sábado, 27 de outubro de 2018

Pai sem chão nem céu

Célia Gil




Sentia-se exausto. Mais uma vez, naquela postura cansada, sentado num banco, com o tronco a abalar-se nos joelhos, vergado pelo sentimento de derrota, pela frustração de quem falha na educação da filha, sabendo-se sozinho, sozinho há demasiados dias a fio, sentiu-se dominado por uma tempestade de lágrimas que o deixou encharcado, por um tufão de suspiros que lhe sorveu as poucas energias que lhe restavam, numa vida que deixara de ter chão e céu.
Pai e mãe, sem ninguém que lhe dissesse o caminho mais certo, as palavras ideais (se as há), aquelas palavras que aquecem, que mudam o rumo dos acontecimentos e criam uma bolha de ar em volta de qualquer tufão de emoções e onde apenas fica o que conforta, o que abraça, Júlio sentiu-se à beira do abismo, dele separado apenas pela sensação de dever, dele separado apenas por uma ínfima sensação de dependência (se é que esta existia para além do que é o estritamente material).
Porventura, fora muito duro, exigindo que fosse sempre boa estudante, que lutasse pelo seu futuro, que fizesse por si.
À procura dos seus erros, na memória dos últimos acontecimentos, Júlio só conseguia ouvir as palavras da filha a ferirem-lhe os ouvidos, deixando um rasto de dor em direção ao coração. “Eu faço o que quero. Quem és tu para me impores isto ou aquilo? Para me dares conselhos? Não vales nada. Não quero saber do que dizes. Não és pai, não és nada. Para ti, sou um empecilho. Eu é que sei da minha vida. Eu é que decido. E, se possível, o contrário daquilo que me dizes, que nada vale.” E tantas outras palavras que os ouvidos de um pai varrem da memória. Isto, entre gritos insolentes, palavras que ferem menos do que o olhar que as acompanha, um olhar de desprezo roçando o nojo, mais que uma chapada, um escarro na cara.
Nessas alturas, cai por terra tudo o que foi, os sacrifícios, o amor incondicional que sempre deu à filha, o quanto trabalhou para que nada lhe faltasse, as horas a passar a sua roupa, a limpar,  sem lhe pedir nada, para que ela não perdesse tempo e estudasse pelo seu futuro. Só nunca tivera consciência de que nesse futuro, ela não o incluía.
Afastados, meses sem se falarem, numa troca de olhares circunstanciais sem sentimento…
Sentado naquele banco, sozinho, agora abraçado aos joelhos, encharcava-se na sua tempestade de emoções. Sentia-se tão inútil, tão vazio… Errara na educação, errara na vida…Errara!

                                                                                                                   Célia Gil

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Oferendas

Célia Gil
Percorro um rasgo de luz
que embate no meu olhar.
A cada momento,
a cada novo olhar,
tudo se nos oferece,
tudo se nos revela.
À distância
de um olhar atento.
Alento que ilumina o dia,
lhe dá cor,
toque de sabor
a irradiar

luz, em mais um dia cinzento.

(https://unsplash.com/photos/qUFmzR-MKrs)

domingo, 7 de outubro de 2018

Por Monsanto e Penha Garcia

Célia Gil
A zona do interior, onde vivo, tem também, como em todo o meu país, paisagens lindíssimas e de cortar a respiração! Partilho para que possam apreciar!

Monsanto situa-se a nordeste das Terras de Idanha, aninhada na encosta de uma elevação escarpada - o Alcandorada num cabeço que se impõe ao olhar na maior parte dos horizontes, a Aldeia Histórica de Portugal de Monsanto detém um encanto singular, para o que contribuem os dois títulos atribuídos no séc. XX – Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, em 1938, e o de Aldeia Histórica em 1995. Ícone turístico da região, Monsanto é uma experiência peculiar para quem a visita. Concederam-lhe foral D. Afonso Henriques, D. Sancho I, D. Sancho II e D. Manuel. A parte mais antiga está no ponto mais alto, onde os Templários construíram uma cerca com uma torre de homenagem.
Monsanto (Mons Sanctus) - Trata-se de um local muito antigo, onde se regista a presença humana desde o paleolítico. Vestígios arqueológicos dão conta de um castro lusitano e da ocupação romana no denominado campo de S. Lourenço, no sopé do monte. 
In http://www.aldeiashistoricasdeportugal.com/monsanto










Penha Garcia
Na Beira Baixa, a poucos quilómetros de Espanha, uma povoação típica espraia-se pela encosta da serra. A sua posição privilegiada de defesa terá sido um dos motivos da fixação neste lugar de um povoado neolítico, mais tarde transformado num castro lusitano e, depois, numa povoação romana. Mas não terá sido menor a atração exercida durante séculos pela existência de ouro por explorar no leito do rio Pônsul. Hoje, os principais atrativos para quem visita Penha Garcia são, sem dúvida, a vista deslumbrante que rodeia a vila, a originalidade do seu castelo, empoleirado no cimo da penha, e as marcas que a natureza e a história deixaram neste lugar. Venha conhecer esta terra plena de lendas e tradições, com todo o encanto da Beira Baixa.
As muralhas de Penha Garcia
Construído, possivelmente, no reinado de D. Sancho I para ajudar a proteger a fronteira portuguesa das investidas de Leão, o castelo de Penha Garcia foi doado por D. Dinis aos Templários mais de cem anos depois, regressando à posse da coroa no século XVI, com a extinção das ordens.
Vale a pena subir ao cimo da penha para percorrer as imponentes muralhas e observar a magnífica paisagem que rodeia a povoação. As pedras contam-nos a lenda de que, naquele lugar, vagueia ainda o fantasma do antigo alcaide do castelo, D. Garcia. Depois de raptar a filha do governador de Monsanto, D. Branca, o nobre terá sido capturado e condenado à morte. Mas os apelos de D. Branca por misericórdia, valeram-lhe a redução da pena. Condenado a ficar sem um braço, D. Garcia é ainda hoje conhecido por “o decepado”.
Icnofósseis de Penha Garcia – as cobras pintadas
Se o homem deixou a sua marca em Penha Garcia, o mesmo se pode dizer da natureza. Um dos maiores tesouros da povoação encontra-se nas rochas quartzíticas com 490 milhões de anos. No tempo em que todos os continentes estavam unidos em torno do Pólo Sul, os mares eram habitados por organismos invertebrados que se deslocavam nos substratos arenoargilosos, deixando marcas. A essas marcas, que ficaram preservadas nas rochas sedimentares e são visíveis ainda hoje em Penha Garcia, o povo chama as cobras pintadas e os cientistas icnofósseis. E se as gentes de Penha Garcia se habituaram há muito à sua presença, os investigadores continuam a estudá-las, considerando-as um importantíssimo contributo para o conhecimento científico de um passado com milhões de anos.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Os Loucos da Rua Mazur, João Pinto Coelho

Célia Gil

Coelho, João Pinto (2017). Os Loucos da Rua Mazur. Alfragide: Leya.


Neste romance, João Pinto Coelho aborda a história de uma comunidade da “rua Mazur”, situada na Polónia, uma sociedade que convivia pacatamente, não fazendo prever a crueldade praticada pelos cristãos em relação aos judeus durante a II Guerra Mundial. O convívio inicial é substituído, de forma perversa, pela denúncia e antissemitismo extremistas, que acontecia entre os polacos, sem que fossem necessários campos de concentração para se viver uma situação infernal de fragmentação da sociedade e de execução.
Uma narrativa que nos prende desde o início e para a qual é necessária alguma concentração, uma vez que vai mudando o espaço, o tempo da ação e os próprios acontecimentos se vão intercalando.
Tudo começa com dois velhos, Yankel, cego, dono de uma livraria em Paris, que só aceitava como amantes quem se transformasse nos seus olhos e lhe prometesse “maratonas de leitura” e Eryk, amigo de infância de Yankel, que o procura para escrever um livro, depois de anos a fio a escrever supostos ensaios do único que queria escrever. Para tal, considera que precisa da ajuda de Yankel que, apesar de cego, teve sempre uma visão mais ampla de todos os momentos e acontecimentos. Apresenta-se na livraria com a sua mulher, Vivianne, a fria editora de Eryk. Mas quem seria mesmo esta Vivianne? EryK está doente e não quer morrer sem se redimir com o livro que quer escrever.
A narrativa, a partir deste momento, passa a ser a duas vozes, a de Yankel, que fala e a de Eryk, que escreve, dando dinamismo e diferentes perspetivas de cada acontecimento.
Eryk decide começar este romance pela inocência e é assim que conhecemos a história de Yankel, Eryk e Shionka, na adolescência. Um triângulo perturbador de amizade e amor. O primeiro, cego e judeu; o segundo, cristão e maquiavélico e a última, uma bela jovem convenientemente muda. E é neste ambiente inocente que começa a ser brilhantemente abordada a história de uma comunidade polaca de shtetl, uma pequena cidade no leste da europa, de cristãos e judeus, de sãos e loucos, que se fragmenta com a invasão de alemães e russos, uma invasão cruel que haveria de a dizimar.
“Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.”
Os Loucos da Rua Mazur, prémio Leya 2017, é, sem dúvida, um livro marcante que aconselho vivamente à leitura.
                                                                                                             Célia Gil

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