Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Tabucchi, Antonio. A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2022.
Tradução: Theresa de Lancastre
N.º de páginas: 224
Início da leitura: 29/03/2026
Fim da leitura: 30/03/2026

**SINOPSE WOOK"
«O cenário desta triste, tenebrosa e, acrescentaríamos ainda, truculenta história, é a risonha e laboriosa cidade do Porto. Nem mais: a nossa portuguesíssima Cidade Invicta, acariciada por doces colinas e sulcada pelo plácido Douro», afirma o enviado especial Firmino na sua matéria exclusiva para o jornal lisboeta O Acontecimento.
O artigo revela a identidade de Damasceno Monteiro, um rapaz que descobre o poderoso tráfico de droga comandado por um oficial da Guarda Nacional e acaba decapitado e abandonado num terreno baldio.
Em A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, uma mistura de thriller com investigação jornalística, o foco continua na opressão, abordando os problemas do abuso policial, da tortura e da marginalização social das minorias étnicas.»

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A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, de Antonio Tabucchi, apresenta-se, à superfície, como um romance policial, mas rapidamente se revela uma obra de maior densidade ética e política. Inspirado num caso verídico, o homicídio de Carlos Rosa, encontrado decapitado, o enredo instala desde o início um clima de inquietação que ultrapassa o mero mistério narrativo para se fixar numa reflexão mais ampla sobre a justiça, o poder e a dignidade humana.
A narrativa decorre maioritariamente no Porto, num espaço periférico marcado pela presença de comunidades marginalizadas, como os acampamentos ciganos. É precisamente aí que Manolo, figura a quem a mulher trata por “El Rei”, descobre o corpo sem cabeça, num episódio inaugural que define o tom perturbador do romance. A partir deste momento, o que poderia seguir os trilhos convencionais do género policial transforma-se numa investigação de contornos mais difusos e profundamente humanos.
A chegada de Firmino, jovem jornalista, enviado de Lisboa por um jornal sensacionalista, funciona como dispositivo narrativo que conduz o leitor pela trama. Contudo, Firmino não é apenas um observador: a sua progressiva imersão no caso traduz também um percurso de amadurecimento moral. No Porto, conta com o apoio de duas figuras marcantes - D. Rosa, a pragmática dona da pensão, e sobretudo o excêntrico advogado Dom Fernando - que desempenham papéis fundamentais não só no desenrolar da ação, mas também na dimensão reflexiva da obra.
É, aliás, nas conversas entre Firmino e Dom Fernando que o romance atinge o seu ponto mais alto. Longe de serem meros diálogos funcionais, estes momentos suspendem a narrativa policial para abrir espaço a discussões sobre filosofia, justiça, direitos humanos e o papel das instituições. Dom Fernando, com a sua excentricidade e erudição, surge como uma espécie de consciência crítica, questionando o funcionamento do sistema judicial e denunciando formas de abuso de poder que permanecem, muitas vezes, ocultas.
A construção do romance revela, assim, uma notável capacidade de equilíbrio entre tensão narrativa e profundidade reflexiva. O mistério do crime mantém o leitor envolvido, mas é a dimensão ética que confere verdadeira substância à obra. Tabucchi não se limita a contar uma história: problematiza-a, desmonta-a e obriga-nos, a nós leitores, a confrontarmo-nos com realidades incómodas.

Cau, Bibbiana (2026). A Parteira. Lisboa: Editorial Presença. 

Tradução: Inês Guerreiro
N.º de páginas: 376
Início da Leitura: 24/03/2026
Fim da Leitura: 28/03/2026

**SINOPSE WOOK**
"Uma história de coragem, redenção e liberdade.

Mallena não é uma deles. Chegou a Norolani dezasseis anos antes, vinda de fora, mas, com o tempo, tornou-se um verdadeiro ponto de referência. É que Mallena é uma llevadora, uma parteira que, aplicando um saber antigo transmitido pela mãe, ajuda todas as mulheres no momento do parto, mesmo as das famílias mais humildes, sem nunca pedir nada em troca.

No entanto, tudo se desmorona em 1917, quando o marido regressa da guerra, ferido no corpo e na alma. Para pagar os tratamentos médicos de que ele necessita, Mallena exige em voz alta ao conselho municipal que o seu trabalho seja fi­nalmente remunerado. Um pedido tão justo quanto mal recebido, que altera o rumo da sua história e traz para a aldeia outra mulher, outra parteira: Angelica.

Mallena e Angelica, destinadas a ser rivais, descobrem ser duas faces da mesma moeda: unidas pelo desejo de liberdade, pela traição sofrida e pela injustiça que recai sobre as mulheres. Quando o passado regressa e a situação se torna insustentável, toda a comunidade de Norolani é forçada a exigir, pela primeira vez, verdadeira justiça.

Uma grande história no feminino que retrata, através da língua, dos aromas, da poesia e da aspereza da vida, a Sardenha do início do século XX. Uma protagonista que, guiada por uma sabedoria ancestral e pela solidariedade entre mulheres, desperta para uma nova consciência."

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A Parteira, de Bibbiana Cau, é um romance que desafia a impaciência do leitor contemporâneo, habituado a ritmos mais imediatos. Numa primeira fase, a narrativa arrasta-se, com uma ação pouco dinâmica e uma cadência que pode facilmente ser vista como monótona. A construção do ambiente e das personagens, embora cuidada, não se revela de imediato cativante, o que pode levar à tentação de abandono precoce da leitura.
Contudo, é precisamente quando surge a nova parteira na aldeia que o romance sofre uma inflexão decisiva. A partir desse momento, a história ganha densidade e vitalidade, como se finalmente encontrasse o seu verdadeiro pulso narrativo. As relações entre as personagens tornam-se mais complexas, os conflitos adensam-se e o enredo passa a desenvolver-se com uma fluidez que prende o leitor até às últimas páginas.
Este contraste entre um início mais moroso e um desenvolvimento posterior envolvente acaba por funcionar como uma espécie de prova de persistência. 
Um dos aspetos mais conseguidos da obra reside na forma como retrata as tradições e o quotidiano da comunidade. Episódios como a matança do porco, onde nada se desperdiça, são descritos com um realismo quase etnográfico, revelando um modo de vida assente na subsistência e na valorização de cada recurso. Do mesmo modo, crenças ligadas à morte, como a necessidade de deixar um prato de comida ao falecido, para que o seu espírito possa usufruir de uma última refeição, contribuem para criar uma atmosfera rica em simbolismo e profundamente enraizada na cultura local.
Particularmente marcante é também a resistência das mulheres da aldeia à chegada de uma parteira formada. A sua revolta não é apenas um gesto de rejeição do novo, mas antes uma afirmação de confiança numa figura que faz parte da memória coletiva e afetiva da comunidade, a parteira tradicional, com as suas mezinhas e saber empírico, responsável pelo nascimento de grande parte das crianças da aldeia. Este confronto entre conhecimento científico e saber popular constitui um dos eixos mais interessantes do romance, levantando questões sobre autoridade, tradição e identidade.

 Fagan, Kate (2026). As Três Vidas de Cate Kay. Lisboa: Marcador.

Tradução: Ana Saragoça
N.º de páginas: 304
Início da leitura: 22/03/2026
Fim da leitura: 23/03/2026

**SINOPSE WOOK**
"Escolha do Reese’s Book Club - Janeiro de 2025
Um dos livros imperdíveis do ano, segundo a Stylist e a Cosmopolitan.
Um page-turner entre Nova Iorque e Hollywood
Cate Kay é um fenómeno: a sua trilogia tornou-se um sucesso internacional e deu origem a um aclamado filme de Hollywood. Contudo, a sua verdadeira identidade é um segredo bem guardado. Ninguém imagina que, por trás de Cate, se esconde Cass Ford; e por trás de Cass, Annie, uma rapariga de uma cidade pequena com um segredo trágico. Agora, na sua villa nas colinas de Hollywood, ela escreve as suas memórias. Pela primeira vez, decide contar o que realmente aconteceu, pondo em risco não só o anonimato, mas também a própria vida.

Um romance envolvente sobre identidade, amizade e o poder das histórias. Emotivo, surpreendente e arrebatador até à última página."

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As Três Vidas de Cate Kay, de Kate Fagan, parte de uma premissa que, à primeira vista, se revela promissora: a desconstrução identitária de uma autora de enorme sucesso que, após anos de anonimato protegido por um pseudónimo, decide confrontar o passado e assumir a sua verdadeira história. A ideia de múltiplas vidas, literais e simbólicas, sugere um romance introspetivo, possivelmente tenso, centrado na memória, na culpa e na reinvenção pessoal.
No entanto, a execução narrativa fica aquém desse potencial. A estrutura fragmentada, assente em constantes alternâncias temporais, em vez de enriquecer a compreensão da protagonista, acaba por comprometer o ritmo e a fluidez da leitura. As transições nem sempre são claras ou eficazes, o que gera uma sensação de dispersão e dificulta o meu envolvimento  com o fio condutor da narrativa.
A própria construção das personagens revela-se pouco convincente. Cate Kay, enquanto figura central, não adquire a densidade emocional que se esperaria de alguém dividido entre identidades e marcado por um passado que procura ocultar. As restantes personagens surgem, em grande medida, como acessórios funcionais à progressão do enredo, sem verdadeiro desenvolvimento ou capacidade de suscitar empatia.
A narrativa sofre ainda de uma certa monotonia, agravada por repetições temáticas e estilísticas que retiram impacto aos momentos que deveriam ser mais reveladores. A promessa de um desenlace surpreendente ou de uma revelação transformadora não se concretiza, deixando uma sensação de estagnação ao longo da leitura.

Almada, Selva (2026). O Vento Que Arrasa. Afragide: Publicações Dom Quixote. 

Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
N.º de páginas: 144
Início e fim da leitura: 21/03/2026

**SINOPSE WOOK**
"A chegada de um pregador e da sua filha à oficina de um mecânico e do seu ajudante no meio de um monte da região do Chaco, sob um sol abrasador, anuncia mudanças e tempestades.

O calor sufoca no monte chaquenho. Choverá? Apeados por uma falha mecânica, o Reverendo Pearson e a sua filha Leni esperam pacientes que o Gringo Brauer e Tapioca - o rapaz que há uns anos foi deixado ao seu cuidado - possam repará-la para seguirem caminho.

Nesse cemitério de carros desmantelados e sucata agrícola, os adolescentes passam o tempo e os adultos conversam sobre as suas próprias vidas. O encontro inesperado mudará todos. Pais dos seus filhos, por sua vez filhos também, os adultos ver-se-ão confrontados com as suas crenças e passados, uma forma de se prepararem para o que há de vir.

Romance imprescindível, vencedor do First Book Award no Festival Internacional do Livro de Edimburgo de 2019, O Vento que Arrasa converteu imediatamente Selva Almada numa voz poderosa e nova que projetou a sua singularidade em toda a literatura argentina."

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O Vento que Arrasa, de Selva Almada, confirma a capacidade da autora para condensar tensões morais, afetivas e sociais num espaço narrativo contido, sem nunca resvalar para o simplismo. Situada no interior da Argentina, longe do imaginário urbano frequentemente privilegiado pela ficção contemporânea, a novela constrói um microcosmo austero onde o acaso, a avaria de um carro numa estrada isolada, desencadeia um confronto silencioso entre diferentes formas de habitar o mundo.
A premissa é deliberadamente mínima: o pastor evangélico Pearson e a sua filha adolescente, Leni, ficam retidos numa oficina gerida por Brauer com a ajuda do jovem Tapioca. No entanto, é dessa economia de meios que emerge a densidade do texto. Ao longo de menos de dois dias, Almada desenvolve um jogo subtil de espelhos entre estas personagens, cujas histórias nos chegam de forma fragmentada, através de memórias e breves recuos temporais. Esta estratégia narrativa, longe de obscurecer, intensifica o enigma de cada figura, sugerindo mais do que revela e convocando o leitor para um papel ativo na construção de sentido.
Um dos eixos centrais da obra reside na tensão entre o espiritual e o mundano. Pearson encarna uma fé itinerante, marcada por uma certa rigidez doutrinária e por um impulso missionário que não deixa de levantar suspeitas quanto às suas motivações mais íntimas. Em contraste, Brauer surge como uma figura enraizada na materialidade do quotidiano, cuja ética assenta numa relação directa com o trabalho e com a natureza. Tapioca, por seu turno, ocupa uma posição liminar: simultaneamente protegido e exposto, representa uma espécie de pureza sobre a qual ambos os homens projectam desejos distintos, de redenção, no caso do pastor, ou de continuidade, no caso do mecânico.
Também as relações familiares são tratadas sob o signo da ausência e da incompletude. A inexistência de figuras maternas não é apenas um dado biográfico, mas um vazio estruturante que molda afetos e comportamentos. A relação entre Pearson e Leni, em particular, revela-se ambígua: feita de proximidade física e emocional, mas atravessada por uma distância difícil de nomear, como se a intimidade não conseguisse preencher um abismo latente. Almada evita julgamentos fáceis, preferindo expor essas dinâmicas com uma contenção que reforça o seu desconforto.
Do ponto de vista estilístico, a escrita é depurada e precisa, sem ornamentos supérfluos. Há uma atenção constante ao ritmo e à atmosfera, que contribui para uma sensação de suspensão, quase como se o tempo narrativo estivesse em permanente dilatação. Essa qualidade torna o desfecho particularmente eficaz: compreensível e coerente com o percurso das personagens, ainda que possa frustrar expetativas mais convencionais.

 Isaac, Maria (2025). As Histórias Que Nos Matam. Porto: Porto Editora.

N.º de páginas: 248
Início da leitura: 17/03/2026
Fim da leitura: 20/03/2026

**SINOPSE WOOK**
"Amor é um sonho que ninguém esquece.
Miguel Godói viveu um casamento feliz, que deveria ter durado para sempre. Mas acidentes acontecem, as histórias mudam, os heróis também morrem, e até os casamentos felizes chegam ao fim. Agora sozinho numa vida que não escolheu para si, aprende a conviver com as limitações de um corpo partido e mal emendado, com uma epilepsia peculiar que o tornou num doente crónico, e a fazer sentido do mundo entre as suas memórias imperfeitas. Numa manhã de inverno, Miguel conhece uma misteriosa criança que o leva até a uma casa desconhecida na Madragoa à procura de respostas sobre o livro enigmático que chegou às suas mãos. O que lá encontra, porém, são ainda mais perguntas e uma possibilidade inesperada: um novo amor por uma mulher. Perdido há demasiado tempo no lugar-comum do sofrimento, onde as dores familiares transformam a nostalgia na escolha preferencial, Miguel Godói enfrentará agora a vertigem de alcançar uma esperança até aqui desconhecida."

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As Histórias Que Nos Matam, de Maria Isaac, apresenta-se como um romance profundamente introspetivo, centrado na figura de Miguel Godói, um homem comum, cuja vida sofre uma rutura total, na Lisboa dos anos 90. Até ao momento do acidente que o marca física e psicologicamente, Miguel vive numa aparente estabilidade emocional e afetiva; contudo, a partir desse ponto, nós, leitores, somos conduzidos por uma narrativa fragmentada, que espelha as próprias falhas de memória e a desorientação do protagonista.
A obra constrói-se, em grande medida, a partir desse estado de suspensão: entre o que foi e o que resta, entre a memória e a sua erosão. As sequelas do acidente, dores crónicas, lapsos de memória, epilepsia, não são apenas elementos clínicos, mas dispositivos narrativos que moldam a estrutura do texto. A perda da companheira e, posteriormente, do emprego, acentuam esse vazio existencial, empurrando Miguel para um processo de reconstrução identitária que nunca se revela linear ou plenamente resolvido.
Um dos aspetos mais marcantes do romance é precisamente a forma como Maria Isaac trabalha a memória enquanto matéria instável e falível. O leitor é colocado dentro de um verdadeiro labirinto, onde as recordações surgem dispersas, repetidas ou contraditórias, exigindo uma leitura atenta e, por vezes, reiterada. Este efeito, embora coerente com o universo interno da personagem, pode revelar-se desafiante: há momentos em que a narrativa se torna densa e algo confusa, obrigando a recuos frequentes para recompor o fio condutor, sobretudo na parte final, onde a ambiguidade se intensifica.
Essa dificuldade de “sincronização” com o texto não diminui, no entanto, o mérito literário da obra. Pelo contrário, evidencia uma opção estética deliberada, que privilegia a experiência subjetiva em detrimento de uma linearidade confortável. Ainda assim, é legítimo reconhecer que tal escolha pode afastar alguns leitores, mesmo aqueles familiarizados e, à partida, recetivos ao universo da autora.

 Quinn, Kate (2019). A Rede de Alice. Porto: Porto Editora.

Tradução:Gabriela Pilkington
N.º de páginas: 480
Início da leitura: 14/03/2026
Fim da leitura: 17/03/2026

**SINOPSE WOOK**
"Duas mulheres invulgares numa jornada épica de coragem e libertação em tempos de guerra.
Trinta anos depois, atormentada pela traição que acabaria por ditar o fim da Rede de Alice, Eve passa os dias embriagada e isolada do mundo na sua decadente casa, em Londres. Até ao dia em que uma jovem americana lhe bate à porta e a recorda de um nome que Eve tudo tem feito para esquecer.
1947
No caótico pós-Segunda Guerra Mundial, a jovem americana Charlie St. Clair está grávida, solteira e a um passo de ser expulsa do seio da sua conservadora família. Mas Charlie está mais preocupada com o que terá acontecido à sua querida prima Rose, desaparecida em França durante a ocupação nazi. Por isso, quando os pais a mandam para a Europa para resolver o seu «Pequeno Problema», Charlie troca todas as voltas do previamente combinado e desembarca em Londres, determinada a descobrir a prima que adora como a uma irmã.
1915
Um ano depois do início da Primeira Guerra Mundial, Eve Gardiner deseja com todas as suas forças lutar contra os alemães, o que, inesperadamente, acabará por acontecer quando é recrutada para servir os interesses Aliados como espia. Enviada para uma zona ocupada de França, é treinada pela fascinante Lili, nome de código Alice, a rainha das espias, que lidera uma vasta rede de agentes secretas a operar mesmo debaixo do nariz do inimigo."

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A Rede de Alice, de Kate Quinn, é um romance histórico que se constrói sobre duas linhas narrativas distintas, separadas no tempo, mas profundamente interligadas no plano humano e emocional. A autora conduz-nos pela Primeira Guerra Mundial e pela Segunda Guerra Mundial, tendo como cenário uma França marcada pela ocupação e pela resistência, onde as escolhas individuais assumem um peso decisivo.
A alternância entre as histórias de Eve e Charlie constitui um dos pontos mais fortes do romance. Eve, antiga espia durante a Primeira Guerra, surge como uma figura complexa, moldada por experiências traumáticas que a afastaram de qualquer idealização heroica. Já Charlie, jovem americana na década de 1940, parte em busca da prima desaparecida, movida por uma necessidade íntima de redenção e de sentido. O encontro entre ambas não é apenas narrativo, mas simbólico: duas mulheres em momentos distintos da vida, unidas pela perda e pela urgência de compreender o passado.
Kate Quinn demonstra particular competência na construção de personagens femininas densas e credíveis. Não são figuras idealizadas, mas antes profundamente humanas, marcadas por fragilidades, contradições e uma notável capacidade de resistência. É precisamente essa humanidade que sustenta o envolvimento do leitor: há uma proximidade emocional que nos leva a acompanhar cada etapa dos seus percursos, da descoberta à desilusão, do amor à vingança, como se de uma experiência partilhada se tratasse.
Do ponto de vista histórico, o romance equilibra bem o rigor contextual com a fluidez narrativa. A evocação da ocupação nazi em França, bem como das redes de espionagem feminina durante a Primeira Guerra, contribui para um ambiente denso, mas nunca excessivamente descritivo. A autora privilegia a dimensão vivida da História, colocando-a ao serviço das trajetórias individuais, o que reforça a imersão sem comprometer o ritmo.

D'Alte, Miguel (2024).  A Origem dos Dias. Lisboa: Suma das Letras.

N.º de páginas: 264
Início da leitura: 10/03/2026
Fim da leitura: 13/03/2026

**SINOPSE WOOK**
"«Em janeiro de 1998, eu tinha trinta anos, era pobre e um escritor falhado.»
Tomás Franco mudou-se para a cidade há dez anos para escrever e fugir de uma infância lacerada por uma tragédia, mas também para perseguir a história do seu avô, Pierre Lacroix, um escritor outrora premiado, fugido de França durante a Segunda Guerra, e do qual ninguém quer falar.
No entanto, nada corre como esperado, e tudo o que encontra são noites que passam como clarões, camas geladas, a agonia do silêncio e da solidão, empregos precários. Até que conhece Leonor, uma rapariga envolta em mistério que lhe muda o destino.
No Porto, França, Florida ou Marrocos, Tomás Franco persegue a literatura proibida e indecente, os passos dos escritores imortais, enquanto caminha sobre a ténue linha que separa as personagens dos livros das reais. O amor impossível e visceral, a paixão como doença, apartamentos assombrados trancados para sempre, a aparição de uma figura do passado, as diferentes versões de nós próprios, a finitude da vida.
«Muitas vezes penso no que teria acontecido se nunca tivesse ligado a Leonor.»
É esta uma história de amor?"

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A Origem dos Dias, de Miguel D'Alte, constrói-se como um romance de procura  de identidade, de sentido e, sobretudo, de reconciliação com o passado. No centro da narrativa está Tomás Franco, um homem que aspira a tornar-se escritor e que decide mudar-se para o Porto numa tentativa de escapar aos seus próprios demónios. A perda da irmã, o silêncio e as ambiguidades em torno da história do avô, e um persistente bloqueio criativo formam o núcleo das inquietações que o acompanham ao longo do livro.
A figura do avô, Pierre Lacroix, surge como uma presença simultaneamente luminosa e enigmática. Refugiado em Portugal depois de fugir de França durante a Segunda Guerra Mundial, Lacroix terá sido um escritor de grande talento, mas também alguém marcado por uma aura de marginalidade literária, um “escritor maldito”, devido a textos que terão provocado desconforto ou incompreensão. Para Tomás, porém, o avô permanece sobretudo como uma memória afetiva e inspiradora: é nele que reconhece a origem do seu próprio desejo de escrever. A investigação sobre a vida e o destino de Lacroix torna-se, assim, mais do que uma curiosidade familiar; transforma-se numa tentativa de compreender a própria herança emocional e criativa.
O romance acompanha esse percurso de procura através de deslocações, encontros e episódios que vão expondo a fragilidade interior da personagem. Tomás conhece pessoas, viaja, observa o mundo à sua volta, mas não encontra respostas imediatas. Pelo contrário, o caminho é irregular e, muitas vezes, autodestrutivo: a entrega ao álcool e à droga revela a dificuldade em enfrentar o luto e as perguntas que o perseguem. Nesse sentido, o livro evita soluções fáceis e mostra que o processo de autoconhecimento raramente é linear.
Um dos aspectos mais marcantes da obra é a forma como a escrita de Miguel D’Alte se cruza constantemente com a tradição literária. As referências a outros autores e a outras obras surgem integradas na narrativa, funcionando não apenas como homenagem, mas também como parte do universo mental de Tomás. Esse diálogo permanente com a literatura reforça a ideia de que escrever é sempre conversar com aqueles que vieram antes.
Apesar do peso das memórias e das crises pessoais que atravessam a história, o romance conduz o leitor com paciência até um desfecho em que as várias linhas narrativas se vão entrelaçando. As pontas soltas encontram gradualmente o seu lugar, permitindo compreender melhor as motivações das personagens e o significado dos acontecimentos que, ao longo do livro, pareciam fragmentados.
Com uma escrita segura e frequentemente de grande intensidade, A Origem dos Dias apresenta-se como um romance introspetivo sobre a herança, o luto, o amor e a vocação literária. É uma obra que exige a atenção do leitor, mas que recompensa esse investimento com uma narrativa rica em referências e emoções contidas. No final, fica a sensação de ter acompanhado não apenas a história de um homem que procura respostas, mas também uma reflexão sobre o próprio ato de escrever. Um livro que, pela densidade da sua escrita e pela forma como fecha o círculo da narrativa, vale claramente a pena ler.


Allende, Isabel (2025). O Meu Nome é Emília Del Valle. Porto: Porto Editora.

Tradução:Carla Ribeiro
N.º de páginas:328
Início da leitura: 07/03/2026
Fim da leitura: 10/03/2023

**SINOPSE WOOK**
"São Francisco, 1866. Uma freira irlandesa, abandonada após uma tórrida relação com um aristocrata chileno, dá à luz uma menina a que chama Emilia del Valle. Criada com devoção pelo seu carinhoso padrasto, Emilia tornar-se-á uma jovem autónoma e independente, que desafiará as normas sociais do seu tempo para seguir a sua verdadeira paixão: a escrita.
Com apenas 17 anos, publica o seu primeiro romance de cordel, sob pseudónimo masculino. Quando o mundo da ficção se revela incapaz de conter o seu desejo de aventura, Emilia opta pelo jornalismo. No San Francisco Examiner, conhece o talentoso Eric Whelan, com quem partirá para o Chile, para cobrir a iminente guerra civil.
À medida que a guerra se intensifica, Emilia vê-se em perigo de vida e numa encruzilhada, colocando em questão a sua identidade, as suas raízes e o seu destino.
Uma história fascinante de autodescoberta e amor de uma das contadoras de histórias mais magistrais do nosso tempo. Na senda das inspiradoras personagens femininas fortes e inspiradoras, Emilia del Valle perdurará por muito tempo no coração dos leitores."

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O romance O Meu Nome é Emilia del Valle, de Isabel Allende, insere-se na linha narrativa a que a autora já nos habituou: histórias de vida marcadas por circunstâncias históricas turbulentas, protagonizadas por mulheres determinadas que procuram afirmar a sua voz num mundo que lhes é pouco favorável.
A narrativa começa com um episódio que já anuncia o tom romanesco da história: uma noviça irlandesa envolve-se com um aristocrata chileno e dessa relação nasce Emilia del Valle. Criada pela mãe e pelo padrasto, Emilia cresce num ambiente que, apesar das suas limitações sociais e morais, lhe permite desenvolver uma personalidade curiosa, observadora e pouco conformada com o destino tradicional reservado às mulheres do seu tempo. Desde cedo revela um desejo muito claro: tornar-se escritora.
O percurso de Emilia até à escrita faz-se, contudo, por caminhos sinuosos. Numa sociedade em que o espaço literário e jornalístico é dominado por homens, começa por publicar romances populares sob um pseudónimo masculino, estratégia que lhe permite contornar as barreiras editoriais impostas ao género feminino. Mais tarde, consegue entrar no mundo do jornalismo, embora não da forma que desejaria. Num jornal local, é encarregada de escrever crónicas, um género considerado mais apropriado para uma mulher, em vez das notícias que ambicionava redigir.
É precisamente nesse espaço intermédio entre a crónica e o relato factual que a personagem se afirma. O reconhecimento do seu talento acaba por conduzi-la a uma tarefa de maior responsabilidade: cobrir a Guerra Civil chilena, deslocando-se para o campo de batalha. Este momento marca uma viragem na narrativa, pois coloca Emilia perante a violência da História e confronta o seu idealismo com a realidade dura do conflito.
Um dos pontos fortes do romance reside na construção da protagonista. Emilia é apresentada como uma mulher independente e determinada, claramente à frente do seu tempo, mas sem perder a complexidade humana que caracteriza as personagens de Allende. A autora procura equilibrar a dimensão íntima da personagem, os seus desejos, dúvidas e ambições, com o pano de fundo histórico que molda o seu percurso.
Do ponto de vista estilístico, o romance mantém a fluidez narrativa e o tom envolvente que tornaram a obra de Isabel Allende tão reconhecida. A escrita é acessível, marcada por uma forte componente narrativa e por um interesse evidente em cruzar histórias individuais com acontecimentos históricos mais vastos.

Ibañez, Isabel (2024). Onde A Biblioteca Se Esconde. Alfragide: Edições Gailivro.

Tradução: Elga Fontes
N.º páginas: 384
Início de da leitura: 05/03/2026
Fim da leitura: 07/03/2026

**SINOPSE WOOK**

"A impressionante conclusão da história que Isabel Ibañez iniciou com o livro O Que Guarda o Rio.
Inez Olivera viajou pelo mundo até ao Egito, em busca de respostas para a recente e misteriosa morte dos seus pais. Mas toda a sua busca levou-a por um caminho perigoso, cheio de mágoas, traições e uma magia perigosa que a puxou profundamente para o passado. Neste momento, Inez está a sofrer com o assassinato da sua prima Elvira e com a traição da sua mãe. Quando o Tío Ricardo lhe faz um ultimato sobre a sua herança, só tem uma opção a considerar: o casamento com Whitford Hayes.
Antigo soldado britânico, assistente de campo do Tío Ricardo e antigo inimigo, Whit tem as suas próprias razões misteriosas para permanecer no Egito. Com o coração em jogo, Inez poderá ter de ligar o seu destino à única pessoa cujos planos secretos a podem arruinar.
Uma fantasia histórica imersiva e exuberante passada no Egito, repleta de aventura e um romance entre rivais como nenhum outro!"

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Onde a Biblioteca se Esconde, de Isabel Ibañez, foi uma leitura a que me aproximei com alguma expetativa cautelosa. Não sendo, de todo, apreciadora de fantasia, sobretudo quando a narrativa envolve magia de forma explícita, ainda assim quis acreditar que este romance me pudesse surpreender. Essa expetativa vinha, em grande parte, da experiência anterior com a autora em O Que Guarda o Rio, um livro que, apesar dos seus elementos fantásticos, conseguiu manter um equilíbrio interessante entre atmosfera, ritmo e construção narrativa.
Infelizmente, este não foi um caso semelhante. Embora a escrita de Isabel Ibañez continue a ser fluida, envolvente e fácil de acompanhar, o enredo acabou por não me convencer. Ao longo da leitura, deparei-me com uma sucessão de acontecimentos intercalados que me pareceram artificiais, quase como se servissem apenas para fazer avançar a história sem o necessário cuidado na sua integração. Essa sensação foi reforçada por incongruências temporais, com datas e sequências que não batem certo, quebrando a coerência interna da narrativa e, consequentemente, a minha imersão enquanto leitora.
Estas falhas estruturais tornaram-se difíceis de ignorar e acabaram por sobrepor-se aos aspetos positivos do livro. A promessa de uma história misteriosa e rica, ancorada num espaço tão simbólico como uma biblioteca, perdeu-se num desenvolvimento que senti pouco consistente e, por vezes, apressado. No meu caso, essa falta de solidez narrativa foi determinante para que não conseguisse apreciar plenamente a obra.
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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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