Sento-me ao lado da solidão..
Tenho o peito a querer sair pela boca.
"Não te quero desiludir,
minha solidão,
Sigamos juntas, em silêncio,
para não dizermos o que não queremos,
para não nos magoarmos...
Um dia, já velhinhas,
talvez me deite no teu regaço
e te aceite,
de coração tranquilo,
sem te questionar.
Talvez eu até aprenda a amar-te.
Agora, minha solidão
ainda és um murro no estômago,
ainda te sinto estrangeira de mim.
Ainda me dói a tua presença
embora lamente tantas vezes
a tua ausência".
Célia Gil
Gilbert,
Elizabeth (2006). Comer, Orar, Amar.
Lisboa: Bertrand Editora.
Ao
fazer 30 anos, Liz Gilbert, apesar de ter tudo o que uma mulher americana
moderna deveria querer: um marido, uma casa de campo e uma carreira de sucesso,
não se sentia feliz, passando horas a chorar.
Este
livro é sobre a vida da própria autora, que acabou por pedir o divórcio para se
reencontrar. Apreciadora de boa comida, descrente e infeliz no campo amoroso, Elizabeth
resolve fazer o que quer: deixar tudo, vender à sua Editora um livro que iria
escrever, para empreender uma viagem de um ano a Itália, onde procurou o prazer
de comer; depois à Índia, onde indagou a sua fé e finalizaria na Indonésia, em
Bali, onde esperava encontrar o seu equilíbrio, o seu eu, através do amor.
O
livro é, então, dividido em três partes, uma dedicada a cada país que Liz determinou
visitar.
Começou
por Itália, onde se dedicou à aprendizagem da língua italiana, que já antes
começara a aprender e que constituía uma paixão e ao prazer de comer, prazer
hoje tantas vezes negado (para não engordar). Em Itália redescobre o prazer de
estar viva e sai da depressão em que se encontrava.
Na
segunda parte, passada na Índia, Liz passa por um momento mais introspetivo,
num país que, apesar de
precário, possui uma fé inabalável, procurando, na fé, respostas às suas
questões pessoais.
Na
Indonésia, terceira e última parte, procura o seu próprio equilíbrio. Aí
encontra Felipe, um homem brasileiro, pelo qual se apaixona. Encontrará Liz em
Felipe o seu equilíbrio?
Não
deixe de empreender esta viagem que, de algum modo, nos leva a questionar se
não seremos nós responsáveis pelas escolhas e decisões que vamos fazendo ao
longo da vida, pela nossa própria vida e felicidade? Porquê esperar que a dor
passe sem mexer uma palha? Não conseguiremos nós resolver os nossos conflitos
interiores e ultrapassar as mágoas?
Esta
é a minha sugestão de leitura.
Célia
Gil
Maria
sabe que o pai tivera razão. Como todos os pais. Como quase todos os pais.
Como tão sabiamente o seu sabia ter.
Olhando
para trás, vê levitar, fora do tempo e do espaço, um tempo que se esfuma na
memória e, pela névoa do seu olhar, consegue ainda vislumbrar, muito para lá de
qualquer tempo, os seus próprios olhos cor de terra molhada, muito abertos, muito
despertos, curiosos de vida. Olhos de criança, no tempo em que os sonhos ainda
são pássaros a pousar no ombro e onde não mora a solidão e a ausência.
Não
sabe bem quando uma névoa toldara o brilho dos seus olhos grandes. Provavelmente,
o mundo era demasiado grande e seria tão fácil perder-se nele…
Tem
muito presente a voz do pai a sonhar-lhe futuros risonhos, a afagar-lhe o rosto
com uma mão de amor, a aspereza e rigor do que dizia a traçar-lhe hipóteses de
percursos de vida, a intransigência e a exigência a erguer-lhe a face ante as
maiores dificuldades, para que as pudesse ver bem de frente e deixar de as
temer.
Fora
uma criança teimosa e arredia. E fora essa marca da sua personalidade que, na adolescência,
a levara a decidir que não queria mais continuar a estudar. Os pais não tinham
estudado e tinham conseguido singrar na vida, exercer a sua profissão, sem
nunca terem passado por grandes dificuldades.
Apesar
de a sua decisão ter sido uma mão fria e certeira numa bofetada no coração dos
pais, a reação não foi a que esperava. Não houvera gritos, ameaças, nada…E
isso, de certa forma, tinha-a deixado apreensiva. Afinal o que esperariam eles
dela? Estariam já à espera do seu fracasso? Seria mesmo incapaz de prosseguir e
a sua decisão não constituía mais um capricho?
Porém,
quando menos esperava, quando já nem esperava, o pai, que tão sabiamente sabia
ter razão, teve uma conversa com ela.
-
Maria, estás a tomar uma decisão que condicionará todo o teu futuro. Por isso,
terás de pensar muito bem e não decidir nada de ânimo leve. Entre nós, desde o
momento em que fomos pais, houve um pacto. Um pacto de amor, o de zelarmos por
ti, pelo teu futuro, pela tua felicidade. E, para fazer face a esse futuro, é
preciso adquirir conhecimento. Se aceitarmos a tua decisão sem nada ponderar,
estamos a aceitar e a compactuar com a tua desilusão futura, com o ser frágil e
inábil em que te tornarás. Por outro lado, se nos opusermos de forma radical,
como provavelmente estarias à espera, acabarás por fazer o mesmo: nada. Nada
por ti. Acabarás por reprovar, na tua decisão contrariada. Se continuarmos o
braço de ferro, voltarás a reprovar até provares que a decisão de abandonar os
estudos é a mais sensata.
Não queremos que desistas de ti, não queremos que quebres o pacto que fizemos desde
que nasceste: lutar pelo que é sempre o melhor para ti. Não seremos nós a quebrá-lo.
Gostaríamos que também não o fizesses. Preocupamo-nos contigo. Estaremos aqui
para te ajudar a levantar quando algum obstáculo te derrubar. Mas, queremos,
sobretudo, que aprendas a levantar-te sozinha. Só tu poderás escolher entre
ficar na escuridão do charco em que caíres ou te reergueres para renasceres
para a vida. E há tanta gente que vive toda a vida nesse charco…Não foi esse o
nosso pacto.
Entendia,
agora, muito bem o que o pai lhe tentara dizer. Afinal, eles só queriam que nos
seus olhos cor de terra molhada continuasse a morar o brilho da curiosidade e a
sede do saber. As palavras do pai foram decisivas nas suas escolhas, no seu
percurso de vida. Reconhecia que o pai, que tão sabiamente o sabia ser,
ter-lhe-ia facultado a chave da vida.
Pensativa,
Maria olhava o horizonte, um horizonte com percalços. Quem os não tem? Mas era, com efeito, um
horizonte com história, com futuro, com o presente que sonhara para si. Soubera cumprir o pacto de amor.
Célia Gil
Gonzaga, Manuela (2009). Maria Adelaide Coelho da Cunha: Doida Não e
Não!. Lisboa: Bertrand Editora.
De um grande
rigor histórico, documentado de forma precisa, este romance aborda a
história de Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador
do Diário de Notícias. Casada com o
administrador deste jornal, Alfredo da Cunha, ela e o marido ocupavam um lugar
de prestígio na sociedade da época, organizando grandes festas, onde Maria
Adelaide, uma mulher de uma elegância exemplar, representava e declamava textos
do marido. Nestas festas recebiam nomes notáveis da cultura do seu tempo, de
entre os quais Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Teófilo Braga
e Antero de Quental.
Viajavam juntos, com
alguma frequência, para o estrangeiro e, mesmo, por Portugal, onde conheceu um
pouco de todo o país, como Tomar, Coimbra, Penacova, Abrantes, Lousã, Pedras Salgadas,
Oliveira de Azeméis, Entre-os-Rios, Viseu e Fundão.
Apesar desta vida
de azáfama e boémia, Maria Adelaide não era feliz e ressentia-se com as
atitudes pouco delicadas do marido, homem seco e arrogante.
Maria Adelaide
acaba por se apaixonar pelo seu motorista, Manuel Cardoso Claro, que a admirava
pela sua bondade, sempre cuidadosa e vigilante com o bem-estar dos seus
serviçais, acabando, em 1919, por prescindir de toda a sua riqueza, palácio
lisboeta, fortuna e vida social para fugir com ele para Santa Comba Dão, passando
a ter uma vida modesta e simples, muito diferente da que tivera até então.
Porém, o seu
romance idílico não durou muito, pois Alfredo da Cunha cedo descobriu onde ela
se encontrava e a mandou ir buscar, com o filho e um agente da polícia de
investigação.
Onze dias depois
da fuga, Maria Adelaide era internada pelo marido no Hospital Conde de Ferreira, no Porto. Era mais fácil dá-la como louca para justificar as suas
atitudes perante a sociedade, do que aceitar as suas decisões, que constituíam um
escândalo para a época.
Maria Adelaide
consegue, ainda, numa determinada ocasião, fugir do manicómio e recolher-se numa
aldeia do concelho de Castro Daire, com Manuel Claro, onde foi muito bem tratada pela família deste. Mas também aí o marido a descobriu.
Foi, então, no
regresso ao Conde de Ferreira, que se viu encarcerada num quarto minúsculo, sem
poder fazer rigorosamente nada e onde desejou, muitas vezes, a morte, que seria
menos cruel do que a vida que arrastava naquele quarto, onde ficaria presa
durante muito tempo. Quanto a Manuel Claro, foi preso por rapto.
Alfredo da Cunha,
o marido, facultou toda a documentação necessária para constar de um livro sem autoria, Infelizmente Louca, que contou com
atestados dos médicos Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid, bem como com vários
depoimentos (alguns deles falsos) que instigariam no público uma onda de
solidariedade para com o marido abandonado.
Mas Maria Adelaide
é uma mulher forte, que de doida tem muito pouco. São as suas convicções que
não a deixam desistir.
Terá ela
conseguido libertar-se do cárcere a que foi sujeita pelo seu “crime de amor”?
Até que ponto, na época, os manicómios não serviam para “calar” todos os que
ousassem seguir padrões de comportamento considerados reprováveis nas famílias
influentes da época?
Uma história com
história, fascinante e envolvente, que documenta a desigualdade de género, a
coragem de uma mulher que segue as suas paixões e convicções, um exemplo de
coragem, que não aceita o destino que lhe foi traçado pelo marido e que ergue
a sua voz para dizer Não, "Doida Não e Não!”.
Célia Gil
Manuela Gonzaga tem uma marca muito forte no campo das biografias – de
que esta é uma referência exemplar. A autora, presença igualmente reconhecida
na literatura juvenil, no romance, nos contos e até no ensaio, é natural do
Porto. Tem diversas obras publicadas que vão desde o romance histórico (Jardins
Secretos de Lisboa) à primeira e única biografia de António Variações,
referenciada em Estudos Portugueses em várias universidades. A sua obra está
traduzida e editada em francês pela Poisson
Volant. Historiadora com o grau de mestre em História pela Universidade
Nova de Lisboa, Manuela Gonzaga tem quatro filhos e três netos. Paralelamente,
tem erguido a sua voz pela causa animal e pela causa ambiental, dedicando-se
igualmente a atividades no campo dos direitos humanos.
Dia gelado. À volta apenas se vislumbram serras cobertas de uma neve branco algodão. Talvez, o dia perfeito. Perfeito para quê? Perfeito para quem?
O dia perfeito para amar, para sonhar, para viver!
Perfeito para quem vive nas nuvens, quem ainda tem sonhos de tonalidade azul, quem continua apaixonado pela vida, quem concebe objetivos ao virar da página de cada novo dia. Um dia perfeito para quem ainda se espanta com o branco algodão da neve, apesar de ser o mesmo de todos os anos.
Perfeito porque deslumbra todos os corações que ainda sentem, que continuam a palpitar com os pequenos acontecimentos do dia a dia, que têm ilusões a latejar de vida nas pulsações, que gritam, que riem, que estão vivos!
Mas até nos dias perfeitos, há alguém que chora baixinho, que se encosta às paredes do ontem, recusando aceitar que a vida é uma dádiva e que a cada um compete vivê-la o melhor possível.
E nestes dias perfeitos, há quem sofra, numa solidão que abraça, domina e esvazia, numa solidão que não se acalma com o branco algodão da neve. Cujo coração tirita de frio, de saudade e de dor.
Nestes dias perfeitos, há não vidas que continuam uma não luta à espera de um não fim. Luta de quem desespera pela espera, da qual já nada espera.
Contudo, não deixa de ser um dia perfeito. Mais um dia perfeito!
Célia Gil
Célia Gil
(https://unsplash.com/search/photos/snow)
Na minha alma nem sempre
o sol irrompe em raios de sedução,
quando a esperança se desfaz na mente
e ficam as cinzas da desilusão.
Na minha alma nem sempre
a primavera me coroa de flores.
Murcha em mim a pequena semente
do amor e restam resignados rancores.
Na minha alma nem sempre
sopra a brisa da madrugada.
Desfolham-se as flores de quem sente,
com os ventos que sopram em rajada.
E chove, chove tanto no meu rosto...
Uma chuva miudinha que entranha
e vai deixando frio o meu desgosto,
até de mim me sentir estranha.
Célia Gil
George, Nina (2013). O Livreiro de Paris. Lisboa: Editorial Presença.
Desde a primeira página que nos sentimos
cativados por esta personagem principal, o Jean Perdu. Como seria bom encontrar
na realidade esta personagem, este livreiro que tinha um barco livraria
ancorado no rio Sena, em Paris. Como era bom frequentar esta farmácia
literária, onde alguém sensível e atento como Perdu nos pudesse diagnosticar os
problemas e propusesse um livro para a sua resolução!
Assim é Perdu, que tem uma série de
pacientes-clientes, muito peculiares, com doenças muito específicas, mas que
ele consegue, através do tom de voz, do olhar, de tudo o que emanam de si,
conhecer como ninguém. Só assim vai ao encontro da prescrição do livro adequado
aos vários sintomas, em “doses fáceis de digerir (entre 5 e 50 páginas). Se
possível, com os pés quentes e/ou um gato ao colo”.
A título de exemplo, receita Dom Quixote de La Mancha, de Miguel Cervantes para tomar “em caso
de conflitos entre a realidade e o ideal”. Se o problema consistir no vício do Facebook e dependência do The Matrix, o antídoto eficaz contra
esta tecnocracia da Internet, poderá ser o The
Machine Stops, de Eduard Foster. “Contra a tristeza e pela coragem de
continuar”, nada melhor do que Os Degraus,
de Hermann Hesse. Até José Saramago pode ser prescrito, porque o seu Ensaio sobre a Cegueira é eficaz “contra
o excesso de trabalho e para descobrir o que é verdadeiramente importante.
Contra a cegueira para o sentido da própria vida”.
Mas este romance não se limita a esta farmácia,
vai muito para além disso, precisamente porque Perdu tem a cura para todos os
males, menos para o seu, um desgosto de amor de há vinte anos atrás, uma pessoa
que se foi embora, Manon, com quem tivera um romance intenso, deixando-o frio,
fechado para o amor, numa tristeza sem par.
É quando aparece uma nova mulher na sua vida,
passado este tempo todo, que vem despertá-lo para a realidade em que ele se
deixara adormecer sem viver. Catherine encontra uma carta deixada por Manon há
vinte anos e consegue convencer Perdu a lê-la. Esta carta, onde Manon confessa
que se vai embora, vai casar com alguém capaz de lhe proporcionar a
estabilidade emocional que ela precisa num momento em que está doente e
condenada à morte, vai mudar a vida de Perdu, que parte com o seu barco
livraria em busca de respostas, à procura de si mesmo, com a sensação de ter
agido incorretamente, não ter ido atrás de Manon, não ter lido a carta, não ter
conseguido vê-la pela última vez.
Nesta viagem, onde o acompanha um jovem escritor
a quem a inspiração tinha atraiçoado, terá Perdu encontrado a sua razão de
viver? Poderia Catherine ser um paliativo para a dor que sentia? Ou seria até mais
do que isso e ele nunca se dera a oportunidade de voltar a viver?
Nada como ler este livro para rir, chorar,
descontrair, se emocionar, se surpreender, encontrar novas personagens que
ficarão para sempre na nossa memória literária.
Célia Gil
Zimler,
Richard (2008).Confundir a Cidade com o
Mar. Alfragide: Oceanos.
Este é um livro de 16 contos, que nos fazem viajar no tempo e no espaço, nos levam da Argentina ao Brasil, da Europa aos Estados Unidos, com uma passagem especial por Portugal.
São
contos que deixam muito espaço à imaginação do leitor. Zimler fala de temas
polémicos e de difícil abordagem como o racismo, a homossexualidade, a
emigração, a homofobia, a morte, os traumas, o suicídio, sempre tendo em atenção
que os contos terminam normalmente de forma menos feliz e com uma linguagem tão direta como só ele faz, uma linguagem dura, crua, áspera e, muitas
vezes, perturbante.
Ainda
que se abordem temas tão chocantes, o autor não deixa de se focalizar nas
relações entre pessoas e nas emoções e esse é o fio condutor entre todos os
contos deste livro.
Prende-nos às personagens, faz-nos sofrer com elas,
odiá-las, admirá-las. Alguns contos são, porém, muito breves, ficando no leitor
um vazio por preencher. Queria mais, mais de cada conto. Mas este é o estilo
enigmático de Zimler, que não revela tudo, que lança a problemática para nos
deixar a pensar nela.
Estava uma noite aziaga, a ansiedade galopava no peito, abrindo grandes olhos de expetativa. Mas a noite, essa, não estava convidativa. Era uma noite sem luar, sem estrelas, sem nuvens, sem lua. Uma negra noite, vazia, oca. Um logro. Foi nessa noite que tudo mudou. O olhar encovou-se numa ímpar tristeza e a ansiedade morreu no peito, dando lugar a uma prostração doente. O brilho dos olhos secou em lágrimas brotadas de par em par. Como essa noite vazia, assim é, às vezes, a vida. E tudo passa a ter um véu que enevoa a clarividência e o negativismo é o monstro que nos faz caretas para além do véu.
Célia Gil
Célia Gil
Sebold, Alice (2002). Visto do Céu. Casa das Letras/Editorial
de Notícias
Sobre o Livro
«Susie, a
narradora, é uma adolescente, que está morta quando o romance começa. E lá do
céu resolve contar-nos como ali foi parar, vítima da brutalidade de um pacato
vizinho, que a violou, a matou, a cortou em pedaços, que depois distribuiu por
vários locais. Susie começa a observar, lá do céu, a vida na terra, e tenta
modificar o destino daqueles que ama.» ( Webboom)
Visto do Céu, de
Alice Sebold, aborda temáticas que nos fazem refletir: a vida, a morte, o
perdão, a vingança, a memória e o esquecimento. A violação e morte (por um
vizinho aparentemente inofensivo) de uma jovem de catorze anos é revoltante e
provoca, nas personagens que ficam, os seus familiares, um sentimento de dor e
frustração por não saberem o que aconteceu, como aconteceu, dado que nunca
encontram o corpo, mas fragmentos… Por outro lado, confronta-nos com a ideia do
pós-morte, levando-nos a questionar sobre o que haverá depois da morte, que
poder têm os que morrem e que influência exercem sobre os que ficam.
Susie Salmon tem
o olhar vivo e irrequieto dos seus catorze anos. Observa o desenrolar da vida:
os colegas da escola, a família, o lento passar dos meses e das estações. Está
tudo muito calmo, tudo parece muito acolhedor. Um único pormenor desmente tanta
placidez: é que, de facto, Susie já morreu. Estranhamente, o céu parece-se
muito com o recreio da escola, com os tradicionais baloiços que o caracterizam.
Aos poucos, Susie compreende que é o centro das atenções: os colegas comentam
os rumores sobre o seu desaparecimento, a família ainda acredita que ela poderá
ser encontrada, o assassino tenta esconder as pistas do seu crime...
A autora compôs personagens distintas e com diferentes características, que comprovam a complexidade do ser humano.
Susie fala sobre as dificuldades que a
sua família passa após a sua morte, nomeadamente o intenso sofrimento do pai, que
tudo faz para tentar descobrir o assassino da filha; a frieza da mãe enquanto
se envolve amorosamente com o detetive a quem entregam o caso do homicídio da
filha; o amor e as saudades que a irmã sente, sendo a única que acredita nas
suspeitas do pai, chegando ao ponto de, corajosamente, invadir a casa do Sr.
Harver (o assassino) e encontrar provas que este era afinal o culpado…
Através da narradora, a vítima, vamos
descobrindo outras vítimas… Como terão sido mortas? Serão estes crimes
descobertos? O Sr. Harvey será devidamente condenado? São questões a que este
livro nos vais dando resposta. Por isso, há que entrar e mergulhar a fundo nas
investigações que se fazem ao longo das páginas deste livro.
Sobre a autora
O primeiro livro que Alice Sebold
publicou chama-se Sorte e é um
doloroso relato na primeira pessoa: uma memória da sua própria violação, por um
colega da Universidade de Syracuse, obra que brevemente será editado em
Portugal pela Casa das Letras. O Village Voice distinguiu-a, então, com
um prémio de revelação. Posteriormente, começou a trabalhar no New York Times e no Chicago Tribune. Visto do Céu,
no original The Lovely Bones, o seu
primeiro romance, tem sido celebrado como um potencial clássico. Com mais de um
milhão e 300 mil exemplares vendidos em dois meses, nos Estados Unidos, esteve
cinco meses em primeiro lugar na lista dos títulos mais vendidos do New York Times. Já foi traduzido em
dezoito línguas e Peter Jackson, o produtor da trilogia O Senhor dos Anéis,
comprou os direitos cinematográficos. https://www.wook.pt/autor/alice-sebold/19960
Célia Gil
Tamaro,
Susana (2008). Um lugar mágico. Lisboa: Editorial Presença.
Neste romance de literatura juvenil,
somos transportados para um lugar verdadeiramente mágico, criado quando alguém
desejara viver em paz, enquanto uma estrela cadente atravessava o céu.
Neste lugar mágico, vivia um rapaz
chamado Ricky, que fora abandonado dentro de um caixote no lixo e fora recolhido
pela loba Guendy, que o criara como seu filho. Ricky crescera como um lobo,
sentia-se verdadeiramente um lobo. Passava muito tempo com a sua amiga Ursula,
uma macaca que o aconselhava.
Mas a magia dura até ao momento em que
o homem resolve invadir este paraíso terrestre. Nesse momento, não só terminou
a tranquilidade mágica, como a crueldade levou à morte de Guendy e de muitos
outros animais. Ulderico Pançudo, o futuro presidente da Câmara, capturou
Ricky.
No dia em que Ulderico deu uma festa
para celebrar a sua eleição à presidência, Ricky ouviu uma conversa entre
ele e Sua Moleza Imunda Almôndega I, onde expunham o seu plano de modernização,
onde não havia espaço para plantas e animais, onde as crianças passariam a ser
formatadas pela televisão e o planeta passaria a ser um monte de cimento coberto
de Super-Mega-Hiper-Mercados, televisões e antenas parabólicas. Ricky, perante
isto, fugiu e acabou por encontrar a gata Dodó da senhora Cipolloni, a única
senhora que tinha um jardim e uma gata e que, por isso, era mal vista por todos
os habitantes, que concordavam que era um inimigo a eliminar.
Recebido com carinho pela senhora
Cipolloni, esta ajudou-o a esconder-se de Ulderico. Quando viram passar dezenas
e dezenas de crianças, de olhar vazio, com olhos quadrados, onde se refletiam
os ecrãs das televisões, aceitaram a sugestão de Dodó, de infiltrar Ricky no
cortejo de crianças, para descobrir os planos maquiavélicos de Ulderico. Foi
assim que a senhora Cipolloni arquitetou um plano para devolver a paz e a
harmonia à cidade. Terá ela conseguido? Será que Ricky foi descoberto no meio
dos meninos? Terá ficado a saber o que aconteceu à sua amiga Ursula? E qual era
verdadeiramente o plano de Ulderico?
Uma leitura ligeira, mas muito
envolvente, onde estas personagens poderiam muito bem ser transpostas para a
atualidade, na qual a tecnologia e modernização dominam o ser humano, que vai
perdendo os seus pequenos lugares mágicos. Porque, quando se perde a magia, os
olhos ficam vazios, sem sonhos, como os destas crianças.
Susanna
Tamaro nasceu em Trieste, Itália, no ano de 1957. Formou-se em Realização no
Centro Experimental de Cinematografia de Roma. Durante dez anos trabalhou para
a televisão como realizadora de documentários científicos. Atualmente, é uma
das escritoras italianas mais conhecidas e aclamadas em todo o mundo, e o
conjunto da sua obra, que inclui títulos bem conhecidos do público português -
Vai Aonde Te Leva o Coração, Com a Cabeça nas Nuvens, Para Uma Voz Só, Escuta a
Minha Voz ou Regresso a Casa - vendeu vários milhões de exemplares à escala
mundial. (http://www.bulhosa.pt/livro/um-lugar-magico-ou-como-salvar-a-natureza-susanna-tamaro/)
Quando eu deixar de me importar
e tudo me for indiferente,
serei apenas mais um livro a fechar
uma história que se encerra para sempre.
Por agora quero tudo absorver,
todas as emoções de cada fragmento.
Não deixar nenhum capítulo por viver
e ser genuína como o vento.
Nesta grande biblioteca, que é a vida,
quero ser um livro repleto de histórias.
Numa estante grande e bem colorida,
quero fazer brilhar as minhas memórias.
Célia Gil
e tudo me for indiferente,
serei apenas mais um livro a fechar
uma história que se encerra para sempre.
Por agora quero tudo absorver,
todas as emoções de cada fragmento.
Não deixar nenhum capítulo por viver
e ser genuína como o vento.
Nesta grande biblioteca, que é a vida,
quero ser um livro repleto de histórias.
Numa estante grande e bem colorida,
quero fazer brilhar as minhas memórias.
Célia Gil
Os pensamentos que me habitam
vagueiam, incontroláveis,
são pensamentos que gritam
em ouvidos insondáveis.
São pensamentos soltos,
sem dono ou razão,
vagueiam como loucos
à procura de explicação.
Não os controlo como queria,
não os entendo, nem os domo.
Saem de mim em romaria,
em cada dia que somo.
livres, enigmáticos, impenetráveis,
soltam-se numa corrida,
numa torrente, incontroláveis,
nesta prisão que é a vida.
Mas logo volto a mim,
os encarcero no fundo da mente.
Não os posso deixar andar assim
tão livres, livremente.
Queria eu, se dona fosse da razão,
conseguir domar o pensamento,
mas este meu louco coração
só tem ouvidos de vento!
Célia Gil
vagueiam, incontroláveis,
são pensamentos que gritam
em ouvidos insondáveis.
São pensamentos soltos,
sem dono ou razão,
vagueiam como loucos
à procura de explicação.
Não os controlo como queria,
não os entendo, nem os domo.
Saem de mim em romaria,
em cada dia que somo.
livres, enigmáticos, impenetráveis,
soltam-se numa corrida,
numa torrente, incontroláveis,
nesta prisão que é a vida.
Mas logo volto a mim,
os encarcero no fundo da mente.
Não os posso deixar andar assim
tão livres, livremente.
Queria eu, se dona fosse da razão,
conseguir domar o pensamento,
mas este meu louco coração
só tem ouvidos de vento!
Célia Gil
Hoje trago uma proposta
de leitura, que me tem absorvido inteiramente neste mês. Intenso, dramático,
verídico são alguns dos adjetivos com que ouso classificar este romance
histórico.
Zimler,
Richard (1996).O Último Cabalista de
Lisboa. Lisboa: Livros Quetzal.
O
Último Cabalista de Lisboa baseia-se num acontecimento verídico
(o que faz com que a sua mensagem se torne mais forte e pesada, levando o
leitor a uma grande repulsa por determinados acontecimentos), um grande
massacre de cristãos-novos e judeus, ocorrido em Lisboa, no reinado de D.
Manuel, em 1506, na Páscoa judaica. Os frades incitavam o povo à matança,
acusando os cristãos-novos de serem responsáveis pela ira de Deus que terá
causado a fome e a peste que assolavam a cidade. O rei foi complacente com os
acontecimentos, permitindo inclusivamente grandes fogueiras no Rossio, onde
muitos judeus foram queimados.
Berequias Zarco, sobrinho e discípulo de Abraão Zarco (iluminador e membro respeitado da célebre escola cabalística de Lisboa), encontra mortos o tio e uma jovem desconhecida, na cave que servia de templo secreto desde que a sinagoga fora encerrada pelos cristãos-velhos. Um valioso manuscrito também desapareceu do seu esconderijo. Estarão os dois incidentes relacionados? Terá sido um cristão ou um judeu, como os indícios fazem crer, a assassinar o tio? Quem será a rapariga morta? É pela voz de Berequias, narrador e protagonista da obra, que somos conduzidos numa investigação impressionante, policial e histórica, durante a qual Berequias enfrenta vários perigos, pondo constantemente em risco a sua própria vida. As investigações de Berequias levam-no a descobrir que o tio, pressagiando a violência que se abateria sobre os judeus portugueses, se dedicava a fazer sair do país, através de uma rede de passadores clandestinos, importantes manuscritos para a fé hebraica. Para confirmar as suas suspeitas, precisava encontrar a última Haggada (livro hebraico) de seu tio, desaparecida. Também nos sonhos premonitórios que vai tendo, o tio lhe aparece constantemente, dizendo-lhe frases enigmáticas, que o ajudarão a encontrar coragem para não desistir da vingança a que se propusera (por ex: “Lembra-te: a nossa sombra é a tua luz. A nossa maior simplicidade é o teu maior paradoxo. Escuta, Berequias. Não deves nunca enviar as tuas iluminuras por um portador que não seja capaz de se reconhecer a si próprio ao espelho de um dia para o outro.”- pág.147 e “Caro Berequias, a vida propõe-nos muitas veredas que não levam a lado nenhum, portas que se abrem sobre meros abismos, escadas que sobem até portões fechados a cadeado. ” – pág. 226 ).
Berequias Zarco, sobrinho e discípulo de Abraão Zarco (iluminador e membro respeitado da célebre escola cabalística de Lisboa), encontra mortos o tio e uma jovem desconhecida, na cave que servia de templo secreto desde que a sinagoga fora encerrada pelos cristãos-velhos. Um valioso manuscrito também desapareceu do seu esconderijo. Estarão os dois incidentes relacionados? Terá sido um cristão ou um judeu, como os indícios fazem crer, a assassinar o tio? Quem será a rapariga morta? É pela voz de Berequias, narrador e protagonista da obra, que somos conduzidos numa investigação impressionante, policial e histórica, durante a qual Berequias enfrenta vários perigos, pondo constantemente em risco a sua própria vida. As investigações de Berequias levam-no a descobrir que o tio, pressagiando a violência que se abateria sobre os judeus portugueses, se dedicava a fazer sair do país, através de uma rede de passadores clandestinos, importantes manuscritos para a fé hebraica. Para confirmar as suas suspeitas, precisava encontrar a última Haggada (livro hebraico) de seu tio, desaparecida. Também nos sonhos premonitórios que vai tendo, o tio lhe aparece constantemente, dizendo-lhe frases enigmáticas, que o ajudarão a encontrar coragem para não desistir da vingança a que se propusera (por ex: “Lembra-te: a nossa sombra é a tua luz. A nossa maior simplicidade é o teu maior paradoxo. Escuta, Berequias. Não deves nunca enviar as tuas iluminuras por um portador que não seja capaz de se reconhecer a si próprio ao espelho de um dia para o outro.”- pág.147 e “Caro Berequias, a vida propõe-nos muitas veredas que não levam a lado nenhum, portas que se abrem sobre meros abismos, escadas que sobem até portões fechados a cadeado. ” – pág. 226 ).
Uma realidade cruel,
exposta através de uma linguagem que não suaviza essa realidade, mas que, pelo contrário, a mostra de tal forma chocante e direta, que o leitor se vê no meio
de uma barbárie que faz estremecer e, ao mesmo tempo, imaginar estes tempos tão
negros da História - o fanatismo, a frieza, o ódio, a violência, a crueldade
total que se propagava em Portugal. Muitos destes judeus tinham sido expulsos
de Castela, em 1492, pelo rei D. Fernando (cognominado O Católico). Mas não é a paz que eles encontram em Portugal. É a
insanidade total de um ódio tão cego quanto inexplicável.
É igualmente incrível a
amizade que une Berequias e Farid (um muçulmano). Uma amizade muito intensa,
que mostra ser possível a boa convivência entre judeus ou cristãos-novos
(aqueles que haviam sido forçados à conversão) e os mouros, em oposição ao
fanatismo e violência demente dos cristãos.
Berequias não descansa
enquanto não descobre o assassino de seu tio. Quem terá tido a ousadia de matar
Abraão? Provavelmente, quem menos se espera…
Teria o tio pensado que
Berequias poderia ser o salvador bíblico? E responde a esta pergunta, afirmando
“A resposta está nas vossas mãos: acho que meu tio pressentiu que só o pesadelo
da sua morte me poderia levar a escrever este livro que vós agora ledes. Que só
a sua partida violenta da Esfera Terrena poderia mostrar-me que o nosso futuro
na Europa estava acabado. Que só a mais terrível das tragédias poderia
convencer-me a pedir a todos os judeus…que partissem para onde estivéssemos a salvo da Inquisição ou de
quaisquer outros horrores que os reis cristãos pudessem algum dia vir a
conceber contra nós. ” – pág. 311.
Publicado originalmente em Portugal, O Último Cabalista de Lisboa é um extraordinário romance histórico, que catapultou o seu autor para um sucesso internacional, tendo sido publicado em toda a Europa, nos Estados Unidos e Brasil, onde depressa se tornou um bestseller.
Por detrás daquela porta,
no sofá do aconchego,
há histórias que ficaram
como o nosso segredo.
São histórias reais,
feitas de vida e suor,
com peripécias tais...
Histórias de morte e de amor.
Vidas que superaram
as humanas expetativas.
Vidas que se cruzaram
em tristezas consentidas.
Almas que a amar
se afastaram.
Almas que afastadas
se amaram.
E eu, aconchegada
numa manta embrulhada,
vou deixando projetar
nas brancas da minha mente
histórias feitas de amar,
histórias de antigamente.
Célia Gil
Estou triste, muito triste. Perdi o meu amigo, companheiro e fiel cãozinho Dragão. Um amigo que fazia parte da família há treze anos. É muito triste. Os animais têm uma vida demasiado breve para o amor que dão e a companhia que fazem.
Não escolhi o Dragão, foi ele que me escolheu. Passo a explicar: certo dia, entrei numa loja de animais para comprar comida para os peixes que tinha. Nunca tinha tido vontade de ter um cão. Era algo em que nunca tinha pensado, se bem que os meus filhotes, na altura pequeninos, me pediam para ter. Nesse dia, ao entrar na loja, onde havia mais clientes, estava um cãozinho solto pela loja. De imediato se acercou de mim e já não me largou. O Dragão escolheu-me para ser sua dona.
Fiz uma surpresa aos meus filhos, tanto que o mais novo, quando viu o cãozinho, que parecia um peluche pequenino, em casa, me disse "tão giro, um cão a pilhas! Podes desligar mãe!". Nunca pensou que eu pudesse arranjar mesmo um cão a sério. Quando se apercebeu de que era verdadeiro, nunca mais o largou. Os meus filhos foram, sem dúvida, mais felizes com o Dragão. Um cão ensina muito. Ensina a perdoar, a amar, a respeitar. Nunca o deixamos, levamo-lo sempre connosco em todas as férias, para onde quer que fossemos. Escolhi sempre casas ou hotéis que permitissem a presença de animais, nem que fosse mais caro. Fomos muito felizes com ele e penso que ele também foi muito feliz. connosco. Um animal humaniza-nos e torna-nos mais compreensivos. Faz-nos sentirmo-nos sempre amados. Sempre ansiando o nosso regresso a casa em cada final de dia de trabalho, sempre satisfeito por nos ver, sem nos fazer exigências, sem amuos, sem reclamações. Numa entrega total.
O Dragão foi um cão muito querido, sempre a proteger os meus filhos, muito individualista, muito esperto, mas também afetuoso, e querido. Raramente ladrava. Com a patinha, chamava-nos para pedir água, comida ou para ir à rua.
Ficarás, Dragão, para sempre na nossa memória.
Quem está por detrás desta folha
amarelecida pelo outono?
Nada, nada existe atrás da folha
em que escrevo
o outono da minha vida.
Talvez um imenso vazio,
talvez todas as perdas de mãos dadas,
talvez a indiferença a ser indiferente
sem me ver, sem sequer se importar.
Estará, com toda a certeza,
um outono que pesa nos ombros,
um frio que se adentra pelos olhos
e os deixa imóveis, petrificados,
à espera do inverno que leve
a breve folha leve.
Célia Gil
Sobre mim
Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.
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