Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Ferraz, Carlos Vale (2017). A Última Viúva de África. Porto: Porto Editora.

Nº de Páginas: 200

Início da leitura: 26/04

Fim da leitura:  29/04

A Última Viúva de África é um romance de Carlos Vale Ferraz, que ganhou o Prémio Literário Fernando Namora em 2018.

A minha dúvida é como falar deste romance. Mas vou tentar.

Miguel Barros é um produtor cinematográfico à beira da falência. Toma conhecimento, através do realizador Herberto Popovic, de uma notícia de jornal, de que um emigrante francês milionário, de nome Fernando Oliveira, queria comprar uma igreja numa povoação do concelho de Vieira do Minho para a transformar num panteão para a sua mãe, de forma a santificá-la. Apesar de não ser o estilo do produtor, nas circunstâncias financeiras em que se encontra, acaba por ponderar esta ideia rocambolesca para argumento de um filme.

Este início de narrativa torna-se aliciante e revela até algum sentido de humor, pelo que fiquei à espera de um romance algo leve e divertido.

Tal não aconteceu. Miguel Barros pede à jornalista Lívia Catarino para recolher informações para o argumento do filme. O que ele não sabia era que a mãe deste Fernando Oliveira era Alice Oliveira, a Madame X, informadora de governos e de mercenários, que ele conhecera nas suas andanças por África (Congo e Angola) e com a qual partilhara vivências, no passado.

Acontece que a personagem que dá título à obra, sobre a qual idealizei o foco da narrativa, acabou por ser relegada a um segundo plano. A partir daqui, passamos a acompanhar Miguel Barros nas suas memórias durante o seu percurso por África.

Acontece que essas memórias não me preencheram, não me transpuseram para o espaço referido, como eu gostaria, uma vez que alguns dos locais, nomeadamente Angola, fizeram parte da minha vida (onde nasci). Se bem que algumas questões sejam abordadas de forma pertinente, ainda que não com a profundidade que eu gostaria de ter visto e já li noutros livros. Poderia o autor não querer entrar em pormenores, mas, para isso, deveria ter dado um foco diferente à personagem de Miguel e conferido um relevo maior à Madame X.

Não é um livro de leitura fácil ou rápida. Necessita, pois, de uma concentração e um silêncio, que permitam a sua compreensão.

Apesar de bem escrito, não considero que tenha uma escrita fluida e que nos prenda à narrativa com a avidez de leitura a que gosto de me render.

Manicka, Rani (2005). A Guardiã dos Sonhos. Porto: Asa Editores, S.A.

Nº de páginas: 512 páginas

Início da leitura: 12/04/2021

Fim da leitura: 22/04/2021

A Guardiã dos Sonhos é um romance escrito por Rani Manicka, uma autora nascida na Malásia e a viver na Grã-Bretanha. É traduzido por Teresa Curvelo.

Um livro no qual eu não pegaria, por ser demasiado cor-de-rosa. Talvez esse facto me tenha levado a pensar que a história seria igualmente cor-de-rosa. Estava redondamente enganada. Foi preciso uma leitura conjunta para pegar nele. Li-o a par de outro, o que quebrou um pouco um ritmo de leitura que, quanto a mim, merecia uma leitura mais rápida e concentrada, uma vez que a história tem imensas personagens. O facto de parar e ler outro livro, fez com que, muitas vezes, tivesse de retomar um pouco mais atrás para me contextualizar.

É um livro intenso, forte e dramático. Dei por mim a suster a respiração, a acompanhar as personagens na sua saga familiar. São histórias de vida que comovem, devidamente contextualizadas no tempo e no espaço. As descrições são tão realistas que nos sentimos lá, que absorvemos os aromas, sentimos as texturas e os sabores. Uma exótica saga familiar que nos fala de amores, desamores, paixões, vinganças, mitos, tradições, dificuldades, superação e desilusão. Uma história de guardiãs de um sonho difícil ou mesmo impossível de alcançar, contada na primeira pessoa de várias personagens e alternadamente. Esta organização da história torna-a ainda mais interessante e rica, pois coloca-nos perante maneiras de pensar de agir e de percecionar os acontecimentos e as pessoas de forma diferente e pessoal.

A história tem início numa família do Ceilão, em 1931. Devido à pobreza vivida, a mãe de Lakshimi decide casá-la (tendo ela apenas 14 anos) com um homem mais velho e “supostamente” rico da Malásia. É assim que vê a filha partir e que sofre em prol de um futuro melhor para a filha e para a própria família. Só que este homem não é, afinal, rico e acumulou dívidas. É Lakshmi que arregaça as mangas e luta pela sua família. Acaba por se tornar uma matriarca muito exigente, de personalidade muito forte e, em vários momentos, cruel em relação aos filhos. A invasão japonesa da Malásia e a morte da filha Mohini às mãos dos japoneses, semeia nela uma cólera que não consegue aplacar e que desperta o que de pior existe dentro de si. Também o filho mais velho, Lakshmnan, ficará devastado para sempre e o sentimento de culpa por não ter conseguido proteger a irmã acompanhá-lo-á durante toda a vida.

Aconselho a leitura!

 

Hannah, Sophie (2007). O Pesadelo de Alice. Lisboa: Gótica.

Nº de páginas: 354

Início da Leitura: 12/04/2021

Fim da leitura: 18/04/2021

O Pesadelo de Alice é um livro escrito por Sophie Hannah e traduzido por Ana Mendes Lopes.

Apesar de ser classificado como thriller psicológico, penso que será mais um romance policial. E, apesar de muito elogiado pela imprensa, não foi um livro que me tivesse cativado. Considero que a ação anda sempre à volta do mesmo, muito repetitiva e com um final demasiado previsível. Ainda pensei que nos trocassem as voltas e que o assassino pudesse não ser ninguém de que eu suspeitasse no início. Porém, nem o fim me surpreendeu. 
Não consegui sentir empatia por nenhuma das personagens, que se mostram irritantes e nos mexem com os nervos.

A premissa em si até era boa, só não foi suficientemente aproveitada:

Duas semanas depois de ter a sua filha, Alice Fancourt ausenta-se de casa por algumas horas. Quando chega a casa, vê que a porta de casa está aberta, o que nunca acontecia e encontra o marido a dormir no sofá. Corre para o quarto da filha e, quando lá chega, depara-se com uma criança que diz não ser a sua filha, mas sim uma outra bebé. O marido não acredita nela. Alice espera que a sogra acredite e deseja que regresse o mais depressa possível de umas férias de que estava a usufruir com o neto, o filho do primeiro casamento de David. A sogra parece acreditar nela. Alice pensa que, de alguma forma o marido está envolvido na morte da primeira mulher. A forma como o seu comportamento se está a tornar hostil, ele que foi sempre um jovem mimado pela mamã, deixa-a muito temerosa e receia que lhe possa acontecer o mesmo que sucedeu à ex-mulher, que a tentou alertar antes de morrer.

Acreditará a polícia na história de Alice? Que segredos ainda estarão por revelar?

Backman, Fredrik (2019). Britt-Marie Esteve Aqui. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 304

Início da Leitura: 05/04/2021

Fim da leitura: 10/04/2021

Britt-Marie Esteve Aqui é um livro escrito por Fredrik Backman e traduzido por Elsa T. S. Vieira. Este é o segundo livro que leio do escritor e recupera uma das personagens do livro que li anteriormente, A Minha Avó Pede Desculpa, que é a Britt-Marie.

Se no livro que li anteriormente, fiquei com má impressão relativamente a Britt, este livro conseguiu despertar em mim outros sentimentos em relação a esta personagem. Há, inicialmente, uma curiosidade por uma personagem relativamente “odiosa”, porque caprichosa, monótona, que foi anulando, durante toda a sua vida, a sua própria personalidade. Aos poucos, esta personagem começa a entranhar-se em nós, de tal forma que somos levados a fazer parte da sua vida, como se fosse nossa vizinha do lado. O que quero dizer com isto é que este autor é um excelente contador de histórias e apresenta-nos personagens com corpo, verosímeis, com as quais é fácil criar empatia.

Britt, depois de cerca de 40 anos a viver exclusivamente para o casamento, em que se anulou para dizer “o meu marido pensa”, “o meu marido diz”, em que esperava por ele até tarde, em que acreditava nele, apesar de, lá no fundo, reconhecer os vários indícios das suas traições.

É esta Britt que diz “Não!”, que deixa o marido e a casa, para refazer a sua vida e se reencontrar.

Com 63 anos, Britt vai pedir emprego. A sua determinação leva-a a conseguir um emprego temporário como zeladora no centro recreativo de Borg, uma localidade perdida no espaço e no tempo, vítima de uma crise económica que em nada contribui para a crença em dias melhores. De certa forma, parece e que os seus habitantes foram desistindo, foram perdendo a crença.

A ida de Britt para Borg foi o melhor que poderia ter acontecido, não só a Britt como a todos os habitantes de Borg. As crianças de Borg assumem Britt como a sua nova treinadora de futebol. E esta dá por si a pensar como antes não pensava, a fazer coisas que nunca tinha sonhado fazer (até a beber e a fumar!).

Será ela capaz de se reencontrar? Ou, à primeira oportunidade, regressará para casa, um local onde se sente mais estável e acomodada às suas rotinas de sempre, sem ter de pensar por ela, sem ter de viver em função dela?

Apesar de ter gostado mais do livro que li anteriormente, também adorei este. Fredrik escreve muito bem, consegue dar dinamismo à narrativa, tem sentido de humor e cria personagens absolutamente fantásticas!

“…qualquer ser humano tem tão poucas oportunidades de estar no presente, de escapar à tirania do tempo e de se perder no momento. De amar alguém sem medida. De explodir de paixão.

(…)

Toda a paixão é infantil. É banal e ingénua. Não é nada que aprendamos; é instintiva, e por isso domina-nos. Derruba-nos. Arrasta-nos como uma inundação. Todas as outras emoções pertencem à terra, mas a paixão habita o universo.”

Tavares, António (2019). Homens de Pó. Lisboa: Dom Quixote.

Nº de páginas: 224

Início da leitura: 02/04

Fim da leitura: 02/04

Homens de Pó é um livro escrito por António Tavares, que venceu o Prémio Leya com O Coro dos Defuntos, em 2015.

Tudo começa em Angola, onde, no meu entender, decorre a mais realista parte desta história. Pela descrição dos tiros, das metralhas, dos mortos, dos cheiros, das cores e dos sons, somos conduzidos para lá e convidados a presenciar todas as atrocidades vividas. O narrador, um jovem está no meio deste mundo de morte e refere “Fugir é levar o medo às costas”. É este o sentimento que o acompanha, quando foge da guerra. É apanhado por uma bala que lhe entra pela perna e lhe perfura um braço. O hospital, onde a mãe o leva, está um caos e um enfermeiro sentencia-lhe “Tem de se cortar o braço”. A mãe volta a colocar-lhe a ligadura e leva-o dali para fora. E fogem para o cais, dispostos a embarcar para Portugal. Viajam os retornados (os portugueses) e os recuados (os africanos): os homens de pó.

Apesar de todos os problemas, desgraças, mortes, perpassa em todo este livro uma ironia que, mesmo em momentos mais dramáticos, nos faz esboçar um sorriso.

Homens de Pó conta-nos a história de um grupo de homens vindos de África – os recuados – para Portugal caótico do pós 25 de Abril. Trabalham na construção civil, no norte do país e vivem no estaleiro em contentores, completamente desterrados e sem quaisquer outras referências que não as poucas memórias que guardam dos tempos de África. À noite contam histórias uns aos outros, por necessidade e cumplicidade, dado que nada mais lhes resta do passado. De dia, constroem as estradas por onde passarão os carros dos ricos; um trabalho muito duro e num constante ambiente de pó que se lhes cola ao corpo e onde nem conseguem quase respirar.

O único aspeto que vai atenuar um pouco este pessimismo em que vive o narrador é Júlia, uma jovem pobre, que vive da pesca. Júlia começa por ser uma boa amiga, a quem ele confidencia o que lhe vai na alma, e passo a citar: “Falávamos da vida. Contei-lhe como eram os meus dias; ela parecia não acreditar que alguém pudesse viver num sítio fora do mundo. Um não-lugar. (…) nós, os recuados, tínhamos um problema com tudo o que não fosse o presente. O passado estava perdido, e sem este não se tem esperança nem crença; por isso nunca projectávamos os dias que haveriam de chegar, e só fazíamos pequenos planos.”

E, apesar de nos incomodarem determinados acontecimentos, de nos angustiarmos com a frustração que, na maior parte das vezes, assola as personagens, cuja vida se faz de pó e em pó terminará, fica sempre uma luz, uma esperança ao fundo deste túnel de pó. No meu entender, Júlia é a candeia que lhe permite ver essa réstia de luz.

Não foi dos melhores livros que li sobre a temática. Tendo vivido, ainda que muito nova, esta realidade, torno-me mais exigente na forma como é abordada. Ainda assim, vale a pena ler e está muito bem escrito.

Lagerlöf, Selma (2017). O Tesouro. Lisboa: Cavalo de Ferro, 3ª edição.


Nº de páginas: 100

Início da leitura: 01/04

Fim da leitura: 02/04

O Tesouro é um clássico da literatura europeia, escrito por Selma Lagerlöf, traduzido do sueco por Liliete Martins.

De realçar que Selma Lagerlöf foi a primeira mulher a ganhar um Prémio Nobel da Literatura.

Gostei muito deste livro, porque, apesar de pequeno, é uma história cativante e que não carecia de mais enredo, uma vez que tem tudo. Aborda temáticas relacionadas com a riqueza, a família, a morte, o amor, a traição, a vingança… No verdadeiro sentido da palavra, é um tesouro!

Tudo se passa numa pequena cidade costeira, onde, apesar de o verão já ter chegado, o mar continua gelado, impedindo alguns soldados de partirem nos seus barcos.

A ação tem início com a personagem Torarin, um vendedor de peixe, que segue numa carroça, tendo por companhia o seu cão, com o qual vai conversando. Um cão com um dom premonitório, que Torarin não deveria ignorar. Quando para em casa do Sr. Arne, um ancião muito conceituado e rico, o cão uiva, mas o dono não liga e senta-se a jantar, como já era hábito, com Arne e a sua família. Durante o jantar, a esposa de Arne fica lívida e menciona que ouve, ao longe, o barulho de facas a serem afiadas. Ninguém lhe dá crédito.

Torarin, após a refeição, segue viagem. No dia seguinte, fica a saber que a casa do Sr. Arne foi assaltada e consumida pelo fogo. A família terá sido chacinada, com exceção da filha adotiva Elsalill, que se terá escondido atrás do fogão. Torarin, com pena da rapariga, leva-a para sua casa.

É aqui que a história ganha contornos de fábula e se misturam fantasia, superstição e religião.

Torarin não sabe se sonhou ou se, de facto, aconteceu. Mas, recorda-se de, ao passar novamente por casa do Sr. Arne, um criado lhe ter dito para entrar e jantar com o Sr. Arne, que o esperava. Surpreendido por ver a casa sem vestígios da destruição que tinha visto com os seus próprios olhos (apesar de não ver a arca do tesouro), não entende quando se senta a jantar com Arne e a sua família. Este fala em vingança e diz que não terão sossego nos seus túmulos, enquanto não forem capturados os assassinos. Incumbe a neta, a mais jovem, de levar a cabo essa vingança.

Entretanto, há um jovem que se aproxima mais de Elsalill, a quem ela não reconhece e por quem acaba por se apaixonar.

Quando a sua “irmã” lhe aparece, sente-se encurralada. O que deverá fazer, fugir e casar com aquele homem que ama ou ajudá-la na vingança merecida? Uma decisão difícil que só poderão saber como terminou se lerem o livro, que muito aconselho!

Engberg, Katrine (2020). A Inquilina. Lisboa: Minotauro.

Nº de páginas: 392

Início da leitura: 27/03

Fim da leitura: 30/03 

A Inquilina de Katrine Engberg é um policial thriller que se lê de forma rápida e cuja ação prometia prender-nos à história, desse o início.

Como já aconteceu com outros livros, a tradução e revisão deixam muito a desejar, incluindo erros de concordância sujeito-predicado e utilizando, por exemplo, uma personagem masculina o termo “obrigada”. Estes são ínfimos exemplos, havendo muitos outros a citar. É evidente que, para mim, este facto quebra a leitura. Tive de me abstrair da forma como está escrito e focar-me só no enredo.

A sinopse desperta a atenção, fazendo prever um thriller bastante intenso: “Uma jovem é brutalmente assassinada no seu apartamento. O caso é atribuído a Jeppe Korner e Anette Werner, detetives da polícia de Copenhaga.

Em pouco tempo, estes estabelecem um vínculo entre a vítima, Julie Stender, e a sua senhoria, Esther de Laurenti. Esta é também escritora e quando, Julie surge como vítima de assassinato no livro que ela está a escrever, o vínculo entre ficção e vida real torna-se evidente e perigoso. 

Mas o papel de Esther não é tão claro quanto parece. Será ela culpada ou apenas outra vítima, presa num jogo de vingança? Anette e Jeppe têm de mergulhar no passado das duas mulheres para descobrir a identidade do brutal e misterioso assassino.”

O que é facto, é que ainda que a autora consiga, com alguma mestria, levar-nos a desconfiar de todas e mais algumas personagens. Quando pensamos, “previsível, já está mais do que visto quem é o assassino!”, estamos redondamente enganados e deixámo-nos ludibriar bem ludibriados pela escritora. Porém, houve momentos muito parados e repetitivos, que careciam de um maior suspense e tensão.

Da dupla de detetives Jeppe e Anette, ficamos a conhecer especialmente Jeppe. De Anette pouco sabemos, a não ser que tem um apetite voraz por fast food.

É interessante o crime ter sido inspirado num livro escrito por Esther de Laurenti, uma das personagens fulcrais desta história. Mais interessante ainda é chegarmos ao fim e ainda nos surpreendermos.

3 estrelas.


Fenollera, Natalia Sanmartin (2017). O Despertar da Menina Prim. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 248

Iniciado no dia: 22/03/2021

Terminado no dia: 26/03/2021

O Despertar da Menina Prim, de Natalia Sanmartin Fenollera, traduzido por Artur Lopes Cardoso, tinha tudo para ser um romance interessante. Parte de uma premissa que, por norma, me cativa, uma vez que, numa metalinguagem, nos fala de livros. A sinopse era promissora:

“Atraída por um anúncio sugestivo, Prudencia Prim chega a San Ireneo de Arnois, um pequeno e encantador lugarejo cujos habitantes decidiram declarar guerra às influências perniciosas do mundo moderno, e é contratada para organizar a biblioteca do homem do cadeirão, uma pessoa inteligente, profunda e culta, mas sem qualquer toque de delicadeza.

Apesar das batalhas dialéticas frequentes com o seu chefe, aos poucos, a bibliotecária vai descobrir o estilo de vida peculiar do local e os segredos dos seus habitantes pouco convencionais.

Narrado com humor, brilho e inteligência, O despertar da menina Prim leva-nos numa viagem inesquecível em busca do paraíso perdido, da harmonia e da beleza, e da profundidade escondida nos pequenos prazeres da vida.”

Porém, à medida que fui avançando na leitura, não consegui chegar ao prometido “paraíso perdido”. San Ireneo de Arnois é, com efeito, um lugar “encantador”, com pessoas que se juntaram ali para viver no passado e com filosofias de vida muito próprias, se bem que, por vezes, pouco explícitas e incompreensíveis. Até este lugar, que poderia conferir mais riqueza à narrativa, é descrito de uma forma muito superficial, onde o acessório suplanta o essencial.

Também quase não se falou de livros, se não que eram muito antigos (quase todos de clássicos gregos e latinos e de teologia) e de uma catalogação e limpeza dos mesmos.

As personagens careciam de uma densidade psicológica que as tornasse únicas. Não chegamos a saber exatamente o nome do “senhor do cadeirão”. Em relação à Menina Prim, é uma personagem com muita formação académica, mas que se revela uma nulidade no que toca a relações humanas e sociais, imatura, vazia, sem princípios sólidos que a façam distinguir do mais comum dos mortais. Ainda por cima, afirma, quase com orgulho, que não gosta de animais! Não consegui criar qualquer tipo de empatia com esta Prim tão oca e sem personalidade.

Quanto aos diálogos entre a Menina Prim e o Senhor (sem nome) do Cadeirão, penso que a autora se deve ter inspirado em “As Velas Ardem até ao Fim” de Sándor Márai. Porém, como não estava à altura de um Márai, saiu um diálogo pseudo filosófico, sem qualquer “sumo” ou interesse (muito contrariamente ao do Márai que é uma obra excecional).

Supus, logo no início, que houvesse um envolvimento entre estas personagens que passam o tempo todo, segundo o narrador, a “discutir”, o que para mim não é propriamente uma discussão, mas um diálogo vazio. Não revelarei esta parte para não dissuadir ninguém da leitura do livro, se bem que, se tiverem a minha opinião em consideração, já devem estar completamente dissuadidos.

Do que mais gostei neste livro: da promessa de ser um bom livro, da capa e, do facto de o ter lido num clube de leitura que a tornou menos penosa.

Coelho, João Pinto (2020). Um Tempo a Fingir. Alfragide: Dom Quixote

Nº de páginas: 400

Início da leitura: 17/03/2021

Fim da leitura:  21/03/2021

Um Tempo a Fingir é o último romance de João Pinto Coelho e, como Os Loucos da Rua Mazur, um livro extraordinário.

É difícil falar de um livro quando este nos dá tanto, tanto enredo, tantas personagens carismáticas, tudo com uma maneira de escrever intensa, em que não temos vontade de parar a leitura até nos sentirmos sem fôlego. É um daqueles romances que nos deixa, sem dúvida, com a famosa “ressaca literária”. Queria deixar passar uns dias para falar sobre ele, mas, ao mesmo tempo, não consigo deixar de falar já dele.

João Pinto Coelho escreve como poucos e alia uma história ficcional cheia de criatividade a um momento histórico que lhe dá credibilidade, numa época em que se prevê a chegada dos nazis. É mesmo esse aspeto que torna a história tão verosímil e as personagens tão especiais. Escreve de forma tão natural, parecendo que as palavras lhe caem da boca ao contar uma história e, ao mesmo tempo, com uma sobriedade, um rigor, uma entrega e uma paixão tão grandes, que é impossível não agarrar o leitor às primeiras páginas.

A técnica narrativa que, por vezes, intercala os narradores Annina e o irmão, Ulisse é muito interessante, com uma nota de humor conseguido quando o irmão simplesmente discorda do que disse Annina, acrescenta alguma informação que ela quis ocultar ou corrige imprecisões.

A ação decorre em Pitigliano, um burgo situado em Toscana, Itália, em 1937. É uma terra pequena, onde parece difícil esconder segredos. Ou não? Será que os segredos ficam resguardados como os túneis e catacumbas em que Pitigliano tem os seus alicerces?

Annina Bemporad é uma adolescente judia bonita e rebelde, que sabe a influência que exerce sobre os rapazes. No dia em que o pai se mata com um tiro, fica a viver com a mãe e o irmão. Frequenta a escola e, nos tempos livres, faz trabalhos de costura na loja onde a mãe trabalha. Não tem muitos amigos, mas são de salientar Peppino, um rapaz que recolhe lixo com a sua bicicleta para montar espetáculos teatrais; Alessia, uma rapariga excêntrica, que mostra um afeto e interesse muito grandes por Annina e Cosimo, o grande amor de Annina.

De entre as costuras que faz, passa-lhe pelas mãos um vestido vermelho, que, depois de pronto, passa a contemplar na montra e com o qual sonha, sabendo de antemão que nunca teria dinheiro para ele.

Quando num espetáculo montado por Peppino, ela veste o vestido vermelho, deixa de ser invisível e passa a ser desejada por muitos. Então, Annina aproveita esses momentos de glória para, aos domingos, se sentar na esplanada a comer gelados que lhe vão oferecendo, rodeada de rapazes. Conversa com todos, mas não os deixa aproximarem-se excessivamente. Gosta de ser alvo de desejo, mantendo-se esquiva. Até ao dia em que tudo muda. Porque uma paixão recalcada em quem se julga o “dono do mundo”, pode gerar as maiores atrocidades.

Com efeito, tudo muda. Mas não vou alongar-me mais, para que não percam o entusiasmo pela leitura deste grande livro. Aconselho sem quaisquer reservas.

Ah, só acrescentar que o final é totalmente imprevisível!

Slimani, Lëila (2017). Canção Doce. Lisboa: Alfaguara Portugal.

Nº de páginas: 216

Início da leitura: 14/03/2021

Fim da leitura: 16/03/2021

Canção Doce é um romance escrito por Lëila Slimani, traduzido por Tânia Ganho e que venceu o Prémio Goncourt 2016.

Começo desde já por dizer que fui agradavelmente surpreendida por este livro. Não conhecendo ainda a escritora, escolhi este livro pela capa, pela sinopse e pelo prémio conquistado. Poderia, porém, constituir uma desilusão, o que não sucedeu.

Gostei da forma como Slimani escreve, uma escrita muito cinematográfica, com uma espécie de flashes, que, sem desvendarem tudo, nos instigam o pensamento e nos conduzem a conclusões pessoais. Senti que, ao longo da história, fui criando as personagens na minha cabeça e fui-as acompanhando, com a alma a sentir-se pequenina, o coração ao pé da boca, numa ansiedade crescente. Quando isto acontece, é porque o livro mexe connosco, nos envolve, nos obceca. Numa linguagem crua se cria uma história dura e tensa que nos deixa, muitas das vezes, angustiados e, ao mesmo tempo, expectantes. É daqueles livros que, apesar de nos angustiar, não conseguimos largar.

O livro começa com a morte de duas crianças às mãos de uma ama. É então que se inicia a narração de todos os acontecimentos que levaram a este presumível homicídio.

Myriam e Paul são pais de duas crianças, Mila e Adam. Até então, Myriam era mãe a tempo inteiro. Porém, começa a sentir necessidade de voltar a trabalhar e é convidada a fazê-lo num escritório de advocacia. De entre muitas hipóteses bem ponderadas de arranjar uma ama para os filhos, estes pais, acabam por contratar Louise. Esta é retratada como uma mulher pequenina, branca, como uma boneca de cera, com uma força muito pouco condizente com a sua franzina estrutura física. Revela, desde logo, uma capacidade maternal que conquista as crianças e os pais. Para além de ama, acaba por fazer todos os serviços domésticos de forma irrepreensível, o que os deixa muito admirados, ao ponto de a levarem com eles de férias.

Porém, aos poucos, o casal vai-se apercebendo de que talvez esta dedicação toda, as imensas fotografias das crianças com que os bombardeia diariamente, não são muito normais. Porém, apesar de algum desconforto que começam a sentir, sabem que nunca conseguirão uma ama como esta. Literalmente, ela começa a invadir as suas vidas, de tal forma que, enquanto leitora, me senti sufocar.

Há nestas personagens uma critica latente à sociedade moderna, às relações sociais e familiares atuais, às prioridades definidas no seio da família. Mas há também muito de real. Quantas vezes nos questionamos se a vida que temos é, com efeito, a que desejamos? E, até quando aguentamos? A par disto, há uma ideia muito típica do existencialismo, que coloca no homem toda a responsabilidade pelos seus atos e pelas decisões que toma na vida. Podemos considerar que alguém é incapaz de matar, até ao momento em que a pessoa se vê confrontada com a possibilidade de matar.

O final, ainda que anunciado logo no início da narrativa, deixa-nos, porém, o desejo de saber mais, de desejar que existisse algo mais, mais acontecimentos que justificassem o sucedido. Mas, como em tudo na vida, nem sempre há explicações. As coisas acontecem, porque têm de acontecer.

Deixo apenas algumas das passagens que me fizeram refletir:

“Também há algumas mães, mães de olhar vago. Uma cujo parto recente a retém na orla do mundo e que, no banco, sente o peso da barriga ainda flácida. Carrega o seu corpo de dor e de secreções, o seu corpo que cheira a leite azedo e a sangue. Essa carne que ela arrasta e à qual não dá atenção, nem repouso.”

(Paul) “Parecia-lhe que reinava no quarto um cheiro estranho. O mesmo cheiro das lojas de animais, e da beira-rio, onde por vezes levavam Mila ao fim de semana. Um cheiro a secreções e a clausura, a mijo seco numa cama de gato. Aquele cheiro enjoava-o.”

“Mas agora não havia volta a dar, não podia dizer que afinal já não queria aquela vida. Os filhos ali estavam, amados, adorados, jamais postos em causa, mas a dúvida insinuara-se em todos os recantos.”

 

Johns, Ana (2021). A Mulher do Quimono Branco. Amadora: Topseller


Nº de páginas: 321

Início da leitura: 07/03/2021

Fim da leitura: 13/03/2021

A Mulher do Quimono Branco é um romance de Ana Johns, traduzido por P. Vieira e que me surpreendeu bastante e pela positiva.

E, apesar de ser uma obra ficcional, a autora criou-a a partir de eventos e histórias reais, de entre as quais destaca a do seu pai, um marinheiro americano com uma bela rapariga japonesa. Aborda também acontecimentos que marcaram uma época no Japão. Nos anos de 1957-1958, em que mais de dez mil bebés nasceram da união de militares americanos e raparigas japonesas, algumas ainda crianças. Grande parte destes bebés, sendo fruto de relações não aceites pelas famílias e que poriam em causa a sua conduta na sociedade, acabavam por ser mortos à nascença, em maternidades clandestinas.

A partir deste e de outros factos históricos, a autora conseguiu, neste livro, criar uma narrativa verosímil, com uma linguagem fluente, mas cuidada, o que me deixou rendida logo desde o início da história.

Nesta obra, temos a alternância de sequências narrativas, que intercala o presente, na América, com o passado, no Japão de 1957, 1958. A história presente tem uma forte ligação com a passada e esta, por sua vez, ajuda-nos a perceber a situação presente. Somos conduzidos pelas duas histórias até chegarmos ao Japão presente, onde se fundem, onde se compreendem as correlações.

Tudo começa com Tori, no hospital, a acompanhar e a cuidar do pai nos seus últimos momentos de vida. Doente oncológico, o pai, continua a contar-lhe histórias, que ela sempre ouviu com uma quase devoção. Porém, acredita que muitas dessas histórias são fruto da imaginação do pai, especialmente quando ele descreve o seu casamento com uma japonesa de quimono branco.

Mas o pai entrega-lhe uma carta. Será que a mulher do quimono existiu mesmo?

A par desta narrativa, aparece-nos, então, a história de Naoko Nakamura, no Japão. Aos 17 anos, Naoko apaixona-se por um americano. Mas a sua família te outros planos para ela, o seu casamento com um pretendente que pudesse assegurar a estabilidade económica da família e, ao mesmo tempo, manter intacto o estatuto familiar.

Estaria Naoko disposta a prescindir dos seus sentimentos? Isso é o que poderá saber ao ler o livro.

De salientar, as magníficas descrições das paisagens, das flores, do próprio quimono branco. Lindíssimas! Para mim, destaca-se ainda toda a tradição japonesa que surge, quer através de medos, de obediência, de condutas, quer ainda através de uma série de crenças, que, particularmente, adorei conhecer. Crenças estas que faziam parte da sabedoria que os mais velhos transmitiam aos mais novos e que iam passando de geração em geração.

Adorável, sensível, emocionante são os adjetivos que encontro para melhor descrever este livro.

Destaco apenas algumas passagens que me prenderam ainda mais a atenção:

“Uma vida com amor é feliz. Uma vida para o amor é uma tolice. Uma vida de e se é insuportável.”

“Nunca se deve caminhar e comer ao mesmo tempo. Devemos sentar-nos para demonstrar o nosso respeito pelo tempo e sacrifício que os atos de plantar, colher e preparar os alimentos implicam.”

“«Para saberes a direção em que vais, tens de conhecer tanto as tuas raízes como o teu alcance.»”

“…não consegui apanhar uma aranha dentro de casa, por isso não consegui libertar-me da má sorte que ela carregava.”

“Os três macacos. Eu, a Hatsu e a Jin. O meu coração contrai-se. A Sora pode ser a quarta. Há quatro nas histórias antigas. O outro chama-se Shizaru e cruza os braços para recusar o mal.”

“A preocupação dá sombras grandes às coisas pequenas.”

“Muitos têm sorte, mas poucos têm destino.”

Tudor, C.J. (2019). Os Outros. Lisboa: Planeta Manuscrito.

Nº de páginas: 368

Início da leitura: 01/03/2021

Fim da leitura: 05/03/2021

Os Outros é um thriller policial escrito por C. J. Tudor e traduzido por Mário Dias Correia.

Gostei muito deste thriller, uma vez que nos prende à narrativa desde o início, cativa e vai surpreendendo à medida que a ação avança.

Gabe, no regresso a casa, numa das suas misteriosas ausências, parece-lhe ver a filha num carro. Acaba por perdê-los de vista. Recebe a notícia de que a filha de 5 anos, Izzy e a mulher, Jenny, foram mortas em sua casa. Aquela visão da filha num carro, no meio da estrada e o próprio facto de não ter conseguido fazer o reconhecimento dos corpos, fá-lo acreditar, de forma obcecada, o que é perfeitamente natural por parte de um pai que ama a filha, que não era ela que estava naquele pequeno caixão. Agarra-se com todas as forças a essa ideia, se bem que muitas vezes seja assaltado por dúvidas. Será que era mesmo a filha? Não poderia ser alguém muito semelhante? O certo é que não desiste, nem quando o alertam para os perigos de recorrer aos “Outros”, um submundo paralelo e muito violento, para tentar encontrar a filha.

Até que ponto estaria certo?

Entretanto, surgem outras personagens que ajudam a dar corpo e emoção à história, tornando-se difícil pousá-lo até compreender o que, de facto, sucedeu. E o que esconderia Gabe nessas ausências que o afastavam de casa?

Não posso revelar mais, apenas sugerir que leiam este livro, que é formidável, bem escrito e emocionante!

Backman, Fredrik (2018). A Minha Avó Pede Desculpa. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 336

Início da Leitura: 20/02/2021

Fim da leitura: 27/02/2021

A Minha Avó Pede Desculpa é um livro escrito por Fredrik Backman e traduzido por Elsa T. S. Vieira. Detentor de uma imaginação prodigiosa, o autor põe-nos perante uma história brilhante, contada por uma criança de “sete, quase oito anos”, Elsa. 

Elsa vive com a mãe e o padrasto e visita, esporadicamente, o pai. Gosta de todos eles, mas nenhum chega aos calcanhares da avó materna, com quem passa mais tempo e que muito contribuiu para ela ser a criança que é, detentora de uma sabedoria muito madura para a sua idade, de uma imaginação sobejamente fértil, de um gosto por uma leitura também algo invulgar para a sua idade e de um coração tão grande que, a cada passo, a cada atitude, nos deixa rendidos e a sentir uma imensa ternura por ela.

Começamos por conhecer a Avozinha como alguém que, apesar dos seus 77 anos, tem uma maneira de ser e de viver muito peculiares. É uma avó um pouco taralhouca, capaz de gerar os maiores ódios, mas, também, as maiores paixões. 

É ela que instiga a curiosidade da neta, é ela, com a sua personalidade completamente irreverente, e nada esperada numa avozinha, que a leva a querer saber e compreender sempre mais. E é a Elsa que ela consegue contar as suas histórias (que não tiveram sucesso com a filha), que desperta a curiosidade de ir ao Sr. Google pesquisar tudo o que não sabe, aprendendo o que é e não é para a sua idade, se é que há uma idade para se saberem as coisas. É esta avó que não trata Elsa como uma criança, que a faz crescer e ser a criança especial que é. 

Elsa é uma menina muito inteligente, muito curiosa, muito espevitada e sensata. É nela que a avó delega a imensa responsabilidade de pedir desculpa, por ela, a todos quantos possam ter sofrido com a sua irreverência. Quando não entende algo, Elsa pesquisa e fica a saber. Vai enchendo um frasco com as palavras novas que vai aprendendo e, seguramente, é uma criança que sabe mais que grande parte dos adultos.

Um livro que me fez rir, outras tantas enternecer e, muitas vezes, comover.

Aconselho vivamente!

Zambujal, Mário (2005). Crónica dos Bons Malandros. Lisboa: Quetzal Editores.

Nº de páginas: 152

Início da leitura: 25/02/2021

Fim da Leitura: 27/02/2021


Crónica dos Bons Malandros, livro de estreia de Mário Zambujal em 1980, é um livro intemporal, um clássico. 

Uma escrita fluída, muito "à frente", continua a sê-lo ainda agora. É um livro que, apesar da sua simplicidade, está escrito de forma cativante e brilhante.

Tudo começa com os preparativos para um assalto, pela quadrilha do Renato. O alvo são umas joias que se encontram em exposição na Gulbenkian. Será o assalto das suas vidas, habituados a malandragens de pouca monta.

Entretanto, é-nos explicado, através de analepses, como é que cada membro do bando acabou por se juntar a Renato e como chegaram juntos a este assalto.

É hilariante e torna-se impossível não nos rirmos com as peculiaridades de cada um destes jovens (rapazes e raparigas), bem como até nos enternecermos com algumas vidas tão complicadas que lhes escreveram o passado e ditaram este presente.

Após estas analepses, é retomado o assalto. Um assalto brilhante e hilariante. Que grande criatividade! 

Conseguirão eles enriquecer como tinham previsto?

Convido-vos à leitura deste livro, tendo por seguro que não se vão arrepender e vão divertir-se imensamente!

Mackintosh, Clare (2019). Deixa-me Mentir. Lisboa: Cultura Editora.

Nº páginas: 320

Início da leitura: 15/02/2021

Fim da leitura: 20/02/2021

Deixa-me Mentir é um thriller escrito por Clare Mackintosh e traduzido por Fátima Martins.

Anna é uma jovem mãe, que perdeu os pais, em circunstâncias semelhantes, suicídio. Porém, por várias cartas que tem vindo a receber, pelo caráter dos pais, não acredita que tenha sido apenas suicídio. Quando recebe uma mensagem de aniversário que diz “Suicídio? Pensa Melhor”, decide ir falar com Murray, um polícia reformado, que ainda trabalha como apoio civil na esquadra da sua área de residência. Murray acaba por começar a investigar.

A par da história de Anna, é narrado parte do passado, que diz respeito à mãe e ao pai, o que nos permite ir encaixando peças soltas e até adensa mais o mistério do desaparecimento dos pais de Anna.

Somos ainda envolvidos nos dramas pessoais de Murray, que vive uma situação preocupante com a esposa, que sofre de perturbações do foro psiquiátrico e que divide o tempo entre internamentos e regressos a casa, onde tenta, por várias vezes o suicídio.

As histórias vão alternando, o que nos instiga a continuar a leitura para descobrirmos o que, de facto sucedeu.

Este foi um livro que me captou a atenção mas que, no final, considero que deixou um pouco a desejar, tornando-se pouco credível.

Outro aspeto que tenho de referir como menos agradável é a forma como está escrito, ou melhor, traduzido. Há várias incorreções que me distraem do foco principal, erros e não apenas gralhas, que, no meu entender, não deviam existir, quando houve tradutora e revisora. Esta é uma preocupação que as editoras devem ter, pois, assim, até um grande livro pode ser prejudicado.

Aconselho a leitura a quem queira alguma distração e goste de policiais thrillers.

                                                                                                                  Célia Gil

Ernaux, Annie (2020). Os Anos. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 200

Início da leitura:

Fim da leitura: 20/02/2021

Este livro, Os Anos de Annie Ernaux, traduzido por Maria Etelvina Santos, é um livro excecional. Muito bem escrito, muito completo, um livro que nos faz refletir, que nos envolve, nos devolve vivências guardadas na memória, nos dá a conhecer livros, filmes, músicas (de tal forma, que damos por nós a ir pesquisar e a encontrar algumas pérolas literárias, musicais e cinematográficas). Não é, por isso mesmo, um livro de leitura rápida, exige um compromisso, tempo de reflexão que nada têm a ver com o fugaz, apesar de a maior parte dos acontecimentos narrados terem sido vítimas da frugalidade da própria vida. Mas é literatura, sim! Quem gosta de verdadeira e boa literatura, vai inevitavelmente gostar deste livro.

Os acontecimentos d’Os Anos são-nos apresentados como imagens, flashes que compõem, de certa forma, uma autobiografia impessoal. Há um observar de fora para dentro. Uma interpretação. As imagens são efémeras, permanecem na memória as imagens seletivas. E é incrível como tendemos, ao longo da vida, a replicar imagens aparentemente gastas. Com o tempo, estamos a ser o que foram os pais e até os avós. Estamos a replicar o que criticávamos. Estamos a valorizar o que menosprezávamos.

Muitas foram as passagens que assinalei com post-it, passagens que, de alguma forma, me fizeram refletir ou, simplesmente, sorrir. Exemplifico com o momento em que a narradora menciona o presente, em que o casal tem mais valor do que o solteiro. Em que tudo o que criticavam nos pais, é reproduzido – o casamento, a obsessão pela ascensão social, profissional e material. É um presente em que o ter suplanta o ser. O ser que sonhava, que queria saber, que chocava, desafiava, não se conformava, ficou no passado, do qual se sente uma saudade quase narcísica, um desejo de se desprender desta burguesia comezinha que se aceitou e voltar ao passado, onde ainda não havia eta preocupação com o material. É incrível como a narradora aborda temas tão pertinentes e tão atuais e como conseguimos perceber que nem sempre evoluímos. Quando pensamos, por exemplo, em momentos em que a mulher se impôs e se afirmou na sociedade, somos levados imediatamente a pensar “onde está essa mulher que lutou pelos seus direitos? Acomodada?” E são tantos os temas! Abordados de forma crua e irónica.

Preservam-se estas imagens d’Os Anos na memória, onde ficam, de forma seletiva, registos de acontecimentos, de músicas que ouvimos e, num determinado momento, nos marcaram, de livros que lemos, de escritores com que nos identificámos. Como se a nossa memória tivesse pequenas gavetas, que vamos abrindo sempre que nos sentimos afastar de quem realmente somos. Por vezes, sentimos necessidade de recuperar essas memórias. Outras, surgem naturalmente quando, por exemplo, as associamos a uma vivência presente. Outras, ainda, quando olhamos para trás numa reflexão sobre o que foi e tem sido a nossa vida.

Escusado será dizer que adorei este livro. Um pequeno grande livro!

Ficaria aqui a fazer uma cópia de todo o livro para poder exemplificar a dimensão de tudo o que nos transmite e prende a atenção. Porém, como não o posso fazer, destaco apenas algumas passagens:

- A propósito do ano de 1968: “Todos podiam usar da palavra, quer representando um grupo, uma condição ou uma injustiça, tinham direito a falar e a serem ouvidos, fossem ou não intelectuais. Ter passado por uma determinada experiência enquanto mulher, homossexual, dissidente de uma classe, prisioneiro, agricultor, mineiro, concedia-lhes o direito de falar em nome próprio, de dizer eu. (…) Saíamos dos debates de duas horas sobre a droga, a poluição ou o racismo, numa espécie de embriaguez e, no fundo, com a consciência de não ter ensinado nada aos alunos, questionando se não estaríamos a trabalhar para aquecer, mas ainda assim pensando que a escola servia para alguma coisa.” (pp.86-87)

“As vergonhas de antigamente já não faziam sentido. A culpabilidade era ridicularizada: somos todos judaico-cretinos, a infelicidade sexual denunciada, falta-de-prazer o pior insulto. (…) O discurso do prazer suplantava tudo. Era preciso ter prazer a ler, a escrever, a tomar banho, a defecar. A finalidade de qualquer atividade humana era o prazer. Pensávamos na nossa história, no que era ser mulher. Percebíamos que não tínhamos tido a nossa parte de liberdade sexual, criativa, em relação a tudo o que é concedido ao homem. (…) percorríamos as nossas vidas retrospetivamente, sentíamo-nos capazes de deixar marido e filhos, de nos desligarmos de tudo e de escrever com crueldade. (…) Um sentimento comum a muitas mulheres estava em vias de desaparecer – o da sua inferioridade natural.” (pp.88-89)

“É verdade que todas as causas estavam ao rubro, comités de estudantes do liceu, autonomistas, ecologistas, antinucleares, objetores de consciência, feministas, homos, todos se exaltavam, mas não se uniram.” (pág. 99)

E mais, muitos exemplos teria de destacar! Sobre a II Guerra Mundial, sobre tudo e nada!

Leiam, vão gostar!

                                                                                             Célia Gil

Bravo, Íris (2020). A Terceira Índia. Lisboa: Cultura Editora.

Nº de Páginas – 484

Início da leitura – 8 de fevereiro

Fim da leitura – 14 de fevereiro

A Terceira Índia de Íris Bravo é um romance que se caracteriza por uma escrita fluente, mas que ficou muito aquém das minhas expetativas.

Primeiro, é um livro demasiado extenso, tornando-se a história muito repetitiva, com pormenores que dispensávamos.

Segundo, as personagens não me cativaram. Sofia tem 32 anos, é professora e casada com Ricardo, um “betinho” pretensioso. Sofia é uma eterna adolescente, não revelando a maturidade suficiente na gestão das suas relações amorosas. Preocupa-se com o bem da humanidade. Porém, vangloria-se disso.

É casada com Ricardo, um arquiteto de uma família nobre ribatejana. Porém, face à sua incapacidade de engravidar (sofre de endometriose), tendo apenas um ovário, acaba por ficar obcecada, não desistindo, ainda que os médicos a aconselhem a parar e submete-se a várias tentativas de FIV. Para além deste drama, acaba por descobrir que o marido a traiu com uma estagiária e sai de casa, pedindo-lhe o divórcio.

Quando uma amiga lhe propõe que a substitua nas suas funções docentes em Moçambique, para se poder tratar de um tumor, Sofia não hesita e decide partir para Moçambique. Esperava eu que este fosse o ponto de viragem da história. Mas não foi assim.

Logo na viagem conhece Alex, com quem acaba por se envolver. E mais não digo, para não adiantar muito e revelar pormenores a quem quer ler.

Só na parte final é que a ação ganha um pouco de suspense, mas de forma pouco credível. O final inesperado, até poderia ser interessante, se a história tivesse tido a força e o interesse que a premissa inicial prometia.

Kelman, Suzanne (2020). Uma Janela Com Vista Sobre os Telhados. Lisboa: Editorial Planeta


Nº de páginas: 412

Início da leitura: 31/01/2021

Fim da leitura: 06/02/2021

Uma Janela Com Vista Sobre os Telhados é um romance escrito por Suzanne Kelman e traduzido por Jorge Pereirinha Pires, cuja ação decorre em Amsterdão durante a Segunda Guerra Mundial.

Josef Held era um professor de matemática que levava uma vida pacata até ao dia em que dá abrigo em sua casa a um jovem aluno judeu, Michael, que se vê forçado a separar-se da sua namorada, Elke, quando a Gestapo começou a capturar os judeus.

Até àquele momento, o professor vivia na mais profunda solidão, acompanhado de memórias que o consumiam e não o deixavam ser feliz. É quando dá abrigo a Michael, no sótão de sua casa, que a sua vida ganha um novo sentido. Uma história de resiliência, de fé, de amizade, de sacrifício e de altruísmo.

Mas esta estadia de Michael no seu sótão não é fácil nem pacífica, uma vez que Josef se vê obrigado a receber em sua casa a sobrinha, Ingrid, que vivia com um nazi. Esse facto, fazia com que vivessem sempre com o coração nas mãos e receosos de que Michael pudesse ser descoberto. Quando o jovem adoece, Josef dá-nos a todos uma lição de vida e sacrifica-se, adoecendo também, para poder trazer do hospital medicamentos e, assim, curar, o seu novo amigo.

Por quanto tempo seria possível esconder um judeu, quando os nazis passavam tudo a pente fino para os capturar? Ainda por cima com uma sobrinha defensora do nazismo?

Teria Michael ainda direito a amar, recuperando a sua relação com Elke, o grande amor da sua vida? Estaria ela ainda à sua espera, depois de tanto tempo sem saber nada dele?

E Josef, poderia ainda ser feliz?

Uma leitura que não pode mesmo perder! Um livro intenso, de linguagem fluida que nos faz estremecer, sentir a dor que invade as personagens e se apodera inevitavelmente de nós.  Li este livro com metas, numa leitura conjunta. Gosto muito dessas leituras e até é interessante esperar ansiosamente pelo dia seguinte para prosseguir numa leitura tão intensa e viciante.


O’Brien, Edna (2019). Na Floresta. Amadora: Cavalo de Ferro

 

Nº de páginas: 240

Início da leitura: 30/01/2021

Fim da leitura: 31/0/2021

Na Floresta é um livro escrito por Edna O’Brien e foi traduzido por Manuel Alberto Vieira. Um livro que tem tanto de pesado, forte, lúgubre, sinistro, macabro, quanto de empolgante e envolvente. Comecei ontem e não consegui quase pousar (a não ser para ler 50 páginas de outro livro que comecei hoje para um desafio de leitura conjunta).

Que livro! Ainda estou em choque e, ao mesmo tempo, em êxtase! Um forte e cru abanão. Baseado numa história real sobre o desaparecimento de Imelda Riney, de 29 anos e seu filho, de 3 anos, em abril de 1994, no Condado de Clare, bem como de um padre, Joe Walshe, do Condado de Galway. Até que ponto se é do bem ou do mal? Será que uma infância de rejeição, de sofrimento, de abusos, entre uma e outra instituição, serão suficientes para justificar a atuação e a conduta de um homicida?

Partindo da história real já mencionada, surge-nos o jovem problemático Mich O’Kane, um órfão de mãe (a única pessoa que, segundo ele, o entendia), temido por todos e que, ao sair do local onde vivia, prometeu regressar com um banho de sangue. Mich é um jovem desequilibrado, sem limites para nada, sem emoções morais e que atribui os seus atos às vozes do mal que lhe falam e com as quais conversa durante os seus sonhos ou alucinações, na sua própria solidão. E é impressionante como a autora nos coloca perante os pensamentos, a mente psicótica deste jovem. Cheguei, no início, a ter pena da criança que, como muitas crianças, foi vítima de tanta violência e de abusos nas instituições por que passou. Mas, se calhar, já desde a infância que lá estava aquele ser distorcido e violento que, mais tarde se vem a revelar. Um psicopata é sempre um psicopata, sem noção de nada (já tive um aluno com perturbações deste foro e que tentou matar os avós. Confirmo que nunca sabia como ia reagir numa aula. Sei que tinha um plano detalhado para destruir a cidade onde vivo. Era preciso tratá-lo com “pinças”, sempre a medo, sem saber a próxima reação. Por isso, ainda mais curiosa fiquei para tentar perceber uma mente destas, algo que não tem explicação).

Um livro 5 estrelas. Muito bem escrito, envolvente e para o qual somos sugados como um lodaçal que nos absorve e é com dificuldade que dele saímos.

                                                                                                                  Célia Gil

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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