Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Sepúlveda, Luís e Cever (2025). História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar. Lisboa: Porto Editora.

Tradução: Pedro Tamem
N.º de páginas: 104
Início da leitura: 21/01/2026
Fim da leitura: 25/01/2026

**SINOPSE**
"O clássico do escritor chileno Luis Sepúlveda numa nova versão com desenhos apelativos de Cever, que amplificam a magia de uma história intemporal
Junto ao porto de Hamburgo, Zorbas, um gato grande, preto e gordo, promete a uma gaivota que veio morrer na varanda de sua casa que não só chocará o ovo que esta acabara de pôr, como criará a pequena gaivota e ensiná-la-á a voar. Comprometidos pela mesma promessa, o bando dos gatos do porto vai mobilizar-se para o ajudar, por muito difícil que a invulgar tarefa seja...
As aventuras de Zorbas, o gato, de Ditosa, a jovem gaivota, e dos seus amigos foram imaginadas pelo grande escritor chileno Luis Sepúlveda, tendo conquistado milhões de leitores em todo o mundo, tocados pela poesia e pelos valores universais desta história que tem a graça de uma fábula e a força de uma parábola.
Cever, que se «apaixonou» por este texto, oferece-nos uma magnífica personificação desenhada da improvável amizade entre um felino e um pássaro, conseguindo combinar na perfeição o humor e a fantasia com temas muito atuais como o ambiente, o respeito pela diferença e a solidariedade."

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luís Sepúlveda, é já um clássico da literatura contemporânea, cuja força reside na aparente simplicidade com que aborda temas profundamente humanos. A adaptação para novela gráfica, com argumento de Sepúlveda e ilustração de Cever (adaptação gráfica por Adams), revela-se particularmente feliz pela fidelidade ao espírito da obra original, conseguindo transpor para a linguagem visual a delicadeza ética e emocional do texto.
Trata-se de uma narrativa que, sob a forma de fábula, constrói uma reflexão clara sobre valores como a amizade, a confiança, a responsabilidade e o cumprimento da palavra dada. A relação improvável entre uma gaivota moribunda e o gato Zorbas funciona como metáfora de um humanismo generoso, em que o respeito pela diferença e a solidariedade se sobrepõem a qualquer fronteira natural ou social. A promessa feita à gaivota, cuidar do ovo, proteger a cria e ensiná-la a voar, estrutura toda a narrativa e confere-lhe uma dimensão ética central: a palavra empenhada como compromisso moral inquebrável.
A novela gráfica consegue preservar esta dimensão simbólica sem a empobrecer. Pelo contrário, o suporte visual intensifica a carga emotiva do texto, tornando mais palpável a ternura, o humor e a melancolia que atravessam a história. A escrita mantém-se clara, acessível e profundamente eficaz, sem excessos retóricos, mas com uma sensibilidade que toca leitores de todas as idades. Cada leitura, seja do texto original, seja desta adaptação, renova a capacidade de comoção, confirmando o carácter intemporal da obra.
Mais do que uma história destinada ao público infantojuvenil, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar afirma-se como uma lição universal sobre convivência, empatia e coragem. A novela gráfica honra plenamente o clássico que lhe dá origem, provando que a fidelidade a uma obra não impede a recriação, antes a enriquece quando é feita com respeito, inteligência e sensibilidade.

 Adlam, Carol (2025). A Detetive Russa. Alfragide: Edições ASA II.

Tradução: José Menezes
N.º de páginas: 112
Início da leitura: 16/01/2026
Fim da leitura: 20/01/2026

**SINOPSE**
"Nesta impressionante reimaginação de um thriller policial russo do século XIX do mundo de Dostoiévski, Carol Adlam apresenta Charlie Fox, jornalista, mágica, mentirosa e ladra, que relutantemente retorna à sua cidade natal, Nowheregrad, para investigar o assassinato de Elena Ruslanova, filha de um fabricante de vidro fabulosamente rico.
Em Nowheregrad, Charlie vê-se envolvida numa história de múltiplas camadas que é contada através dos dispositivos visuais ricamente variados da época. com a ajuda involuntária da sua amante, Netochka, Charlie desvenda o mistério da família Bobrov, apenas para enfrentar a verdade sobre si mesma.
Requintadamente desenhada e contada de forma convincente, a narrativa complexa e elegante de Adlam dá vida aos legados perdidos da ficção policial antiga e das primeiras mulheres jornalistas e detetives."

A Detetive Russa, de Carol Adlam, apresenta-se como uma reinvenção singular do thriller policial russo do século XIX, dialogando com o universo literário de Dostoiévski, não apenas na atmosfera sombria e moralmente ambígua, mas também na complexidade psicológica das personagens. Trata-se de uma novela gráfica pouco convencional, que desafia as expetativas habituais do género e exige do leitor um envolvimento atento e paciente.
A obra não se revela de leitura imediata ou linear. Em vários momentos, a articulação entre a componente gráfica e a narrativa torna-se exigente, chegando mesmo a parecer dispersa, o que pode dificultar a compreensão global da história. A linguagem visual não funciona aqui como mero apoio ao texto, mas como um elemento autónomo, por vezes enigmático, que obriga o leitor a interpretar e a estabelecer ligações nem sempre evidentes.
Carol Adlam apresenta como protagonista Charlie Fox, uma figura deliberadamente ambígua: jornalista, mágico, mentiroso e ladrão, cuja identidade oscila entre o masculino e o feminino. É esta personagem que, de forma relutante, regressa à cidade natal, Nowheregrad, para investigar o assassinato de Elena Ruslanova, filha de um fabricante de vidro extraordinariamente rico. Este acontecimento serve de ponto de partida para uma narrativa marcada por investigações sinuosas, intrigas constantes e sucessivas reviravoltas.
A leitura pode tornar-se complexa, e por vezes confusa, à semelhança de muitas investigações criminais, devido à multiplicidade de personagens suspeitas, às mentiras sobrepostas e à abundância de detalhes que exigem atenção permanente. 

Jónasson, Ragnar (2024). Morte no Sanatório. Lisboa: TopSeller.

Tradução: Maria da Fé Peres
N.º de páginas: 256
Início da leitura: 17/01/2026
Fim da leitura: 19/01/2026

**SINOPSE**
"Akureyri, Norte da Islândia, 1983
Outrora um hospital dedicado ao tratamento da tuberculose, o Sanatório de Akureyri é agora assombrado apenas pelos fantasmas do seu passado. Uma única ala permanece aberta, que se dedica a investigação científica, albergando seis funcionários: dois médicos, três enfermeiras e o zelador.

Quando Yrsa, uma das enfermeiras, é brutalmente assassinada, torna-se evidente que a morte nunca abandonou aquele lugar. É aberta uma investigação em torno dos cinco suspeitos, mas o caso é rapidamente encerrado.

2012
Helgi Reykdal, um jovem criminologista, decide regressar à Islândia após lhe ser oferecido emprego na polícia de Reiquiavique, no seguimento da reforma de Hulda Hermannsdóttir, uma das investigadoras responsáveis pelo caso de Yrsa. Embrenhando-se cada vez mais no passado, Helgi decide tentar encontrar os antigos suspeitos. o que encontra, no entanto, é uma teia terrível de segredos, traições e mentiras."
Morte no Sanatório, de Ragnar Jónasson, foi o segundo contacto que tive com a obra do autor, o que acabou por despertar a necessidade de recuar ao início e ler também o primeiro livro. Esta experiência revelou-se bastante gratificante, não só por permitir compreender melhor o universo narrativo do escritor islandês, mas também por confirmar a consistência do seu estilo e da sua abordagem ao género policial.
A ação decorre num antigo sanatório, outrora destinado ao tratamento de doentes com tuberculose, um espaço carregado de memória, isolamento e um certo peso histórico que o autor explora de forma muito eficaz. Embora a maior parte do edifício esteja desativada, uma ala permanece aberta para fins de investigação científica, criando um contraste interessante entre passado e presente. É neste cenário claustrofóbico e isolado que ocorre o assassinato de uma das enfermeiras envolvidas no projeto, transformando imediatamente os restantes cinco membros da equipa nos principais suspeitos.
Ragnar Jónasson constrói a narrativa com mestria, apostando mais na atmosfera, na psicologia das personagens e na tensão silenciosa do que na ação frenética. O ambiente fechado do sanatório funciona quase como uma personagem adicional, intensificando a sensação de desconfiança e de inevitabilidade. O leitor é constantemente levado a questionar as motivações e segredos de cada interveniente, num jogo subtil de pistas e falsas certezas.
Um dos grandes méritos do romance é a forma como o autor consegue envolver o leitor e surpreendê-lo quanto à identidade do assassino. A revelação final é coerente, mas inesperada, o que demonstra um domínio sólido da estrutura do enredo policial. Nota-se claramente a influência dos policiais clássicos, tanto na construção do mistério como no ritmo contido e na importância dada à dedução, mais do que ao espetáculo.
Morte no Sanatório confirma Ragnar Jónasson como um autor que respeita a tradição do género, mas que lhe imprime uma identidade própria, marcada por ambientes frios, isolados e psicologicamente densos. A sua escrita é segura, elegante e eficaz, tornando este livro uma leitura envolvente e recomendável para os amantes de romances policiais clássicos com um toque nórdico e contemporâneo.

Jónasson, Ragnar (2025). O Misterioso Caso da Escritora Desaparecida. Lisboa: TopSeller.

Tradução: Maria da Fé Peres
N.º de páginas: 272
Início da leitura: 16/01/2026
Fim da leitura: 17/01/2026

**SINOPSE**
"Numa noite de inverno, a autora bestseller de livros policiais, Elín S. Jónsdóttir, desaparece.

Não há quaisquer pistas sobre o seu desaparecimento, e cabe ao jovem inspetor Helgi Reykdal desvendar o caso antes que este chegue às mãos da imprensa.

Ao entrevistar as pessoas que lhe são mais próximas — uma editora, um contabilista, uma juíza reformada — percebe que a vida de Elín não era o que parecia. Na verdade, o seu passado é ainda mais estranho do que a sua ficção.

À medida que o caso da escritora de policiais desaparecida se torna mais misterioso a cada hora que passa, Helgi tem de descobrir os segredos inesperados de uma vida, antes que seja tarde demais…"

O Misterioso Caso da Escritora Desaparecida, de Ragnar Jónasson, confirma a habilidade do autor islandês para construir narrativas policiais depuradas, de leitura fluida e eficaz, onde o essencial nunca é sacrificado em nome do efeito fácil. Partindo de uma premissa simples, o desaparecimento súbito de uma escritora antes que a imprensa tenha conhecimento do caso, o romance aposta menos na espectacularidade da ação e mais na tensão psicológica e na progressiva revelação de camadas humanas. O jovem inspetor Helgi Reykdal, ainda a afirmar-se na polícia, funciona como um olhar atento e contido, cuja inexperiência relativa contribui para uma investigação marcada pela prudência e pela observação meticulosa.
A estrutura do romance, assente numa sucessão de entrevistas a figuras próximas de Elín, uma editora, um contabilista e uma juíza reformada, imprime ao texto um ritmo constante, quase inexorável, em que “os ponteiros do relógio estão sempre a mexer”. Jónasson sabe explorar o silêncio, as omissões e as pequenas contradições, transformando cada depoimento numa peça que tanto esclarece como adensa o mistério. A vida da escritora, que à superfície parecia organizada e respeitável, revela-se progressivamente fragmentada, marcada por dissimulações e zonas de sombra que colocam em causa a própria ideia de identidade.
Sem recorrer a reviravoltas artificiais ou a pistas evidentes, o romance assume-se sobretudo como um exercício de contenção narrativa e de entretenimento inteligente. É um livro que se lê com prazer, sustentado por uma escrita sóbria e precisa, fiel à tradição do noir nórdico, mas acessível a um público mais vasto. Jónasson não pretende reinventar o género; prefere afiná-lo, oferecendo uma história bem construída, atmosférica e envolvente, que mantém o leitor preso até à última página e confirma que, por vezes, o maior mistério não é o desaparecimento em si, mas aquilo que se esconde por trás de uma vida aparentemente comum.

Montes, Rafael (2014). Dias Perfeitos. Lisboa: Companhia das Letras.

N.º de páginas: 280
Início da leitura: 13/01/2026
Fim da leitura: 14/01/2026

**SINOPSE**

"Téo é um solitário estudante de Medicina que divide o seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e investigar cadáveres nas aulas. Durante uma festa, conhece Clarice. Obcecado por ela, começa então uma aproximação doentia, que o leva a tomar uma atitude extrema que estabelece entre o casal uma rotina repleta de tortura psicológica e sordidez.
Dias Perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão."
Dias Perfeitos, de Raphael Montes, é um romance que confirma o autor como uma das vozes mais eficazes da literatura brasileira contemporânea no domínio do suspense psicológico. Montes não escreve com intenções pedagógicas nem morais; o seu propósito é claramente o entretenimento, e cumpre-o de uma forma muto bem conseguida. A narrativa é conduzida por uma escrita ágil, envolvente e calculada, que transforma o romance num verdadeiro page-turner, mantendo o leitor num estado constante de inquietação e expectativa.
Neste livro, Raphael Montes constrói uma história onde o terror psicológico se cruza com a obsessão, o amor distorcido e o desespero. Acompanhamos Téo, um estudante de medicina reservado, metódico e socialmente isolado, cuja vida se resume às exigências académicas e aos cuidados prestados à mãe, Patrícia, uma mulher dependente de uma cadeira de rodas e totalmente subordinada ao filho nas tarefas mais íntimas do quotidiano. Este contexto inicial, marcado por uma rotina opressiva e por uma relação ambígua de dependência, prepara o terreno para a progressiva perturbação emocional do protagonista.
O encontro com Clarice, forçado por uma situação banal, um churrasco ao qual Téo é obrigado a comparecer, funciona como o elemento catalisador da narrativa. Clarice não corresponde a um ideal convencional de beleza, mas a sua inteligência, espontaneidade e diferença face ao universo fechado de Téo despertam nele uma obsessão avassaladora. A partir desse momento, o romance mergulha numa espiral de comportamentos extremos, em que o leitor assiste, com desconforto crescente, à transformação psicológica do protagonista e à normalização do absurdo e da violência no seu discurso interior.
Um dos grandes méritos de Dias Perfeitos reside precisamente na construção da voz narrativa. Raphael Montes consegue colocar o leitor dentro da mente de Téo, obrigando-o a acompanhar o seu raciocínio frio e aparentemente lógico, mesmo quando as suas ações se tornam moralmente inaceitáveis. Esta proximidade cria um efeito perturbador: não há julgamentos explícitos, apenas a exposição crua de uma mente obsessiva que confunde amor com posse e cuidado com controlo.
O autor constrói uma narrativa tensa, claustrofóbica e eficaz, onde o desconforto psicológico é mais relevante do que o choque explícito. Dias Perfeitos não pretende oferecer respostas nem lições; o seu impacto reside na capacidade de envolver, inquietar e prender o leitor até à última página. 

 Dillies, Renaud e Padula, Grazia La (2017). Jardim de Inverno. Lisboa: Kingpin Books.

Tradução: Mário Miguel Freitas
N.º de páginas: 64
Início da leitura: 12/01/2026
Fim da leitura: 13/01/2026

**SINOPSE**
"A gota de água. O transbordar do copo. Ou como o gotejar periódico e crescente vindo do andar de cima levará Sam, um jovem barman de um clube de jazz, a conhecer um velho afável, mas aparentemente senil. Poderá ser ele, porém, o providencial jardineiro das coisas simples e belas que Sam negligenciou durante tanto tempo?

Um relato invernoso feito de cruéis abandonos, adiados reencontros e chuvosos recontros, e de uma rotina aparente capaz de encerrar, afinal, inusitadas revelações. Inusitadas e belas como um jardim."


Jardim de Inverno, de Renaud Dillies, com ilustrações de Grazia La Padula, apresenta-se como uma obra de leitura silenciosa e contemplativa, em que a aparente simplicidade da narrativa esconde uma reflexão profunda sobre a vida contemporânea e a erosão dos laços humanos. O livro constrói um retrato de existências repetitivas, marcadas por dias iguais entre si, onde a rotina mecanizada vai esvaziando o verdadeiro sentido de família, de amizade e de relação. As personagens surgem como figuras quase autómatos, semelhantes a bonecos de corda, presas a movimentos previsíveis e a emoções amortecidas, num mundo onde o hábito substitui o afeto e a presença do outro se torna cada vez mais distante.
É neste cenário de imobilidade emocional que Jardim de Inverno introduz a ideia de libertação. A obra fala da reaprendizagem dos sentimentos, do lento regresso à empatia e ao cuidado pelas pessoas de quem gostamos, num processo que não é súbito nem fácil, mas profundamente humano. O jardim assume aqui um valor simbólico central: espaço de pausa, de reconexão e de esperança, capaz de abrir pequenas fendas de luz mesmo nos dias mais cinzentos e chuvosos do inverno. Trata-se de um convite à redescoberta do que nos liga aos outros e ao mundo.
As ilustrações de Grazia La Padula são particularmente eficazes na tradução visual destas ideias. Com uma linguagem gráfica expressiva e sensível, acompanham e aprofundam o discurso do texto, reforçando a sensação de clausura inicial e, progressivamente, a abertura emocional que a narrativa propõe. Texto e imagem dialogam de forma harmoniosa, transmitindo com clareza a intenção do autor e conferindo ao livro uma coerência estética e temática notável. Jardim de Inverno afirma-se, assim, como uma obra delicada e reflexiva, que interpela o leitor sobre a forma como vive, sente e se relaciona, deixando no final uma impressão de esperança discreta, mas persistente.

Campaniço, Carlos (2025). A Cinco Palmos dos Olhos. Lisboa: Casa das Letras.

 

N.º de páginas: 272
Início da leitura: 08/01/2026
Fim da leitura: 12/01/2026

**SINOPSE**
"Pouco depois do 25 de Abril, os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas. Em Aldeia Velha - o lugar onde decorre a acção deste romance - a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da Guerra Colonial e as novas liberdades trazidas pela Revolução.

Veremos, por isso, como reagem os que perderam as propriedades (e se insurgem ou resignam com a situação) e os que continuam a trabalhar de sol a sol, embora agora para seu próprio sustento. E também os que, depois de terem lutado anos pela democracia, são agora membros do Partido e ocupam funções de relevo, ou os que acreditaram no mundo perfeito e veem os seus sonhos esfarelar-se todos os dias. Mas há também coisas que nunca mudam, por mais que os tempos tenham mudado: a bisbilhotice, a mentira, a má-língua, a maldade, o sofrimento.

Num romance em que a verdadeira personagem é a própria aldeia - na qual o bulício das vidas individuais funciona como uma espécie de música de fundo - é curiosamente o carteiro - aquele que passa em todas as ruas e portas - o elo de ligação entre o padre, o merceeiro, o médico, a amante, o corno, o ricaço, o presidente da Junta e muitos outros, trazendo-nos a forma como cada um assimila os novos tempos e perspectiva o futuro. Porém, o muito que este homem cala é talvez aquilo que mais importa.

Carlos Campaniço, no seu estilo inconfundível e uma linguagem que é um tremendo veículo sensorial, oferece-nos com A Cinco Palmos dos Olhos mais uma obra profundamente original."

A Cinco Palmos dos Olhos, de Carlos Campaniço, é um livro que se constrói na delicada fronteira entre a intimidade das personagens e a memória coletiva de um país em transformação. Situado na pequena Aldeia Velha, espaço simbólico e concreto nos confins de um Portugal rural do pós-25 de Abril, o romance revela-se menos interessado nos grandes gestos históricos do que nos seus ecos silenciosos, aqueles que se infiltram na vida quotidiana de quem ficou à margem da mudança.

Campaniço demonstra uma notável capacidade de observação humana. Cada personagem surge desenhada com rigor e empatia, carregando consigo segredos, traumas antigos, marcas de pobreza material e afectiva, mas também uma obstinada vontade de sobreviver. Não há aqui figuras idealizadas: há homens e mulheres imperfeitos, frágeis, por vezes duros, que aprendem a viver com aquilo que lhes foi dado ou retirado. É precisamente nessa imperfeição que o romance encontra a sua força, permitindo ao leitor reconhecer-se nos silêncios, nas culpas e nos afectos contidos.

A Aldeia Velha funciona como microcosmo de um país que acorda lentamente para a liberdade, mas que continua preso a estruturas sociais, económicas e emocionais profundamente enraizadas. O Portugal que emerge destas páginas é um território de contrastes: entre a esperança e o desencanto, entre o desejo de mudança e o peso da tradição, entre a proximidade física das pessoas e a distância emocional que tantas vezes as separa, esses “cinco palmos” que dão título ao livro e que sugerem tanto intimidade como incomunicabilidade.

A escrita de Carlos Campaniço é contida, mas carregada de densidade emocional. Não cede ao sentimentalismo fácil nem à nostalgia excessiva; antes opta por uma linguagem precisa, que confia no não dito e no ritmo lento da narrativa. O tempo do romance é o tempo da aldeia e da memória: pausado, circular, atento aos pequenos gestos que revelam mais do que longos discursos.

Lafebre, Jordi (2025). Sou um Anjo Perdido. Estoril: Arte de Autor.

Tradução: Helena Romão
N.º de páginas: 128
Início da leitura: 05/01/2026
Fim da leitura: 12/01/2026

**SINOPSE**

"Óculos escuros, cigarro nos lábios, pele sobre uma mini saia, a psiquiatra excêntrica Eva Rojas está de volta! Dezoito meses após os episódios relatados em Je suis leur silence, ela observa de cima de um guindaste duas pernas que sobressaem de uma laje de betão, o que não augura nada de bom. A inspetora Merkel e o seu adjunto Garcia terão de interrogá-la como única testemunha ocular. Mas nada é simples com Eva: ela aceita responder, mas apenas na presença do seu... psiquiatra! E então conta em detalhe à polícia, mas também ao Dr. Llull, os sete dias que antecederam o incidente. Um dos seus pacientes, João, 19 anos, estrela em ascensão do futebol, desapareceu.

O clube responsabiliza-a e exige que ela o encontre em seis dias. Para o bem e para o mal, Eva pode contar com as «vozes» que a acompanham, as de suas antepassadas, falecidas há muito tempo, mas ainda muito presentes! E ainda mais presentes quando Eva visita sua mãe no hospital psiquiátrico ou quando se aproxima um pouco demais dos neonazistas..."

Sou um Anjo Perdido confirma Jordi Lafebre como um autor capaz de dar continuidade a um universo narrativo sem lhe retirar frescura ou ousadia. Enquanto sequela de Sou o Teu Silêncio, retoma a figura inesquecível de Eva, a psiquiatra excêntrica que já então se destacara pela sua irreverência, lucidez caótica e frontal desafio a todas as convenções. Tal como no livro anterior, a leitura não desilude: reencontramos uma protagonista excessiva e fascinante, politicamente incorreta, corajosa e sensual, cuja loucura aparente é, afinal, uma forma singular de liberdade.

Eva continua a mover-se num território instável, onde a razão e o delírio se entrecruzam, acompanhada pelas vozes femininas que habitam a sua mente, presenças do passado que funcionam simultaneamente como consciência crítica e refúgio emocional. São elas que lhe dão profundidade e humanidade, apoiando-a ou confrontando-a, mas permanecendo sempre como o seu porto de abrigo num mundo que raramente a compreende.

A narrativa estrutura-se a partir de um episódio perturbador: um homem encontrado morto, enterrado em cimento de cabeça para baixo. As tatuagens denunciam-no como neonazi, e este detalhe aparentemente isolado revela-se o ponto de partida para uma intriga que liga futebol, violência e memória. Eva surge como única testemunha ocular, e o seu depoimento, prestado à inspetora Merkel e ao seu adjunto Garcia, na presença do seu próprio psiquiatra, conduz-nos numa viagem retrospetiva pelos sete dias que antecederam o desfecho trágico. O desaparecimento de João, um dos seus pacientes e jovem promessa do futebol em ascensão, desencadeia uma investigação pessoal que expõe Eva a perigos reais, ainda que ela pareça não temer nada, ou não ter plena consciência da dimensão do risco que corre.

Combinando suspense policial e humor mordaz, Lafebre constrói uma história envolvente, ambientada mais uma vez em Barcelona, onde o ritmo narrativo se equilibra entre tensão e ironia. O absurdo e o trágico convivem de forma natural, refletindo a própria personalidade da protagonista.

As ilustrações merecem destaque especial: expressivas e dinâmicas, não se limitam a acompanhar o texto, mas ampliam-no, transportando o leitor para o centro da ação. Contribuem decisivamente para a imersão numa trama tão bizarra quanto emocionalmente intensa, reforçando o caráter singular desta obra.

 Aramburu, Fernando (2025). O Menino. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

Tradução: J. Teixeira de Aguilar
N.º de páginas: 224
Início da leitura: 05/01/2026
Fim da leitura: 07/01/2026

**SINOPSE**
Inspirado num acidente real ocorrido no País Basco em 1980, este romance mergulha na devastação de uma família. Uma história comovente, uma história de resistência, como só Aramburu sabe contar.
Nicasio, já reformado, costuma ir às quintas-feiras ao cemitério de Ortuella visitar a sepultura do neto. É um dos muitos falecidos na sequência de uma explosão de gás numa escola daquela localidade, um acidente que sacudiu o País Basco e toda a Espanha em 1980.
Pelas andanças do avô, uma figura que se afirma até se tornar indelével, pelo testemunho da mãe, muitos anos depois, pela crónica objetiva do que sucedeu à família, descobriremos como aquela tragédia dilacerante trouxe à baila aspetos desconhecidos das suas personalidades e como transtornou para sempre as suas vidas.
Com a mestria habitual de Aramburu, o leitor ver-se-á imerso numa história de emoções inesperadas, uma exploração psicológica e literária que o manterá preso até à última linha, para entender e se comover com o destino das personagens. Pelo tratamento extremamente humano que lhes é dado, e pelos recursos estilísticos utilizados, O Menino é um romance memorável, um prodígio literário do melhor Aramburu.
Em adaptação pela Netflix."
Fernando Aramburu regressa, em O Menino, a um território que lhe é particularmente caro: o da dor coletiva e íntima que nasce de um acontecimento traumático. Inspirado num facto real ocorrido em 1980, na localidade basca de Ortuella - uma explosão de gás numa escola primária que matou cinquenta crianças entre os cinco e os seis anos e três adultos -, o romance afasta-se de qualquer tentação sensacionalista para se concentrar no impacto humano da tragédia.
A narrativa organiza-se em torno de Nuco, uma das crianças vitimadas, e da sua família: os pais, Mariaje e José Miguel, e o avô Nicasio. A morte do menino funciona gera uma sucessão de ondas de choque emocionais, revelando diferentes formas de viver o luto. Cada personagem carrega a perda à sua maneira, num retrato subtil e profundamente humano da dor, da culpa e da incomunicabilidade.
É precisamente Nicasio quem assume maior relevo. Um avô devastado pela consciência de ter sido ele a levar o neto à escola naquele dia, vive um luto marcado por uma culpa obsessiva que o isola da comunidade. A sua dor, silenciosa e persistente, não encontra compreensão em Ortuella, onde a tragédia é rapidamente absorvida por uma necessidade coletiva de seguir em frente. Aramburu expõe assim, com grande sensibilidade, a tensão entre o sofrimento individual e a memória social, mostrando como o tempo não cura de forma igual todas as feridas.
A escrita de O Menino é contida, despojada de artifícios retóricos, o que reforça o impacto emocional do texto. Aramburu opta por uma linguagem clara e direta, que não dramatiza em excesso nem procura comover pelo exagero. É precisamente essa sobriedade que torna a leitura tão tocante: a emoção surge de forma natural, quase inevitável, sem nunca resvalar para o sentimentalismo.
Outro dos aspetos mais marcantes do romance é a sua construção formal, invulgar e eficaz. A narrativa articula-se a três vozes, a do narrador, a da mãe e a do próprio livro, criando um jogo metanarrativo que se revela um dos grandes trunfos da obra. Nos momentos em que o testemunho da mãe é interrompido, o livro “ganha vida” e dirige-se diretamente ao leitor, comentando, esclarecendo ou acrescentando informação. Esta alternância entre narradores não só quebra a linearidade do relato, como reforça a consciência de estarmos perante uma construção literária que reflete sobre si própria e sobre os limites da representação da dor.

Powers, Richard (2008). O Eco da Memória. Lisboa: Casa das Letras.

Tradução: Eugénia Antunes
N.º de páginas: 532
Início da leitura: 01/01/2026
Fim da leitura: 05/01/2026

**SINOPSE**
"National Book Award
Finalista do Prémio Pulitzer

Numa noite de Inverno, numa estrada remota do Nebrasca, Mark Schlutter, sofre um acidente quase fatal. A sua irmã Karin regressa à sua cidade natal para tomar conta de Mark. Porém, ao despertar de um prolongado coma, Mark acredita que esta mulher — que se assemelha, age e fala como a sua irmã — é, na verdade, uma impostora. Magoada pela recusa do irmão em reconhecê-la, Karin contacta o neurologista Gerald Weber, famoso pelas suas investigações sobre o mundo infinitamente bizarro dos distúrbios cerebrais. Weber acredita que Mark sofre de uma perturbação rara conhecida como síndrome de Capgras — a ilusão de que as pessoas que nos rodeiam são impostores.

O que o médico descobre em Mark mina lentamente as suas próprias noções sobre o «eu». Entretanto, Mark, armado apenas de um bilhete deixado por uma testemunha anónima, tenta descobrir o que aconteceu na noite do seu inexplicável acidente. A verdade sobre essa noite mudará profunda e inalteravelmente a vida dos três.

O Eco da Memória é um cativante mistério que explora o poder e os limites da inteligência humana."

O Eco da Memória é uma obra exigente, de construção densa e ambição temática evidente, que se dirige sobretudo a leitores interessados em ficção científica de pendor reflexivo e em questões profundas relacionadas com a mente humana, a identidade e a memória. Richard Powers articula a narrativa num território híbrido, onde a ciência neurológica se cruza com o drama familiar e com uma reflexão ética sobre o uso, e eventual abuso, das histórias humanas enquanto matéria literária.
A premissa do romance é, sem dúvida, um dos seus pontos mais fortes. O caso do jovem do Nebraska que, após um acidente grave e um período de coma, recupera quase todas as suas memórias exceto a da própria irmã, remete para o síndroma de Capgras e abre espaço a uma exploração fascinante dos limites entre reconhecimento, afeto e construção da identidade. Este interesse é reforçado pela figura do neurologista, personagem central que encarna simultaneamente o saber científico e uma ambiguidade moral profunda: alguém que construiu a sua reputação e fortuna narrando as tragédias neurológicas dos outros, transformando o sofrimento alheio em objeto de consumo cultural.
É precisamente nesta dimensão, a da mente humana e da neurociência, que o romance se revela mais estimulante para quem, como leitora, se interessa menos pela ficção científica enquanto género e mais pelas questões cognitivas e psicológicas que lhe servem de base. O confronto do neurologista com a sua própria consciência, ao perceber o carácter intrusivo do seu trabalho, introduz uma camada ética relevante e levanta questões pertinentes sobre os limites da divulgação científica e da literatura baseada em casos clínicos reais.
No entanto, apesar da solidez conceptual e da riqueza temática, a execução narrativa revela-se desigual. O ritmo lento, por vezes excessivamente monótono, e a tendência para a repetição de ideias e situações acabam por diluir o impacto da história. A introspeção constante, embora coerente com o tom reflexivo da obra, compromete a progressão narrativa e pode afastar leitores que, apesar de interessados na temática, procuram maior dinamismo e economia narrativa.
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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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  • Jardim de Inverno, Renaud Dillies e Grazia La Padula
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