Histórias Soltas Presas Dentro de Mim
(imagem do Google)

Filha,
quero que saibas
e me perdoes,
me autorizes a partir…
Sabes,
sinto-me tão cansada
deste viver que já não é vida.
Mas tu…
Sei que estás triste
E aguentarei a dor
para que sofras menos.
Aguentarei…por quanto tempo?
Mais uns meses, mais uns dias,
umas horas…quem sabe?
Não aguento ver a dor estampada no teu rosto,
a tua angústia, o teu desgosto.
Filha,
Aperta-me a mão com força,
a minha escasseia
mas está aqui
nos meus olhos abertos
que te vêem mesmo que o duvides.,
mesmo que me sintas já ausente.
Por favor,
Faz-me um carinho no rosto,
Quero sentir a tua pele,
o teu calor no frio que me assola.
Filha,
Dá-me um beijo
para levar comigo
esse elo de amor que nos une.
Sei que te vou fazer falta…
Sei bem demais!
Mas as dores vão aumentando.
Se soubesses como dói!
A dor física e a dor de te deixar
mais tarde ou mais cedo.
Eu não quero,
mas o meu corpo chora,
todo ele chora
e geme em agonia.
Como eu queria lutar contra tudo,
levantar-me e abraçar-te.
Ir para casa,
cuidar dos netos,
ser a tua Mãe!
Mas as dores voltam, filha,
e são mais fortes do que eu.
Sinto que perdi esta batalha com a morte,
essa toda poderosa
que está aqui, neste quarto de hospital
à minha espera
à nossa espera.
Queria tanto chamar por ti,
dizer mais uma vez o teu nome
o quanto te amo,
mas as palavras já não saem
e a minha boca abre-se num gesto vazio…
Sinto que perco esta guerra que travámos durante três anos,
com uma força inexplicável,
uma fé inabalável
uma esperança infindável.
Mas tudo termina,
as forças foram-se com a dor.
E eu estou cada vez mais longe de mim mesma.
Filha,
dá-me a tua mão,
quero repousar em paz.
Quero acabar com este suplício.
Eu vou, mas fico na tua memória,
sei que fico,
nas lembranças,
nos lugares,
nas alegrias e tristezas que vivemos…
Nas encruzilhadas da vida,
lá estarei para te sugerir o melhor caminho a seguir.
Apoiar-te-ei na tua dor,
Mesmo já não estando presente.
Preciso partir!
                                        Célia Gil


Certo dia, um passarinho,
tendo caído do ninho,
escondeu-se por detrás dum arbusto
julgando-se forte e robusto.
Decidiu então
viajar pelo mundo,
e, de mansinho,
foi de arbusto em arbusto,
entregue a um sonho profundo.
Encontrou um coelhote
já um pouco entradote
que lhe quis dar abrigo.
Coitado do passarito!
O coelho estava faminto.
Já na toca do coelho,
sentiu-se enclausurado
e resolveu fugir
olhando o coelho para outro lado.
Correu dias a fio,
já se sentia cansado…
Parou junto ao rio
Caiu e ficou molhado.
Por ali passava um cão
esperto, espertalhão,
convidou-o a acompanhá-lo.
Bela quinta o esperava,
não viu o passarinho
que queriam enganá-lo.
Chegados então à quinta,
viu muitos animais
Patos, porcos, vacas,
e outros tantos que tais,
mas não viu sequer pardais.
Logo estranhou o passarinho
quando o rodearam.
Cheirando-o todinho
a ele se atiraram.
Mas de entre a algazarra,
esgueirou-se o pobrezinho,
e enquanto bulhavam,
seguiu ele o seu caminho.
Depois de muito pensar,
decidiu regressar.
Era mesmo o mais prudente,
ficava mais quentinho
dentro do seu ninho.
A mãe o alimentava
e com mimo o tratava.
Só um dia,
sendo uma grande ave,
dali sairia,
pelo mundo viajaria.
De cabeça deitada
sonhava, sonhava…
enquanto a mãe o acarinhava.
                                  Célia Gil


Era uma mulher estranha. Na terra diziam que era bruxa, fazia todo o tipo de feitiços que lhe encomendavam. No entanto, no seu ar enrugado, desenhava-se um mistério infindável. Dos rasgados olhos negros emanava uma aura que a arrepiava, fazendo-a mudar o rumo dos seus passos, mal a via, cortando por qualquer outra ruela. Os cabelos, ralos já, finos, ressequidos e cansados, pareciam untados com um escuro azeite rançoso. Nas mãos, veias profundas, sinuosas como o rio Douro, pareciam rebentar a qualquer momento. E a voz? Essa era assustadoramente profunda, grave e cava.

Para uma criança da idade de Maria da Luz, de apenas dez anos, a Ti Elvira era misteriosamente medonha. E aquela imagem dormia com ela, ensombrando as suas noites, perseguindo os seus dias. Tinha consciência de que ela exercia sobre si um grande fascínio e poder. A qualquer momento seria capaz de transformar a sua vida. A ela cabiam as decisões sobre o futuro de Maria da Luz. Da Ti Elvira teriam vindo todas as maleitas que a caracterizavam até então: as suas sardas, o seu corpo franzino, os seus olhos esbugalhados, o seu cabelo de arame, os seus lábios sempre rebentados. De cada vez que a olhava, lhe aparecia algo que a irritava, que detestava nela mesma.

Durante anos Maria da Luz foi perseguida por este ser estranho, que lhe determinou o destino, que a martirizou toda a juventude, traçando-lhe o futuro sinuoso com que se depararia. Todas as controvérsias da vida provinham dela, só dela.

A família acreditava Maria da Luz pouco saudável, não só fisicamente como psicologicamente. E quando tentava queixar-se dos seus receios, ninguém se dignava a ouvi-la. Sempre franzina e doente, constituía um estorvo para todos. Além disso, nascera sem ser desejada, tendo o seu irmão mais velho completado vinte cinco anos. Os seus pais ralhavam muito um com o outro, acusando-se mutuamente pelo surgimento da “fedelha”. A mãe acusava o pai, por ela não ser saudável, lembrando-o constantemente das sovas que lhe dera durante a gravidez. Ele dizia-lhe que já então era velha e recordava-lhe que devia ter interrompido a gravidez. “A Antónia podia tê-lo feito”, ele até falara com ela!” Mas a mãe de Maria da Luz logo se interpunha, arreganhando os dentes ferozes para lhe atirar à cara que ele tinha um caso com a Antónia. De todos, apenas a sua prima Teodora se dignava a falar-lhe, a perguntar-lhe como ia, sem, no entanto, lhe dar muita confiança, não fosse Luz abusar.

Foi precisamente a Teodora que, para ver se ela deixava de falar de bruxas, lhe levou um romance. Começou a lê-lo e a evitar, a todo o custo, a bruxa, nunca passando na sua rua, fugindo dos locais que frequentava e que ela conhecia tão bem, inclusive as horas a que os frequentava. Mas foi por pouco tempo. Aos poucos, o romance adquiriu novos contornos e a personagem principal passou a ser ela. Tudo quanto lia lhe fazia crer que, estando ela a evitá-la, lhe surgia de outra forma, por meio do romance que lia. Não aguentou muito mais tempo. Ao mesmo tempo que a receava, ansiava vê-la.

Certo dia, passando Luz à sua porta, ela chamou-a com a sua voz cava. Ao olhar para a janela, da qual lhe chegava a voz arrastada dela, pediu-lhe que lhe fizesse um favor, que estava doente e só ela poderia ajudá-la. Entregou-lhe uma lista de compras, no mínimo estranha, de onde constavam velas, incensos, azeite... Atirou-lhe um saco com uns trocos. Esse dia, marcado no calendário da sua vida há tanto tempo, surgiu como inevitável, como o dia previsto para a mudança que se efectuaria na vida de Luz. Quando chegou com as compras, o seu coração batia ansiosamente, desenfreadamente, com a previsibilidade da aproximação à bruxa. E ao receio se misturava uma curiosidade profunda. Da janela ainda, pediu-lhe que entrasse, a porta estava aberta. O coração começou a bater mais forte, e foi com toda a coragem possível que abriu o trinco da porta. Invadiu-a o cheiro a incenso. Por entre a escuridão das escadas, apenas se viam algumas velas quase derretidas. Era um ambiente, no mínimo, constrangedor, quanto mais não fosse, porque contrastava com a claridade do dia, de um sol profundo, e da casa de Luz, sempre iluminada. Subiu as escadas com pernas trémulas, não sabia se devia continuar ou fugir, deixando as compras ao fundo das escadas. No fundo, tinha vontade de prosseguir e continuou a subir as escadas, com os olhos ainda mais esbugalhados do que já eram.

Lá em cima, uma sala simples, em tons profundamente vermelhos, parecia repleta de chamas. Seria o inferno? Teria ela morrido e chegado ao julgamento final? Foi então que a viu, a um canto, numa cadeira de baloiço, a olhá-la, estranhamente. Pousou os sacos e, já se ia embora, quando ela proferiu “ deixa-te estar miúda! Podes ajudar-me, tenho muito que te ensinar”. Parou imediatamente, estupefacta. No olhar triste de Elvira brilhava uma nova luz, pareceu-lhe até que lhe nascera uma nova esperança.

Voltou, durante dias, meses, anos. Voltou e, aos poucos, deixou-se envolver por aquele ambiente fascinante, pelas rezas feitas com incenso a arder em azeite. Quando recebia clientes, Luz ficava atrás da cortina da sala. Não queria represálias por parte dos seus pais. Se eles soubessem, proibi-la-iam de frequentar aquele antro, segundo designação do seu pai, que condenava aquelas profanações, que nada tinham que ver com a religião católica, que professava. Ouvia as súplicas, os choros, os pedidos de ajuda e ficava estupefacta perante a ida de pessoas que supunha católicas, que diariamente criticavam a bruxa e que, agora, soluçavam para ela, como se fora ela o seu ente divino. Quando saiam, ajudava-a a fazer as rezas. Já as conhecia de cor e parecia ter nascido e vivido sempre naquele ambiente.

Um dia, a Ti Elvira, disse-lhe que sempre esperara por ela, que a sabia sua seguidora, antes mesmo de ter nascido. Teria aguardado ansiosamente pelo momento mais oportuno, pelo momento que lhe fora comunicado.

A certa altura, a mãe de Luz estranhou as suas longas ausências, já que nunca fora de sair de casa. Começou a matutar e concluiu, sem a questionar, que deveria andar enrolada com alguém, para os lados do rio. Foi procurá-la e, não a encontrando, disse ao pai. Este abordou-a. Nada lhe disse, limitou-se a olhar para ele com um olhar inexpressivo, que o levou a bater-lhe até a deixar de cama.

Durante uma semana Luz não pôde levantar-se, mas via que as coisas lá em casa não iam bem, a mãe queixava-se de que a horta não vingava, os animais definhavam e a comida iria escassear nesse ano. Não entendiam, porque o mal não era geral, o restante povo gabava o ano das colheitas como fértil. À cabeça de Luz acorreu a ideia de que a bruxa teria previsto o motivo da sua ausência e se vingava. Logo que pôde, pôs-se de pé e, sem que dessem pela sua ausência, foi a casa dela, que logo sorriu ao vê-la e lhe confessou que não quisera provocar mal à sua família, mas que os espíritos, apercebendo-se do seu sofrimento, ter-se-iam vingado.

O que é certo é que tudo continuava extremamente difícil e dias piores se avizinhavam.

Quando começaram a passar necessidades, parece que todos os males vieram atrás. O Zé, seu irmão mais velho, perdeu o emprego que tinha nas minas. O irmão do meio, o Tonho, sofreu um acidente de motorizada, ficando impossibilitado de trabalhar na fazenda. E Luz pouco ou nada sabia fazer. Não tinha capacidades intelectuais, segundo a sua mãe e “era uma tonta sem eira nem beira” nas palavras do pai. Assim, com os seus pais entregues a uma fazenda estéril, a fome começou a reinar em casa deles, trazendo com ela a discórdia, duplicando as sovas que o pai dava à mãe, dando vazão ao provérbio “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. E Luz foi praticamente encarcerada no seu quarto, saindo apenas para pequenas tarefas domésticas e para comer umas migas de pão seco com água.

Foi nesse isolamento que começou a conceber um plano diabólico. Sentiu-se confrontada com o ser maléfico que todos nós possuímos, mas que nem sempre se revela. E, naquela altura, era como se esse ser se impusesse, crescesse e adquirisse proporções que ela própria desconhecia. Até àquele momento, o seu pecado era a Ti Elvira, no entanto essa obsessão acordou o monstro em si adormecido, com um crescente ódio por ela. Se até então o que Luz sentia pela bruxa era uma admiração que ela própria não compreendia, percebeu exactamente o sentimento que por ela nutria- um ódio tão profundo que seria capaz de a levar a tomar atitudes horríveis e inconcebíveis.

Noite e dia costurou, nas paredes do seu quarto, o seu plano mirabolante. E aos poucos ela era a aranha que prendia, nas suas teias a pobre mosca Elvira. Agora, era ela que a dominava e não ao contrário, como sempre fora. Finalmente venceria os seus medos e revelaria o ser imundo que existia em si. Numa noite, em breve, sairia às escondidas de casa e acabaria com a vida dela, de uma forma como só um ser com muito ódio o faria...
                                                                      Célia Gil


Não sei que rumo a vida vai tomar ou que destino lhe daremos nós, humanos. De dia para dia, se corrompem valores, se alteram costumes e se passa por cima da moral. Quando assim falo, note-se, não me refiro a valores, costumes e moral rígidos, pois nem sou freira, muito menos beata ou defensora dos ideais salazaristas. Apenas olho com algum desagrado o percurso que a vida segue. Senão reparem: há poucos dias, numa loja de pronto-a-vestir infantil, em que não falta roupa juvenil e de adulto, deparei com uma pretensa cliente que, peça aqui peça acolá, acabou por abarrotar o balcão de roupa que me questionei se alguma vez usufruiria. Logo me senti algo incomodada ao verificar que eu própria tinha seleccionado umas meias de lã, azuis, número oito. Comparadas às compras da senhora, que rapidamente alcunhei de Fifi, o que eu tencionava comprar era uma insignificância. Pior me senti quando a cliente da moda me dirigiu aquele olhar de cima a baixo, como quem pensa para com os seus botões” Olha p’ra esta, vir à boutique por uns reles collants! Coitada da pobrezinha!”.

Evitando o olhar usurpador e violador da Fifi da moda, dirigi-me a uma prateleira de camisolas de gola alta, procurando, sem precisar, uma camisola preta que não ia comprar. Desviada a atenção da Fifi da moda, concluí que a cliente de altíssimo prestígio teria, provavelmente, tanto dinheiro que não sabia como gastá-lo. Teria também uma fraca criatividade, levando peças repetidas, de cores diferentes. Dei por mim a sorrir ao pensar na proposta que lhe poderia fazer “ Excelentíssima Senhora, gostaria de informá-la de que, para o caso de não saber o que fazer a tanta roupa, há um recipiente, junto a um hipermercado, que recolhe roupas para África.” Mas, às tantas estou redondamente enganada e a Madame vai abrir alguma boutique nova no Fundão!

O que é certo é que eu estava realmente intrigada e repreendi-me por estar a pensar num assunto que não me dizia minimamente respeito. Que importância tinha o facto de a Fifi da moda levar metade da mercadoria da loja? Até estava a contribuir para o pequeno comércio. Era um acto de benevolência para com a dona da loja!

Chegada a estas conclusões, logo me voltei a surpreender. Desta feita com a dona da loja que, em vez de apresentar um ar radiante de quem já facturou umas massas, dirigia um olhar enjoado para o balcão repleto de roupa. “Não percebo. Devo estar a ter alucinações!” pensei e repreendi-me “ deixa lá o que se está a passar aqui e paga mas é as meias!”

Resoluta, dirigi-me novamente ao balcão, claro que um pouco encavacada com as simples meias que levava. “ Há dias em que mais vale ficar em casa!”

Foi então que o mais surpreendente aconteceu: a minha prezada Fifi, a minha fabulosa e misteriosa cliente da moda solicitava à dona da loja “Olhe querida, ponha-me a roupa em sacos e meta na conta!”. Meu Deus, vejam só a razão, mais que justa, do enjoo da nossa querida dona da loja. Tinha afinal razões de sobra para se sentir preocupada.

Agora, resta-me um conselho às “Fifis do mete na conta”: gastem dentro das vossas possibilidades. Não ensinem aos vossos filhos estes padrões de vida, que não correspondem à realidade. Sejam menos consumistas e mais ponderadas. Por que valores se regem? Que costume é este? Qual a moral da história? Afinal lucrou mais a dona da loja, naquele dia, com as meias que comprei do que com tudo quanto a Fifi levou e não pagou. Fifis da moda, não fiquem a dever em todo o lado – na farmácia, no café, na cabeleireira, no restaurante, e em muitas outras lojas onde acumulam dívidas sem o mínimo pudor, sem vergonha de tamanha falta de conduta!
                                                                                              Célia Gil

O meu cão
 O Dragão é um shi-tsu. É meigo, fofo, dorminhoco, não gosta de perder tempo a ladrar, prefere observar atentamente, está sempre "em cima o acontecimento". Finge desmaiar quando lhe digo que tem de ir dormir ou tomar banho e só vai para a cama ou banheira arrastado ou ao colo. É insaciável e cusca em relação aos nossos gostos alimentares. Tem predilecção por sítios altinhos, procurando a capa do PC, um saco, um tapete, um banco ou até uma prancha de piscina para ficar mais altinho (devem ser complexos por ter as patinhas curtas! Ah, ah!). É musculado, gosta de dar nas vistas e exibe-se depois de tomar banho e estar devidamente seco e escovado, indo mostrar-se a todos para ver se o elogiam. Pede para ir à rua, vindo pegar num dedo ou não saindo de ao pé da porta da rua. Se não estamos em casa e está aflito para "ir ao wc", deixa de comer e beber para poder aguentar mais tempo. Faz uma festa quando chegamos. É sociável com as pessoas, espevitado com as cadelas e pouco sociável com os cães. Rosna particularmente aos cães grandes, inchando de raiva, o que faz parecer que é perfeitamente capaz de dar cabo dele "em três tempos". Não pode ver ninguém a chorar e ladra se ouve alguém discutir. Tem medo do aspirador, ladrando-lhe e olhando para ele com ar muito desconfiado. Passa grande parte do tempo deitado, gostando de repousar a cabeça na ripa de baixo das cadeiras. Levanta-se imediatamente mal ouve as palavras comida e rua. Não refila, não chateia e está sempre a olhar-nos com grandes olhos tristes.
                                                                             Célia Gil
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Somos seres carentes e apaixonados,
sedentos de um eu diferente
que fosse mais que um simples eu cansado,

                           um herói, numa multidão de gente!

Ao longo da vida construímos esse eu,
Erguemos castelos, erigimos leis,
laboramos um ser inexistente,

                           um rei, numa multidão de gente!

Navegamos na crista das ondas
Enfrentamos os adamastores que nos defrontam
Caravelas condenadas ao naufrágio da vida

                          um mito, numa multidão de gente!
                                                                     Célia Gil
(imagem do Google)

      A explicação para certos acontecimentos ou fenómenos dada pela sabedoria popular é, sem dúvida, fascinante. Sempre gostei de ouvir as minhas avós contarem histórias fantásticas da sua aldeia. Sons que se ouviam em sótãos antigos, gavetas que se abriam sem explicação aparente, eram vistos como chamadas de entes mortos, um pedido de ajuda destes, que necessitavam de uma oração. Só perante orações os sons se dissipavam. E o que para mim parece tão aterrador quanto curioso, para estas pessoas fazia parte do seu dia-a-dia, da casa, dos sons da casa. Ao invés de medo, sentiam que era perfeitamente natural, fazendo parte das suas vidas. O que para mim pareceria som de ratos eram mensagens dos mortos, das almas penadas, em busca de auxílio.
      E o olhar? Desde tempos remotos que o olhar era dotado de um poder mágico, instrumento de pensamentos interiores. Segundo crenças populares, falar de mau-olhado significava que o observador lançava um olhar maléfico ao observado. Este podia ser alguém ou algo. Explicavam-no como pertencente a alguém com um dom, alguém que, com o olhar, seria capaz de se vingar, matar, seduzir. Motivos? Amores não retribuídos, bens materiais cobiçados (especialmente terras de cultivo muito produtivas e animais de criação, que crescessem depressa e viçosos). Este olhar, segundo dizem, tinha o poder de fazer mirrar os legumes plantados, secar cultivos, adoecer animais. Talvez uma forma que encontravam para explicar fenómenos incompreensíveis, doenças e mortes súbitas inexplicáveis.
      Também a Lua, segundo o que me dizem as minhas avós, merecia um certo respeito por parte do homem, simbolizando conhecimento, fecundidade, fertilidade, auxiliando o homem nas colheitas, já que as fases lunares influenciavam nos acontecimentos terrenos. Acreditava-se que a lua cheia podia provocar loucura. A lua nova simbolizaria fecundidade, cura de doenças, casamento, amor. No quarto minguante, tudo o que fosse podado não cresceria, representando um momento aziago para a realização de casamentos ou nascimento de uma criança. Seria, no entanto, um excelente momento para mudar de casa e para semear o feijoeiro trepador e as ervilhas. A maioria das pessoas acreditava que as plantas e sementes se deviam deitar na terra no quarto crescente, havendo mais probabilidades de êxito. Na lua velha semeavam-se as cebolas e as flores. Estas são apenas algumas das crenças de que se lembram as minhas avós. A estas se juntarão, com certeza, muitas outras igualmente interessantes.
      A par das fases da lua surgiam provérbios, relativos aos meses do ano, que explicavam também fases de sementeira ou serviam de boletim meteorológico. Em Janeiro espiga o nabeiro / Janeiro tem uma hora por inteiro/ Se queres ser bom milhareiro, faz o alqueve em Janeiro/ Os bons dias em Janeiro vêm-se a pagar em Fevereiro/ Janeiro quente traz o diabo no ventre; Em Fevereiro ribeiro cheio/ Fevereiro enganou a mãe ao soalheiro/ Quando não chove em Fevereiro, nem bom centeio nem bom lameiro; Em Março, tanto durmo como faço/ Março marçagão, de manhã Inverno, à noite Verão/ Quem não poda até Março, vindima no regaço/ Nasce a erva em Março ainda que lhe dêem com um maço/ Vento de Março, chuva de Abril, fazem Maio florir/ Março ventoso, Abril chuvoso e Maio amoroso, fazem o ano formoso; Em Abril águas mil / Em Abril ainda a velha queima o carro e o carril e uma canga que ficou em Maio a queimou/ Uma água de Maio e três de Abril valem por mil; Em Junho, foice em punho/ Junho calmoso, ano formoso/ Junho floreiro, paraíso verdadeiro/ Lavra por S. João, se queres haver pão; em Julho ceifo o trigo e o debulho, e em vento soprando o vou limpando/ Água de Julho, no rio não faz barulho/ Por muito que queira o Julho ser, pouco há-de chover; Em Agosto cada dia com seu rosto/ Chuva de Agosto apressa o mosto/ Em Agosto secam os montes, em Setembro as fontes; Em Setembro, planta, colhe e cava, que é mês para tudo/ Setembro molhado, figo estragado/ Lua nova setembrina, sete luas domina; Em Outubro sê prudente: guarda o grão, guarda a semente/ Logo que Outubro venha, procura logo lenha/ Outubro quente traz o diabo no ventre/ Outubro meio chuvoso, torna o lavrador venturoso; Tudo em Novembro guardado: ou em casa, ou enterrado/ Novembro à porta, geada na horta; Em Dezembro descansar, para em Janeiro trabalhar/ Ande o frio por onde andar, no Natal cá vem parar.
      Crenças ou superstições, por elas se rege o povo e se cria a cultura popular, que não deve ser, de modo algum, desconsiderada, pois faz parte de uma sabedoria de há séculos. Maravilho-me perante esta sabedoria que ultrapassa toda a livresca que eu possa ter adquirido com os estudos ou ao longo da vida. Os nossos antepassados são um poço de riqueza, são a origem da nossa cultura, a urze da nossa civilização, por isso ouso fazer um pedido: não menosprezem as crenças, não riam das superstições, antes tentem entender o que esteve na sua origem e aproveitem a riqueza que os vossos antepassados ainda vos podem transmitir. De histórias que se contam, igualmente interessantes e surpreendentes, falarei numa próxima oportunidade.
                                                                                             Célia Gil


   «O tempo voa», ouvia eu dizer aos mais velhos e eu, nos meus dez anos, considerava que os «velhos» eram muito pessimistas, porque o tempo parecia não passar. Há, de facto, uma época da nossa vida em que parece termos tempo para tudo e ainda sobra tempo e esse tempo que se interpõe entre a infância e adolescência e a idade adulta parece uma eternidade. Nunca mais chega o tempo de nos tornarmos independentes, de vivermos a nossa vida, sem que ninguém dê ordens ou sequer opine.
    Depois, esse tempo passa...
    E, quando chegamos à idade adulta, damos por nós a pedir ao tempo que nos dê mais tempo, porque este nunca chega para nada. É sempre pouco para milhares de afazeres que temos. É sempre insuficiente para toda as tarefas que temos de realizar. Então e o tempo para descansar, relaxar, usufruir, viajar...O  tempo para nós próprios? Esse fica sempre para segundo plano e só existe se houver, e facto, tempo. O tempo para nós termina quando começa o tempo de trabalhar, de cuidar da casa, de educar e dar atenção aos filhos. Só então compreendemos o que nos diziam os mais velhos na infância. Realmente, "o tempo voa", "passa a correr". E quantas vezes desejámos interiormente que as horas esticassem e não chegasse a hora de ir dormir sem metade do que tínhamos estipulado para esse dia por fazer?
   Daí o tempo ser tão precioso. Nunca temos tempo para pensar sequer na sua importância e dar-lhe o seu verdadeiro valor.
   Passemos a viver todos os segundos da nossa vida como se fossem os últimos!
                                                                                                                                Célia Gil


As palavras são reveladoras,
sinais do tempo,
marcas do passado,
sonhos futuros,
premonições,
angústias,
tormentos,
pesadelos...
Doces emoções,
memórias eternizadas no papel!
As palavras ditas cara a cara,
as que não se dizem, apenas se pensam,
as que se escrevem...
Todas elas pontuam momentos,
acentuam emoções,
poetizam realidades,
destroem sensibilidades,
magoam mais do que qualquer dor física
ou, tão simplesmente, acalentam,
amamentam para sempre as nossas fragilidades,
porque o poder das palavras é magnânimo,
mães Universais da glória e da derrota,
do amor e da solidão,
da vida e da morte.
E quão magnânimo é quem as entende!
                                                Célia Gil


Desde pequena que a minha avó paterna foi uma figura marcante na minha vida, porque foi sempre uma força da natureza. A imagem que retive da infância é a de uma mulher muito exigente com ela e com os outros. Atrevo-me a dizer que essa exigência a tornou numa pessoa implacável, dura e, muitas vezes, cruel na forma como falava com os demais. Mas foi também uma das minhas contadoras de histórias e uma das pessoas que me foi alertando, na adolescência, para todo o processo de transformações que o meu corpo sofreria. Foi ainda quem me levou à missa, orgulhosa com a presença da neta.
Mas não era a imagem da típica avozinha que acarinha os netos. Tinha vaidade e gostava de incutir essa vaidade. Tínhamos de ter o cabelo sempre impecável, os dentes esfregados com limão para branquearem, as costas direitas, estar bem vestidas e com óptima apresentação, correndo o risco, segundo ela, de afastarmos os maridos. Quantas vezes precisei de um carinho e recebi uma crítica? Talvez a minha auto-exigência comigo própria advenha destas exigências que ela me fazia.
Esta força da natureza era oriunda de famílias humildes, trabalhou desde criança, carregando um cesto de peixe que ia vender, a pé, às Minas da Panasqueira. Passava fome, chegando a arrancar ervas de muros para comer. Mas nunca desistia. A sua força de vontade era inata.
Esta força da natureza casou muito cedo, como seria de esperar, uma pessoa que vivia numa aldeia, onde uma rapariga casadoira era um estorvo em casa dos pais. Teve três filhos homens, o que sempre a deixou frustrada, porque queria meninas. Mas foi sempre uma mãe extremosa, apesar de muito dura, exigente e cruel. Num dos seus muitos relatos sobre a sua vida, fiquei a saber tudo aquilo por que passou com o filho mais velho, desde o momento em que uma menina que lhe pegou ao colo o deixou cair numa braseira, deixando-lhe o rosto queimado, a vinda a pé de Silvares para o Fundão, com ele numa cesta à cabeça, a procura insistente do médico, o sangue frio para ela própria fazer com que a cinza viesse ao de cima, arrancando-lhe a pele danificada, perante os gritos de aflição do filho. Outro momento em que veio também ao Fundão com ele com uma pneumonia em último grau, em que o médico a desenganou e lhe disse que só o salvaria se lhe conseguisse, com paciência, abrir uma chaga por baixo do peito, para que deitasse toda a infecção fora, mas que o mais provável era não resistir. A minha avó fechada em casa, não respondendo a quem lhe batia à porta para socorrer a criança que gritava de dores, mas não desistiu enquanto não lhe abriu a dita chaga e o curou, mesmo ante os protestos dos restantes familiares. E quantas outras viagens a pé, de Silvares ao Fundão, com os filhos numa cesta, à cabeça, cheios de febre, não descansando enquanto não fossem vistos por um médico.
Esta avó que emigrou para Angola, que teve de se adaptar a uma vida nova, que sempre trabalhou, já numa última fase em África numa cantina da messe. Que perdeu o meu avô, num acidente de viação, com cerca de quarenta anos. Que, quando viemos embora de Angola, ficou lá para tratar do meu pai e dos primos que fizeram lá a tropa e, consequentemente, a guerra. Era ela que tratava deles, lhes dava de dormir, comer e lhes lavava a roupa.
Como foi sempre ela a lutar por todos, habituou-se de tal forma a mandar, que sempre teve essa necessidade de saber de tudo, mandar em todos, qual matriarca responsável pela família. Isso fez com que os meus pais e tios nunca tivessem realmente vida própria, sem que ela tivesse de dar o seu parecer, sem que ela desse o seu aval em relação a tudo e todos. Controladora, inabalável, inesgotável…
É muito difícil caracterizar a minha avó. A mulher que, mesmo depois de tudo por quanto passou, quando regressou a Portugal se voltou a casar, que eu via em cima de escadotes a fazer as suas limpezas a fundo na casa, que estava sempre impecavelmente limpa e arrumada. Que foi trabalhar como auxiliar da acção educativa, primeiro na Covilhã, depois no Fundão e, finalmente, em Silvares. Que trabalhou enquanto pôde. Que a par da Escola, tinha um pequeno terreno onde cultivava um pouco de tudo. Que fazia belas refeições salgadas e sobremesas que a todos deliciavam. Cujos fins-de-semana serviam para fazer rissóis, filhoses, biscoitos e outras tantas coisas. Nunca a vi parada. Com os ossos danificados pelos grandes frios passados na infância, nunca vergava, apesar de se queixar com frequência. Com setenta anos, frequentava o grupo de ginástica da Casa do Povo de Silvares. Sempre se preocupou com a pele, a tratou com cremes, se perfumou, se vestiu bem e gostou de usar as suas jóias. Quando surgia uma coisa nova, gostava de ser das primeiras a tê-las, fosse a televisão, o microondas, o telemóvel… Ainda que com muito poucos estudos, sempre escreveu e leu. Gostava de ler romances, jornais e revistas, de estar informada e de informar.
Muitas vezes me questionei de onde lhe vinha esta força, mas nunca obtive resposta. O que é certo é que sempre a admirei, respeitei e até temi. Não se fazia igualmente rogada em dar um “sermão” quando não se fazia o que queria e como queria.
Passou ainda pela morte de um filho, o meu pai, com doença prolongada, tendo este apenas quarenta e nove anos. Sempre se reergueu, mesmo quando todos estávamos em baixo, sempre nos obrigou a levantar, ainda que, muitas vezes, sem um pouco de dó nem de piedade.
Hoje, com oitenta e oito anos, os ossos fazem-na usar um selo de morfina muito forte, mas ainda vai à missa a pé, corre para o telefone, vê televisão. E apesar de já se encontrar em casa dos meus tios/padrinhos, ainda faz questão de se meter em todas as conversas, opinar e querer controlar a sua vida. Não quer perder a sua função de matriarca, apesar de, às vezes, se revelar egoísta, egocêntrica e continuar implacável nos seus comentários.
Esta é a minha avó paterna e, apesar de todos os defeitos que possa ter, é, sem dúvida, um exemplo de coragem, de força e resistência às adversidades da vida. E é por isso que a admiro e sempre a admirarei!
                             Célia Gil


Hoje em dia deparamo-nos cada vez mais com crianças mal-educadas, cujas vontades feitas e refeitas estragam com mimos. Perante estas “fofurinhas”, os papás, avós e tios, curvam-se desde a nascença, como se de um Deus se tratasse. E até certo ponto é, de facto, um Deus, um pedacinho de céu, a estrela que nos ajuda a sorrir. Sem dúvida, o que temos de mais querido. Mas, nem por isso se deve acreditar que em vez de sermos nós a tomar conta deles, sejam eles a tomarem conta de nós, a dominar-nos, fazendo “gato e sapato” dos que os rodeiam.
Muito me surpreendi, quando, certo dia, em pleno Hospital no centro do país, numa sala de espera das urgências, uma simples “fofurinha” conseguiu fazer com que os doentes perdessem as poucas resistências que tinham, chegando provavelmente mesmo a pensar que teriam chegado ao inferno. A dita “fofurinha” começou por mudar a disposição da sala de espera, arrastando as cadeiras vazias, perante o ar incrédulo de todos os utentes, sem que a mãezinha ou a avozinha se manifestassem. Após tamanho esforço, pensei eu que seria lógico que a criança caísse num sono profundo ao colo da mãe.
Para surpresa minha, começou a chamar “estúpida” à avó, entre outros nomes que não considero próprios, muito menos por parte de uma criança de quatro anos. Mentalizei-me que, desta vez, haveria certamente uma reacção por parte da família da “fofurinha”. Mais espantada fiquei quando desataram a rir com as gracinhas da criança, afinal devia ter cometido um feito memorável e eu não me apercebi.
Já apreensiva e até repugnada observo o passo seguinte com desconfiança. Desta feita, a “fofurinha” recolheu três guarda- chuvas do bengaleiro para, “salve-se quem puder”, picar as pernas mais inchadas das senhoras com aspecto de quem sofre dos ossos, especialmente das pernas. “É agora”, pensei, “desta vez não ficas sem umas merecidas palmadas!”. Para espanto total, a avozinha limitou-se a olhar enternecida, e a mãezinha solicitou à “fofurinha” que se portasse bem, atitude que, como é lógico, não resultou.
Incomodadas, as senhoras das pernas inchadas levantaram-se, com grande esforço, para evitarem as picadelas e a vontade reprimida pela educação de dar um bom puxão de orelhas à criança mal-educada que tanto as estava a massacrar.
No limiar da sala de espera, também eu já não conseguia suportar tamanho despropósito, mesmo provindo de uma criança, observo o rebento que se dirigiu a uma senhora e lhe pediu pomada para um “dói-dói”. Esta, também já vermelha de raiva, e para calar a criatura, na ausência de pomada, pôs-lhe um penso rápido que, passados segundos a “fofurinha” tirou, alegando já ter passado. Como lhe deu atenção, a criança achou-se no direito de pedir, à paciente senhora, um lenço de papel, com que esfregou o chão e o nariz.
Consegui ficar tão irritada que, ao ser atendida, o médico me perguntou se queria um copo de água e me aconselhou a, para além da gripe que ele podia curar, consultar um neurologista ou um psiquiatra.
Já fora do pesadelo e antes de ligar o carro, reflecti e cheguei a uma conclusão: como professora, de que forma poderei ambicionar valores de respeito na escola, se os alunos são vítimas de familiazinhas que fizeram um esforço imenso para os deseducar? Respeito? Como poderá este termo fazer parte do seu vocabulário, se nunca souberam o que significa?
Como mãe, deparo-me também com problemas, como todas as mães, pois nem sempre é fácil, nos nossos dias, educar uma criança, quando nos colégios e escolas, um ou outro colega os elucida que se deve reivindicar tudo, agredir, discutir, elevar o tom de voz, não aceitar o que dizem os adultos...
Mas, em casa, deve haver um esforço contínuo de polimento comportamental, uma autoridade paternal, que em nada priva as crianças de receberem o carinho que por elas sentimos. Tudo, é claro, com peso e medida, de forma a não contribuir para uma sociedade de futuras “fofurinhas” mal-educadas. Remédio? Os pais devem começar a ponderar melhor as atitudes e valores que incutem aos filhos, servir de exemplo positivo. Mas com a desordem que vai em algumas mentes, o melhor talvez seja começar por formar e informar os pais, com acções que promovam reflexões sobre o futuro da nossa sociedade e das relações familiares, em que cada vez se perde mais a noção da importância do respeito pelo outro.
                                    Célia Gil




Há sorrisos que nos fazem sorrir,
palavras que nos acalentam,
olhares que nos fortalecem...
Sorrisos plenos...palavras emotivas...olhares envolventes...
Há carícias que nos fazem sentir vivos,
momentos que nos envolvem,
pormenores que nos marcam...
Carícias quentes...doces momentos...pormenores eternos...
Há pessoas que nos preenchem,
amigos que nos aquecem a alma,
livros que nos fazem transbordar de emoções.
Pessoas reais...amigos verdadeiros...livros da nossa vida...
E é tudo isso que nos segura na mão quando desanimamos,
que nos ergue o rosto quando nos desiludimos,
que nos pega ao colo quando sentimos o frio da realidade,
que nos ensina o percurso quando nos perdemos,
que nos impulsiona quando desistimos...
É tudo isso que nos faz viver.
                                                     Célia Gil


Sinto a brisa marítima
tocar-me as faces, ao de leve,
como uma suave carícia,
uma carícia envolvente.
Escuto-lhe o seu segredo,
o mais íntimo,
aquele segredo só seu.
Sou a pessoa mais feliz à face da terra
sou a eleita nesta partilha íntima.
E o segredo repete-se nos meus ouvidos,
como eco que me embala
nas minhas ilusões.
Deito-me na areia ainda quente do sol,
e dormito nos meus sonhos,
aspirando a brisa
para a prender em mim
e levá-la comigo onde quer que vá.
Sorrio neste estado de semi-consciência,
Sinto-me a transbordar de tranquilidade,
Alheio-me de todos os ruídos humanos,
Quero esta tranquilidade só para mim.
Envolvo-me num abraço forte
e, nesse momento, sou só eu,
o mar, a brisa, o aroma da brisa,
… O segredo.
                                     Célia Gil

(imagem do Google)

Onda que vens tão de mansinho,
trazes o cheiro doce do sal,
ignorante do teu próprio destino,
desfazes-te em gesto sensual.
Abraça-me com esse teu carinho,
protege-me da crueldade do mundo,
enlaça-me assim...devagarinho
e adormece-me num sono profundo.
Depois, deixa-me dormir no teu leito,
esquecer aquele ser imundo
que um dia sonhou ser perfeito.
Abraça-me assim...para sempre,
cristaliza-me no teu sal,
para que permaneça eternamente
como o teu herói imortal.
Se te cansares de me embalar,
serve-me aos peixes em bela refeição
para que ao menos estes possam festejar
aquele que ansiou a perfeição.
                                         Célia Gil


     O táxi vagabundeia rasgando serras, pinhais e mato. As curvas da estrada transpõem-me para um carrossel que não pára. Horas e horas intermináveis, que me dão a ideia de estar a percorrer vários países, todos iguais, todos monótonos. A paisagem não me desperta qualquer sentimento, porque eu não pertencia ali e sentia-me contrariada, a fugir cada vez mais de mim, do meu ser, da minha essência. O pensamento vogava triste em tudo o que deixara, a minha casa, os meus amigos, os cheiros das ruas, das frutas e das pessoas, o meu fiel e amigo Janota – um cão rafeiro que fazia parte da família – e, sobretudo, o meu pai, que não sabia se voltaria a ver, perdido nos tiros de uma guerra sem qualquer sentido na minha mente de cinco anos.
     O avião era, nessa altura, visto por todos como um passaporte para a salvação. A fuga, a vida, a escolha certa. Porém, para mim, era a fuga de mim, a fuga de tudo o que gostava, de tudo o que era. Do avião, resta-me a paisagem que observei aquando da partida, o descolar do meu território. Não sabia o que me esperava, para onde ia, quem encontraria… Mas a minha vida, tão simples até então, estava prestes a mudar.
     De volta ao táxi, recordo as vozes de tias mais velhas, mas nem sei ao certo o que diziam. Apesar de tudo, elas estavam felizes, algo que eu não conseguia compreender. Era o regresso à pátria, segundo diziam, com orgulho. A minha mãe era tomada por sentimentos opostos. Por um lado, o regresso às origens, a fuga à guerra e a protecção da cria. Por outro, invadia-lhe os olhos uma grande tristeza por ter deixado o meu pai, a sua cara-metade, numa guerra ingrata e tudo o que tinha construído até então, com esforço confiante.
A chegada a casa foi, por mim, encarada como o fim do suplício de uma viagem infindável. Mas foi efémera essa sensação de alívio.
     Depois de enfiar a chave na porta, quando esta se abriu com dificuldade, veio-me um cheiro a velho, a madeira apodrecida pelo tempo. Subimos as escadas com cuidado, até uma divisão onde foi preciso andar pé ante pé, dado que as tábuas rangiam, queixando-se dos anos ao abandono a que foram submetidas. Podíamos, na pior das hipóteses, desabar na sala, por sua vez na loja… Não queria olhar, fechava os olhos com toda a força das minhas mãos, observando, no entanto, por entre as frestas dos meus dedos magros. As paredes velhas, as teias de aranha, as tábuas cheias de humidade, o cheiro a velho, os ratos, eram agora a minha realidade, à qual só queria fugir. Não estava, de todo, habitável. E uma questão invadiu a minha mente, atormentando-me, fazendo-me encolher na minha insignificância. Rapidamente me sentei no vão de uma escada, e, abraçando as pernas, pressionando-as com força de encontro a mim, transportei-me em pensamentos à casa que não chegou a ser. Nos olhos lágrimas por transbordar, pois não queria desanimar ainda mais a minha mãe. Por dentro, a alma afogava-se nas lágrimas que não brotavam.
     Deixara uma casa nova, a cheirar a madeiras novas, com um lindo jardim no exterior. Não chegou, no entanto, a ser habitada. Nunca viria a ser a minha casa, já que tínhamos sido obrigados a partir antes de a chegarmos a habitar. E, agora, a nossa casa, o lar de que as tias falavam, era uma velha casa inabitável. Se já me sentia despojada da minha terra, do meu pai, do Janota, dos meus amigos, pior me senti ao perceber que não tinha onde ficar, a não ser aquela velha casa enegrecida pelo tempo, corroída pela humidade, em que tudo cheirava a mofo.
                                                                                                       Célia Gil



     Tacteio com dedos trémulos, com esta cegueira interior e remexo num emaranhado de chaves que abrem as minhas recordações.
     Às vezes, sento-me ao lado delas, e, como amigas sérias de longa data, vemos passar a vida mesmo à nossa frente. Nada fazemos, ambas prostradas no caminho que não seguimos, nas experiências que não vivemos, nas emoções que não sentimos. Mas partilhamos, como amigas sérias, sem demonstrarmos o que sentimos, porque não o necessitamos, ambas sabemos que o sentimos sem que haja necessidade de palavras, de troca de olhares, porque a nossa cumplicidade reside nas imagens que partilhamos, sem que haja necessidade de comentar, sem que nos consigamos apoiar, convictas de que fazemos parte uma da outra, como amigas sérias que somos.
     Outras vezes, sento-me à tua frente, igualmente prostrada, mas só, na mesma passividade. Vejo-te desfiar lembranças como contas de um rosário, e observo, comprazendo-me ou desfazendo-me em dolorosas lembranças. De mãos trémulas, olhos desfocados por uma névoa de saudade que dói. Vejo-vos, lembranças do que fui, fluir para longe, tão longe que só vos alcanço com o poder da mente. Vejo-vos fugirem-me por entre os olhos, desvanecerem-se e quase se apagarem. E fujo, fujo sem olhar para trás.
Em certas ocasiões, em que me sinto quase independente delas, limito-me a ignorá-las, deixando-as no meio da calçada de lugar nenhum. Sigo, ultrapasso-as, perante o seu espanto, e prossigo. Mas, aos poucos, desconheço-me, perco o que fui, vagueio no que sou e sinto que deixei parte de mim nessa calçada em que vos abandonei para sempre.
Recordações,
     Não me deixem vaguear perdida e sozinha. Peguem-me na mão e caminhem comigo, estrada afora. Ajudem-me a reconhecer sempre as chaves de cada uma de vós. Sois o único elo que me prende ao que já não sou, ao que não voltarei a ser e ao que não voltarei a ter, mas preciso de vós para continuar a viver e a ver, com lucidez, o caminho a seguir rumo ao futuro…
                                                                                                                    Célia Gil

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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