Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Buchanan,  Tracy (2019). O Mistério da Minha Irmã. Lisboa: Bertrand Editora.

Nº de páginas: 336

Início da leitura: 21/10/2020

Fim da leitura: 24/10/2020

O Mistério da Minha Irmã é um drama escrito por Tracy Buchanan, traduzido por Fernanda Oliveira.

Willow é uma jovem mergulhadora que ficou órfã aos sete anos, depois de os pais perderem a vida num cruzeiro. Foi acolhida pela tia Hope, com quem mantém uma ligação complicada e um pouco distante. A tia nunca demonstrou carinho pela sobrinha, evitando falar-lhe da mãe, mas lembrando-a sempre que era apenas sua sobrinha.

Willow cresceu e tornou-se numa mulher independente, mas também insegura e solitária. Decidiu dedicar-se ao mergulho, na esperança de, um dia, encontrar os seus pais, com os quais terá tido uma infância muito feliz, onde imperava o amor e a alegria.

Porém, quando se apercebe que a história da sua família materna está envolta em mistérios, decide enfrentar os seus fantasmas e descobrir a verdade que esconde a tia Hope. Resolve, então, explorar os locais que a mãe explorou outrora e viaja até às florestas submersas, onde a sua mãe terá mergulhado.

Quando mergulha onde se deu o naufrágio dos pais, encontra uma bolsa prateada que teria oferecido à mãe e encontra dentro dela um colar com a inicial da mãe e de outra pessoa que não o pai. Questiona-se e tudo faz para ir ao encontro da verdadeira história da sua mãe e do romance dos seus pais.

É neste clima intenso e marcado por descrições maravilhosas dos locais por onde viaja, que acompanhamos os dramas desta família, ansiando ver desvendados os segredos que a envolvem.

Quando é convidada para uma exposição de fotografia que tem o nome da sua mãe, Charity, questiona-se sobre quem é este fotógrafo e como teria conhecido a sua mãe e sabia da sua existência.

É fácil criar empatia com Willow, porque sentimos que, após a morte dos pais, teve uma grande falta de amor.

Quem gosta de romance também o vai encontrar neste livro! Encontros e desencontros por entre segredos familiares! 

Gostei deste livro, apesar de considerar que a autora poderia ter explorado melhor a questão do mistério que envolveu o passado dos pais e menos o romance, que, por vezes, tende a ser cliché.

                                                                                              

Célia Gil

Dag,  Niklas Natt Och (2019). 1793. Lisboa: Suma das Letras.

Nº de páginas: 352

Início da leitura: 12/10/2020

Fim da leitura: 19/10/2020

1793 é uma estreia do escritor sueco Niklas Natt Och Dag e traduzido por Rita Figueiredo, recebeu um prémio da Academia Sueca de Escritores de Crime.

Não foi um livro que me tenha despertado interesse nas primeiras páginas. Porém, à medida que fui lendo, percebendo a relação entre as personagens, e me fui deparando com uma muito boa contextualização histórica, fiquei irremediavelmente presa ao livro.

1793 é um policial, com características de romance histórico e nuances de romance gótico, que relata uma autêntica história de terror, em Estocolmo de finais do século XVIII. Uma história macabra, dura, chocante, crua, hedionda e repugnante. Tudo começa com um corpo que é encontrado a boiar num rio, um cadáver mutilado, sem membros, sem língua, sem dentes e de órbitras vazias no lugar dos olhos.  Mikel Cardell é um ex-militar que perdeu um braço na Guerra Russo-Sueca de 1788–1790 e que vive ainda com traumas, que anda constantemente bêbado, em especial por ter perdido o seu melhor amigo numa das batalhas navais que ocorreram nesse conflito militar. A autoridade é chamada a intervir, e Cardell conhece Cecil Winge, um advogado conceituado, com uma postura moral irrepreensível, que presta serviços à polícia e que fica muito intrigado com este caso. Mas Cecil sofre de tísica e o estado avançado da doença ameaça o seu trabalho na investigação. Ainda assim, esta dupla improvável junta-se para trabalhar num caso que envolve altas esferas do poder e que vai levar o leitor a uma viagem imersiva à Estocolmo de finais do século XVIII.

Apesar de todo o clima de terror que envolve estas personagens, é fácil criar empatia por Cardell e Winge. Também, o interesse deles neste caso, arrasta-nos para todas as diligências, como se as fossemos presenciando e estivéssemos ao lado deles em cada nova descoberta. É uma história com História, pelo que acompanhamos os acontecimentos da vida cosmopolita da Suécia da época, com os costumes de um povo que conduzia a sua vida difícil por entre estalagens, praças, portos, aquecendo-se na bebida, em tabernas. Neste ambiente destacam-se mulheres desprezadas e usadas, a guarda que exercia o poder através da violência, uma sociedade feroz, bruta, insana e depravada que, aquecida pelo álcool, não só aplaudia a violência, como incentivava essa mesma violência sob as vestes da justiça.

Paralelamente a estas personagens, surgem outras não de menor relevo, das quais destaco Ana Stina, pela sua força e coragem tão invulgares para a época.

Sem dúvida que foi um livro de que gostei muito de ler, pela forma como a narrativa está construída, pela linguagem bem trabalhada, pela própria contextualização histórica exímia. Não é, no entanto, um livro que aconselhe a pessoas excessivamente sensíveis.

                                                                                                    Célia Gil

 


Dieudonné, Adeline (2019). A Verdadeira Vida. Lisboa: Gradiva Publicações.

Nº de páginas: 190

Início da leitura: 09/10/2020

Fim da leitura: 11/10/2020

A Verdadeira Vida é um livro escrito pela belga Adeline Dieudonné e traduzido por Tiago Marques. É daqueles livros que não se pode mesmo julgar pela capa, que, quanto a mim, é pouco apelativa para a história que encerra. Este livro foi, com todo o mérito, Prémio Romance FNAC 2018 e Prémio Renaudot dos Estudantes 2018.

Não é fácil falar deste livro, pois tudo nele é diferente. O que poderia ser uma história familiar comum, é tudo menos comum. É de uma crueza, de uma acidez, que nos abana, nos sacode, deitando por terra qualquer ideia pré-concebida ou teoria que pudéssemos tecer. E, no entanto, há um amor fraternal que subsiste a tudo e a todos, às próprias vicissitudes da vida.

A protagonista e narradora do livro tem apenas dez anos e um irmãozinho mais pequeno a quem protege. Vivem com os pais e com os milhares de cadáveres no quarto que designa “quarto dos cadáveres” e que são o troféu de anos e anos de caça por parte do pai.

Num dia, como tantos outros, em que passa a carrinha dos gelados, ela pede inocentemente duas bolas e chantilly, longe de esperar o que se sucederia ao seu pedido. O vendedor de gelados, ao premir o sifão, este explodiu-lhe nas mãos e penetrou-lhe pela cara, da qual ficou apenas metade. O irmãozinho Guilles também presenciou. E, a partir daquele dia, tudo piorou (se é possível) nas suas vidas. 

Segue-se uma narrativa de cortar a respiração, na qual esta criança tudo faz para livrar o irmão dos fantasmas que começam a povoar-lhe o cérebro. Esta criança tem a esperança de o conseguir, construindo uma máquina do tempo, com a qual possa voltar ao passado e evitar que tudo se passe como se passou. Desiludida com a magia em que inicialmente acreditava, vira-se para a ciência e torna-se uma brilhante aluna de Física. Tudo o que consegue, até mesmo os seus estudos e conhecimentos, deve-os a si, ao seu esforço, à sua capacidade de improvisar e trabalhar. Ela sabe que “a verdadeira vida” dependerá única e exclusivamente dela.

Tudo nesta história se precipita para um ponto alto brutal e sanguinolento, que não apenas choca, também comove e nos deixa de coração apertadinho.

Mas mais não conto. Aconselho vivamente a leitura deste pequeno grande livro!

                                                                                                          Célia Gil


Zink, Rui (2020). O Avô Tem uma Borracha na Cabeça. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 48

Início da leitura: 08/10/2020

Fim da leitura: 08/10/2020


Este livro chamou-me desde logo a atenção pelo título e ilustração da capa, que achei engraçadíssima!

O Avô Tem uma Borracha na Cabeça é um livro escrito por Rui Zink e ilustrado por Paula Delecave.

Quando comecei a lê-lo, verifiquei que é um livro que cumpre uma função educativa e não apenas um livro infantil que se pretendia divertido, como pensei inicialmente.

Fala-nos sobre a amizade muito especial entre um avô e um neto. Quando o avô começa a ficar um pouco esquecido (assim é o Alzheimer), o neto procura inventar uma solução para o seu problema. E é a ingenuidade e sensibilidade desta criança que nos cativam, o acreditar que pode ajudar o avô a não se esquecer de tudo quanto sabia (e que não era pouco e que o neto admirava muito). E um dos remédios para ajudar o avô, poderão ser…agarrar num lápis!

Vale mesmo a pena ler!

Cinco estrelas!

                                                                                      Célia Gil

Sveistrup, Soren (2019). O Homem das Castanhas. Lisboa: Suma das Letras.

Nº de páginas: 450

Início da leitura: 01/10/2020

Fim da leitura: 07/10/2020



Escolhi este livro, porque estou num desafio de leituras, onde um dos livros deveria ter tonalidades ou algo que o relacionasse com o outono. Logo, nada como as castanhas num tom castanho! Também constituiu a minha escolha pelas excelentes críticas que já tinha lido sobre ele.

O Homem das Castanhas é um livro da autoria de Soren Sveistrup, um thriller muito bem construído, que ainda tem o poder (que alguns thrillers estão a deixar de ter) de nos deixar boquiabertos e possui um visualismo através da escolha de palavras que nos faz sentir lá, escondidos a um canto, observando as cenas deveras atrozes.

Ainda assim, há, em alguns momentos, o enrolar da situação, que era escusado, pois, quando tem momentos que se leem de um só fôlego, tem outros em que se torna um pouco repetitivo.

Ainda assim, é um livro que vale a pena ser lido!

Basicamente, a história é a seguinte: numa manhã de outubro tempestuosa, em Copenhaga, no recreio de um colégio, uma jovem é encontrada brutalmente assassinada, faltando-lhe uma das mãos. Pendurado por cima dela, um pequeno boneco feito com castanhas.

Para desvendar este caso, é designada a ambiciosa detetive Naia Thulin. Ela e Mark Hess, um investigador que acabou de ser expulso da Europol, descobrem evidências que ligam este crime a um outro que envolveu o desaparecimento de uma menina, um ano antes, e foi dada como morta: a filha da ministra Rosa Hartung.

Entretanto, está preso um homem que confessa ter sido o autor do crime dessa menina. Os investigadores cedo descobrem que não pode ter sido ele, pois, as situações que continuam a suceder-se envolvendo “o homem das castanhas”, só podem estar relacionados. Aquele homem que está preso é apenas um jovem que sofre de distúrbios mentais e que terá assumido a culpa porque admirava o verdadeiro criminoso.

Acontece que, à medida que as investigações decorrem, eles sentem que estão sempre um passo atrás do criminoso e que este os observa e goza com eles.

Conseguirão eles descobrir o verdadeiro criminoso? Fica o convite para lerem este livro e descobrirem toda a trama que o livro reserva!

                                                                                                                 Célia Gil


 Letria, José Jorge (2020). Um Mundo Aflito. Lisboa: Guerra & Paz, Editores, S.A.



Nº de páginas: 144

Início da leitura: 24/09/2020

Fim da leitura: 26/09/2020

Um Mundo Aflito é um retrato objetivo, frio e amargo, escrito por José Jorge Letria, em tempos de Covid-19, conciliando o texto de Letria com fotografias de Inácio Ludgero, no qual se dialoga com o confinamento, se questiona como terá surgido o vírus e onde é notória a comoção perante as consequências que trouxe: ruas, jardins, transportes públicos e outros espaços vazios, a refletir um mundo de ausência e de abandono, como nunca tínhamos  vivenciado. O medo, a instabilidade e as consequências que advirão desta pandemia, a salientar a área cultural e artística.

Penso que é um livro que ficará, o registo de um momento de ficará na memória de todos quantos o vivenciaram.

Na minha ótica, poderia apenas ter sido mais desenvolvido.

**** estrelas


                                                                                           Célia Gil

 Owens, Delia (2019). Lá, Onde o Vento Chora. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 392

Início da leitura: 21/ex/2020

Fim da leitura: 23/09/2020

Lá, Onde o Vento Chora é um livro escrito por Delia Owens e traduzido por Leonor Bizarro Marques. Confesso que este é daqueles livros que supera as expetativas. Não fossem as gralhas que maculam e beliscam aqui e ali a sua beleza, seria um livro perfeito. Mas, pondo de parte essa questão de considerar que as editoras deveriam fazer um trabalho mais minucioso de revisão, posso afiançar que é daqueles livros que nos enchem a alma.

Confesso que sou uma pessoa sensível e que chorei ao ler algumas passagens. As descrições são belíssimas, poéticas e tão bem construídas que nos fazem sentir lá, a vivenciar a história, com todas as sensações a entrar por nós adentro. É uma história que comove, que nos faz sentir a solidão a dar-nos o braço, o vento a contar-nos histórias de abandono, de superação, de sobrevivência, de rejeição, de amizade, de amor, de mesquinhez humana, de esperança, de aprendizagem, numa celebração e comunhão com a Natureza, com as suas espécies, com as suas melodias, onde “ainda há criaturas selvagens”, “Lá, Onde o Vento Chora”.

É daqueles livros que, penso, não esquecerei.

A história começa com uma família, que vive numa velha cabana, num pantanal da Carolina do Norte. Certo dia, Kya, a mais nova de cinco irmãos, vê a mãe partir. Depois partem os irmãos e, por fim, o próprio pai, ficando sozinha no pantanal e tornando-se, assim, conhecida como “a miúda do pantanal”. E é ao pantanal que vai buscar forças para superar todas as dificuldades com que se depara, no qual poisa a mão “sobre a terra viva e morna”, e que considera que “passou a ser a sua mãe”.

Ela faz realmente parte do pantanal, como um só coração a pulsar, aprendendo a interpretar os seus sons, a observar atentamente tudo o que a rodeia, a tornar-se desconfiada, um autêntico “bichinho do mato”, longe do contacto com os cruéis humanos.

Acaba por aceitar a amizade de um ex amigo de um dos seus irmãos, Tate, que também ama a Natureza e com quem aprende a ler, com quem pode partilhar este amor pelo pantanal.

Porém, Tate vai para a universidade e o mundo de Kya não vai para além do pantanal. Tate compreende isso e acaba por partir sem se despedir. Entretanto, alguém que sempre a espiou, o charmoso Chase, aproxima-se de Kya. Serão as suas intenções as mais sinceras? Kya sente que o seu coração se fechou à medida que foi sendo abandonada por todos os que amava. Mas nem tudo acontece como se possa supor, e é isso que torna este livro ainda mais interessante. Não é apenas um romance, tem vida, mistério, crime e muito, muito mais.

Deixo o convite para uma leitura prazerosa.

5 estrelas.

                                                                           Célia Gil

 Atwood, Margaret (2013). A História de Uma Serva. Lisboa: Bertrand Editora.

Nº de páginas: 352

Início da leitura: 11/09/2020

Fim da leitura: 14/09/2020

A História de Uma Serva é uma distopia escrita por Margaret Atwood e traduzida por Rosa Amorim. Muito bem escrito, duro, chocante serão poucos adjetivos para descrever este livro que mexe com o leitor, colocando-o perante uma hipotética realidade futura. Neste caso, perante Gileade, um estado policial fundamentalista, depois de os extremistas cristãos terem derrubado o governo norte-americano e queimado a Constituição. Nesta nova situação, deparamo-nos com um estado político fundamentalista, onde as servas, mulheres férteis, perdem os seus direitos e são “usadas” para conceber filhos para a elite estéril. O objetivo é engravidarem do seu Comandante, com o qual a esposa compactua.

As servas só podem ir ao mercado uma vez por dia e sempre acompanhadas. Assim, cada uma se torna espia da outra. As tabuletas do mercado são imagens, uma vez que as mulheres estão proibidas de ler.

Defred é a protagonista deste livro, uma das servas, que reza para engravidar do seu Comandante, pois, caso contrário, poderá ser enviada para as Colónias, perigosamente poluídas.

Porém, como em todas as civilizações extremistas, há sempre quem não cumpra as regras estabelecidas e Defred, envolvendo-se com o Comandante, acaba por ser arrastada para essa realidade.

Este Comandante aproxima-se de Defred, gosta de a exibir e, no fim, revela-se totalmente cobarde.

É uma história cujo final fica em aberto e que continua num outro livro Os Testamentos, que tenho, agora, muita curiosidade em ler.

Muitos seriam os excertos a realçar. Porém, limito-me a partilhar um que considero refletir muitas das nossas preocupações nos tempos atuais: "É estranho relembrar a maneira como pensávamos, como se tudo nos estivesse disponível, como se não houvesse contingências, nem limites; como se fossemos livres de traçar e retraçar eternamente os perímetros, em constante expansão, das nossas vidas. Eu também era assim, também fazia isso." (pág. 257)


Gostei bastante deste livro e aconselho a sua leitura.                                                                                                                                                                                                  Célia Gil


 Forman, Gayle (2017). Deixa-me ir. Lisboa: Editorial Presença.


Nº de páginas: 304

Início da leitura: 07/09/2020

Fim da leitura: 10/09/2020

Deixa-me ir é um livro escrito por Gayle Forman e traduzido por Ana Saldanha e aborda uma temática pertinente e atual. A mulher, infelizmente, ainda, obriga-se a conciliar a vida profissional com as tarefas de casa, deixando de ter tempo para si. E quem está à volta apenas exige e não se apercebe que sem ela tudo desmorona. Nestas situações, a mulher torna-se no pilar da família, sem que ninguém se preocupe com ela e a auxilie. A culpa? A culpa é de todos. Do marido, que, egoisticamente, acha que está tudo bem dessa forma, se aproveita, acabando por achar que é uma obrigação dela. Dela própria, que se deixa envolver numa situação deste género e, seja por dedicação, comodismo ou burrice, não reivindica os seus direitos e estabelece limites para as suas obrigações.

A narração da história é feita de forma muito simples, numa linguagem acessível e leve, capítulos breves e a um bom ritmo.

Maribeth Klein é mãe de gémeos, editora de uma revista de moda e dona de casa. Assoberbada de trabalho, sente-se muito cansada e acaba por ter, aos 44 anos, um ataque cardíaco. Quando regressa a casa, depois de uma operação de risco e com limitações que o médico lhe recomenda, perante a desordem que encontra vai, aos poucos, retomando as suas lides diárias. Todos lhas sabem exigir e não compreendem que representam para ela, nesse momento, um esforço sobre-humano.

Acaba por pensar e perceber que algo está mal e tem de mudar e decide fazer a mala, deixar um bilhete ao marido e filhos e partir. Partir para respirar, para se encontrar, mas também para reencontrar um passado perdido, de forma a perceber se o problema de saúde tem origem genética.

Recomeça uma vida nova, com novos amigos, sem obrigações, reaprendendo a aproveitar as pequenas coisas simples da vida.

Ao mesmo tempo, sente-se mal por ter abandonado os filhos e vai-lhes escrevendo cartas que não chega a enviar. Gostaria que o marido se apercebesse, durante a sua falta, de tudo o que dependia dela e que ela já não podia continuar, voltar ao que era.

Na minha ótica, não entendo totalmente esta partida. Não poderia ela ter resolvido todos os seus problemas, sem propriamente abandonar os filhos?

Conseguirá o marido perdoar-lhe o facto de ter deixado os filhos?  Conseguirá ele perceber que tudo estava mal e que ela precisava de espaço para si na sua vida? Estaria ele disposto a, juntamente com ela, mudar esta situação? Descobrirá Maribeth quem eram os seus pais?

Para responder a estas e a outras perguntas, terá de ler Deixa-me ir, de Gayle Forman.

Slater, K. L. (2018). Profunda Obsessão. Rio Tinto: Topseller.


Nº de páginas: 320

Início da leitura: 01/09/2020

Fim da leitura: 06/09/2020

Profunda Obsessão foi o primeiro livro que li da autora, K. L. Slater e surpreendeu-me pela positiva. O enredo está bem conseguido, os capítulos pequenos e o suspense vai-se adensando à medida que a história vai sendo narrada.

Ben é pai de duas crianças, viúvo há dois anos, e aceita de bom grado o excelente apoio que a dedicada mãe, Judi, lhe dá no que toca a tomar conta dos netos e na casa, onde vai regularmente fazer a limpeza e passar a ferro.

Tudo corria bem, até ao momento em que o filho, Ben, se apaixona por Amber, uma jovem enigmática que se aproxima dele. A relação entre eles evolui de forma rápida, do namoro ao momento em que ela vai viver lá para casa e em que decidem que ela é a madrasta perfeita para as crianças vai um ténue passo, que Judi não compreende e não aceita de ânimo leve. Entre elas é evidente a falta de empatia, de comunicação e de aceitação. Judi considera que Amber esconde alguma coisa e decide começar a investigar.

Aos poucos, Amber vai ganhando terreno em casa de Ben, altera a decoração, as regras e a forma como as crianças se devem ou não comportar. Prescinde da ajuda de Judi, não querendo que ela vá lá a casa passar a ferro ou fazer a limpeza e, inclusive, propõe que ela deixe de ir buscar as crianças à escola, assim Ben não terá de ir a casa da mãe buscar as crianças. Até aqui, tudo normal, quantas não são as situações idênticas? Em que uma mulher ou um homem conseguem afastar @ namorad@/companheir@ dos pais e em que a cegueira da paixão não deixa ver com clareza os seus reais intentos?

Porém, Judi continua a estranhar estes comportamentos e vai a casa do filho ver se descobre o que esconde Amber. Fica chocada com determinados objetos de índole sexual que descobre na gaveta do filho, pois não o estava a ver a ter uma relação desse género. Descobre mais alguma coisa escondida num casaco de Amber…

À medida que as mentiras de Amber vão sendo descobertas, vamos ficando mais apreensivos em relação a esta personagem, que nos vai parecendo cada vez mais odiosa.

Mas o final é de cortar a respiração, porque totalmente inesperado e arrebatador.

Recomendo a leitura.

⭐⭐⭐⭐⭐ Estrelas.

                                                                                                    Célia Gil

 Schmitt, Eric-Emmanuel (2013). O Senhor Ibrahim e as Flores do Alcorão. Lisboa: Marcador Editora.


Início da leitura: 31/08/2020

Fim da leitura: 31/08/2020

Este foi, seguramente, o melhor livro que li deste autor, não desprestigiando os outros, igualmente bons.

O Senhor Ibrahim e as Flores do Alcorão é um pequeno livro escrito por Eric-Emmanuel Schmitt e traduzido por Luzia Almeida.

Basicamente, conta-nos a história de Moisés ou Momo, um rapazinho que vive com o pai, um advogado judeu. Logo em criança, é rejeitado pela mãe, que, segundo o pai, terá fugido com o irmão, Popol. O pai faz questão de o inferiorizar em relação ao suposto irmão e Moisés sente-se rejeitado, pois nunca atingiria a perfeição do “irmão”.

Aos 11 anos, decide partir o mealheiro para ir às putas. Foi por essa altura que conheceu O Senhor Ibrahim, um merceeiro árabe do bairro, com o qual trava conhecimento. É com ele que Moisés aprende a arte de amealhar, de, através do sorriso, conseguir o que quer das pessoas, de tirar partido das coisas, mas também aprende a apreciar tudo o que a vida lhe oferece.

Quando o pai de Moisés, se vai embora e, mais tarde, é encontrado morto numa linha de comboio, quando a mãe regressa e diz que não teve mais nenhum filho, Moisés pede ao Senhor Ibrahim para o adotar. Assim acontece. Ibrahim vende a mercearia e compra um carro, no qual partem para o país natal do velho homem.

Esta acaba por constituir uma viagem de aprendizagens de Moisés para a vida.

Aprende o quão interessante é o universo com o Senhor Ibrahin e a sua tagarelice; a distinção entre os países pobres e os países ricos a partir da forma como têm ou não o seu lixo (um momento tão interessante!); que é através de pequenos caminhos que mostram “tudo o que há para ver” que se deve viajar; que a felicidade está na lentidão pois só assim o tempo ganha qualidade; que se consegue adivinhar as religiões através dos cheiros (que máximo!); ensinou-o a dançar, rodopiando com os dervixes (religiosos muçulmanos da Ordem Dervish Mevlevi), e foi rodopiando que libertou todo o ódio que tinha dentro dele e encontrou a felicidade; que, para conquistar uma rapariga, não deve olhar para ela pensando o quão bonito se deve achar, mas achando-a a ela a rapariga mais bela que já viu.

Como terminará esta viagem de Moisés e Ibrahim? Como será este regresso à terra natal? O que esconderia o livro de Alcorão?

Um livro imperdível, doce, terno, sábio e tão bem escrito. Recomendo vivamente!

⭐⭐⭐⭐⭐ Estrelas.

                                            Célia Gil

Hosseini, Khaled (2018). Uma Prece ao Mar. Barcarena: Editorial Presença.


Início da leitura: 30/08/2030

Fim da leitura: 30/08/2020

Uma Prece ao Mar é um pequeno livro escrito por Khaled Hosseini, maravilhosamente ilustrado por Dan Williams e traduzido por Manuela Madureira.

O escritor inspirou-se na história de um menino sírio de 3 anos, Alan Kurdi, que morreu no mar Mediterrâneo quando fugia com a família, em busca de um porto de abrigo na Europa. É também dedicado a milhares de refugiados que morreram ao fugirem da guerra e da perseguição nos seus países.

Narrado de uma forma poética, em que as imagens valem por muitas palavras, este é um livro enternecedor, que facilmente nos faz chorar.

Conta a história de um pai que, enquanto espera o barco que lhes poderá devolver a esperança, vai embalando o filho e reconfortando-o com histórias da sua própria infância feliz, quando se divertia a ser criança com os irmãos na casa de quinta do avô. 





Mas o balido das cabras, o som dos tachos da avó, o ar fresco e o sol, as frutas, as flores, os passeios do filho com a mãe, o som das represas e regatos, os passeios pelas mesquitas repletas de vida de Homs, deram lugar aos protestos, ao cerco, às bombas, à fome, aos funerais, aos escombros de um passado que ruiu. 





Na praia escura e fria, aguardam um barco que os possa salvar. Este pai sente-se dilacerado pela fé que o filho deposita nele e resta-lhe apenas rezar pela "carga mais preciosa de sempre", que a embarcação transportará, o filho.




É impossível não se ficar comovido, não sofrer com este pai. Tão lindos os sentimentos numa realidade tão dura e cruel.

⭐⭐⭐⭐⭐ Estrelas.

                                            Célia Gil


Alegre, Manuel (2010). O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua. Alfragide: Publicações Dom Quixote.


Nº de páginas: 112

Início da leitura: 29-08-2020

Fim da leitura: 29-08-2020

O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua é uma novela, escrita por Manuel Alegre em 2009, que adorei ler.

Estou ainda a pensar “Como hei de falar deste livro?” Um livro tão pequeno e, ao mesmo tempo, com tantas histórias e vida lá dentro!

É um livro pequeno porque, segundo o próprio autor, estas coisas da escrita são como o jogo de escondidas que joga com os netos, em que muito se quer dar a mostrar e outro tanto se esconde e, apesar de escondido, anseia-se por se ser descoberto.

Numa espécie de “ziguezague” narrativo, entre os vários momentos da sua vida, o narrador/autor vai revelando e entrelaçando acontecimentos. Conta-nos do menino que pregava pregos numa tábua, mas que, afinal, é ele próprio, que engoliu os comprimidos do avô, que caçava narcejas, que se sentia nu quando o obrigavam a vestir manga curta, que contava sílabas pelos dedos, que tamborilava com os dedos todos os ritmos da vida, que decidiu continuar Os Lusíadas, que veio com a equipa de natação da Académica à inauguração da Piscina Municipal do Fundão… A par disto, vai-nos contando sobre os poetas que lê; os que conheceu, como Sophia de Mello Breyner Andresen e Miguel Torga. Narra a sua passagem pela guerra colonial, quando foi preso pela PIDE; o momento em que, devido a uma artéria bloqueada, esteve entre a vida e a morte e o único pedido que fez foi acabar o romance que andava a escrever, “o livro da vida”, “o pulsar do mundo a bater no coração de um homem, é isso a escrita”.

Estes são fragmentos da história de vida de um escritor que confessa que pouco ou nada sabe de literatura, mas “sabe da respiração da terra, que essa, sim, tem a ver com o ritmo e a respiração da escrita”.

Muitos outros excertos mereceriam destaque, mas prefiro deixar a sugestão de leitura. Deixem-se cativar, como eu me cativei, por este miúdo que pregava pregos numa tábua e surpreendam-se com esta novela, onde se respira poesia, ritmo e vida.

Dou a este livro ***** estrelas.

 

 Hart, Angela (2019). A Força do Amor. Lisboa: Marcador Editora.


Nº de páginas: 240

Início da leitura: 26-08-2020

Fim da leitura: 28-08-2020


A Força do Amor é um livro de Angela Hart, traduzido por Carla Morais Pires.

Para quem gosta de histórias reais e que envolvam crianças, esta é uma dessas histórias.

Angela e Jonathan constituem uma família de acolhimento, que vive em Inglaterra, já com alguma vasta experiência em acolhimento de crianças e jovens, quando acolhem Keeley. Porém, esta menina de oito anos vai revelar-se diferente de todas as crianças e jovens que acolheram.

 Keeley é uma criança verdadeiramente difícil e com a qual não sei se conseguiria lidar. Embirrenta, má, capaz das maiores atrocidades em relação a outras crianças e mesmo adultos, capaz de ofensas graves e de utilizar uma linguagem muito malcriada e ofensiva.

Admirei a coragem desta mãe de acolhimento, pela sua resiliência, paciência, capacidade de ponderar sempre o que estava para trás e que terá tornado esta criança assim, tão amarga e maquiavélica. Nem sempre foi fácil, momentos houve em que Angela ponderou se estaria a fazer o correto, se conseguiria ultrapassar estas dificuldades e tornar a vida de Keeley mais feliz. Mas há em Angela uma força interior capaz de perdoar, capaz de ponderar, que a torna tão forte e tão compreensiva, o que, realmente, me leva a admirá-la.

Como já mencionei, eu não teria este “estofo” para ultrapassar todas estas provações. Em determinados momentos, fiquei com os nervos em franja e com vontade de dar umas boas reprimendas a esta criança de comportamento tão detestável. Porém, fez-me pensar, qual a melhor forma para lidar com crianças que tiveram uma infância de abusos e rejeições? Até que ponto se pode aceitar tudo, todo o comportamento atual em função desse passado? Onde se situa o limite, quando esta situação ultrapassa todos os limites? Será o amor uma força suficientemente forte para ultrapassar todos os traumas?

Um livro que nos envolve, nos faz “suar”, questionar e ponderar. Vale a pena ser lido por quem gosta destas temáticas.

O facto de ter sido representante da Educação numa Comissão de Proteção de Crianças e Jovens durante três anos, faz com que sejam temáticas que me interessam.

Dou a este livro **** estrelas.

                                                                                  Célia Gil

Kate, Lauren (2020). A Canção do Órfão. Amadora: Topseller.

Nº de páginas: 336

Início da leitura: 23-08-2020

Fim da leitura: 25-08-2020

 

A premissa deste livro é interessante. Violetta e Mino vivem no Incuráveis, um hospital convertido em orfanato, cujo conservatório se dedica a ensinar música aos órfãos.

Violetta é uma soprano sonhadora, malgrado o ambiente rígido em que vive e anseia conhecer o mundo que vislumbra do telhado do orfanato, a bela Veneza. É ali que a sua vida se cruza com a de Mino, um violinista, que também anseia por se libertar do orfanato para rapazes onde vive e encontrar a sua mãe. Ambos sonham ter uma família, um lar e apoiam-se numa amizade crescente, ligada pela música. Mas acontecerá tudo como ambicionam? Que dificuldades os esperam no mundo lá fora?

Devo referir que não foi dos meus livros preferidos, pela forma como está escrito. Tem, inicialmente, momentos muito parados, onde tudo decorre com grande morosidade e, mais à frente, bem como no final, parece que foi alinhavado à pressa, carecendo de um maior desenvolvimento.


Dou a este livro três estrelas.

 

 


Ferro, Maria Eulália (2010). Recordações do Mato. Lisboa: Editorial Minerva


Nº de páginas: 104

Início da leitura: 23-08-2020

Término da leitura: 23-08-2020

Recordações do Mato é um livro escrito de Maria Eulália Ferro, uma transmontana, nascida em 1933 em Mirandela.

Lê-se num ápice, não só pela extensão, mas pela acessibilidade e caráter denotativo da mensagem. De forma simples e direta, a autora recorda os 27 anos em que viveu em Moçambique, relatando-nos vivências, tradições, episódios hilariantes, constrangimentos e, acima de tudo, a felicidade que caracterizou a sua estadia em África.

É evidente que gostei das histórias, que me relembram Angola, por várias características e vivências semelhantes.

Porém, penso que a autora poderia ter tido um cuidado maior com a linguagem, o texto poderia ter sido revisto e poderia ainda ter desenvolvido mais alguns relatos, uma vez que a sua magia se perde na forma como a mensagem surge condensada e breve. Talvez um pouco mais de uma partilha mais intensa de sentimentos, nos tivesse deixado mais emocionados. Neste tipo de relatos, queremos, nós leitores, sentir os cheiros, arrebatar-nos com o pôr-do-sol, esmagar-nos com a tamanha beleza daqueles locais quase virgens, numa época em que ainda não tinham sido devastados pela guerra.

                                                                                                                 Célia Gil

 Adlington, Lucy (2020). À Procura de Summerland. Amadora: Topseller.


Nº de páginas: 320

Início da leitura: 18-08-2020

Término da leitura: 22-08-2020

À Procura de Summerland é um livro escrito por Lucy Adlington e traduzido por Dina Antunes.

A primeira coisa que me despertou a atenção neste livro foi a capa, que considero belíssima e sabemos que “os olhos também comem”, apesar de nem sempre o conteúdo corresponder à expetativa inicial criada.

Depois, li a sinopse e pensei “Bom, prepara-te, Célia, espera-te mais um livro duro sobre a temática da II Guerra, e este mês já leste A Coragem de Cilka!”.

Quando comecei a ler, fiquei irremediavelmente presa à história. É o primeiro livro que leio que aborda o pós-guerra através da luz da esperança. E apesar dos fantasmas que povoam a vida da personagem principal, das lembranças dolorosas, dos segredos que guarda e que magoam, é uma personagem otimista, que quer esquecer tudo o que ficou para trás e viver, realmente viver tudo de que foi privada. Respira música, que sempre trauteou baixinho e tocou mentalmente.

Brigid é uma das muitas jovens judias órfãs, que não sabe do pai e perdeu a mãe em Auschwitz. Quando a guerra acaba, em 1946, parte para Inglaterra com o objetivo de encontrar Summerland, uma luxuosa casa de campo de que a mãe tanto lhe falara. Todo o espírito de vingança que pretende levar a cabo com uma faca que transporta, se vão desvanecendo e perdendo o sentido, à medida que se vai integrando em Summerland. A casa esplendorosa que esperava encontrar dera lugar a uma mansão decrépita, fria, mas, mesmo assim, muito melhor do que o guarda-vestidos onde a mãe a escondera dos nazis. Em Summerland procura encontrar respostas sobre a sua família.

Curioso vermos a outra parte desta guerra miserável. Joe é o filho da aparentemente arrogante dona da mansão, Lady Summer. Regressou da guerra mutilado, repleto de marcas da guerra e sem um braço.

Neste momento pensei “Queres ver que, depois disto tudo, vem um romance cor-de-rosa?”. Não, não veio um romance cor-de-rosa, mas sim um final surpreendente, que nos põe à prova e nos deixa surpreendidos.

Este é um livro de fácil leitura, penso que acessível a um público mais jovem, mas que pode ser lido em qualquer idade.

É cativante a forma como está escrito, os capítulos intitulados com o nome de comidas que são um marco de mudança na vida de Brigid.

Aconselho vivamente a leitura deste livro e dou-lhe ****estrelas.

 Hosseini, Khaled (2013). O Menino de Cabul. Barcarena: Editorial Presença.


Nº de páginas: 336

Início da leitura: 10-08-2020

Término da leitura: 17-08-2020

O Menino de Cabul é um livro escrito por Khaled Hosseini e traduzido por Sofia Gomes. É um livro recomendado pelo PNL como sugestão de leitura para o ensino secundário.

Apesar de uma temática dura, a forma como o autor escreve é comovedora e ternurenta. Os sentimentos suscitados são de extremos. Deliciamo-nos com a beleza das paisagens descritas (que, infelizmente, já não passam de memórias, uma vez que já não existem), sofremos com realidades que nos esmagam, arrepiamo-nos e revoltamo-nos com a maldade humana, comprazemo-nos com as pequenas conquistas e aprendizagens da própria vida.

O narrador é Amir, um jovem afegão, que tudo fazia para agradar ao pai, um mercador rico de Cabul e que desejava ganhar o concurso de lançamento de papagaios apenas para lhe agradar. Amir frequenta a escola, lê muito e escreve. Em determinadas circunstâncias, mostra-se mimado, egoísta e cobarde em relação ao melhor amigo, Hassan. Esse facto marcá-lo-á para sempre e massacrá-lo-á. Alguma vez seria capaz de se perdoar?

Hassan era um hazara que servia Amir e era uma criança de estatuto social inferior, mas de um grande coração, leal, franco e sempre disposto a esconder as “asneiras” de Amir.

No entanto, há um passado em comum que unirá para sempre estes dois jovens, um passado que se tornará fundamental para um futuro de paz, de perdão, de reconciliação. Mas, serão eles capazes de ultrapassar a traição? Terão direito a uma segunda oportunidade?

E quando parece que as personagens conseguem vir à tona, há mais um obstáculo a contornar, uma necessidade muito grande de resiliência, de nunca desistir e de procurar sempre a felicidade.

Muitas são as frases que realçaria como belas e moralizantes. Porém, deixo apenas um exemplo:

“Só há um pecado. O roubo…Quando dizes uma mentira, estás a roubar a alguém o direito de saber a verdade” (pág. 208).

 

***** estrelas


                                                                                                    Célia Gil

 Claudel, Philippe (2004). Almas Cinzentas. Lisboa: ASA Editores Lda.

Nº de páginas: 192

Início da leitura: 07-08-2020

Término da leitura: 09-08-2020

Almas Cinzentas é um livro escrito por Philippe Claudel e traduzido do francês por Isabel ST. Aubyn. Philippe Claudel nasceu em Lorena, em 1962 e este romance ganhou o Prémio Renaudot em 2003.

Almas Cinzentas constitui uma metáfora da alma humana, uma vez que esta não é propriamente linear, está muitas vezes entre o preto e o branco, o mal e o bem. É nesse limiar cinzento que vive a alma humana.

É um romance duro, muito bem escrito, sobre mistérios que nunca se chegam a perceber, porque nem tudo tem de ser explicado, nem tudo tem explicação, entre o lado certo e o errado há uma linha tão ténue e fácil de transpor… Como nos é dito no livro “…o mal não é mais do que uma ideia e a dor uma efabulação da alma” (pág. 131).

Tudo se passa numa pequena povoação, Lorena, onde é encontrado o cadáver de uma menina de dez anos. O assassinato é atribuído a um jovem desertor que é executado, ainda que haja uma testemunha que terá presenciado um encontro da criança com outra personagem.

Este romance acaba por extrapolar todos os estereótipos em relação ao perfil dos criminosos. Decorre toda em torno de um inquérito sobre um crime, a dor do narrador e dos próprios homens, numa tentativa de entender a alma humana. Até que ponto podemos ou estamos aptos a julgar os outros?

Adorei esta incursão pela alma humana, que convida à introspeção, à reflexão sobre nós próprios, a nossa existência, os nossos princípios, medos, angústias.

É incrível como se pode falar de um crime hediondo numa linguagem simples, bonita, quase poética! Aconselho vivamente.

***** estrelas

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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