sexta-feira, 27 de março de 2020

Sangue Frio, Robert Bryndza

Célia Gil

Bryndza, Robert (2018). Sangue Frio. Loures: Alma dos Livros.


Nº de páginas: 318

Sangue Frio é o quinto livro da série Érika Foster, de Robert Bryndza, traduzido por Ana Lourenço. Mais um thriller que se lê ininterruptamente, alternando entre a investigação da equipa de Erika Foster e a história de dois assassinos cruéis.

A ação inicia-se com a descoberta de dois corpos, cortados e acondicionados dentro de malas de viagem. Apesar de não terem sido encontradas no mesmo local, os corpos tinham, de alguma forma, uma ligação, pois tinham sido acondicionados da mesma maneira e, diga-se de passagem, dificilmente um crime exatamente igual poderia ser atribuído a diferentes assassinos.

Nina, uma jovem ingénua e inexperiente, conhece Max numa loja de fish & chips e sente-se atraída por ele, fazendo tudo para que aquele rapaz de cabelo loiro comprido e bonito olhe para ela. Maldito o dia em que ele resolve aproximar-se dela e a envolve nos seus esquemas (venda de droga, relacionamentos estranhos…). E Nina deixa-se envolver, perdidamente apaixonada. Aos poucos, apercebe-se de que está em apuros, que ele é um criminoso, mas já está de tal maneira presa e amedrontada, que se limita a evitar que ele se zangue com ela, tentando ao máximo passar despercebida. Mas Max envolve-a nos seus crimes e torna-a a ela também numa criminosa.
Cabe à equipa de Érika deslindar esta situação.

Quando os criminosos raptam duas crianças, as filhas gémeas de um colega de Érika, tudo fazem para resolver a situação sem dano para as crianças.
Conseguirão salvar as gémeas? Max não tem nada a perder e tem as balas necessárias para matar Nina e as gémeas.

Para o descobrir, aconselho vivamente a leitura deste livro. Eu, por meu turno, continuo com a clara certeza de querer descobrir todos os livros deste escritor. Mesmo não os lendo pela ordem por que foram escritos.

                                                                    Célia Gil

sábado, 21 de março de 2020

Um Pingo na Água, Ann Yeti

Célia Gil

Yeti, Ann (2020). Um Pingo na Água. Castro Verde: Editorial Grupo Narrativa






Um Pingo na Água, de Ann Yeti é um livro jovem, repleto de vida e de todas as expetativas, anseios e paixões da juventude.
A protagonista, Ana, é uma mulher profissionalmente realizada e bem resolvida. Porém, revela-se uma mulher sensual, com a vida “à flor da pele”, que facilmente se entrega às paixões, sejam ou não duradouras. Vive essas paixões de forma exacerbada, não controlando os seus instintos, mesmo quando a razão lhe diz que não devia e que era melhor parar. Um pouco perversa, não hesita em trair, quando se lhe oferece a oportunidade para o fazer. Quanto a mim, revela-se um pouco fraca na questão amorosa, pois não sabe dizer que não, não resiste e persiste no logro das suas emoções. Tudo dá a entender que termina bem, mesmo depois de um momento de muito sofrimento, com a perda de João. Porém, na minha ótica, não sei se terminará assim tão bem. Numa relação, não basta um amar. Ana não me pareceu ser mulher de um homem só, por isso, acredito que o fim poderá se poderá considerar em aberto.
Yeti escreve muito bem, uma escrita leve, mas bem ponderada. Apresenta-nos as ações de forma direta, sem momentos mortos, o que faz com que o leitor entre na narrativa e só dela saia ao terminar o livro.
Este é mais um livro de Yeti com uma capa lindíssima, onde o horizonte se contempla como infinito ou inalcançável, como inalcançáveis são os sentimentos de Ana.
Gostaria, agora, de ver Yeti num outro registo, de que se vislumbrou um pouco em Um Fio de Sangue, um thriller, pois penso que a sua capacidade de escrita fluente seria totalmente adequada a um livro desse género. Fico a aguardar e expectante de que vai ser, com certeza, também muito bom!
                                                                                                                Célia Gil

sexta-feira, 20 de março de 2020

A Paciente Silenciosa, Alex Michaelides

Célia Gil

Michaelides, Alex (2019). A Paciente Silenciosa. Lisboa: Editorial Presença.


A Paciente Silenciosa é um livro escrito por Alex Michaelides e traduzido por Marta Mendonça. É um livro que nos absorve logo nas primeiras páginas e que só conseguimos largar se tivermos mesmo algo urgente para fazer. Caso contrário, as suas 333 páginas são devoradas compulsivamente.
Alicia era pintora. Encontra-se internada e, desde que supostamente matou o marido, não voltou a proferir nenhuma palavra. No Grove, onde se encontra internada, já tinham desistido de tentar que ela falasse.
Théo Faber, cuja infância foi bastante conturbada, tornou-se psicoterapeuta para resolver o seu caos interior. Conseguiu uma entrevista de trabalho para a Grove, porque queria ajudar Alicia a falar. Todos lhe diziam que ela era louca, que nunca mais falara e que ele não iria conseguir, era uma perda de tempo. Além disso, ela era perigosa. Mas Théo não desiste, considera que Alicia está demasiado medicada e consegue interceder para que lhe seja reduzida a dose de medicação. Na primeira sessão, depois de reduzida a medicação, Alicia atacou Théo, apertando-lhe o pescoço com o intuito de o matar. Estava já a sufocar, quando conseguiu premir o alarme.
A par das sessões que vai tendo com Alicia, nas quais não se notam grandes progressos, vai-nos sendo apresentado o diário dela e momentos da vida pessoal de Théo. Este era casado com Kathy, que era a sua esposa e a mulher da sua vida. Certo dia, Théo encontra, sem querer, mensagens de cariz pessoal e sexual, no computador da mulher. Esta estaria a traí-lo e isso era inconcebível para ele. No entanto, também não a queria perder, por isso não a abordou. A mulher era atriz e uma boa atriz no que toca a não dar a entender o que se passava na sua vida pessoal. Théo resolve adotar a mesma estratégia e, apesar de ferver por dentro, sorria para ela como se nada fosse.
Entretanto, é ponderada a continuação das sessões de terapia de Théo com Alicia, uma vez que não estão a surtir efeito. Mas este não desiste. Na última sessão, Alicia não fala, no entanto entrega-lhe o seu diário. Théo lê o diário de um só fôlego e começa a investigar por conta própria, mesmo sabendo que não o deve fazer, pois é apenas o terapeuta. Questiona todos os que pudessem estar envolvidos na morte do marido de Alicia, Gabriel, e todos os que, de alguma maneira, o pudessem ajudar a chegar ao âmago de Alicia, para perceber que acontecimentos a terão levado a calar-se voluntariamente para sempre. Não acredita que tenha sido ela a matar o marido. Acredita, isso sim, num homicídio.
No diário, Alicia conta que sentia que era perseguida por um homem, mas, nem o marido nem o médico que a seguia na altura, acreditavam nela. Mas Théo acreditava.
Entretanto, na narrativa encaixada nesta sobre a vida pessoal de Théo, este começa a seguir a esposa para ver com quem ela o traía.
Chegaria Théo a descobrir quem era o seu rival?
Conseguiria Théo que Alicia falasse?
Muito mais haveria a contar, mas não quero revelar mais. Só posso afiançar que o fim é totalmente inesperado e incrível.

segunda-feira, 16 de março de 2020

A Bailarina de Auschwitz, Edith Eger

Célia Gil
Eger, Edith (2018). A Bailarina de Auschwitz. Porto Salvo: Saída de Emergência.

Poderia ser apenas mais um relato sobre o Holocausto, mas não é. É uma obra muito bem escrita, que se lê com o coração nas mãos, mas que vai para além de uma vivência traumatizante, uma vez que nos apresenta um exemplo, o exemplo de uma mulher que viveu os piores horrores, que passou por todas as dificuldades, traumas pós-holocausto, exclusão social, mas que conseguiu repensar e refazer a sua vida. Hoje, com 92 anos, continua uma força da natureza, mesmo depois de tudo o que vivenciou. Tornou-se psicóloga, e especialista em stress pós-traumático, tendo decidido escrever um livro para contar o que aconteceu, mas, principalmente, para mostrar que todas as pessoas têm alternativas na vida.
Numa madrugada de 1944, a família - que residia em Kassa, na Hungria - foi acordada pelos nazis. Viveram quase toda a guerra sem saberem o que se passava com os judeus na Europa. Edith sonhava ser bailarina e, até ser deportada, trabalhava diariamente para atingir esse objetivo.
"Não sabíamos de nada. Os meus pais tinham bilhetes para irmos para a América e não os usaram. Não fazíamos ideia do que se estava a passar. Nunca ouvir falar de Auschwitz até ao dia em que cheguei lá vi a tabuleta a dizer: O trabalho traz a liberdade. Mesmo assim não sabia onde estava até ver o Dr. Mengele que me separou da minha mãe. Os meus pais morreram nas câmaras de gás nessa mesma noite. Eu vi a chaminé e o fogo sair e disseram-me que eles estavam lá a arder."
Acompanhada pela irmã mais velha, Magda, Edith começou o percurso pelas mãos dos nazis frente a Joseph Mengele, o homem que ficou conhecido como Anjo da Morte, pelas experiências que realizou em seres humanos, em especial em crianças e gémeos.
A jovem foi obrigada a dançar, e foi nessa noite, que descobriu a primeira estratégia para sobreviver - "Fechei os olhos quando dancei para o doutor Mengele, imaginei a música de Tchaikovsky e estava a dançar o Romeu e Julieta na Opera House de Budapeste".
Ela reconhece que muita da resistência lhe vem da forma como decidiu encarar o mundo, logo aos 16 anos "Não sei de onde me veio a ideia mas imaginei, que de alguma forma, seriam os nazis a pagar com a consciência o que estavam a fazer. Eram eles os verdadeiros prisioneiros. Não sei como criei dentro de mim esse mundo em que me podiam espancar, enviar para a câmara de gás, mas nunca poderiam matar o meu espírito."
Em dezembro de 1944, Edith e a irmã mais velha, Magda, foram retiradas de Auschwitz e seguiram numa marcha da morte através da Europa. Em maio de 1945 foram libertadas na Áustria, quando ambas davam já poucos sinais de vida. Um soldado americano notou a mão de Edith mover-se ligeiramente numa pilha cadáveres.
De regresso à terra natal Edith e Magda reencontram a irmã, Klara, que passou o último ano da guerra com um professor católico. As três são os únicos elementos da família que residia na Europa a sobreviverem.
Durante os 20 anos seguintes a jovem sobrevivente esconde totalmente a experiência que teve em Auschwitz. Ninguém sabe que ela foi vítima dos nazis. Escondeu-o porque pensou que assim poderia esquecer mais depressa.
Foi já como psicóloga que percebeu que a estratégia não estava a resultar. Nos anos 80 regressou ao antigo campo de concentração na Polónia "Perdoar-nos é muito difícil e ainda estou a fazê-lo. Demorei cerca de 40 anos até começar realmente a dar-me autorização para libertar a culpa e a vergonha. Não sei porque é que tinha a vergonha e a culpa de ser sobrevivente, mas foi ao ponto de faltar à minha licenciatura porque achava que não o merecia porque os meus pais estavam mortos".

A História deve ser contada para que não se repita.
                                                                                               Célia Gil

sábado, 29 de fevereiro de 2020

O Retorno, Maria Dulce Cardoso

Célia Gil
Cardoso, Dulce Maria (2012). O Retorno. Lisboa: Tinta-da-China.

Ler O Retorno de Maria Dulce Cardoso é fazer uma viagem de retorno à infância, às minhas memórias, sendo eu própria uma retornada, que voltou de Angola com apenas 5 anos, em 1975. Estive em casa com a leitura deste livro, com os hábitos, a linguagem, a cultura do país que me viu nascer. Estive com os dramas, a angústia e o medo das personagens nas quais me reconheci, ainda que mais nova. Revi-me nesta realidade de passar de uma vida tranquila, sem necessidades, para uma vida incerta, onde o Bullying assumia uma outra forma, mas era da mesma violência. Também eu voltei sem o meu pai. Voltaria? Não voltaria? Tantas incertezas, tantas dificuldades, tantos sonhos…
Este é realmente um grande livro, só o pode ser, quando nos revemos nas personagens, nas situações, deixando-nos envolver e confundir com a própria história.

Mal chegam a Portugal, Rui e a família e milhares de refugiados vêem-se obrigados a habitar por tempo indeterminado num hotel de cinco estrelas no Estoril, disponibilizado pelo Governo para receber os “retornados”. A mãe, que tinha problemas psicológicos, vê agravar-se o seu estado de saúde, ao regressar sem o marido (quem a ia mantendo mais ou menos estável) e ao deparar-se com a falta total de apoio dos parentes que residem em Portugal.

As condições de vida no hotel rapidamente se degradam devido à sobrelotação. Os hóspedes “especiais” sentem-se a viver numa colmeia ou num formigueiro. Surgem os conflitos com a direção do hotel, que emite normas cada vez mais apertadas. As chamadas de atenção tornam-se constantes. O Rui, com apenas quinze anos de idade opta por exibir uma atitude bastante hostil em relação ao meio social lisboeta.
Conseguiriam estas personagens ultrapassar os seus dramas e refazer as suas vidas? Não foi o que todos tiveram de fazer? Não baixar os braços e partir para uma luta de adaptação, inserção social, procura de trabalho e luta, luta constante para esquecer os fantasmas passados.

“No IARN as secretárias eram velhas e sujas e as cadeiras onde os retornados se sentavam quando chegava a sua vez estavam desconjuntadas, tenho a certeza que nem aguentariam um corpo pesado como o do pai. Estavam lá retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber.” (pág. 86)


                                                                                   Célia Gil

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Princípio de Karenina, Afonso Cruz

Célia Gil

Cruz, Afonso (2018). Princípio de Karenina. Lisboa: Companhia das Letras.

O Livro Princípio de Karenina, de Afonso Cruz, foi um livro que adorei. Parte do princípio de Anna Karenina (romance de Tolstoi sobre a felicidade/infelicidade, e de uma derivação anterior de Aristóteles, sobre a bondade e a maldade),  construindo-se uma história que contraria, de alguma maneira, este princípio. Nem todas as famílias felizes se parecem, nem todas as infelizes são infelizes à sua maneira, porque, e passo a citar “…a felicidade não obedece a essas regras. Estar no lugar errado pode ser fonte de felicidade (…) Disposições imperfeitas, cada uma à sua maneira, mas felizes, cada uma à sua maneira (…) As famílias felizes terão de ser imperfeitas (ou seja, diferentes umas das outras), é impossível ser feliz sem dor (…) Sem desequilíbrio, nada se move”.
A história que nos permite chegar a estas conclusões é a do narrador, que fala para a sua filha, que não conhece e a quem conta a história da sua vida. Conta-lhe sobre si, desde criança, uma criança disforme;sobre os seus pais, como o pai fechava a sua vida dentro das janelas de casa e não gostava que o filho saísse, erguendo sempre muros de silêncio à sua volta, muito recatado, tradicional, afinal, porque, segundo o filho, tinha medo de tudo, tinha medo do que não conhecia, tinha medo do mundo. O pai ter-lhe-á incutido estes princípios e o medo de sair da aldeia. A mãe revela-lhe as costuras do Mundo, ela que sempre gostou da sua deformidade, mimando-a com suavidade. A mãe gostava de cantar, dizia que não cantava sozinha, pois considerava que cantava com diversas pessoas, através da rádio, numa espécie de comunhão, especialmente mulheres que, nas suas lides domésticas cantavam para engolir o choro. Conta sobre o seu amigo Dois Metros, que se chamava assim porque, na infância, parecia que atingiria uma altura excecional. Mas, afinal, ficou com pouco mais de 1,65 m, continuando, no entanto, sempre com a mesma alcunha. Conta das suas aventuras, das desavenças constantes.
A Fernanda da Farmácia foi, desde cedo, a sua grande paixão; mas, na altura, a sua noção de amor era uma noção de propriedade, algo que se constrói, devendo a escolha ser racional e não passional. Mas entre os dois havia a sombra de um rapaz perfeito, o Arnaldo da Herdade Nova. Desde que este lhe sussurrara ao ouvido que ela não prestava, que esta ideia o fez perder o interesse que tinha anteriormente por ela e será determinante para a indiferença com que a tratará mais tarde, quando se casa com ela. Quem começa a trabalhar em casa deles é a que será a mãe da sua filha, que lhe terá aberto as janelas, uma mulher oriental, de uma “beleza incomodativa”. Quando ela engravidou, mentalizou-se de que ia deixar a mulher e ficar com a mãe da sua filha. Mas foi adiando. E quando ela se foi embora, prometeu ir ter com ela, mas foi novamente adiando…. Terá ele ido ter com a mãe da sua filha? Como terá corrido este reencontro?
Um livro fabuloso, no qual é impossível não assinalar passagens de uma grande beleza. Uma história muito bem concebida e que vale a pena ler com atenção.
O Princípio de Karenina de Afonso Cruz é a minha sugestão de leitura desta semana, eu que sou a Célia Gil.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Nadar para Casa, Deborah Levy

Célia Gil

Levy, Deborah (2011). Nadar para Casa. Alfragide: Publicações Dom Quixote



Nadar para Casa é um livro de Deborah Levy, poeta e dramaturga britânica, traduzido por Ana Saldanha. A história, que nem sempre é linear e fácil de perceber, dada a quantidade de enigmas que se vão colocando ao leitor, é a de Joe, Isabel e a filha Nina, quando vão passar férias numa casa alugada em Nice, Côte D’Azur, com um casal amigo, Laura e Micthell. Acontece que não vai ser uma estadia regular, pois aparece-lhes Kitty, uma botânica, que veem, pela primeira vez, a nadar nua na piscina. Esta tudo faz para se tornar hóspede deles.

A história concentra-se nos oito dias em que Kitty estará hospedada na casa de férias, junto com a família de Joe e dos seus amigos. Joe passa por uma crise conjugal, Laura e Mitchell estão à beira da falência da sua loja de antiguidades, Isabel compensa o seu casamento falhado, dedicando-se exclusivamente ao trabalho e Nina está na fase de se descobrir sexualmente. Todas estas situações são-nos dadas a descobrir com o estranho surgimento de Kitty.

Mas estará Kitty sozinha? Quem é o seu companheiro de viagem, que ora se sente amado ora ameaçado por ela? E por que razão pretende Kitty seduzir o poeta Joe Harold Jacobs? E passo a citar “o poeta famoso, o poeta britânico, o poeta judeu, o poeta ateu, o poeta modernista, o poeta pós-Holocausto, o poeta mulherengo”, um poeta que se divide numa pluralidade de seres, que torna tão difícil perceber as suas intenções. Kitty pretende entregar um poema seu ao poeta, ansiando pela sua opinião. Afirma que sabe tudo sobre Joe e que ala veio para França para o salvar dos seus pensamentos. É uma personagem estranha, que começa a cativar o poeta, que o convida a um inevitável mergulho no desconhecido, no inconsciente.

                                                                       Célia Gil

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Aguas Profundas, Robert Bryndza

Célia Gil
Bryndza, Robert (2018). Águas Profundas. Loures: Alma dos Livros.
Nº de páginas: 326

Águas Profundas é um livro de Robert Bryndza, traduzido por Ana Lourenço. É um Thriller que não nos deixa respirar entre uma página e outra, entre um e outro capítulo, mantendo-nos presos do início ao fim, com um suspense avassalador.
A ação inicia com a equipa da inspetora-chefe Erika Foster, que, com os seus mergulhadores, procuram, numa pedreira abandonada a sul de Londres, uma mala com droga, que Jason Tyler terá atirado à água, para, mais tarde, quando o ambiente acalmasse, a ir buscar. Encontraram, após longas horas de mergulho em grande profundidade, heroína com um valor comercial de quatro milhões de libras. 
Porém, um dos seus mergulhadores encontrou outra coisa submersa no lodo do fundo da pedreira, um saco preto com um corpo muito pequeno. 
Erika, apesar de não lhe competir investigar este caso, fica imediatamente presa nas suas teias. 
De acordo com o a autópsia feita por Isaac Strong, tratava-se do esqueleto de Jéssica Collins, uma menina de 7 anos, que desaparecera há 26 anos, num dia em que se dirigia a casa de uma amiga para celebrar o seu aniversário. 
Consegue, depois de várias diligências, que o caso lhe seja atribuído. 
Torna-se, porém, um caso de muito difícil solução, uma vez que, tendo já passado tantos anos, muitas das pessoas implicadas, não estavam vivas e outras estavam longe. Também a família parece, apesar de devastada com a notícia, esconder vários segredos…
Os capítulos são breves, conduzindo o leitor juntamente com a equipa de investigadores pelo adensar do mistério, em direção a possíveis suspeitos, pistas falsas, novos suspeitos, num estado de ansiedade e emoção constantes, até um final realmente surpreendente.
Quem matou efetivamente Jéssica Collins?
Isso terá de descobrir com a leitura deste livro. Eu, por meu turno, fiquei com a clara certeza de querer descobrir todos os livros deste escritor.
                                                                  Célia Gil

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Um Estranho Amor, Elena Ferrante

Célia Gil

FERRANTE, Helena (2005). Um Estranho Amor. Lisboa: Publicações Dom Quixote



    Um Estranho Amor, de Elena Ferrante, traduzido por Maria do Carmo Abreu, é um livro inquietante, ao abordar de uma forma completamente invulgar e inesperada a relação entre mãe e filha. Esperamos sempre que esta seja uma relação de amor, de dádiva, de confiança e até de admiração. Mas não é o que acontece neste livro. 
    Tudo começa quando Delia, aos 45 anos, perde a mãe, Amalia, encontrada morta numa praia em circunstâncias suspeitas, vestindo apenas um caro e refinado sutiã, que não era, de todo, o estilo de roupa que usava habitualmente. Delia regressara à terra natal, Nápoles, para enterrar a mãe. Sente-se estranhamente aliviada com a morte da mãe. Ao regressar, vê-se confrontada com fantasmas do passado, dessa relação mãe-filha tão fora do comum. Quer também perceber a trágica morte. Espera, com as respostas sobre as circunstâncias dessa morte, encontrar respostas para se compreender a si mesma. Reencontra personagens que faziam parte da história da sua mãe: Caserta, o atual namorado de Amália, uma paixão antiga que Transtornou a relação dela com o pai de Delia no início da vida familiar; vamos ter também o pai, ciumento e agressivo, que fazia pinturas de mulheres nuas para vender, todas inspiradas na esposa, mas que maltratava muito Amália, e, mesmo após mais de 20 anos separados, continuava a assombrar a vida dessa velha costureira; e, finalmente, seremos apresentados ao irmão de Amália, conhecido por lançar insultos indiferentemente a toda a gente, com temperamento e comportamento totalmente excêntricos.
    Apesar de ser um romance breve, de apenas 175 páginas, a história é bastante densa, o que faz com que a leitura seja mais lenta, para não se perder nenhum pormenor, pois toda a informação é relevante para a compreensão da história.
    Este passado a que Delia regressa esteve na origem da mulher em que ela se tornou.
   Amalia não foi, com certeza, uma simples costureira e, quando o possessivo marido não estava, ela ria de forma despropositava, portava-se de forma inadequada para a sociedade da época, aproximava-se de homens de índole igualmente duvidosa… De certa forma, percebe-se que esta mulher renunciou à sua maneira de ser, à sua felicidade, pela família. Só em breves momentos, era ela própria. Delia terá assistido a tudo isto e teve sempre o desejo de não ser como a mãe. Mas, no fundo, via-se como a mãe, chegando a afirmar, quando desenha o caracol que a mãe tinha na testa na sua foto do bilhete de identidade: “Eu sou a Amalia”.

                                                                                                    Célia Gil

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A Viagem dos Cem Passos, Richard C. Morais

Célia Gil
Morais, Richard C. (2011). A Viagem dos Cem Passos. Alfragide: D. Quixote.


     A Viagem dos Cem Passos é um livro escrito por Richard C. Morais, um escritor que nasceu em Lisboa, de nacionalidade americana. Foi traduzido por Ana Lourenço.
     Hassan é o protagonista do livro, que cresceu no ambiente da cozinha do restaurante de seu avô na Índia. Quando a mãe morre, partem para Londres e de Londres para Lumière, pequena cidade francesa, onde pai e filhos decidem começar tudo do zero, abrindo um restaurante indiano. Mas numa cidade assim pequena, apesar de escassa, a concorrência pode mesmo dificultar a vida. É o que acontece com Madame Mallory, que possui um restaurante muito antigo em frente ao deles. Esta não descansa enquanto não convence Hassan, o jovem indiano com um talento inato para a culinária, a trabalhar para ela. Hassan empreende a viagem de sua casa para casa de Mallory, uma pequena viagem de cem passos até ao restaurante em frente ao seu. Torna-se pupilo de Mallory, uma reputada chef de culinária francesa. Para quem gosta de culinária, é fácil deixar-se envolver pelos aromas e paladares dos pratos confecionados por Hassan. E o melhor é fazê-lo depois de comer ou terá de fazer uma pausa no livro para ir degustar alguma coisa de forma a manter os sentidos despertos para a história.
     É num determinado dia, enquanto faz um piquenique com Margaret, com quem tem um relacionamento amoroso, que Hassan decide abrir asas, deixar tudo para trás e procurar a fama enquanto cozinheiro. Parte para Paris, onde passa por uma série de restaurantes até atingir a ascensão que sempre desejara.

Este livro teve uma adaptação cinematográfica com o título A 100 Passos de um Sonho, contando com a premiada atriz Helen Mirren no papel de Madame Mallory. Mas por que não ler o livro e depois ver o filme? Fica, pois, o convite para empreender esta viagem ao mundo da gastronomia, que comanda os sonhos deste livro, A Viagem dos Cem Passos, de Richard C. Morais.

Título: A Viagem dos Cem Passos 
Autor: Richard C. Morais
N.º de páginas: 264
Editora: D. Quixote

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Noite, Elie Wiesel

Célia Gil

Wiesel, Elie. Noite. Lisboa: Texto Editora, Lda. 2003


Noite de Elie Wiesel é mais um dos imensos livros que abordam a época do Holocausto, 2ª Guerra Mundial. Porém, tal como outros, não deixa de nos surpreender, de nos dar a conhecer atuações mórbidas e que nunca poderíamos supor, nem na pior das hipóteses. Gostei bastante deste livro. Dar-lhe-ia 4* e só não dou 5, porque, em alguns momentos, faltou-me um pouco mais. Talvez essa lacuna se deva ao vazio de emoções que, a dada altura, invadiu todos os que passaram por estes horrores. A fome, a dor física e da alma são tão fortes que anestesiam, esfriam, esvaziam. Só esta hipótese consegue, quanto a mim, explicar as situações em que, perdendo completamente a razão, pela promessa de um pouco de pão, os prisioneiros servissem de carrascos ou não interviessem pelos seus familiares. Só esta situação desarrazoada explica que os prisioneiros ficassem impávidos e serenos perante mortes e mortes que se iam sucedendo de forma terrível e à sua frente. E, apesar de inicialmente o narrador dizer que não se esquecerá jamais de todos os acontecimentos (e passo a citar: “Nunca mais esquecerei esta noite, a primeira noite no campo (…). Nunca mais esquecerei aquele fumo. Nunca mais esquecerei estas chamas que consumiram para sempre a minha fé. (…) Nunca mais esquecerei estes momentos que assassinaram o meu Deus e a minha alma, e os meus sonhos, que tomaram a aparência de um deserto”), mais à frente, acaba por confessar que esquece tudo, esquece-se até do pai, quando este é encaminhado para o crematório, porque deixou de ter capacidade física e mental para sentir o que quer que fosse (e passo a citar “Eu não chorava e o facto de não conseguir chorar fazia-me mal. Mas já não tinha mais lágrimas.”).

O narrador deste livro, Eliezer, tinha treze anos, acreditava no seu Deus e o sonho dele era arranjar um mestre que o pudesse guiar no estudo da Cabala. Postos fora de casa, o jovem Eliezer e a família, acompanhados de muitos outros judeus, ao chegar a Birkenau, foram confrontados com a separação, a mãe foi para um lado, ele e o pai para outro. Daqui foram para Awschwitz, onde permaneceram três semanas e, posteriormente, para Buna, acabando, mais tarde, por ser encaminhados para Gleiwitz e Buchenwald, onde o pai foi transportado para o crematório, sem chorar, com o ar de quem finalmente está livre de tudo.
                                                                                                              Célia Gil
                                                                                         

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A Ilha, Sándor Márai

Célia Gil
Márai, Sándor. A Ilha. Alfragide: Dom Quixote. 2012.


A Ilha é um livro escrito por Sándor Márai e traduzido do húngaro por Piroska Felkai.

         A Ilha é um livro escrito por Sándor Márai e traduzido do húngaro por Piroska Felkai.
O protagonista desta obra, Viktor Askenasi, um homem de meia idade, respeitado professor no Instituto de Estudos Orientais de Paris, vive rodeado de dúvidas existenciais. Não sendo um livro extenso, é um livro cuja leitura carece de especial atenção, profunda, enigmática, onde todos os fios narrativos são fundamentais para a compreensão da história e da mensagem que o autor nos passa.
Aos 47 anos, depois de, num ato de insanidade, ter abandonado a esposa, a filha e o trabalho para viver com uma bailarina russa, que também acaba por abandonar por não responder à sua questão existencial de busca da felicidade, Askenasi resolve empreender uma viagem a Paris, seguindo o conselho de amigos, para descansar. Mas, ao parar numa estância balnear do Adriático, a meio da viagem, pensa que deverá ser ali que pode procurar a resposta para a sua pergunta. Para a ilha, vai apenas aquando de um encontro com uma terceira mulher que o atrai ao seu quarto no Hotel Argentina e que acredita que tem a resposta que nem Deus é capaz de lhe dar. É nessa viagem que se inicia um desfiar de memórias, na procura de respostas para a ambiguidade do amor, a angústia, a incerteza, a sensação de perda, de esquecimento e a solidão.      
     E é por entre os fios cruzados do passado com o presente, que o protagonista nos vai lançando fios que temos de juntar para construir o enredo. Tudo isto numa linguagem magistral, à qual Márai nos habituou em todas as suas obras, uma linguagem que nos envolve, nos deixa expectantes. Ainda que parta de questões com que o ser humano, em qualquer momento da sua vida, se depara, como porque trabalhamos toda uma vida? Não será necessário de aparentemente deixar de ver para passar a observar com nitidez? Será preciso perder aparentemente a memória, para nos recordarmos do que efetivamente é importante para nós?

É um daqueles livros que é preciso degustar, palavra a palavra, voltar atrás algumas linhas e reler, para não perder nada, já que tudo é importante. Parar para, de alguma maneira, questionarmos a nossa própria vida. É esse o maior poder de Márai no leitor, abaná-lo, questioná-lo por meio de uma personagem que pode muito bem ser qualquer um de nós. Porque, apesar de todos sermos uma ilha inexplicável e inacessível, na qual pensamos estarem as respostas para as nossas dúvidas, a ilha pode muito bem ser o isco que nos aprisiona e que impede que nos libertemos e encontremos a felicidade.
                                                                                               Célia Gil


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