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quarta-feira, 11 de julho de 2018

Célia Gil
Um poema meu em Itupeva, São Paulo! Achei o máximo!

terça-feira, 10 de julho de 2018

As Velas Ardem até ao Fim, Sándor Márai

Célia Gil

Márai, Sándor. As Velas Ardem até ao Fim. Lisboa: Dom Quixote. 2001.


     Uma obra traduzida por Mária Magdolna Demeter, As Velas Ardem até ao Fim de Sándor Márai, lê-se num ápice.  Além de pequeno, prende o leitor, que quer saber a história de dois amigos, Konrád e Henrik, que se reencontram na velhice.
     Henrik, um velho general que vive num castelo recôndito e decadente, na Hungria, aguarda ansiosamente o regresso do amigo de longa data e recorda os tempos passados, a sua família, a forma como acolheram Konrád, até à sua partida inesperada para os trópicos. Espera ver esclarecidas algumas dúvidas que não o deixarão descansar em paz, dúvidas que apresenta com laivos de uma vingança decorrente de traição. O seu melhor amigo não o tinha apenas traído com a esposa, tinha, sobretudo, traído a sua amizade, a cumplicidade as vivências que tiveram, de quem cresceu e formou a sua personalidade em conjunto, de quem foi dependente, de quem amou profundamente. Precisava compreender por que razão Konrád o quisera matar, durante uma caçada, e por que não o fizera.
     O momento do reencontro, 41 anos depois, descrito como: “Era o momento em que a noite se separa do dia, o mundo de baixo do mundo de cima. (…) É o último segundo em que a profundidade e a altura, a luz e a escuridão, tanto universal como humana, ainda se tocam (…)”, foi um momento marcado por longos silêncios, pelo monólogo de Henrik, a que Konrád responde no seu silêncio, por recordações dolorosas, pela reflexão sobre o valor da amizade, os segredos, a solidão decorrente do afastamento, a desilusão ante a “fuga” inesperada e a noção da inutilidade do ciúme, da vingança e dos remorsos. Uma longa conversa, em que “As Velas Ardem até ao Fim”. Um livro de Sándor Márai que não pode deixar de ler. 
                                                                                              Célia Gil
                                                                                                                                              

domingo, 1 de julho de 2018

A Porta, Magda Szabó

Célia Gil

Szabó, Magda. A Porta. Cavalo de Ferro.



         Um romance escrito pela húngara Magda Szabó, traduzido por Ernesto Rodrigues, conta-nos a estranha história de uma relação entre duas mulheres – a patroa, jovem escritora e a sua empregada, Emerence, já idosa.
         Quando contrata Emerence, Magda percebe que ela é diferente das outras empregadas. É ela que sujeita a patroa a um exame que a fará perceber se quer ou não trabalhar para Magda. Aliás, chega a afirmar “Não lavo a roupa suja de qualquer um”.
           É ela que estabelece as regras.
         Emerence é dura, rude, fria e enigmática, mas também muito trabalhadora, atenta, e surpreendentemente dedicada. É esta personalidade que faz com que seja respeitada e até temida pela vizinhança.
         Da sua vida pessoal, nada dá a saber, mantendo o seu passado em segredo, a sua vida fechada a sete chaves, atrás de uma porta que não abre para ninguém.
         Apesar da aparente impossibilidade de se entenderem, Magda e Emerence, dadas as suas diferenças (Magda é escritora, Emerence não lê, nem sequer jornais; Magda é religiosa, Emerence despreza a religião; Emerence não compreende o emprego de Magda enquanto escritora, pois, segundo ela, um emprego era algo que exigia esforço físico), não conseguimos deixar de ficar surpreendidos, perturbadoramente fascinados, quando percebemos a forte relação existente entre elas.
         Magda chega a dizer “Segui-a com os olhos perguntando-me porque se agarrava a mim, quando era tão diferente dela, não percebia do que ela gostava em mim. Eu já escrevia, era ainda jovem, não analisara a fundo até que ponto a paixão é um sentimento lógico, mortal, imprevisível…”
         O certo é que, aos poucos, estabeleceu-se entre elas uma amizade, ainda que comandada por Emerence, que vai dizendo até onde esta amizade pode ir.
         Até o cão de Magda é a Emerence que obedece, é a ela que vê como dona. O magnetismo que tem com o cão, a quem deu o nome de Viola, é o mesmo com que atrai Magda para a sua vida, para o seu mundo secreto, para a sua porta.
         O seu passado é desvendado aos poucos, como se também não quisesse ser dado a conhecer.
         A Porta é um romance escrito na primeira pessoa, com laivos de autobiografia, onde a própria Magda Szabó nos fala desta amizade e dos erros que considera que vai cometendo. Um romance imperdível. Este é o meu conselho de leitura.
                                                                                                   Célia Gil


sábado, 23 de junho de 2018

Carochinha moderna

Célia Gil


Um pequeno filme que aprendi a fazer no Studio Stop Motion, ainda muito simples. Mas foi divertido!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Esvaziamento do ser

Célia Gil

(https://unsplash.com/photos/ll3fwwExWc0)

Dulce estava consciente de que a vida galgava a um ritmo alucinante. Entre milhares de tarefas diárias, sentia se, no entanto, só. Na sua luta diária, tantas vezes incompreendida, onde criara o hábito de corresponder ao que queriam dela - ia às compras, preparava as refeições, arrumava, limpava, tratava da roupa, dos horários e... esperava. Aprendeu a esperar calada, porque tudo o que espontaneamente dizia, era erroneamente interpretado. E ai dela se ousasse queixar-se! Não fazia nada de mais, tomara muita gente! Tinha uma vida de rainha! E todos os dias as tarefas de todos os dias se repetiam ao som dos ponteiros de um relógio inimigo e imparável.
Dulce aprendeu a calar-se, a consentir, a assentir. Porém, aos poucos, foi deixando de ser, até se esvaziar qual autómato que se limita a responder a vozes de comando, uma boneca de trapos cada vez mais velha e inútil.
Os olhos foram apagando o brilho. As lágrimas secaram, deixando um olhar baço de desamor. Os seus olhos ainda seguiam o rasto do afastamento dos que amava. Afastavam-se sob falsos pretextos, vivendo vidas paralelas, onde ela deixara de pertencer, onde  fora remetida ao mesmo valor dos objetos da casa.
Deixara de ser, de se pertencer. Apagara-se-lhe a sede de viver, de sorrir com as pequenas coisas, de chorar com outras tantas. A porta fechava-se-lhe irremediavelmente por fora e por dentro e o lugar que habitava na alma fora escurecendo até deixar de o ver, de o sentir, de o temer nas suas penumbras, onde a ausência de tudo são paredes vazias de encontro às quais a alma embate.
E se  o coração ainda lhe bate, é porque tenta ignorar e não se consciencializa da ausência de vida que arrasta.
Dulce, numa vida tão amarga quanto a demência. Mais amarga que a demência, porque lhe resta uma lucidez que a faz continuar a ter consciência da sua degradação, do seu não eu. 

                                                                                                                      Célia Gil

domingo, 10 de junho de 2018

A Metamorfose, Franz Kafka

Célia Gil
Um romance duro, que nos faz questionar a vida, as escolhas, os caminhos que seguimos e as motivações que lhe são inerentes.


Kafka, Franz. A Metamorfose. Barcarena: Editorial Presença, 1996.


         Gregor, um caixeiro viajante que trabalhava muito, passando diariamente por imensas provações (“martírio das viagens impostas”, “preocupação de apanhar as ligações do comboio”, as refeições más e irregulares”, “um relacionamento humano instável” e muitas outras situações que nos levam a alguém desgastado por uma vida entregue ao trabalho), acorda como um inseto.
Tenta levantar-se para cumprir a sua rotina diária, mas não consegue. Pensa apenas em como dizer ao patrão que não conseguirá, pela primeira vez, cumprir com as suas obrigações. Um trabalho que mantém devido ao seu sentido de responsabilidade para com a família, que vive às suas custas. Mesmo na situação em que se encontra, tenta e pensa em como poderá levantar-se da cama e ir trabalhar. Perante o gerente, que vai lá a casa ver o que se passa e o porquê daquele atraso que nunca ocorrera antes, Gregor insiste que levará mais tempo, mas levantar-se-á, não admitindo a sua perfeita incapacidade para o fazer.
Desiste, quando vê que não consegue dar a volta à situação. Entristece-se quando ouve a família conversar sobre o orçamento familiar e o que terão de realizar para fazer face às dificuldades inerentes ao problema de Gregor. Sente-se completamente inútil.
Apesar desta metamorfose física exterior, esta animalidade que lhe impõe limites, permanece humano consciente, o que lhe permite conhecer melhor os pais e irmã. Tornado parasita, desmascara o parasitismo em que vivia a sua família, às suas custas. Através deste aprisionamento num animal – metáfora do inútil – liberta-se da vida que levava e, não sabendo lidar com ela, caminha para a fatalidade.

Esta é a minha sugestão de leitura, “A Metamorfose” de Franz Kafka, em que sou a Célia Gil

sexta-feira, 1 de junho de 2018

A Minha Pequena Livraria, Wendy Welch

Célia Gil



Welch, Wendy (2012). A Minha Pequena Livraria. Lisboa: Clube do Autor
  
     Hoje convido a entrar numa mansão eduardiana, um lugar mágico, que é uma pequena livraria de livros em segunda mão, que constituiu o sonho de Jack Beck e Wendy Welch, um sonho concretizado pelo casal, mais cedo do que previam. Vai, com toda a certeza, deixar-se surpreender pelo ambiente familiar, acompanhado de um chá, sob o olhar atento de dois gatos belíssimos. Aqui conhece uma história e, em troca, tem a possibilidade de dar a conhecer a sua.
     Poderia, com efeito, ter sido, logo à partida, um sonho concretizado com sucesso, não fosse o local escolhido uma pequena cidade mineira na Virgínia, no interior dos Estados Unidos, na qual estes novos habitantes eram olhados com desconfiança e vistos como responsáveis por um projeto falhado.
     Numa altura de recessão, onde se compra tudo pelo ebay, onde se começa a substituir o livro de papel por ipads, e-books e kindles, só quem fosse realmente louco pensaria em abrir uma livraria de livros usados. A acrescer a estes entraves, estava ainda o facto de não serem dali e, como tal, serem vistos como intrusos.
     Afinal, os sonhos dão muito trabalho – havia uma série de batalhas a serem travadas por este casal: onde arranjar os livros, se tinham gasto tanto dinheiro na casa? Como cativar potenciais clientes, num local onde eram vistos como forasteiros? Como deixar de ser invisível e adquirir projeção enquanto negócio? Como passar a pertencer àquela cidade e não apenas integrá-la?
     Termino este convite com a leitura de uma das muitas passagens de que gostei:
“Os livreiros, pelo menos até conseguirem ser replicados online, são o motivo por que as pequenas livrarias ainda existirão mesmo depois do último leviatão desaparecer, arpoado por um e-reader. As livrarias físicas são pontos de convergência para os espíritos e intelectos humanos. Os e-readers e as livrarias on-line não nos permitem contar a história por trás da compra de um determinado livro… Quando nos escutamos validamo-nos uns aos outros.”
   Esta sugestão de leitura foi feita por mim, que sou a Célia Gil e que também tive o privilégio de ter tido, numa determinada fase da minha vida, uma pequena livraria. Não deixem de ler A Minha Pequena Livraria, de Wendy Welch.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

O Monte dos Vendavais, Emily Brontë

Célia Gil

Brontë, Emily. O Monte dos Vendavais. Lisboa: Editorial Presença, 2009.




  
Tudo começa em 1801, com a chegada de Lockwood, um novo inquilino, à Herdade dos Tordos, para passar uma temporada nos ares do campo. Este dirige-se então à propriedade do Monte dos Vendavais, com o intuito de conhecer e falar com o Sr. Heathcliff sobre o aluguer da casa.
Acaba por se ver confrontado com pessoas que de hospitaleiras têm muito pouco, num ambiente hostil, onde reinam ódios antigos e mistérios. Devido a um temporal, é obrigado a passar a noite no Monte dos Vendavais, uma noite que não esquecerá, pois o quarto onde ficou a dormir está estranhamente repleto de livros assinados por Catherine Earnshaw. Acaba por sonhar com esta, um sonho tão real, que chega a ponderar ter visto o fantasma dela a bater-lhe na janela para entrar no quarto. Deste sonho e perante a reação de Heatcliff ao contar-lho,  tira a ilação da existência de um passado misterioso que o enche de curiosidade.
Ao regressar à Herdade dos Tordos, Lockwood solicita à governanta, Nelly, que lhe conte a história de Heathcliff. É com Nelly por narradora, que nós, leitores, somos conduzidos à estranha história passada de Heathcliff e Catherine e que estará na origem da hostilidade que se vive no Monte dos Vendavais.
Nelly conta-lhe que Heathcliff foi adoptado pelo Sr. Earnshaw (pai de Catherine e Hindley) e logo se tornou inseparável de Catherine e odiado por Hindley. Apesar de apaixonada por Heathcliff, Catherine acaba por casar com Linton e este facto leva ao desaparecimento de Heathcliff.
Este, volta, mais tarde, para se vingar.
Terá Heatcliff conseguido o que queria? Até onde poderia ir a sua vingança?
Não deixe de ler este livro, um clássico da literatura, envolvente, de um realismo perturbador. Se espera um romance com pessoas perfeitas, heróis típicos, desengane-se. São os seus defeitos e as suas atitudes, que tornam estas personagens tão surpreendentes.



segunda-feira, 16 de abril de 2018

Primavera

Célia Gil

Somos mesmo privilegiados! O esplendor do sol faz brilhar as pétalas das cerejeiras em flor e, ao fundo, a neve a estender o seu manto branco pelos montes que envolvem a Estrela. Assim se juntam inverno e primavera!





domingo, 15 de abril de 2018

Solidão

Célia Gil
Sento-me ao lado da solidão..
Tenho o peito a querer sair pela boca. 
"Não te quero desiludir, 
minha solidão,
Sigamos juntas, em silêncio, 
para não dizermos o que não queremos, 
para não nos magoarmos... 
Um dia, já velhinhas, 
talvez me deite no teu regaço  
e te aceite, 
de coração tranquilo, 
sem te questionar. 
Talvez eu até aprenda a amar-te. 
Agora, minha solidão  
ainda és um murro no estômago, 
ainda te sinto estrangeira de mim. 
Ainda me dói a tua presença
embora lamente tantas vezes
a tua ausência".
             Célia Gil 

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Comer, Orar, Amar

Célia Gil

Gilbert, Elizabeth (2006). Comer, Orar, Amar. Lisboa: Bertrand Editora.



     Ao fazer 30 anos, Liz Gilbert, apesar de ter tudo o que uma mulher americana moderna deveria querer: um marido, uma casa de campo e uma carreira de sucesso, não se sentia feliz, passando horas a chorar.
     Este livro é sobre a vida da própria autora, que acabou por pedir o divórcio para se reencontrar. Apreciadora de boa comida, descrente e infeliz no campo amoroso, Elizabeth resolve fazer o que quer: deixar tudo, vender à sua Editora um livro que iria escrever, para empreender uma viagem de um ano a Itália, onde procurou o prazer de comer; depois à Índia, onde indagou a sua fé e finalizaria na Indonésia, em Bali, onde esperava encontrar o seu equilíbrio, o seu eu, através do amor.
     O livro é, então, dividido em três partes, uma dedicada a cada país que Liz determinou visitar.
     Começou por Itália, onde se dedicou à aprendizagem da língua italiana, que já antes começara a aprender e que constituía uma paixão e ao prazer de comer, prazer hoje tantas vezes negado (para não engordar). Em Itália redescobre o prazer de estar viva e sai da depressão em que se encontrava.
     Na segunda parte, passada na Índia, Liz passa por um momento mais introspetivo, num país que, apesar de precário, possui uma fé inabalável, procurando, na fé, respostas às suas questões pessoais.
     Na Indonésia, terceira e última parte, procura o seu próprio equilíbrio. Aí encontra Felipe, um homem brasileiro, pelo qual se apaixona. Encontrará Liz em Felipe o seu equilíbrio?
     Não deixe de empreender esta viagem que, de algum modo, nos leva a questionar se não seremos nós responsáveis pelas escolhas e decisões que vamos fazendo ao longo da vida, pela nossa própria vida e felicidade? Porquê esperar que a dor passe sem mexer uma palha? Não conseguiremos nós resolver os nossos conflitos interiores e ultrapassar as mágoas?

Esta é a minha sugestão de leitura.
                                                                                                Célia Gil

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O pacto

Célia Gil

Maria sabe que o pai tivera razão. Como todos os pais. Como quase todos os pais. Como tão sabiamente o seu sabia ter.
Olhando para trás, vê levitar, fora do tempo e do espaço, um tempo que se esfuma na memória e, pela névoa do seu olhar, consegue ainda vislumbrar, muito para lá de qualquer tempo, os seus próprios olhos cor de terra molhada, muito abertos, muito despertos, curiosos de vida. Olhos de criança, no tempo em que os sonhos ainda são pássaros a pousar no ombro e onde não mora a solidão e a ausência.
Não sabe bem quando uma névoa toldara o brilho dos seus olhos grandes. Provavelmente, o mundo era demasiado grande e seria tão fácil perder-se nele…
Tem muito presente a voz do pai a sonhar-lhe futuros risonhos, a afagar-lhe o rosto com uma mão de amor, a aspereza e rigor do que dizia a traçar-lhe hipóteses de percursos de vida, a intransigência e a exigência a erguer-lhe a face ante as maiores dificuldades, para que as pudesse ver bem de frente e deixar de as temer.
Fora uma criança teimosa e arredia. E fora essa marca da sua personalidade que, na adolescência, a levara a decidir que não queria mais continuar a estudar. Os pais não tinham estudado e tinham conseguido singrar na vida, exercer a sua profissão, sem nunca terem passado por grandes dificuldades.
Apesar de a sua decisão ter sido uma mão fria e certeira numa bofetada no coração dos pais, a reação não foi a que esperava. Não houvera gritos, ameaças, nada…E isso, de certa forma, tinha-a deixado apreensiva. Afinal o que esperariam eles dela? Estariam já à espera do seu fracasso? Seria mesmo incapaz de prosseguir e a sua decisão não constituía mais um capricho?
Porém, quando menos esperava, quando já nem esperava, o pai, que tão sabiamente sabia ter razão, teve uma conversa com ela.
- Maria, estás a tomar uma decisão que condicionará todo o teu futuro. Por isso, terás de pensar muito bem e não decidir nada de ânimo leve. Entre nós, desde o momento em que fomos pais, houve um pacto. Um pacto de amor, o de zelarmos por ti, pelo teu futuro, pela tua felicidade. E, para fazer face a esse futuro, é preciso adquirir conhecimento. Se aceitarmos a tua decisão sem nada ponderar, estamos a aceitar e a compactuar com a tua desilusão futura, com o ser frágil e inábil em que te tornarás. Por outro lado, se nos opusermos de forma radical, como provavelmente estarias à espera, acabarás por fazer o mesmo: nada. Nada por ti. Acabarás por reprovar, na tua decisão contrariada. Se continuarmos o braço de ferro, voltarás a reprovar até provares que a decisão de abandonar os estudos é a mais sensata.
Não queremos que desistas de ti, não queremos que quebres o pacto que fizemos desde que nasceste: lutar pelo que é sempre o melhor para ti. Não seremos nós a quebrá-lo. Gostaríamos que também não o fizesses. Preocupamo-nos contigo. Estaremos aqui para te ajudar a levantar quando algum obstáculo te derrubar. Mas, queremos, sobretudo, que aprendas a levantar-te sozinha. Só tu poderás escolher entre ficar na escuridão do charco em que caíres ou te reergueres para renasceres para a vida. E há tanta gente que vive toda a vida nesse charco…Não foi esse o nosso pacto.
Entendia, agora, muito bem o que o pai lhe tentara dizer. Afinal, eles só queriam que nos seus olhos cor de terra molhada continuasse a morar o brilho da curiosidade e a sede do saber. As palavras do pai foram decisivas nas suas escolhas, no seu percurso de vida. Reconhecia que o pai, que tão sabiamente o sabia ser, ter-lhe-ia facultado a chave da vida.
Pensativa, Maria olhava o horizonte, um horizonte com percalços. Quem os não tem? Mas era, com efeito, um horizonte com história, com futuro, com o presente que sonhara para si. Soubera cumprir o pacto de amor.
                                                                                Célia Gil


terça-feira, 27 de março de 2018

Doida Não e Não!

Célia Gil

Gonzaga, Manuela (2009). Maria Adelaide Coelho da Cunha: Doida Não e Não!. Lisboa: Bertrand Editora.



De um grande rigor histórico, documentado de forma  precisa, este romance aborda a história de Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias. Casada com o administrador deste jornal, Alfredo da Cunha, ela e o marido ocupavam um lugar de prestígio na sociedade da época, organizando grandes festas, onde Maria Adelaide, uma mulher de uma elegância exemplar, representava e declamava textos do marido. Nestas festas recebiam nomes notáveis da cultura do seu tempo, de entre os quais Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Teófilo Braga e Antero de Quental.
Viajavam juntos, com alguma frequência, para o estrangeiro e, mesmo, por Portugal, onde conheceu um pouco de todo o país, como Tomar, Coimbra, Penacova, Abrantes, Lousã, Pedras Salgadas, Oliveira de Azeméis, Entre-os-Rios, Viseu e Fundão.
Apesar desta vida de azáfama e boémia, Maria Adelaide não era feliz e ressentia-se com as atitudes pouco delicadas do marido, homem seco e arrogante.
Maria Adelaide acaba por se apaixonar pelo seu motorista, Manuel Cardoso Claro, que a admirava pela sua bondade, sempre cuidadosa e vigilante com o bem-estar dos seus serviçais, acabando, em 1919, por prescindir de toda a sua riqueza, palácio lisboeta, fortuna e vida social para fugir com ele para Santa Comba Dão, passando a ter uma vida modesta e simples, muito diferente da que tivera até então.
Porém, o seu romance idílico não durou muito, pois Alfredo da Cunha cedo descobriu onde ela se encontrava e a mandou ir buscar, com o filho e um agente da polícia de investigação.
Onze dias depois da fuga, Maria Adelaide era internada pelo marido no Hospital Conde de Ferreira, no Porto. Era mais fácil dá-la como louca para justificar as suas atitudes perante a sociedade, do que aceitar as suas decisões, que constituíam um escândalo para a época.
Maria Adelaide consegue, ainda, numa determinada ocasião, fugir do manicómio e recolher-se numa aldeia do concelho de Castro Daire, com Manuel Claro, onde foi muito bem tratada pela família deste. Mas também aí o marido a descobriu.
Foi, então, no regresso ao Conde de Ferreira, que se viu encarcerada num quarto minúsculo, sem poder fazer rigorosamente nada e onde desejou, muitas vezes, a morte, que seria menos cruel do que a vida que arrastava naquele quarto, onde ficaria presa durante muito tempo. Quanto a Manuel Claro, foi preso por rapto.
Alfredo da Cunha, o marido, facultou toda a documentação necessária para constar de um livro sem autoria, Infelizmente Louca, que contou com atestados dos médicos Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid, bem como com vários depoimentos (alguns deles falsos) que instigariam no público uma onda de solidariedade para com o marido abandonado.
Mas Maria Adelaide é uma mulher forte, que de doida tem muito pouco. São as suas convicções que não a deixam desistir.
Terá ela conseguido libertar-se do cárcere a que foi sujeita pelo seu “crime de amor”? Até que ponto, na época, os manicómios não serviam para “calar” todos os que ousassem seguir padrões de comportamento considerados reprováveis nas famílias influentes da época?
Uma história com história, fascinante e envolvente, que documenta a desigualdade de género, a coragem de uma mulher que segue as suas paixões e convicções, um exemplo de coragem, que não aceita o destino que lhe foi traçado pelo marido e que ergue a sua voz para dizer Não, "Doida Não e Não!”.
                                                                                                       Célia Gil

Manuela Gonzaga tem uma marca muito forte no campo das biografias – de que esta é uma referência exemplar. A autora, presença igualmente reconhecida na literatura juvenil, no romance, nos contos e até no ensaio, é natural do Porto. Tem diversas obras publicadas que vão desde o romance histórico (Jardins Secretos de Lisboa) à primeira e única biografia de António Variações, referenciada em Estudos Portugueses em várias universidades. A sua obra está traduzida e editada em francês pela Poisson Volant. Historiadora com o grau de mestre em História pela Universidade Nova de Lisboa, Manuela Gonzaga tem quatro filhos e três netos. Paralelamente, tem erguido a sua voz pela causa animal e pela causa ambiental, dedicando-se igualmente a atividades no campo dos direitos humanos.


sábado, 17 de março de 2018

Dia perfeito

Célia Gil
      Dia gelado. À volta apenas se vislumbram serras cobertas de uma neve branco algodão. Talvez, o dia perfeito. Perfeito para quê? Perfeito para quem? 
      O dia perfeito para amar, para sonhar, para viver!
     Perfeito para quem vive nas nuvens, quem ainda tem sonhos de tonalidade azul, quem continua apaixonado pela vida, quem concebe objetivos ao virar da página de cada novo dia. Um dia perfeito para quem ainda se espanta com o branco algodão da neve, apesar de ser o mesmo de todos os anos. 
     Perfeito porque deslumbra todos os corações que ainda sentem, que continuam a palpitar com os pequenos acontecimentos do dia a dia, que têm ilusões a latejar de vida nas pulsações, que gritam, que riem, que estão vivos!
     Mas até nos dias perfeitos, há alguém que chora baixinho, que se encosta  às paredes do ontem, recusando aceitar que a vida é uma dádiva e que a cada um compete vivê-la o melhor possível.
    E nestes dias perfeitos, há quem sofra, numa solidão que abraça, domina e esvazia, numa solidão que não se acalma com o branco algodão da neve. Cujo coração tirita de frio, de saudade e de dor. 
     Nestes dias perfeitos, há não vidas que continuam uma não luta à espera de um não fim. Luta de quem desespera pela espera, da qual já nada espera. 
     Contudo, não deixa de ser um dia perfeito. Mais um dia perfeito!
                                                                                                                  Célia Gil

                                                      (https://unsplash.com/search/photos/snow)

     

terça-feira, 6 de março de 2018

Inverno na alma

Célia Gil


Na minha alma nem sempre
o sol irrompe em raios de sedução,
quando a esperança se desfaz na mente
e ficam as cinzas da desilusão.

Na minha alma nem sempre
a primavera me coroa de flores.
Murcha em mim a pequena semente
do amor e restam resignados rancores.

Na minha alma nem sempre
sopra a brisa da madrugada.
Desfolham-se as flores de quem sente,
com os ventos que sopram em rajada.

E chove, chove tanto no meu rosto...
Uma chuva miudinha que entranha
e vai deixando frio o meu desgosto,
até de mim me sentir estranha.
                                                 Célia Gil

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Livreiro de Paris

Célia Gil

George, Nina (2013). O Livreiro de Paris. Lisboa: Editorial Presença.

Desde a primeira página que nos sentimos cativados por esta personagem principal, o Jean Perdu. Como seria bom encontrar na realidade esta personagem, este livreiro que tinha um barco livraria ancorado no rio Sena, em Paris. Como era bom frequentar esta farmácia literária, onde alguém sensível e atento como Perdu nos pudesse diagnosticar os problemas e propusesse um livro para a sua resolução!

Assim é Perdu, que tem uma série de pacientes-clientes, muito peculiares, com doenças muito específicas, mas que ele consegue, através do tom de voz, do olhar, de tudo o que emanam de si, conhecer como ninguém. Só assim vai ao encontro da prescrição do livro adequado aos vários sintomas, em “doses fáceis de digerir (entre 5 e 50 páginas). Se possível, com os pés quentes e/ou um gato ao colo”.

A título de exemplo, receita Dom Quixote de La Mancha, de Miguel Cervantes para tomar “em caso de conflitos entre a realidade e o ideal”. Se o problema consistir no vício do Facebook e dependência do The Matrix, o antídoto eficaz contra esta tecnocracia da Internet, poderá ser o The Machine Stops, de Eduard Foster. “Contra a tristeza e pela coragem de continuar”, nada melhor do que Os Degraus, de Hermann Hesse. Até José Saramago pode ser prescrito, porque o seu Ensaio sobre a Cegueira é eficaz “contra o excesso de trabalho e para descobrir o que é verdadeiramente importante. Contra a cegueira para o sentido da própria vida”.

Mas este romance não se limita a esta farmácia, vai muito para além disso, precisamente porque Perdu tem a cura para todos os males, menos para o seu, um desgosto de amor de há vinte anos atrás, uma pessoa que se foi embora, Manon, com quem tivera um romance intenso, deixando-o frio, fechado para o amor, numa tristeza sem par.

É quando aparece uma nova mulher na sua vida, passado este tempo todo, que vem despertá-lo para a realidade em que ele se deixara adormecer sem viver. Catherine encontra uma carta deixada por Manon há vinte anos e consegue convencer Perdu a lê-la. Esta carta, onde Manon confessa que se vai embora, vai casar com alguém capaz de lhe proporcionar a estabilidade emocional que ela precisa num momento em que está doente e condenada à morte, vai mudar a vida de Perdu, que parte com o seu barco livraria em busca de respostas, à procura de si mesmo, com a sensação de ter agido incorretamente, não ter ido atrás de Manon, não ter lido a carta, não ter conseguido vê-la pela última vez.
Nesta viagem, onde o acompanha um jovem escritor a quem a inspiração tinha atraiçoado, terá Perdu encontrado a sua razão de viver? Poderia Catherine ser um paliativo para a dor que sentia? Ou seria até mais do que isso e ele nunca se dera a oportunidade de voltar a viver?

Nada como ler este livro para rir, chorar, descontrair, se emocionar, se surpreender, encontrar novas personagens que ficarão para sempre na nossa memória literária.
                                              Célia Gil

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Opções

Célia Gil
Entre o sim e o não se vive e se deixa de viver,
uma simples palavra, um pequeno passo.
Entre o hoje e o amanhã se decide o caminho a percorrer,
um afastamento, a consolidação de um laço.
                                                                            Célia Gil



domingo, 4 de fevereiro de 2018

Confundir a Cidade com o Mar, Richard Zimler

Célia Gil
Zimler, Richard (2008).Confundir a Cidade com o Mar. Alfragide: Oceanos.
  


Este é um livro de 16 contos, que nos fazem viajar no tempo e no espaço, nos levam da Argentina ao Brasil, da Europa aos Estados Unidos, com uma passagem especial por Portugal.

São contos que deixam muito espaço à imaginação do leitor. Zimler fala de temas polémicos e de difícil abordagem como o racismo, a homossexualidade, a emigração, a homofobia, a morte, os traumas, o suicídio, sempre tendo em atenção que os contos terminam normalmente de forma menos feliz e com uma linguagem tão direta como só ele faz, uma linguagem dura, crua, áspera e, muitas vezes, perturbante.


Ainda que se abordem temas tão chocantes, o autor não deixa de se focalizar nas relações entre pessoas e nas emoções e esse é o fio condutor entre todos os contos deste livro. 

Prende-nos às personagens, faz-nos sofrer com elas, odiá-las, admirá-las. Alguns contos são, porém, muito breves, ficando no leitor um vazio por preencher. Queria mais, mais de cada conto. Mas este é o estilo enigmático de Zimler, que não revela tudo, que lança a problemática para nos deixar a pensar nela.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Noite que adentra

Célia Gil
Estava uma noite aziaga, a ansiedade galopava no peito, abrindo grandes olhos de expetativa. Mas a noite, essa, não estava convidativa. Era uma noite sem luar, sem estrelas, sem nuvens, sem lua. Uma negra noite, vazia, oca. Um logro. Foi nessa noite que tudo mudou. O olhar encovou-se numa ímpar tristeza e a ansiedade morreu no peito, dando lugar a uma prostração doente. O brilho dos olhos secou em lágrimas brotadas de par em par. Como essa noite vazia, assim é, às vezes, a vida. E tudo passa a ter um véu que enevoa a clarividência e o negativismo é o monstro que nos faz caretas para além do véu.
                                                                                                                                             Célia Gil 

domingo, 21 de janeiro de 2018

visto do céu

Célia Gil
Sebold, Alice (2002). Visto do Céu. Casa das Letras/Editorial de Notícias


Sobre o Livro
 «Susie, a narradora, é uma adolescente, que está morta quando o romance começa. E lá do céu resolve contar-nos como ali foi parar, vítima da brutalidade de um pacato vizinho, que a violou, a matou, a cortou em pedaços, que depois distribuiu por vários locais. Susie começa a observar, lá do céu, a vida na terra, e tenta modificar o destino daqueles que ama.» ( Webboom)

Visto do Céu, de Alice Sebold, aborda temáticas que nos fazem refletir: a vida, a morte, o perdão, a vingança, a memória e o esquecimento. A violação e morte (por um vizinho aparentemente inofensivo) de uma jovem de catorze anos é revoltante e provoca, nas personagens que ficam, os seus familiares, um sentimento de dor e frustração por não saberem o que aconteceu, como aconteceu, dado que nunca encontram o corpo, mas fragmentos… Por outro lado, confronta-nos com a ideia do pós-morte, levando-nos a questionar sobre o que haverá depois da morte, que poder têm os que morrem e que influência exercem sobre os que ficam.
Susie Salmon tem o olhar vivo e irrequieto dos seus catorze anos. Observa o desenrolar da vida: os colegas da escola, a família, o lento passar dos meses e das estações. Está tudo muito calmo, tudo parece muito acolhedor. Um único pormenor desmente tanta placidez: é que, de facto, Susie já morreu. Estranhamente, o céu parece-se muito com o recreio da escola, com os tradicionais baloiços que o caracterizam. Aos poucos, Susie compreende que é o centro das atenções: os colegas comentam os rumores sobre o seu desaparecimento, a família ainda acredita que ela poderá ser encontrada, o assassino tenta esconder as pistas do seu crime...

A autora compôs personagens distintas e com diferentes características, que comprovam a complexidade do ser humano.
Susie fala sobre as dificuldades que a sua família passa após a sua morte, nomeadamente o intenso sofrimento do pai, que tudo faz para tentar descobrir o assassino da filha; a frieza da mãe enquanto se envolve amorosamente com o detetive a quem entregam o caso do homicídio da filha; o amor e as saudades que a irmã sente, sendo a única que acredita nas suspeitas do pai, chegando ao ponto de, corajosamente, invadir a casa do Sr. Harver (o assassino) e encontrar provas que este era afinal o culpado…
Através da narradora, a vítima, vamos descobrindo outras vítimas… Como terão sido mortas? Serão estes crimes descobertos? O Sr. Harvey será devidamente condenado? São questões a que este livro nos vais dando resposta. Por isso, há que entrar e mergulhar a fundo nas investigações que se fazem ao longo das páginas deste livro.

Sobre a autora
O primeiro livro que Alice Sebold publicou chama-se Sorte e é um doloroso relato na primeira pessoa: uma memória da sua própria violação, por um colega da Universidade de Syracuse, obra que brevemente será editado em Portugal pela Casa das Letras. O Village Voice distinguiu-a, então, com um prémio de revelação. Posteriormente, começou a trabalhar no New York Times e no Chicago Tribune. Visto do Céu, no original The Lovely Bones, o seu primeiro romance, tem sido celebrado como um potencial clássico. Com mais de um milhão e 300 mil exemplares vendidos em dois meses, nos Estados Unidos, esteve cinco meses em primeiro lugar na lista dos títulos mais vendidos do New York Times. Já foi traduzido em dezoito línguas e Peter Jackson, o produtor da trilogia O Senhor dos Anéis, comprou os direitos cinematográficos. https://www.wook.pt/autor/alice-sebold/19960



                                                                                                    Célia Gil

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