Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Pellejero & Zentner (2025). O Silêncio de Malka. Palmela: Devir.
Tradução: Maria Ramos
N.º de páginas: 112
Início da leitura: 08/08/2026
Fim da leitura: 09/08/2026

**SINOPSE WOOK**
"Vítimas das perseguições feitas aos judeus no final do século XIX, Malka e a sua família são obrigados a deixar a Rússia e emigram para a Argentina. Aí terão que se habituar à dura vida de agricultores e às diferenças culturais em que a mistura de magia da Torá com a magia local obtém um resultado que nem sempre é o melhor. O relato desenvolve-se em seis comoventes histórias, centradas em períodos específicos e iluminadas pelas cores magistrais de Pellejero."

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O Silêncio de Malka constrói-se a partir de seis histórias que atravessam diferentes momentos no tempo e que, em conjunto, compõem um retrato multifacetado da imigração de judeus russos para a Argentina. Mais do que acompanhar uma única trajetória, a obra procura recuperar uma experiência coletiva feita de deslocação, sobrevivência, perda e tentativa de reconstruir uma vida num território novo. É uma história de raízes arrancadas e de outras que, com dificuldade, procuram encontrar terreno onde possam voltar a crescer.
No centro desse percurso está Malka, cuja história se torna também a história de muitas outras mulheres e homens que chegam a uma terra desconhecida, carregando consigo a memória de um lugar que já não podem habitar da mesma forma. O silêncio de Malka assume, desde logo, uma dimensão que ultrapassa a ausência de palavras. É uma condição, mas também uma linguagem. É sinal de fragilidade e de exposição, mas pode transformar-se igualmente numa forma de resistência. Quando não se pode falar, sobreviver passa por encontrar outras maneiras de afirmar a própria existência.
É precisamente aí que a metáfora do silêncio ganha maior força. Há silêncios que dizem mais do que discursos inteiros, porque carregam aquilo que não pode ser explicado, aquilo que foi perdido e aquilo que permanece por dizer. No caso de Malka, o silêncio não significa necessariamente ausência: pelo contrário, torna-se uma presença constante, quase física, que acompanha a personagem e condiciona a forma como se relaciona com o mundo. A sua incapacidade de falar não a torna uma personagem passiva; obriga-a, antes, a desenvolver outras formas de resistência perante circunstâncias que parecem muitas vezes determinadas contra si.
A estrutura em seis histórias permite que o livro se afaste de uma narrativa linear e assuma uma dimensão quase de memória fragmentada. Cada episódio acrescenta uma camada ao retrato de Malka e ao universo em que se move, e é na relação entre essas diferentes partes que o livro encontra grande parte da sua riqueza. Não estamos perante uma simples crónica de imigração, mas diante de uma obra que procura perceber o que acontece às pessoas quando são obrigadas a abandonar um lugar e a reconstruir a sua identidade noutro.
A dimensão histórica está presente, mas não domina a narrativa. Zentner utiliza esse contexto para falar de pessoas concretas, das suas esperanças e dos seus receios, evitando transformar as personagens em meras peças de um processo histórico. A Argentina que encontramos no livro é simultaneamente lugar de promessa e de adversidade, espaço de possibilidade e de desilusão. Para quem chega, a mudança de continente não significa necessariamente começar de novo: significa transportar consigo um passado que insiste em permanecer.
É neste ponto que o elemento fantástico assume particular importância. O Silêncio de Malka não abandona a realidade histórica, mas permite que nela se introduzam acontecimentos, crenças e imagens de natureza mais mágica. As referências à tradição judaica e às crenças populares da Argentina rural não surgem como simples ornamentação ou como uma fuga à dureza do mundo real. Pelo contrário, ajudam a expressar aquilo que a realidade, por vezes, não consegue dizer diretamente.
O fantástico funciona, assim, como uma extensão da experiência das personagens. Dá forma aos medos, às esperanças, às crenças e às memórias que atravessam as suas vidas. A magia não destrói a verosimilhança do relato; acrescenta-lhe outra camada de interpretação. É uma espécie de linguagem paralela através da qual o livro consegue abordar temas como a identidade, a fé, a sobrevivência e a pertença sem os reduzir a explicações demasiado racionais.
Também o desenho de Rubén Pellejero merece atenção. A imagem não se limita a acompanhar o texto: contribui decisivamente para criar a atmosfera da obra. Há uma expressividade particular nas personagens e nos espaços, e a banda desenhada encontra aqui uma forma própria de trabalhar o tempo, a memória e o silêncio. Aquilo que não é dito pelo texto pode permanecer numa expressão, num enquadramento ou numa imagem, reforçando justamente a importância do que fica por escrever.

O'Farrel, Maggie (2026). Terra.Lisboa: Relógio D'Água.

Tradução: Tânia Ganho
N.º de páginas: 448
Início da leitura: 04/08/2026
Fim da leitura: 08/08/2026

**SINOPSE WOOK**

"Maggie O’Farrell, autora de Hamnet, regressa com um magnífico romance histórico passado na Irlanda dos anos que antecederam e se seguiram à Grande Fome.

Numa península varrida pelos ventos do Atlântico, Tomás e o seu relutante filho, Liam, trabalham num grande projeto, destinado a cartografar a Irlanda.

Os soldados britânicos responsáveis pelo projeto deverão chegar a qualquer momento, esperando encontrar o trabalho concluído. Mas um estranho encontro num pequeno bosque altera inesperadamente o rumo dos acontecimentos.

Terra é um romance sobre separação e reencontro, tragédia e recuperação, colonização e resistência. É uma história de tesouros escondidos, vidas que se cruzam ao longo do tempo e sobre a forma como, quando falamos da terra e da história, nada desaparece verdadeiramente."

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Em Terra, Maggie O'Farrell regressa à Irlanda do século XIX, a um território marcado pela pobreza, pela memória e por uma relação quase ancestral entre as pessoas e o lugar que habitam. A ação situa-se no período que antecede e sucede à Grande Fome, acompanhando Tomás e o filho, Liam, numa península isolada da costa oeste irlandesa. É uma terra difícil, onde a sobrevivência depende do trabalho, do conhecimento dos ciclos naturais e daquilo que a própria terra pode oferecer.
Tomás participa, ainda que contrariado, nos levantamentos geográficos promovidos pelos britânicos. Mapear aquele território significa medir, nomear e delimitar, mas também transformar uma realidade vivida há gerações em linhas num mapa e em propriedades que podem ser atribuídas a alguém. O trabalho dos chamados casacas vermelhas não é, por isso, apenas uma tarefa técnica: introduz uma nova ordem num território onde as fronteiras, os nomes e os direitos sobre a terra possuem significados muito mais antigos. Tomás compreende as consequências desse processo e percebe que aquilo que lhe permite pagar a renda e garantir o sustento da família é, simultaneamente, uma das forças que contribuem para dividir a comunidade.
É nesse cenário que um encontro inquietante num bosque desencadeia uma rutura profunda na vida de Tomás. A partir desse momento, a realidade parece perder a estabilidade e o protagonista afasta-se progressivamente do projeto oficial, procurando uma outra forma de existência numa cabana abandonada. O que se segue não é apenas uma fuga, mas uma tentativa de regressar a uma relação mais elementar com a terra, longe das imposições de uma sociedade que pretende medir, classificar e possuir aquilo que antes era sobretudo habitado.
O'Farrell constrói a narrativa através de diferentes tempos e perspetivas, aproximando o presente da história mais remota daquele lugar e fazendo com que passado, memória, lenda e realidade se contaminem mutuamente. Há uma dimensão de estranheza e de magia ligada ao folclore irlandês, mas Terra nunca se reduz a uma história fantástica. O elemento sobrenatural surge antes como uma outra maneira de olhar para um mundo que a racionalidade moderna tenta explicar e dominar. A autora deixa, aliás, uma zona de ambiguidade particularmente interessante: aquilo que é real, aquilo que é memória e aquilo que pertence ao imaginário nem sempre se distinguem com facilidade.
A terra é, naturalmente, o grande centro do romance. Não apenas como espaço físico, mas como lugar de pertença, sobrevivência e conflito. É nela que se trabalha, dela se retira o sustento e sobre ela se constroem relações de poder. É também nela que permanecem as marcas de quem viveu antes. A história da família de Tomás cruza-se, assim, com uma história muito mais longa, feita de pessoas, perdas, deslocações e mudanças que ultrapassam largamente a existência de cada indivíduo.
Um dos aspetos mais interessantes do romance está precisamente nesta tensão entre o que permanece e o que se transforma. O'Farrell escreve sobre uma época em que uma determinada conceção do mundo começa a desaparecer, substituída por uma ordem mais sistemática, administrativa e racional. Os mapas tornam-se instrumentos de poder; dar um nome a um lugar pode significar apropriar-se dele; estabelecer uma fronteira pode alterar para sempre a vida de quem ali vive. Ao mesmo tempo, persistem crenças, histórias e formas de compreender a natureza que não cabem facilmente nesses novos mapas.
Terra é, por isso, um romance que exige disponibilidade. A narrativa não se entrega imediatamente, nem procura conduzir o leitor pela mão. As diferentes linhas temporais e as mudanças de perspetiva pedem atenção e alguma paciência, mas contribuem para criar uma sensação de profundidade: a de que estamos perante uma história que começou muito antes de Tomás e Liam e que continuará depois deles.
É também um livro sobre a família, sobre a relação entre pais e filhos e sobre aquilo que herdamos sem necessariamente o escolhermos. Mas é sobretudo uma história sobre pertença. Sobre o que significa chamar a um lugar "nosso" quando esse lugar foi habitado por outros antes de nós e continuará a existir depois da nossa passagem.
Maggie O'Farrell constrói assim um romance denso, atmosférico e deliberadamente exigente, onde a História e o folclore se encontram sem que um anule o outro. Há momentos em que a leitura pede tempo, não apenas para acompanhar a narrativa, mas para permanecer nas suas imagens e interrogações. Terra não é um livro para consumir depressa: é uma obra para habitar durante algum tempo.

Pattertson, James et Davis, Viola (2026). A Juíza. Lisboa: Bertrand Editora.

Tradução: Rute Mota
N.º de páginas: 384
Início da leitura: 03/08/2026
Fim da leitura: 04/08/2026

**SINOPSE WOOK**
"Viola Davis e James Patterson oferecem-nos um drama judicial imparável e uma personagem inesquecível num thriller poderoso e emotivo que será em breve adaptado para o grande ecrã.

Todos de pé… para a Meritíssima Juíza. A juíza Mary Stone é a cidadã mais respeitada de Union Springs, no Alabama. Assume duas responsabilidades que são para si sagradas: administrar a herdade da família e presidir ao tribunal desta pequena cidade. Mas tudo mudará quando se vir a braços com o processo judicial mais controverso da história do Sul dos Estados Unidos.

Do ponto de vista criminal, a decisão é clara como água. Em termos éticos, não há meio-termo. Na sua essência, trata-se de uma escolha entre a vida e a morte. O caso em questão envolve a doutora Bria Gaines, que foi detida por realizar um aborto a uma adolescente de 13 anos. Ciente dos riscos pessoais e profissionais, levou a cabo o procedimento médico, punível com pena de prisão até 99 anos segundo a nova lei do Alabama, que não permite exceções, mesmo em casos de violação ou incesto.

Sabemos que nenhum juiz pode satisfazer os desejos de todos nós. Seria, aliás, perigoso que o tentasse. Alvo de pressões políticas e da comunidade de ambos os lados da barricada, a juíza Stone está disposta a lutar com tudo o que tem para trazer justiça às pessoas e ao lugar que tem no coração.

Tendo como palco o sul rural dos Estados Unidos dos dias de hoje, este thriller jurídico eletrizante retrata uma juíza brilhante e determinada prestes a tomar uma decisão com repercussões dramáticas para o seu pequeno condado e, muito provavelmente, para todo o país. Com a sua carreira, os seus princípios e, em última instância, a sua própria vida em jogo, qual será a decisão do tribunal?"

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A Juíza, de James Patterson e Viola Davis, leva-nos a refletir sobre questões amplamente enraizadas na sociedade em que decorrem, conjugando uma narrativa de grande ritmo com uma abordagem incisiva a temas sociais e políticos de enorme atualidade.
No centro da história está Mary Stone, uma juíza cuja integridade e firmeza a tornam uma protagonista inesquecível. Inteligente, determinada e profundamente comprometida com a justiça, recusa vergar-se perante pressões, interesses instalados ou ameaças, independentemente da influência de quem procura condicioná-la. É precisamente essa inabalável convicção que faz dela muito mais do que a figura central deste livro: Mary Stone representa a coragem de defender princípios quando o preço a pagar pode ser elevado.
As personagens surgem construídas com consistência e credibilidade, permitindo que os conflitos adquiram uma dimensão humana que vai muito além da intriga judicial. Mesmo as figuras secundárias contribuem para a riqueza da narrativa, ajudando a criar um retrato complexo das relações de poder e das tensões que atravessam o sistema judicial e a sociedade norte-americana.
A escrita é um dos grandes trunfos da obra. Fiel ao estilo de James Patterson, o romance desenvolve-se através de capítulos curtos e de uma ação constantemente em movimento, tornando a leitura extremamente fluída. A linguagem tem um forte cunho cinematográfico, com cenas vívidas e um ritmo que faz com que seja difícil interromper a leitura. Cada capítulo parece conduzir naturalmente ao seguinte, mantendo a curiosidade do leitor até às páginas finais.
Contudo, o livro não vive apenas da tensão narrativa. Ao longo da história são abordadas questões como o racismo, o sexismo, o aborto e a influência das convicções religiosas nas decisões políticas e judiciais. Estes temas não surgem como meros elementos decorativos; fazem parte integrante do enredo e contribuem para uma reflexão sobre a forma como a justiça pode ser condicionada por preconceitos, interesses e divisões ideológicas.
Gostei muito e recomendo a sua leitura.

 Wood, Lucy Jane (2025). Rewitched. Porto: Porto Editora.

Tradução: Catarina Fernandes
N.º de páginas: 360
Início da leitura: 02/08/2026
Fim da leitura: 03/08/2026

**SINOPSE WOOK**

"Será que Belle vai conseguir reencontrar a magia na sua vida antes que seja tarde demais?

Belladonna Blackthorn ainda não perdeu o encanto… mas também não o tem visto ultimamente. Entre o trabalho na sua adorada livraria londrina, a Lunar Books, o chefe tóxico e a necessidade de esconder os seus poderes mágicos dos comuns mortais, Belle sente-se exausta. Aperfeiçoar o potencial da sua magia é a última coisa que lhe passa pela cabeça.

Por isso, Belle tinha imaginado um dia completamente diferente para o seu trigésimo aniversário: em vez de numa festa, ela dá por si a ter de provar, perante o clã de bruxas, que é digna da sua magia – se não, poderá perder os seus poderes para sempre. Com apenas um mês para resolver as coisas e todos os sinais a apontarem para a intervenção de forças obscuras, Belle vai precisar de toda a ajuda que conseguir – das mulheres da sua vida, de um mentor improvável e até de um irritante e atraente guardião do clã que jurou protegê-la..."


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Se não tivesse integrado um desafio de leituras, dificilmente teria pegado em Rewitched, de Lucy Jane Wood. A fantasia nunca foi um género que me despertasse grande interesse e, por isso, esta leitura representou uma saída da minha zona de conforto. Ainda assim, foi uma oportunidade para conhecer uma obra direcionada para um público muito específico e perceber o que a torna apelativa.
O romance combina elementos clássicos da fantasia: magia, feitiços, bruxas e um universo onde o sobrenatural faz parte do quotidiano, com uma narrativa leve e um toque de romance. A autora cria uma história acessível, privilegiando o entretenimento e o desenvolvimento pessoal da protagonista, que se vê confrontada com a descoberta de uma faceta da sua identidade que desconhecia e com os desafios que daí advêm.
A escrita é fluída e descontraída, tornando a leitura rápida e descomprometida. O enredo avança sem grandes complicações, recorrendo a vários ingredientes típicos do género, o que fará com que os leitores habituados a histórias de magia encontrem aqui muitos elementos familiares. Quem aprecia ambientes encantados, personagens peculiares e uma dose de romance encontrará, provavelmente, motivos para desfrutar desta leitura.
Pessoalmente, a história não alterou a minha relação com o género. Apesar de reconhecer o seu ritmo agradável e a forma como procura transmitir mensagens sobre autoconfiança, pertença e descoberta de si próprio, nunca consegui estabelecer uma verdadeira ligação com o universo fantástico que sustenta toda a narrativa. É, por isso, um daqueles casos em que a apreciação depende muito mais dos gostos de cada leitor do que da qualidade da obra em si.
Diria que Rewitched poderá conquistar sobretudo os leitores que procuram uma fantasia contemporânea, leve e reconfortante, onde a magia surge envolta numa atmosfera acolhedora e com uma componente romântica discreta. Parece-me também uma boa sugestão para leitores mais jovens, nomeadamente do 3.º ciclo, ou para quem esteja a dar os primeiros passos neste género literário, precisamente por apresentar uma narrativa acessível e despretensiosa.

Erlick, Nikki (2016). Campo de Papoilas. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Francisco Cortesão
N.º de páginas: 352
Início da leitura: 01/08/2026
Fim da leitura: 02/08/2026

**SINOPSE WOOK**
No coração do deserto da Califórnia, existe um lugar envolto em mistério, um lugar onde a dor pode ser silenciada, onde o luto desaparece. Chamam-lhe Campo de Papoilas. Uma clínica isolada, onde pessoas devastadas pela perda podem escolher adormecer durante semanas, deixando para trás a dor que tanto as consome. Mas, ao acordarem, algo pode ter mudado para sempre.

É neste sítio que os caminhos de quatro estranhos se cruzam, movidos pela mesma pergunta impossível: até que ponto estamos dispostos a abdicar da dor para sobreviver? Ava procura desesperadamente a irmã desaparecida. Ray carrega a culpa pela morte do irmão. Sasha tenta recomeçar após um passado que a assombra. Sky, a mais enigmática, esconde motivações muito próprias que podem ir além do alívio da dor. À medida que os seus caminhos se cruzam, cada um terá de confrontar aquilo que realmente significa lembrar e o que acontece quando começamos a esquecer.

Depois de A Medida, o livro que conquistou leitores em todo o mundo, Nikki Erlick regressa com uma história sobre amor, perda e como enfrentar a dor é o primeiro passo para a superar. Porque há dores que nos destroem. e outras que nos mantêm vivos.

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Campo de Papoilas, de Nikki Erlick, é um livro, cuja premissa é imediatamente apelativa: a existência de um lugar onde é possível adormecer durante um ou dois meses e despertar com o peso do luto atenuado. É impossível não nos interrogarmos sobre a tentação de recorrer a um lugar assim e sobre as implicações éticas e emocionais de uma solução aparentemente tão simples para uma das experiências mais universais da condição humana.
É precisamente essa reflexão que torna o romance interessante nas suas primeiras páginas. A autora convida-nos a pensar na forma como lidamos com a perda, na inevitabilidade da dor e no desejo de encontrar um atalho para o sofrimento. O Campo de Papoilas assume, assim, um carácter quase simbólico, representando a esperança de que o tempo possa fazer, em poucas semanas, aquilo que por vezes leva anos a acontecer.
Ao longo da narrativa, acompanhamos várias personagens cujas vidas acabam por convergir em torno desse lugar. Cada uma transporta as suas próprias feridas, expetativas e motivações, oferecendo diferentes perspetivas sobre o luto e a forma como este molda as relações humanas. Contudo, é precisamente nesta multiplicidade de histórias que o romance, em certos momentos, perde alguma da sua força. A atenção dedicada aos percursos individuais e aos inúmeros detalhes de cada personagem acaba por dispersar o foco narrativo, tornando a leitura menos envolvente do que a premissa inicial fazia antever.
Fica a sensação de que o conceito central poderia ter sido explorado de forma mais profunda e concentrada. Em vez de privilegiar um conjunto tão alargado de vozes, talvez a narrativa tivesse ganho maior impacto emocional se se detivesse mais nas implicações do próprio Campo de Papoilas e na transformação interior daqueles que decidem atravessar essa experiência.
Ainda assim, Nikki Erlick escreve com sensibilidade e levanta questões pertinentes sobre a memória, a ausência e o processo de aceitação. Convida o leitor a refletir sobre a importância da dor no percurso da vida e sobre o delicado equilíbrio entre recordar e seguir em frente.

Jim (2026). Um Livro Esquecido Num Banco. Alfragide: Edições ASA. 

Ilustração: Mig
Tradução: Helena Guimarães
N.º de páginas: 112
Início e fim da leitura: 01/08/2026

**SINOPSE WOOK**
"Camélia está sentada num banco. Ao seu lado, encontra-se um livro lá pousado, abandonado. Ela começa a folheá-lo. No interior do livro, uma palavra, pela mão de um desconhecido, convida-a a levá-lo…

Em sua casa, Camélia descobre que algumas palavras parecem estar rodeadas, formando frases… O desconhecido diz sentir-se entediado com a sua vida quotidiana, sonhando com uma vida amorosa intensa e desconcertante, como só se lê nos romances. "Mas quantos de nós não sonham com uma vida igual à dos romances?" Camélia rodeia seis palavras em resposta: "nós", "somos", "dois", "você", "e", "eu"… E volta a pousar o pequeno livro sobre um banco…

Na época das mensagens de telemóvel e dos e-books, Um Livro Esquecido num Banco é uma história encantadora entre dois apaixonados por livros… Uma conexão epistolar terna e cativante, em contracorrente do mundo digital contemporâneo."

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Há livros que nos recordam que, por vezes, basta um pequeno acaso para alterar o rumo de uma vida. Um Livro Esquecido num Banco, de Jim, parte precisamente dessa premissa simples: um livro abandonado num banco de jardim, encontrado por Camélia, torna-se o ponto de partida para uma narrativa delicada sobre o amor, o destino e a necessidade de encontrarmos aquilo que verdadeiramente nos faz felizes.
Ao começar a ler o exemplar que encontrou, Camélia depara-se com um pormenor insólito: algumas palavras encontram-se destacadas e, quando reunidas, revelam uma mensagem inesperada. Esse pequeno mistério desperta-lhe a curiosidade e acaba por desencadear uma reflexão mais profunda sobre a sua própria vida. Aos poucos, apercebe-se de que a relação em que vive já não corresponde às suas aspirações e de que existe um vazio difícil de ignorar, aquele indefinível je ne sais quoi que tantas vezes procuramos sem lhe conseguirmos dar um nome.
A partir daí, a história evolui de forma natural, recorrendo a uma troca de mensagens escondidas nas páginas do livro, num jogo de encontros e desencontros que prende o leitor sem recorrer a grandes artifícios. O mistério em torno da identidade do autor dessas palavras é conduzido com equilíbrio, mantendo a curiosidade até ao final, sem nunca perder de vista a dimensão emocional das personagens.
Jim constrói uma narrativa intimista, feita de silêncios, gestos e pequenas coincidências que parecem improváveis, mas que, no contexto da obra, surgem com uma autenticidade desarmante. Mais do que uma história romântica, esta é uma reflexão sobre as escolhas que fazemos, a coragem necessária para abandonar a rotina quando ela deixa de nos preencher e a importância de estarmos disponíveis para acolher o inesperado.
Também o desenho merece destaque. O traço expressivo e as cores suaves contribuem para a atmosfera melancólica e simultaneamente esperançosa que percorre toda a obra. A componente visual complementa o texto com grande sensibilidade, transmitindo todas as emoções que o livro encerra.











Poszepczyńska, Anna (2026). Três Irmãs. Prior Velho: A Seita.
Tradução do inglês: Pedro Cleto
N.º de páginas: 136
Início da leitura: 30/07/2026
Fim da leitura: 31/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Três irmãs vivem numa cidade pequena da Polónia. A mais nova, Dominika, está gravemente doente. Não fala nem anda, e precisa de ajuda todos os momentos da sua vida. As irmãs, Olza e Lena, tentam conciliar o trabalho com os cuidados que prestam 24 horas por dia a Domi. Um dia, surge a oportunidade de se mudarem para um centro de reabilitação. No entanto, as irmãs têm sentimentos diferentes sobre a perspectiva da mudança...

Um romance gráfico sensível, terno e terrivelmente realista, sem sentimentalismos, e que não julga os actos que nele decorrem.

Esta obra inaugura a colecção Bursztyn / Âmbar, que procura trazer para o nosso país o que de melhor se faz em BD na Polónia, numa parceria com a editora polaca Timof Comics e com o Festival Internacional de Comics de Lódz (ao abrigo do apoio à edição no âmbito do PRR)."

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Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska, é uma novela gráfica de grande intensidade emocional que aborda, com muita sensibilidade e realismo, uma realidade tantas vezes invisível: a vida de quem cuida. Situada numa pequena cidade da Polónia, a narrativa centra-se na relação entre três irmãs, revelando a forma como a doença de uma delas redefine o quotidiano e, inevitavelmente, transforma a vida das restantes.
Longe de apresentar uma visão romantizada da dedicação ao outro, a autora constrói um retrato frontal do papel de cuidador. Através das vivências das personagens, somos confrontados com o desgaste físico e emocional, a sobrecarga permanente, as renúncias pessoais e os sentimentos contraditórios que acompanham quem assume, diariamente, a responsabilidade de cuidar de alguém totalmente dependente. O amor e a entrega coexistem com o cansaço, a frustração, a culpa e, por vezes, até com a revolta, numa abordagem que se destaca precisamente pela sua autenticidade.
O impacto da obra resulta não apenas da força da história, mas também da forma como o texto e a componente visual se complementam. A expressividade das ilustrações intensifica as emoções e comunica, muitas vezes sem necessidade de palavras, o silêncio, a exaustão e a solidão que envolvem as personagens. Cada página transmite uma carga emocional que convida o leitor a abrandar o ritmo da leitura e a refletir sobre uma realidade frequentemente vivida entre quatro paredes e longe do olhar da sociedade.
A narrativa evidencia como o cuidado continuado pode consumir quem o presta, levantando questões importantes sobre os limites da resistência humana, a necessidade de apoio aos cuidadores informais e o difícil equilíbrio entre o dever, o afeto e a preservação da própria identidade.

Tamaro, Susanna (2026). O Vento Sopra Onde Quer. Barcarena: Editorial Presença.

Tradução: Maria Ferro
N.º de páginas: 200
Início da leitura: 29/07/2026
Fim da leitura: 30/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Três cartas escritas do coração, um segredo e um legado.

Quando a vida começa a revelar a sua fragilidade, Chiara, à beira dos sessenta anos, decide fazer aquilo que nunca teve coragem de fazer antes: dizer a verdade. Então, escreve três cartas. à filha que escolheu. à filha que deu à luz. e ao homem com quem construiu uma vida.

Ao revisitar o passado, Chiara confronta-se com as escolhas que a moldaram, os silêncios que a afastaram dos outros e os amores que nunca soube proteger. Entre memórias, culpas e gestos de ternura, emerge o retrato de uma família marcada por ligações profundas e pelas feridas que persistem.

Com a sensibilidade única que conquistou milhões de leitores, Susanna Tamaro regressa com um romance íntimo e luminoso sobre aquilo que nos une, nos transforma e, por vezes, nos salva."

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O Vento Sopra Onde Quer, de Susanna Tamaro, é um romance profundamente intimista, construído em torno da memória, da identidade e dos laços familiares. Através de uma estrutura epistolar, a autora convida o leitor a entrar no universo interior de uma mulher que, aos sessenta anos, decide revisitar a sua vida, escrevendo a três das pessoas que mais marcaram o seu percurso de vida. É nesse exercício de revisitação que se desenrola uma narrativa de grande intensidade emocional, feita de recordações, dúvidas, arrependimentos e afetos.
O recurso à primeira pessoa confere uma autenticidade muito particular ao relato, criando a sensação de que o leitor é o destinatário privilegiado de uma confidência. Carta após carta, a protagonista revela episódios decisivos da sua existência, refletindo sobre a infância, a relação com os pais, o casamento, a maternidade e as circunstâncias que moldaram a mulher em que se tornou. Mais do que contar acontecimentos, procura compreendê-los, atribuindo-lhes um significado à luz da experiência acumulada ao longo dos anos.
Susanna Tamaro demonstra, uma vez mais, a sua reconhecida capacidade para explorar a complexidade da condição humana. Com uma escrita delicada, depurada e muito reflexiva, aborda temas universais como a procura de pertença, o peso da herança familiar, a influência da genética e da educação na construção da identidade, bem como a permanente tensão entre aquilo que recebemos da vida e aquilo que escolhemos fazer com esse legado.
A narrativa desenvolve-se num ritmo pausado, privilegiando a introspeção em detrimento da ação. É um livro que exige disponibilidade para escutar as inquietações da protagonista e acompanhar o seu processo de autoconhecimento, recompensando o leitor com reflexões que permanecem para além da leitura. 

Walter, Jess (2014). A Bela Americana. Lisboa: Edições ASA.

Tradução: Elsa T. S. Vieira
N.º de páginas: 360
Início da leitura: 27/07/2026
Fim da leitura: 29/07/2026

**SINOPSE WOOK**
Pasquale é um italiano sonhador. Tem 20 anos, vive numa aldeia costeira no mar da Ligúria, é dono do hotel local. Está na praia no dia em que uma inesperada hóspede chega de barco. É uma americana alta, frágil, de uma beleza aparentemente banal. Vai caminhando hesitante pelo cais, aproxima-se, até que se vira e o olha de frente. E o seu rosto, visto no ângulo certo, é o rosto perfeito. E o momento, aquele momento - perceberá Pasquale mais tarde -, vai durar uma vida inteira. Desde a primeira página, percebemos que A Bela Americana é um romance invulgar. Porque nos dá a ler um diário perdido, de cortar o coração. Porque nos fala de um músico vergado ao álcool e desesperado por se reencontrar. Porque nos revela um Richard Burton torturado pelo amor de Elisabeth Taylor nas filmagens de Cleópatra. E porque todas essas personagens, tão imperfeitas, tão impossivelmente românticas, estão misteriosamente ligadas umas às outras. E todas elas existem apenas porque, um dia, a bela americana desapareceu sem deixar rasto. E porque um italiano sonhador, passado meio século, cruzou o Atlântico na esperança de a reencontrar.

Jess Walter assina aqui o seu melhor romance até à data. Traduzido em 28 países, A Bela Americana foi incluído na selecção de Melhores Livros do Ano.

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A Bela Americana, de Jess Walter, é um romance que seduz desde as primeiras páginas pela atmosfera que cria e pela capacidade de transportar o leitor entre universos tão distintos quanto complementares. De um lado, encontramos a serenidade de uma pequena localidade da Ligúria, nos anos 60, onde um modesto hotel, acessível apenas por mar, parece viver suspenso no tempo. Do outro, surge o brilho intenso e muitas vezes ilusório de Hollywood, palco de ambições, aparências e sonhos de grandeza.
É neste cenário italiano, marcado pela beleza das paisagens e pelo ritmo pausado da vida costeira, que conhecemos Pasquale, um jovem hoteleiro que alimenta projetos para o futuro e deseja dar um novo rumo ao pequeno hotel que herdou. A chegada de uma misteriosa hóspede americana altera subtilmente o equilíbrio daquele lugar e desencadeia uma sucessão de acontecimentos que atravessará décadas, ligando destinos improváveis e revelando a forma como um único encontro pode ecoar ao longo de uma vida.
Jess Walter constrói uma narrativa rica em contrastes, alternando entre a simplicidade genuína da costa italiana e a artificialidade fascinante da indústria cinematográfica norte-americana. Essa mudança constante de cenários imprime um dinamismo muito próprio ao romance, sem nunca comprometer a profundidade das personagens nem a consistência da história. O autor explora com grande sensibilidade temas como o amor, a esperança, a desilusão, o peso das escolhas e a distância entre aquilo que sonhamos e aquilo que a realidade nos permite alcançar.
A escrita é elegante, envolvente e marcada por um humor subtil que equilibra os momentos de maior carga emocional. As descrições da Ligúria são particularmente conseguidas, fazendo sobressair a beleza natural da região e transformando a paisagem num elemento quase tão importante quanto as próprias personagens. Em contraste, Hollywood surge retratada com ironia e alguma nostalgia, revelando o fascínio, mas também as fragilidades de um mundo construído em torno da imagem e da ilusão.
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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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