quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016


Meu país,
roubaste-me os sonhos por sonhar,
tiraste-me dos pés o chão porto seguro
e deixaste-me a navegar,
eu, que sou da terra e não do mar...
Sinto-me naufragar,
sem forças para enfrentar ondas de mudança,
onde naufragará qualquer réstia de esperança.
Meu país!
Amigo, meu inimigo!
Estendeste-me uma mão plena de sonhos,
que segurei com firmeza, confiante,
olhos postos num futuro triunfante.
Deixei-me ir... Fui feliz...
Sim, meu país, fui feliz!
Olvidei, por momentos, que tinhas outra mão,
uma mão plena de fel e negação.
Com essa me derrubaste,
me fizeste cair do meu castelo de realização,
me ignoraste e me tiraste
os sonhos com que me presenteaste.
Meu país,
que semeias a inconstância...
Porque prometes o que não podes cumprir?
Porque fazes acreditar que ainda é possível sorrir?
Se na tua mão os sonhos são ilusão...
Sonhos de fingir!
Ilusões de mentir!
                    Célia Gil

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sociedade que temos

Vida, que se compraz
em tudo o que nos leva,
com tudo quanto nos traz.
Já não sou o anjo crente
de espada em riste pelo presente,
quando sinto que
as vitórias alcançadas
sãos vãos das primeiras escadas
e que o meu sonho, sem
a pretensão de uma torre de Babel,
sobe, sobe, alto se enleva,
acabando desordeiramente espraiado numa folha de papel,
em pensamentos, línguas novas
que só eu entendo
na minha solidão.
Vida, em tudo quanto me traz,
um pouco de mim desfaz,
numa derrota em que jaz
o eu que vai descrendo,
que envelheceu, crescendo
à espera da idade que traz
a tão esperada paz...
O eu que morre atendendo
a luz numa réstia de esperança.
Mas a meta, escada da derrota,
tem altos muros
em que os outros se silenciam.
E aqueles que de tudo falam,
que sobre tudo opinam,
sãos punhais de silêncio,
mãos de abandono,
gélidos de incompreensão,
dos que viram costas
sem pensar nos seres caídos por terra,
a quem o desprezo dilacera.
Nada. Não somos nada.
Não tenhamos pretensões.
Semeamos ilusões
e colhemos desconsiderações.
A realidade é um virar as costas,
um "vou à minha vida".
O sonhador deposita as armas no chão,
não vale a pena lutar sozinho.
Todo o sonho foi uma ilusão.
E o frágil feixe franzino
acaba desfeito
debaixo do capacho do egoísmo.


                                Célia Gil

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ciclo de Vida

De passagem, revisitando-me por aqui... O tempo corre galopante e, entre novas funções profissionais e um mestrado em Ciências Documentais, acaba por ser muito difícil vir aqui com a frequência que gostaria. Venho apenas agradecer as mensagens deixadas, despreocupar e partilhar alguns poemas que, entretanto, foram ficando no papel...

Vida,
roda em constante movimento,
num contínuo desequilíbrio.
Foge o chão, foge o tempo,
fogem os sonhos, fogem as ilusões,
fogem as metas, fogem as hipóteses,
foge o momento
nesta roda em constantes tropeções.
Fica a angústia do dever por cumprir,
angústia cortante e limitadora,
que condiciona o devir
em queda constrangedora.
Morre-se um pouco todos os dias,
morre a autoestima, morre a confiança.
Ficam almas vazias,
vazias de fé e de esperança.
Morre a juventude durante o percurso,
do rosto se apaga o sorriso.
Ficam olhos cansados do sonho perdido.
A pele perde o brilho,
as mãos descaem pelo corpo abaixo,
sem forças para se reerguerem.
Vai-se a vontade, o ânimo, o incentivo.
O mundo roda em constante movimento,
com pilares que foram apodrecendo.
Descarrila a vida sucessivamente.
Ponto final nos sonhos para sempre.
Morte.
                        Célia Gil



sexta-feira, 13 de junho de 2014

Luta diária


Às vezes sem fé
continuo o meu caminho,
faço mesmo um finca-pé
à procura do destino.

Às vezes sem norte
ando de costas pró sul
e não sei se é por sorte
mas encontro o meu azul.

Às vezes sem cor
pinto um mundo colorido,
não deixando a minha dor
invadir o meu abrigo.

Às vezes chorando
vou rasgando um sorriso,
porque assim vou libertando
o meu pássaro ferido.

Às vezes desarmada
faço frente a duras guerras,
numa carta mal jogada
vou vencendo primaveras.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Repouso

Quando o sol repousa no seu vagar
na calma da tarde que preguiça,
sinto a pressa dos dias a hesitar
a dizer vai quando a vida diz fica.

Quero ficar mesmo para lá do tempo,
sentir a paz em mim a vadiar,
colher da vida cada bom momento,
não ter que decidir ou que pensar.

E repousar quando os olhos se fecham
cansados das desgraças desse dia
e só procuram sonhos que mereçam

porque tornam a noite agreste em dia.
E sem que os tristes olhos se apercebam,
contraem até que a alma sorria.

terça-feira, 27 de maio de 2014

verdade pessoal


Temos dias em que nem a tempestade nos avassala,
em que tudo parece passar-nos ao lado,
nada nos comove ou faz agir,
nada nos motiva ou leva a reagir.
Temos dias em que há uma opacidade
que nos invade por completo e só queremos fugir,
fugir de tudo, fugir de nós,
fugir da vida, ficarmos sós.
Quando a sinceridade é uma arma maléfica
que ninguém entende ou aceita,
que ninguém quer ou respeita,
 ficamos sós, nós e a nossa verdade
que ninguém quer, que ninguém vê,
que ninguém sente, que ninguém crê.
Uma verdade que acaba por morrer
quando rejeitada e ignorada,
uma verdade relativizada, minimizada,
uma verdade ignorada, vista do avesso,
uma verdade entendida como arma de arremesso.

Não posso lutar contra uma verdade cega, surda e muda,
não posso lutar sozinha...
Contra uma visão que é só minha,
contra uma sensação que só de mim se apodera,
contra uma realidade que só eu vejo,
que só eu percebo...na minha solidão!

terça-feira, 22 de abril de 2014

Não à violência

E porque este é o mês da Prevenção dos Maus-tratos contra crianças, venho partilhar os cartazes que tenho feito na  CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens) do Fundão:






sexta-feira, 4 de abril de 2014

As lajes da minha rua

As lajes da minha rua
têm histórias para contar,
têm sons na pedra nua
de quem as costuma pisar.
Têm o som dos saltos
da rapariga de saia travada
que vai ver o amado
do outro lado da estrada.
Têm o som das sabrinas
das meninas rabinas
que calcorreiam a rua
à procura de aventura.
Têm o som de botifarras
de quem marcha para a jorna
sem pressa, quase na sorna.
Tem o som das pantufas
da vizinha do 31
que, com a do 21,
fazem um bom par de cuscas.
Tem o som da criança que cai
e que se volta a levantar
por entre um ou outro ai
e da mãe a lamentar.
Têm pressa, têm calma,
têm medo, têm confiança,
as lajes da minha rua
têm fé e perseverança.
Lamentam o cortejo funerário
que passou em comoção.
Sabem a história do vigário
que enganou com convicção.
Têm o som sincronizado
dos crentes na procissão,
de quem vai extasiado
na sua fé e devoção.
Têm o tom monocórdico do pedinte
cuja história conta com dramatismo,
com o intuito de no ouvinte
despertar o altruísmo.
Têm o som do carteiro
batendo com animosidade,
traz as contas, o dinheiro,
a carta e a publicidade.

As lajes da minha rua
têm alegria no movimento,
choro fácil na pedra nua,
têm uma história em cada momento.

                                                Célia Gil

terça-feira, 18 de março de 2014

Dias cinzentos


Há dias em que a luz
não brilha dentro de nós,
em que como a avestruz
só queremos ficar a sós,
fugir de tudo, ficar escondido,
sem saber bem o motivo,
em que tudo o que nos é dito
nos soa a adversativo.
Dias maus que chegam,
vêm, instalam-se em nós.
dias que nos desassossegam
mas que impõem a sua voz.
Têm grades invisíveis,
que nos impedem de nos mover,
nos tornam mais sensíveis
e com medo de sofrer.
O medo agiganta-se,
em nós o receio se impõe,
o dia acinzenta-se
e ao sol se sobrepõe.
E quando queremos sair,
estamos amarrados à tristeza,
deixamos até de sorrir,
presos à nossa fraqueza.
Precisamos de alguém
que nos liberte, nos dê atitude,
nos mostre de novo a amplitude
do brilho que o sol tem.

                             Célia Gil


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Parabéns filhotes!

Tenho andado meio desaparecida, mas é por boas causas nesta minha nova função de representante da Educação na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. É complicado, mas gratificante.

Hoje dedico esta publicação aos meus filhos, que fizeram anos este mês, nomeadamente 18 e 15. Continuo a vê-los pequeninos como na foto que partilho. Lembro os risos, os choros, as birras, as gracinhas, as noites de febre, os primeiros passos, as primeiras palavras, as brincadeiras tudo com IMENSA SAUDADE! Continuarão a ser para mim os meus bebés, nem que, como dizia Eugénio de Andrade, já não caibam na moldura ("Poema à Mãe").

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sair de mim

Desapareci.
Vagueei dentro de mim,
planei pelas minhas emoções
e perdi-me
entre sensações e divagações.
Presa no interior umbilical,
a realidade nada me diz,
como quando chove lá fora.
Pensei que era o mais seguro,
que dominava cada partícula do meu íntimo...
Quão enganada estava,
perdi-me sem me encontrar,
e o abrigo em que me aconchegava
deixa entrar a chuva mais gelada.
Escureceu...
E este refúgio
é ainda mais assustador.
Quebrei a asa da razão,
no galho de uma ideia teimosa.
Perdi o sentido da vida
no rumo incerto da inexistência.
Deixei escapar a vontade
no cansaço de um dia repetitivo.
E senti o peso
do vazio.

Preciso sair de mim
para me reencontrar,
sem rumo,
sem direções,
sem obrigações,
sem decisões,
com uma liberdade livre,
num mundo
onde a felicidade é possível,
onde nada exigem de nós,
onde somos
sem a responsabilidade de sermos.





quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Aniversário



A vida é um relógio que não perdoa,
Não para, não faz pausa, não esquece.
Irreverente, constante, amanhece
Virando páginas como quem voa.
E em cada aniversário que passa
Resta-nos menos um ano, mais um ponto final.
Sonho efémero que nos ultrapassa
Ansia de nos perpetuarmos. Afinal
Rodeamo-nos de quem amamos,
Imaginamo-nos o centro do universo,
Onde possamos alcançar o que sonhamos.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Sobreviventes

E porque hoje se comemora o dia Internacional das Pessoas com Deficiência,


Nem sempre brilha o sol na nossa vida,
nem sempre o sol irradia e faz sorrir.
E o manto da tristeza deixa entorpecida
a imagem de felicidade que se quer transmitir.

Porque o sol não brilhou para todos à nascença,
de igual forma, sem deficiências, sem problemas?
Porque vem o acaso dominar qual doença
quem não pediu para viver neste mundo de dilemas?

Porque traz a névoa a dor da perda, da ausência,
lançando a dúvida, questionando a fé, desorganizando a vida?
Porque cai um negro manto que faz perder a resiliência,
quando um acidente nos ensina o paradoxo da vida iludida?

É porque somos o que somos e não o que temos
que encaramos as deficiências, as perdas, as doenças, os acidentes
como uma provação que reforça o que podemos,
os sonhos que viveremos, as lutas que ainda travaremos,
porque, apesar de tudo, somos sobreviventes!


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Mar de contrastes

Há palavras que sabem a mar,
pesadas, salgadas,
mas aroma gustativo que sabe bailar
e envolver como onda de espuma
a refrescar e a fazer sonhar.

E há palavras que sabem a(mar),
que invadem com o cheiro a mar,
fazem sentir na pele as gotículas do mar,
permitem-nos escutar o som do mar...

E quando essas palavras se juntam,
contam histórias de encantar.
E quando se juntam tragicamente,
contam histórias em que morre gente.

O mar que embala a alma que repousa,
é o mesmo que estala e ousa
pôr em perigo a vida de tanta gente.

O mar que dá vida a uma alma perdida
é o mesmo que lhe suga e lhe tira a vida.

Sítio escolhido para o amor,
local eleito para a dor.

Mas que é sepultura de quem morre sem querer,
mas que é sepultura de quem o escolhe para morrer.

É o mesmo mar que é pintura, literatura,
sonho, cultura, ternura...
Imensidão!


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Purificação



Corre um vento cortante,
que me invade a alma
e sinto o vazio preencher-me
de um pouco de nada.

Quero o aconchego
de uma lareira acesa
a crepitar-me por dentro.
A encher-me de sentimentos bons,
a presentear-me com histórias
que me embalem e me aqueçam.
Preciso de uma renovação,
renascer em mim,
reescrever o sentido da vida,
reencontrar a minha essência perdida,
purificar o coração,
redescobrir a emoção.

Vento cortante, 
leva de mim a tristeza,
esvazia-me da mente a incerteza,
ampara esta alma errante.



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A quem vale a pena


Há quem passe por nós
e de quem nada fica.
Vozes de quem está a sós
e anda meio perdida.

Há quem passe na vida
deixando um vazio,
pessoas que não nos aborrecem
nem nos aquecem o frio.

Há quem passe de asa solta
e voe sem direção,
semeando vazios à volta
sem abrir o coração.

Mas há as que nos agarram na mão
e nos estendem o braço.
As que dizem que não
mas que nos dão um abraço.

Mas há as que nos vigiam
e nos deixam sonhar,
que nos amparam e guiam
se o sonho falhar.

Mas há as que gritam
"Tens de continuar!"
São pessoas que ficam
e nos fazem lutar.

Mas há as que nos deixaram
a renascer da dor,
aquelas que na saudade legaram
um tratado de amor.

                                 Célia Gil

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Assalto



Que faço aqui? Qual o meu lugar?
Porque não reconheço o que sou?
Procuro-me sem me encontrar...
Do que era nada ficou!

Porque me fizeram sentir indesejada?
Roubaram-me a identidade profissional.
Será que mereço ser condenada?
Digam-me, por favor, que fiz de mal?

E a angustia é porque tudo o que fiz
fi-lo com a máxima dedicação.
Porque quis o destino
arrancar-me dos pés o meu chão?

Falta-me a voz projetada
erguendo a taça do conhecimento,
ou simplesmente elevada
a pedir concentração e silêncio.


sábado, 12 de outubro de 2013

Histórias


Histórias fervilham na mente
à espera de serem contadas,
histórias loucas entrelaçadas
vêm, vão e voltam sempre.

Histórias com passado
que vivem de memórias
antigas, velhas histórias
de um passado bem guardado.

Histórias feitas do presente,
incríveis, quase irreais,
loucas, sensacionais,
que eu vivo e toda a gente.

Histórias feitas de futuro,
supostas, criações ficcionais,
imaginações a mais,
fugas a este mundo duro.

Histórias fervilham na mente,
aguardando serem contadas,
no papel armazenadas
e ficarem para sempre.


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Está nas nossas mãos


       Nunca trilhamos todos os caminhos. Nunca sabemos nada. Quando pensamos que a vida nos ensinou tudo, novas situações se nos deparam e nos fazem questionar onde estivemos até ali, que desconhecíamos realidades tão presentes e prementes. Realidades que, às vezes, estão tão próximas... Tão próximas e tão distantes de as sequer supormos.Vivemos a vida que escolhemos ou nos foi dada a viver, não imaginamos que a rotina trabalho-casa nos torna tão ignorantes em relação a certas situações tão presentes na nossa sociedade, localidade, país... Faz-me até lembrar a personagem do limpa-vias que trabalhava no subway em Nova York, de sol a sol, desconhecendo os ritos e tradições e que, quando viu arroz caído no escuro da galeria subterrânea, pensou que era enviado por Deus para o sustentar a si e à família, quando eram restos do arroz atirado aos noivos em casamentos (Arroz do Céu,  um conto de José Rodrigues Miguéis). Todos, afinal, todos sem exceção, somos um pouco como o limpa-vias, conhecemos só o que fazemos. Mas o maldito vício do ser humano julgar tudo, opinar sobre tudo, leva-o a comentar depreciativamente todas as classes profissionais, mesmo ignorando os meandros de cada profissão.
       Devemos estar mais atentos ao que se passa à nossa volta, ser cidadãos mais ativos, sobretudo no dever cívico e moral. Ajudar com o que se pode a quem realmente precisa e se deixa ajudar, sinalizar situações que nos parecem irrisórias em relação a crianças e idosos vítimas de negligência e outras atitudes piores. "Mais vale prevenir do que remediar" e eu acrescentaria que a melhor maneira de remediar é prevenir!
       Sejamos cidadãos ativos através de pequenos gestos que não nos roubam muito tempo, mas que farão, com certeza, toda a diferença para quem realmente precisa!

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