sábado, 29 de fevereiro de 2020

O Retorno, Maria Dulce Cardoso

Célia Gil
Cardoso, Dulce Maria (2012). O Retorno. Lisboa: Tinta-da-China.

Ler O Retorno de Maria Dulce Cardoso é fazer uma viagem de retorno à infância, às minhas memórias, sendo eu própria uma retornada, que voltou de Angola com apenas 5 anos, em 1975. Estive em casa com a leitura deste livro, com os hábitos, a linguagem, a cultura do país que me viu nascer. Estive com os dramas, a angústia e o medo das personagens nas quais me reconheci, ainda que mais nova. Revi-me nesta realidade de passar de uma vida tranquila, sem necessidades, para uma vida incerta, onde o Bullying assumia uma outra forma, mas era da mesma violência. Também eu voltei sem o meu pai. Voltaria? Não voltaria? Tantas incertezas, tantas dificuldades, tantos sonhos…
Este é realmente um grande livro, só o pode ser, quando nos revemos nas personagens, nas situações, deixando-nos envolver e confundir com a própria história.

Mal chegam a Portugal, Rui e a família e milhares de refugiados vêem-se obrigados a habitar por tempo indeterminado num hotel de cinco estrelas no Estoril, disponibilizado pelo Governo para receber os “retornados”. A mãe, que tinha problemas psicológicos, vê agravar-se o seu estado de saúde, ao regressar sem o marido (quem a ia mantendo mais ou menos estável) e ao deparar-se com a falta total de apoio dos parentes que residem em Portugal.

As condições de vida no hotel rapidamente se degradam devido à sobrelotação. Os hóspedes “especiais” sentem-se a viver numa colmeia ou num formigueiro. Surgem os conflitos com a direção do hotel, que emite normas cada vez mais apertadas. As chamadas de atenção tornam-se constantes. O Rui, com apenas quinze anos de idade opta por exibir uma atitude bastante hostil em relação ao meio social lisboeta.
Conseguiriam estas personagens ultrapassar os seus dramas e refazer as suas vidas? Não foi o que todos tiveram de fazer? Não baixar os braços e partir para uma luta de adaptação, inserção social, procura de trabalho e luta, luta constante para esquecer os fantasmas passados.

“No IARN as secretárias eram velhas e sujas e as cadeiras onde os retornados se sentavam quando chegava a sua vez estavam desconjuntadas, tenho a certeza que nem aguentariam um corpo pesado como o do pai. Estavam lá retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber.” (pág. 86)


                                                                                   Célia Gil

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Princípio de Karenina, Afonso Cruz

Célia Gil

Cruz, Afonso (2018). Princípio de Karenina. Lisboa: Companhia das Letras.

O Livro Princípio de Karenina, de Afonso Cruz, foi um livro que adorei. Parte do princípio de Anna Karenina (romance de Tolstoi sobre a felicidade/infelicidade, e de uma derivação anterior de Aristóteles, sobre a bondade e a maldade),  construindo-se uma história que contraria, de alguma maneira, este princípio. Nem todas as famílias felizes se parecem, nem todas as infelizes são infelizes à sua maneira, porque, e passo a citar “…a felicidade não obedece a essas regras. Estar no lugar errado pode ser fonte de felicidade (…) Disposições imperfeitas, cada uma à sua maneira, mas felizes, cada uma à sua maneira (…) As famílias felizes terão de ser imperfeitas (ou seja, diferentes umas das outras), é impossível ser feliz sem dor (…) Sem desequilíbrio, nada se move”.
A história que nos permite chegar a estas conclusões é a do narrador, que fala para a sua filha, que não conhece e a quem conta a história da sua vida. Conta-lhe sobre si, desde criança, uma criança disforme;sobre os seus pais, como o pai fechava a sua vida dentro das janelas de casa e não gostava que o filho saísse, erguendo sempre muros de silêncio à sua volta, muito recatado, tradicional, afinal, porque, segundo o filho, tinha medo de tudo, tinha medo do que não conhecia, tinha medo do mundo. O pai ter-lhe-á incutido estes princípios e o medo de sair da aldeia. A mãe revela-lhe as costuras do Mundo, ela que sempre gostou da sua deformidade, mimando-a com suavidade. A mãe gostava de cantar, dizia que não cantava sozinha, pois considerava que cantava com diversas pessoas, através da rádio, numa espécie de comunhão, especialmente mulheres que, nas suas lides domésticas cantavam para engolir o choro. Conta sobre o seu amigo Dois Metros, que se chamava assim porque, na infância, parecia que atingiria uma altura excecional. Mas, afinal, ficou com pouco mais de 1,65 m, continuando, no entanto, sempre com a mesma alcunha. Conta das suas aventuras, das desavenças constantes.
A Fernanda da Farmácia foi, desde cedo, a sua grande paixão; mas, na altura, a sua noção de amor era uma noção de propriedade, algo que se constrói, devendo a escolha ser racional e não passional. Mas entre os dois havia a sombra de um rapaz perfeito, o Arnaldo da Herdade Nova. Desde que este lhe sussurrara ao ouvido que ela não prestava, que esta ideia o fez perder o interesse que tinha anteriormente por ela e será determinante para a indiferença com que a tratará mais tarde, quando se casa com ela. Quem começa a trabalhar em casa deles é a que será a mãe da sua filha, que lhe terá aberto as janelas, uma mulher oriental, de uma “beleza incomodativa”. Quando ela engravidou, mentalizou-se de que ia deixar a mulher e ficar com a mãe da sua filha. Mas foi adiando. E quando ela se foi embora, prometeu ir ter com ela, mas foi novamente adiando…. Terá ele ido ter com a mãe da sua filha? Como terá corrido este reencontro?
Um livro fabuloso, no qual é impossível não assinalar passagens de uma grande beleza. Uma história muito bem concebida e que vale a pena ler com atenção.
O Princípio de Karenina de Afonso Cruz é a minha sugestão de leitura desta semana, eu que sou a Célia Gil.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Nadar para Casa, Deborah Levy

Célia Gil

Levy, Deborah (2011). Nadar para Casa. Alfragide: Publicações Dom Quixote



Nadar para Casa é um livro de Deborah Levy, poeta e dramaturga britânica, traduzido por Ana Saldanha. A história, que nem sempre é linear e fácil de perceber, dada a quantidade de enigmas que se vão colocando ao leitor, é a de Joe, Isabel e a filha Nina, quando vão passar férias numa casa alugada em Nice, Côte D’Azur, com um casal amigo, Laura e Micthell. Acontece que não vai ser uma estadia regular, pois aparece-lhes Kitty, uma botânica, que veem, pela primeira vez, a nadar nua na piscina. Esta tudo faz para se tornar hóspede deles.

A história concentra-se nos oito dias em que Kitty estará hospedada na casa de férias, junto com a família de Joe e dos seus amigos. Joe passa por uma crise conjugal, Laura e Mitchell estão à beira da falência da sua loja de antiguidades, Isabel compensa o seu casamento falhado, dedicando-se exclusivamente ao trabalho e Nina está na fase de se descobrir sexualmente. Todas estas situações são-nos dadas a descobrir com o estranho surgimento de Kitty.

Mas estará Kitty sozinha? Quem é o seu companheiro de viagem, que ora se sente amado ora ameaçado por ela? E por que razão pretende Kitty seduzir o poeta Joe Harold Jacobs? E passo a citar “o poeta famoso, o poeta britânico, o poeta judeu, o poeta ateu, o poeta modernista, o poeta pós-Holocausto, o poeta mulherengo”, um poeta que se divide numa pluralidade de seres, que torna tão difícil perceber as suas intenções. Kitty pretende entregar um poema seu ao poeta, ansiando pela sua opinião. Afirma que sabe tudo sobre Joe e que ala veio para França para o salvar dos seus pensamentos. É uma personagem estranha, que começa a cativar o poeta, que o convida a um inevitável mergulho no desconhecido, no inconsciente.

                                                                       Célia Gil

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Aguas Profundas, Robert Bryndza

Célia Gil
Bryndza, Robert (2018). Águas Profundas. Loures: Alma dos Livros.
Nº de páginas: 326

Águas Profundas é um livro de Robert Bryndza, traduzido por Ana Lourenço. É um Thriller que não nos deixa respirar entre uma página e outra, entre um e outro capítulo, mantendo-nos presos do início ao fim, com um suspense avassalador.
A ação inicia com a equipa da inspetora-chefe Erika Foster, que, com os seus mergulhadores, procuram, numa pedreira abandonada a sul de Londres, uma mala com droga, que Jason Tyler terá atirado à água, para, mais tarde, quando o ambiente acalmasse, a ir buscar. Encontraram, após longas horas de mergulho em grande profundidade, heroína com um valor comercial de quatro milhões de libras. 
Porém, um dos seus mergulhadores encontrou outra coisa submersa no lodo do fundo da pedreira, um saco preto com um corpo muito pequeno. 
Erika, apesar de não lhe competir investigar este caso, fica imediatamente presa nas suas teias. 
De acordo com o a autópsia feita por Isaac Strong, tratava-se do esqueleto de Jéssica Collins, uma menina de 7 anos, que desaparecera há 26 anos, num dia em que se dirigia a casa de uma amiga para celebrar o seu aniversário. 
Consegue, depois de várias diligências, que o caso lhe seja atribuído. 
Torna-se, porém, um caso de muito difícil solução, uma vez que, tendo já passado tantos anos, muitas das pessoas implicadas, não estavam vivas e outras estavam longe. Também a família parece, apesar de devastada com a notícia, esconder vários segredos…
Os capítulos são breves, conduzindo o leitor juntamente com a equipa de investigadores pelo adensar do mistério, em direção a possíveis suspeitos, pistas falsas, novos suspeitos, num estado de ansiedade e emoção constantes, até um final realmente surpreendente.
Quem matou efetivamente Jéssica Collins?
Isso terá de descobrir com a leitura deste livro. Eu, por meu turno, fiquei com a clara certeza de querer descobrir todos os livros deste escritor.
                                                                  Célia Gil

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Um Estranho Amor, Elena Ferrante

Célia Gil

FERRANTE, Helena (2005). Um Estranho Amor. Lisboa: Publicações Dom Quixote



    Um Estranho Amor, de Elena Ferrante, traduzido por Maria do Carmo Abreu, é um livro inquietante, ao abordar de uma forma completamente invulgar e inesperada a relação entre mãe e filha. Esperamos sempre que esta seja uma relação de amor, de dádiva, de confiança e até de admiração. Mas não é o que acontece neste livro. 
    Tudo começa quando Delia, aos 45 anos, perde a mãe, Amalia, encontrada morta numa praia em circunstâncias suspeitas, vestindo apenas um caro e refinado sutiã, que não era, de todo, o estilo de roupa que usava habitualmente. Delia regressara à terra natal, Nápoles, para enterrar a mãe. Sente-se estranhamente aliviada com a morte da mãe. Ao regressar, vê-se confrontada com fantasmas do passado, dessa relação mãe-filha tão fora do comum. Quer também perceber a trágica morte. Espera, com as respostas sobre as circunstâncias dessa morte, encontrar respostas para se compreender a si mesma. Reencontra personagens que faziam parte da história da sua mãe: Caserta, o atual namorado de Amália, uma paixão antiga que Transtornou a relação dela com o pai de Delia no início da vida familiar; vamos ter também o pai, ciumento e agressivo, que fazia pinturas de mulheres nuas para vender, todas inspiradas na esposa, mas que maltratava muito Amália, e, mesmo após mais de 20 anos separados, continuava a assombrar a vida dessa velha costureira; e, finalmente, seremos apresentados ao irmão de Amália, conhecido por lançar insultos indiferentemente a toda a gente, com temperamento e comportamento totalmente excêntricos.
    Apesar de ser um romance breve, de apenas 175 páginas, a história é bastante densa, o que faz com que a leitura seja mais lenta, para não se perder nenhum pormenor, pois toda a informação é relevante para a compreensão da história.
    Este passado a que Delia regressa esteve na origem da mulher em que ela se tornou.
   Amalia não foi, com certeza, uma simples costureira e, quando o possessivo marido não estava, ela ria de forma despropositava, portava-se de forma inadequada para a sociedade da época, aproximava-se de homens de índole igualmente duvidosa… De certa forma, percebe-se que esta mulher renunciou à sua maneira de ser, à sua felicidade, pela família. Só em breves momentos, era ela própria. Delia terá assistido a tudo isto e teve sempre o desejo de não ser como a mãe. Mas, no fundo, via-se como a mãe, chegando a afirmar, quando desenha o caracol que a mãe tinha na testa na sua foto do bilhete de identidade: “Eu sou a Amalia”.

                                                                                                    Célia Gil

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