Contos.
Poesia.
Receitas.
Viagens.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O Filho Perdido de Philomena Lee

Célia Gil

Sixsmith, Martin (2013). O Filho Perdido de Philomena Lee. Lisboa: Planeta Manuscrito.


O livro O Filho Perdido de Philomena Lee de Martin Sixsmith fala-nos da história de Philomena e do seu filho Michael. Uma história de vida, marcada pelo secretismo, sobre o amor e perda humanos. Uma história comovente, magistralmente contada por Sixsmith e que é a prova de que os laços entre mãe e filho não devem nem podem ser quebrados.
Philomena Lee era uma adolescente, na Irlanda de 1952, quando engravidou e foi enviada para um convento, onde tratou do filho durante três anos, até a Igreja lho tirar e o vender a uma família adotiva. Durante esse tempo, trabalhou como uma escrava e foi obrigada a utilizar um nome falso. Segundo a Igreja e passo a citar "Todas as crianças enviadas para a América significam mais um donativo para a Igreja e um problema a menos para o Estado."
Durante cinquenta anos tentou encontrar o filho, sem nada dele saber, quem o tinha adotado, para onde tinha ido…
Philomena conta com o auxílio de um jornalista que empreende com ela uma série de diligências para que esta encontre o seu filho.
 A história centra-se essencialmente na vida dessa criança, os seus sonhos e receios, o seu crescimento, a sua necessidade de aceitação por parte dos pais adotivos, as suas incertezas, a sua necessidade de autopunição, a descoberta da sua homossexualidade, o seu eterno descontentamento por não saber aceitá-la e como isso se refletiu em toda a sua vida privada e pública, já que ele foi um advogado de renome, jurista principal do Comité Nacional Republicano no tempo de Reagan e Bush. Trabalhava para um partido completamente homofóbico, que condenava os homossexuais, não apostando na investigação da cura para a SIDA, que surgia naquela altura. O que é certo, é que Michael era homossexual nunca tendo escondido as suas preferências.
Apesar do sucesso em termos profissionais, Michael sentia-se sempre como um rejeitado, cuja mãe rejeitara. Mas, também Michael tentou, por sua vez, encontrar a mãe. No entanto, toda e qualquer informação a que pudesse ter acesso lhe foi negada pela Igreja, que receava ser apanhada na sua rede de adoções ilegais e venda de crianças.
Philomena só viria a reencontrar o filho, já morto, enterrado no convento onde nascera, como foi a sua vontade.
                                                          Célia Gil

sábado, 31 de agosto de 2019

O Quarto de Jack

Célia Gil

Donoghue, Emma (2011). O Quarto de Jack. Porto: Porto Editora.

O Quarto de Jack, de Emma Donoghue, é um livro surpreendente. Uma história que fica imediatamente na memória e para sempre. Jack tem cinco anos e é o narrador enternecedor e comovente desta história. Para Jack, de apenas 5 anos, o quarto de 11 metros quadrados, onde viveu sempre com a mãe, é o mundo todo. Nele existem o roupeiro, onde a mãe o deita cada vez que recebe a visita do velho Nick, para o proteger; é o sítio onde brinca, onde aprende, onde faz exercício físico, onde come, onde vive e onde sonha. Do quarto apenas vê um pedacinho de céu por uma clarabóia. Então, acredita que, para além do quarto, existe apenas o espaço. A televisão, segundo a sua perspetiva, não mostra seres reais, mostra seres achatados e coloridos. Mas, reais, apenas são ele e a mamã. Ainda que num espaço tão exíguo, a mãe ensina-lhe tudo o que ele deve saber com a sua idade. Ensina-o a ler, a brincar e a sonhar.
No dia em que faz 5 anos, a mãe decide contar-lhe que, afinal, o quarto não é o mundo todo. Considera que ele já tem idade para compreender e conta-lhe tudo: a sua infância, o facto de os seus pais não saberem dela há sete anos, uma vez que, ao tentar ajudar Nick com um suposto cão, fora raptada e fechada num quarto isolado do mundo, onde só Nick conseguia entrar, com um código que nunca revelou.
Mas a Mamã tem agora um plano – quer que Jack saia do quarto para conhecer o verdadeiro mundo. Simula que ele está cheio de febre, mas Nick vai em busca de antibióticos, em vez de o levar ao hospital, como ela pensava que sucederia. 
No dia seguinte, antes de Nick chegar, instrui o filho para se fingir de morto. Enrolá-lo-ia na carpete, como um corpo morto, Nick levá-lo-ia e, pela viagem, depois de bem treinado, Jack desenrolaria a carpete e, quando a carrinha abrandasse, saltaria e iria ter com a primeira pessoa que aparecesse para pedir ajuda. Assim acontece. Nick transporta-o na sua carrinha, dentro da carpete do quarto, mas, quando Nick está para saltar, a carrinha arranca e ele cai ao chão, despertando as atenções de Nick. Corre, mas Nick segue no seu encalço. Esbarram com um homem que passeia um cão e que estranha a forma como este homem pega na criança e a trata. Chama a polícia e Nick, vendo-se encurralado, foge. Jack acaba por contar à polícia como se chama, sobre o quarto onde vivia com a Mamã. A polícia encontra o quarto e resgata a Mamã. Finalmente, após sete anos de reclusão naquele quarto, terão uma casa, a casa dos avós de Jack. Mas, em 7 anos, muda tanta coisa! Será que a Mamã estará apta para enfrentar essas mudanças? E Jack, conseguirá ele viver no mundo que existe e que não foi o seu durante os 5 anos da sua existência? Uma leitura a não perder!
                                                                                  Célia Gil


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu

Célia Gil
Jonasson, Jonas (2011). O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu. Porto: Porto Editora, Lda.

O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu é um livro de Jonas Jonasson, um escritor sueco, que serve para descomprimir, com imenso sentido de humor, mas também muito bem escrito. Uma história hilariante, empolgante, sem momentos mortos e que nos faz rir, sem que demos conta.
Conta-nos a história de um idoso que, no dia em que completa 100 anos, decide fugir do lar de idosos onde vive. Sabe que o que de mais certo o espera é a morte, por isso decide ir viver o tempo que lhe resta de forma mais empolgante. Munido de uma audácia invejável e umas pantufas velhas, foge pela janela do seu quarto à procura de aventuras que lhe tornem a vida menos penosa.
Os capítulos sobre os episódios mais estranhos e divertidos que constituem estas aventuras de Allan vão sendo intercalados, de forma engenhosa, com analepses sobre o passado desta personagem tão sui generis. Neste passado que nos vai sendo narrado, a par da história da fuga, ficamos a saber que Allan teria viajado por todo o mundo, tendo travado conhecimento com Estaline, Churchill, Harry Truman, a mulher de Mao Tsé-Tung, entre outros nomes de referência na história mundial.
Ao viajar, durante a sua fuga, acaba por roubar uma mala cheia de dinheiro, pertencente a uma organização criminosa, a “Never Again”. Este facto, faz com que a sua fuga se torne não apenas numa vontade, mas também numa necessidade, uma vez que começa a ser procurado. Envolvido em algumas mortes, é procurado por um detetive e faz alguns “amigos” pelo caminho, que vivem esta aventura com ele. Converge tudo num final altamente inesperado.

Convido, pois, a uma viagem atrás deste centenário e pela história que teve oportunidade de conhecer, através da leitura do livro O Centenário que Fugiu pela Janela e Desapareceu, de Jonas Jonasson.

As Gémeas do Gelo

Célia Gil
Tremayne, S. K (2019). As Gémeas do Gelo. Lisboa: TopSeller


As Gémeas do Gelo é um thriller de Tremayne, escritor e jornalista londrino. Neste livro, conta-se a história de duas gémeas – Lydia e Kirstie – fisicamente iguais. Os pais distinguem-nas pintando a unha do pé de uma de azul e a da outra de amarelo, procurando combinar alguma peça de roupa com a cor da unha. Apesar disso, são bastante diferentes. Kirstie é extrovertida, irrequieta e impulsiva e Lydia, mais frágil, mais calada e introvertida. O pai tem uma preferência notória por Kirstie e a mãe por Lydia.
Quando fazem 6 anos, nas férias de verão, pedem para se vestirem de igual – e assim acontece, vestem-se com um vestido brancos iguais. Entretêm-se a trocar de identidade e a questionar os pais se sabem qual é qual, o que se torna numa missão impossível.
Num fatídico dia, uma das gémeas cai de uma varanda e é dada como morta. Quando a mãe chega ao pé da outra gémea, ela grita que Lydia caiu da varanda. É feito o funeral de Lydia.
O embate desta morte nas vidas das personagens é evidente. O pai começa a refugiar-se na bebida. A mãe entra numa grande depressão. Kirstie começa a ter pesadelos que a consomem e a deixam constantemente triste. Acabam por perder o emprego e pensam na última solução que lhes parece plausível – ir viver para a ilha pertencente aos avós de Angus, o pai de Kirstie, que tem apenas acesso por barco e onde existe unicamente uma casa e um farol. Assim, a tantos quilómetros do traumático episódio, pensam que será possível recomeçar.
Quando decidem inscrever Kirstie na escola da aldeia mais próxima da ilha, esta insiste que é Lydia e não Kirstie, começando a revelar comportamentos que eram mesmo típicos de Lydia. Não consegue socializar com as outras crianças e começa a dar mostras de estar cada vez mais perturbada e com mais pesadelos.
Perante estas ocorrências, os pais acabam por aceitar que foi Lydia quem sobreviveu e fazem o funeral de Kirstie.
Mas quem terá realmente sobrevivido? Conseguirão os pais alguma vez obter resposta a esta pergunta, sem que a loucura os domine?
Este livro aborda ainda a problemática dos filhos preferidos. Como será descobrir que o filho preferido afinal não morreu? Até que ponto isso pode amenizar a dor? O luto dos pais não é mesmo nada fácil e este livro é a prova disso. Escrito de uma forma muito interessante, com três narradores: o narrador omnisciente, na 3ª pessoa; Sarah, a mãe e Angus, o pai, confere uma maior dinâmica à narrativa e permite-nos o confronto com várias perspetivas, o que torna difícil ao leitor encontrar um bode expiatório, um verdadeiro culpado. Quando o leitor tem uma teoria pré formada, vê-se confrontado com outra perspetiva que deita por terra a primeira. É isso que torna este livro irresistível, sendo quase impossível pousá-lo antes de terminar a sua leitura, uma vez que sentimos necessidade de saber o que aconteceu a cada momento da narrativa.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Um Fio de Sangue, Ann Yeti

Célia Gil

Yeti, Ann (2018). Um Fio de Sangue. Almada: Emporium Editora.


Foi com curiosidade que comecei a ler Um Fio de Sangue.
Confesso que, quando pego num livro, o viro e reviro. Gosto de me apaixonar pelos livros antes mesmo de os ler. Ver e deter-me nos pormenores da capa, da contracapa, das badanas… E este livro chama a atenção. Há algo que prende logo na capa. O laranja aponta para alegria, vitalidade, prosperidade, entusiasmo, comunicação, criatividade e sucesso. A disposição do título também me chamou, desde logo a atenção, palavra por palavra, dando mais ênfase a cada uma delas. Está escrito a amarelo, um amarelo suave, que traz luminosidade, como um sol a brilhar no laranja. Destaca-se, porém, a palavra “Fio”, escrita a vermelho, a sugerir amor, paixão, mas também o perigo. Curiosa ou propositadamente, esta palavra é a palavra chave desta história feita de “fios”, fios que unem (laços de amor), fios que se atam (aproximações), fios que se desamarram (afastamentos), fios que nos tornam marionetas numa sociedade de amores e desamores demasiado fugazes. O subtítulo “As curvas mais perigosas são as curvas da vida”, que, ao mesmo tempo que aponta para a sensualidade que as curvas podem representar nas personagens e nas suas relações, podem sugerir vias de comunicação ou precisamente a perda de orientação nos meandros da vida. Por fim, e não menos importante, a imagem, a sombra feminina. Somos sombras, quando vivemos na sombra do passado; somos sombras, quando vivemos na penumbra da vida e, mesmo que o sol (laranja e amarelo) brilhe em redor de nós, podemos não nos libertar totalmente das sombras que nos ensombram a existência. Apesar de uma simples sombra, é uma sombra com sentimentos, pois a lágrima de sangue (mais um fio) mostra que esta mulher tem sentimentos, ainda que possam ser dolorosos. Logo pela capa, é um livro que apetece ler!
A história vai ao encontro da mensagem que a capa me conseguiu passar, bem como do prazer que transmite ao ser lida. Lê-se num ápice, porque tem um ritmo rápido, sem momentos mortos. Uma temática que poderia ficar pelo romance lamechas entre duas pessoas que se sentem imediatamente e mutuamente atraídas, teria tudo para ser um romance sem conteúdo. Mas é aqui que Yeti nos surpreende, nada neste romance é muito normal. Joana cativa Tomás precisamente por isso, pelo facto de não ser o que ele encontra habitualmente nas outras mulheres. O facto de ela nada lhe exigir, de saber sair quando considera que não quer dar a Tomás a ideia de que está a invadir a sua vida ou de que está irremediavelmente interessada nele, a torna única. E é essa maneira de ser, esse aparente desprendimento, essa relação sem compromissos, que vão cativando Tomás. Ele que tinha tido um passado difícil, que não queria voltar a envolver-se, viu-se preso neste fio que o amor teceu e com o qual lhe lançou a teia. Quando passam os melhores dias das suas vidas juntos numa aldeia do Xisto, na Serra, Joana assume que as barreiras que erguera para se resguardar, tinham definitivamente quebrado e passo a citar “o estrago era extenso pois a enxurrada de amor tinha sido violenta” (pág. 95). Também Tomás se sentiu dominado por uma euforia. Porém, o passado e o medo fizeram-no passar da euforia à depressão. E porque os fios são assim, unem, mas são frágeis, nem sempre se entrelaçam num “e foram felizes para sempre”.
E quantas vidas, por mal-entendidos, por recalcamentos, por amor e desamor não estão presas por um fio?
Gosto da forma como Yeti escreve, da linguagem fluída, mas ponderada, da moderação com que aborda determinadas passagens (que poderiam, de outra forma, tornar-se facilmente vulgares).
A única sugestão que faria a Yeti era o facto de poder ter dado mais corpo à narrativa, ter desenvolvido mais alguns momentos. Poderia ter intercalado a narrativa do presente com a narrativa do passado destas personagens, com riquíssimas analepses que nos permitiriam conhecer ainda melhor estas personagens.
Porém, a minha crítica é, no geral, muito positiva e aconselho vivamente a leitura de Um Fio de Sangue.
Deixo os meus parabéns a Ann Yeti e votos de muitos sucessos literários. Agradeço a oportunidade que me deu de conhecer o seu livro. Fico a aguardar a próxima obra, um romance que também, sem dúvida, nos surpreenderá.
                                                                                                              Célia Gil

Budapeste, Chico Buarque

Célia Gil

Budapeste é um romance escrito por Chico Buarque, que ganhou os prémios Jabuti 2004 e Passo Fundo Zaffari & Bourbon 2005. Um romance diferente, que nos surpreende, muitas vezes choca, outras tantas, indigna, mas que nos faz refletir sobre a quantidade de anónimos Costas haverá espalhados pelo mundo.

A intriga é basicamente a seguinte: José Costa é um escritor anónimo e ganha a vida com textos que escreve para quem lhos solicita: artigos, dissertações, monografias, cartas, petições de advogados, na Agência Cultural Cunha & Costa, onde é sócio junto com seu amigo de faculdade Álvaro Cunha.
Ao contrário de outros escritores como ele, José Costa não almeja o reconhecimento, sentindo-se até grato ao ver os seus textos assinados por outra pessoa.
Costa é casado com Vanda, apresentadora de um telejornal, e que não entende exatamente o que o marido escreve, não se interessando mesmo pelo seu trabalho.

Quando, numa viagem a Istambul, para participar num congresso de autores anónimos, se vê obrigado a aterrar em Budapeste, devido a uma avaria no avião em que seguia, fica bastante curioso em relação ao húngaro, língua que, segundo as más línguas, é a única língua que o diabo respeita, repleta de sonoridades e sensações. Fica obcecado pelo húngaro, até pela própria dificuldade que sente em compreender as palavras.

Ao voltar ao Rio de Janeiro, José Costa tem a missão de escrever a biografia encomendada de um alemão. Após terminar o livro, devido a alguns conflitos no trabalho, decide tirar férias, as férias com que Vanda há muito sonhara. Porém, quando Vanda abre a passagem que Costa lhe entrega, fica a saber que irão para Budapeste e não para o destino por ela sonhado, e decide trocar o seu bilhete para Londres. Viajam, então, para destinos diferentes, rumo a um afastamento que se tornará cada vez mais acentuado. Costa está apenas interessado em aprender a falar húngaro. Acaba por ter aulas de húngaro com Kriska, com quem se envolve.
Seguem-se várias viagens entre o Rio de Janeiro e Budapeste. Se por um lado, os padrões normativos da sociedade o fazem arrepender-se do tempo passado longe da mulher e do filho; por outro lado, é em Budapeste que Costa se sente realizado. Mas estes afastamentos, quer de Vanda, quer de Kriska, levam-nos a todos a longos silêncios. Silêncios que não são fáceis e em que os conflitos interiores o levam a pensamentos do género, que passo a citar:
"Houve um tempo em que, se tivesse de optar entre duas cegueiras, escolheria ser cego ao esplendor do mar, às montanhas, ao pôr-do-sol no Rio de Janeiro, para ter olhos de ler o que há de belo, em letras negras sobre fundo branco."

Este é um romance que deixa o leitor intrigado até ao fim. Qual dessas viagens entre Budapeste e o Brasil será a última? Para desvendar este mistério e apreciar este romance tão sui generis, convido-o a encetar esta fantástica viagem a Budapeste de Chico Buarque.

                                                                                                          Célia Gil

domingo, 28 de julho de 2019

O Leitor do Comboio

Célia Gil
Didierlaurent, Jean-Paul (2017). O Leitor do Comboio. Lisboa: Clube do Autor.


O Leitor do Comboio, escrito por Jean-Paul Didierlaurent, um romancista francês e traduzido por Inês Castro, recebeu, de entre vários, o Prémio Michel Tournier e está traduzido em 30 países. 
Nesta parábola, que constitui uma homenagem à literatura e à leitura, as personagens são invulgares e únicas.
Guylain Vignolles é o leitor do comboio e narrador. Um homem frustrado, com uma profissão que odeia:  segundo ele, exerce e passo a citar o “sujo cargo de carrasco” ao reduzir diariamente uma série de livros a pasta numa máquina Zerstor 500 a que chama de “a Coisa”. Um cargo que desempenha com relutância, numa espécie de “piloto automático”, que lhe suga a vida e que, frequentemente, lhe traz pesadelos à noite. E quantas pessoas não se reveem nesta personagem? Em profissões que não gostam, que as desgastam e em vidas vazias e infelizes?  
Guylain vive sozinho, numa vida de rotinas, partilhada com o seu peixinho encarnado, Rouget de Lisle. Como amigo, conta apenas com um amputado, que só sabe falar em versos alexandrinos e que passa o tempo à procura das suas pernas numa edição de um livro feita com a pasta a que “a Coisa” lhe tinha reduzido as pernas. 
O que lhe vai dando algum alento é a leitura de páginas que vai salvando d’ “a Coisa” e que lê no comboio, à ida para o trabalho. Páginas únicas, sem continuidade, mas que lhe tornam a vida mais suportável, uma espécie de redenção em relação aos atos de selvajaria para com os livros, no dia a dia da sua profissão.
E porque é importante que haja um "mas" em todas as vidas sensaboronas, numa das suas viagens de comboio, Guylain encontra esse "mas", uma pen perdida. Em casa, ao abrir o conteúdo da pen, depara-se com escritos de uma mulher chamada Julie que imediatamente o prendem, lendo até meio da madrugada os 72 textos que contém. Passa, então, a ler no comboio, em vez das habituais páginas soltas, os textos de Julie, em gestos menos mecânicos, em tom mais estudado, que provoca nos passageiros da carruagem em que lê e passo a citar “um arzinho satisfeito de bebés fartos e saciados”, que contrasta com a “máscara de impassibilidade” dos passageiros das restantes carruagens. São estes escritos que passam a dar mais cor aos seus dias e a tornar mais suportáveis as suas angústias. Quando conta ao seu amigo sobre estes escritos, também ele os devora e lhe traça um plano para tentar encontrar essa Julie que poderia permitir-lhe o início de uma bela história. Terá Guylain encontrado Julie? Seria real ou uma criação literária?
Para encontrar as respostas a estas e outras perguntas, deixo o convite para uma viagem com O Leitor do Comboio de Jean-Paul Didierlaurent.
                                                                                             Célia Gil

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Pão de Açúcar, Afonso Reis Cabral

Célia Gil
Cabral, Afonso Reis (2018). Pão de Açúcar. Alfragide: Publicações Dom Quixote.


Pão de Açúcar é um livro escrito por Afonso Reis Cabral, que venceu o prémio Leya 2014 com o romance O Meu Irmão. É um livro que junta factos verídicos com ficção, por forma a tornar o enredo numa narrativa verosímil. A ideia de escrever um livro a partir do caso de Gisberto ou Gisberta, uma transexual brasileira que apareceu, em 2006 morta no fundo de um poço, num edifício abandonado, resultante de um projeto falhado para um Pão de Açúcar.
É uma história contada na 1ª pessoa, um rapaz, o Rafa, que vai desfiando o fio à narrativa.
Intercala o calão, que surge contextualizado e adequado, com alguma poeticidade, numa escrita fluente e intensa, que resulta também da riqueza e complexidade interior que as personagens revelam.
 A história é sobre o dia-a-dia de três rapazes adolescentes, que viviam num internato: Rafa, com uma vida difícil, pouca escolaridade e interessado em mecânica; Nelson, um jovem muito bruto e conflituoso e Samuel, com uma grande sensibilidade, mas antissocial. Rafa começa a interessar-se por Gis, uma toxicodependente, com sida e transexual, que vive no edifício abandonado e que vai definhando, com fome, à espera que a morte a leve. Rafa deixa a sua bicicleta ou projeto de bicicleta no edifício mencionado e vai lá arranjá-la e vigiá-la todos os dias. É assim que conhece Gis. Sente uma atração/repulsa que o leva a fazer-lhe e levar-lhe comida. Acaba por revelar este seu segredo aos amigos, levando-os com ele para a conhecerem. A partir do momento em que o segredo de Gis é desvendado, passa a ser insultada, tratada como “traveca” ou “paneleiro com mamas”, chegando a ser espancada, numa sociedade que não aceita a diferença e não sabe conviver com ela, que passa por ela alheia, sem se deter, sem questionar, sem intervir. Gis era um dos tantos esquecidos de que vários escritores falam. Manuel da Fonseca falava no seu conto “O Largo” dos marginalizados pela sociedade, a quem ninguém dava credibilidade; Luísa Ducla Soares, no seu conto “O Mundo é dos Jovens” fala mesmo dos esquecidos, aqueles de quem ninguém fala e que é mais fácil ignorar.
Este é um livro que nos faz, sobretudo, refletir sobre a nossa responsabilidade, enquanto cidadãos, perante estas situações para nos fazer questionar os padrões da educação e as questões culturais.


Célia Gil

domingo, 7 de julho de 2019

O Fim da Solidão, Benedict Wells

Célia Gil

Wells, Benedict (2019). O Fim da Solidão. Alfragide: Edições ASA.




O Fim da Solidão é um livro de Benedict Wells, traduzido por Paulo Rêgo, com muito de autobiográfico e muito bem escrito. É o quarto romance do escritor, que nasceu em Munique em 1984, e venceu o Prémio de Literatura da União Europeia
Apesar de ser um livro com uma temática triste, os sentimentos demonstrados e a própria forma como as personagens encaram e tentam superar a dor tem algo de belo, que conforta e na qual se revê quem já passou ou acompanhou situações semelhantes. 

Jules, o narrador do livro, tem apenas 11 anos quando ele e os dois irmãos mais velhos perdem os pais num acidente de viação. Acabam por ir para o mesmo internato, mas o afastamento entre eles é inevitável, até porque têm personalidades e temperamentos muito diferentes e a dimensão da tragédia que lhes aconteceu é vivida de forma diferente por cada um deles.
 Jules é um miúdo reservado, sendo alvo de gozo por parte dos colegas. O seu tempo é passado entre memórias, à procura de si mesmo e de um sentido para a sua existência através do sonho. Marty é um jovem muito dedicado aos estudos, sempre mergulhado nos livros e um pouco cético e Liz é uma jovem que quer viver e experimentar tudo, sem limites, sem prisões ou compromissos. Mais tarde Liz culpabiliza-se por não ter, como irmã mais velha, tomado conta dos irmãos, quando tanto precisavam de alguém. O certo é que nenhum deles conseguiu ultrapassar totalmente o trauma da perda repentina dos pais e as mudanças que esta perda traria inevitavelmente para as suas vidas.
No internato, Jules sente apenas apoio por parte de uma outra criança da sua idade, Alva, também ela muito reservada e também ela com um passado sofrido. Entre eles nasce uma amizade que se fortalecerá com o tempo. Mas nem todos os caminhos que se seguem ao lado de outra pessoa são caminhos de encontro. Alva acaba por partir e só muito mais tarde, Jules a volta a reencontrar. Também os irmãos se afastam. Mas a vida dá muitas voltas e, passados 15 anos, Jules vê a possibilidade de voltar a ser feliz. Trabalhava, entretanto, numa empresa discográfica, embora sonhasse em dedicar-se à escrita e à fotografia.
Conseguirá Jules libertar-se do passado e procurar o que o faz realmente feliz?
Um livro feito de perdas e reencontros, de dúvidas e desilusões, numa procura incessante da felicidade. E será que esta felicidade existe e, se existe, pode ser total? 
                                                                                            Célia Gil

sexta-feira, 31 de maio de 2019

A Distância entre Mim e a Cerejeira, Paola Peretti

Célia Gil

Peretti, Paola (2018). A Distância entre Mim e a Cerejeira. Lisboa: Nuvem de Tinta.


     Quando iniciei a leitura de A Distância entre Mim e a Cerejeira, primeiro romance da italiana Paola Peretti, traduzido para português por Simonetta Neto, pensei que seria um livro tristíssimo, uma vez que inspirado na vida da autora que teve, em criança, uma doença macular degenerativa que a levaria a uma cegueira irreversível. Porém, logo nas primeiras páginas, pude mudar de opinião, uma vez que a sensibilidade e até infantilidade com que uma narradora de nove anos aborda a temática, é tão comovente e suave, que chegamos a sorrir e o sentimento que nos domina não é o de pena, mas sim de admiração e orgulho.
     Mafalda tem nove anos, sabe que em pouco tempo ficará cega. Para que se torne todo este processo mais fácil, faz uma lista com as coisas que poderá fazer, mesmo sem ver… Estella, uma auxiliar da escola onde estuda, é, para ela, uma referência, compreende os seus medos, as suas necessidades, parece mesmo, por vezes, entrar dentro da sua cabeça e desvendar os seus pensamentos.
     Os pais, com o intuito de facilitarem a vida à filha, pensam em mudar de casa e ir para uma mais perto da escola. No entanto, Mafalda não quer deixar a sua casa, a casa que viu, que ficará gravada na sua memória. Decide fugir de casa quando a mudança se tornar iminente. Para essa fuga, que vai projetando, recolhe uma série de objetos que pensa que serão imprescindíveis para empreender o que tem em mente: ir viver para a cerejeira da escola. O dia em que, ao abrir os olhos, não sente necessidade de pôr os óculos, pois o cinzento apoderou-se de tudo em seu redor, é o dia da prova de fogo, pois terá de fugir e terá de, na escuridão que a rodeia, concretizar tudo o que havia planeado. Mas terá Mafalda, na sua escuridão, conseguido atingir o que julgava ser o último objetivo da sua lista – viver na cerejeira? Será que os passos que contou até à cerejeira a conduzirão ao local certo?
     Passo a citar algumas frases que demonstram bem a poeticidade e simplicidade deste livro:
“Quando era pequena imaginava ter seis filhos, cinco raparigas e um rapaz, mas depois chegou a neblina nos olhos e deixei de pensar nisso. Iria perdê-los na neblina, ou penteá-los mal, e até podiam morrer à fome porque não posso guiar o carro para ir às compras. Talvez pudesse encomendar pizza para o jantar. Mas então iriam ficar gordos. Não, nada de filhos para mim.” (pp. 117-118).
“O ar é uma senhora sorridente que passa o seu cachecol de seda azul pelo meu rosto e pelo cabelo”. (pág. 156)
“Ali onde devia estar a janela com a Lua dentro e a estrela polar, e de dia o Sol, não vejo nada. O meu quarto é cinzento. A minha mão é cinzenta quando a movo à minha frente. O escuro é cinzento-escuro. Que, para mim, é muito mais feio do que o preto.” (pág. 165).

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Abandonada por Amor

Célia Gil


Acabadinho de ler!

Veletzos, Roxanne (2018). Abandonada por Amor. Lisboa: Edições ASA.


     Não se escolhem os livros pela capa, mas este, Abandonada por Amor, romance de estreia de Roxanne Veletzos, uma escritora nascida na Roménia, é um livro que convida a entrar, pela suavidade das cores, a emotividade do título e das relações humanas. Tem, sem dúvida, daquelas capas que cativam desde logo. Se bem que, se a analisarmos, vai contando duas histórias, porque, a suavidade do cinza, não deixa de ser cinza, impedindo o sol de resplandecer e esta mãe e filha que olham para o horizonte, sabem, e está presente na imagem, ainda que de forma discreta, a prisão representada pela dureza de um arame farpado, como o dos campos de concentração.
     Tudo começa com uma família feliz que, quando, em 1941, a Roménia se alia aos Nazis e se dá início a perseguições aos judeus, se vê obrigada a fugir, para um futuro incerto, sendo que o mais certo é que esta seja uma fuga para a própria morte. São estas circunstâncias que os levam a abandonar, à porta de um prédio em Bucareste, a filha de quatro anos.
     A criança é recolhida num orfanato, onde permanece até ser adotada por um casal, que não conseguia ter filhos e que lhe poderia proporcionar uma vida melhor, uma vida poder-se-á mesmo dizer, de luxos. Assim, começa a ter aulas de piano, é-lhe comprado um piano para casa e tem todos os luxos que, a maior parte das crianças da sua idade não tem, como uns brincos de rubi verdadeiro, que lhe são dados por ocasião do seu 7º aniversário. É neste ambiente que Tália (Natália), vai esquecendo o seu passado, para se encontrar e ser totalmente feliz e amada nesta nova vida.
     Mas outros acontecimentos diretamente relacionados com a guerra por que estão a passar, II Guerra Mundial, levam a uma reviravolta na vida deste casal que adotou Natália. A vida de Anton e Despina vai-se degradando de dia para dia, vendo-se obrigados a vender todos os seus bens que não foram saqueados (inclusive o piano de Tália), até não terem mesmo o que comer e até se consciencializarem de que a origem judaica de Tália poderia ser um fator de risco em relação ao seu futuro.
     O pai de Tália começara, entretanto, a conviver com Victor, um jovem pobre mas com ambições e ideais políticos divergentes dos desta família rica. Tália apaixona-se por Vítor.
     O amor dos pais e de Vítor por Tália é também levado ao limite. Mais uma vez se vê abandonada por amor, quando abdicam dela para a salvar. Viaja para os Estados Unidos. Aqui Tália terá mais uma descoberta surpreendente, a que só terão acesso, se mergulharem neste magnífico livro, baseado nas experiências da mãe da autora, que foi abandonada pelos pais biológicos na II Guerra Mundial. 
                                                                                                                                 Célia Gil

quarta-feira, 24 de abril de 2019

A Herança de Eszter, Sándor Márai

Célia Gil


        Sándor Márai, um escritor húngaro, da primeira metade do século XX, surpreende-nos com a sua forma elegante, límpida e fluida de escrever. Os longos diálogos são tão extensos e intensos como se estivéssemos a ouvir contar uma história.

         À medida que a narrativa flui, sente-se a necessidade de ler os próprios gestos, as atitudes, as meias palavras das personagens, que nunca revelam tudo.

         Tal como no romance As Velas Ardem até ao Fim, também neste A Herança de Eszter, há um regresso há muito aguardado, neste caso de vinte anos, momento em que as personagens já se sentem velhas e têm a noção de que tudo é já apenas passado, pouco esperando do futuro.

         Eszter é solteira e o seu único amor partiu com a sua irmã Vilma, com quem se casou. Interesseiro, materialista e sem escrúpulos, Lajos roubou tudo o que possuíam, deixando-lhes apenas a casa onde vivem e o jardim com que subsistem.

         Eszter vive com Nunu, a “omnisciente” Nunu, que constituíra sempre a lanterna na vida de Eszter, que lhe terá guiado os dias de solidão. Endre é amigo e notário da família, conhece Lajos há vinte e cinco anos e nunca acreditou na sua seriedade, nem se deixou enfeitiçar pelas suas palavras falsas mas eloquentes, irresistíveis e afáveis.

         Passados tantos anos, Lajos regressa, viúvo, trazendo a filha, o namorado desta e a mãe do futuro genro. E este regresso vem desencadear sentimentos e recordações que se julgavam esquecidos. Eszter descobre cartas que Lajos lhe escrevera há vinte anos a pedir que fosse ter com ele, mas que a irmã lhe escondera.

         Numa conversa com Eszter, Lajos confessa não ser um homem de paixões, nem de caráter. Ela era o caráter dele, o caráter que lhe faltava. No entanto, esta conversa escondia as verdadeiras intenções de Lajos. Estaria ou quereria Eszter entender essas razões e recuperar uma vida que não vivera ao lado de Lajos?

         Como todo o discurso de Lajos, também o final deste romance pode não ser o que estamos realmente à espera.
                                                                       Célia Gil

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Segredos guardados

Célia Gil

Que faço agora com tantos
segredos que nunca revelei?
Que fui esconder em gavetas
de uma caixa de memórias que inventei?
De que me servem?
Que consolo, que riqueza, que bem
me poderão deles advir?
Se o que somos é nada,
de que me hão de eles servir?
Tanto os guardei,
tanto os amontoei,
tanto os estimei...
Com eles apenas morrerei.
                                  Célia Gil

sábado, 20 de abril de 2019

Vazio

Célia Gil
                                                                                   (in https://unsplash.com/photos/_OQ8Jc7kBmA)

Quando foi?
Onde ficou o canto do pássaro
que me alegrava?
Que foi feito da árvore
onde se alojava?

No galho seco vazio
nada ecoa que me alegre o dia.
Só o silêncio, a calma, o frio
me farão companhia.
                            Célia Gil

A Cidadela Branca, Orhan Pamuk

Célia Gil

Pamuk, Orhan. A Cidadela Branca. Ed.4. Lisboa: Editorial Presença, 2006.


     A Cidadela Branca, de Orhan Pamuk, autor que foi prémio Nobel da Literatura em 2006, é um livro enigmático e que confronta o leitor com as suas dúvidas existenciais, tão fortemente vivenciadas pelos protagonistas do livro.

     No séc. XVII, um jovem estudante aristocrata veneziano, numa viagem entre Veneza e Nápoles, é capturado por piratas turcos, tornando-se prisioneiro e escravo em Istambul.
     Entretanto, um cientista inventor, conhecido como o Mestre, toma-o como seu escravo e é assim que se decide a aprender com ele tudo o que tinha a ensinar-lhe sobre o Ocidente. Juntos, vão procurando também dar resposta às solicitações do Sultão. O Mestre vai transmitindo ao Sultão tudo o que vai aprendendo com o escravo, se bem que, no início, o Sultão, ainda demasiado jovem, se mostre mais interessado em profecias e histórias sobre animais.
     Quando a peste invade Istambul, o Sultão exige ao Mestre que lhe apresente uma solução eficaz para a diminuição do número de mortos.
     Entre eles, que possuem uma incrível e simbólica semelhança física, nasce uma cumplicidade que chega a ser doentia, uma relação de amor-ódio, que vai de uma total não aceitação do outro à conclusão de que não poderiam viver um sem o outro.
     No momento em que se veem obrigados a ficar em casa, para evitar contrair a peste, o Mestre e o escravo decidem escrever as suas respetivas autobiografias.
     É neste momento que se cria uma relação de dependência entre os dois em que, apesar das diferenças civilizacionais que os separam, são tremendamente assustadoras as semelhanças que os unem e que os levam, a partir das autobiografias, a um jogo de espelhos no qual se fundem as próprias identidades ao ponto de as questionarem e pensarem até que ponto não poderão viver a vida um do outro.
     O Mestre acaba por retomar a vida do escravo, antes de ter sido feito prisioneiro, tornando-se numa pessoa culta. Já o escravo, vive a vida do Mestre, tornando-se bárbaro, cruel e selvagem.
     Uma metáfora da vida em comum, onde, muitas vezes, as pessoas, na busca da sua identidade dentro de uma relação, sentem que deixaram de ser quem eram para passarem a ser como o outro, anulando-se e transformando-se nele. Afinal, alguém saberá dar a resposta à pergunta “Quem sou?”
     A Cidadela Branca de Orhan Pamuk é esta viagem psicológica e existencial à mente humana que esta semana convido a fazer, eu que sou a Célia Gil.

sábado, 13 de abril de 2019

Os Aromas do Verão

Célia Gil
Maynard, Joyce (2011). Os Aromas do Verão. Porto: Porto Editora.

Os Aromas do Verão é um livro de Joyce Maynard, traduzido por Vasco Gato, que, em 2013, deu origem ao filme Labor Day, título original, protagonizado por  Kate Winslet e Josh Brolin.
O narrador deste livro é um jovem de 13 anos, Henry, que se esforça por cuidar da sua mãe, a solitária Adele, enquanto enfrenta os problemas comuns na adolescência.

Um dia, após comprarem material escolar, Henry e a mãe encontram Frank Chambers, um homem intimidante, ferido e claramente a precisar de ajuda, que os convence a dar-lhe abrigo. Mais tarde, pelas notícias, num jornal, vêm a saber que é um criminoso foragido. Os eventos do longo fim de semana do Dia do Trabalhador serão cruciais e determinarão o curso das suas vidas para sempre.
Henry é um jovem solitário, pouco sociável, que passa os seus dias a ver televisão e a ler, tendo por únicas companhias a mãe e o seu hamster. Sai aos fins de semana com o pai e a sua nova companheira e filhos, mas encara estas saídas como um castigo, desejando sempre voltar para casa.

A mãe é uma mulher emocionalmente frágil, que se refugiou dentro de si mesma, deixando de ter amigas. A sua apatia é extrema, não se importando com nada, vivendo de um emprego instável de vendas através de casa, que compra comida enlatada e nada a faz feliz.

Quando Frank entra nas suas vidas e lhes faz as refeições, lhes mostra que a vida, apesar de todas as agruras, foi feita para ser plenamente vivida, Adele e Henry deixam-se cativar. Mesmo depois de saberem que fugiu da prisão, acreditam que é um homem bom e que entrou nas suas vidas para fazer Adele feliz.

No momento em que Adele comunica ao filho que foi pedida em casamento e que fugirão para o Canadá para viverem felizes para sempre, Henry sente-se dividido. Por um lado, este estranho veio fazer a mãe feliz. Mas, por outro, poderá querer levá-la com ele e deixá-lo para trás. Deverá ele contactar as autoridades?

Conseguirão Adele e Frank fugir? Levarão Henry?

Estas são questões que convido a solucionar com a leitura do livro, Os Aromas do Verão de Joyce Maynard.
                                                                                Célia Gil

terça-feira, 9 de abril de 2019

Eu Sou um Lápis, Sam Swope

Célia Gil



Eu sou um Lápis é um livro de Sam Swope, traduzido por Lucília Filipe, que ganhou os prémios Book for a Better Life Award (2004), Christopher Award (2005) e foi nomeado para melhor livro de 2004 pela revista Publishers Weekly.
Sam escrevia livros para crianças, quando foi convidado para dirigir uma oficina de escrita com uma turma do 3º ano, em Queens. Esta turma de 28 alunos, filhos, em grande parte de imigrantes, veio conferir um novo sentido à sua vida, ao ponto de escrever este livro sobre esta fantástica experiência.
Mr. Swope, como era tratado pelas crianças, conseguiu despertar-lhes o gosto pela escrita, de uma forma gradual, ensinando-os a pensar, a observar tudo à sua volta, a ver para lá do que está à sua volta, a escolher as palavras, a extravasar os sentimentos e emoções.
Nem sempre esta tarefa se revelou fácil, esbarrou contra muitas paredes. Cada um tinha a sua vida, a sua família, os seus problemas, os seus medos e os seus anseios. Mas, Mr. Swope nunca desistiu, ouvia-os, compreendia-os ou não, ensinava-os e repreendia-os quando assim era necessário. Muitas vezes, sentiu o desapontamento e o desânimo tomarem conta de si. Mas persistiu. Estas crianças, cada uma à sua maneira e com as suas características muito peculiares, despertaram nele a atenção, a esperança e os afetos.
Ao longo de três anos, através dos imensos diálogos que manobrava de forma exímia de modo a espicaçá-los para a escrita ou, simplesmente, orientá-los, preparou-os para um mundo de perigos e de desafios, sem que perdessem toda a sua riqueza genuína interior, a força e a criatividade.
Foi ao lado dos pais que aguardou a entrada nas escolas que mais lhes conviriam, com que tinha contactado e às quais tinha levado as crianças e os pais.
É com orgulho que recorda os sucessos que obtiveram e para os quais contribuiu.
Eu sou um Lápis põe lado a lado as agruras da vida e a magia que cada um tem dentro de si, as inseguranças que tentam sujeitar o ser humano a fechar-se e a viver dentro das suas ideias e a audácia de as passar para o papel.
                                                                                          Célia Gil

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A pele que em mim vive

Célia Gil


Uma fresca aragem
arrepia-me o pensamento
e sinto que ainda sinto,
que neste processo de esvaziamento
há um trajeto no labirinto.
E os brancos do tempo
que vieram acentuar a brancura
da memória do que fomos um dia,
junta-se a um cansaço sem fundamento,
uma ansiedade vadia
que não se explica, mas perdura...
E só esta aragem me certifica
de que ainda vive em mim
a pele que se arrepia.
Nos olhos que vagueiam sem fim
ainda fica o verde que inebria,
a flor que sensibiliza.
De tudo, tudo o que passa,
ainda há algo que fica...fica!

                                 Célia Gil

quarta-feira, 27 de março de 2019

Nós que se soltam

Célia Gil

Com cuidado e com jeitinho
fui, no meu pensamento,
dando nós de laço apertadinho
com que julguei prender o sentimento.

Mas os nós estavam cansados
de tão tão apertados
e desataram-se em grande desatino.
Nós que cuidava enlaçados,
seguem agora cada um o seu destino.

                                                  Célia Gil

segunda-feira, 25 de março de 2019

A Dádiva, Toni Morrison

Célia Gil

Toni Morrison foi a primeira escritora negra a ser distinguida, em 1993, com o Prémio Nobel da Literatura. Foi esse facto que me levou a ler A Dádiva.



Um livro pequeno, mas que deve ser lido com calma, com a devida atenção, para saborear as palavras da escritora, que cativam logo desde as primeiras linhas e também porque a história nos é contada em momentos diferentes e temos de nos situar, de perceber quando surgem as analepses para podermos desfrutar ao máximo da obra.
É um romance extraordinário que se passa na América do Norte de finais do século XVII, uma época marcada pela escravatura, grandes divisões sociais e religiosas, tirania, preconceito e ódio racial.

É neste contexto que Jacob Vaark, um comerciante anglo-holandês, que, apesar de inicialmente se manter distante do negócio dos escravos, acaba por aceitar, como pagamento de uma dívida de um fazendeiro de Maryland, uma menina negra, Florens. É numa conjuntura de submissão que Florens conhece a paixão, mas é também nesse contexto que descobre o quanto a ausência de liberdade pode ser prejudicial para a alma. 
                                                                                     Célia Gil
                                                                                

Coprights @ 2017, Histórias Soltas Presas Dentro de Mim Designed By Templatein | Histórias Soltas Presas Dentro de Mim