quarta-feira, 25 de julho de 2018

A Livraria, Penelope Fitzgerald

Célia Gil

Fitzgerald, Penelope. A Livraria. Lisboa: Clube do Autor. 2011.
  
Penelope Fitzgerald é uma das mais notáveis escritoras da ficção britânica. Foi distinguida, em 1959, com o seu romance Offshore, com o Booker Prize.



A Livraria foi traduzido por Eugénia Antunes e conta a história de Florence Green, uma mulher de meia idade, viúva, que decide abrir uma livraria numa pequena vila costeira, em Inglaterra, a única livraria da terra. Para tal, adquire um casarão, o Old House, que, apesar de decrépito e com um suposto fantasma, é desejado por pessoas influentes que queriam transformá-lo num Centro de Artes.
Inesperadamente, Florence recebe um convite para uma festa do General e de Mistress Gamart, onde a cortesia com que é recebida, tem oculta a intenção subjacente de a convencer a não abrir a dita livraria. Mas, contra tudo e todos, Florence leva avante o seu sonho e abre a livraria. Tarefa pouco facilitada por alguns habitantes da aldeia.
Só uma jovem de 10 anos, Christine, se oferece para a ajudar nas suas horas livres, depois da escola.
Com a sua influência, os opositores e interessados na Old House conseguem determinar a criação de uma nova lei que determinava que os edifícios antigos deveriam ser sujeitos a aquisição compulsiva ainda que no momento se encontrassem ocupados, contando que se tivessem encontrado vagos no passado durante mais de cinco anos.
Quando Old House foi requisitada ao abrigo desta nova lei, Florence sentiu-se a mais naquela vila, apanhou o comboio para Liverpool Street, com a perfeita noção de que a vila nunca quisera verdadeiramente uma livraria.
                                                                                                    Célia Gil

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro

Célia Gil
Pedro, João Ricardo (2012). O Teu Rosto Será o Último. Alfragide: Leya.


  
Prémio Leya 2011, O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, é um livro que nos conta a história de uma família que, sem ser uma história linear, pois trata-se de três gerações, que vão sendo retratadas de forma alternada, encaixam-se todas no final, através de uma personagem que serve de elo de ligação entre elas, Duarte, uma criança. Uma família marcada por longos anos de ditadura, pela revolução de abril, pela repressão política e pela guerra colonial.
Em traços muito gerais, tudo começa com Augusto, o avô de Duarte, um médico que compra uma casa na Gardunha, entre o Fundão e Alpedrinha e que aí se estabelece (curiosamente, a certa altura é explicado que Gardunha quer dizer “refúgio, ou esconderijo. Em árabe”). Compra a propriedade a um amigo, Policarpo, que segue o seu sonho de viajar pela Europa e lhe vai escrevendo cartas que ele guardará na sua biblioteca. Estas cartas serão, mais tarde, lidas pelo próprio neto, o Duarte, ajudando a formar a sua personalidade.
António, o pai de Duarte, teve, por sua vez, uma vida de sacrifício, fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra, que havia de ser a mãe de Duarte, numa livraria.
Duarte, uma criança dotada de um grande talento, um pianista precoce e prodigioso, cresce no meio destas histórias, das cartas de Policarpo ao avô, de tragédias familiares, da morte do seu amigo Índio, da doença da mãe, e cresce nele uma revolta que o deixa de costas voltadas para o piano. Nem o médico o consegue ajudar a resolver esta incompatibilidade:

“Depois de um longo silêncio, o médico perguntou-lhe se, quando ouvia essas músicas tocadas por outros pianistas, experimentava a mesma sensação.
Duarte respondeu que nunca ouvia música. Não tinha discos. Não ia a concertos.
O médico perguntou-lhe se gostava de música.
Duarte não soube responder.
O médico perguntou-lhe porque começara a tocar piano.
Duarte disse: “Não fui eu que comecei a tocar piano. Foram as minhas mãos.”

Se ainda não leu, não pode deixar de conhecer esta família, os episódios hilariantes, contados com um grande sentido de humor, bem como os dramas que constituem a vida de tantos portugueses. Um romance a não perder, O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro. 
                                                                            Célia Gil

terça-feira, 10 de julho de 2018

As Velas Ardem até ao Fim, Sándor Márai

Célia Gil

Márai, Sándor. As Velas Ardem até ao Fim. Lisboa: Dom Quixote. 2001.


     Uma obra traduzida por Mária Magdolna Demeter, As Velas Ardem até ao Fim de Sándor Márai, lê-se num ápice.  Além de pequeno, prende o leitor, que quer saber a história de dois amigos, Konrád e Henrik, que se reencontram na velhice.
     Henrik, um velho general que vive num castelo recôndito e decadente, na Hungria, aguarda ansiosamente o regresso do amigo de longa data e recorda os tempos passados, a sua família, a forma como acolheram Konrád, até à sua partida inesperada para os trópicos. Espera ver esclarecidas algumas dúvidas que não o deixarão descansar em paz, dúvidas que apresenta com laivos de uma vingança decorrente de traição. O seu melhor amigo não o tinha apenas traído com a esposa, tinha, sobretudo, traído a sua amizade, a cumplicidade as vivências que tiveram, de quem cresceu e formou a sua personalidade em conjunto, de quem foi dependente, de quem amou profundamente. Precisava compreender por que razão Konrád o quisera matar, durante uma caçada, e por que não o fizera.
     O momento do reencontro, 41 anos depois, descrito como: “Era o momento em que a noite se separa do dia, o mundo de baixo do mundo de cima. (…) É o último segundo em que a profundidade e a altura, a luz e a escuridão, tanto universal como humana, ainda se tocam (…)”, foi um momento marcado por longos silêncios, pelo monólogo de Henrik, a que Konrád responde no seu silêncio, por recordações dolorosas, pela reflexão sobre o valor da amizade, os segredos, a solidão decorrente do afastamento, a desilusão ante a “fuga” inesperada e a noção da inutilidade do ciúme, da vingança e dos remorsos. Uma longa conversa, em que “As Velas Ardem até ao Fim”. Um livro de Sándor Márai que não pode deixar de ler. 
                                                                                              Célia Gil
                                                                                                                                              

domingo, 1 de julho de 2018

A Porta, Magda Szabó

Célia Gil

Szabó, Magda. A Porta. Cavalo de Ferro.



         Um romance escrito pela húngara Magda Szabó, traduzido por Ernesto Rodrigues, conta-nos a estranha história de uma relação entre duas mulheres – a patroa, jovem escritora e a sua empregada, Emerence, já idosa.
         Quando contrata Emerence, Magda percebe que ela é diferente das outras empregadas. É ela que sujeita a patroa a um exame que a fará perceber se quer ou não trabalhar para Magda. Aliás, chega a afirmar “Não lavo a roupa suja de qualquer um”.
           É ela que estabelece as regras.
         Emerence é dura, rude, fria e enigmática, mas também muito trabalhadora, atenta, e surpreendentemente dedicada. É esta personalidade que faz com que seja respeitada e até temida pela vizinhança.
         Da sua vida pessoal, nada dá a saber, mantendo o seu passado em segredo, a sua vida fechada a sete chaves, atrás de uma porta que não abre para ninguém.
         Apesar da aparente impossibilidade de se entenderem, Magda e Emerence, dadas as suas diferenças (Magda é escritora, Emerence não lê, nem sequer jornais; Magda é religiosa, Emerence despreza a religião; Emerence não compreende o emprego de Magda enquanto escritora, pois, segundo ela, um emprego era algo que exigia esforço físico), não conseguimos deixar de ficar surpreendidos, perturbadoramente fascinados, quando percebemos a forte relação existente entre elas.
         Magda chega a dizer “Segui-a com os olhos perguntando-me porque se agarrava a mim, quando era tão diferente dela, não percebia do que ela gostava em mim. Eu já escrevia, era ainda jovem, não analisara a fundo até que ponto a paixão é um sentimento lógico, mortal, imprevisível…”
         O certo é que, aos poucos, estabeleceu-se entre elas uma amizade, ainda que comandada por Emerence, que vai dizendo até onde esta amizade pode ir.
         Até o cão de Magda é a Emerence que obedece, é a ela que vê como dona. O magnetismo que tem com o cão, a quem deu o nome de Viola, é o mesmo com que atrai Magda para a sua vida, para o seu mundo secreto, para a sua porta.
         O seu passado é desvendado aos poucos, como se também não quisesse ser dado a conhecer.
         A Porta é um romance escrito na primeira pessoa, com laivos de autobiografia, onde a própria Magda Szabó nos fala desta amizade e dos erros que considera que vai cometendo. Um romance imperdível. Este é o meu conselho de leitura.
                                                                                                   Célia Gil


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