domingo, 5 de julho de 2020

Irmã, Rosamund Lupton

Célia Gil

Lupton, Rosamund (2012). Irmã. Porto: Civilização Editora.


Nº de páginas: 370
Início da leitura: 01/07
Fim da leitura: 05/07

Irmã é o primeiro romance de Rosamund Lupton, traduzido por Odete Martins. Já tinha ouvido e lido críticas muito positivas sobre este livro, por isso, à partida, as minhas expetativas iam bastante elevadas. Gostei da forma como a narrativa se apresenta, fazendo lembrar uma longa carta que Beatrice escreve à irmã, Tess, a partir do momento em que esta desaparece. Penso que as analepses também tornam a narrativa mais interessante, uma vez que permitem esclarecer as circunstâncias que estiveram por trás deste misterioso desaparecimento.
Considero apenas que se poderia ter atrasado um pouco a revelação da morte de Tess e que desde aí até ao momento em que Beatrice começa as suas investigações, há alguma monotonia e repetição nos relatos que Beatrice vai fazendo a Mr. Wright, o delegado do M:P, que vai registando o seu depoimento. Mas nem tudo é referido ao delegado, algumas considerações Beatrice tece-as só para a irmã, com quem tinha uma grande cumplicidade e sobre a qual pensava que sabia tudo.
Beatrice deixa a sua vida metódica e confortável nos Estados Unidos para regressar a Londres, quando recebe um telefonema a comunicar-lhe o misterioso desaparecimento da sua irmã.
Quando a encontram morta, tudo aponta para suicídio. A família e a polícia aceitam-no como causa da morte de Tess. Só Beatrice não aceita, ela pensa que a irmã terá sido assassinada e decide descobrir a verdade sobre as circunstâncias da sua morte.
Existe ainda o facto de a irmã, dias antes, ter tido um nado-morto, um bebé que tinha sido submetido a um tratamento por ser portador de fibrose quística, doença que lhe teria sido passada pelos pais. Beatrice acredita que esta nova cura milagrosa tem algo por trás. Conseguiriam mesmo reverter um diagnóstico de fibrose quística? E quando o teste dá negativo no pai, não se poderá colocar legitimamente a questão: teria o bebé fibrose quística? Não seria uma forma de receberem os louros pela cura de bebés que nunca estiveram, afinal, doentes?
Beatrice, a certa altura, para além de visivelmente abalada, sente que está a perder o controlo de si e chega a questionar-se se não estará a enlouquecer.
Certo é que a morte da irmã, vem mudar e abanar a sua vida, torná-la menos fria, mais capaz de receber e dar afeto, isto para além de a sua aparência antes irrepreensível ter dado lugar a um total desleixo.
É, sem dúvida, um livro envolvente e que prende, pois queremos perceber como terá de facto morrido Tess, se havia um assassino, entre outras questões que vão surgindo e que queremos ver descortinadas, nomeadamente sobre o bebé de Tess.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Austenlândia À Procura de Mr. Darcy, Shannon Hayle

Célia Gil
Hale, Shannon (2013). Austenlândia à Procura de Mr. Darcy. Barcarena: Presença.

Nº de páginas: 184
Início da leitura: 28/06
Fim da leitura: 30/06


Austenlândia à Procura de Mr. Darcy, é um livro escrito por Shannon Hayle e traduzido por Maria João da Rocha Afonso.
Sonhar com um tal Mr. Darcy é típico das fãs de Jane Austen e de todas as românticas. Este é um livro leve, diria mesmo de verão, divertido e romântico.
Jane tem 32 anos, é considerada a “encalhada” e continua a aguardar pelo homem perfeito, que só existe na sua imaginação; por isso, não aceita a vida tal como é e acaba por se questionar se não será demasiado tarde para ser feliz. A fantasia excessiva que ela idealizou na sua cabeça relativamente a uma futura relação amorosa, é o suficiente para a impedir de viver a realidade e de entender que a felicidade tem de ser construída por cada um de nós.
Jane, ao idealizar o homem perfeito, pensa que este lhe surgirá sem nada ter que fazer para o encontrar. Os disparates que vai fazendo, os problemas que vai criando e as loucuras em que vai incorrendo, algumas mesmo por ingenuidade e falta de bom senso, levam-na a procurar este homem por ela idealizado, considerando até que basta encontrá-lo para ser feliz para sempre.
Mas as coisas não são assim tão fáceis. Nesta Austenlândia que recria o século XIX, nem sempre se está preparado para encarar a realidade e aceitá-la e nem sempre as relações são as idealizadas.
E mais não conto. Para conhecer estas personagens divertidas e sonhadoras, o melhor é empreender esta viagem à Austenlâdia, vá ou não à procura de Mr. Darcy.

domingo, 28 de junho de 2020

A Menina do Bosque, S.K. Tremayne

Célia Gil

Tremayne, S.K. (2019). A Menina do Bosque.  Amadora: TpSeller.
Nº de páginas: 320
Leitura iniciada no dia 22/06
Leitura Terminada no dia 27/06


A Menina do Bosque é um livro escrito por S. K. Tremayne e traduzido por Rui Azeredo. Enigmático como As Meninas do Gelo, que também já li, é um thriller repleto de mistério, que surpreende até ao fim.
Lyla é uma menina de 9 anos, que vive isolada no seu mundo e presa nas suas memórias e fantasmas. Tem todos os sintomas da Síndrome de Down, não consegue fazer amizades, tem comportamentos típicos desta doença, como, por exemplo, fazer padrões, é enigmática, tem longos silêncios e gosta de caminhar livre pelo bosque com os seus dois cães.
Aparentemente, tiveram uma vida feliz, até ao momento do acidente da mãe, cujo carro cai numa ravina e ao qual sobrevive milagrosa e misteriosamente. Mas parece que o acidente teve sérias repercussões na sua mente, pois essa fase da sua vida apaga-se da sua memória e qualquer memória que possa ter é criada por ela própria. Até mesmo o acidente. Terá sido mesmo um acidente? Terá sido tentativa de suicídio, como lhe explicam mais tarde? Ou haverá ainda algo mais por explicar? Terão fundamento as acusações que lyla tem vindo a fazer ao pai? Será ele o responsável? Será ele a sombra que Lyla vê e diz que as persegue? Não é assim tão simples e linear.
A charneca, que poderia ser um local paradisíaco, surge como sombrio, quase demoníaco, para o que contribuem os animais mortos que vão surgindo, sem olhos, por exemplo os pássaros que Lyla dispõe por padrões.
Ao longo da história vamos assistindo ao abrir da cortina da memória de Katherine, tentando ligar as peças deste enigmático e sombrio puzzle, até conseguirmos vislumbrar o seu sentido. Mas é mesmo até ao fim, porque este é realmente inesperado. Qualquer suspeita que possamos ter ponderado, cai por terra.

Deixo o convite para entrarem nesta descoberta com a leitura do livro A Menina do Bosque de S. K. Tremayne, que é a minha sugestão de leitura, eu que sou a Célia Gil.


domingo, 21 de junho de 2020

A Mulher de Cabelo Ruivo, Orhan Pamuk

Célia Gil

Pamuk, Orhan (2018). A Mulher de Cabelo Ruivo.  Barcarena: Editorial Presença.
Nº de páginas: 248
Leitura iniciada no dia 16/06
Leitura Terminada no dia 21/06

A Mulher de Cabelo Ruivo é um livro escrito pelo turco Orhan Pamuk e muito bem traduzido por António Sousa Ribeiro. Muito ao jeito do Pamuk, é um livro que não me deixou indiferente, porque me fez pensar, refletir, ponderar o valor das coisas e da vida.
O narrador deste livro é um jovem que tinha o desejo de ser escritor.
Os pais discutiam frequentemente e o pai, que tinha uma farmácia praticamente falida, metia-se em sarilhos com os amigos esquerdistas e, de vez em quando, desaparecia por alguns dias. Até que um dia, desapareceu para sempre, detido por envolvimento em atividades políticas subversivas.
O jovem acaba por se mudar, com a mãe, para casa de uma tia materna de Gebze, onde ele iria trabalhar como guarda do pomar de fruta do marido da tia. Perto do local, viu um escavador de poços que, após escavar um poço perto do terreno onde ele iria guardar o pomar, vendo-o tão interessado, propôs-lhe que fosse trabalhar com ele como aprendiz e que ganharia muito mais.
O jovem, ignorando a repreensão da mãe, que achava que ele devia ir para a Universidade, acabou por ir trabalhar com o escavador, Mahmut, e partiu com ele.
Durante o trabalho, os dois vão começando a aproximar-se. Mahmut revela-se um bom mestre e vai-lhe transmitindo alguns ensinamentos de vida, através de histórias que vai contando. Porém, o jovem sente-se cada vez mais desiludido por não conseguirem encontrar água e pondera por várias vezes desistir do trabalho e abandonar o mestre. Acaba por não se ir embora por causa de uma mulher de cabelo ruivo, com o dobro da sua idade e artista de circo, por quem fica fascinado e com quem acaba por se envolver, ainda que ela seja casada.
Porém, tal como ela surgiu na sua vida, assim acaba um dia por desaparecer, se bem que não do seu pensamento.
Num determinado momento, enquanto trabalhava, o jovem não entendendo como, deixou cair um balde cheio de terra em cima do mestre, o que não poderia acontecer, havia-o prevenido o mestre, pois poderia matá-lo. O que é certo é que ouviu, vindo do poço já bem fundo, um gemido e depois silêncio total. Convencido de que teria matado o mestre, fugiu dali e regressou a casa, sempre com medo de ser preso, a qualquer momento. Regressa à livraria onde trabalhara, acaba por conseguir tirar um curso universitário e ser um homem de sucesso. Casa-se com uma bela mulher, da qual não consegue ter filhos.
O sentimento de culpa e a ideia de que mais tarde ou mais cedo teria de expiar os seus pecados, nunca lhe saem da cabeça. Não se esquece do mestre nem da mulher do cabelo ruivo.
Mais tarde, decide voltar a Öngören, onde abandonara o mestre. Gostaria de saber que destino teria ele tido e o que acontecera à mulher de cabelo ruivo. Queria ainda saber que segredos guardara o pai e de que forma conhecera também esta enigmática mulher.

sábado, 13 de junho de 2020

A Fábrica de Bonecas, Elizabeth Macneal

Célia Gil

Macneal, Elizabeth (2019). A Fábrica de Bonecas. Amadora: Topseller.
384 páginas
Leitura iniciada em 08-06-2020                
Leitura terminada em 13-06-2020

A Fábrica de Bonecas é um livro escrito por Elizabeth Macneal e traduzido por Eugénia Antunes. É, sem dúvida, um livro perturbador, que me fez lembrar O Perfume de Patrick SusKind, pela psicopatia de Silas, pela morbidez da personagem viciada em seres com defeitos. Não absorvia aromas, mas embalsamava essas criaturas defeituosas, como no caso de um cão com duas cabeças. Bem escrito, de leitura fluída, para o que contribuem os capítulos pequenos.
Por outro lado, acompanhamos a história de Íris, que vai inevitavelmente cruzar-se com a de Silas. Íris e a sua irmã gémea, Rose, trabalham numa loja de bonecas, onde a patroa as escraviza e maltrata. Vivem numa espécie de submundo. Mas Íris, contrariamente à irmã, não se acomoda a essa vida, gosta de pintar e sonha com uma vida melhor.
Íris é convidada por um pintor pré-rafaelista, Louis Frost, a posar para ele, a ser a rainha do seu quadro. Ela acaba por alugar um quarto e, disposta a deixar para trás a vida miserável que tinha, ainda que contra a vontade da irmã, acaba por aceitar posar para Louis. Em troca, ele oferece-se por a ensinar a pintar. Acabam por se envolver.
O que ela não sabe é que não é apenas a “rainha de Louis”, mas passa a constituir a obsessão de Silas, que, mesmo procurando, não encontra em nenhuma outra mulher, o que vê em Íris. Persegue-a ao longe, sabe todos os seus passos e prepara-se para a prender só para si e para sempre. Acredita que ela no fundo também o ama, porque concebe uma relação na sua cabeça.
Depois, há outras personagens que não nos deixam indiferentes, as crianças de rua famintas, o jovem Albie, que arranjava os cachorros e outros animais a Silas em troco de uma moedas e que, infeliz com a sua boca sem dentes, juntava dinheiro para arranjar uma dentadura, mas que, quando Íris lhe dá dinheiro por ter posado para um retrato de Louis, pensa primeiro em ajudar a irmã, perdida num mundo sórdido de prostituição.
No momento em que Louis decide visitar a mulher, que já não vive com ele, mas que lhe escreve porque o quer ver antes de morrer, Íris é atraída por uma carta falsa, escrita a pedido de Silas, a dizer que a sua irmã teve um acidente. Tudo para a atrair e raptar. Até onde irá a sua mórbida obsessão?
Drama, thriller, romance, este é um livro que envolve um pouco de vários géneros, num estilo gótico e sombrio, que não deixará ninguém indiferente.

                                                                               Célia Gil

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Ao Fechar a Porta, B. A. Paris

Célia Gil

Paris, B.A. (2017). Ao Fechar a Porta. Barcarena: Editorial Presença.
264 páginas
Leitura iniciada em 05-06-2020
Leitura terminada em 07-06-2020

Ao Fechar a Porta é um livro escrito por B. A. Paris e traduzido por Marta Mendonça. Achei logo curioso o facto de termos como narradora a protagonista do livro, Grace, sendo que só sabemos aquilo que ela nos vai revelando, o que suscita uma curiosidade crescente.
Grace, inicialmente, aparenta ser uma mulher, como há tantas, sem vontade própria, presa numa vida de fachada e numa relação machista, na qual se subordina inteiramente aos desejos e ordens do marido, Jack, que quer que ela seja a esposa perfeita, obediente aos seus caprichos. Apesar de não aparentar ser muito feliz, compactua com ele, afirmando-se feliz e apaixonada. Entretanto, terá deixado de trabalhar a pedido dele, não tem telemóvel, o que deixa a sua nova amiga de circunstância, Esther, provavelmente a sua única amiga verdadeira, bastante intrigada.
Surgem, no entanto, aos olhos dos amigos de Jack como um casal perfeito. Só à medida que Grace nos vai narrando os acontecimentos, é que percebemos as verdadeiras razões desta relação, que é muito mais do que asfixiante, é completamente arrebatadora e perturbadora.
Grace ter-se-á apaixonado por Jack quando, certo dia, estando num parque com a irmã, Millie (com síndrome de Down), esta começa a dançar sozinha e Jack aproxima-se e dança com ela. O facto de ter a irmã, rejeitada pelos pais, a seu cargo, era sempre um fator de afastamento por parte dos anteriores namorados, uma vez que não queriam uma relação com a responsabilidade de tomar conta de alguém assim. Quando Jack cativa Millie e mostra gostar dela e importar-se com ela, Grace constata que encontrou o homem dos seus sonhos.
Mas existirá a perfeição?
A partir do dia do seu casamento, tudo se irá alterar, pois é aqui que começa a verdadeira história de Grace e Jack.
Imprevisível, viciante e de leitura compulsiva, assim é Ao Fechar a Porta de B. A. Paris, que constitui a minha sugestão de leitura para esta semana, eu que sou a Célia Gil.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Restos Mortais Perfeitos, Helen Fields

Célia Gil

Fields, Helen (2020). Restos Mortais Perfeitos. Amadora: TopSeller.

400 páginas
Leitura iniciada em 01-06-2020
Leitura terminada em 04-06-2020


     Restos Mortais Perfeitos é um livro de Helen Fields, traduzido por Carmo Vasconcelos Romão. Um thriller de cortar a respiração, viciante e repleto de ação.
     Tudo começa com um corpo carbonizado, que é encontrado numa cordilheira remota do leste da Escócia. Os dentes encontrados, bem como um pedaço de roupa, apontam para que este corpo seja o de Elaine Buxton, uma conceituada advogada.
     Luc Callanach sai da Interpol francesa para integrar uma equipa de polícias de Edimburgo, no departamento de homicídios. Luc revela-se uma pessoa fechada, não revelando nada em relação ao seu passado e ao que o terá conduzido àquele cargo. Percebe-se que esconde traumas que o terão marcado para toda a vida. Procura, agora, resolver este confuso caso com sucesso para ganhar o respeito e a confiança da nova equipa, que estranha o facto de ele ter descido tanto de posto. Ava é uma polícia respeitada que se torna amiga e confidente de Callanach. Partilham os seus casos e trocam opiniões. Ela estará a tentar descobrir o que levou algumas jovens a abandonar os recém-nascidos, dois deles já mortos.
     As pistas do crime são escassas e tudo se precipita com o desaparecimento de uma outra mulher, Jayne Magee, uma reverenda muito conceituada na Igreja Católica. Mais tarde, é encontrado também o corpo de Jayne. Tudo aponta para que seja o mesmo homicida, mas porquê estas mulheres? Duas mulheres inteligentes. O que o levaria a raptá-las e a matá-las? Se é que as matava…
     E mais não digo. Terão mesmo de descobrir e seguir no encalço deste assassino para deslindar com Callanach estes crimes hediondos. Restos Mortais Perfeitos de Helen Fields é a minha sugestão de leitura para esta semana, eu que sou a Célia Gil.

sábado, 30 de maio de 2020

As Histórias Que Não Se contam, Susana Piedade

Célia Gil

Piedade, Susana (2016). As Histórias Que Não Se Contam. Alfragide: Oficina do Livro.
Páginas: 344
Leitura iniciada em 26-05-2020
Leitura terminada em 29-05-2020


    As Histórias Que Não Se Contam é um romance de Susana Piedade, finalista do Prémio LeYa.
    Com constantes diálogos e monólogos, as personagens irrompem pela história, dominando-a com a sua força e personalidade. Imparável, até mesmo quando refletem sobre as suas próprias vidas. O ideal é lê-lo de seguida, ou corremos o risco de nos perder e de termos de voltar atrás para nos voltarmos a situar.

    Três mulheres. Cada uma com o seu problema/dilema de vida.
    Ana perdeu o companheiro para uma doença que o levou demasiado cedo e de forma inesperada. Está afundada no seu luto e na sua tristeza.
    Isabel perdeu o filho, atropelado à saída do infantário, num dia de chuva. Mergulha numa depressão profunda e culpabiliza-se por ter chegado atrasada ao infantário.
    Marta é vítima de violência doméstica. Passa anos a ser a “Jerry” numa relação com “Tom”, que lhe absorve a vida. Sempre a ter de medir gestos, palavras, horários. Sem poder ter vida própria, amigas. Controlada ao máximo. E, ainda assim, espancada diariamente. Sempre a dar mais uma hipótese a quem julga ainda amar, mesmo quando descobre a arma que ele guarda numa caixa. Ou um ou outro, não é o que sempre acontece nestas situações?
    Há um momento em que as vidas destas três vítimas se cruzam e os problemas unem-nas e tornam-nas mais fortes. E mais não digo, porque são histórias que não se contam, mas que surpreendem!
                                                                                            Célia Gil

terça-feira, 26 de maio de 2020

Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa

Célia Gil

Schmitt, Eric-Emmanuel (2013). Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa. Barcarena: Marcador.
Páginas: 104
Leitura iniciada em 25-05-2020
Leitura terminada em 25-05-2020

Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa é um livro escrito por Eric-Emmanuel Schmitt, traduzido por Ivone de Moura e Lídia Franco. É um livro enternecedor, que nos comove e, ao mesmo tempo, transmite uma mensagem dura de uma forma tão suave que a dor é amenizada e, muitas vezes, damos por nós a sorrir.
Óscar é um menino de dez anos, que sofre de uma doença terminal oncológica e a cuja vida, uma senhora de idade, de bata-cor-de-rosa, que faz voluntariado na ala pediátrica, enriquece, dando-lhe mais sentido e amenizando-a. São muito interessantes as conversas entre eles.
Óscar reage mal com os pais, porque não lhe falam do problema dele, optando por lhe levar presentes e entreterem-se com eles, em vez de conversarem sobre as suas dores e dúvidas. Revolta-se mesmo com eles, não entende que a dor deles não lhes permite falar sobre o assunto. A Senhora Cor-de-Rosa, a quem chama de vovó, é a única que o ouve, que lhe faz propostas boas que lhe permitem viver o melhor possível o tempo que ainda tem de vida. Explica-lhe muitas coisas. Conta-lhe histórias dos tempos em que seria lutadora de Wrestling. Aconselha-o a escrever a Deus, o que ele inicialmente recusa, acabando por aceitar. São estas cartas a Deus, nas quais pode fazer um pedido por dia, que nada tem de material, mas de interior, que temos a oportunidade de ler, de saber tudo o que lhe vai na alma.
E quando Óscar pensa que gostaria de fazer algo, mas que não deve, não pode, a Senhora Cor-de-Rosa lá está para desmistificar tudo e desmistificar até a sua própria idade. A idade que temos pode ser a correspondente à que vivemos e não à que realmente temos e que a vida deve ser encarada como um presente. Uma lição de vida que convido todos a lerem e a aprenderem com ela. Como eu gostaria de ter uma Senhora Cor-de-Rosa na minha vida!
                                                                                                              Célia Gil

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Eva, Arturo Pérez-Reverte

Célia Gil

Pérez-Reverte, Arturo (2018). Eva. Alfragide: Edições ASA.
368 páginas
Início da leitura: 22/05/2020
Fim da leitura: 25/05/2020


Eva é um livro escrito por Arturo Pérez-Reverte, traduzido por Cristina Rodriguez e Artur Guerra. É um policial, repleto de ação.
Tudo se inicia em Lisboa, com a frase de Falcó, e passo a citar “Não quero que me mate esta noite, pensou Lorenzo Falcó. Desta maneira não.” O leitor fica irremediavelmente preso e tem todo o interesse em saber quem persegue Falcó e porque o pretende matar. Tudo acontece num ritmo rápido, estilo cinematográfico. Atrás de si, passos soavam cada vez mais próximos e, ainda antes de conhecermos a personagem, já sofremos com ela. O coração pulsa mais rápido, à medida que se aproximam. Todo o itinerário decorre em Lisboa, desde o café Martinho da Arcada, o teatro Éden, ao restaurante do Hotel Avenida Palace, entre tantos outros espaços que vamos reconhecendo.
Não é, no entanto, um romance histórico, Pérez descreve-o como “um romance policial negro de espiões situado nos anos 1930-40 e com uma abordagem nova.”
Falcó é o ex traficante de armas, agente secreto ao serviço do franquismo, sedutor, bonito, elegante, bem-educado, cínico, machista, violento e cruel, com um grande sentido de humor e despudor. É o estilo lobo manhoso e inteligente, o que lhe permite sobreviver num meio hostil. Um vilão honrado, que nos vai surpreendendo à medida que a intriga avança, que ama a aventura pela aventura, as mulheres pelas mulheres, o risco pelo risco.
Eva é uma mulher fatal, espia soviética, comunista, obediente a Estaline.
Estamos em 1937 e Falcó tem de se apoderar de 30 toneladas de barras de ouro do banco de Espanha, guardadas num navio com destino à Rússia.
Falcó e Eva parecem viver uma relação escaldante, um franquista e uma espiã soviética, que não se encaixa no seu perfil de relacionamento com mulheres, mas a única a quem é leal e ama. São eles os sobreviventes que regressam a Salamanca.
E mais não digo. Terão de descobrir todos este tramas e vigarices com a leitura de Eva de Arturo Pérez-Reverte.
                                                                                                                     Célia Gil

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O Segredo da Minha Irmã, Diane Chamberlain

Célia Gil
Chamberlain, Diane (2015). O Segredo da Minha Irmã. Braga: TopSeller.
384 páginas
Início da leitura: 18/05/2020
Fim da leitura: 21/05/2020


O Segredo da Minha Irmã é um livro com uma capa belíssima, escrito por Diane Chamberlain, traduzido por Maria do Carmo Figueira. É um livro que nos prende desde a primeira página, em que a ação decorre, com efeito, a um ritmo surpreendente, sem momentos mortos e, por isso mesmo, foi possível, em 4 dias, ao deitar, ler as suas 384 páginas.  
Riley, após a morte do pai, regressa a casa dos pais, para organizar, dividir e vender os bens. Depois da leitura do testamento, apercebe-se que o pai tem outros herdeiros. Começa então a descobrir que nada sabia sobre a sua família. Desconhecia que o pai vivia com a suposta melhor amiga da mãe, desconhecia as circunstâncias do suicídio da irmã, quando ela tinha ainda dois anos, ou até mesmo se se tinha suicidado, desconhecia que era adotada. Tantas vão sendo as revelações ao longo da história, que vai ser impossível não pensar sempre “vou ler só mais um capítulo!”.
Até personagens como a amiga da mãe, Jeannie, nos vai surpreendendo e prendendo ao longo da história. No início, é difícil simpatizar com ela, porque Riley também não gosta dela e ela surge de rompante na sua vida, intrometendo-se e invadindo a casa, como se fosse dela (ainda). Acontece que Riley desconhece o que está por trás das atitudes de Jeannie, o que esconde, porque tem determinadas atitudes que ela não compreende e não gosta. Outras personagens, com quem Riley simpatiza inicialmente, tal como Verniece Kyle, esposa de Tom, acabam por surpreender pela negativa, o que nos mostra que “quem vê caras não vê corações”. 
A partir da segunda parte do livro, capítulo 17, vão sendo narradas quase alternadamente as histórias de Riley e do irmão Danny e a de Lisa, agora Jade, o que torna ainda mais estimulante a leitura, pois, quando queremos saber como acaba um determinado episódio, surge a outra personagem, também ela com uma história que nos prende e, só no fim de cada história, é retomada a outra. É, portanto, impossível não ficar preso ao livro.
Aconselho vivamente a descobrir O Segredo da Minha Irmã de Diane Chamberlain com a leitura deste livro magnífico.

terça-feira, 19 de maio de 2020

O Teu Olhar Ilumina o Mundo, Susana Tamaro

Célia Gil

Tamaro, Susana (2019). O Teu Olhar Ilumina o Mundo. Barcarena: Editorial Presença
Nº de páginas: 136
Início da leitura: 10 de maio de 2020.
Fim da leitura: 17 de maio de 2020.

O Teu Olhar ilumina o Mundo é o mais recente livro de Susana Tamaro, traduzido por Maria Mercês Peixoto. É um livro que surge da promessa que fez com o poeta Pierluigi Cappello, antes da morte deste, de escreverem um livro em conjunto.
Neste livro, Susana Tamaro relembra os momentos passados com Pierluigi, a amizade que existiu sempre e que serviu de amparo nos momentos menos bons. Ambos incapacitados, Pierluigi fisicamente, desde um acidente que o deixara confinado a uma cadeira de rodas e Susana, cujo distúrbio neurológico, a síndrome de Bordeline, lhe criou uma invalidez mental e social, com a qual teve de se habituar a viver, a sua “cadeira de rodas invisível”, como ela lhe chama. É um livro que fala do direito à diferença, dos mistérios do amor, da vida e da morte e da escrita, elo de ligação entre os dois escritores.
É impossível, ao ler este livro, fazê-lo a um ritmo apressado. Sente-se a necessidade de saborear as palavras e a mensagem transmitida, pois cada frase nos faz pensar e partilhar com a autora desta dor que pautou principalmente a sua infância e adolescência. É assim que temos conhecimento das suas vivências terríveis com a mãe, que a ignorava e com o padrasto cruel e passo a citar um exemplo “Vivia na violência, no ódio, ninguém se importava comigo”. Estas partilhas em jeito de confissão, vão sendo intercaladas com poemas de Pierluigi, numa linguagem delicada, sincera e despojada. Se já antes admirava a escritora e a sua capacidade de exprimir sentimentos, emoções, de nos remeter para os espaços referidos através de descrições belíssimas, fiquei, sem dúvida, a admirá-la ainda mais. E esta caixinha de surpresas é equiparável à casinha de madeira mágica onde escreve, no bosque.
Não posso deixar de mencionar um excerto com que me identifico particularmente, em que a autora explica como foi recebido um dos seus livros de referência, que eu adorei, e passo a citar: “Quando saiu Vai Aonde Leva o Coração, a coisa que mais me impressionou foram as reações pálidas que suscitava nas elites culturais a palavra «coração». O livro era considerado lixo cultural, coisa para pessoas ignorantes fáceis de enganar, trivialidades… Agora já não me surpreendo. A remoção da alma e a remoção do coração são a mesma coisa. A nossa identidade deve estar toda concentrada na cabeça e nos genitais; no meio não deve haver nada.” (pág. 57).
                                                                                             Célia Gil



sexta-feira, 15 de maio de 2020

O Céu Numa Gaiola, Christine Leunens

Célia Gil

Leunens, Christine (2020). O Céu Numa Gaiola.  Barcarena: Editorial Presença.
Nº de páginas: 272
Leitura iniciada no dia 10/05
Leitura Terminada no dia 14/05

O Céu numa Gaiola é um livro de Christine Leunens, traduzido por Manuela Madureira. É um livro que se lê muito bem, mas que nos faz sentir uma crescente raiva pelo desprezível protagonista, um jovem austríaco fanático da Juventude Hitleriana.
O livro começa por abordar a temática da lavagem cerebral que a escola fazia às crianças e jovens, antes da II Guerra. Cedo estes jovens proclamavam a ideologia nazi de forma absolutamente fanática, ignorando os valores humanos que deviam ser os pilares da sua formação enquanto cidadãos.
O narrador é um destes jovens, Johannes, que, ferido num ataque aéreo, se vê obrigado a confinar-se em casa dos pais, em Viena. Aqui, acaba por descobrir que os pais escondem ilegalmente, no sótão, atrás de uma falsa parede, uma mulher judia. Na forma como fora educado para os ideais nazis, Johannes sente imediatamente uma repulsa por esta mulher. Acaba por se lembrar que ela era Elsa, a professora de violino da irmã, que frequentava a casa. Sentiu-se traído pelos pais, pelo facto de esconderem uma judia. Mas, com o passar do tempo, vai começando a sentir-se obcecado por ela.
Os pais desaparecem sem ele saber para onde e ele fica com a avó e encarrega-se de cuidar de Elsa.
Esperava eu, aqui, que Johannes mudasse, porque o amor é capaz das mais incríveis mudanças no ser humano. Mas não foi o que aconteceu. Este protagonista narrador é um rapaz frio e cruel, egoísta e maquiavélico.
Quando a guerra termina cá fora, continua uma guerra lá dentro, pois Johannes apossa-se de Elsa, tornando-se dominador, absurdamente ciumento, como se ela fosse um objeto que lhe pertencesse e que ele estimava de forma obsessiva, impedindo-a inclusive de exercer o direito à sua liberdade. Vários foram os momentos em que ele poderia ter-se redimido. Mas, sempre que ela lhe pedia para fugir, ele impedia-a, mantendo-a enclausurada.
                                                                                                                    Célia Gil

domingo, 10 de maio de 2020

A Vida Secreta das Abelhas, Sue Monk Kidd

Célia Gil

Kidd, Sue Monk (2005). A Vida Secreta das Abelhas. Porto: Asa Editores, S.A.
288 páginas
Leitura iniciada em: 05/05/2020
Leitura terminada em: 09/05/2020



A Vida Secreta das Abelhas é um romance escrito pela americana Sue Monk Kidd e traduzido por Teresa Curvelo.
É um livro que nos faz pensar, nos comove, que se pode considerar um louvor à vida, à amizade, à família (ainda que esta possa não ser a de sangue) e a Deus (este visto numa faceta feminina). Muito bem escrito, com força e vitalidade que nos prendem à narrativa desde o início.
Neste livro, a protagonista é Lily, que, com 14 anos, vive com o pai, a quem chama T. Ray, uma pessoa violenta e autoritária que, à mínima desobediência dela, a castiga, fazendo-a estar ajoelhada, pelo menos durante duas horas, sobre milho, até não poder suportar a dor e ficar com marcas terríveis. Lily tem consciência de que ele a odeia e sente sempre o peso da culpa a impedi-la de ser feliz. Um episódio tê-la-á marcado para sempre: tinha 2 anos quando viu a mãe sair do roupeiro, onde estava a tirar roupa para colocar numa mala, com uma arma na mão a ameaçar o pai. Este fez com que ela largasse a arma e foi Lily que lhe pegou e, sem querer, disparou e matou a mãe. Esse incidente deveria estar na origem daquele ódio que o pai nutria por ela. Lily tem apenas uma amiga, a Rosaleen, uma criada negra, de semblante duro, mas coração de manteiga. Tudo se passa na década de 60. E quando Rosaleen vai tentar exercer o seu recém-ganho direito de voto, é presa e espancada. Lily, que vive atemorizada pelo pai, resolve fugir para Tiburon, C.S., local que a mãe registara no verso de uma fotografia da Virgem Negra. Acaba por ir dar a uma casa cor-de-rosa, onde vivem três irmãs negras que a acolhem e que lhe ensinam a cuidar de abelhas. São devotas da Mãe Negra e organizam festas em sua honra. É no seio desta família que Lily vai tentar recuperar o seu equilíbrio interior, encontrar o amor que não teve até àquela data, até se sentir realmente em família e amada.
Mas Lily sabe que é inevitável, mais cedo ou mais tarde, contar tudo a August, a dona da casa. Tem a esperança de August ter conhecido a sua mãe e precisava de saber se a mãe a tinha amado ou se devia acreditar no que não queria e que o pai lhe dissera: a sua mãe tinha-os abandonado. Estas e muitas outras questões, os rituais religiosos em torno da Mãe Negra, a história da chegada ali desta Mãe Negra, a morte de duas das irmãs de August, a relação entre a vida das abelhas e a de Lily, são acontecimentos que poderá acompanhar e compreender ao ler este livro maravilhoso.
                                                                                           Célia Gil

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A Aluna Americana, João Pedro Marques

Célia Gil

Marques, João Pedro (2019). A Aluna Americana. Porto: Porto Editora


288 páginas
Leitura iniciada em 01-05-2020
Leitura terminada em 04-05-2020

A Aluna Americana é um livro de João Pedro Marques, autor de Uma Fazenda em África, a sua obra mais conhecida. Bem escrito, com um ritmo rápido e ações constantes que nem deixam respirar.
A história decorre em 1968, quando Isabel Botelho, uma estudante de românicas recém-chegada dos Estados Unidos da América, começa a assistir às aulas de um professor universitário de História, de meia idade, José Duarte de Sousa. Este fica encantado com esta aluna americana, que o questiona e o desperta da monotonia do seu dia-a-dia de docência, e que o terá levado a investir mais nas suas aulas, num maior cuidado na sua preparação, aulas que eram claramente dadas para ela. É assim que nasce uma relação fogosa entre ambos, despertando este professor para a existência, passando a preocupar-se com aspetos, mesmo em termos de aparência, a que antes não dava valor. Mas este não é um romance linear. Enquanto o professor se apaixona irremediavelmente por Isabel, esta, pássaro livre sem pousio, não se conforma com uma relação de posse, que tenderia, mais tarde ou mais cedo, por cair na rotina e tornar-se monótona. Ela quer viver. Mas, como lhe é dito mais tarde por Nara, uma intuitiva mulher de uma aldeia africana por onde viaja, “A sede de viver tem sempre homens no fundo do copo”. Isabel sempre teve essa sede de viver, conhecer o mundo, conhecer-se a si mesma e sempre esteve rodeada de muitos homens. Esta sua sede de viver chegava a ser, como mais tarde lhe dirá José Sousa, egocêntrica e egoísta.  Mas Isabel tinha algo que a tornava única, compadecia-se com os mais desfavorecidos, ajudava-os se pudesse, revoltava-se contra os opressores e marcava sempre a sua posição.
Este livro, porém, não se fica por aqui. Quando nos é contado o passado de Isabel, entramos no contexto histórico dos anos sessenta nos Estados Unidos, onde se viveu intensamente a liberalização dos costumes, o sexo, droga e rock n’roll, dos festivais de música, da libertação da mulher e da contestação dos valores tradicionais. Em Portugal, depositam-se esperanças no governo de Marcelo Caetano, mas as vivências de Isabel, a figura libertina que representava intensificam a admiração de José Sousa por ela.
Mas estaria José Sousa disposto a aceitá-la sempre nos seus regressos, depois de longos momentos de ausência, sempre acompanhada por outros homens? Até que ponto a ética e a moral dele, o desejo de estabilizar, casar com ela, aceitariam a sua maneira de ser e de viver?

sábado, 2 de maio de 2020

Mulheres Sem Nome, Martha Hall Kelly

Célia Gil
Kelly, Martha Hall (2017). Mulheres Sem Nome.  Lisboa: Minotauro.
Nº de páginas: 483
Leitura iniciada no dia 25/04
Leitura Terminada no dia 01/05

Mulheres Sem Nome é um romance escrito por Martha Hall Kelly, traduzido por Marta Neves da Cruz, a que ninguém fica indiferente. Bem escrito, poderoso e com uma história feita de várias histórias que se cruzam na perfeição. Uma história verídica, tendo em conta que duas das personagens existiram na vida real e foram representadas pela escritora, neste livro, de forma justa e realista.
Não é fácil falar de um livro quando este nos arrebata e nos deixa completamente rendidos à história e às personagens. Quando irrompemos pelas vidas delas e elas pela nossa, para nos deixar mais ricos, mais conscientes, mais despertos e com a noção de que a força de alguns só existe quando exercida sobre os mais suscetíveis. Por isso mesmo, não é força, é tirania.
Esta é a história de mulheres diferentes, no que concerne à nacionalidade, idade, personalidade e vivência, cujos caminhos acabam por se entrelaçar a dada altura da sua vida.
Caroline Ferriday é uma ex atriz socialite de Nova Iorque, que trabalha como voluntária no Consulado de França e que se dedica ainda a causas nobres, como a ajuda voluntária de crianças órfãs e, mais tarde, à causa das “Coelhas”, vítimas do Holocausto.
Kasia Kuzmerick é uma jovem, que mora na Polónia, que é levada, com a mãe e irmã para um campo de concentração. Ela e a irmã Zuzanna acabam por ser operadas no campo de concentração, com outras 62 mulheres. Nessas operações, eram-lhes introduzidas bactérias, lenha, vidro, sílica moída e outros materiais. Eram cosidas e engessadas até desenvolverem gangrena. Em seguida, eram introduzidas sulfamidas. Estas operações afetavam irremediavelmente os ossos, os músculos, o sistema gástrico e, posteriormente, o cérebro. A mãe de Kásia e Zuzanna era uma das prisioneiras enfermeiras. No meio de todos estes acontecimentos e apesar dos traumas consequentes, Kásia foi sempre o pilar da família, a força que permitiu que ela e a irmã se mantivessem sempre juntas.
Herta Oberheuser era uma ambiciosa médica alemã, que aceitou o cargo de médica do Regime Nazi e, apesar de, inicialmente, parecer reprovar tudo o que se fazia no campo de concentração, acabou por se integrar, fazendo apenas o que lhe pudesse dar alguma projeção. Foi ela que operou as “Coelhas”. No fim de tudo, foi julgada, fugindo ao enforcamento, com uma pena de 20 anos, de que só cumpriu 5 anos, retomando a medicina na Alemanha como médica de família.
Mas estas mulheres acabam por se cruzar, o que marca uma reviravolta nas suas vidas. De que forma se conheceram, em que circunstâncias? Que influência teve esse facto nas suas vidas?

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Os Imperfeitos, Cecelia Ahern

Célia Gil

Ahern, Cecelia (2017). Os Imperfeitos. Lisboa: Editorial Presença


Os imperfeitos, de Cecelia Ahern, é uma obra cuja ação decorre num futuro, em que a sociedade, depois de uma grave crise, se organizou em perfeitos e imperfeitos.
Celestine North é perfeita, tem o namorado perfeito, a família perfeita e um futuro garantidamente perfeito. Esforça-se para agradar ao namorado e futuro sogro, o juiz Crevan, que todos os dias julga, no Tribunal, pessoas como perfeitas ou imperfeitas. Tudo corre bem, até ao dia em que, a caminho da escola, numa viagem de autocarro, com a irmã e o namorado, Celestine se questiona como pode ser perfeito alguém que não pode ajudar um imperfeito a precisar urgentemente de ajuda. Compadece-se de um senhor imperfeito, que se está a sentir mal e, pelo facto de o ajudar a sentar-se, é levada a Tribunal.
O juiz Crevan promete-lhe que correrá tudo bem, porque ela vai negar que ajudou um imperfeito e será ilibada. Porém, durante o julgamento, Celestine é incapaz de mentir e acaba por confessar que ajudou o imperfeito.
Como todos os imperfeitos, e para dar o exemplo, Celestine é marcada como imperfeita, com tatuagens, com que os costumavam marcar. Cada parte do corpo que é tatuada tem um significado condizente com o crime cometido. Porém, o juiz, despeitado pela insubordinação de Celestine, decide puni-la marcando-a com mais tatuagens que algum imperfeito tenha. 5 seria o máximo das tatuagens, mas nela são feitas seis, algo nunca visto. As pessoas que a viram a ser tatuada, acabam, mais tarde, por desaparecer, não podendo interceder a seu favor. E Carrick que também viu, antes de ela ir para casa, disse-lhe que ainda se iriam encontrar. É ele a única esperança de Celestine para provar que o juiz fez algo de proibido.
Tudo se desmorona, até na escola, onde era uma aluna perfeita, uma vez que passa a ser rejeitada nas aulas pelos professores, a ser gozada e ignorada pelos colegas, como se tivesse sarna. Ela começa à procura das pessoas que pudessem ter visto o momento em que foi marcada, mas não encontra ninguém, nem mesmo Carrick.
Aos poucos Celestine percebe, que mesmo sem qualquer intenção, tornou-se uma espécie de símbolo para todos os imperfeitos, porque a sua atitude em Tribunal, não dizendo exatamente o que o seu futuro sogro queria ouvir, deu coragem a muitos, que passaram a vê-la como um rosto para uma possível revolução.
Conseguirá Celestine voltar a ter uma vida minimamente normal, mesmo sendo imperfeita? Conseguirá ela reencontrar Carrick?
Penso que tiramos deste livro uma grande lição: as pessoas estão cada vez mais a agir por si e a pensar apenas em si, não se importando com os outros. E, muitas vezes, quem ajuda, acaba por ser mal-interpretado e julgado.
                                                                                  Célia Gil

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A Mãe, Melanie Golding

Célia Gil

Golding, Melanie (2019). A Mãe. Lisboa: Planeta Manuscrito.
Nº de páginas: 327

A Mãe é um livro escrito por Melanie Golding e traduzido por Mário Dias Correia. A história tem início com Lauren, que se encontra na maternidade, a ter os seus gémeos, Morgan e Riley. Confesso que este momento não me prendeu de imediato ao livro, pois revelou-se um pouco repetitivo. Porém, foi-se tornando cada vez mais envolvente, acabando por se revelar um thriller arrebatador.
Ainda na maternidade, Lauren encontra uma mulher, também ela com gémeos, que lhe quer roubar os filhos. Mas ela tudo faz para proteger os proteger e impedir que alguém lhos roube. Fecha-se na casa de banho, de onde telefona a pedir ajuda. Mas ninguém acredita nela. Ninguém viu aquela mulher por ela descrita. Pensam que está a ser alvo de stresse pós-parto, com tudo o que este traz de ansiedade, medo e até paranoia. O próprio marido, Patrick, acredita que seja apenas ansiedade e cansaço.
Já em casa, Patrick, ao aperceber-se de que Lauren não está bem, não cuida da casa, tranca-se a sete chaves, não quer nada aberto para o exterior, sugere-lhe que saia, que vá estar com as amigas, porque lhe iria fazer bem e poderia fazê-la perceber que não havia razões para aquelas paranoias. Apesar de contrariada, Lauren acaba por aceder e ir ter com as suas amigas, levando os seus bebés. No regresso para casa, sente-se mal, resolve parar e sentar-se com os bebés num banco de jardim. Mas, no seu estado de exaustão, acaba por adormecer e, quando acorda, os bebés já lá não estão. A partir daqui, sentimo-nos completamente presos à história, na tentativa de descobrir se é Lauren que não está bem ou se há mesmo alguém que lhe raptou os filhos. Realço aqui a antipatia que senti para com o marido, que sabia apenas exigir dela, ia dormir para outro quarto não a ajudando com as crianças, pensando apenas no seu bem-estar, não acreditava nela e, ainda por cima, andara envolvido com outra mulher. Mulher essa que encontra os bebés no rio. Quando Lauren observa os bebés, apercebe-se de que aqueles não são os seus filhos, mas os da mulher que tentou raptar os seus, se bem que a aparência com os seus filhos seja óbvia. Senti uma grande ansiedade e sensação de injustiça, por ninguém acreditar nela.
Lauren pensa que, devolvendo aqueles ao rio, encontrará os seus. Acaba por ser detida e internada numa clínica de saúde mental. A partir daí, assistimos com uma grande angústia a todas as tentativas de Lauren para sair dali e ir salvar os seus filhos, a repulsa por estas falsas crianças que, quando as enfermeiras não estavam ou adormeciam, cantavam e falavam, embora ainda só tivessem 4/5 semanas de vida. Repulsa essa que Lauren teve de combater, fingindo aceitar que eram os seus filhos até lhe ser dada alta.
Um conto de fadas aterrorizador, que nos domina, que termina de forma inesperada, pelo que ficamos durante um tempo a pensar no que lemos, no que de facto aconteceu. A questionarmo-nos…
A Mãe, de Melanie Golding é a minha sugestão de leitura para esta semana, eu que sou a Célia Gil. Aconselho a que prepare bem o coração, porque as emoções vão ser mais que muitas!

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Os Inocentes, David Baldacci

Célia Gil

Baldacci, David (2013). Os Inocentes. Lisboa: Clube do Autor.



    Os Inocentes é um romance policial escrito por David Baldacci, um escritor que nasceu na Virgínia e foi traduzido por Maria Dulce Guimarães da Costa.
    Este é um livro de 433 páginas, que nos deixa sem fôlego, em que a ação se apresenta a um ritmo alucinante, envolvente, viciante, de leitura fácil e com uma generosa dose de suspense, que nos surpreende até ao fim, fim este totalmente e surpreendentemente imprevisível.
    Robie, a personagem principal, é um assassino profissional oficial do governo americano, profissional e eficiente, atendendo ao sucesso de todas as suas missões.  Porém, quando lhe entregam a missão de matar uma mãe e os dois filhos, sente que há algo que não está bem, que é diferente das outras missões e não consegue matar. Alguém que vigia a missão, mata por ele, com um único tiro, cuja bala entra pela janela e atinge a mãe e um dos filhos. Sabe que, ao não cumprir a missão, será ele também um alvo a abater. Depois de deixar a outra criança à porta de uma vizinha do prédio onde foi cometido o crime, ao fugir da cena do crime, Robie cruza-se, num autocarro armadilhado, com uma adolescente em fuga. Julie é uma adolescente muito inteligente, sobredotada, cujos pais foram assassinados, estando ela agora em perigo. Robie salva-a de um perseguidor e decide ajudá-la a descobrir a verdade sobre os pais. Entre eles vai crescendo uma amizade, que nos permite ver que Robie não é um simples assassino, é protetor e tudo faz para manter Julie em segurança.
    Interessa-se pelo caso da jovem, iniciando uma investigação que envolve as mais altas esferas do poder numa conspiração política internacional. Começa a sentir-se responsável pela sua segurança, se bem que a jovem queira estar sempre a par das investigações. 

    Haverá alguma ligação entre os casos de Julie e Robie?

    Juntamo-nos a eles e a duas mulheres que se cruzam na sua vida: Anne Lambert, que trabalhava na Casa Branca e Nicole Vance, uma agente especial do FBI. Alvos de várias ciladas, seguimos estas personagens e sentimos com elas o medo e a incerteza durante as várias etapas da investigação.

Título: Os Inocentes
Autor: David Baldacci
N.º de páginas: 433
Editora: Clube do Autor

sexta-feira, 27 de março de 2020

Sangue Frio, Robert Bryndza

Célia Gil

Bryndza, Robert (2018). Sangue Frio. Loures: Alma dos Livros.


Nº de páginas: 318

Sangue Frio é o quinto livro da série Érika Foster, de Robert Bryndza, traduzido por Ana Lourenço. Mais um thriller que se lê ininterruptamente, alternando entre a investigação da equipa de Erika Foster e a história de dois assassinos cruéis.

A ação inicia-se com a descoberta de dois corpos, cortados e acondicionados dentro de malas de viagem. Apesar de não terem sido encontradas no mesmo local, os corpos tinham, de alguma forma, uma ligação, pois tinham sido acondicionados da mesma maneira e, diga-se de passagem, dificilmente um crime exatamente igual poderia ser atribuído a diferentes assassinos.

Nina, uma jovem ingénua e inexperiente, conhece Max numa loja de fish & chips e sente-se atraída por ele, fazendo tudo para que aquele rapaz de cabelo loiro comprido e bonito olhe para ela. Maldito o dia em que ele resolve aproximar-se dela e a envolve nos seus esquemas (venda de droga, relacionamentos estranhos…). E Nina deixa-se envolver, perdidamente apaixonada. Aos poucos, apercebe-se de que está em apuros, que ele é um criminoso, mas já está de tal maneira presa e amedrontada, que se limita a evitar que ele se zangue com ela, tentando ao máximo passar despercebida. Mas Max envolve-a nos seus crimes e torna-a a ela também numa criminosa.
Cabe à equipa de Érika deslindar esta situação.

Quando os criminosos raptam duas crianças, as filhas gémeas de um colega de Érika, tudo fazem para resolver a situação sem dano para as crianças.
Conseguirão salvar as gémeas? Max não tem nada a perder e tem as balas necessárias para matar Nina e as gémeas.

Para o descobrir, aconselho vivamente a leitura deste livro. Eu, por meu turno, continuo com a clara certeza de querer descobrir todos os livros deste escritor. Mesmo não os lendo pela ordem por que foram escritos.

                                                                    Célia Gil

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