sábado, 23 de junho de 2018

Carochinha moderna

Célia Gil


Um pequeno filme que aprendi a fazer no Studio Stop Motion, ainda muito simples. Mas foi divertido!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Esvaziamento do ser

Célia Gil

(https://unsplash.com/photos/ll3fwwExWc0)

Dulce estava consciente de que a vida galgava a um ritmo alucinante. Entre milhares de tarefas diárias, sentia se, no entanto, só. Na sua luta diária, tantas vezes incompreendida, onde criara o hábito de corresponder ao que queriam dela - ia às compras, preparava as refeições, arrumava, limpava, tratava da roupa, dos horários e... esperava. Aprendeu a esperar calada, porque tudo o que espontaneamente dizia, era erroneamente interpretado. E ai dela se ousasse queixar-se! Não fazia nada de mais, tomara muita gente! Tinha uma vida de rainha! E todos os dias as tarefas de todos os dias se repetiam ao som dos ponteiros de um relógio inimigo e imparável.
Dulce aprendeu a calar-se, a consentir, a assentir. Porém, aos poucos, foi deixando de ser, até se esvaziar qual autómato que se limita a responder a vozes de comando, uma boneca de trapos cada vez mais velha e inútil.
Os olhos foram apagando o brilho. As lágrimas secaram, deixando um olhar baço de desamor. Os seus olhos ainda seguiam o rasto do afastamento dos que amava. Afastavam-se sob falsos pretextos, vivendo vidas paralelas, onde ela deixara de pertencer, onde  fora remetida ao mesmo valor dos objetos da casa.
Deixara de ser, de se pertencer. Apagara-se-lhe a sede de viver, de sorrir com as pequenas coisas, de chorar com outras tantas. A porta fechava-se-lhe irremediavelmente por fora e por dentro e o lugar que habitava na alma fora escurecendo até deixar de o ver, de o sentir, de o temer nas suas penumbras, onde a ausência de tudo são paredes vazias de encontro às quais a alma embate.
E se  o coração ainda lhe bate, é porque tenta ignorar e não se consciencializa da ausência de vida que arrasta.
Dulce, numa vida tão amarga quanto a demência. Mais amarga que a demência, porque lhe resta uma lucidez que a faz continuar a ter consciência da sua degradação, do seu não eu. 

                                                                                                                      Célia Gil

domingo, 10 de junho de 2018

A Metamorfose, Franz Kafka

Célia Gil
Um romance duro, que nos faz questionar a vida, as escolhas, os caminhos que seguimos e as motivações que lhe são inerentes.


Kafka, Franz. A Metamorfose. Barcarena: Editorial Presença, 1996.


         Gregor, um caixeiro viajante que trabalhava muito, passando diariamente por imensas provações (“martírio das viagens impostas”, “preocupação de apanhar as ligações do comboio”, as refeições más e irregulares”, “um relacionamento humano instável” e muitas outras situações que nos levam a alguém desgastado por uma vida entregue ao trabalho), acorda como um inseto.
Tenta levantar-se para cumprir a sua rotina diária, mas não consegue. Pensa apenas em como dizer ao patrão que não conseguirá, pela primeira vez, cumprir com as suas obrigações. Um trabalho que mantém devido ao seu sentido de responsabilidade para com a família, que vive às suas custas. Mesmo na situação em que se encontra, tenta e pensa em como poderá levantar-se da cama e ir trabalhar. Perante o gerente, que vai lá a casa ver o que se passa e o porquê daquele atraso que nunca ocorrera antes, Gregor insiste que levará mais tempo, mas levantar-se-á, não admitindo a sua perfeita incapacidade para o fazer.
Desiste, quando vê que não consegue dar a volta à situação. Entristece-se quando ouve a família conversar sobre o orçamento familiar e o que terão de realizar para fazer face às dificuldades inerentes ao problema de Gregor. Sente-se completamente inútil.
Apesar desta metamorfose física exterior, esta animalidade que lhe impõe limites, permanece humano consciente, o que lhe permite conhecer melhor os pais e irmã. Tornado parasita, desmascara o parasitismo em que vivia a sua família, às suas custas. Através deste aprisionamento num animal – metáfora do inútil – liberta-se da vida que levava e, não sabendo lidar com ela, caminha para a fatalidade.

Esta é a minha sugestão de leitura, “A Metamorfose” de Franz Kafka, em que sou a Célia Gil

sexta-feira, 1 de junho de 2018

A Minha Pequena Livraria, Wendy Welch

Célia Gil



Welch, Wendy (2012). A Minha Pequena Livraria. Lisboa: Clube do Autor
  
     Hoje convido a entrar numa mansão eduardiana, um lugar mágico, que é uma pequena livraria de livros em segunda mão, que constituiu o sonho de Jack Beck e Wendy Welch, um sonho concretizado pelo casal, mais cedo do que previam. Vai, com toda a certeza, deixar-se surpreender pelo ambiente familiar, acompanhado de um chá, sob o olhar atento de dois gatos belíssimos. Aqui conhece uma história e, em troca, tem a possibilidade de dar a conhecer a sua.
     Poderia, com efeito, ter sido, logo à partida, um sonho concretizado com sucesso, não fosse o local escolhido uma pequena cidade mineira na Virgínia, no interior dos Estados Unidos, na qual estes novos habitantes eram olhados com desconfiança e vistos como responsáveis por um projeto falhado.
     Numa altura de recessão, onde se compra tudo pelo ebay, onde se começa a substituir o livro de papel por ipads, e-books e kindles, só quem fosse realmente louco pensaria em abrir uma livraria de livros usados. A acrescer a estes entraves, estava ainda o facto de não serem dali e, como tal, serem vistos como intrusos.
     Afinal, os sonhos dão muito trabalho – havia uma série de batalhas a serem travadas por este casal: onde arranjar os livros, se tinham gasto tanto dinheiro na casa? Como cativar potenciais clientes, num local onde eram vistos como forasteiros? Como deixar de ser invisível e adquirir projeção enquanto negócio? Como passar a pertencer àquela cidade e não apenas integrá-la?
     Termino este convite com a leitura de uma das muitas passagens de que gostei:
“Os livreiros, pelo menos até conseguirem ser replicados online, são o motivo por que as pequenas livrarias ainda existirão mesmo depois do último leviatão desaparecer, arpoado por um e-reader. As livrarias físicas são pontos de convergência para os espíritos e intelectos humanos. Os e-readers e as livrarias on-line não nos permitem contar a história por trás da compra de um determinado livro… Quando nos escutamos validamo-nos uns aos outros.”
   Esta sugestão de leitura foi feita por mim, que sou a Célia Gil e que também tive o privilégio de ter tido, numa determinada fase da minha vida, uma pequena livraria. Não deixem de ler A Minha Pequena Livraria, de Wendy Welch.

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