Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Tabucchi, Antonio. Cartas ao Capitão Nemo. Alfragide:Publicações Dom Quixote, 2026.

Tradução: Ana Cláudia Santos
N.º de páginas: 144
Início da leitura: 18/10/2026
Fim da leitura: 19/10/2026

**SINOPSE WOOK**
"Uma mãe melancólica e distante, que ouve no gramofone a canção Amado mio; um pai fotografado com o braço eternamente estendido; um tio que colecciona bonecas; uma cave onde algo terrível aconteceu. E também uma Aprilia vermelha, um piano, um rato morto. E, por fim, Duccio, a quem chamam Cino, um rapazinho que descobre o lado mais abjecto da vida e tenta esconjurá-lo com os meios que tem. Por exemplo, escrevendo ao Capitão Nemo...

Eis os protagonistas deste romance breve e enigmático, ambientado numa villa na costa toscana, na véspera de um Ano Novo da década de 1950. Uma obra a que Tabucchi se dedicou por muitos anos, sem nunca a publicar, e que declarou até ter destruído.

Recuperado por entre os papéis guardados numa gaveta na casa do escritor, e pacientemente reconstruído por Thea Rimini, Cartas ao Capitão Nemo é, nas palavras do autor, «crónica de uma dissociação psíquica, metáfora da solidão ou radiografia de um futuro vingador». Um livro onírico e pleno de sugestões, além de um retrato muito eficaz da Itália do pós-guerra."

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Cartas ao Capitão Nemo, de Antonio Tabucchi (1943-2012) é um texto inédito, publicado apenas em setembro, muitos anos depois de ter sido dado como destruído pelo próprio autor. Recuperado entre os seus papéis e reconstruído por Thea Rimini, o manuscrito chega-nos, por isso, envolto numa espécie de aura póstuma que não é apenas editorial: faz parte da própria experiência de leitura.
A história acompanha Duccio, um rapaz que cresce, na década de 1950, no ambiente simultaneamente solar e inquietante de uma villa na costa toscana. À sua volta, a família, as relações entre os adultos e os silêncios que atravessam a casa compõem um universo onde nada parece inteiramente explicável. A infância de Duccio é, assim, menos um lugar de inocência do que um território de descoberta, em que a percepção gradual da crueldade e das ambiguidades do mundo obriga o protagonista a procurar uma forma de compreender aquilo que os adultos não dizem.
É nesse momento que surge o Capitão Nemo. Mais do que uma personagem no sentido convencional, Nemo funciona como interlocutor imaginário, destinatário de cartas que permitem a Duccio deslocar para outro plano aquilo que não consegue enfrentar diretamente. O recurso tem uma dimensão claramente literária: Tabucchi estabelece uma ponte entre a realidade e o sonho, entre a experiência concreta de uma criança e o universo da imaginação, recuperando uma figura que pertence ao imaginário de tantas gerações de leitores. Mas, nas mãos do autor, essa referência não se reduz a uma homenagem ou a um jogo intertextual. Nemo torna-se uma espécie de confidente distante, alguém a quem se pode escrever quando o mundo real deixa de oferecer respostas.
O que torna o livro particularmente interessante é precisamente a forma como essa fronteira entre realidade, memória, sonho e imaginação se vai tornando instável. Tabucchi não conduz o leitor por um caminho linear nem procura esclarecer tudo o que apresenta. Há episódios que parecem pertencer à lógica da recordação, outros que se aproximam do pesadelo ou da fábula, e outros ainda que permanecem deliberadamente suspensos entre esses territórios. O leitor é chamado a aceitar essa ambiguidade, mais do que a resolvê-la.
Também por isso, Cartas ao Capitão Nemo não é um livro de leitura imediata. Exige atenção, disponibilidade e alguma paciência perante uma narrativa que não entrega facilmente todas as suas chaves. Há momentos em que o ritmo abranda e a atmosfera se sobrepõe à ação. A escrita pede que se leia não apenas o que acontece, mas também aquilo que fica por dizer, os silêncios, as imagens recorrentes e a estranheza que se instala pouco a pouco.
Apesar de partir do olhar de uma criança, este não é propriamente um livro sobre a infância. É antes um livro sobre o momento em que a infância começa a perder a sua proteção e o mundo adulto revela a sua dimensão mais obscura. Duccio descobre que as pessoas podem ser contraditórias, que os afetos podem esconder outras coisas e que a realidade nem sempre coincide com aquilo que parece ser. A imaginação surge então não como fuga, mas como uma forma de resistência e de conhecimento.

Velho, Susana Amaro (2026). Sou Uma Multidão Minúscula. Lisboa: Casa das Letras. 
N.º de páginas: 320
Início da leitura: 16/10/2026
Fim da leitura: 18/10/2026

**SINOPSE WOOK**

"Em 1971, numa aldeia esquecida, Margarida cresce no casarão da colina rodeada por uma felicidade postiça. Há o piano de Elvira, os salões antigos cheios de livros, a presença de Jaime, filho da casa, e os dias longos de uma infância que parece ainda protegida. Mas longe da delicadeza dos gestos e da ordem dos dias, a brutalidade repete-se, aceite como uma fatalidade doméstica. Margarida é empurrada para fora daquela beleza encenada e aprende cedo que crescer é ser expulso da própria infância.

Décadas mais tarde, viúva e mãe de dois filhos, procura equilibrar-se entre três empregos e a luta diária pela sobrevivência. Mas quando um novo ato de violência ameaça destruir aquilo que mais ama, é obrigada a regressar ao lugar exato que decidira abandonar no passado. Proteger a filha poderá exigir-lhe o impensável.

Cruzando duas histórias de violência atravessadas pela mesma protagonista, Susana Amaro Velho constrói uma narrativa de tensão crescente, onde a estrutura e o jogo de perspetivas desafiam continuamente o leitor, confirmando a sua singularidade na forma como desmonta o rumo dos acontecimentos.

Sou uma Multidão Minúscula é um romance profundamente humano sobre aquilo que herdamos sem escolha, o que tentamos esconder, e a forma como a violência atravessa gerações. Afirma-se como um tributo à memória das mulheres silenciadas pelo abuso."

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"Sou uma Multidão Minúscula" é um verso de António Ramos Rosa, que dá título ao mais recente livro de Susana Amaro Velho. Nesta obra, a violência perpetua-se na vida da protagonista Margarida em duas gerações distintas, enquanto jovem, em 1971, por detrás das portas do casarão onde vivia, e, mais tarde, em 1994, enquanto mãe de uma jovem, uma mãe com três empregos e dois filhos. Preocupada com o filho, que se junta a más companhias, acaba por não se aperceber que a mesma violência que sofrera na infância se lhe adentra pela casa, agora em relação à filha. Salienta-se, desta forma, que em mais de 20 anos nada mudou, nada foi feito para travar a violência. Em 1994, o Código Penal ainda considerava os crimes sexuais como crimes contra os valores da sociedade, não contra pessoas. 
Este é um livro que, pela temática abordada, nos choca, nos causa desconforto, mas é importante que assim seja, é importante deixar de legitimar estes comportamentos, os abusos sexuais de menores.
Gostei muito do livro, gosto da forma como Susana Amaro Velho escreve, das alternâncias temporais que tornam duas épocas distintas tão próximas, mostrando que, em muitos aspetos, a sociedade não evoluiu o que era suposto evoluir.
O único aspeto que me pareceu um pouco forçado foi a quantidade de citações de livros/autores, que, apesar da personagem leitora da obra, que enducava, também, através do que lia, me pareceu excessivo.
É, contudo, muito positivo ver os nossos escritores nacionais a escreverem cada vez melhor.

Rodrigues, José (2026). A Vendedora de Flores. Porto: Porto Editora.

N.º de páginas: 232
Início da leitura: 12/10/2026
Fim da leitura: 16/10/2026

**SINOPSE WOOK**

"Cidália vê a sua neta Constança, a única família que lhe resta, partir para a faculdade, deixando a Aldeia da Paz. Para combater a solidão e a saudade, resolve procurar Isménia, uma amiga de quem há muito não tem notícias, e é surpreendida pelo seu frágil estado de saúde.

Movida pelo inesgotável desejo de ajudar os outros, Cidália resolve levar Isménia consigo para a Quinta do Velho, onde mantém a custo uma pequena exploração agrícola. Aí, o ritmo lento do quotidiano, a companhia de Jacó, o fiel papagaio, e a unida comunidade que tão bem a acolhe trazem a Isménia a paz e o conforto que a vida lhe parecia ter negado. Constança, por sua vez, encontra novas razões para visitar mais frequentemente a aldeia, quando conhece João, o jovem fisioterapeuta que acompanha a amiga da avó.

Entre gestos simples e o aroma das flores, a força invisível da bondade de Cidália faz renascer a esperança e transforma a vida de todos os que a rodeiam. Por onde quer que passe, a amizade e o amor que Cidália coloca em cada gesto juntam-se à memória de dias passados e assumem-se como as maiores fontes da felicidade humana."


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Gostei muito de A Vendedora de Flores, um romance que confirma o apreço que tenho pela escrita de José Rodrigues. É uma narrativa que, apesar de assentar em temas particularmente dolorosos, consegue manter uma escrita sensível e próxima, sem transformar o sofrimento das personagens num mero recurso para provocar emoção no leitor.
Esta não é uma história cor-de-rosa, nem pretende apresentar uma visão idealizada das relações humanas. Pelo contrário, José Rodrigues aborda realidades duras, como o abuso, a perda e a morte, colocando as personagens perante situações que deixam marcas profundas. Ainda assim, existe uma naturalidade na forma como estes temas são introduzidos e desenvolvidos que me parece ser uma das maiores qualidades do livro.
A emoção surge sobretudo através das personagens, das suas experiências, dos seus segredos e das consequências que determinados acontecimentos têm nas suas vidas. É uma abordagem que permite ao leitor acompanhar o sofrimento sem sentir que está perante uma narrativa artificialmente dramatizada. 
Também aqui se reconhece uma escrita muito centrada nas relações humanas. São as personagens, aquilo que vivem e a forma como lidam com o que lhes acontece que dão ao romance a sua força. Há fragilidade, dor e perda, mas também existe a capacidade de continuar, mesmo quando a vida obriga a enfrentar circunstâncias difíceis. Gostei, muito particularmente, da D. Cidália, uma personagem forte, altruísta e bondosa (visível na relação com as pessoas que lhe são mais queridas, como a neta e a amiga Isménia) e, por isso mesmo, inspiradora.
A escrita de José Rodrigues caracteriza-se, para mim, por uma particular facilidade de leitura. As frases são claras, a narrativa desenvolve-se de forma natural, com um ritmo que confere alguma tranquilidade e conforto. A contribuir para esta sensação e a de que acompanhamos o dia a dia destas personagens, na Quinta do Velho (na ficcional Aldeia da Paz, que o autor situa perto de Viseu) temos as fotografias de Sara Augusto. Finalmente, realço uma característica que o autor tem vindo a revelar nos vários livros que tenho lido: a forte valorização da identidade regional e das tradições portuguesas, num interior que convida à desaceleração, pela sua serenidade e autenticidade, que convida a sentarmo-nos à mesa, a degustarmos um prato regional e a sentirmos os aromas, sejam eles do pão acabado de sair do forno, pelas mãos do poeta de poucas palavras, sejam eles das flores de Cidália e das memórias que estas convocam.

Nugent, Liz (2026). A Verdade Sobre Ruby Cooper. Lisboa: Penguin. 

Tradução: Maria da Fé Peres
N.º de páginas: 368
Início da leitura:13/10/2026
Fim da leitura: 16/10/2026

**SINOPSE WOOK**
"Ruby Cooper e a sua irmã, Erin, levam uma vida idílica na sua unida comunidade paroquial em Boston. Mas aos 6 anos, Ruby vê-se envolvida num incidente que faz com que o mundo da sua família desmorone. Ao longo de décadas, as consequências daquele incidente deixam um rasto de destruição atrás de Ruby em Dublin, e de Erin em Boston. Não que Ruby queira pensar no passado. Mas há coisas que não podem permanecer em segredo para sempre…"

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A Verdade Sobre Ruby Cooper, de Liz Nugent, é uma leitura dura e desconfortável, construída em torno de uma relação familiar marcada por segredos, obsessões e comportamentos perturbadores. No centro da história estão as irmãs Ruby e Erin Cooper, cuja relação vai revelando, progressivamente, uma realidade muito mais complexa e inquietante do que aquela que inicialmente poderíamos imaginar.
Ruby é, desde cedo, uma personagem difícil de compreender e, sobretudo, impossível de acolher com empatia. A construção de um buraco entre o seu quarto e o da irmã, para poder observar secretamente Erin e o namorado desta, é apenas uma das primeiras manifestações de uma personalidade profundamente perturbada e manipuladora. À medida que avançamos na leitura, percebemos que estamos perante uma protagonista que desafia constantemente a nossa capacidade de encontrar nela alguma humanidade ou justificação.
A força do romance está sobretudo na sua dimensão psicológica. As personagens surpreendem-nos, obrigam-nos a rever algumas das ideias que vamos formando sobre elas e mantêm uma tensão constante em torno daquilo que realmente aconteceu e das razões que estão por detrás dos seus comportamentos.
A Verdade Sobre Ruby Cooper é, por isso, uma leitura que incomoda, mas que também prende. Não é uma história fácil nem particularmente confortável, sobretudo pela natureza da protagonista, mas é precisamente essa construção psicológica que mantém a curiosidade até ao fim.

Montes, Raphael (2026). A Estranha na Cama. São Paulo: Companhia das Letras.
N.º de páginas: 304
Início da leitura: 10/10/2026
Fim da leitura: 12/10/2026

**SINOPSE**
"Depois de quinze anos juntos, um jovem e bem-sucedido casal decide apimentar a relação e convidar uma desconhecida para uma experiência sexual a três. O que deveria ser apenas uma noite de prazer acaba por seguir um rumo sombrio e inesperado.

Quando Laura Guimarães Prata chega à esquadra, escoltada por vários agentes da polícia e fugindo à curiosidade dos jornalistas, as suas roupas estão ensanguentadas. Ela não sabe o que aconteceu, mas não tem alternativa senão contar tudo o que viveu nas últimas semanas. Na sala ao lado, o seu marido, o criminalista Diego Guimarães Prata, também descreve os acontecimentos que levaram àquela noite de 21 de setembro…

Tudo começa com um ménage à trois.

Numa sexta-feira à noite, o casal recebe na sua casa em Ipanema, um dos bairros mais caros do Rio de Janeiro, uma estranha que havia conhecido numa aplicação de encontros. Quando a mulher sugere, por prazer, que a sufoquem, a diversão descontrola-se.

Desesperados, Laura e Diego tentam encobrir o que aconteceu, mas logo se veem enredados num jogo de mentiras e traições, e terão de fazer tudo para proteger a imagem e o legado que os Guimarães Prata tanto lutaram para construir.

Um thriller repleto de sensualidade e reviravoltas, de um dos grandes mestres do suspense."
Raphael Montes volta a mergulhar-nos num universo macabro, onde a inquietação e o desconforto fazem parte da experiência de leitura. Embora menos sangrento do que aquilo a que o autor já nos habituou, A Estranha na Cama não perde a capacidade de nos perturbar e de nos manter presos à narrativa.
É um livro que sabe jogar com as expetativas do leitor, conduzindo-nos por caminhos que nem sempre são aquilo que parecem. E, quando julgamos estar a perceber o rumo da história, somos confrontados com uma reviravolta que muda tudo.
Uma coisa é certa: o final é verdadeiramente surpreendente e dificilmente conseguimos antecipá-lo. Mais uma vez, Raphael Montes demonstra saber como desconcertar quem o lê, deixando-nos com aquela sensação de surpresa que só os melhores golpes narrativos conseguem provocar.

Munuera, José Luis (2026). O Cheiro Dele Depois da Chuva. Estoril: Arte de Autor.
Tradução: Paulo Emílio Pires
N.º de páginas: 138 páginas
Início da leitura: 07/10/2026
Fim da leitura: 10/10/2026

**SINOPSE WOOK**
"Adaptação do romance de Cédric Sapin-Defour Esta é uma história de amor, vida e morte entre um homem, Cédric, e o seu cão, Ubac, um Cão de Montanha de Berna cuja presença rapidamente se torna essencial. Mas o verdadeiro herói é o laço entre eles: único, universal, que transcende muitas relações humanas. Durante treze anos, partilham risos, preocupações e momentos fugazes de intensidade, até que a morte impõe a sua ausência.

Uma verdadeira ode à vida, esta história explora o amor incondicional, a vida que passa demasiado depressa e aquelas memórias duradouras, como um aroma querido que permanece gravado na memória, mesmo depois da chuva."

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Baseada na obra de Cédric Sapin-Defour, esta novela gráfica, ilustrada por José Luis Munuera, conta-nos uma história de amor e cumplicidade entre um homem e o seu cão, mostrando-nos como uma relação aparentemente simples pode ocupar um lugar intenso na vida de alguém.
A história parte de uma premissa simples: Cédric e Ubac, um Cão de Montanha de Berna, partilham treze anos de vida. Treze anos de experiências, rotinas, descobertas e afetos, durante os quais a presença de Ubac se torna inseparável da vida do seu dono. Não é preciso muito mais para construir uma narrativa comovente, porque aquilo que está verdadeiramente em causa não é a sucessão de acontecimentos extraordinários, mas a profundidade de uma relação que se desenvolve ao longo do tempo.
O tom é intimista, autobiográfico e contemplativo, respeitando a experiência pessoal de Cédric Sapin-Defour e a forma como este viveu a relação com o seu companheiro de quatro patas. A narrativa detém-se nos pequenos momentos, nos gestos quotidianos e nas particularidades que tornam cada animal insubstituível. 
José Luis Munuera consegue transportar esta experiência para a linguagem da novela gráfica com uma sensibilidade notável. As imagens não se limitam a acompanhar o texto: ampliam as emoções, dão corpo às memórias e criam espaço para aquilo que as palavras não conseguem dizer. Há uma delicadeza na forma como os momentos são representados, como se o desenho procurasse preservar a intimidade de uma história que pertence, antes de mais, a quem a viveu.
Um dos aspetos que mais apreciei foi a forma como a obra aborda temas particularmente difíceis, como a velhice e a morte de um animal, sem cair em sentimentalismos excessivos. A passagem do tempo está sempre presente e, com ela, a consciência de que até as relações mais profundas estão sujeitas à inevitabilidade da perda. Ubac envelhece, o corpo transforma-se e aquilo que antes parecia fazer parte de uma rotina inesgotável começa a adquirir outro significado.
A velhice de um animal não representa apenas a transformação daquele que envelhece; obriga também quem o acompanha a confrontar-se com a fragilidade da vida e com a perspetiva de uma ausência que, por vezes, parece impossível de imaginar. Amar um animal implica aceitar a sua presença no nosso quotidiano, mas também reconhecer que o tempo que nos é dado para partilhar com ele é limitado.
A obra lembra-nos ainda que o luto por um animal pode ser tão profundo quanto qualquer outra experiência de perda. Para quem nunca estabeleceu uma ligação desta natureza, poderá ser difícil compreender a dimensão dessa dor. Mas quem já partilhou a vida com um cão reconhecerá facilmente a importância dos rituais, da companhia silenciosa e daquela presença que, sem precisar de palavras, acaba por fazer parte da própria ideia de casa e de família. Recomendo muito!

Rodrígues, Eider e Ribas, Julen (2022). Santa Família. Prior Velho: A Seita.
Tradução a partir do castelhano: Pedro Cleto
N.º de páginas: 48
Início e fim da leitura: 03/10/2026

**SINOPSE WOOK**
"Os nossos amigos, a nossa forma de vida, a nossa roupa, a música... tudo isso são coisas que escolhemos. Mas a família... a família não, essa é-nos imposta à nascença. Só que Nora decidiu romper com essa regra. E há algum tempo que guarda um segredo, um segredo tremendo, e chegou a altura de o revelar, o que vai fazer com que a mais sagrada instituição da sua vida vá ser abalada. A sua família. A sua santa família, que está quase a ir pelos ares! Mas se esta história nos ensina alguma coisa, é que às vezes são necessárias pequenas revoluções para que tudo volte a ser... como dantes!

Um álbum de BD representativo da nova geração de autores espanhóis bascos, num tom entre a crítica social e de costumes da nossa sociedade moderna, e um realismo fantástico desarmante."

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Em Santa Família, Eider Rodríguez e Julen Ribas constroem uma novela gráfica que parte de uma realidade aparentemente familiar para explorar as relações, os silêncios e as feridas que podem existir dentro de uma família. O título, desde logo, encerra uma certa ironia: por detrás da ideia de família, tantas vezes associada à união, à proteção e ao afeto, podem esconder-se conflitos, ressentimentos, segredos e sentimentos difíceis de verbalizar.
A história coloca-nos perante personagens cujas relações são marcadas por aquilo que dizem, mas sobretudo por aquilo que não dizem. Há uma tensão que se vai instalando progressivamente e que resulta menos de grandes acontecimentos do que da acumulação de pequenos gestos, memórias e comportamentos. É nesse espaço entre o que é mostrado e o que permanece oculto que a narrativa encontra grande parte da sua força.
Eider Rodríguez demonstra uma particular atenção às relações humanas e à complexidade dos afetos.  Cada personagem carrega a sua própria história, as suas fragilidades e a sua maneira de interpretar aquilo que aconteceu. A família surge, assim, como um lugar simultaneamente de pertença e de conflito, onde o amor pode coexistir com a mágoa e onde nem sempre é fácil distinguir o cuidado do controlo, a preocupação do julgamento ou a proximidade da obrigação.
A novela aborda também questões relacionadas com a passagem do tempo e com a forma como as relações familiares se transformam. Há acontecimentos que não desaparecem simplesmente porque os anos passam. Pelo contrário, podem permanecer silenciosamente presentes e reaparecer quando determinadas circunstâncias os trazem novamente à superfície. A memória desempenha, por isso, um papel importante, sobretudo porque aquilo que cada personagem recorda nem sempre corresponde àquilo que os outros recordam.
Santa Família é também uma reflexão sobre as expetativas que depositamos na família. Existe uma ideia socialmente construída de que os laços familiares devem ser naturalmente fortes e incondicionais, mas a realidade é bastante mais complexa. As famílias podem ser espaços de amor e de segurança, mas também podem reproduzir padrões, alimentar conflitos e deixar marcas profundas. Reconhecer essa complexidade não significa negar o afeto, mas aceitar que as relações mais próximas são, muitas vezes, também as mais difíceis.
O que mais me interessou nesta novela gráfica foi precisamente essa capacidade de partir do quotidiano para chegar a questões mais profundas. Não é necessário recorrer a acontecimentos extraordinários para falar de culpa, ressentimento, envelhecimento, perda, amor ou dificuldade de comunicação. Muitas vezes, é dentro de uma casa, entre pessoas que se conhecem há anos, que se encontram os conflitos mais difíceis de resolver.

Burke, Caro Claire (2026). Yesteryear. Porto: Porto Editora.
Tradução: Rui Filipe
N.º de páginas: 436
Início da leitura: 01/10/2026
Fim da leitura: 04/10/2026

**SINOPSE WOOK**

"Natalie Heller Mills é uma mulher americana tradicional: uma esposa e mãe deslumbrante que vende um estilo de vida pioneiro aos seus milhões de seguidores nas redes sociais. O rancho onde vive tem um charme rústico irresistível, o marido é um cowboy atraente, e cada um dos seus seis filhos é mais perfeito do que o anterior.

Que importa se há amas e produtores nos bastidores, se a cozinha esconde eletrodomésticos de nível industrial, se o marido é herdeiro de uma dinastia política? Se os seguidores de Natalie não sabem é como se não existisse. E as “Mulheres Zangadas”? As elitistas que a acusam de ser uma iconoclasta antifeminista? Estão doentes de inveja. Porque Natalie não está apenas a viver a vida perfeita — está a construir um império.

Até que, numa manhã, acorda numa vida que não é a sua. A casa, o marido, os filhos — tudo lhe é familiar, mas está errado. A cozinha não tem eletricidade; os filhos estão sujos e estranhos; e o marido é agora um agricultor competente. Na trave de madeira sobre a porta, está gravada uma data: 1855.

Ainda ontem selecionava fotografias para o Instagram; agora, espera-se que carregue lenha e lave roupa à mão até os dedos sangrarem. Ter-se-á tornado a estrela involuntária de um reality show? Será possível que tenha viajado no tempo?
Quando sofre um ferimento brutal, Natalie percebe duas coisas: esta não é a sua vida; e tem de escapar, custe o que custar."

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Natalie é uma influenciadora que representa a mulher tradicional, que casa com um homem rico e tem muitos filhos. Passa, através das redes sociais, a ideia de uma vida perfeita, no campo - Rancho Yesteryear, enquanto mãe perfeita e esposa exemplar, contrariando a ideia de emancipação da mulher através do trabalho, algo com que discorda, considerando que as mulheres que trabalham vão ser sempre subalternas e ter uma vida miserável. Vende a imagem de uma mãe carinhosa e atenciosa, de felicidade (que não existe, com efeito) e de uma preocupação com uma vida natural com alimentos cultivados na quinta, sem químicos. Acontece que toda a vida perfeita que proclama não passa de uma fachada, pois, na verdade, nem sequer tem espírito maternal e tem uma série de criados e amas para manter esta ideia de vida perfeita. A relação com o marido também não é perfeita. Afinal, a perfeição não existe e esta situação aqui retratada é uma crítica à sociedade atual.
E se Natalie acordasse numa época em que realmente viveriam como ela proclama enquanto criadora de conteúdos? É o que acontece, quando acorda nos anos de 1850, num regresso a uma espécie de "Casa na Pradaria", com todas as dificuldades que essa vida, de facto implica?
Convido-vos a lerem este livro e a surpreenderem-se com esta personagem tão (im)perfeita e à forma como reage ao se confrontar com as dificuldades da vida que proclama como perfeita.

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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