Terra, Maggie O'Farrell

O'Farrel, Maggie (2026). Terra.Lisboa: Relógio D'Água.

Tradução: Tânia Ganho
N.º de páginas: 448
Início da leitura: 04/08/2026
Fim da leitura: 08/08/2026

**SINOPSE WOOK**

"Maggie O’Farrell, autora de Hamnet, regressa com um magnífico romance histórico passado na Irlanda dos anos que antecederam e se seguiram à Grande Fome.

Numa península varrida pelos ventos do Atlântico, Tomás e o seu relutante filho, Liam, trabalham num grande projeto, destinado a cartografar a Irlanda.

Os soldados britânicos responsáveis pelo projeto deverão chegar a qualquer momento, esperando encontrar o trabalho concluído. Mas um estranho encontro num pequeno bosque altera inesperadamente o rumo dos acontecimentos.

Terra é um romance sobre separação e reencontro, tragédia e recuperação, colonização e resistência. É uma história de tesouros escondidos, vidas que se cruzam ao longo do tempo e sobre a forma como, quando falamos da terra e da história, nada desaparece verdadeiramente."

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Em Terra, Maggie O'Farrell regressa à Irlanda do século XIX, a um território marcado pela pobreza, pela memória e por uma relação quase ancestral entre as pessoas e o lugar que habitam. A ação situa-se no período que antecede e sucede à Grande Fome, acompanhando Tomás e o filho, Liam, numa península isolada da costa oeste irlandesa. É uma terra difícil, onde a sobrevivência depende do trabalho, do conhecimento dos ciclos naturais e daquilo que a própria terra pode oferecer.
Tomás participa, ainda que contrariado, nos levantamentos geográficos promovidos pelos britânicos. Mapear aquele território significa medir, nomear e delimitar, mas também transformar uma realidade vivida há gerações em linhas num mapa e em propriedades que podem ser atribuídas a alguém. O trabalho dos chamados casacas vermelhas não é, por isso, apenas uma tarefa técnica: introduz uma nova ordem num território onde as fronteiras, os nomes e os direitos sobre a terra possuem significados muito mais antigos. Tomás compreende as consequências desse processo e percebe que aquilo que lhe permite pagar a renda e garantir o sustento da família é, simultaneamente, uma das forças que contribuem para dividir a comunidade.
É nesse cenário que um encontro inquietante num bosque desencadeia uma rutura profunda na vida de Tomás. A partir desse momento, a realidade parece perder a estabilidade e o protagonista afasta-se progressivamente do projeto oficial, procurando uma outra forma de existência numa cabana abandonada. O que se segue não é apenas uma fuga, mas uma tentativa de regressar a uma relação mais elementar com a terra, longe das imposições de uma sociedade que pretende medir, classificar e possuir aquilo que antes era sobretudo habitado.
O'Farrell constrói a narrativa através de diferentes tempos e perspetivas, aproximando o presente da história mais remota daquele lugar e fazendo com que passado, memória, lenda e realidade se contaminem mutuamente. Há uma dimensão de estranheza e de magia ligada ao folclore irlandês, mas Terra nunca se reduz a uma história fantástica. O elemento sobrenatural surge antes como uma outra maneira de olhar para um mundo que a racionalidade moderna tenta explicar e dominar. A autora deixa, aliás, uma zona de ambiguidade particularmente interessante: aquilo que é real, aquilo que é memória e aquilo que pertence ao imaginário nem sempre se distinguem com facilidade.
A terra é, naturalmente, o grande centro do romance. Não apenas como espaço físico, mas como lugar de pertença, sobrevivência e conflito. É nela que se trabalha, dela se retira o sustento e sobre ela se constroem relações de poder. É também nela que permanecem as marcas de quem viveu antes. A história da família de Tomás cruza-se, assim, com uma história muito mais longa, feita de pessoas, perdas, deslocações e mudanças que ultrapassam largamente a existência de cada indivíduo.
Um dos aspetos mais interessantes do romance está precisamente nesta tensão entre o que permanece e o que se transforma. O'Farrell escreve sobre uma época em que uma determinada conceção do mundo começa a desaparecer, substituída por uma ordem mais sistemática, administrativa e racional. Os mapas tornam-se instrumentos de poder; dar um nome a um lugar pode significar apropriar-se dele; estabelecer uma fronteira pode alterar para sempre a vida de quem ali vive. Ao mesmo tempo, persistem crenças, histórias e formas de compreender a natureza que não cabem facilmente nesses novos mapas.
Terra é, por isso, um romance que exige disponibilidade. A narrativa não se entrega imediatamente, nem procura conduzir o leitor pela mão. As diferentes linhas temporais e as mudanças de perspetiva pedem atenção e alguma paciência, mas contribuem para criar uma sensação de profundidade: a de que estamos perante uma história que começou muito antes de Tomás e Liam e que continuará depois deles.
É também um livro sobre a família, sobre a relação entre pais e filhos e sobre aquilo que herdamos sem necessariamente o escolhermos. Mas é sobretudo uma história sobre pertença. Sobre o que significa chamar a um lugar "nosso" quando esse lugar foi habitado por outros antes de nós e continuará a existir depois da nossa passagem.
Maggie O'Farrell constrói assim um romance denso, atmosférico e deliberadamente exigente, onde a História e o folclore se encontram sem que um anule o outro. Há momentos em que a leitura pede tempo, não apenas para acompanhar a narrativa, mas para permanecer nas suas imagens e interrogações. Terra não é um livro para consumir depressa: é uma obra para habitar durante algum tempo.

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