Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

 Rui, Manuel (2016). Quem Me Dera Ser Onda. Lisboa: Guerra & Paz.

N.º de páginas: 104
Início e fim da leitura: 03/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Um romance delirantemente divertido e luminosamente redentor
Angola, poucos anos depois da independência. Estamos mais precisamente em Luanda, em anos de esquemas de sobrevivência. Um pai de família desencanta um porco e leva-o para o seu apartamento, no sétimo andar de um prédio. Os filhos, Zeca e Ruca, apaixonam-se perdidamente pelo porquinho."

Adquire este livro através do meu link de afiliada Wook:  https://www.wook.pta_aid=698b2dc997d71
Ler Quem me Dera Ser Onda, de Manuel Rui, foi, para mim, uma forma de revisitar Luanda, embora não a Luanda que deixei em 1975. A cidade que encontrei neste pequeno romance é outra: a Luanda de 1982, marcada pelas consequências da guerra, pelas dificuldades do quotidiano e por uma realidade social e económica muito diferente daquela que guardava na memória. É uma Luanda que o autor apresenta através de uma história aparentemente simples, mas que rapidamente se percebe ser muito mais do que uma narrativa sobre uma família e o seu porco.
A história começa quando uma família passa a ter um porco em casa e decide criá-lo. Para os dois filhos, o animal depressa deixa de ser apenas uma possível fonte de alimento. Torna-se um companheiro, quase um membro da família, tratado com uma proximidade e uma ternura que contrastam com a intenção do pai, que vê naquele animal sobretudo a oportunidade de voltar a comer carne de porco, algo de que há muito está privado.
É precisamente desta diferença de perspetivas que nasce grande parte do humor do livro. Enquanto as crianças desenvolvem uma verdadeira afeição pelo animal e procuram protegê-lo de todas as formas, o pai vai pensando no momento em que poderá finalmente levá-lo para a mesa. O conflito entre aquilo que o porco representa para uns e para outros permite a Manuel Rui construir uma narrativa divertida, mas simultaneamente atravessada por uma realidade bem mais dura.
As tentativas das crianças para evitar o inevitável são particularmente reveladoras. Chegam a procurar aparas de carne num hotel, numa tentativa de satisfazer o desejo do pai e, desse modo, salvar o seu animal de estimação. Mas até aí a realidade se impõe: no hotel não há restos de porco para lhes dar, apenas carne de vaca. A situação, que poderia parecer apenas cómica, ganha uma dimensão quase absurda quando pensamos no contexto em que decorre. A escassez transforma tudo, desde a alimentação às relações familiares, e obriga as personagens a encontrar soluções pouco convencionais para problemas que, em circunstâncias normais, dificilmente existiriam.
É nessa capacidade de fazer coexistir o humor com uma realidade social difícil que me parece estar uma das maiores virtudes do livro. Manuel Rui não precisa de recorrer a uma narrativa pesada para falar de um período marcado pela guerra, pela falta de bens essenciais, pelas dificuldades económicas e pelas transformações de uma sociedade. Fá-lo através da ironia, da simplicidade e do olhar das crianças, permitindo-nos perceber, por detrás das situações cómicas, um país e uma cidade a tentar reconstruir-se.
Há crítica social, há retrato de uma época e há uma atenção evidente às dificuldades vividas pela população, mas tudo é atravessado por um humor que torna a leitura leve e, ao mesmo tempo, deixa espaço para a reflexão. O riso, neste caso, não apaga a dureza da realidade; antes a torna mais evidente.
Também a linguagem contribui para essa proximidade. A narrativa tem uma espontaneidade que combina com as personagens e com o ambiente em que a história se desenrola. Não sentimos estar perante uma descrição distante de uma realidade histórica, mas antes perante pessoas concretas, com os seus desejos, limitações, afetos e pequenas estratégias de sobrevivência.

Magalhães, Helena (2025). Atos de Desobediência. Lisboa: Edições ASA.

N.º de páginas: 336
Início da leitura: 01/09/2026
Fim da leitura: 02/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"O romance de estreia de Glória Brito foi aclamado pela crítica e adorado pelos leitores. O sucesso, porém, não se repetiu. A escritora está agora perto dos quarenta anos e começa a questionar o seu talento e o seu lugar no mundo. O medo instala-se.

Viver era mais simples no bairro onde cresceu, um tempo em que se sentia livre e a sua família ainda estava completa. Já não é assim. Glória abandonou o bairro, embora a sua memória teime em levá-la para lá. A liberdade não cumpriu a sua promessa de plenitude. A destruição da família alterou a sua relação com os outros e consigo mesma.

A única constante na sua vida é Lúcia, uma amiga que insiste em arrancá-la à solidão, mesmo quando Glória resiste. Serão as palavras crípticas de uma voz do seu passado a abalar essa resistência. Quem sabe, talvez o livro que precisa de escrever já esteja escrito.

Atos de Desobediência explora a intimidade feminina, as relações entre mulheres e homens, entre gerações e classes sociais, numa celebração tão apaixonada quanto crítica da literatura e da arte."

Adquire este livro através do meu link de afiliada Wook:  https://www.wook.pta_aid=698b2dc997d71

Em Atos de Desobediência, Helena Magalhães constrói um romance centrado em Glória Brito, uma escritora cuja relação com a literatura está longe de ser pacífica. A dificuldade em encontrar leitores e reconhecimento para aquilo que escreve vai-se cruzando com um passado marcado por relações dolorosas e com uma visão desencantada das relações entre homens e mulheres. Entre a frustração profissional, a solidão e uma sucessão de relações que pouco ou nada parecem acrescentar à sua vida, Glória procura formas de preencher um vazio que a escrita, apesar de tudo, não consegue resolver.
A personagem vive também uma espécie de confronto permanente com aquilo que entende serem as desigualdades existentes no meio literário e na sociedade. A sua revolta perante o reconhecimento atribuído aos homens, por vezes independentemente do mérito que lhes reconhece, introduz no romance uma dimensão crítica que ultrapassa a história individual da protagonista. Helena Magalhães aborda, assim, questões relacionadas com as diferenças de oportunidades, com os papéis atribuídos a homens e mulheres e com a dificuldade de afirmação feminina num espaço que nem sempre parece oferecer as mesmas possibilidades a todos.
É neste contexto que surge Fernando, uma presença que altera o equilíbrio precário em que Glória se encontra. A relação que estabelece com ele coloca-a perante expetativas, ilusões e escolhas que revelam tanto a sua vulnerabilidade como a necessidade de acreditar que, finalmente, encontrou alguém capaz de dar um sentido diferente à sua vida. No entanto, aquilo que cada um está disposto a perder, ou a sacrificar, para que essa relação possa existir é uma questão que o romance vai deixando em aberto e que ganha importância à medida que a narrativa avança.
Apesar de reconhecer mérito à autora na forma como explora estas questões, terminei a leitura com sentimentos algo contraditórios. A escrita é, sem dúvida, um dos pontos fortes do livro, sobretudo na maneira como acompanha o mundo interior da protagonista e dá espaço às suas inquietações, ressentimentos e contradições. Há uma intenção clara de questionar determinadas estruturas sociais e profissionais, e essa dimensão crítica é interessante e, em vários momentos, pertinente.
Por outro lado, senti dificuldade em criar empatia com as personagens. Também algumas situações e conflitos me pareceram regressar demasiadas vezes aos mesmos lugares, contribuindo para um ritmo irregular e, em certos momentos, excessivamente repetitivo. Essa insistência acabou por retirar algum impacto a acontecimentos que, apresentados de forma mais contida, poderiam ter produzido maior efeito.
Talvez esta seja, em parte, uma questão de expetativas. A sinopse despertou em mim uma curiosidade que acabou por não encontrar correspondência total na leitura. Esperava uma narrativa com uma tensão diferente e uma maior capacidade de me envolver emocionalmente com as personagens. Encontrei, em vez disso, um romance sobretudo interessado nas suas inquietações, nas fragilidades das relações e nas questões de género e de reconhecimento que atravessam a protagonista.

Mensagens mais recentes Mensagens antigas Página inicial
Ver a versão para telemóvel

Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

POSTS POPULARES

  • Poesia, a redescoberta dos sonhos
  • Viagem ao meu ser
  • Histórias do vento
  • Natas do céu
  • Nas mãos do destino

Arquivo

  • ▼  2026 (114)
    • ▼  setembro (2)
      • Quem Me Dera Ser Onda, Manuel Rui
      • Atos de Desobediência, Helena Magalhães
    • ►  agosto (16)
    • ►  julho (15)
    • ►  junho (16)
    • ►  maio (11)
    • ►  abril (16)
    • ►  março (12)
    • ►  fevereiro (14)
    • ►  janeiro (12)
  • ►  2025 (176)
    • ►  dezembro (14)
    • ►  novembro (11)
    • ►  outubro (13)
    • ►  setembro (13)
    • ►  agosto (19)
    • ►  julho (16)
    • ►  junho (16)
    • ►  maio (15)
    • ►  abril (12)
    • ►  março (19)
    • ►  fevereiro (11)
    • ►  janeiro (17)
  • ►  2024 (160)
    • ►  dezembro (7)
    • ►  novembro (17)
    • ►  outubro (13)
    • ►  setembro (12)
    • ►  agosto (18)
    • ►  julho (22)
    • ►  junho (20)
    • ►  maio (17)
    • ►  abril (7)
    • ►  março (9)
    • ►  fevereiro (10)
    • ►  janeiro (8)
  • ►  2023 (153)
    • ►  dezembro (18)
    • ►  novembro (13)
    • ►  outubro (12)
    • ►  setembro (7)
    • ►  agosto (20)
    • ►  julho (16)
    • ►  junho (12)
    • ►  maio (13)
    • ►  abril (9)
    • ►  março (10)
    • ►  fevereiro (11)
    • ►  janeiro (12)
  • ►  2022 (150)
    • ►  dezembro (13)
    • ►  novembro (9)
    • ►  outubro (15)
    • ►  setembro (13)
    • ►  agosto (17)
    • ►  julho (13)
    • ►  junho (13)
    • ►  maio (16)
    • ►  abril (14)
    • ►  março (9)
    • ►  fevereiro (7)
    • ►  janeiro (11)
  • ►  2021 (125)
    • ►  dezembro (9)
    • ►  novembro (4)
    • ►  outubro (8)
    • ►  setembro (15)
    • ►  agosto (20)
    • ►  julho (19)
    • ►  junho (13)
    • ►  maio (10)
    • ►  abril (6)
    • ►  março (6)
    • ►  fevereiro (6)
    • ►  janeiro (9)
  • ►  2020 (67)
    • ►  dezembro (5)
    • ►  novembro (5)
    • ►  outubro (5)
    • ►  setembro (5)
    • ►  agosto (11)
    • ►  julho (6)
    • ►  junho (6)
    • ►  maio (9)
    • ►  abril (3)
    • ►  março (4)
    • ►  fevereiro (5)
    • ►  janeiro (3)
  • ►  2019 (36)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  novembro (2)
    • ►  outubro (4)
    • ►  setembro (2)
    • ►  agosto (5)
    • ►  julho (3)
    • ►  maio (2)
    • ►  abril (7)
    • ►  março (3)
    • ►  fevereiro (5)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2018 (37)
    • ►  dezembro (4)
    • ►  novembro (1)
    • ►  outubro (4)
    • ►  setembro (2)
    • ►  agosto (2)
    • ►  julho (5)
    • ►  junho (4)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (4)
    • ►  março (3)
    • ►  fevereiro (3)
    • ►  janeiro (4)
  • ►  2017 (55)
    • ►  dezembro (2)
    • ►  novembro (4)
    • ►  outubro (9)
    • ►  setembro (10)
    • ►  agosto (8)
    • ►  julho (7)
    • ►  junho (5)
    • ►  maio (10)
  • ►  2015 (1)
    • ►  julho (1)
  • ►  2014 (9)
    • ►  junho (3)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (1)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2013 (34)
    • ►  dezembro (2)
    • ►  novembro (2)
    • ►  outubro (4)
    • ►  setembro (4)
    • ►  agosto (1)
    • ►  julho (2)
    • ►  junho (3)
    • ►  maio (3)
    • ►  abril (6)
    • ►  março (2)
    • ►  fevereiro (3)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2012 (102)
    • ►  dezembro (4)
    • ►  novembro (3)
    • ►  outubro (7)
    • ►  setembro (6)
    • ►  agosto (7)
    • ►  julho (12)
    • ►  junho (9)
    • ►  maio (10)
    • ►  abril (9)
    • ►  março (9)
    • ►  fevereiro (10)
    • ►  janeiro (16)
  • ►  2011 (279)
    • ►  dezembro (19)
    • ►  novembro (21)
    • ►  outubro (23)
    • ►  setembro (25)
    • ►  agosto (17)
    • ►  julho (36)
    • ►  junho (25)
    • ►  maio (29)
    • ►  abril (24)
    • ►  março (22)
    • ►  fevereiro (22)
    • ►  janeiro (16)
  • ►  2010 (25)
    • ►  dezembro (9)
    • ►  novembro (4)
    • ►  setembro (1)
    • ►  agosto (1)
    • ►  julho (3)
    • ►  junho (1)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (4)

Citar textos deste blog

Para citar textos deste blog utilize o seguinte modelo:

Gil, Célia , (*ano*), *título do artigo*, in Histórias Soltas Presas dentro de Mim, *data dia, mês e ano*, *Endereço URL*

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ - Esta licença permite que os reutilizadores copiem e distribuam o material em qualquer meio ou formato apenas de forma não adaptada, apenas para fins não comerciais e apenas enquanto a atribuição for dada ao criador.

O nosso Hulk (saudades)

O nosso Hulk (saudades)

O nosso cãozinho, o Dragão (saudades)

O nosso cãozinho, o Dragão (saudades)

O meu mais que tudo e eu

O meu mais que tudo e eu

O meu filho mais novo

O meu filho mais novo

O meu filho mais velho

O meu filho mais velho

Categorias

25 de Abril de 1974 5 500 anos Camões 1 acróstico 1 Agradecimento 1 banda desenhada 31 biografia 7 biografia romanceada 1 biologia 1 bullying 1 chaves da memória 4 cidadania 4 clássico 7 Conto 20 conto infantil 7 contos 6 Crónica 3 Crónicas 9 Daqui 1 Dedicatória 2 dissertação de mestrado 1 distopia 6 Divulgação 9 divulgação - leituras 948 divulgação de livros 921 escrita 1 espionagem 2 fábula 2 fantasia 11 ficção científica 1 gótico 1 halooween 1 higiene do sono 1 Hiroxima 1 histórias com vida 1 1 histórias com vida 3 1 Histórias com vida 7 1 Holocausto 16 homenagem 2 ilustração 4 LGBT 3 literatura brasileira 3 literatura de viagens 2 literatura portuguesa 6 livro 48 livro ilustrado 11 livro infantil 19 livro infanto-juvenil 15 magia 3 manga 1 mangá 2 memórias 9 motivação para a leitura 432 não ficção 4 Nobel 14 novela 1 novela gráfica 88 O Enigma mora cá dentro 2 opinião 896 opiniãooutono da vida 3 outono da vida 3 Outros 271 Paleta poética 5 pnl 6 poema declamado 9 poemas 402 Poesia 17 policial 11 pós 25 de Abril de 1974 1 prémio Leya 3 quadras ao gosto popular 1 realismo mágico 1 receitas 10 reedição 17 Reflexão 7 reflexões 26 relações humanas 8 releitura 2 resenha 324 romance 22 romance gráfico 13 romance histórico 15 soneto 29 sugestões de leitur 1 sugestões de leitura 838 terror 3 thriller 93 thriller de espionagem 2 thriller psicológico 19 trilogia 1 viagens 4

TOP POSTS (SEMPRE)

  • Histórias de embalar
  • Luta inglória
  • Conceitos invertidos
  • Querido Janota

Link de Afiliada Wook

Comprar na Wook

Ficção Literária Wook

Pesquisa neste blog

Seguidores

Visualizações

TOP POSTS (30 DIAS)

  • Poesia, a redescoberta dos sonhos
  • Viagem ao meu ser
  • Histórias do vento
  • Natas do céu

Designed by OddThemes | Distributed By Gooyaabi