Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Erlick, Nikki (2016). Campo de Papoilas. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Francisco Cortesão
N.º de páginas: 352
Início da leitura: 01/08/2026
Fim da leitura: 02/08/2026

**SINOPSE WOOK**
No coração do deserto da Califórnia, existe um lugar envolto em mistério, um lugar onde a dor pode ser silenciada, onde o luto desaparece. Chamam-lhe Campo de Papoilas. Uma clínica isolada, onde pessoas devastadas pela perda podem escolher adormecer durante semanas, deixando para trás a dor que tanto as consome. Mas, ao acordarem, algo pode ter mudado para sempre.

É neste sítio que os caminhos de quatro estranhos se cruzam, movidos pela mesma pergunta impossível: até que ponto estamos dispostos a abdicar da dor para sobreviver? Ava procura desesperadamente a irmã desaparecida. Ray carrega a culpa pela morte do irmão. Sasha tenta recomeçar após um passado que a assombra. Sky, a mais enigmática, esconde motivações muito próprias que podem ir além do alívio da dor. À medida que os seus caminhos se cruzam, cada um terá de confrontar aquilo que realmente significa lembrar e o que acontece quando começamos a esquecer.

Depois de A Medida, o livro que conquistou leitores em todo o mundo, Nikki Erlick regressa com uma história sobre amor, perda e como enfrentar a dor é o primeiro passo para a superar. Porque há dores que nos destroem. e outras que nos mantêm vivos.

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Campo de Papoilas, de Nikki Erlick, é um livro, cuja premissa é imediatamente apelativa: a existência de um lugar onde é possível adormecer durante um ou dois meses e despertar com o peso do luto atenuado. É impossível não nos interrogarmos sobre a tentação de recorrer a um lugar assim e sobre as implicações éticas e emocionais de uma solução aparentemente tão simples para uma das experiências mais universais da condição humana.
É precisamente essa reflexão que torna o romance interessante nas suas primeiras páginas. A autora convida-nos a pensar na forma como lidamos com a perda, na inevitabilidade da dor e no desejo de encontrar um atalho para o sofrimento. O Campo de Papoilas assume, assim, um carácter quase simbólico, representando a esperança de que o tempo possa fazer, em poucas semanas, aquilo que por vezes leva anos a acontecer.
Ao longo da narrativa, acompanhamos várias personagens cujas vidas acabam por convergir em torno desse lugar. Cada uma transporta as suas próprias feridas, expetativas e motivações, oferecendo diferentes perspetivas sobre o luto e a forma como este molda as relações humanas. Contudo, é precisamente nesta multiplicidade de histórias que o romance, em certos momentos, perde alguma da sua força. A atenção dedicada aos percursos individuais e aos inúmeros detalhes de cada personagem acaba por dispersar o foco narrativo, tornando a leitura menos envolvente do que a premissa inicial fazia antever.
Fica a sensação de que o conceito central poderia ter sido explorado de forma mais profunda e concentrada. Em vez de privilegiar um conjunto tão alargado de vozes, talvez a narrativa tivesse ganho maior impacto emocional se se detivesse mais nas implicações do próprio Campo de Papoilas e na transformação interior daqueles que decidem atravessar essa experiência.
Ainda assim, Nikki Erlick escreve com sensibilidade e levanta questões pertinentes sobre a memória, a ausência e o processo de aceitação. Convida o leitor a refletir sobre a importância da dor no percurso da vida e sobre o delicado equilíbrio entre recordar e seguir em frente.

Jim (2026). Um Livro Esquecido Num Banco. Alfragide: Edições ASA. 

Ilustração: Mig
Tradução: Helena Guimarães
N.º de páginas: 112
Início e fim da leitura: 01/08/2026

**SINOPSE WOOK**
"Camélia está sentada num banco. Ao seu lado, encontra-se um livro lá pousado, abandonado. Ela começa a folheá-lo. No interior do livro, uma palavra, pela mão de um desconhecido, convida-a a levá-lo…

Em sua casa, Camélia descobre que algumas palavras parecem estar rodeadas, formando frases… O desconhecido diz sentir-se entediado com a sua vida quotidiana, sonhando com uma vida amorosa intensa e desconcertante, como só se lê nos romances. "Mas quantos de nós não sonham com uma vida igual à dos romances?" Camélia rodeia seis palavras em resposta: "nós", "somos", "dois", "você", "e", "eu"… E volta a pousar o pequeno livro sobre um banco…

Na época das mensagens de telemóvel e dos e-books, Um Livro Esquecido num Banco é uma história encantadora entre dois apaixonados por livros… Uma conexão epistolar terna e cativante, em contracorrente do mundo digital contemporâneo."

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Há livros que nos recordam que, por vezes, basta um pequeno acaso para alterar o rumo de uma vida. Um Livro Esquecido num Banco, de Jim, parte precisamente dessa premissa simples: um livro abandonado num banco de jardim, encontrado por Camélia, torna-se o ponto de partida para uma narrativa delicada sobre o amor, o destino e a necessidade de encontrarmos aquilo que verdadeiramente nos faz felizes.
Ao começar a ler o exemplar que encontrou, Camélia depara-se com um pormenor insólito: algumas palavras encontram-se destacadas e, quando reunidas, revelam uma mensagem inesperada. Esse pequeno mistério desperta-lhe a curiosidade e acaba por desencadear uma reflexão mais profunda sobre a sua própria vida. Aos poucos, apercebe-se de que a relação em que vive já não corresponde às suas aspirações e de que existe um vazio difícil de ignorar, aquele indefinível je ne sais quoi que tantas vezes procuramos sem lhe conseguirmos dar um nome.
A partir daí, a história evolui de forma natural, recorrendo a uma troca de mensagens escondidas nas páginas do livro, num jogo de encontros e desencontros que prende o leitor sem recorrer a grandes artifícios. O mistério em torno da identidade do autor dessas palavras é conduzido com equilíbrio, mantendo a curiosidade até ao final, sem nunca perder de vista a dimensão emocional das personagens.
Jim constrói uma narrativa intimista, feita de silêncios, gestos e pequenas coincidências que parecem improváveis, mas que, no contexto da obra, surgem com uma autenticidade desarmante. Mais do que uma história romântica, esta é uma reflexão sobre as escolhas que fazemos, a coragem necessária para abandonar a rotina quando ela deixa de nos preencher e a importância de estarmos disponíveis para acolher o inesperado.
Também o desenho merece destaque. O traço expressivo e as cores suaves contribuem para a atmosfera melancólica e simultaneamente esperançosa que percorre toda a obra. A componente visual complementa o texto com grande sensibilidade, transmitindo todas as emoções que o livro encerra.











Poszepczyńska, Anna (2026). Três Irmãs. Prior Velho: A Seita.
Tradução do inglês: Pedro Cleto
N.º de páginas: 136
Início da leitura: 30/07/2026
Fim da leitura: 31/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Três irmãs vivem numa cidade pequena da Polónia. A mais nova, Dominika, está gravemente doente. Não fala nem anda, e precisa de ajuda todos os momentos da sua vida. As irmãs, Olza e Lena, tentam conciliar o trabalho com os cuidados que prestam 24 horas por dia a Domi. Um dia, surge a oportunidade de se mudarem para um centro de reabilitação. No entanto, as irmãs têm sentimentos diferentes sobre a perspectiva da mudança...

Um romance gráfico sensível, terno e terrivelmente realista, sem sentimentalismos, e que não julga os actos que nele decorrem.

Esta obra inaugura a colecção Bursztyn / Âmbar, que procura trazer para o nosso país o que de melhor se faz em BD na Polónia, numa parceria com a editora polaca Timof Comics e com o Festival Internacional de Comics de Lódz (ao abrigo do apoio à edição no âmbito do PRR)."

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Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska, é uma novela gráfica de grande intensidade emocional que aborda, com muita sensibilidade e realismo, uma realidade tantas vezes invisível: a vida de quem cuida. Situada numa pequena cidade da Polónia, a narrativa centra-se na relação entre três irmãs, revelando a forma como a doença de uma delas redefine o quotidiano e, inevitavelmente, transforma a vida das restantes.
Longe de apresentar uma visão romantizada da dedicação ao outro, a autora constrói um retrato frontal do papel de cuidador. Através das vivências das personagens, somos confrontados com o desgaste físico e emocional, a sobrecarga permanente, as renúncias pessoais e os sentimentos contraditórios que acompanham quem assume, diariamente, a responsabilidade de cuidar de alguém totalmente dependente. O amor e a entrega coexistem com o cansaço, a frustração, a culpa e, por vezes, até com a revolta, numa abordagem que se destaca precisamente pela sua autenticidade.
O impacto da obra resulta não apenas da força da história, mas também da forma como o texto e a componente visual se complementam. A expressividade das ilustrações intensifica as emoções e comunica, muitas vezes sem necessidade de palavras, o silêncio, a exaustão e a solidão que envolvem as personagens. Cada página transmite uma carga emocional que convida o leitor a abrandar o ritmo da leitura e a refletir sobre uma realidade frequentemente vivida entre quatro paredes e longe do olhar da sociedade.
A narrativa evidencia como o cuidado continuado pode consumir quem o presta, levantando questões importantes sobre os limites da resistência humana, a necessidade de apoio aos cuidadores informais e o difícil equilíbrio entre o dever, o afeto e a preservação da própria identidade.

Tamaro, Susanna (2026). O Vento Sopra Onde Quer. Barcarena: Editorial Presença.

Tradução: Maria Ferro
N.º de páginas: 200
Início da leitura: 29/07/2026
Fim da leitura: 30/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Três cartas escritas do coração, um segredo e um legado.

Quando a vida começa a revelar a sua fragilidade, Chiara, à beira dos sessenta anos, decide fazer aquilo que nunca teve coragem de fazer antes: dizer a verdade. Então, escreve três cartas. à filha que escolheu. à filha que deu à luz. e ao homem com quem construiu uma vida.

Ao revisitar o passado, Chiara confronta-se com as escolhas que a moldaram, os silêncios que a afastaram dos outros e os amores que nunca soube proteger. Entre memórias, culpas e gestos de ternura, emerge o retrato de uma família marcada por ligações profundas e pelas feridas que persistem.

Com a sensibilidade única que conquistou milhões de leitores, Susanna Tamaro regressa com um romance íntimo e luminoso sobre aquilo que nos une, nos transforma e, por vezes, nos salva."

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O Vento Sopra Onde Quer, de Susanna Tamaro, é um romance profundamente intimista, construído em torno da memória, da identidade e dos laços familiares. Através de uma estrutura epistolar, a autora convida o leitor a entrar no universo interior de uma mulher que, aos sessenta anos, decide revisitar a sua vida, escrevendo a três das pessoas que mais marcaram o seu percurso de vida. É nesse exercício de revisitação que se desenrola uma narrativa de grande intensidade emocional, feita de recordações, dúvidas, arrependimentos e afetos.
O recurso à primeira pessoa confere uma autenticidade muito particular ao relato, criando a sensação de que o leitor é o destinatário privilegiado de uma confidência. Carta após carta, a protagonista revela episódios decisivos da sua existência, refletindo sobre a infância, a relação com os pais, o casamento, a maternidade e as circunstâncias que moldaram a mulher em que se tornou. Mais do que contar acontecimentos, procura compreendê-los, atribuindo-lhes um significado à luz da experiência acumulada ao longo dos anos.
Susanna Tamaro demonstra, uma vez mais, a sua reconhecida capacidade para explorar a complexidade da condição humana. Com uma escrita delicada, depurada e muito reflexiva, aborda temas universais como a procura de pertença, o peso da herança familiar, a influência da genética e da educação na construção da identidade, bem como a permanente tensão entre aquilo que recebemos da vida e aquilo que escolhemos fazer com esse legado.
A narrativa desenvolve-se num ritmo pausado, privilegiando a introspeção em detrimento da ação. É um livro que exige disponibilidade para escutar as inquietações da protagonista e acompanhar o seu processo de autoconhecimento, recompensando o leitor com reflexões que permanecem para além da leitura. 

Walter, Jess (2014). A Bela Americana. Lisboa: Edições ASA.

Tradução: Elsa T. S. Vieira
N.º de páginas: 360
Início da leitura: 27/07/2026
Fim da leitura: 29/07/2026

**SINOPSE WOOK**
Pasquale é um italiano sonhador. Tem 20 anos, vive numa aldeia costeira no mar da Ligúria, é dono do hotel local. Está na praia no dia em que uma inesperada hóspede chega de barco. É uma americana alta, frágil, de uma beleza aparentemente banal. Vai caminhando hesitante pelo cais, aproxima-se, até que se vira e o olha de frente. E o seu rosto, visto no ângulo certo, é o rosto perfeito. E o momento, aquele momento - perceberá Pasquale mais tarde -, vai durar uma vida inteira. Desde a primeira página, percebemos que A Bela Americana é um romance invulgar. Porque nos dá a ler um diário perdido, de cortar o coração. Porque nos fala de um músico vergado ao álcool e desesperado por se reencontrar. Porque nos revela um Richard Burton torturado pelo amor de Elisabeth Taylor nas filmagens de Cleópatra. E porque todas essas personagens, tão imperfeitas, tão impossivelmente românticas, estão misteriosamente ligadas umas às outras. E todas elas existem apenas porque, um dia, a bela americana desapareceu sem deixar rasto. E porque um italiano sonhador, passado meio século, cruzou o Atlântico na esperança de a reencontrar.

Jess Walter assina aqui o seu melhor romance até à data. Traduzido em 28 países, A Bela Americana foi incluído na selecção de Melhores Livros do Ano.

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A Bela Americana, de Jess Walter, é um romance que seduz desde as primeiras páginas pela atmosfera que cria e pela capacidade de transportar o leitor entre universos tão distintos quanto complementares. De um lado, encontramos a serenidade de uma pequena localidade da Ligúria, nos anos 60, onde um modesto hotel, acessível apenas por mar, parece viver suspenso no tempo. Do outro, surge o brilho intenso e muitas vezes ilusório de Hollywood, palco de ambições, aparências e sonhos de grandeza.
É neste cenário italiano, marcado pela beleza das paisagens e pelo ritmo pausado da vida costeira, que conhecemos Pasquale, um jovem hoteleiro que alimenta projetos para o futuro e deseja dar um novo rumo ao pequeno hotel que herdou. A chegada de uma misteriosa hóspede americana altera subtilmente o equilíbrio daquele lugar e desencadeia uma sucessão de acontecimentos que atravessará décadas, ligando destinos improváveis e revelando a forma como um único encontro pode ecoar ao longo de uma vida.
Jess Walter constrói uma narrativa rica em contrastes, alternando entre a simplicidade genuína da costa italiana e a artificialidade fascinante da indústria cinematográfica norte-americana. Essa mudança constante de cenários imprime um dinamismo muito próprio ao romance, sem nunca comprometer a profundidade das personagens nem a consistência da história. O autor explora com grande sensibilidade temas como o amor, a esperança, a desilusão, o peso das escolhas e a distância entre aquilo que sonhamos e aquilo que a realidade nos permite alcançar.
A escrita é elegante, envolvente e marcada por um humor subtil que equilibra os momentos de maior carga emocional. As descrições da Ligúria são particularmente conseguidas, fazendo sobressair a beleza natural da região e transformando a paisagem num elemento quase tão importante quanto as próprias personagens. Em contraste, Hollywood surge retratada com ironia e alguma nostalgia, revelando o fascínio, mas também as fragilidades de um mundo construído em torno da imagem e da ilusão.

Rodrigues, José (2017). Voltar a Ti. Porto: Coolbooks.

N.º de páginas: 272
Início da leitura: 26/07/2026
Fim da leitura: 27/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"«O amor não é sentimento para repousos longos e confiantes, mas, como acontece com todas as coisas intensas deste mundo, é uma das fontes maiores da felicidade humana.»

Constança divide os seus dias entre dois mundos. Na cidade grande do Norte, dedica-se ao trabalho e a Guilherme, o companheiro com quem reparte os planos para o futuro. Na sua pequena aldeia do interior, encontra a doçura das memórias de infância e o carinho dos pais, enquanto apoia e conforta o irmão mais velho, Luís, recentemente regressado a casa, onde procura recuperar de um profundo desgosto.

Um inesperado desafio profissional força-a a alterar as rotinas. Se a distância geográfica a obriga a reconstruir a sua presença habitual entre os dois lugares, sentimentos novos e inesperados abrem-lhe um caminho até agora desconhecido pelo seu coração.

Entre a tragédia e a perda, o amor e a saudade, o novo mundo de Constança surge de forma intensa, surpreendendo-a a cada passo e a cada incerteza. Com ele, a sua reconstrução interior e também a espera, sempre paciente, pela felicidade…"

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Voltar a Ti é um romance onde as emoções se afirmam de forma discreta, mas persistente, convidando o leitor a acompanhar um percurso marcado por encontros, desencontros e pela inevitabilidade das perdas que moldam a existência. José Rodrigues constrói uma narrativa que privilegia a dimensão humana das personagens e a forma como estas enfrentam o peso das escolhas, da memória e do tempo.
A escrita revela um cuidado evidente na escolha das palavras, mantendo sempre uma linguagem elegante, equilibrada e de leitura muito fluida. Há um ritmo sereno que permite que a história se desenvolva naturalmente, deixando espaço para a reflexão e para a identificação com os sentimentos que atravessam as páginas. O autor demonstra sensibilidade na forma como aborda as relações humanas, explorando as suas fragilidades e a capacidade de resistência perante a adversidade.
Mais do que uma sucessão de acontecimentos, Voltar a Ti propõe uma viagem interior, onde cada episódio contribui para aprofundar o retrato emocional das personagens. O leitor é levado a questionar a influência do passado nas decisões do presente e a reconhecer que, por vezes, regressar pode significar muito mais do que voltar a um lugar ou a uma pessoa: pode representar um reencontro consigo próprio.
José Rodrigues consegue transmitir autenticidade e proximidade, tornando a leitura envolvente do início ao fim. É um romance que privilegia as emoções genuínas e a complexidade dos afetos, deixando ao leitor espaço para interpretar e sentir, em vez de lhe impor respostas ou conclusões.

Keegan, Claire (2022). Pequenas Coisas Como Estas. Lisboa: Relógio D'Água Editores.
Tradução: Inês Dias
N.º de páginas: 96
Início da leitura: 25/07/2026
Fim da leitura: 26/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Estamos em 1985, numa pequena cidade irlandesa. A autora narra-nos a vida de Bill Furlong, um comerciante de carvão e pai de família.

Uma manhã, ainda muito cedo, quando vai entregar uma encomenda no convento local, Bill faz uma descoberta que o leva a confrontar-se com o passado e os complicados silêncios de uma povoação controlada pela Igreja."

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Pequenas Coisas Como Estas confirma a extraordinária capacidade de Claire Keegan para dizer muito com muito pouco. Em poucas páginas, a autora constrói uma narrativa de enorme densidade emocional, onde o peso das palavras reside tanto no que é dito como no que permanece por dizer.
A história decorre na Irlanda de 1985, numa pequena comunidade onde a rotina e as convenções sociais parecem imutáveis. É neste contexto que acompanhamos Bill Furlong, um homem íntegro, dedicado à família e ao trabalho, cuja vida sofre um abalo ao confrontar-se com uma realidade que muitos preferem ignorar. A partir desse momento, o romance transforma-se numa reflexão subtil sobre a consciência individual, a responsabilidade moral e o preço de agir quando o silêncio é a atitude socialmente aceite.
Embora a narrativa evoque um dos capítulos mais sombrios da história irlandesa, como as tristemente célebres Lavandarias da Madalena, Claire Keegan evita o tom sensacionalista. Em vez disso, privilegia uma abordagem contida, deixando que os gestos, os silêncios e as hesitações das personagens transmitam toda a carga emocional da história. É precisamente essa contenção que torna o impacto da leitura ainda mais profundo.
A escrita é elegante, depurada e de uma precisão admirável. Não há excessos nem descrições supérfluas; cada frase parece cuidadosamente medida para servir a narrativa. A autora cria uma atmosfera melancólica e intimista, onde a simplicidade da linguagem contrasta com a complexidade dos dilemas éticos colocados ao protagonista.
Bill Furlong é uma personagem profundamente humana, construída com rara sensibilidade. As suas dúvidas, memórias e conflitos interiores conferem autenticidade à narrativa e convidam o leitor a questionar até que ponto teria a coragem de agir perante uma injustiça evidente. Mais do que um herói, é um homem comum confrontado com uma decisão que poderá definir a forma como olha para si próprio.
Pequenas Coisas Como Estas é uma novela de leitura breve, mas de enorme alcance. Fala de compaixão, de coragem e da responsabilidade individual perante o sofrimento alheio, ao mesmo tempo que lança um olhar crítico sobre o silêncio coletivo e o poder exercido por instituições que, durante demasiado tempo, permaneceram imunes ao escrutínio. É uma obra que permanece na memória muito depois de terminada, precisamente pela sobriedade com que aborda temas de enorme profundidade e pela humanidade que atravessa cada uma das suas páginas.

 Reid, Taylor Jenkins (2026). Uma Vida em Suspenso. Lisboa: Penguin.

Tradução: Marlene Campos
N.º de páginas: 336
Início da leitura: 23/07/2026
Fim da leitura: 25/07/2026

**SINOPSE WOOK**
Num Dia de Ano Novo chuvoso, Elsie Porter vai buscar uma pizza para o jantar. No restaurante, conhece o encantador Ben Ross, e a química entre os dois é imediata e elétrica, o que faz com que ele não espere um dia sequer para a convidar para sair. Em poucas semanas, estão perdidamente apaixonados. em maio, casam-se em segredo.

Nove dias depois, Ben sai de casa de bicicleta para ir comprar cereais e sofre um grave acidente. Quando Elsie começa a estranhar a demora, vai à procura dele e ouve as sirenes, mas, ao chegar ao local, percebe que ele já está a ser levado para o hospital. Aí, será confrontada com a dura realidade e terá de enfrentar Susan, a sogra que nunca conheceu e que nem sequer sabia da sua existência.

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Uma Vida em Suspenso é um romance que explora, com grande sensibilidade, o impacto devastador da perda e o difícil processo de reconstrução emocional que se lhe segue. Mais do que uma história sobre o luto, é uma reflexão sobre os laços que se criam de forma inesperada e sobre a possibilidade de encontrar algum sentido quando tudo parece ter deixado de o ter.
O ponto de partida da narrativa é particularmente interessante. Um casamento breve, mantido em segredo por um jovem casal, acaba por aproximar duas mulheres que nunca se tinham cruzado: a viúva e a mãe do homem que ambas perderam. Unidas pela mesma ausência, mas marcadas por vivências e formas de encarar a dor muito distintas, são obrigadas a confrontar-se não apenas com o vazio deixado pela perda, mas também com a descoberta de uma relação que desconheciam por completo.
Taylor Jenkins Reid constrói esta história com uma escrita delicada e equilibrada, evitando cair no excesso sentimental que um tema desta natureza facilmente poderia suscitar. As emoções surgem de forma natural, através das personagens, das suas fragilidades e da forma imperfeita como procuram seguir em frente. O romance privilegia os pequenos gestos, os silêncios e as mudanças subtis, tornando o percurso emocional das protagonistas credível e genuinamente comovente.
Embora o luto seja o eixo central da narrativa, o livro acaba por falar também de aceitação, perdão e da capacidade humana para criar novas ligações nos momentos mais inesperados. Sem recorrer a grandes reviravoltas ou a dramatismos artificiais, a autora demonstra que algumas das histórias mais marcantes são precisamente aquelas que se concentram nas emoções e nas relações entre as pessoas.
Uma Vida em Suspenso é, por isso, um romance emotivo, mas contido, que aborda temas universais com maturidade e autenticidade. Uma leitura que convida à reflexão e que deixa a sua marca não pela intensidade dos acontecimentos, mas pela humanidade das personagens e pela honestidade com que retrata o caminho, tantas vezes incerto, da superação.

Sveistrup, Søren (2026). A Cria de Cuco. Lisboa: Penguin.

Tradução: José Remelhe
N.º de páginas: 528
Início da leitura: 18/07/2026
Fim da leitura: 23/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Num frio e chuvoso Dia de São Valentim, uma mulher regressa a casa inquieta e apressada; há algum tempo que recebe mensagens de texto anónimas, e tem andado atenta a qualquer movimento à sua volta. Assim que chega a casa, coloca um novo cartão no telemóvel e avisa a filha do novo número. Por um momento, sente-se segura, até receber a notificação de uma nova mensagem, o que significa não só que não conseguiu escapar ao seu perseguidor, como também que ele está muito perto. Pouco depois, a mulher desaparece.

A investigação fica a cargo de Naia Thulin e Mark Hess. Este será o primeiro de vários casos que seguem um padrão muito semelhante, e Thulin e Hess não tardam a estabelecer a relação com o homicídio por resolver de uma estudante de dezanove anos e com um outro caso arquivado há mais de trinta anos, quando uma divertida excursão escolar se transformou num pesadelo em que uma criança foi morta e desmembrada, assim como uma cria de cuco. Todos os casos envolvem um perverso jogo de escondidas, acompanhado de uma lengalenga assustadora. Conseguirão Thulin e Hess encontrar quem está por trás deste jogo em que o prémio para quem é encontrado é nunca mais ser visto?"

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Depois do impacto que O Homem das Castanhas me causou, era inevitável iniciar a leitura de A Cria de Cuco com expetativas elevadas. Søren Sveistrup volta a demonstrar a sua capacidade para construir uma narrativa policial sólida, mas desta vez o resultado acaba por ser menos envolvente e menos memorável.
Ao contrário do romance anterior, que cativava desde as primeiras páginas pelo seu ritmo intenso e pelas imagens quase cinematográficas que evocava, A Cria de Cuco opta por uma progressão mais pausada. A investigação desenrola-se de forma meticulosa, exigindo uma atenção constante do leitor, sobretudo devido ao elevado número de personagens e às múltiplas ligações entre elas. Essa complexidade enriquece a construção do enredo, mas também torna a leitura menos fluida, especialmente na primeira metade do livro.
Sveistrup mantém a sua habitual atenção ao detalhe e a capacidade de criar um ambiente sombrio e inquietante, características que continuam a distinguir a sua escrita. No entanto, a tensão demora mais tempo a consolidar-se e os momentos de maior intensidade surgem de forma mais espaçada, o que faz com que o impacto global seja inferior ao da sua obra de estreia.
Ainda assim, trata-se de um thriller competente, bem estruturado e com uma resolução coerente, capaz de manter o interesse de quem aprecia investigações policiais de desenvolvimento gradual. Não é um livro que impressione pelo espetáculo ou pela ação constante, mas antes pela forma paciente como vai encaixando as diferentes peças do puzzle.
Talvez o maior obstáculo seja, precisamente, a inevitável comparação com O Homem das Castanhas. Esse romance estabeleceu um padrão muito elevado, quer pela tensão narrativa, quer pela força visual das suas cenas, e A Cria de Cuco dificilmente consegue atingir o mesmo nível de intensidade. Lido de forma isolada, continua a ser uma proposta interessante dentro do género; lido à sombra do seu antecessor, acaba por deixar a sensação de que lhe falta aquele elemento diferenciador que transforma um bom policial num livro verdadeiramente marcante.
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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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