terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Noite que adentra

Célia Gil
Estava uma noite aziaga, a ansiedade galopava no peito, abrindo grandes olhos de expetativa. Mas a noite, essa, não estava convidativa. Era uma noite sem luar, sem estrelas, sem nuvens, sem lua. Uma negra noite, vazia, oca. Um logro. Foi nessa noite que tudo mudou. O olhar encovou-se numa ímpar tristeza e a ansiedade morreu no peito, dando lugar a uma prostração doente. O brilho dos olhos secou em lágrimas brotadas de par em par. Como essa noite vazia, assim é, às vezes, a vida. E tudo passa a ter um véu que enevoa a clarividência e o negativismo é o monstro que nos faz caretas para além do véu.
                                                                                                                                             Célia Gil 

domingo, 21 de janeiro de 2018

visto do céu

Célia Gil
Sebold, Alice (2002). Visto do Céu. Casa das Letras/Editorial de Notícias


Sobre o Livro
 «Susie, a narradora, é uma adolescente, que está morta quando o romance começa. E lá do céu resolve contar-nos como ali foi parar, vítima da brutalidade de um pacato vizinho, que a violou, a matou, a cortou em pedaços, que depois distribuiu por vários locais. Susie começa a observar, lá do céu, a vida na terra, e tenta modificar o destino daqueles que ama.» ( Webboom)

Visto do Céu, de Alice Sebold, aborda temáticas que nos fazem refletir: a vida, a morte, o perdão, a vingança, a memória e o esquecimento. A violação e morte (por um vizinho aparentemente inofensivo) de uma jovem de catorze anos é revoltante e provoca, nas personagens que ficam, os seus familiares, um sentimento de dor e frustração por não saberem o que aconteceu, como aconteceu, dado que nunca encontram o corpo, mas fragmentos… Por outro lado, confronta-nos com a ideia do pós-morte, levando-nos a questionar sobre o que haverá depois da morte, que poder têm os que morrem e que influência exercem sobre os que ficam.
Susie Salmon tem o olhar vivo e irrequieto dos seus catorze anos. Observa o desenrolar da vida: os colegas da escola, a família, o lento passar dos meses e das estações. Está tudo muito calmo, tudo parece muito acolhedor. Um único pormenor desmente tanta placidez: é que, de facto, Susie já morreu. Estranhamente, o céu parece-se muito com o recreio da escola, com os tradicionais baloiços que o caracterizam. Aos poucos, Susie compreende que é o centro das atenções: os colegas comentam os rumores sobre o seu desaparecimento, a família ainda acredita que ela poderá ser encontrada, o assassino tenta esconder as pistas do seu crime...

A autora compôs personagens distintas e com diferentes características, que comprovam a complexidade do ser humano.
Susie fala sobre as dificuldades que a sua família passa após a sua morte, nomeadamente o intenso sofrimento do pai, que tudo faz para tentar descobrir o assassino da filha; a frieza da mãe enquanto se envolve amorosamente com o detetive a quem entregam o caso do homicídio da filha; o amor e as saudades que a irmã sente, sendo a única que acredita nas suspeitas do pai, chegando ao ponto de, corajosamente, invadir a casa do Sr. Harver (o assassino) e encontrar provas que este era afinal o culpado…
Através da narradora, a vítima, vamos descobrindo outras vítimas… Como terão sido mortas? Serão estes crimes descobertos? O Sr. Harvey será devidamente condenado? São questões a que este livro nos vais dando resposta. Por isso, há que entrar e mergulhar a fundo nas investigações que se fazem ao longo das páginas deste livro.

Sobre a autora
O primeiro livro que Alice Sebold publicou chama-se Sorte e é um doloroso relato na primeira pessoa: uma memória da sua própria violação, por um colega da Universidade de Syracuse, obra que brevemente será editado em Portugal pela Casa das Letras. O Village Voice distinguiu-a, então, com um prémio de revelação. Posteriormente, começou a trabalhar no New York Times e no Chicago Tribune. Visto do Céu, no original The Lovely Bones, o seu primeiro romance, tem sido celebrado como um potencial clássico. Com mais de um milhão e 300 mil exemplares vendidos em dois meses, nos Estados Unidos, esteve cinco meses em primeiro lugar na lista dos títulos mais vendidos do New York Times. Já foi traduzido em dezoito línguas e Peter Jackson, o produtor da trilogia O Senhor dos Anéis, comprou os direitos cinematográficos. https://www.wook.pt/autor/alice-sebold/19960



                                                                                                    Célia Gil

sábado, 20 de janeiro de 2018

um lugar mágico

Célia Gil

Tamaro, Susana (2008). Um lugar mágico. Lisboa: Editorial Presença.


         Neste romance de literatura juvenil, somos transportados para um lugar verdadeiramente mágico, criado quando alguém desejara viver em paz, enquanto uma estrela cadente atravessava o céu.
         Neste lugar mágico, vivia um rapaz chamado Ricky, que fora abandonado dentro de um caixote no lixo e fora recolhido pela loba Guendy, que o criara como seu filho. Ricky crescera como um lobo, sentia-se verdadeiramente um lobo. Passava muito tempo com a sua amiga Ursula, uma macaca que o aconselhava.
         Mas a magia dura até ao momento em que o homem resolve invadir este paraíso terrestre. Nesse momento, não só terminou a tranquilidade mágica, como a crueldade levou à morte de Guendy e de muitos outros animais. Ulderico Pançudo, o futuro presidente da Câmara, capturou Ricky.
         No dia em que Ulderico deu uma festa para celebrar a sua eleição à presidência, Ricky ouviu uma conversa entre ele e Sua Moleza Imunda Almôndega I, onde expunham o seu plano de modernização, onde não havia espaço para plantas e animais, onde as crianças passariam a ser formatadas pela televisão e o planeta passaria a ser um monte de cimento coberto de Super-Mega-Hiper-Mercados, televisões e antenas parabólicas. Ricky, perante isto, fugiu e acabou por encontrar a gata Dodó da senhora Cipolloni, a única senhora que tinha um jardim e uma gata e que, por isso, era mal vista por todos os habitantes, que concordavam que era um inimigo a eliminar.
         Recebido com carinho pela senhora Cipolloni, esta ajudou-o a esconder-se de Ulderico. Quando viram passar dezenas e dezenas de crianças, de olhar vazio, com olhos quadrados, onde se refletiam os ecrãs das televisões, aceitaram a sugestão de Dodó, de infiltrar Ricky no cortejo de crianças, para descobrir os planos maquiavélicos de Ulderico. Foi assim que a senhora Cipolloni arquitetou um plano para devolver a paz e a harmonia à cidade. Terá ela conseguido? Será que Ricky foi descoberto no meio dos meninos? Terá ficado a saber o que aconteceu à sua amiga Ursula? E qual era verdadeiramente o plano de Ulderico?

         Uma leitura ligeira, mas muito envolvente, onde estas personagens poderiam muito bem ser transpostas para a atualidade, na qual a tecnologia e modernização dominam o ser humano, que vai perdendo os seus pequenos lugares mágicos. Porque, quando se perde a magia, os olhos ficam vazios, sem sonhos, como os destas crianças.

Susanna Tamaro nasceu em Trieste, Itália, no ano de 1957. Formou-se em Realização no Centro Experimental de Cinematografia de Roma. Durante dez anos trabalhou para a televisão como realizadora de documentários científicos. Atualmente, é uma das escritoras italianas mais conhecidas e aclamadas em todo o mundo, e o conjunto da sua obra, que inclui títulos bem conhecidos do público português - Vai Aonde Te Leva o Coração, Com a Cabeça nas Nuvens, Para Uma Voz Só, Escuta a Minha Voz ou Regresso a Casa - vendeu vários milhões de exemplares à escala mundial. (http://www.bulhosa.pt/livro/um-lugar-magico-ou-como-salvar-a-natureza-susanna-tamaro/)



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Livro da vida

Célia Gil
Quando eu deixar de me importar
e tudo me for indiferente,
serei apenas mais um livro a fechar
uma história que se encerra para sempre.

Por agora quero tudo absorver,
todas as emoções de cada fragmento.
Não deixar nenhum capítulo por viver
e ser genuína como o vento.

Nesta grande biblioteca, que é a vida,
quero ser um livro repleto de histórias.
Numa estante grande e bem colorida,
quero fazer brilhar as minhas memórias.
                                                         Célia Gil

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