Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Marsé, Juan. O Feitiço de Xangai. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010. 

Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Nº de páginas: 240
Início da leitura: 16/02/2024
Fim da leitura: 19/02/2024

**SINOPSE**
"Os sucessivos aparecimentos e desaparecimentos dos maquis que vêm do outro lado da fronteira são a única coisa que anima a vida cinzenta de um bairro de Barcelona na época mais dura do pós-guerra. Este romance é o relato da aventura de um desses heróis míticos, que embarca rumo a Xangai para cumprir uma missão perigosíssima entre pistoleiros, ex nazis, belas mulheres e sinistros clubes noturnos; é ainda a história do efeito que tal relato provoca num grupo de jovens que se encontra sem rumo na vida. Daí que o feitiço deste romance não esteja tanto na apresentação da vida real quanto na da imaginada, provavelmente a única verdadeira.
O Feitiço de Xangai, um dos mais significativos romances de Juan Marsé, é uma lufada de ar fresco num tempo morto de um país morto e, ao mesmo tempo, um magistral romance dentro do romance."
Este livro foi publicado, pela primeira vez, em 1993, por Juan Marsé, um escritor de Barcelona, falecido em 2020, que recebeu vários prémios literários. Gostei muito deste livro, da forma envolvente como nos é contada a história. Esta passa-se entre Barcelona do Pós-Guerra Civil até ao exótico submundo de Xangai. Em Barcelona, o narrador, um jovem, que deixara a escola e se ainda não tinha trabalho, revela talento para a pintura. Conhece, entretanto, o alucinado capitão Blay que empreende uma luta solitária contra o vazamento de gás e a poluição de uma fábrica, pensando resolver a situação com um abaixo-assinado contra essa situação. Porém, as pessoas pouco ligam ao ambiente e poucas assinam o documento. Daniel, o jovem narrador, começa a ajudá-lo nesta tarefa e o capitão Blay faz-lhe uma proposta: para que as pessoas realmente acreditem nele, era preciso que Daniel fizesse um retrato da menina Susana, uma jovem que não podia sair da cama, por ter um pulmão infetado pela tuberculose. Para provar que o gás estivera na origem da doença e que ficariam todos doentes, agravando-se também a doença de Susana, Daniel teria de a pintar a definhar na sua cama. Seria Daniel capaz de corresponder às expetativas depositadas por Blay na sua capacidade artística? Vale a pena ler para descobrir!

Roca, Paco (2016). A Casa. Lisboa: Levoir.

Tradução: Carlos Xavier
Nº de páginas: 136
Início da leitura: 14/02/2024
Fim da leitura: 16/02/2024

**SINOPSE**
"Paco Roca (Valencia, 1969) é um versátil autor de banda desenhada e ilustrador, e um dos mais premiados autores espanhóis da atualidade. De entre as suas obras, destacamos O Inverno do Desenhador, editado pela Levoir e pelo Público na série de Novelas Gráficas de 2016, vencedor do Prémio de Melhor Obra e Melhor Argumento no Salón del Cómic de Barcelona em 2011. Com A Casa, obra intimista em torno da figura do seu pai desaparecido, Paco Roca afirmou-se como autor de primeiro nível internacional. Ao longo dos anos, o dono de uma casa enche-a de recordações, testemunhos silenciosos de uma vida. Uma casa é a imagem fiel do seu dono. Como os casais que vivem longos anos juntos. Assim, quando o seu ocupante desaparece para sempre, o recheio da casa fica intacto, à espera do regresso do seu dono. Os três irmãos que protagonizam esta história, tornam um ano após a morte do seu pai à casa de família onde cresceram. A sua intenção é vendê-la, mas em cada velharia que deitam fora, enfrentam as suas memórias. Temem estar a apagar o passado, a memória do seu pai, e as suas próprias memórias."

Que novela gráfica sublime! A história e as ilustrações numa harmonia perfeita. Simplesmente, inesquecível!
Tudo começa com a saída de um idoso de casa, uma saída que se vê que é tão lenta quanto dolorosa, numa metáfora da partida ou da morte. A casa permanece vazia durante várias estações do ano, até à chegada dos filhos, que vêm arranjar o que for necessário para venderem a casa. Mas esta é a CASA, assume aqui dimensões humanas, oferece às personagens memórias do passado, recordações de momentos com o pai, que foi o impulsionador de tudo. Os filhos recordam-na com mágoa, pois, para eles, que eram convidados pelo pai a trabalhar para a erguer e manter, representou a impossibilidade de irem de férias, de usufruírem de momentos de puro lazer. Agora, todos casados e afastados, voltam e, apesar da intenção inicial, ainda se questionam? Ficamos com a casa?
Aconselho a ler esta história que é a história de tantas famílias, de tantas pessoas que lutam uma vida inteira para terem a casa dos seus sonhos (ou o mais semelhante a isso) para, no fim, ninguém dar o real valor (será?).
E mais não digo. Apenas sugiro que se deixem habitar pela casa desta história.

Sumino, Yoru (2024). Quero Comer o Teu Pâncreas. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Ana Saldanha
Nº de páginas: 304
Início da leitura: 12/02/2024
Fim da leitura: 13/02/2024

**SINOPSE**
"O sentido da vida e a alegria de amar num romance que desafia todas as convenções. Sakura é uma rapariga popular e extrovertida. Mas há algo que ela mantém em segredo, algo de que apenas a sua família tem conhecimento: está a morrer de uma doença no pâncreas. Acima de tudo, Sakura não quer que as pessoas passem a tratá-la de forma diferente, mas um dia a sua condição é descoberta por um colega de turma. Ele percebe que lhe resta pouco tempo de vida e ela fá-lo prometer não contar a ninguém. Sakura decide então tirar o melhor partido da situação e realizar os seus últimos desejos na companhia do rapaz, um introvertido e solitário amante de livros.

É assim que Sakura e o estudante dão por si a partilhar um segredo devastador. E o que resulta é uma amizade única, tão intensa quanto breve, tão poderosa como a própria vida."

Quando escolhi este livro, um pouco em função do título bizarro, estava longe de imaginar a história que ia ler. Conhecer Sakura, uma jovem do 11º ano, com uma doença terminal, foi uma surpresa muito positiva. Para além de ser uma jovem muito positiva, sociável e amigável, é uma jovem que desafia as convenções, que se entrega a uma amizade improvável com o rapaz menos sociável da escola. E foi ele o escolhido para partilhar o que ninguém, a não ser a família sabia: tinha, no máximo, um ano de vida. Sakura não queria que os amigos sofressem. O tempo que passam juntos é um tempo de crescimento pessoal, de uma cumplicidade que comovem e nos enchem a alma. Gostei tanto deste livro! Recomendo muito!

Adón, Pilar (2014). De Bestas e Aves. Alfragide: Dom Quixote.


Tradução: Rui Elias
Nº de páginas: 216
Início da leitura: 10/02/2024
Fim da leitura: 12/02/2024

**SINOPSE**

"Uma pintora conduz em plena noite sem saber que está prestes a chegar a Betânia - uma espécie de território fora do mundo, habitado por cabras, cães e mulheres que, no entanto, parecem estar à sua espera.

Ela carrega a culpa de uma irmã afogada num desastre de automóvel e não contou a ninguém para onde ia, nem levou telemóvel porque não pensava demorar-se. Detém-se ali apenas porque se perdeu e precisa de gasolina para regressar a casa.

Desconhece, porém, que, para lá do portão a que bate, as mulheres se vestem e comportam de forma bizarra, que há entre elas uma menina sem pais que não vai à escola, que um estranho aparece de vez em quando a reclamar a casa, que um lago delimita as fronteiras do terreno, sobrevoado por aves de rapina. Não quer estar ali, mas algo lhe diz que aquele pode ser o último lugar da sua vida.

De Bestas e de Aves foi galardoado em Espanha com o Prémio Nacional de Ficção, o Prémio da Crítica, o Prémio Francisco Umbral/ /Melhor Livro do Ano e o Prémio Cálamo, na categoria La outra mirada, tendo ainda sido finalista do Prémio Dulce Chacón de Romance e nomeado para o Prémio Bienal de Romance Mario Vargas Llosa."
Devo dizer que não foi um livro que me tenha atraído particularmente. A história em si é toda ela um pouco bizarra e estranha. Uma mulher conduz até uma floresta e procura ajuda, porque não tem combustível. Encontra uma comunidade matriarcal que a retém. Apesar de estar sempre a dizer que não quer estar ali,  no meu entender não faz grande coisa para sair daquele sítio que funciona como uma espécie de magnetismo para expurgar a sua dor. Apesar dos prémios atribuídos, não senti que fosse uma obra que me enchesse as medidas!

Zidrou; Lafebre, Jordi (2023). Lydie. Estorial: Arte de Autor.

Tradução: Helena Romão
Nº de páginas: 60
Início da leitura: 09/02/2024
Fim da leitura: 11/02/2024

**SINOPSE**
"Têm razão ao dizer que uma mãe não é nada sem o seu filho.
Sei do que falo: não foi à toa que me apelidaram de «Nossa Senhora do filho perdido»!
Por isso, quando a Camille Tirion — sabem, a filha do Augustin, o maquinista de locomotivas — pois bem, quando a Camille perdeu o seu à nascença, fiquei muito abalada.
Uma menina. Era uma menina. Iria chamar-se Lydie…

Primeira colaboração de grande fôlego da premiada dupla de criadores da série Verões Felizes, Lydie é uma história belíssima e comovente, uma pérola de amor, humor e ternura, que mostra como é possível abordar um tema tão delicado como a morte de uma criança recém-nascida, com delicadeza e boa disposição.

Magnificamente ilustrado por um Jordi Lafebre que já mostra aqui um inultrapassável talento para representar as expressões e os olhares das personagens, Lydie é um conto de fadas terno e luminoso, e o título perfeito para abrir a nova coleção que A Seita e a Arte de Autor dedicam ao maior e mais prolífico argumentista de língua francesa da atualidade."
Mais uma novela gráfica tão boa! Gostei tanto! Não há muito que contar, depois de ler a sinopse. Apenas sublinho que é um livro com humor e, ao mesmo tempo, uma história que nos comove.
A filha de Camille, Lydie, morre no parto. Passado um tempo, Camille acredita ver a filha e assume que ela existe, de facto. A comunidade não quer, contudo, desiludi-la e acaba por compactuar com esta existência irreal de Lydie, a ponto de ser batizada, inscrita na escola e participar de todos os eventos diários e sociais da comunidade onde vive. É comovente como o amor de uma mãe, consegue trazer à presença de todas uma criança que morreu à nascença. Gostei muito das ilustrações, que dão ainda mais força à história. Aconselho muito a leitura! 

 Abel, Susanne (2023). Fique Longe de Greta. Alfragide: Casa das Letras.

Tradução: Fátima Andrade
Nº de páginas: 504
Início da leitura: 06/02/2024
Fim da leitura: 10/02/2023

**SINOPSE**
"Tom Monderath, o famoso apresentador de notícias de Colónia, está preocupado com a sua mãe. Greta, de 84 anos, está cada vez mais esquecida. Quando o diagnóstico de demência surge, Tom fica horrorizado. Até que a doença da mãe se torna uma dádiva: pela primeira vez na sua vida, pouco a pouco, Greta fala de si própria - da infância na Prússia Oriental, sobre a fuga dos soldados russos durante o Inverno gelado, a saudade do pai desaparecido e os seus êxitos no mercado negro de Heidelberg e do seu encontro com o soldado Robert Cooper. Será tudo isto a chave para compreender a tristeza de Greta, que também ensombrou a infância de Tom? Quando Tom se depara com cartas e fotografias do tempo que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, descobre um mistério incrível. Quem é a criança de pele negra da fotografia que Greta guarda como um tesouro? Greta fica em silêncio. Pela primeira vez, Tom começa a olhar e investigar mais profundamente o passado da sua mãe e começa a aperceber-se que a sua felicidade está também ligada ao passado desta...

O romance de estreia de Susanne Abel conta a história comovente e autêntica das crianças da Ocupação, o Plano Brown Baby, desvendando factos pouco conhecidos, mas muito perturbadores do pós Segunda Guerra Mundial."
Nesta obra, a história vai alternando entre o presente de 2015- 2016 e um passado entre 1939-1953.
No presente, Tom Monderathum, um conceituado apresentador de notícias de Colónia, é confrontado com a doença da mãe, Greta, que sofre de Alzheimer. Com a perda de memórias a curto prazo, Greta começa a falar de um passado esquecido na memória e que o filho desconhece, na Prússia oriental do pós Segunda Guerra Mundial.
É desta forma que Tom vai descobrindo parte desse passado, que começa a investigar, ficando a saber que tem uma irmã negra de quem não sabe absolutamente nada. 
Gostei muito deste livro, apesar de, em termos de tradução, poder ter sido evitado alguma repetição de vocabulário (por exemplo, a referência constante a "o aludido", acaba por mexer com os nervos, sendo mesmo desnecessária). É uma história comovente e apresenta-nos um momento da história da discriminação racial, onde muitas crianças sofreram por serem simplesmente negras. Eram afastadas das mães, internadas em asilos, afastadas das crianças brancas... E as mulheres não podiam, com efeito, amar um negro. Apesar de ser uma história ficcional, como a autora nos diz nos posfácio, baseia-se em muitos factos reais, pesquisas, conversas, o que dá credibilidade e força à história.
E, depois, temos a história deste filho, Tom, que consegue perceber o passado da mãe e trazer-lhe todos os que lhe pudessem avivar a memória. Recomendo!

Melo, Filipe (2021). Os Vampiros. Lisboa: Companhia das Letras.

Nº de páginas: 248
Início da leitura: 06/02/2024
Fim da leitura: 08/02/2024

**SINOPSE**
"Neste livro, Filipe Melo e Juan Cavia - a dupla multipremiada por Balada para Sophie ou Comer / Beber - entrega-se a um tema controverso: a guerra colonial portuguesa.

Em 1972, na Guiné-Bissau, um grupo de comandos portugueses avança no mato com a missão de localizar uma base secreta no Senegal. Pelo caminho, à medida que vão perdendo os alicerces da sua própria humanidade, estes soldados enfrentam uma ameaça muito pior do que poderiam imaginar."
Sou absolutamente fã desta dupla: Filipe Melo e Juan Cavia. Conseguem aliar escrita e ilustração de uma forma que nos vicia. É impressionante!

A partir da citação inicial "É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come mais consome, tanto menos se farta. (Padre António Vieira)". Assim é, com efeito, a guerra. Quem está certo? Quem está errado? De que lado está a verdade? Se todos matam, se todos podem morrer. E quanto mais se mata, mais vontade tem de se matar e quanto mais morrem os que são mais próximos, maior é a vontade de abater o inimigo. Mas quem é inimigo de quem?
A segunda citação é de Herman Melville (em Moby Dick) e diz que "A loucura humana é a coisa mais matreira e felina que existe. Quando pensamos que desapareceu, pode apenas ter-se transfigurado numa forma ainda mais subtil." Realmente, a loucura está lá, sempre, do início ao fim e a guerra alimenta-a constantemente. Até que ponto o que está do nosso lado está verdadeiramente do nosso lado? Terá a sanidade mental para ver o outro como seu aliado, mesmo em situações de crise?
Por fim, a última citação, que penso terá servido de inspiração ao título do livro, é do grande Zeca Afonso (em Os Vampiros) e diz que "No céu cinzento, sob o astro mudo, batendo as asas, pela noite calada, vêm em bandos, com pés de veludo, chupar o sangue fresco da manada. Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada." E na guerra, neste caso na guerra colonial portuguesa, em 1972, na Guiné-Bissau, quem serão os vampiros? Os turras, os portugueses? Pensem nisso, acompanhados destas ilustrações tão expressivas!
A banda desenhada tem o poder de conciliar texto e imagem, de tal forma que conseguimos ver e mais facilmente sentir o medo, a dor, a saudade, o arrependimento, o hábito, a vontade de matar e muito muito mais. Leiam que não se arrependerão. Uma obra que não se esquece!

Gutiérrez, Mónica (2024). A Livraria dos Pequenos Milagres. Barcarena: Editorial Presença.


Tradução: Ana Rita Sintra
Nº de páginas: 200
Início da leitura: 03/02/2024
Fim da leitura: 05/02/2024

**SINOPSE**

"Agnes Martí é uma jovem arqueóloga de Barcelona que decide mudar-se para Londres em busca de uma oportunidade de trabalho. Depois de várias semanas sem êxito, uma chuva repentina surpreende-a enquanto dá um passeio e decide abrigar-se na livraria Moonlight Books. Por coincidência, o seu proprietário, Edward Livingstone, está à procura de uma assistente e oferece-lhe o cargo.

A jovem aceita e, aos poucos, vai descobrindo o encanto daquela pequena livraria. Até que, um dia, um dos seus livros mais preciosos e antigos desaparece. É então que o inspetor da polícia John Lockewood entra em cena para se encarregar da investigação e revolucionar a tranquila vida de Agnes.

Uma história para todos os que já sentiram que a literatura os salvou."
Este é um livro de que me custa falar, daqueles livros "fofinhos" que nos transportam para as livrarias (esta, em Londres), lugares de que gosto particularmente e que nos apresenta personagens também elas "agradáveis". Gostei particularmente do rezingão mas astuto livreiro. Já Agnes... não tanto. 
Vamos por partes, o livro é bem escrito, tem um nível de língua até bastante cuidado, o que se coaduna com a livraria e as personagens em causa, especialmente o livreiro. Gostei também da criança prodígio (cuja mãe era detestável), que fazia da livraria o seu ATL. E gostei da Agnes que lia as histórias à criança e  que, com o passar do tempo, se deixa encantar pela livraria.
E, apesar das referências literárias, que são sempre bem-vindas, a partir do momento em que começa o romance de Agnes com o inspetor Lockwood, torna-se demasiado previsível e até um pouco aborrecido. 
Ainda assim, para quem gosta desta temática conjugada com romance, este é um bom livro para entreter durante umas horas.

Roca, Paco (2022). Rugas. Lisboa: Levoir.

Tradução: Joana Neves (adaptação)

Nº de páginas: 112

Início da leitura: 02/02/2024

Fim da leitura: 04/02/2024

** SINOPSE**

Rugas conta a história de Emilio, um antigo bancário de 72 anos, que quando começa a demonstrar os primeiros sinais de Ahlzeimer, começa a confundir a casa com a sucursal do banco onde trabalhou e a sua família com os clientes. Estes vêm-se na necessidade de o colocar num lar de idosos. Ali faz amizade com outros residentes, cada um com o seu passado e história que parece já não interessar a ninguém. Miguel um dos residentes é quem lhe dá a conhecer o lar, solteiro, sem filhos não se preocupa que ninguém o visite para não cair na deceção dos restantes idosos.

Através da rotina do lar, é-nos dado a conhecer os outros personagens. Roca decide escrever Rugas, porque um dia ao desenhar um casal de idosos num anúncio publicitário, a agência que tinha pedido o trabalho lhe pede que os elimine porque os considerava antiestéticos. Explicaram-lhe que ninguém quer ver velhos. É então que o autor se dá conta de uma tremenda verdade: se a publicidade, que é o reflexo da sociedade vira as costas à velhice é porque o resto da sociedade também o faz.

Para se vingar faz uma novela gráfica repleta de anciãos. Assim nasce Rugas, que em 2008 recebeu o Prémio Nacional do Comic e o Gran Guinigi Festival Lucca, em 2012 o Excellence Award Japan Media Art Festival e em 2018 foi Nomeada Melhor Edição Internacional Eisner Awards, entre outros.

Jiro Taniguchi refere-se deste modo à obra de Paco Roca. «Fiquei surpreendido com Paco Roca pela valentia e a sua técnica para abordar temas difíceis como a demência senil e a vida nos lares. Rugas é uma grande obra que se manifesta no poder que a arte do comic tem».


Pouco posso acrescentar ao que nos é apresentado na sinopse. É um livro magnífico, maravilhosamente ilustrado, muito bem escrita e que toca em temáticas que, por norma, tendemos a evitar, porque nos doem. 
É triste quando os filhos se querem, literalmente, "livrar dos pais". Uma coisa é ter de ir para um Lar de Idosos, porque os filhos não conseguem cuidar dos pais, por terem eles próprios problemas que os impedem de cuidar deles ou porque trabalham e consideram que o facto de os deixarem sozinhos em casa o dia todo não é a melhor solução e pode tornar-se perigoso. E, afinal, quem somos nós para questionar as decisões de quem quer que seja? Mas este livro toca noutro ponto sensível, no abandono a que os idosos são votados. Afinal, não haverá um tempinho em alguma hora da semana para, pelo menos, os visitar?
Sempre me chocaram certas realidades nos lares: as horários para tudo, o terem de ficar sentados numa "sala de convívio" horas infindas e, neste livro, a espera interminável, por que uma assistente os deite. É uma vida sem vida, é uma rotina sem opção de escolha. E são tantas as histórias que cada vida ali prostrada nos conta! E, pior, quando não se é verdadeiramente idoso, mas se tem uma doença como o Alzheimer, capaz de os remeter para o piso dos "imprestáveis", os dementes. 
Mas o que verdadeiramente me tocou neste livro foi o poder da amizade, amizade esta que também se pode fazer num Lar. Não deixem de ler este livro. É cru, é duro, mas é, também, perfeito de tão real. Uma lição de muitas vidas!

Saramago, José. Memorial do Convento. Porto: Porto Editora, 2022.

Nº de páginas: 402
Início da leitura: 23/01/2024
Fim da leitura: 03/02/2024

**SINOPSE**
"«Um romance histórico inovador. Personagem principal, o Convento de Mafra. O escritor aparta-se da descrição engessada, privilegiando a caracterização de uma época. Segue o estilo: "Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra... Era uma vez a gente que construiu esse convento... Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes... Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido". Tudo, "era uma vez...". Logo a começar por "D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa a até hoje ainda não emprenhou (...). Depois, a sobressair, essa espantosa personagem, Blimunda, ao encontro de Baltasar. Milhares de léguas andou Blimundo, e o romance correu mundo, na escrita e na ópera (numa adaptação do compositor italiano Azio Corghi). Para a nossa memória ficam essas duas personagens inesquecíveis, um Sete Sóis e o outro Sete Luas, a passearem o seu amor pelo Portugal violento e inquisitorial dos tristes tempos do rei D. João V.» (Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998)".
Cada vez que leciono uma obra, gosto de a reler. É a primeira vez que vou ensinar esta obra, sendo que antes tínhamos escolhido «O Ano da Morte de Ricardo Reis». Mas, acreditem, a cada revisitação, há sempre novos pormenores, novas passagens que nos indagam e fazem com que seja uma viagem única! Tão bom revisitar Saramago em qualquer das suas obras!

Tudor, C.J. (2018). O Homem de Giz. Lisboa: Planeta Manuscrito.

Tradução: Victor Antunes
Nº de páginas: 320
Início da leitura - 23/01/2024
Fim da leitura - 26/01/2024

** SINOPSE**
"Toda a gente tem segredos...

Tudo aconteceu há trinta anos, e Eddie convenceu-se de que o passado tinha ficado para trás. Até ao dia em que recebeu uma carta que continha apenas duas coisas: um pedaço de giz e o desenho de uma figura em traços rígidos. À medida que a história se vai repetindo, Eddie vai percebendo que o jogo nunca terminou.

Um mistério em torno de um jogo de infância que enveredou por um caminho perigoso.

Um livro diferente dentro do género thriller, uma vez que combina o psicológico com um toque de Stephen King e umas pinceladas de Irvine Welsh."
Este é um thriller bastante empolgante, que nos conta uma história, passada entre dois momentos (passado- 1986/presente- 2016), narrada pelo protagonista, Eddie, pelo qual sentimos alguma empatia, especialmente pela criança vítima de Bullying,  mas também pelo homem estranho em que se torna e que, desde o início, percebemos que esconde algo por detrás da sua maneira de ser sombria, um professor antissocial que se refugia da bebida.
Não vou contar mais, uma vez que a sinopse dá conta dos aspetos fundamentais para perceberem se é o género de leitura por que optariam. Apenas refiro que o giz tem um papel crucial na vida desta personagem (e não apenas enquanto professor). Se apreciam o género, aconselho a leitura. Sem ser extraordinário, lê-se muito bem e entretém.

Thirault, Philippe (2021). Shanghai Dream - Edição Integral. Estoril: Arte de Autor.

Tradução: Sandra Alvarez
Nº de páginas:120
Início da leitura: 21/01/2024
Fim da leitura: 22/01/2024

**SINOPSE**
"Berlim, 1938. Bernhard e Illo, um jovem casal apaixonado um pelo outro e pelo cinema, sonham em conseguir filmar a comédia romântica que Illo escreveu... mas com o aproximar da Segunda Guerra Mundial, o tempo não está para comédias românticas, muito menos escritas por judeus. Perante o clima de perseguição anti-semita instalado, ao casal só lhe resta fugir do nazismo e abandonar a sua casa, partindo para o exílio. Conseguem embarcar num navio com destino a Xangai - uma cidade efervescente e enigmática onde imaginam poder recuperar a liberdade... mas a que custo?

Um drama profundamente humano, ambientado na II Guerra Mundial, que aborda o tema quase desconhecido da imigração forçada dos judeus para a China e assinala a estreia no nosso país do trabalho do desenhador português Jorge Miguel para o mercado franco-belga.

A edição de Shanghai Dream é a primeira colaboração entre duas das principais editoras de banda desenhada portuguesas, A Seita e a Arte de Autor, que pretendem desta feita trazer aos leitores portugueses a obra de um dos principais autores de BD nacionais, que os leitores portugueses ainda não conhecem. A edição portuguesa desta obra reúne os dois álbuns originais, num volume de 120 pgs. em formato franco-belga, que para além da história completa inclui também um conjunto adicional de extras inéditos."
Uma excelente novela gráfica! Bernhard é um conceituado realizador de cinema, em Berlim, na década de 30. Illo é uma guionista judia, proibida, há 4 anos de trabalhar. Os dois são um casal que poderia ser muito promissor, não fosse a II Guerra Mundial. O guião de Illo é rejeitado, Bernhard despedido. Veem-se obrigados a viver em casa do pai dela. Mas a guerra veio para destruir os seus sonhos. Uma luz ao fundo do túnel surge quando lhes contam sobre Xangai, a "Hollywood do Extremo Oriente". Porém, para além de ser muito longe, de ser uma viagem perigosa, o pai de Illo diz-lhes que só há dois bilhetes, não há dinheiro para mais. É a oportunidade da filha e do genro se salvarem. Embarcam, mas o coração de Illo fica destroçado, não se sente bem por abandonar o pai e volta atrás. Bernhard vê-se obrigado a seguir sozinho. Mas será ele capaz de concretizar o sonho deles sozinho? O que lhe reserva Xangai? Voltará a encontrar o grande amor da sua vida?
As ilustrações estão muito bem feitas, conseguimos sentir as emoções das personagens, a dor, os gritos, o medo, a ternura...
Recomendo vivamente a leitura!

Lundberg, Sofia (2021). Um ponto de interrogação é um coração partido. Lisboa: Porto Editora.

Tradução: Inês Fraga
Nº de páginas: 312
Início da leitura: 20/01/2024
Fim da leitura: 21/01/2024


** SINOPSE**
Elin Boals parece ter a vida ideal: é uma bem-sucedida fotógrafa de moda em Nova Iorque e tem a família perfeita, composta por um marido maravilhoso, Sam, e a filha de dezasseis anos, Alice. Porém, quando Elin recebe um mapa celeste enviado por Fredrik, o seu único amigo de infância, esse simples gesto impede-a de se concentrar na resolução de problemas mais prementes: o seu casamento está à beira do fim e ela não consegue sequer arranjar disponibilidade para a terapia de casal.
Neste difícil contexto, Fredrik é a lembrança viva de um passado que Elin fez tudo para esquecer e ocultar, principalmente dos que lhe são mais próximos. As memórias da vida difícil em Gotland, na Suécia, e de todos quantos ela deixou para trás voltam à tona, juntamente com a revelação do terrível segredo que determinou a sua fuga, aprofundando ainda mais o fosso entre ela e a família. Todavia, ao fim de décadas mergulhada na mentira, Elin acaba por compreender que a única maneira de salvar a existência que construiu é reconciliando-se com o passado.
Criei grandes expetativas em relação à leitura deste livro, pelo facto de ser da autora de A Agenda Vermelha, que adorei, pela própria capa e, especialmente, pelo título, tão criativo.
Nesta narrativa, duas histórias vão intercalando: o presente, em Nova Iorque, onde a protagonista, Elin, tem uma vida de sonho, é uma fotógrafa conceituada e tem um marido que a ama e uma filha, Alice, uma jovem e promissora bailarina. E o passado, em Gotland, onde é narrada a infância da protagonista, não tão perfeita e sonhada quanto o presente. E é enorme a diferença entre a Elin do passado e a Elin do presente. O que poderá ter vivido esta personagem para a transformar desta maneira? Há um passado a enfrentar, que pode alterar o presente e que será determinante em relação ao futuro. É um livro muito bem escrito, que nos desperta emoções, nos leva até às vivências das personagens.
Apesar de ter gostado mais do livro anterior, gostei muito deste livro e recomendo a sua leitura.

 Jónasson, Ragnar; Jakobsdottir, Katrin (2023). Reiquiavique. Lisboa: Topseller.

Tradução: Maria da Fé Peres
Nº de páginas: 304
Início da leitura: 18/01/2024
Fim da leitura: 20/01/2024

**SINOPSE**
"Uma ilha remota.
Uma rapariga desaparecida.
Uma cidade que esconde os seus segredos.

Islândia, 1956. Lára, de 15 anos, passa o verão a trabalhar para um casal na pequena ilha de Videy, perto da costa de Reiquiavique. No início de agosto, a rapariga desaparece sem deixar rasto. O mistério torna-se o maior caso não resolvido da Islândia. O que aconteceu com a jovem? Estará ainda viva? Terá saído da ilha ou aconteceu-lhe, porventura, alguma coisa?

Trinta anos depois, em agosto de 1986, aquando do 200.º aniversário de Reiquiavique, o jornalista Valur Robertsson inicia a sua própria investigação sobre o caso. Mas conforme se aproxima da verdade, e com os olhos da cidade postos nele, torna-se claro que existe alguém interessado em que o desaparecimento de Lára permaneça um mistério sem solução..."
Gostei muito de ler este livro, de leitura compulsiva, repleto de ação e de "suspense". Duas personagens que parecem nada ter a ver uma com a outra. Uma, Lára, é uma jovem que vai trabalhar para uma casa, numa pequena ilha perto de Reiquiavique. Entretanto, desaparece e nunca mais se sabe nada sobre o seu desaparecimento. Em 1986, um jornalista, Valur Robertsson, deicde começar a investigar o caso. Porém, "acidentalmente" cai em direção a um autocarro em andamento. Quem poderia estar por detrás deste acidente? A irmã e Valur começa, ela própria, uma investigação sobre a morte o irmão, tentando perceber se, de alguma forma, este crime estava ligado ao do passado. Para saberem, terão mesmo de ler. Surpreender-se-ão com toda a investigação e o rumo que os acontecimentos tomam. Muito bom!

Etcheves, Florencia (2023). A Cozinheira de Frida. Lisboa: Planeta dos Livros.

Tradução: Alex Tarradellas e Rita Custódio
Nº de páginas: 504
Início da leitura: 12/01/2024
Fim da leitura: 17/01/2024

**SINOPSE**
Nayeli, uma jovem tehuana, fugiu de casa e chega à Cidade do México sem rumo. Graças aos seus maravilhosos dotes culinários, encontra um lugar na Casa Azul, onde Frida Kahlo vive praticamente isolada desde o acidente fatal que a deixou paralisada.

Entre sabores, aromas e cores, a pintora e a sua nova cozinheira iniciam uma amizade que marca profundamente o destino de ambas.

Muitos anos depois, em Buenos Aires, onde Nayeli se instalou e constituiu família após a morte de Frida, a neta descobre um segredo que pode mudar a sua vida: a existência de um misterioso quadro em que a avó é a protagonista, mas cujo autor é desconhecido.

A autora Florencia Etcheves conseguiu recriar o lado mais humano de Frida Kahlo, ao mesmo tempo que criou um romance poderoso, onde intrigas, amores e invejas tecem uma história cativante de amizade e lealdade entre duas mulheres unidas pelo destino.
Adoro ler sobre Frida Kahlo. A autora deste livro, apesar de ter criado uma personagem ficcional - a crozinheira Nayeli, envolveu-a num contexto histórico muito bem fundamentado sobre Frida. É uma história bem escrita, que nos prende e nos leva a querer continuar a ler "só mais uma página" até concluirmos o romance. Acompanhamos o percurso de vida da pintora, amor, traição, dor e, ao mesmo tempo, vemos uma Frida que, fragilizada no momento em que sofre o terrível acidente que a deixou muito mal, cria uma relação de amizade com Nayeli, uma jovem recém chegada ao México.
A par desta narrativa que decorre na época da Casa Azul, temos uma época mais avançada, onde conhecemos  neta de Nayeli, que descobrira um quadro antigo onde aparecia, um retrato da sua avó, onde esta aparecia nua. Determinada a obter respostas sobre o passado da avó, viaja até à cidade do México  no encalce de pistas que permitam entender quem era a avó, que relação efetiva tivera com Frida, quem a tinha pintado...
Depois, saliento todos os elementos tradicionais tehuanos que vão surgindo e que enriquecem a história. Recomendo!

 Munuera, José-Luis (2023). Bartleby, o Escriturário Uma história de Wall Street. Arte de Autor.

Tradução: Jorge Colaço
Nº de páginas: 72
Início da leitura: 08/01/2024
Fim da leitura: 11/01/2024

**SINOPSE**
"Nova Iorque, distrito de Wall Street.
Um jovem é contratado para um escritório de notário. o seu nome é Bartleby e o seu trabalho consiste em copiar documentos legais.
No início, Bartleby revela-se irrepreensível. Consciente, eficiente, incansável, faz um trabalho colossal, dia e noite, sem nunca se queixar. a sua energia é contagiante. Leva os seus colegas, muitas vezes rebeldes, a darem o seu melhor.
Um dia, tudo se altera. Quando o patrão lhe dá um trabalho, Bartleby recusa-se a fazê-lo. Educadamente, mas com firmeza: "Prefiro não o fazer", responde.
A partir de então, Bartleby deixará de obedecer a ordens, cingindo-se nestas poucas palavras que pronuncia como um mantra. Prefiro não. Não só deixa de trabalhar, como se recusa a abandonar o local...

José Luis Munuera pega no conto de Herman Melville e adapta-o de forma magistral, lançando um olhar original sobre este texto, uma reflexão estimulante sobre a obediência e a resistência passiva."
Esta novela gráfica é recuperada por Munuera de um conto de Herman Melville, autor de Moby Dick e posso já adiantar que adorei! 
Em Wall Street, um advogado de meia idade, também narrador da história, mantém um escritório (“o notariado, a cobrança de títulos e transcrições e cópia de documentos de toda a espécie” ), que, ao precisar de contratar um copista, acaba contratando Bartleby, o escriturário, protagonista desta história. Este revela-se muito eficiente, não largando o trabalho por nada (dorme num cadeirão no escritório sem que o patrão saiba), correndo tudo muito bem até ao momento em que o patrão lhe pede para rever e examinar a sua cópia e ele responde "Preferia não o fazer." A partir desta recusa, queremos conhecer melhor esta personagem que desobedece ao patrão e tentar perceber o que o leva a agir desta forma tão estranha e pela qual não esperávamos, absolutamente. E a expetativa acompanha-nos, ao longo de várias páginas, numa banda desenhada muito bem ilustrada e escrita, cujos tons escuros e sombrios representam na perfeição Wall Street, condicentes com a própria metáfora da alienação, da descrença e da apatia representadas através do sombrio  protagonista.
Uma novela gráfica imperdível e que dificilmente esquecemos!

 Olafsdóttir, Audur Ava (2019). Hotel Silêncio. Lisboa: Quetzal Editores.

Tradução: José Vieira Lima
Nº de páginas: 200
Início da leitura: 06/01/2024
Fim da leitura: 07/01/2024

**SINOPSE**
"Jónas Ebeneser está no limiar dos quarenta e nove anos. É um homem divorciado, heterossexual, sem relevância social ou vida sexual. E tem a compulsão de consertar tudo o que lhe aparece à frente. Tomou recentemente conhecimento de que não é o pai biológico da sua filha. Isso despedaça-o e fá-lo mergulhar numa crise profunda.

Com grande mestria, num estilo poético e finamente irónico, Ólafsdóttir mostra neste romance a capacidade de autorregeneração de um homem que redescobre um sentido para a vida através da bondade, mesmo que o faça a partir das profundezas do desespero.

Ör («cicatriz», no original) foi galardoado em 2016 com o Prémio de Literatura Islandesa, o Prémio de Melhor Romance Islandês e o Prémio dos Livreiros Islandeses."
Após um casamento fracassado, a confissão por parte da mãe da sua filha de que não é ele o pai biológico, de ter a mãe num lar, em que poucos são os momentos em que está plenamente consciente,  Jónas Ebeneser decide pôr termo à vida. O plano dele é fazer um furo no teto para se poder enforcar. Porém, onde vive, tem o vizinho atento, a filha que aparece sem avisar e acaba por mudar de planos. Precisa viajar para longe para, não conhecendo ninguém, não impor aos que lhe são mais próximos, lidar com o seu cenário de morte. E é isso que faz. Mas o hotel onde se instala, o Hotel Silêncio, vai operar nele algumas transformações, de que não vou falar, pois não quero que percam o interesse pela leitura. Se querem saber se Jónas se suicida e como o faz, terão mesmo de ler.
Gostei muito deste livro. A escrita é simples, sem deixar de ser cuidada. É, em alguns momentos em que descreve o pós-guerra, crua, direta e incisiva. A narrativa prende-nos e surpreende-nos a cada passagem. Recomendo!

Tolstoi, Lev e Brénaudr, Frédéric (2023). Guerra e Paz I e Guerra e Paz II. Lisboa: Editora Levoir.

Tradução: Sandra Alvarez
Nº de páginas: volume I - 64
                        volume II - 64

**SINOPSE**
Vol. I
Moscovo, início do século XIX. a oeste da Europa grassam as guerras napoleónicas, mas aqui organizam-se jantares onde toda a burguesia russa é convidada. Seguimos os destinos cruzados do conde Rostov que se prepara para casar a filha Natasha; do príncipe André Bolkonski e de Lisa, sua mulher, grávida; de Pierre, filho ilegítimo do conde Bezoukhov; e de Nicolas Rostov e sua prima Sonia, loucamente apaixonados...

A sua vida despreocupada não tardará a mudar com a notícia da entrada da Rússia na guerra ao lado da Áustria
.

Vol. II
A guerra assola a Europa. Os russos sofrem perdas consideráveis e Napoleão chega às portas de Moscovo. o príncipe André, ferido, é capturado pelos franceses. Como todos os habitantes da capital, Natasha decide fugir de Moscovo para se refugiar no campo; Pierre, um pacifista, mas traumatizado pelas atrocidades desta guerra, decide por fim tomar armas para defender a cidade. a paz ainda terá de ser ganha à custa de enormes sacrifícios...
Este clássico da literatura tem aqui, em Banda Desenhada, uma abordagem muito interessante. Pode constituir uma forma mais simples de os mais jovens (na era da "voracidade", da "falta de tempo") conhecerem os clássicos da literatura mundial. A história, ainda que bem simplificada, foca-se nos momentos fulcrais, destacando, através da imagem, a caracterização das personagens. No fim de cada volume, há um momento onde, também de forma muito compreensível e simples, fornece informações sobre o autor Lev Tolstoi, a Guerra Franco-Russa, a forma como o autor da obra se documentou, as personagens, as várias famílias que surgem na obra, o que permite melhor compreender a própria BD. 
Gostei bastante e fiquei curiosa em relação a estas adaptações de clássicos.

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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