta-te, Maria!


 “Ó Maria, faz-me caldinho,
quente, bem quentinho.
Ou então um chazinho,
Que me sinto muito quente!
Maria, põe-me panos de água fria,
para fazer descer a febre,
e traz-me o comprimido,
pra que a febre não medre!
Maria, dá-me o medicamento,
Que eu sou cabeça de vento,
e esqueço-me de o tomar a horas.
Maria, faz-me bolinhos,
que ando muito carente,
traz-me leite com mel,
para calmar este fel.
Dá-me um cálice de aguardente
pra acalmar a dor do dente.
Maria, faz-me uma canja,
que me dói a barriga.
Maria, faz-me uma massagem,
que me doem as costas.
Maria, onde estás Maria,
que não me ouves chamar?
Estou quase a morrer
e não me vens ajudar!
Maria, abre-me a cama
que tenho de me deitar.
Dá-me o comprimido para dormir,
que preciso descansar!
Onde te meteste Maria,
Que tardas tanto,
sempre na conversa com a vizinha,
e eu quase em pranto.
Há muito que te chamei,
estou farto de te chamar,
não me ouves quando preciso,
já estou a desanimar.
Já passaste a minha camisa?
Hoje tenho uma reunião,
quero-a sem vincos,
passa-a com atenção!
Já fizeste o almoço?
Porque não está já na mesa?
Sabes que estou com pressa
e tu a engonhar!
Porque não te arranjaste,
gosto de te ver bonita,
não fizeste nada o dia todo,
podias ao menos ter-te posto catita!
Porque não foste à cabeleireira
arranjar esse cabelo?
Maria, foste à escola
saber dos miúdos?
Se me trazem notas más,
a culpa é tua, Maria!”

Marias de todo o mundo,
chegou a hora!
De deixarem de ser robôs,
de serem tratadas com dignidade,
de não se menosprezarem
de acreditarem na vossa capacidade.
Mães, irmãs, mulheres de verdade,
mães extremosas, mulheres pacientes,
chegou a hora!
A hora de dizer não
à ordem, à obrigação!
A hora de utilizarem outros verbos
para além do verbo obedecer,
os verbos, pensar, decidir, escolher,
merecer, receber...
Enfim, chegou a hora de viver!


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Beijos


Um beijo é um gesto sentido,
uma amizade agraciada,
um amor consentido,
uma carícia consumada.

Beijos há muitos…
Beijos da alma a um filho,
daqueles que apertam laços
que nos enchem o peito de amor!
Beijos de incentivo a um amigo,
com o intuito de o acalmar,
de nas quedas o amparar!
Beijos repenicados aos netos,
na bochecha ternurenta,
que até a alma alimenta!
Beijos contrariados pela obrigação,
dados por delicadeza e educação,
mas desprovidos de emoção.
Beijos dados ao ser amado,
explosivos, suculentos,
que marcam momentos,
deixando o relógio parado!
Beijos na testa,
que nos lembram os nossos pais,
desses beijos que queremos sempre mais.
Beijos no nariz,
que nos deixam envergonhados
ao falharem por um triz.
Beijos que são sonhos,
dados com as palavras,
sentidos com os olhos,
ouvidos com a alma…

Beijos merecidos, imerecidos,
dados ou por dar,
repentinos, compridos,
doces ou amargos,
suaves ou agressivos,
velhos, novos,
roubados, consentidos.

Beijos são fonte de vida,
manifestações de afecto
que tornam a alma colorida,
deixando o corpo desperto.

Beijos! Oh, quantos beijos!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Amar

Amar é querer, é desejar,
perder-me em ti
para me encontrar a mim,
nos teus braços, nos teus beijos,
no teu cheiro, nos teus olhos,
em todo o teu ser.

Amar é partilhar, respeitar,
entregar-me a ti,
receber-te em mim,
continuamente reciclar
o modo de olhar e de amar.

Mas, amar é também refilar
discordar e rebentar.
Não é anular o meu ser,
 e apenas me submeter.

É aceitar o outro
com tudo o que isso implica
e ainda o admirar,
reconhecendo as imperfeições,
sem o anular,
sem me anular,
ajudando-o a crescer,
sentindo-se preenchido,
mesmo sem o saber.

É um gesto, uma palavra, um olhar,
conhecer e reconhecer,
amadurecer a dois,
dando ao que ama espaço para si,
o mesmo que eu preciso para mim,
para estar a sós comigo.
Enfim, ser marido, mulher, amante, amigo!



domingo, 5 de dezembro de 2010

Soneto da saudade



Se um dia sentires a vã saudade
passar muito próxima do teu ninho,
não olhes para ela com ansiedade,
finge que não estás e fala baixinho.

Assim, ela se esgueira, sem vontade
de dominar o teu ser tão cansado,
que, por saber tão bem o que é saudade,
andou como um louco desesperado.

Sem ela serás mais feliz;
viverás só da esperança e do futuro,
esquecerás o quanto a saudade diz.

Abre só janelas que não abriste,
esquece o passado tão cruel e duro
e alvorece no bem que ainda existe!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Neve mágica


video
Este ano a neve chegou mais cedo, quem sabe não tenhamos um Natal branquinho!? É magnífico ver o Fundão coberto pelo manto branco que o faz parecer mágico e quase nos leva a crer no aparecimento de pequenos gnomos por entre as árvores brancas. Por momentos abstraímo-nos da realidade cinzenta para parar a contemplar esta beleza indescritível!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A outra face da dor - o poema que ouvi pelo coração


Filha,
quero que saibas
e me perdoes,
me autorizes a partir…
Sabes,
sinto-me tão cansada
deste viver que já não é vida.
Mas tu…
Sei que estás triste
E aguentarei a dor
para que sofras menos.
Aguentarei…por quanto tempo?
Mais uns meses, mais uns dias,
umas horas…quem sabe?
Não aguento ver a dor estampada no teu rosto,
a tua angústia, o teu desgosto.
Filha,
Aperta-me a mão com força,
a minha escasseia
mas está aqui
nos meus olhos abertos
que te vêem mesmo que o duvides.,
mesmo que me sintas já ausente.
Por favor,
Faz-me um carinho no rosto,
Quero sentir a tua pele,
o teu calor no frio que me assola.
Filha,
Dá-me um beijo
para levar comigo
esse elo de amor que nos une.
Sei que te vou fazer falta…
Sei bem demais!
Mas as dores vão aumentando.
Se soubesses como dói!
A dor física e a dor de te deixar
mais tarde ou mais cedo.
Eu não quero,
mas o meu corpo chora,
todo ele chora
e geme em agonia.
Como eu queria lutar contra tudo,
levantar-me e abraçar-te.
Ir para casa,
cuidar dos netos,
ser a tua Mãe!
Mas as dores voltam, filha,
e são mais fortes do que eu.
Sinto que perdi esta batalha com a morte,
essa toda poderosa
que está aqui, neste quarto de hospital
à minha espera
à nossa espera.
Queria tanto chamar por ti,
dizer mais uma vez o teu nome
o quanto te amo,
mas as palavras já não saem
e a minha boca abre-se num gesto vazio…
Sinto que perco esta guerra que travámos durante três anos,
com uma força inexplicável,
uma fé inabalável
uma esperança infindável.
Mas tudo termina,
as forças foram-se com a dor.
E eu estou cada vez mais longe de mim mesma.
Filha,
dá-me a tua mão,
quero repousar em paz.
Quero acabar com este suplício.
Eu vou, mas fico na tua memória,
sei que fico,
nas lembranças,
nos lugares,
nas alegrias e tristezas que vivemos…
Nas encruzilhadas da vida,
lá estarei para te sugerir o melhor caminho a seguir.
Apoiar-te-ei na tua dor,
Mesmo já não estando presente.
Preciso partir!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Conto infantil

Aventuras de um Passarinho Sonhador




Certo dia, um passarinho,

tendo caído do ninho,

escondeu-se por detrás dum arbusto

julgando-se forte e robusto.

Decidiu então

viajar pelo mundo,

e, de mansinho,

foi de arbusto em arbusto,

entregue a um sonho profundo.

Encontrou um coelhote

já um pouco entradote

que lhe quis dar abrigo.

Coitado do passarito!

O coelho estava faminto.

Já na toca do coelho,

sentiu-se enclausurado

e resolveu fugir

olhando o coelho para outro lado.

Correu dias a fio,

já se sentia cansado…

Parou junto ao rio

Caiu e ficou molhado.

Por ali passava um cão

esperto, espertalhão,

convidou-o a acompanhá-lo.

Bela quinta o esperava,

não viu o passarinho

que queriam enganá-lo.

Chegados então à quinta,

viu muitos animais

Patos, porcos, vacas,

e outros tantos que tais,

mas não viu sequer pardais.

Logo estranhou o passarinho

quando o rodearam.

Cheirando-o todinho

a ele se atiraram.

Mas de entre a algazarra,

esgueirou-se o pobrezinho,

e enquanto bulhavam,

seguiu ele o seu caminho.

Depois de muito pensar,

decidiu regressar.

Era mesmo o mais prudente,

ficava mais quentinho

dentro do seu ninho.

A mãe o alimentava

e com mimo o tratava.

Só um dia,

sendo uma grande ave,

dali sairia,

pelo mundo viajaria.

De cabeça deitada

sonhava, sonhava…

enquanto a mãe o acarinhava.

Ti Elvira

Era uma mulher estranha. Na terra diziam que era bruxa, fazia todo o tipo de feitiços que lhe encomendavam. No entanto, no seu ar enrugado, desenhava-se um mistério infindável. Dos rasgados olhos negros emanava uma aura que a arrepiava, fazendo-a mudar o rumo dos seus passos, mal a via, cortando por qualquer outra ruela. Os cabelos, ralos já, finos, ressequidos e cansados, pareciam untados com um escuro azeite rançoso. Nas mãos, veias profundas, sinuosas como o rio Douro, pareciam rebentar a qualquer momento. E a voz? Essa era assustadoramente profunda, grave e cava.

Para uma criança da idade de Maria da Luz, de apenas dez anos, a Ti Elvira era misteriosamente medonha. E aquela imagem dormia com ela, ensombrando as suas noites, perseguindo os seus dias. Tinha consciência de que ela exercia sobre si um grande fascínio e poder. A qualquer momento seria capaz de transformar a sua vida. A ela cabiam as decisões sobre o futuro de Maria da Luz. Da Ti Elvira teriam vindo todas as maleitas que a caracterizavam até então: as suas sardas, o seu corpo franzino, os seus olhos esbugalhados, o seu cabelo de arame, os seus lábios sempre rebentados. De cada vez que a olhava, lhe aparecia algo que a irritava, que detestava nela mesma.

Durante anos Maria da Luz foi perseguida por este ser estranho, que lhe determinou o destino, que a martirizou toda a juventude, traçando-lhe o futuro sinuoso com que se depararia. Todas as controvérsias da vida provinham dela, só dela.

A família acreditava Maria da Luz pouco saudável, não só fisicamente como psicologicamente. E quando tentava queixar-se dos seus receios, ninguém se dignava a ouvi-la. Sempre franzina e doente, constituía um estorvo para todos. Além disso, nascera sem ser desejada, tendo o seu irmão mais velho completado vinte cinco anos. Os seus pais ralhavam muito um com o outro, acusando-se mutuamente pelo surgimento da “fedelha”. A mãe acusava o pai, por ela não ser saudável, lembrando-o constantemente das sovas que lhe dera durante a gravidez. Ele dizia-lhe que já então era velha e recordava-lhe que devia ter interrompido a gravidez. “A Antónia podia tê-lo feito”, ele até falara com ela!” Mas a mãe de Maria da Luz logo se interpunha, arreganhando os dentes ferozes para lhe atirar à cara que ele tinha um caso com a Antónia. De todos, apenas a sua prima Teodora se dignava a falar-lhe, a perguntar-lhe como ia, sem, no entanto, lhe dar muita confiança, não fosse Luz abusar.

Foi precisamente a Teodora que, para ver se ela deixava de falar de bruxas, lhe levou um romance. Começou a lê-lo e a evitar, a todo o custo, a bruxa, nunca passando na sua rua, fugindo dos locais que frequentava e que ela conhecia tão bem, inclusive as horas a que os frequentava. Mas foi por pouco tempo. Aos poucos, o romance adquiriu novos contornos e a personagem principal passou a ser ela. Tudo quanto lia lhe fazia crer que, estando ela a evitá-la, lhe surgia de outra forma, por meio do romance que lia. Não aguentou muito mais tempo. Ao mesmo tempo que a receava, ansiava vê-la.

Certo dia, passando Luz à sua porta, ela chamou-a com a sua voz cava. Ao olhar para a janela, da qual lhe chegava a voz arrastada dela, pediu-lhe que lhe fizesse um favor, que estava doente e só ela poderia ajudá-la. Entregou-lhe uma lista de compras, no mínimo estranha, de onde constavam velas, incensos, azeite... Atirou-lhe um saco com uns trocos. Esse dia, marcado no calendário da sua vida há tanto tempo, surgiu como inevitável, como o dia previsto para a mudança que se efectuaria na vida de Luz. Quando chegou com as compras, o seu coração batia ansiosamente, desenfreadamente, com a previsibilidade da aproximação à bruxa. E ao receio se misturava uma curiosidade profunda. Da janela ainda, pediu-lhe que entrasse, a porta estava aberta. O coração começou a bater mais forte, e foi com toda a coragem possível que abriu o trinco da porta. Invadiu-a o cheiro a incenso. Por entre a escuridão das escadas, apenas se viam algumas velas quase derretidas. Era um ambiente, no mínimo, constrangedor, quanto mais não fosse, porque contrastava com a claridade do dia, de um sol profundo, e da casa de Luz, sempre iluminada. Subiu as escadas com pernas trémulas, não sabia se devia continuar ou fugir, deixando as compras ao fundo das escadas. No fundo, tinha vontade de prosseguir e continuou a subir as escadas, com os olhos ainda mais esbugalhados do que já eram.

Lá em cima, uma sala simples, em tons profundamente vermelhos, parecia repleta de chamas. Seria o inferno? Teria ela morrido e chegado ao julgamento final? Foi então que a viu, a um canto, numa cadeira de baloiço, a olhá-la, estranhamente. Pousou os sacos e, já se ia embora, quando ela proferiu “ deixa-te estar miúda! Podes ajudar-me, tenho muito que te ensinar”. Parou imediatamente, estupefacta. No olhar triste de Elvira brilhava uma nova luz, pareceu-lhe até que lhe nascera uma nova esperança.

Voltou, durante dias, meses, anos. Voltou e, aos poucos, deixou-se envolver por aquele ambiente fascinante, pelas rezas feitas com incenso a arder em azeite. Quando recebia clientes, Luz ficava atrás da cortina da sala. Não queria represálias por parte dos seus pais. Se eles soubessem, proibi-la-iam de frequentar aquele antro, segundo designação do seu pai, que condenava aquelas profanações, que nada tinham que ver com a religião católica, que professava. Ouvia as súplicas, os choros, os pedidos de ajuda e ficava estupefacta perante a ida de pessoas que supunha católicas, que diariamente criticavam a bruxa e que, agora, soluçavam para ela, como se fora ela o seu ente divino. Quando saiam, ajudava-a a fazer as rezas. Já as conhecia de cor e parecia ter nascido e vivido sempre naquele ambiente.

Um dia, a Ti Elvira, disse-lhe que sempre esperara por ela, que a sabia sua seguidora, antes mesmo de ter nascido. Teria aguardado ansiosamente pelo momento mais oportuno, pelo momento que lhe fora comunicado.

A certa altura, a mãe de Luz estranhou as suas longas ausências, já que nunca fora de sair de casa. Começou a matutar e concluiu, sem a questionar, que deveria andar enrolada com alguém, para os lados do rio. Foi procurá-la e, não a encontrando, disse ao pai. Este abordou-a. Nada lhe disse, limitou-se a olhar para ele com um olhar inexpressivo, que o levou a bater-lhe até a deixar de cama.

Durante uma semana Luz não pôde levantar-se, mas via que as coisas lá em casa não iam bem, a mãe queixava-se de que a horta não vingava, os animais definhavam e a comida iria escassear nesse ano. Não entendiam, porque o mal não era geral, o restante povo gabava o ano das colheitas como fértil. À cabeça de Luz acorreu a ideia de que a bruxa teria previsto o motivo da sua ausência e se vingava. Logo que pôde, pôs-se de pé e, sem que dessem pela sua ausência, foi a casa dela, que logo sorriu ao vê-la e lhe confessou que não quisera provocar mal à sua família, mas que os espíritos, apercebendo-se do seu sofrimento, ter-se-iam vingado.

O que é certo é que tudo continuava extremamente difícil e dias piores se avizinhavam.

Quando começaram a passar necessidades, parece que todos os males vieram atrás. O Zé, seu irmão mais velho, perdeu o emprego que tinha nas minas. O irmão do meio, o Tonho, sofreu um acidente de motorizada, ficando impossibilitado de trabalhar na fazenda. E Luz pouco ou nada sabia fazer. Não tinha capacidades intelectuais, segundo a sua mãe e “era uma tonta sem eira nem beira” nas palavras do pai. Assim, com os seus pais entregues a uma fazenda estéril, a fome começou a reinar em casa deles, trazendo com ela a discórdia, duplicando as sovas que o pai dava à mãe, dando vazão ao provérbio “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. E Luz foi praticamente encarcerada no seu quarto, saindo apenas para pequenas tarefas domésticas e para comer umas migas de pão seco com água.

Foi nesse isolamento que começou a conceber um plano diabólico. Sentiu-se confrontada com o ser maléfico que todos nós possuímos, mas que nem sempre se revela. E, naquela altura, era como se esse ser se impusesse, crescesse e adquirisse proporções que ela própria desconhecia. Até àquele momento, o seu pecado era a Ti Elvira, no entanto essa obsessão acordou o monstro em si adormecido, com um crescente ódio por ela. Se até então o que Luz sentia pela bruxa era uma admiração que ela própria não compreendia, percebeu exactamente o sentimento que por ela nutria- um ódio tão profundo que seria capaz de a levar a tomar atitudes horríveis e inconcebíveis.

Noite e dia costurou, nas paredes do seu quarto, o seu plano mirabolante. E aos poucos ela era a aranha que prendia, nas suas teias a pobre mosca Elvira. Agora, era ela que a dominava e não ao contrário, como sempre fora. Finalmente venceria os seus medos e revelaria o ser imundo que existia em si. Numa noite, em breve, sairia às escondidas de casa e acabaria com a vida dela, de uma forma como só um ser com muito ódio o faria...
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