Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Cruz, Afonso (2021). Sinopse de Amor e Guerra. Lisboa: Companhia das Letras.

Nº de páginas: 192

Início da leitura: 24/02/2022

Fim da leitura: 26/02/2022

**SINOPSE**

Theobald Thomas e Bluma Janek estão fadados a ficar juntos desde que vêm ao mundo. Os livros são o seu ponto de encontro. Mas a Berlim do pós-guerra, uma cidade enlutada e dividida, haverá de contrariar o que o destino parecia ter escrito.

Numa noite de Agosto, sem aviso, o chão de Berlim é rasgado pelos alicerces de um muro o mais famoso da História e a promessa do primeiro beijo fica adiada.

O novo romance de Afonso Cruz parte de uma trama real em que o amor e a guerra se entrelaçam para questionar certos limites, encontrando no fado individual de dois amantes o reflexo de algo universal: o que seríamos capazes de fazer por paixão, que barreiras ultrapassaríamos? Pode o amor saltar muros sem que alguém se magoe?

**OPINIÃO**

É sempre um prazer ler Afonso Cruz. A forma poética como nos conduz pela história, por mais dura que seja, é sempre um deleite.

Berlim, após a Segunda Guerra Mundial, vê-se dividida pelo muro que divide a parte ocidental da oriental. As personagens cativam-nos desde o início. O sonho de Theobald é casar com Bluma, uma jovem leitora. Para a conquistar, decide ler os livros por ela lidos e os seus encontros são todos em torno dessas leituras. Muitas vezes, quando Bluma diz em voz alta passagens de livros, Theobald surpreende-a, dizendo o final com ela.

A construção do muro de Berlim veio trocar as voltas ao destino e separar Theobald e Bluma. Poderá a guerra afastar os que se amam? Até que ponto somos capazes de transpor os muros, as barreiras com que a vida nos vai confrontando?

Como o título indica, é uma “sinopse”, não tendo sido desenvolvidos alguns acontecimentos e pormenores como eu gostaria. Não deixa de ser um bom livro, apesar de me ter sabido a pouco.

Bértholo, Joana (2018). Ecologia. Alfragide: Editorial Caminho.

 

Nº de páginas:504

Início da leitura: 17/02/2022

Fim da leitura: 24/02/2022

 

**SINOPSE**

Numa sociedade que se fundiu com o mercado - tudo se compra, tudo se vende - começamos a pagar pelas palavras.

A estranheza inicial dá lugar ao entusiasmo.

Afinal, como é que falar podia permanecer gratuito? Há seis mil idiomas no mundo.

Seis mil formas diferentes de dizer ecologia, e tão pouca ecologia.

Seis mil formas diferentes de dizer paz, e tão pouca

paz. Seis mil formas diferentes de dizer juntos, e cada um por si.

 

**OPINIÃO**

Começo por alertar para o facto de este não ser um romance muito vulgar, não só pela temática e forma como é abordada, mas pela própria estrutura e pela escrita da autora. Depois, quem quiser fruir desta leitura, não o pode fazer de forma rápida, pois, necessariamente, sentimos necessidade de nos determos em algumas passagens para refletirmos ou para, simplesmente, complementar a informação que nos é dada com o que se esconde por detrás dos códigos QR, que nos vão surgindo ao longo do texto, ou mesmo em algumas imagens.

No meu entender, há toda uma lógica na forma como está escrito, nas longas listas de palavras, nos jogos de palavras, porque tudo contribui para realçar a mensagem que se pretende transmitir.

Lucía trabalha para uma empresária de sucesso, há muito que existe entre ela e o marido um grande distanciamento e nem sempre tem paciência para a filha questionadora, que coleciona palavras num caderninho e que, quando não percebe, questiona, ainda que algumas questões nos arranquem sorrisos ou até gargalhadas, pelo facto de nunca nos ter passado tal ideia pela cabeça. Candela é uma criança deliciosa, que satura os adultos, mas a quem eu acho muita piada. Dou aqui alguns exemplos. Quando a mãe fala nos “dias que correm”, Candela questiona “Por que é que correm? Qual é a pressa? Correm para onde?” ou quando a mãe diz que "o tempo está embrulhado", questiona "quem, como se "embrulha"?, é um presente, e é uma oferta para quem?".

Trabalha para Darla Walsh, uma diretora-executiva de uma multinacional sediada em Dublin. Carolina é a Mulher – Eco de Darla, tendo por única função repetir o que Darla diz.

Num mundo onde tudo se paga, tudo se taxa, determina-se que as palavras ditas terão de se começar a pagar. E é Darla que subsidia um centro de estudo da linguagem, um “laboratório de Línguas”, numa perpetiva unicamente economicista.

A narradora vai sendo bastante irónica, quando critica o facto de o ser humano tudo aceitar, arranjar formas de achar normal o impensável (ex: “Uma mulher paga a outra mulher para que lhe limpe a casa enquanto ela vai a um ginásio correr numa plataforma estática.” (…) “uma jovem paga a uma mulher mais velha para que lhe coloque pestanas mais longas sobre as suas pestanas originais. Comentam:

- Ninguém diria que são falsas!”

“Um jovem crente paga à sua Igreja para que o seu Deus zele por ele”. E muitos, muitos exemplos desta sociedade em que vivemos. De tal forma se paga por tudo e se encontram explicações para os benefícios que esse pagamento nos trouxe, que o resultado é uma evolução tecnológica desenfreada.

Este romance distópico, é um manifesto de intervenção, um grito de revolta, uma mão na consciência.

A privatização da linguagem vai decorrer em três grandes vagas e, aos poucos, à medida que as vagas avançam, o ser humano está completamente controlado pelo progresso tecnológico, que permite vigiá-lo constantemente, e fazê-lo pagar avultadas somas em multas, que levam a uma necessária contenção, um fechar de bocas, como se, progressivamente as pessoas se fossem esvaziando do que ainda lhes restava, como que automatizadas. Esta é uma situação que angustia, nos deixa de coração apertado. O que nos vale é Candela, a criança que continua a colecionar palavras, a querer compreendê-las, aprender novas palavras, perceber por que podem ter mais de um significado. Onde nos poderá conduzir a tragédia da incomunicabilidade?

Se a autora tivesse reduzido determinadas listas de palavras, não se teria perdido o conteúdo e a mensagem da obra. Porém, é um grande livro, um bom livro, de que aconselho a leitura. Para quem tem paciência em termos de leitura!

 

Chiziane, Paulina (2003). Ventos do Apocalipse. Lisboa: Editorial Caminho.


Nº de páginas:296

Início da leitura:14/02/2022

Fim da leitura: 16/02/2022

**SINOPSE**

Guerra. Destruição. Miséria. Sofrimento. Humilhação. Ódio. Superstição. Morte. 
Este é o cenário dantesco, boscheano, que encontramos nas páginas de Ventos do Apocalipse. As palavras fortes, cruas, incisivas, dilacerantes e delirantes da autora levam-nos a questionar-nos quanto de ficção existirá no realismo das descrições deste palco apocalíptico em que a guerra mais aberrante será talvez a de dois povos, os mananga e os macuácua, colocados entre dois fogos e não sabendo quem os defende e quem os ataca.

 Paulina Chiziane é uma contadora nata de estórias. Consegue levar-nos ao âmago do mais baixo dos mais baixos degraus de degradação do ser humano. Com ela percorremos as vinte e uma noites de pesadelo e tormentos que foi o êxodo dos sobreviventes de uma aldeia. Através dela aprendemos a respeitar Sixpence, tornado o herói simbólico, emblemático, e líder venerado desses fugitivos.

**OPINIÃO**

Chiziane, vencedora do Prémio Camões 2021, é uma excelente contadora de “estórias”. Nesta obra, a autora recria um cenário ficcional do resultado que as longas e sucessivas guerras de Moçambique terão tido nos povos Mananga e Macuácua, vitimados pela violência, a fome e a morte. E é de forma dura que retrata a seca, a fome, a guerra, o fogo, o desespero, a loucura, a morte, a perda de valores – o apocalipse. Conta-nos sobre o momento em que, tendo a natureza deixado de ser feliz, também os homens se tornaram infelizes: “A terra abre violentas fendas ávidas de água. Será necessário desabar o céu inteiro para dar de beber à terra e aos homens com ela.” (pág. 24). Mesmo perante a “decadência do mundo, o desnudar da terra” (pág. 55), ou quando “a morte das árvores vaticina a morte dos homens” (pág. 66) e “o silêncio de sepultura” toma conta dos caminhos de areia enegrecidos, dos “campos calcinados” (pág. 95), estes homens carregam dentro de si a esperança, demonstrada através dos cânticos que erguem aos céus, onde estão os seus queridos defuntos, porque “dentro de cada homem há soldados nobres que combatem” a dor (pág. 117). Esta força, não a vão buscar aos livros nem às bibliotecas, que não têm, vem de uma herança dos seus antepassados, pois “os seus segredos residem na massa cinzenta dos antigos, cada cabeça é um capítulo, um livro, uma enciclopédia, uma biblioteca” (pág.120). Mas conseguirá o povo, perante a barbárie de todas as catástrofes, manter-se fiel às suas crenças, tradições e defuntos, mesmo perante a morte iminente? Que mudanças lhes reservarão os ventos?

Adorei este livro, a forma como Chiziane escreve. Consegue falar de acontecimentos terríveis de forma direta e crua, mas, ao mesmo tempo, tão poética, tão comovente! E sempre em contante diálogo com o leitor, numa linguagem repleta de marcas de oralidade, que nos faz sentir ali, a observar todos os acontecimentos que nos são narrados. Absolutamente imperdível!

Dueñas, Maria (2021). Sira. Porto: Porto Editora.

Tradução: Carla Ribeiro

Nº de páginas: 608

Início da leitura: 07/02/2022

Fim da leitura: 13/02/2022

**SINOPSE**

A Segunda Grande Guerra está a chegar ao fim, e o mundo avança para uma reconstrução tortuosa. Depois de cumprir as suas obrigações como colaboradora dos serviços secretos britânicos, Sira encara o futuro ambicionando alguma serenidade. Mas essa paz tarda em chegar. O destino reserva-lhe um infortúnio trágico que a obrigará a reinventar-se e a, mais uma vez, tomar as rédeas da sua vida sozinha e lutar com todas as forças para se adaptar ao futuro.

Entre factos históricos que marcarão uma época, Jerusalém, Londres, Madrid e Tânger serão os cenários para as novas aventuras de Sira, onde enfrentará desgostos e novos riscos, reencontros inesperados e a experiência da maternidade.

Sira Bonnard – antes de Arish Agoriuq, antes de Sira Quiroga – não é a inocente costureira que nos deslumbrou com figurinos e mensagens clandestinas, mas o seu encanto permanece intacto.

Sira está de volta, carismática e inesquecível.

O regresso da protagonista de O tempo entre costuras.

**OPINIÃO**

Como tinha lido e gostado imenso de O Tempo Entre Costuras, quando surgiu este livro fiquei logo com vontade de o ler, porque Sira é, sem dúvida, uma personagem carismática e interessante. Realmente, Dueñas não desilude. Escreve muito bem. De tal forma que não damos pela passagem das 608 páginas. O ritmo fluído, a ação constante e emocionante, a temática abordada do pós Segunda Guerra, prendem-nos à história do início ao fim.

Sira é uma inspiração, uma mulher de garra que, mesmo na adversidade, não esmorece, adaptando-se a cada novo desafio que a vida lhe vai reservando. Ex modista, desde O Tempo entre Costuras que se vê envolvida como espia ao serviço do governo britânico. Agora, tenciona viver calmamente a vida com o filho, mas é novamente arrastada para o mundo da espionagem, quando lhe propõem acompanhar Eva Perón a Espanha.

Para além de ser envolvente e muito bem escrito, está historicamente muito bem contextualizado. A autora presenteia-nos, no fim do livro, na “Nota da autora”, com vários títulos de livros, cerca de 30, que leu para mais fidedignamente esboçar um fiel panorama do ambiente e acontecimentos narrados. Excelentes propostas de que anotei algumas para a minha lista infindável de livros a ler.

Aconselho vivamente a leitura. 

Ishiguro, Kazuo (2019). As Pálidas Colinas de Nagasáqui. Lisboa: Gradiva.

Tradução: Gabriela Gonçalves

Nº de páginas: 224

Início da leitura: 04/02/2022

Fim da leitura: 05/02/2022

**SINOPSE**

Depois do suicídio da filha, Etsuko, viúva japonesa que mora em Inglaterra, fica a sós com as suas recordações.

Etsuko é assim transportada a um verão quente de Nagasáqui, num tempo em que procurava reconstruir a vida, depois da guerra. E quando as reminiscências a levam à sua estranha amizade com Sachiko, uma mulher rica que ficou reduzida a uma vida errante, o passado e o presente fundem-se numa narrativa intensamente envolvente e de uma perturbante nitidez.

**OPINIÃO**

Este foi o romance de estreia de Ishiguro, publicado originalmente em 1982. O facto de o autor ter nascido em Nagasáqui, confere às descrições um grande realismo.

Neste romance, vão-se intercalando o presente, em que Etsuko vive em Inglaterra e recebe a visita da filha mais nova Niki, após o suicídio da filha mais velha, Keiko. A visita da filha, desencadeia recordações por parte de Etsuko. Surge assim a memória de um passado, logo após a bomba que deixou Nagasáqui em “ruínas carbonizadas” e em reconstrução. É incrível a descrição que o autor faz da terra devastada, das valas que se abriram, da água estagnada, do lodo, da noção de que muitas doenças adviriam desta devastação.

Etsuko recorda a sua improvável amizade com Sachiko, uma estranha mulher recém-chegada a Nagasáqui, num momento em que ela está grávida de Keiko. Estranha também era a forma como Sachiko tratava e educava a filha, Mariko, que não só não frequentava a escola, como era deixada sozinha por várias vezes, correndo sérios riscos nas margens inseguras do rio.

Etsuko relembra ainda a altura em que o sogro os foi visitar, a forma como via o trabalho do marido, que não tinha tempo para se dedicar à família, a forma preconceituosa com que ele encarava o casamento, considerando que a mulher deveria fazer tudo o que o marido mandava e que considerava que uma mulher que não votasse no partido do marido, era o princípio de uma relação doente e que estas modernices vinham dos EUA.

Este contraste de mentalidades é também muito evidente entre Etsuko e Sachiko, cujo sonho era emigrar para a América. Aliás, são vários os momentos da obra em que se sente a fusão entre as duas culturas, a noção de perda de uma identidade japonesa.

Apesar de ter sentido que gostava de saber um pouco mais sobre o que sucedeu a Sachiko e à própria filha de Etsuko, Keiko, não posso deixar de salientar esta capacidade de Ishiguro de nos transportar para as histórias, os locais, as personagens, através de diálogos intimistas que convocam a nossa presença e atenção constantes. Não adorei, mas gostei!

Cronin , Marianne (2021). Os Cem Anos de Lenni e Margot. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Maria do Carmo Figueira

Nº de páginas 336

Início da leitura: 29/01/2022

Fim da leitura: 04/02

**SINOPSE**

Lenni tem 17 anos e pouco tempo de vida.

Mas o encontro com Margot, um espírito rebelde com 83, está prestes a mudar tudo nos seus dias.

A vida é curta. Ninguém sabe isso melhor do que Lenni, de 17 anos, internada numa enfermaria para doentes terminais. Em breve, apren­derá que não é apenas o que se faz com a vida que importa - mas também como e com quem a partilhamos.
Contrariando as ordens do médico, Lenni começa a frequentar aulas de arte. É lá que conhece Margot, uma doente de outra enfermaria, com 83 anos e um espírito rebelde. O laço que se cria entre elas é instantâneo, ao perceberem que, somando as suas idades, viveram cem anos incríveis.

Para celebrar o seu século em comum, decidem pintar as histórias das suas vidas: de como é envelhecer e ser jovem, dar alegria, receber bon­dade, perder o amor ou encontrar a pessoa da nossa vida.

À medida que esta maravilhosa amizade se aprofunda, os dias de Lenni e Margot ganham cada vez mais luz, esperança e… vida.

Extraordinariamente espirituoso e cheio de ternura, Os Cem Anos de Lenni e Margot é um romance que nos relembra de que é feito, ver­dadeiramente, o admirável dom da vida. Uma história sobre a nossa capacidade infinita de criar amizade e amor, mesmo nos momentos mais difíceis - em que mais precisamos deles.

**OPINIÃO**

Gostei muito deste livro. Não é um tema que me seja fácil de ler. Falar de doenças terminais é uma temática que mexe comigo, que me deixa desconfortável. Porém, as personagens que se destacam neste livro, tornam esta realidade menos penosa, talvez pela maneira de serem e encararem a doença.

Lenni surpreende-nos logo aquando da sua visita à capela. É de forma dura, mas tão compreensível que ela pergunta ao reverendo: “Porque é que eu estou a morrer?". Lenni revela-se, nas suas conversas com o padre, uma jovem muito perspicaz, curiosa, preocupada e amiga.

O próprio facto de Lenni proibir o pai de voltar ao hospital, é revelador da sua maturidade, pois entende que os que estão a sofrer com ela, estão a morrer com ela. Sentiu, então, necessidade de os libertar das garras da morte, para amenizar o sentimento da perda e não verem a evolução doença que leva o ser a um estado vegetativo que só poderia deixar ainda mais tristes os que os amam e acompanham.

Nada é por acaso, como o encontro entre a jovem Lenni, de 17 anos e a senhora de 83 anos, Margot, na sala das artes. Aos poucos edifica-se entre elas uma amizade improvável mas muito forte. A partir das pinturas, e depois através de registos escritos que Lenni prefere às pinturas, estas duas pessoas condenadas à morte, contam histórias do seu passado, das suas vidas. Ao perceberem que juntando as idades das duas, a conta perfaz cem, decidem que é a idade delas é essa, a soma das suas idades. Por isso, já viveram muito, já viveram 100 anos! 

«Mas, à minha frente, estavam dois números importantes, dois números que seriam importantes para o resto dos meus dias contados.

— As nossas idades juntas — disse-lhe em voz baixa — são cem anos.»

Ambas não tiveram vidas fáceis e interessam-se pela vida uma da outra. Achei extremamente interessante a capacidade de Lenni de se transpor para o passado de Margot e de se imaginar lá, com ela. Afinal, é o sonho que nos mantém vivos. Não necessariamente para sempre, mas enquanto vivemos, ainda que de forma apagada, sem brilho, confinados ao espaço de um hospital. Também é importante o sonho para percebermos que a luz está lá em cima, nas estrelas e, saber que as estrelas que brilham são as que já morreram, também ameniza a própria aceitação da morte, como algo natural, como a continuação da vida terrena numa outra esfera, numa outra dimensão, que poderá até ter mais luz, menos sofrimento, mais harmonia. 

«Não me lembrava da última vez que tinha visto as estrelas. (...) Faziam o mundo parecer outra vez grande. Há tanto tempo que o meu mundo estava reduzido ao hospital.»

A narrativa é fluída, a linguagem simples. E é tão fácil gostar e admirar a Lenni. Aconselho vivamente a leitura.

Gunnis, Emily (2019). A Rapariga da Carta. Amadora: TopSeller.

Tradução: Ana Reis

Nº de páginas: 352

Início da leitura: 30/01/2022

Fim da leitura: 03/02/2022

**SINOPSE**

No inverno de 1956, a jovem Ivy Jenkins engravida e é enviada em desgraça para St. Margaret, uma sombria casa de acolhimento para mães solteiras, no sul de Inglaterra. A bebé é adotada contra a sua vontade, e Ivy teme nunca sair daquele lugar aterrador. Sessenta anos mais tarde, Samantha Harper, uma jornalista desesperada por um furo, depara-se com uma carta do passado, e o seu conteúdo chocante comove-a. A carta é de Ivy, uma jovem mãe que implora para ser resgatada de St. Margaret… antes que seja tarde de mais. Samantha é arrastada para esta história trágica e descobre uma série de mortes repentinas e inexplicáveis em torno daquela rapariga e da sua filha.

Com o edifício antigo de St. Margaret prestes a ser demolido, Samantha tem apenas algumas horas para desvendar os terríveis segredos que aquele lugar esconde, antes que a verdade, perturbadoramente perto de si, se perca para sempre…

** OPINIÃO**

Que livro! Este é daqueles livros em que é impossível não nos comovermos. É uma história muito intensa. Apesar de St. Margaret ser um espaço ficcional, tal como toda a história, a autora parte de uma investigação que fez sobre muitas casas de acolhimento que existiram, em especial na Irlanda, tendo existido casas semelhantes no Reino Unido. Para estas casas eram enviadas as mães solteiras, para que as famílias não tivessem de passar pela vergonha. Os bebés, após o nascimento, eram tirados às mães contra a sua vontade. As recém-mães eram tratadas como pecadoras, maltratadas pelas freiras que geriam estas casas. A maior parte das crianças era adotada, mas havia muitas que ficavam escondidas, chegando a ser submetidas a ensaios clínicos por parte de farmacêuticos. Muitas destas mães não conseguiram ter mais filhos, acabando por sofrer de doenças mentais. Toda a comunidade compactuava e deixava que acontecessem verdadeiras atrocidades.

Um livro que não se esquece facilmente e que angustia, porque nos apresenta o ser humano no que de pior este pode ter e ser.

A história prende logo desde o início e torna-se quase impossível parar a leitura. Intercalando diversos momentos da ação passados com presentes, torna-se viciante e impossível de largar até desvendar todo o mistério que nos vai sendo apresentado. Uma história que choca, que dilacera e uma escrita fluída, direta e envolvente, fez-me gostar muito deste livro. Aconselho a leitura, mas alerto os mais suscetíveis para a dureza de todos os pormenores.

Bryndza, Robert (2022). Momento Final. Loures: Alma dos Livros.

Tradução: Carla Ribeiro

Nº de páginas: 304

Início da leitura: 23/01/2022

Fim da leitura: 27/01/2022

**SINOPSE**

A investigação de Kate Marshall sobre o desaparecimento de uma jornalista há quase treze anos leva-a por um caminho inesperadamente retorcido, num thriller genial e intenso.
Kate Marshall e o seu parceiro, Tristan Harper, entram no terreno quando são contratados para investigar um caso arquivado, decorrido há mais de uma década. Uma jovem jornalista chamada Joanna Duncan desapareceu depois de denunciar um caso cujo escândalo político teve grandes repercussões. O mistério nunca foi resolvido e ela nunca foi encontrada. A maior parte das pessoas seguiu em frente. Exceto a mãe de Joanna.
Quando conseguem aceder aos arquivos originais do processo, Kate e Tristan começam a seguir as pistas deixadas pela investigação anterior. Mas, ao contrário dos que lhes antecederam, descobrem entre os pertences de Joanna os nomes de mais dois outros jovens que desapareceram sem deixar rasto.

Enquanto tentam reconstituir os últimos dias destas três pessoas desaparecidas, Kate e Tristan percebem que talvez Joanna tenha descoberto algo ainda mais sinistro do que um escândalo político: a identidade de um assassino em série que se move à vista de todos sem nunca ser apanhado.

**OPINIÃO**

Este é um livro que, como os restantes do autor, serve para momentos de descontração, uma vez que é de fácil leitura, sobretudo para quem é apreciador de policiais. Não vejo, contudo, nada de novo. Antes pelo contrário, é mais do mesmo. É um autor que entretém, mas não surpreende.

Depois me muitos anos de investigação policial ao desaparecimento de uma jovem, há cerca de 12 anos, quando o caso é dado como encerrado, a mãe da jovem desaparecida não tenciona desistir de encontrar a filha e contrata Kate e Tristan, atualmente investigadores particulares, para investigarem o desaparecimento de Joanna, uma jornalista promissora que teria começado a investigar um escândalo político. Mas parece que esta não terá sido a única jovem desaparecida…. Contudo, quando começam a investigação, percebem que não será fácil e que estes desaparecimentos estão relacionados com um escândalo político, que envolve um assassino em série… E mais não posso dizer, sem que conte mais do que devia.

Lecoat, Jenny (2021). A Guerra de Hedy. Porto: Porto Editora.

Tradução: Maria de Fátima Carmo

Nº de páginas: 272

Início da leitura: 20/01/2022

Fim da leitura: 22/01/2022

**SINOPSE**

No fim de junho de 1940, as Ilhas do Canal, ao largo da costa francesa, são ocupadas pelas forças nazis.

A jovem Hedy Bercu, uma judia vienense que chegara a Jersey dois anos antes, fugindo da anexação da Áustria pela Alemanha, encontra-se novamente encurralada. Porém, desta vez, parece não haver como escapar.

Apesar de judia, Hedy encontra trabalho como tradutora junto das autoridades ocupantes e começa a participar em atos de resistência. É então que se apaixona pelo tenente alemão Kurt Neumann, iniciando uma relação proibida da qual rapidamente a sua vida passa a depender.

A Guerra de Hedy acompanha a vida desta jovem mulher e a luta que travou para sobreviver à ocupação nazi e evitar a deportação. Baseada em factos verídicos, esta é uma história de coragem, amor e esperança numa época em que a crueldade imperou: a Segunda Guerra Mundial.

**OPINIÃO**

Quando lemos um livro cuja temática se relaciona com o holocausto, há que distinguir dois tipos de livros: as histórias reais, mais ou menos romanceadas e as histórias ficcionais, que é o caso de O Rapaz do Pijama às Riscas, dos romances que têm como fundo histórico esta época e dos romances, em que, apesar de se passarem nesta época, pouco dela falam.

Este é claramente um romance histórico ficcional, que de verídico tem apenas a contextualização histórica. Porém, é uma contextualização histórica, quanto a mim, bem conseguida, que não se limita a ver a história da perspetiva dos judeus, mas também de alguns alemães que também não concordavam com as ideias de Hitler. Sim, porque é muito fácil julgar um povo colocando-o todo no mesmo “saco”. Mas, como em todo o lado, há pessoas más e há pessoas boas. E, muitas vezes, as pessoas boas acabam por se ver remetidas ao silêncio e à mentira, por uma questão de sobrevivência. Acredito que só quem esteve lá consegue ajuizar devidamente o que sentiu e o que se passou à sua volta.

E por que razão não poderiam, ainda que numa guerra tão cruel, nascer paixões ou mesmo amores para a vida? Seria assim tão improvável uma judia e um nazi se apaixonarem e viverem um grande amor, ainda que em tempos tão conturbados? Mesmo em histórias reais, sabemos que, em muitas situações, foi o amor que os salvou, o amor próprio, o amor pelos familiares, o amor pela pessoa amada…uma vez que lhes deram força, uma réstia de esperança para terem por o que lutar.

Vieira, Alice; Mateus, Nélson (2021). Diário de uma Avó e de um Neto Confinados em Casa. Alfragide: Casa das Letras.

Nº de páginas: 160

Início da leitura: 18/01/2022

Fim da leitura: 19/01/2022

**SINOPSE**

2020 foi um ano estranho para todos. Nunca passámos tanto tempo em casa, nunca passámos tanto tempo sem ver aqueles que são importantes para nós. E quando a necessidade apertou, foram precisas novas, e velhas, formas de comunicação: regressou a conversa à janela, foi-se embora o abraço, chegaram os Zooms.

Mas, onde ficam outras gerações nestes tempos incertos?

Como faz uma avó que nunca aprendeu a mandar SMS ou um avô cujo telemóvel não tem câmara?

Mais do que nunca, as gerações mais velhas têm-se visto isoladas, mas tal não devia ser, especialmente considerando a tecnologia que temos hoje a nosso dispor. E é aí que entram Alice Vieira e Nélson Mateus, Avó e Neto adotados, uma ponte entre gerações que ensina como a alma está algures entre a vivacidade dos jovens e as memórias dos mais velhos, e que podemos criar algo de mágico ao juntar os dois.

**OPINIÃO**

Este diário em forma de carta onde conversam, mesmo à distância, é uma verdadeira delícia. Muito simples, muito terra-a-terra, sem os malfadados adjetivos que Alice abomina. Muito ao seu jeito simples de escrever.

É desta forma singela, mas tão bonita ao mesmo tempo, que Alice Vieira e Nélson Mateus (um dos muitos netos emprestados da avó Alice), combatem a solidão originada pelo confinamento. Falam de tudo e de nada, aproveitando para proporcionar ao leitor “Retratos Contados das Memórias de Portugal”, uma “Biblioteca de Avós”, numa viagem através do tempo, que recupera “estórias de Portugal”, ao mesmo tempo que retrata episódios do seu dia-a-dia durante o confinamento ou relembra momentos passados das suas vidas. E, como diz Alice Vieira, ela recorda muitas estórias, porque já viveu muito, é jornalista desde 1961, e fala-nos deste paradoxo que é a velhice: “Ninguém quer ser velho e todos queremos chegar a velhos”. Nota-se nestas estórias um profundo carinho, uma mútua admiração, mas também uma grande afinidade e gostos comuns. Gostei de regressar à minha própria infância através de algumas das memórias partilhadas, entre as quais os programas que passavam na RTP, cantores antigos, programas de rádio, entre tantos outros acontecimentos que estavam adormecidos na minha memória e que gostei de trazer de novo ao palco da minha própria memória!

 

Metz, Julie (2021). Eva e Eve. Afragide: Casa das Letras.

Tradução: Teresa Mendonça

Nº de páginas: 422

Início da leitura: 15/01/2022

Fim da leitura: 17/01/2022

**SINOPSE**

Para Julie Metz, a sua mãe, Eve, era uma verdadeira nova-iorquina. Era difícil imaginá-la a viver noutro lugar que não fosse Manhattan, onde frequentava o Carnegie Hall e a Metropolitan Opera, ou a saborear uma série de queijos franceses triple crème no Zabar’s. Mas Eve não era nova-iorquina. E raramente falava sobre a sua infância passada na terrível Viena ocupada pelos nazis.

Após a morte da mãe, Julie descobre um livro de recordações repleto de notas de despedida de amigos e familiares endereçadas a uma menina chamada Eva. Esta recordação escondida foi a primeira pista para a descoberta da dor secreta que a mãe de Julie carregou enquanto refugiada e imigrante, deitando luz sobre a história de uma família que teve de perseverar a cada contrariedade para fugir ao antissemitismo e à xenofobia nazis que ameaçavam a sua sobrevivência.

Entrelaçando memórias pessoais e história, Eva e Eve traça vividamente a senda de uma mulher pela infância perdida da sua mãe, enquanto revela a resiliência e os sacrifícios que as pessoas comuns são obrigadas a fazer durante as horas mais negras da história.

**OPINIÃO**

Este é um livro de memórias, biográfico e histórico, onde a autora nos leva com ela numa viagem ao passado, quando reflete sobre a perda da sua mãe. É uma história documentada por indivíduos e instituições que a autora consultou.

Entre ela e a mãe terá havido uma falta de compreensão, motivada, provavelmente, pela pessoa severa, fria e assustadora em que a vida a transformara. Certo é que a autora sente que a amava, mas, ao mesmo tempo, temia-a, chegando a odiá-la. Ao morrer, a mãe deixa-lhe um livro de recordações, com vários registos escritos e fotografias, que permitirão a Julie abrir “pequenos portais” e resgatar a biografia da sua mãe, ao mesmo tempo que nos vai falando de si própria, da sua vida, da sua relação com a mãe e com a filha e, ao mesmo tempo, vai fazendo incursões pela história no momento da II Guerra.

É a partir dos nove anos de Eva, que vivia uma vida estável e segura em Viena, na Áustria, que tudo começa.

No presente, em 2006, interroga-se e quer perceber como terá a sua família conseguido sobreviver ao extermínio nazi, durante a II Guerra Mundial. No fundo, a autora, sente que a sua mãe lhe deixou a missão de contar a história desta “nação de aventureiros e de refugiados relutantes”.

É assim que empreendemos esta incursão pela vida de Eva e Eve, na tentativa de a conhecer melhor, de perceber como se tornou ela numa “nova-iorquina: dura, proficiente, frugal, pragmática.”

Eva tinha apenas 12 anos quando os pais (Julius e Anna) conseguiram vistos americanos e puderam viajar com ela sob o nome de Eve. Afinal, a nova iorquina Eve tinha sido Eva, uma criança judia de Viena.

Gostei muito da história, mas considero que peca por excesso de informação menos importante, descrições de pormenores quotidianos da vida, da viagem, das pessoas, que eram desnecessários e que nos desviam do foco de interesse da narrativa. Além disso, há algumas repetições que também eram desnecessárias.

Tirando essas descrições mais exaustivas, gostei bastante da história.

Kim, Henn (2021). Noite de Estrelas Sonhos Inquietos. Alfragide: Lua de Papel.


Poesia Visual – edição bilingue

Tradução: João Carlos Silva

Nº de páginas: 304

Início da leitura: 13/01/2022

Fim da leitura: 14/01/2022

**SINOPSE**

quem és tu, quando estás só?

Algumas emoções não cabem em palavras. Como a solidão,
a tristeza, a saudade, o amor. Algumas imagens contam histórias, escavam fundo no coração, ilustram tudo o que não conseguimos exprimir.

quem me dera fazer parte do teu mundo

Para a artista coreana Henn Kim, a escrita nunca foi suficiente. Por isso criou este livro, feito de imagens com legendas sobre o trauma, a perda, encontros e separações. Não são poemas. É poesia visual.

"Uma combinação intoxicante de realismo e surrealismo."

>Creative Review

**OPINIÃO**

Que livro maravilhoso! Há imagens que falam, de facto, por mil palavras. Esta poesia visual comunica por si só. As palavras surgem a complementar a mensagem que as imagens transmitem. São várias as emoções, os estados de alma, as situações quotidianas representadas nas imagens, onde a mulher é a protagonista, complementadas por versos que partem de canções, de frases feitas e expressões do dia-a-dia. E o facto de ser bilingue, torna o texto ainda mais interessante. Curiosamente, em algumas das imagens, penso que a expressão em inglês é a que se ajusta melhor e que, muitas vezes, não é fácil de traduzir. Mas louvo a tradução feita.

É um livro que aconselho a quem gosta de poesia e tem sensibilidade para a leitura de imagens.

É um livro delicioso, que consegue comunicar sentimentos de forma artística, sem deixar de ser simples e direto, muitas vezes duro, onde é possível revermo-nos, identificar as emoções recônditas que nos atormentam. É um desnudar de emoções, muitas que ficam guardadas dentro de nós e que muitas vezes não se exteriorizam. É um livro para refletir, quase um autorretrato da alma, despido de preconceitos e com um humor muito peculiar.

É daqueles livros onde voltarei várias vezes, disso tenho a certeza!

 

Donoghue, Emma (2017). O Prodígio. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 328

Início da leitura: 10/01/2022

Fim da leitura: 13/01/2022

**SINOPSE**

A jovem Anna recusa-se a comer e, apesar disso, sobrevive mês após mês, aparentemente sem graves consequências físicas. Um milagre, dizem.

Mas quando Lib, uma jovem e cética enfermeira, é contratada para vigiar a menina noite e dia, os acontecimentos seguem um diferente rumo: Anna começa a definhar perante a passividade de todos e a impotência de Lib. E assim se adensa o mistério à volta daquela pobre família de agricultores que parece envolta num cenário de mentiras, promessas e segredos.

Prisioneira da linguagem da fé, será Anna, afinal, vítima daqueles que mais ama?
Um drama intenso sobre os perversos caminhos do fundamentalismo, mas também sobre como o amor pode vencer o mal nas suas mais diversas formas.

**OPINIÃO**

Este é o segundo livro que leio da autora e é um romance em que dificilmente não nos questionamos sobre a fé. Até que ponto a fé pode mudar a vida de um ser humano? Justificará a fé comportamentos humanos tão macabros como os relatados neste livro? Não será a fé, muitas vezes, uma forma de expiar pecados, adquirindo contornos perversos? Até que ponto a fé justifica a “esmola”? Não poderá ser a fé uma forma de mascarar os próprios crimes?

Como é possível ver através das questões que me fui colocando, e através da própria sinopse do livro, há um ambiente de misticismo, de espiritualidade, ainda que estes sejam, muitas vezes, interpretações e vivências erróneas da própria fé.

Este é um livro que choca, angustia, nos deixa “com o coração nas mãos” e vemo-nos a acompanhar esta enfermeira, Lib, contratada para provar que Anna, uma criança adorável de onze anos, consegue sobreviver estando há quatro meses sem comer, desde o seu último aniversário. A ação decorre no século XIX, numa pequena localidade da Irlanda, Lib revela-se cética, analisa em termos médicos a situação de Anna, pondera todas as hipóteses, chega a confrontar-se com a dúvida perante as suas próprias teorias, mas não desiste desta criança. O que terá levado Anna a deixar de comer? Até que ponto ela é sincera? Não passará de um embuste? Não será uma criança trapaceira que tenta enganar todos os que a rodeiam, comendo às escondidas? E até que ponto a fé não poderá cegar uma comunidade, não lhe permitindo questionar os supostos desígnios de Deus? As revelações são surpreendentes, ainda que dramáticas. Um livro que abala convicções, que questiona a resiliência humana e a fé. Ao longo da leitura, confrontamo-nos com várias emoções: dúvida, crença, revolta, raiva, desilusão…

Ainda que a autora se tenha baseado nos cerca de cinquenta casos das chamadas “Virgens-Jejuadoras” das Ilhas Britânicas, Europa Setentrional e América do Norte, entre os séculos XVI e XX, a autora frisa bem que esta é uma história ficcional. Porém, estes factos conferem à história uma maior credibilidade e verosimilhança.

Aconselho a leitura deste livro, sem reservas!

 

Izaguirre, Marian (2015). A Vida Quando Era Nossa. Lisboa: Bertrand Editora.

Tradutora: Rita Custódio e Àlex Tarradellas

Nº de páginas: 344

Início da leitura: 07/01/2022

Fim da leitura: 09/01/2022

**SINOPSE**

A Vida Quando era Nossa é um tributo à literatura, mas é sobretudo uma história de amizade entre duas mulheres. Uma história que começa quando se abre um livro e que só termina quando todas as pontas da narrativa se unem.

«Tenho saudades do tempo em que a vida era nossa», diz Lola, a protagonista do romance. Sente falta da sua vida, tão cheia de esperança, feita de livros e conversas ao café, sestas ociosas e projetos de construir um país. A Espanha que, passo a passo, aprendia as regras da democracia.

Mas, em 1936, chega um dia em que a vida se transforma em sobrevivência e agora, passados quinze anos, a única coisa que sobra é uma pequena livraria, meio escondida num dos bairros de Madrid, onde Lola e Matías, o marido, vendem romances e clássicos esquecidos.
É nesse lugar modesto que, em 1951, Lola conhece Alice, uma mulher que encontrou nos livros uma razão para viver. Acompanhamos a amizade entre as duas, atrás do balcão a lerem o mesmo livro juntas, e isso leva-nos atrás no tempo, à Londres do início do século XX, para conhecermos uma menina que se perguntava quem seriam os seus pais…

 

**OPINIÃO**

Gostei tanto deste livro! É daquelas histórias que nos capta logo no início a atenção e não temos vontade de largar antes de terminar e esclarecer todo o mistério em que a história surge envolta.

Como não gostar da premissa?

Em Madrid, há uma pequena livraria alfarrabista, de Matías e Lola. Matías começa por despertar a atenção de uma mulher de idade, pelo facto de passar por ela sempre com livros nas mãos e lhe fazer lembrar alguém ou simplesmente por gostar do porte, da determinação, que vê nele. Começa a segui-lo. Acaba por descobrir a livraria dele, num beco escondido, verificando que quase não têm clientes, e também porque ele permite a troca de livros por uma quantia irrisória. Acaba por entrar e, enquanto ele atende um fornecedor que lhe leva livros usados, esta idosa deixa um livro perdido entre outros.

Matías, quando começa a ver o que o fornecedor lhe levara, descobre o livro que ela deixou e resolve apostar numa montra diferente. Uma montra só com um livro, aberto nas primeiras páginas. A idosa acaba por entrar e, em conversa com Lola, apresenta-se como Alice e as duas começam a ler o livro juntas, Lola lê e Alice escuta com ela. Começam a embrenhar-se na história de tal modo, que vai nascendo entre elas uma amizade que terá as suas consequências.

É curioso que o leitor deste livro vai ser também leitor do livro da montra, A Rapariga dos Cabelos de Linho. E acabamos por nos ver também embrenhados nesta história, numa cumplicidade com as personagens, como se lêssemos o livro juntos, acompanhados de um chá. É mágico! E quando param a leitura e retomam as suas vidas, ficamos ansiosos pela continuação, mas, ao mesmo tempo, igualmente embrenhados nas suas vidas.

A autora escreve maravilhosamente, de forma solta, leve, mas intensa. As descrições permitem-nos imaginar os espaços, as personagens, os acontecimentos, de forma intensa! E a doçura das expressões???? Adoro!

O que esconde Alice? Que segredos perpassam nas vidas de Matías e Lola?

Aconselho vivamente a leitura, não se arrependerão! É um livro fantástico!


Thompson, Gill (2021). O Comboio da Esperança. Lisboa: Planeta de Livros.

Nº de páginas: 376

Início da leitura: 03/01/2022

Fim da leitura: 06/01/2022

 

**SINOPSE**

Romance baseado na história verídica do Kindertransportem em que milhares de crianças judias foram salvas do Holocausto, quando enviadas para Londres. Um livro comovente, sobre duas mães cujas vidas se cruzam e que têm de salvar uma menina, a pequena Miriam, uma criança judia acabada de chegar a Londres e sem família que a acolha.

Praga, 1939. Eva é atormentada por um segredo obscuro do seu passado. Quando os nazis invadem o país, esta jovem mãe sabe que a única forma de manter a filha segura é deixá-la partir, mesmo que isso signifique nunca mais a ver. Mas quando Eva é levada para um campo de concentração, o seu segredo corre o risco de ser exposto.

Em Londres, Pamela não sente que a guerra possa ser uma ameaça. Decide voluntariar-se para ajudar a encontrar casas para as crianças judias que chegam de toda a Europa.

Quando vê Miriam, uma criança que não tem uma família que a acolha, resolve levá-la para sua casa. É quando o seu filho se alista na RAF que Pamela percebe como facilmente o seu próprio mundo pode desabar.

 

**OPINIÃO**

Este é um livro inspirado em acontecimentos reais, nomeadamente o salvamento de centenas de crianças checas por um corretor londrino; um campo de concentração onde os judeus podiam dar concertos; desvios de aviões que terão permitido que checos ex-pilotos da RAF fugissem de Praga sob o regime comunista. A partir daqui a autora criou uma série de personagens e uma narrativa que permitisse recuperar estes acontecimentos reais e dignificá-los.

É um livro muito bom, muito bem escrito e com uma abordagem um pouco diferente da II Guerra. Houve, com efeito, um “Comboio da Esperança”. Foi tudo realmente mau, mas houve quem tentasse ajudar e impedir muitos massacres e que, por esse motivo, é digno de ser recordado.

Tudo começa com Eva que, ao regressar a casa, em Praga, depois de uma aula de piano, é rodeada por soldados alemães e violada.

Mais tarde, Eva casa e tem uma filha, Miriam. Quando Praga é invadida, acaba por enviar a filha para casa de uma família, em Londres, onde poderia manter-se a salvo. Durante algum tempo, trocam correspondência. Mas as cartas deixam de chegar a casa de Pamela, que acolhera Miriam. Muitos desencontros e encontros foram gerados por esta terrível guerra. E isto quando se teve a sorte de sobreviver! Também a perda de familiares é um desgosto muito doloroso e difícil de sarar.

Muito teria a dizer sobre esta história, não fosse correr o risco de incorrer em “spoiler”, por isso opto por não dizer mais nada e apenas sugerir a leitura deste livro para quem gosta da temática. É muito bom!

Waxman, Abbi (2021). A Vida Livresca de Nina Hill. Amadora: TopSeller.

Tradução: Fernanda Semedo

Nº de páginas: 336

Início da leitura: 02/01/2022

Fim da leitura: 06/01/2022

**SINOPSE**

Nina Hill tem uma vida confortável: trabalha numa livraria, participa em concursos de cultura geral com uma equipa fantástica, tem uma agenda muito organizada onde anota tudo o que é importante e partilha a casa com o seu gato Phil.

Filha única de uma conceituada fotógrafa que se tornou uma mãe ausente devido às constantes viagens, é nos livros que devora a toda a hora que Nina encontra o seu refúgio e os seus momentos de verdadeira felicidade.

Quando recebe a notícia da morte do pai, de quem nunca soube nada, Nina fica em choque. De um momento para o outro, o seu núcleo familiar passa a incluir um irmão, três irmãs e vários sobrinhos e sobrinhas, todos a viverem perto! E pior… Esta horda de desconhecidos parece estar cheia de vontade de conviver com ela, o que vai totalmente contra as suas tendências antissociais.

Como se essa não fosse já uma mudança suficiente na sua rotina, Nina vê-se também perante a presença cada vez mais constante de Tom, o seu maior adversário nas noites de quiz, que afinal até é um homem querido, divertido e profundamente interessado em conhecê-la melhor.

Será ela capaz de sair da sua zona de conforto e trocar a ficção pela vida real?

Finalista do prémio Goodreads para Melhor Livro de Ficção.

**OPINIÃO**

Há fases da nossa vida onde um livro deste género pode ser uma boa opção: um livro de leitura fácil, dotado de grande humor e que oferece uns momentos bem passados. Além disso, aborda, ainda que de forma ligeira, questões importantes, como a ansiedade, a forma como esta pode levar a uma programação excessiva da vida e à noção de que, qualquer desvio a essa rotina, pode constituir um enorme problema.

A protagonista é assim. Nina é uma leitora ávida, trabalha numa livraria e a sua vida é imersa numa profunda solidão. Nunca conheceu o pai, a mãe passa o tempo entre viagens e ela vive sozinha com o seu gato. Pouco sai de casa, exceto para os clubes de leitura, idas ao cinema com amigas e para noites de quiz, onde, normalmente, está habituada a ganhar.

Mas a vida de Nina sofre uma reviravolta quando descobre que o pai, que não conheceu, morreu, e que tem uma série de irmãos. Outro fator de desestabilização na sua vida é o surgimento de um adversário à altura nas noites de quiz, Tom, que se mostra interessado nela.

Estará Nina preparada para enfrentar esta reviravolta? A sua ansiedade não tenderá a aumentar ao deparar-se com a possibilidade de não cumprir todos os planos que regista para o seu dia-a-dia? Um livro a ler para descontrair entre leituras mais pesadas, que nos faz soltar umas boas gargalhadas.

Figueiredo, Isabela (2016). A Gorda. Lisboa: Editorial Caminho.

Nº de páginas: 288

Início da leitura: 01/01/2022

Fim da leitura: 01/01/2022

**SINOPSE**

Maria Luísa, a heroína deste romance, é uma bela rapariga, inteligente, boa aluna, voluntariosa e com uma forte personalidade. Mas é gorda. E isto, esta característica física, incomoda-a de tal modo que coloca tudo o resto em causa. Na adolescência sofre, e aguenta em silêncio, as piadas e os insultos dos colegas, fica esquecida, ao lado da mais feia das suas colegas, no baile dos finalistas do colégio. Mas não desiste, não se verga, e vai em frente, gorda, à procura de uma vida que valha a pena viver.

Este é um dos melhores livros que se escreveu em Portugal nos últimos anos.

**OPINIÃO**

Gostei imenso deste livro! Retrata a realidade de muitas famílias portuguesas, vindas de Moçambique, as suas preocupações e formas de vida, bem como a questão da obesidade, e, ainda que seja ficcional, é muito fácil entendê-la como real, pois as personagens são muito credíveis, pessoas com que já nos cruzámos em algum momento da nossa vida.

Maria Luísa é a protagonista, uma jovem com excesso de peso, humilhada por isso na escola, que sente uma necessidade enorme de passar despercebida mas, ao mesmo tempo, de agradar. Vem de Moçambique antes dos pais, ficando, primeiro num colégio interno e, depois, em casa de uma tia.

Boa aluna, acaba por se tornar uma professora competente a quem são delegadas várias responsabilidades. No que concerne à sua vida pessoal, toda a frustração que Ana Luísa vai tentando ignorar, acaba por a marcar em muitas das suas inconstâncias e inseguranças. Apesar de amar os pais, refere muitas vezes o desejo de se livrar da influência deles.

A casa dos pais, que vêm a habitar quando regressam de África, é a personificação das suas vidas. Em cada capítulo, a ação parte de um dos espaços da casa: a sala, o quarto, a cozinha.  

Maria Luísa tem consciência do seu peso e tem consciência de que é muito mais do que o peso: no fundo, ela considera-se bonita e desejada. Vê-o nos olhos de David, o homem que ama. Mas os estigmas às vezes são mais fortes do que a vontade própria e David começa a não querer ser visto com ela em público, a sentir vergonha de ser namorado dela...

Há uma certa desordem na narrativa, que nos traz algumas repetições, mas que considero compreensíveis e acho que conferem mais força à narrativa. Também Ana Luísa tem essas inconstâncias e, como se retrata a vida dela, não poderia ser de uma forma muito linear, até porque nada na sua vida é linear.

Gostei muito deste livro e recomendo a sua leitura!

Gleitzman, Morris (2021). Talvez. Amadora: Fábula.

Tradutora: Dulce Afonso

Nº de páginas: 272

Início da leitura: 31/12/2021

Fim da leitura: 31/12/2021 

**SINOPSE**

Estamos em 1946 e Felix, um rapaz judeu de 14 anos, está de partida da Polónia para a Austrália, à procura de um sítio seguro onde possa recomeçar a sua vida. A guerra terminou, mas a Polónia está em ruínas e não é um lugar onde ele e o seu amigo Gabriek se sintam a salvo. Com eles vive agora Anya, que está grávida e dependente da proteção deles.

A viagem proporcionada pelo Governo da Austrália é bastante atribulada. A amizade e coragem dos três amigos é posta constantemente à prova e os conhecimentos de medicina que Felix foi adquirindo nos últimos anos vão ser cruciais.

Mas chegar a este país não vai ser o fim das dificuldades. Há um homem em busca de vingança que está disposto a persegui-los até ao fim dos seus dias. E Felix vai ter de enfrentar um inimigo mais perigoso do que os nazis.

Felix é um herói que nos comove pela sua esperança e bondade. Uma história emocionante que não deixará ninguém indiferente.

**OPINIÃO**

Esta é a sexta das sete obras que o autor tem planeadas na família de livros do Felix, ressaltando que podem ser lidas sem ser pela ordem de escrita. E é certo que não senti qualquer dificuldade em compreender a história, em me familiarizar com as personagens, com as quais é muito fácil criar empatia. Apesar de ser considerado YA, é uma história dura, cruel, em que não senti que se poupassem pormenores violentos qb. de tão realistas. Muito bem construído, cada capítulo inicia com o título do livro “Talvez” e sempre de forma muito bem interligada.

A ação decorre na Polónia, após a Segunda Guerra, tendo por protagonista Felix, uma criança judia de catorze anos, sobrevivente de um campo de concentração, marcada pela guerra, que cresceu à força das experiências e perdas vivenciadas. Depois de todos os horrores vividos, esperam-no ainda mais provações, mas Felix é um jovem íntegro, que preza a amizade, os valores, a educação e o amor à medicina e que fazem dele um ser tão especial, que nos apaixona e enternece ao longo de toda a narrativa. Quando o convidam para ir para a Austrália, onde contava encontrar a paz há tanto perdida, não quer fazê-lo sem levar com ele Gabriek e Anya (que se encontra grávida). Mas nem tudo é como queremos, nem sempre os sonhos estão à mão de semear e é preciso lutar por eles. E mais não digo. Aconselho a leitura!

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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