sábado, 31 de agosto de 2019

O Quarto de Jack

Célia Gil

Donoghue, Emma (2011). O Quarto de Jack. Porto: Porto Editora.

O Quarto de Jack, de Emma Donoghue, é um livro surpreendente. Uma história que fica imediatamente na memória e para sempre. Jack tem cinco anos e é o narrador enternecedor e comovente desta história. Para Jack, de apenas 5 anos, o quarto de 11 metros quadrados, onde viveu sempre com a mãe, é o mundo todo. Nele existem o roupeiro, onde a mãe o deita cada vez que recebe a visita do velho Nick, para o proteger; é o sítio onde brinca, onde aprende, onde faz exercício físico, onde come, onde vive e onde sonha. Do quarto apenas vê um pedacinho de céu por uma clarabóia. Então, acredita que, para além do quarto, existe apenas o espaço. A televisão, segundo a sua perspetiva, não mostra seres reais, mostra seres achatados e coloridos. Mas, reais, apenas são ele e a mamã. Ainda que num espaço tão exíguo, a mãe ensina-lhe tudo o que ele deve saber com a sua idade. Ensina-o a ler, a brincar e a sonhar.
No dia em que faz 5 anos, a mãe decide contar-lhe que, afinal, o quarto não é o mundo todo. Considera que ele já tem idade para compreender e conta-lhe tudo: a sua infância, o facto de os seus pais não saberem dela há sete anos, uma vez que, ao tentar ajudar Nick com um suposto cão, fora raptada e fechada num quarto isolado do mundo, onde só Nick conseguia entrar, com um código que nunca revelou.
Mas a Mamã tem agora um plano – quer que Jack saia do quarto para conhecer o verdadeiro mundo. Simula que ele está cheio de febre, mas Nick vai em busca de antibióticos, em vez de o levar ao hospital, como ela pensava que sucederia. 
No dia seguinte, antes de Nick chegar, instrui o filho para se fingir de morto. Enrolá-lo-ia na carpete, como um corpo morto, Nick levá-lo-ia e, pela viagem, depois de bem treinado, Jack desenrolaria a carpete e, quando a carrinha abrandasse, saltaria e iria ter com a primeira pessoa que aparecesse para pedir ajuda. Assim acontece. Nick transporta-o na sua carrinha, dentro da carpete do quarto, mas, quando Nick está para saltar, a carrinha arranca e ele cai ao chão, despertando as atenções de Nick. Corre, mas Nick segue no seu encalço. Esbarram com um homem que passeia um cão e que estranha a forma como este homem pega na criança e a trata. Chama a polícia e Nick, vendo-se encurralado, foge. Jack acaba por contar à polícia como se chama, sobre o quarto onde vivia com a Mamã. A polícia encontra o quarto e resgata a Mamã. Finalmente, após sete anos de reclusão naquele quarto, terão uma casa, a casa dos avós de Jack. Mas, em 7 anos, muda tanta coisa! Será que a Mamã estará apta para enfrentar essas mudanças? E Jack, conseguirá ele viver no mundo que existe e que não foi o seu durante os 5 anos da sua existência? Uma leitura a não perder!
                                                                                  Célia Gil


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu

Célia Gil
Jonasson, Jonas (2011). O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu. Porto: Porto Editora, Lda.

O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu é um livro de Jonas Jonasson, um escritor sueco, que serve para descomprimir, com imenso sentido de humor, mas também muito bem escrito. Uma história hilariante, empolgante, sem momentos mortos e que nos faz rir, sem que demos conta.
Conta-nos a história de um idoso que, no dia em que completa 100 anos, decide fugir do lar de idosos onde vive. Sabe que o que de mais certo o espera é a morte, por isso decide ir viver o tempo que lhe resta de forma mais empolgante. Munido de uma audácia invejável e umas pantufas velhas, foge pela janela do seu quarto à procura de aventuras que lhe tornem a vida menos penosa.
Os capítulos sobre os episódios mais estranhos e divertidos que constituem estas aventuras de Allan vão sendo intercalados, de forma engenhosa, com analepses sobre o passado desta personagem tão sui generis. Neste passado que nos vai sendo narrado, a par da história da fuga, ficamos a saber que Allan teria viajado por todo o mundo, tendo travado conhecimento com Estaline, Churchill, Harry Truman, a mulher de Mao Tsé-Tung, entre outros nomes de referência na história mundial.
Ao viajar, durante a sua fuga, acaba por roubar uma mala cheia de dinheiro, pertencente a uma organização criminosa, a “Never Again”. Este facto, faz com que a sua fuga se torne não apenas numa vontade, mas também numa necessidade, uma vez que começa a ser procurado. Envolvido em algumas mortes, é procurado por um detetive e faz alguns “amigos” pelo caminho, que vivem esta aventura com ele. Converge tudo num final altamente inesperado.

Convido, pois, a uma viagem atrás deste centenário e pela história que teve oportunidade de conhecer, através da leitura do livro O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu, de Jonas Jonasson.

As Gémeas do Gelo

Célia Gil
Tremayne, S. K (2019). As Gémeas do Gelo. Lisboa: TopSeller


As Gémeas do Gelo é um thriller de Tremayne, escritor e jornalista londrino. Neste livro, conta-se a história de duas gémeas – Lydia e Kirstie – fisicamente iguais. Os pais distinguem-nas pintando a unha do pé de uma de azul e a da outra de amarelo, procurando combinar alguma peça de roupa com a cor da unha. Apesar disso, são bastante diferentes. Kirstie é extrovertida, irrequieta e impulsiva e Lydia, mais frágil, mais calada e introvertida. O pai tem uma preferência notória por Kirstie e a mãe por Lydia.
Quando fazem 6 anos, nas férias de verão, pedem para se vestirem de igual – e assim acontece, vestem-se com um vestido brancos iguais. Entretêm-se a trocar de identidade e a questionar os pais se sabem qual é qual, o que se torna numa missão impossível.
Num fatídico dia, uma das gémeas cai de uma varanda e é dada como morta. Quando a mãe chega ao pé da outra gémea, ela grita que Lydia caiu da varanda. É feito o funeral de Lydia.
O embate desta morte nas vidas das personagens é evidente. O pai começa a refugiar-se na bebida. A mãe entra numa grande depressão. Kirstie começa a ter pesadelos que a consomem e a deixam constantemente triste. Acabam por perder o emprego e pensam na última solução que lhes parece plausível – ir viver para a ilha pertencente aos avós de Angus, o pai de Kirstie, que tem apenas acesso por barco e onde existe unicamente uma casa e um farol. Assim, a tantos quilómetros do traumático episódio, pensam que será possível recomeçar.
Quando decidem inscrever Kirstie na escola da aldeia mais próxima da ilha, esta insiste que é Lydia e não Kirstie, começando a revelar comportamentos que eram mesmo típicos de Lydia. Não consegue socializar com as outras crianças e começa a dar mostras de estar cada vez mais perturbada e com mais pesadelos.
Perante estas ocorrências, os pais acabam por aceitar que foi Lydia quem sobreviveu e fazem o funeral de Kirstie.
Mas quem terá realmente sobrevivido? Conseguirão os pais alguma vez obter resposta a esta pergunta, sem que a loucura os domine?
Este livro aborda ainda a problemática dos filhos preferidos. Como será descobrir que o filho preferido afinal não morreu? Até que ponto isso pode amenizar a dor? O luto dos pais não é mesmo nada fácil e este livro é a prova disso. Escrito de uma forma muito interessante, com três narradores: o narrador omnisciente, na 3ª pessoa; Sarah, a mãe e Angus, o pai, confere uma maior dinâmica à narrativa e permite-nos o confronto com várias perspetivas, o que torna difícil ao leitor encontrar um bode expiatório, um verdadeiro culpado. Quando o leitor tem uma teoria pré formada, vê-se confrontado com outra perspetiva que deita por terra a primeira. É isso que torna este livro irresistível, sendo quase impossível pousá-lo antes de terminar a sua leitura, uma vez que sentimos necessidade de saber o que aconteceu a cada momento da narrativa.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Um Fio de Sangue, Ann Yeti

Célia Gil

Yeti, Ann (2018). Um Fio de Sangue. Almada: Emporium Editora.


Foi com curiosidade que comecei a ler Um Fio de Sangue.
Confesso que, quando pego num livro, o viro e reviro. Gosto de me apaixonar pelos livros antes mesmo de os ler. Ver e deter-me nos pormenores da capa, da contracapa, das badanas… E este livro chama a atenção. Há algo que prende logo na capa. O laranja aponta para alegria, vitalidade, prosperidade, entusiasmo, comunicação, criatividade e sucesso. A disposição do título também me chamou, desde logo a atenção, palavra por palavra, dando mais ênfase a cada uma delas. Está escrito a amarelo, um amarelo suave, que traz luminosidade, como um sol a brilhar no laranja. Destaca-se, porém, a palavra “Fio”, escrita a vermelho, a sugerir amor, paixão, mas também o perigo. Curiosa ou propositadamente, esta palavra é a palavra chave desta história feita de “fios”, fios que unem (laços de amor), fios que se atam (aproximações), fios que se desamarram (afastamentos), fios que nos tornam marionetas numa sociedade de amores e desamores demasiado fugazes. O subtítulo “As curvas mais perigosas são as curvas da vida”, que, ao mesmo tempo que aponta para a sensualidade que as curvas podem representar nas personagens e nas suas relações, podem sugerir vias de comunicação ou precisamente a perda de orientação nos meandros da vida. Por fim, e não menos importante, a imagem, a sombra feminina. Somos sombras, quando vivemos na sombra do passado; somos sombras, quando vivemos na penumbra da vida e, mesmo que o sol (laranja e amarelo) brilhe em redor de nós, podemos não nos libertar totalmente das sombras que nos ensombram a existência. Apesar de uma simples sombra, é uma sombra com sentimentos, pois a lágrima de sangue (mais um fio) mostra que esta mulher tem sentimentos, ainda que possam ser dolorosos. Logo pela capa, é um livro que apetece ler!
A história vai ao encontro da mensagem que a capa me conseguiu passar, bem como do prazer que transmite ao ser lida. Lê-se num ápice, porque tem um ritmo rápido, sem momentos mortos. Uma temática que poderia ficar pelo romance lamechas entre duas pessoas que se sentem imediatamente e mutuamente atraídas, teria tudo para ser um romance sem conteúdo. Mas é aqui que Yeti nos surpreende, nada neste romance é muito normal. Joana cativa Tomás precisamente por isso, pelo facto de não ser o que ele encontra habitualmente nas outras mulheres. O facto de ela nada lhe exigir, de saber sair quando considera que não quer dar a Tomás a ideia de que está a invadir a sua vida ou de que está irremediavelmente interessada nele, a torna única. E é essa maneira de ser, esse aparente desprendimento, essa relação sem compromissos, que vão cativando Tomás. Ele que tinha tido um passado difícil, que não queria voltar a envolver-se, viu-se preso neste fio que o amor teceu e com o qual lhe lançou a teia. Quando passam os melhores dias das suas vidas juntos numa aldeia do Xisto, na Serra, Joana assume que as barreiras que erguera para se resguardar, tinham definitivamente quebrado e passo a citar “o estrago era extenso pois a enxurrada de amor tinha sido violenta” (pág. 95). Também Tomás se sentiu dominado por uma euforia. Porém, o passado e o medo fizeram-no passar da euforia à depressão. E porque os fios são assim, unem, mas são frágeis, nem sempre se entrelaçam num “e foram felizes para sempre”.
E quantas vidas, por mal-entendidos, por recalcamentos, por amor e desamor não estão presas por um fio?
Gosto da forma como Yeti escreve, da linguagem fluída, mas ponderada, da moderação com que aborda determinadas passagens (que poderiam, de outra forma, tornar-se facilmente vulgares).
A única sugestão que faria a Yeti era o facto de poder ter dado mais corpo à narrativa, ter desenvolvido mais alguns momentos. Poderia ter intercalado a narrativa do presente com a narrativa do passado destas personagens, com riquíssimas analepses que nos permitiriam conhecer ainda melhor estas personagens.
Porém, a minha crítica é, no geral, muito positiva e aconselho vivamente a leitura de Um Fio de Sangue.
Deixo os meus parabéns a Ann Yeti e votos de muitos sucessos literários. Agradeço a oportunidade que me deu de conhecer o seu livro. Fico a aguardar a próxima obra, um romance que também, sem dúvida, nos surpreenderá.
                                                                                                              Célia Gil

Budapeste, Chico Buarque

Célia Gil

Budapeste é um romance escrito por Chico Buarque, que ganhou os prémios Jabuti 2004 e Passo Fundo Zaffari & Bourbon 2005. Um romance diferente, que nos surpreende, muitas vezes choca, outras tantas, indigna, mas que nos faz refletir sobre a quantidade de anónimos Costas haverá espalhados pelo mundo.

A intriga é basicamente a seguinte: José Costa é um escritor anónimo e ganha a vida com textos que escreve para quem lhos solicita: artigos, dissertações, monografias, cartas, petições de advogados, na Agência Cultural Cunha & Costa, onde é sócio junto com seu amigo de faculdade Álvaro Cunha.
Ao contrário de outros escritores como ele, José Costa não almeja o reconhecimento, sentindo-se até grato ao ver os seus textos assinados por outra pessoa.
Costa é casado com Vanda, apresentadora de um telejornal, e que não entende exatamente o que o marido escreve, não se interessando mesmo pelo seu trabalho.

Quando, numa viagem a Istambul, para participar num congresso de autores anónimos, se vê obrigado a aterrar em Budapeste, devido a uma avaria no avião em que seguia, fica bastante curioso em relação ao húngaro, língua que, segundo as más línguas, é a única língua que o diabo respeita, repleta de sonoridades e sensações. Fica obcecado pelo húngaro, até pela própria dificuldade que sente em compreender as palavras.

Ao voltar ao Rio de Janeiro, José Costa tem a missão de escrever a biografia encomendada de um alemão. Após terminar o livro, devido a alguns conflitos no trabalho, decide tirar férias, as férias com que Vanda há muito sonhara. Porém, quando Vanda abre a passagem que Costa lhe entrega, fica a saber que irão para Budapeste e não para o destino por ela sonhado, e decide trocar o seu bilhete para Londres. Viajam, então, para destinos diferentes, rumo a um afastamento que se tornará cada vez mais acentuado. Costa está apenas interessado em aprender a falar húngaro. Acaba por ter aulas de húngaro com Kriska, com quem se envolve.
Seguem-se várias viagens entre o Rio de Janeiro e Budapeste. Se por um lado, os padrões normativos da sociedade o fazem arrepender-se do tempo passado longe da mulher e do filho; por outro lado, é em Budapeste que Costa se sente realizado. Mas estes afastamentos, quer de Vanda, quer de Kriska, levam-nos a todos a longos silêncios. Silêncios que não são fáceis e em que os conflitos interiores o levam a pensamentos do género, que passo a citar:
"Houve um tempo em que, se tivesse de optar entre duas cegueiras, escolheria ser cego ao esplendor do mar, às montanhas, ao pôr-do-sol no Rio de Janeiro, para ter olhos de ler o que há de belo, em letras negras sobre fundo branco."

Este é um romance que deixa o leitor intrigado até ao fim. Qual dessas viagens entre Budapeste e o Brasil será a última? Para desvendar este mistério e apreciar este romance tão sui generis, convido-o a encetar esta fantástica viagem a Budapeste de Chico Buarque.

                                                                                                          Célia Gil

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