Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Ginzburg, Natalia (2019). Léxico Familiar. Lisboa: Relógio D'Água.

Tradução: (do italiano) Miguel Serras Pereira
N.º de páginas: 200
Início da leitura: 16/09/2026
Fim da leitura: 19/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Léxico Familiar é o principal livro de Natalia Ginzburg e um clássico da literatura italiana contemporânea. A narrativa acompanha a vida dos Levi, que viveram em Turim entre 1930 e 1950, período em que se assiste à ascensão do fascismo, à Segunda Guerra Mundial e aos acontecimentos que se lhe seguiram.

Natalia, uma das filhas do professor Levi, foi testemunha dos momentos íntimos da família e dessa conversa entre pais e irmãos que se converteu num idioma secreto. Nesta narrativa de pendor autobiográfico, os acontecimentos quotidianos misturam-se com reflexões que mantêm toda a atualidade.

O livro venceu em 1963 o Prémio Strega."

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Em Léxico Familiar, Natalia Ginzburg revisita a história da sua família, recuperando memórias, episódios e personagens que fizeram parte da sua vida. Mais do que uma narrativa autobiográfica convencional, a obra é um retrato íntimo de uma família muito própria, cuja identidade se constrói não apenas através das experiências partilhadas, mas também das palavras, expressões e frases que, repetidas ao longo dos anos, acabam por adquirir um significado exclusivo para quem delas faz parte.
Uma das características que mais me chamou a atenção foi a aparente distanciação da autora relativamente aos acontecimentos que narra. Existe uma contenção na forma como apresenta as personagens e relata os episódios familiares, como se a narradora procurasse observar o passado com um olhar quase documental, sem se deixar dominar pela emoção ou pela tentação de interpretar excessivamente aquilo que recorda. A escrita é despojada, pouco dada a sentimentalismos e essa opção confere à narrativa uma particular sobriedade.
Natalia Ginzburg não parece interessada em construir uma memória idealizada da família, nem em transformar as recordações numa sucessão de momentos especialmente comoventes. Pelo contrário, apresenta os acontecimentos com uma naturalidade que, em determinados momentos, pode até criar alguma distância entre o leitor e as personagens. É como se a autora nos permitisse observar aquela família a partir de um lugar discreto, sem procurar impor-nos uma determinada leitura dos seus comportamentos ou sentimentos.
No entanto, à medida que entramos na história, essa distância inicial vai adquirindo outros contornos. Por detrás da aparente neutralidade da narração, começam a surgir os afetos, as cumplicidades, os conflitos e as pequenas particularidades que tornam aquela família tão singular. A emoção não é declarada, nem sublinhada pela autora; vai-se revelando de forma subtil, através dos gestos, dos episódios quotidianos e, sobretudo, da linguagem que une aquelas pessoas.
É precisamente no léxico familiar que reside uma das maiores riquezas desta obra. As expressões, as frases repetidas vezes sem conta e as palavras que atravessam gerações tornam-se uma espécie de código íntimo, reconhecível apenas por aqueles que partilham a mesma história. São palavras que, fora daquele contexto, poderiam parecer banais ou até desprovidas de sentido, mas que, dentro da família, transportam memórias, sentimentos e uma identidade comum.
Este léxico não é apenas um elemento curioso da narrativa. É, na verdade, o fio condutor que permite à autora reconstruir o passado e preservar a memória daqueles que fizeram parte da sua vida. As palavras tornam-se testemunhas de uma existência partilhada e revelam como a linguagem pode ser uma forma de pertença, um lugar onde a família continua a existir, mesmo quando o tempo e as circunstâncias alteram irremediavelmente as relações.

 Alvarado, Mayte (2023). A Ilha. Lisboa: Levoir.
Tradução: Carlos Xavier
N.º de páginas: 152
Início e fim da leitura: 14/09/2026

**SINOPSE WOOK**
Os habitantes da Ilha vivem de acordo com uma antiga lenda: a história de um marinheiro que diz que uma grande onda chegará um dia para varrer tudo o que estiver no seu caminho e afundar as suas casas nas profundezas do oceano. As personagens que dão vida a esta história vagueiam pela paisagem nua e crua: uma rapariga que reflecte sobre os limites do seu pequeno mundo, um homem que vive com o luto após uma perda grave e um cão que parece ser o sonho vivo da lenda da ilha. Os Três Mosqueteiros!

Por entre complôs e missões perigosas, estes corajosos aventureiros vão unir-se em torno de um lema que sela a sua aliança e amizade: «Um por todos... todos por um!»

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A Ilha, de Mayte Alvarado, é uma novela gráfica que se constrói, sobretudo, através da imagem. O texto é breve, quase sempre poético, e surge como complemento de uma narrativa que não precisa de muitas palavras para criar uma atmosfera própria. É nas ilustrações, nos silêncios e naquilo que fica por dizer que a obra encontra grande parte da sua força.
A premissa é simples, mas encerra uma dimensão simbólica que se vai ampliando à medida que avançamos na leitura: aquilo que ao mar é tirado ao mar retornará. A partir desta ideia, Mayte Alvarado constrói uma narrativa profundamente ligada ao ciclo da vida, ao tempo e à inevitabilidade da transformação. O mar surge não apenas como espaço físico, mas como uma presença constante, quase intemporal, que recebe, guarda e devolve.
Existe nesta obra uma sensação permanente de passagem. Nada parece verdadeiramente definitivo e tudo se encontra sujeito a um movimento de retorno. Pessoas, objetos, memórias e acontecimentos parecem fazer parte de um ciclo maior, sobre o qual não temos controlo. É uma perspetiva que pode ser lida como uma reflexão sobre a vida e a morte, sobre a perda ou simplesmente sobre a impossibilidade de permanecermos iguais ao longo do tempo.
Talvez por isso A Ilha seja uma obra de interpretação necessariamente aberta. O que nela encontramos dependerá, em grande medida, da sensibilidade de quem a lê e das experiências que leva consigo para aquelas páginas. Uma mesma imagem poderá sugerir perda a um leitor, renascimento a outro, ou simplesmente evocar a passagem inexorável do tempo. Não há propriamente uma resposta certa, e essa ambiguidade parece ser uma das características mais interessantes da obra.
Também a ilha e o mar adquirem uma dimensão simbólica particularmente forte. A ilha pode representar isolamento, permanência ou mesmo a nossa existência individual, enquanto o mar sugere movimento, mudança e aquilo que está para além do nosso alcance. Entre os dois estabelece-se uma relação de tensão e de dependência que permite múltiplas leituras.
É uma novela gráfica que pede, por isso, uma leitura diferente daquela que fazemos de uma narrativa convencional. Não é tanto um livro para ler rapidamente e procurar compreender de imediato, mas uma obra para observar. As imagens merecem tempo e atenção, e há uma beleza particular na possibilidade de regressarmos a determinadas páginas e encontrarmos nelas significados que não tínhamos percebido numa primeira passagem.
Hanada, Nanako (2025). Confissões de Uma Livreira. Alfragide: Casa das Letras.
Tradução: Maria João Vieira
N.º de páginas: 192
Início da leitura: 13/09/2026
Fim da leitura: 15/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"A vida de Nanako Hanada não só estagnou - bateu mesmo no fundo.

Recentemente separada do marido, vive entre camas de hotéis alugadas à hora, pequenos cafés com Internet ou no chão de livrarias. O trabalho também não está melhor — as vendas na excêntrica livraria Village Vanguard, em Tóquio, que ela gere, estão a cair a pique. à medida que a vida de Nanako se desmorona, ler livros é a única coisa que a mantém viva.

Até que se inscreve num site de encontros que oferece 30 minutos com alguém que nunca voltará a ver. Apresentando-se como uma «livreira sexy», propõe-se a recomendar o livro perfeito em troca de um encontro. no ano que se segue, Nanako conhece centenas de pessoas, algumas das quais procuram mais do que apenas um livro…

Confissões de uma Livreira é uma ode ao prazer da leitura. Oferecendo um vislumbre do mundo livreiro no Japão e do lado mais excêntrico de Tóquio, esta é uma história sobre como os livros nos ajudam a criar laços com os outros — e a reencontrarmo-nos."

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Confissões de Uma Livreira, de Nanako Hanada, é um livro sobre livros, mas sobretudo sobre pessoas. Sobre encontros, desencontros, escolhas e sobre aquele momento da vida em que somos obrigados a parar e a perguntar a nós próprios se estamos realmente onde queremos estar.
Nanako atravessa uma fase particularmente complicada da sua vida. A vida pessoal não lhe traz a estabilidade que desejaria e, profissionalmente, a livraria onde trabalha também não alcança os resultados que esperava. Ainda assim, existe uma certeza que permanece: os livros continuam a ser o seu mundo, o lugar onde encontra conforto, identidade e uma espécie de porto seguro perante as incertezas da vida.
É precisamente a partir dessa relação com os livros que surge uma ideia pouco convencional. Nanako começa a conhecer pessoas através de um site de encontros, mas, em vez de procurar simplesmente um relacionamento, propõe-se fazer-lhes algo que conhece bem: recomendar-lhes um livro. Os encontros passam, assim, a ter uma finalidade diferente. Antes de procurar a pessoa certa, Nanako parece procurar a história certa para cada pessoa.
O que poderia ser apenas uma premissa curiosa acaba por se transformar numa espécie de viagem de descoberta. Cada encontro permite-lhe conhecer personalidades diferentes, ouvir histórias, perceber desejos e fragilidades e, simultaneamente, confrontar-se consigo própria. Afinal, escolher um livro para alguém implica também tentar perceber quem essa pessoa é. E, à medida que vai conhecendo os outros, Nanako começa inevitavelmente a conhecer-se melhor.
Há algo particularmente interessante nesta ideia de utilizar os livros como uma forma de aproximação entre pessoas. Um livro pode dizer muito sobre quem o lê, mas também pode funcionar como uma porta de entrada para aquilo que nem sempre conseguimos dizer directamente. Recomendar uma leitura torna-se, neste contexto, uma forma de escutar, de observar e até de cuidar.
Aos poucos, Nanako começa a ganhar notoriedade e aquilo que inicialmente parecia ser apenas uma iniciativa pessoal assume uma dimensão inesperada. Mas o mais importante não está propriamente no reconhecimento que vai conquistando. Está na transformação que esse percurso provoca nela. A experiência leva-a a questionar o que realmente a faz feliz, aquilo de que precisa e, sobretudo, o que deseja para o futuro.
É nesta dimensão de autoconhecimento que, para mim, reside o maior interesse do livro. Confissões de Uma Livreira não apresenta uma personagem que tenha todas as respostas; apresenta alguém que está precisamente a tentar encontrá-las. E talvez seja essa incerteza que a torna tão próxima do leitor. Há fases da vida em que também nós precisamos de experimentar caminhos diferentes para percebermos aquilo que queremos conservar e aquilo que já não faz sentido levar connosco.
O livro aborda ainda, de uma forma bastante acessível, a importância de não deixarmos que uma fase menos feliz da nossa vida determine aquilo que somos ou aquilo que poderemos vir a ser. Nem sempre sabemos imediatamente qual é o caminho certo e, por vezes, é necessário sair da nossa zona de conforto para perceber que existem possibilidades que ainda não tínhamos considerado.
A relação de Nanako com os livros acaba por funcionar como o fio condutor de toda esta transformação. Eles não são apenas o seu instrumento de trabalho ou uma paixão profissional. São também uma forma de compreender os outros e de se compreender a si própria. E talvez seja essa uma das ideias mais bonitas que o livro deixa: a literatura pode aproximar pessoas, abrir conversas, despertar sentimentos e, em determinados momentos, ajudar-nos a olhar para a nossa própria vida de uma maneira diferente.
Regnaud, Jean e Bravo, Émile (2024). A Minha Mamã está na América e encontrou o Buffalo Bill. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Maria Rita Furtado
N.º de páginas: 120
Início da leitura: 13/09/2026
Fim da leitura: 14/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"No arranque de um ano letivo, algures numa aula do ciclo preparatório, a professora pergunta aos alunos qual era a profissão dos seus pais.
Meu pai era chefe, mas minha mãe?
Eu não sabia nada sobre ela. Qual era o trabalho dela? O que ela parecia? Onde ela morava? Nem tão pouco sabia aonde ela andava.

Quando somos crianças, não gostamos de ser diferentes dos outros. Esta é a história de Jean Regnaud, um menino amoroso que desde cedo ficou sem mãe. Com toda a sua modéstia, a história é nos contada com ajuda do traço de Émile Bravo, onde é possível fazer as pessoas rirem sem qualquer cinismo, mas ao mesmo tempo comovê-las pela força do drama.

A não perder!"
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A Minha Mamã Está na América e Encontrou o Buffalo Bill, de Jean Regnaud e Émile Bravo, é um livro que aborda temas difíceis sem se tornar pesado. Sob a aparência de uma história simples, acompanhamos Jean, um menino que vive com uma ausência que não consegue compreender inteiramente e sobre a qual os adultos parecem não querer falar.
Jean não sabe onde está a mãe nem o que lhe aconteceu. Na escola, quando surgem perguntas sobre a família, encontra maneiras de contornar as respostas e de esconder aquilo que não sabe. É uma forma de se proteger, mas também de preservar uma realidade que criou para si próprio. Quando uma amiga, Michèle Meunier, lhe pergunta pela mãe, Jean responde que ela está a viajar. A partir daí, essa explicação ganha vida através dos postais que Michèle começa a escrever-lhe, fingindo que são enviados pela mãe a partir dos mais variados lugares.
É através deste olhar infantil que os autores conseguem abordar assuntos particularmente delicados: a ausência, o luto e a dificuldade em compreender aquilo que os adultos muitas vezes não conseguem ou não querem explicar. Nós, leitores, percebemos a dimensão daquilo que está a acontecer, mas a narrativa permanece próxima da forma como uma criança interpreta o mundo: através da imaginação, das pequenas mentiras, das brincadeiras e da necessidade de encontrar respostas para aquilo que não entende.
Um dos aspetos de que mais gostei foi precisamente essa diferença entre aquilo que Jean sabe e aquilo que nós, enquanto leitores, conseguimos perceber. A sua perspetiva é limitada, como seria natural numa criança, e é essa limitação que torna a história ainda mais tocante. Há coisas que não são ditas diretamente, mas que se tornam claras através dos gestos, dos silêncios e das situações aparentemente banais.
Também a relação entre Jean e Michèle me pareceu particularmente bonita. A amizade surge de uma forma simples e espontânea, mas acaba por assumir uma importância muito maior. Os postais que Michèle inventa são uma tentativa infantil de ajudar o amigo, de preencher uma ausência que não compreende completamente e, talvez, de lhe permitir continuar a acreditar numa mãe que está ausente. É uma demonstração de afeto que, apesar de ingénua, revela uma grande generosidade.
A novela gráfica consegue, assim, falar sobre o luto sem se centrar apenas na tristeza. Fala também sobre a amizade, sobre a imaginação como mecanismo de defesa e sobre a forma como as crianças encontram os seus próprios caminhos para lidar com situações que estão muito para além da sua capacidade de compreensão. E fá-lo com uma delicadeza que me agradou particularmente.
As ilustrações de Émile Bravo acompanham muito bem este universo. Há nelas uma aparente simplicidade que combina com o olhar infantil de Jean, mas que não impede que determinados momentos adquiram uma enorme força emocional. Texto e imagem complementam-se sem necessidade de explicar demasiado, deixando espaço para que o leitor complete aquilo que não é dito.
Gostei muito desta leitura. Pela história, naturalmente, mas sobretudo pela delicadeza com que Jean Regnaud e Émile Bravo tratam temas como o luto, a amizade e a superação dos medos. 
Amorim, Filipa (2026). A Casa da Falésia. Lisboa: Penguin.

N.º de páginas: 400
Início da leitura: 10/09/2026
Fim da leitura: 13/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Na idílica vila de Santa Cruz, a casa da família Saavedra é um refúgio de elegância e harmonia — ou assim parece. Quando Vasco, o filho mais velho, apresenta finalmente a sua namorada Inês à família, o que deveria ser um verão de celebração transforma-se num pesadelo.

Inês, fascinada pelo mundo sofisticado dos Saavedra e pela bondade da matriarca Madalena, acredita ter encontrado o seu lugar. Mas, na segunda noite que passa na casa, Madalena é encontrada morta — um aparente suicídio que ninguém acredita ser real.

À medida que a Polícia Judiciária e uma jornalista determinada desvendam o caso, segredos enterrados começam a vir à tona. Todos têm algo a esconder. Todos são suspeitos. E Inês verá o seu amor posto à prova quando tiver de escolher entre proteger a família perfeita… ou revelar a verdade."
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Depois de ter lido A Corrente, primeiro livro de Filipa Amorim, e de não ter ficado particularmente convencida com a leitura, confesso que hesitei antes de pegar em A Casa da Falésia. Ainda assim, pareceu-me justo dar uma nova oportunidade à autora, sobretudo por se tratar do seu terceiro livro. E, neste caso, a aposta revelou-se acertada.
Senti neste romance uma evolução clara relativamente ao primeiro livro que li da autora. Algumas das características que então me tinham afastado da narrativa estão aqui bastante mais trabalhadas, dando lugar a uma história mais segura, mais equilibrada e, sobretudo, mais capaz de prender a atenção do leitor.
A Casa da Falésia parte de uma premissa interessante, que rapidamente cria um ambiente de tensão e de expetativa. A história desenvolve-se em torno de um crime e das circunstâncias que o envolvem, mas Filipa Amorim não se limita a conduzir o leitor à descoberta daquilo que aconteceu. Vai introduzindo pistas, suspeitas e diferentes possibilidades, fazendo com que a narrativa avance através de sucessivas dúvidas.
As personagens são também um dos pontos fortes do livro. São suficientemente envolventes para nos interessarmos pelo que lhes acontece e para querermos perceber até que ponto aquilo que nos é mostrado corresponde à realidade. Num thriller, esta relação com as personagens é particularmente importante: não basta existir um mistério; é necessário que o leitor tenha interesse em descobrir o que está por detrás dele. E foi precisamente isso que senti durante a leitura.
Outro aspecto de que gostei foram as reviravoltas. Algumas delas podem não surgir completamente de surpresa para um leitor mais atento, e admito que, a determinada altura, comecei a suspeitar do que poderia estar relacionado com o crime. Isso, contudo, não retirou interesse à leitura. Pelo contrário, fiquei particularmente atento à forma como a autora iria desenvolver essa possibilidade e conduzir a história até à confirmação ou não das minhas suspeitas.
Penso que essa é uma das qualidades do livro: mesmo quando o leitor consegue antecipar uma parte do caminho, continua a existir curiosidade suficiente para querer perceber de que forma a narrativa irá chegar ao destino. O suspense não depende exclusivamente de esconder a resposta, mas também da maneira como as peças vão sendo colocadas e relacionadas.
Há, naturalmente, aspetos que poderiam ser mais aprofundados e momentos em que algumas soluções me pareceram previsíveis. Mas, no conjunto, isso não teve peso suficiente para prejudicar a experiência de leitura. Encontrei um romance mais consistente do que aquele que tinha conhecido em A Corrente e, acima de tudo, encontrei uma autora que me parece ter evoluído na construção da narrativa.

Pynia, Tomeu (2017). Uma Aldeia Branca - O Bar do Barbudo. Lisboa: Levoir.
Tradução: Carlos Xavier
N.º de páginas: 96
Início da leitura: 09/09/2026
Fim da leitura: 10/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Este livro assinala a estreia de mais um autor espanhol na colecção Novela Gráfica, é uma obra coral, povoada de personagens com histórias para contar e que, além de Rafa, o dono do bar, e de Núria e Marga, as empregadas, inclui naturalmente os clientes do bar.

Clientes como Pantaléon, o vagabundo carregado de histórias; Eduardo Corona, o escritor argentino em busca de inspiração; Ignacio, o velho criador de pombos; Lucia, a fotógrafa de guerra: Don Nicolas, que espera (e desespera) pelas cartas do seu velho amor; o marinheiro Bernet Colóm, um Ulisses que regressa sempre a Núria, a sua Penélope, Hugo, o desenhador que não compreende a arte moderna; Kurt, o alemão de aspecto ameaçador e coração de ouro; e Fátima, a Sherazade por quem Rafa sonhou toda a vida.

Em O Bar do Barbudo contam-se histórias que sabem a sal, à brisa do mar e a uma chávena de café. É ao balcão do seu bar que Rafa, o barbudo dono, ouve as histórias que os seus clientes lhe contam, em troca de comida ou de bebida, viajando deste modo por todos os mares do mundo, sem sair da sua pequena ilha.

Com prefácio de João Miguel Lameiras é um livro muito agradável de ler, é uma história de carácter intimista, com um ritmo calmo e com espaço para a reflexão, a sugestão, a nostalgia e o humor."
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Uma Aldeia Branca – O Bar do Barbudo, de Tomeu Pinya, é um livro, cuja premissa é simples: num bar situado numa ilha mediterrânica, Rafa, conhecido como o Barbudo, recebe clientes que, em troca de uma refeição ou de uma bebida, lhe oferecem aquilo que verdadeiramente trazem consigo, as suas histórias.
Rafa quase não precisa de sair do lugar para viajar. São os outros que lhe trazem o mundo, através das memórias, experiências e fantasias que partilham ao balcão. Por ali passam personagens tão diferentes como um escritor argentino que perdeu a inspiração, uma fotógrafa de guerra, um criador de pombos ou um marinheiro, cada um carregando uma história que, de alguma forma, acrescenta uma nova paisagem àquele pequeno espaço.
É precisamente essa estrutura que torna a leitura tão particular. Não estamos perante uma narrativa que procura conduzir-nos rapidamente para um grande acontecimento ou para um desfecho surpreendente. O livro constrói-se através de encontros e de pequenas histórias, permitindo que cada personagem deixe uma marca antes de seguir o seu caminho. O bar funciona como ponto de passagem, mas também como lugar de permanência, onde vidas muito diferentes se cruzam durante o tempo suficiente para que alguma coisa seja partilhada.
A viagem que o livro propõe é, por isso, sobretudo uma viagem através das palavras e das memórias. Cada relato abre uma janela para uma realidade diferente e mostra-nos como uma pessoa pode transportar consigo mundos inteiros, mesmo quando permanece sentada no mesmo lugar. Há aqui uma ideia muito bonita de que viajar não significa necessariamente partir: por vezes, basta escutar alguém.
O ritmo da novela gráfica acompanha essa ideia. A ação desenvolve-se de forma tranquila, sem pressa, quase como uma música que se deixa ouvir ao fundo e que nos vai conduzindo de uma história para outra. É uma leitura que pede disponibilidade e alguma contemplação. Em vez de procurar constantemente prender o leitor através da tensão, Tomeu Pinya cria uma atmosfera de quietude, deixando que sejam as personagens e aquilo que têm para contar a conduzir a narrativa.
Também a própria forma da novela gráfica contribui para essa sensação. A componente visual não está apenas ao serviço das histórias, mas ajuda a construir o ambiente da ilha, do bar e das pessoas que por ali passam. Há uma simplicidade que combina com o tom da obra e que permite que os momentos de silêncio tenham tanto significado como os diálogos.

Jackson, Shirley (2026). O Relógio de Sol. Lisboa: Cavalo de Ferro.

Tradução: Miguel Romeira
N.º de páginas: 272
Início da leitura: 05/09/2026
Fim da leitura: 08/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"A imponente mansão da família Halloran ergue-se isolada no meio de uma extensa propriedade. No seu jardim encontra-se um relógio de sol de pedra branca com a premonitória inscrição De Que Vale Este Mundo?

Após a morte suspeita do filho de Orianna Halloran, a despótica matriarca, a peculiar tia Fanny recebe uma mensagem sobrenatural do seu falecido pai anunciando que o mundo será destruído numa noite de catástrofe nunca vista e que apenas os habitantes da mansão serão salvos.

Convencidos de que o futuro da humanidade está nas suas mãos, toda a família, empregados e hóspedes preparam-se para o novo mundo que há de vir num ambiente sufocante de intriga, medo, violência e crescente paranoia.

Nesta apocalíptica comédia de costumes e hilariante sátira social, Shirley Jackson, nome maior do gótico literário, cria, por meio de um terror subtil e psicológico, um mundo movido por tensões familiares, personagens grotescas e acontecimentos sobrenaturais onde o maior perigo não vem de fora, mas de dentro."

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Há livros cuja sinopse nos desperta imediatamente a curiosidade e O Relógio de Sol, de Shirley Jackson, foi, para mim, um desses casos. A ideia de uma família poderosa, reunida numa casa isolada, perante a notícia de que uma grande catástrofe se aproxima, parece desde logo reunir os ingredientes para uma história de tensão, mistério e sobrevivência. No entanto, à medida que a leitura avança, percebe-se que Shirley Jackson está menos interessada na catástrofe em si do que naquilo que ela permite revelar sobre as pessoas.
A história começa com a morte suspeita de um dos membros da família Halloran, uma família habituada ao poder, ao privilégio e a uma existência em que as relações parecem ser determinadas mais pelos interesses individuais do que pelos afetos. Pouco depois, Fanny recebe uma mensagem atribuída ao pai, já falecido, anunciando que o mundo está prestes a terminar numa grande catástrofe e que apenas se slavarão as pessoas que ficarem na casa de família. A partir desse momento, a casa transforma-se num espaço fechado, onde um grupo restrito de personagens se vê obrigado a conviver com a expetativa de um fim que ninguém sabe exatamente como será.
É nesse confinamento que o romance ganha verdadeira força. As doze personagens começam a discutir o que fazer, como organizar o futuro e, sobretudo, quem terá direito a esse futuro. A possibilidade de o mundo exterior deixar de existir parece dar-lhes ainda mais liberdade para exporem aquilo que normalmente procurariam esconder. As convenções sociais tornam-se frágeis e as relações familiares revelam uma crueldade que, em circunstâncias normais, talvez permanecesse dissimulada.
Shirley Jackson constrói estas personagens sem procurar torná-las particularmente simpáticas. Pelo contrário, há uma certa perversidade na forma como lhes permite manifestar egoísmos, ressentimentos, ambições e pequenas crueldades. São pessoas que, perante a possibilidade do fim do mundo, continuam preocupadas com a sua posição, com o controlo sobre os outros e com aquilo que poderão ganhar ou perder. A ameaça exterior acaba, assim, por ser quase secundária: o verdadeiro perigo encontra-se dentro da própria casa.
É também aí que o humor negro assume uma importância fundamental. Há situações que, pela sua própria natureza, deveriam ser perturbadoras, mas que a autora apresenta com um sentido de absurdo que provoca um sorriso desconfortável. A ideia de preparar o futuro quando se acredita que o mundo está prestes a acabar poderia ser trágica; nas mãos de Shirley Jackson, torna-se frequentemente grotesca. As personagens planeiam, fazem exigências, disputam posições e estabelecem regras como se fosse possível organizar racionalmente aquilo que está para lá do seu controlo.
Gostei particularmente desta combinação entre o inquietante e o absurdo. A autora não precisa de recorrer permanentemente ao terror convencional para criar desconforto. O que assusta é, muitas vezes, a normalidade com que as personagens aceitam determinadas situações e a facilidade com que o instinto de sobrevivência se mistura com o desejo de poder. O fim do mundo funciona quase como uma experiência que retira às personagens a obrigação de fingirem ser melhores do que realmente são.
A casa assume, por isso, um papel quase tão importante como as próprias personagens. É simultaneamente abrigo e prisão, um espaço onde se procura segurança enquanto se torna cada vez mais evidente que ninguém está verdadeiramente protegido. Quanto mais tempo estas pessoas permanecem juntas, mais difícil se torna separar a ameaça exterior das tensões que crescem entre elas.
Confesso, contudo, que terminei o livro a desejar um desfecho diferente. Não necessariamente porque considere que o final escolhido por Shirley Jackson seja inadequado, mas porque, depois de uma premissa tão forte e de toda a tensão acumulada ao longo da narrativa, esperava uma resolução que correspondesse de outra forma às expectativas que fui criando. O final deixou-me, por isso, com alguma frustração. Ainda assim, compreendo a opção da autora e reconheço que seria provavelmente menos coerente com o espírito do romance oferecer uma conclusão mais convencional ou mais próxima daquilo que o leitor pudesse desejar.

 Rui, Manuel (2016). Quem Me Dera Ser Onda. Lisboa: Guerra & Paz.

N.º de páginas: 104
Início e fim da leitura: 03/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Um romance delirantemente divertido e luminosamente redentor
Angola, poucos anos depois da independência. Estamos mais precisamente em Luanda, em anos de esquemas de sobrevivência. Um pai de família desencanta um porco e leva-o para o seu apartamento, no sétimo andar de um prédio. Os filhos, Zeca e Ruca, apaixonam-se perdidamente pelo porquinho."

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Ler Quem me Dera Ser Onda, de Manuel Rui, foi, para mim, uma forma de revisitar Luanda, embora não a Luanda que deixei em 1975. A cidade que encontrei neste pequeno romance é outra: a Luanda de 1982, marcada pelas consequências da guerra, pelas dificuldades do quotidiano e por uma realidade social e económica muito diferente daquela que guardava na memória. É uma Luanda que o autor apresenta através de uma história aparentemente simples, mas que rapidamente se percebe ser muito mais do que uma narrativa sobre uma família e o seu porco.
A história começa quando uma família passa a ter um porco em casa e decide criá-lo. Para os dois filhos, o animal depressa deixa de ser apenas uma possível fonte de alimento. Torna-se um companheiro, quase um membro da família, tratado com uma proximidade e uma ternura que contrastam com a intenção do pai, que vê naquele animal sobretudo a oportunidade de voltar a comer carne de porco, algo de que há muito está privado.
É precisamente desta diferença de perspetivas que nasce grande parte do humor do livro. Enquanto as crianças desenvolvem uma verdadeira afeição pelo animal e procuram protegê-lo de todas as formas, o pai vai pensando no momento em que poderá finalmente levá-lo para a mesa. O conflito entre aquilo que o porco representa para uns e para outros permite a Manuel Rui construir uma narrativa divertida, mas simultaneamente atravessada por uma realidade bem mais dura.
As tentativas das crianças para evitar o inevitável são particularmente reveladoras. Chegam a procurar aparas de carne num hotel, numa tentativa de satisfazer o desejo do pai e, desse modo, salvar o seu animal de estimação. Mas até aí a realidade se impõe: no hotel não há restos de porco para lhes dar, apenas carne de vaca. A situação, que poderia parecer apenas cómica, ganha uma dimensão quase absurda quando pensamos no contexto em que decorre. A escassez transforma tudo, desde a alimentação às relações familiares, e obriga as personagens a encontrar soluções pouco convencionais para problemas que, em circunstâncias normais, dificilmente existiriam.
É nessa capacidade de fazer coexistir o humor com uma realidade social difícil que me parece estar uma das maiores virtudes do livro. Manuel Rui não precisa de recorrer a uma narrativa pesada para falar de um período marcado pela guerra, pela falta de bens essenciais, pelas dificuldades económicas e pelas transformações de uma sociedade. Fá-lo através da ironia, da simplicidade e do olhar das crianças, permitindo-nos perceber, por detrás das situações cómicas, um país e uma cidade a tentar reconstruir-se.
Há crítica social, há retrato de uma época e há uma atenção evidente às dificuldades vividas pela população, mas tudo é atravessado por um humor que torna a leitura leve e, ao mesmo tempo, deixa espaço para a reflexão. O riso, neste caso, não apaga a dureza da realidade; antes a torna mais evidente.
Também a linguagem contribui para essa proximidade. A narrativa tem uma espontaneidade que combina com as personagens e com o ambiente em que a história se desenrola. Não sentimos estar perante uma descrição distante de uma realidade histórica, mas antes perante pessoas concretas, com os seus desejos, limitações, afetos e pequenas estratégias de sobrevivência.

Magalhães, Helena (2025). Atos de Desobediência. Lisboa: Edições ASA.

N.º de páginas: 336
Início da leitura: 01/09/2026
Fim da leitura: 02/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"O romance de estreia de Glória Brito foi aclamado pela crítica e adorado pelos leitores. O sucesso, porém, não se repetiu. A escritora está agora perto dos quarenta anos e começa a questionar o seu talento e o seu lugar no mundo. O medo instala-se.

Viver era mais simples no bairro onde cresceu, um tempo em que se sentia livre e a sua família ainda estava completa. Já não é assim. Glória abandonou o bairro, embora a sua memória teime em levá-la para lá. A liberdade não cumpriu a sua promessa de plenitude. A destruição da família alterou a sua relação com os outros e consigo mesma.

A única constante na sua vida é Lúcia, uma amiga que insiste em arrancá-la à solidão, mesmo quando Glória resiste. Serão as palavras crípticas de uma voz do seu passado a abalar essa resistência. Quem sabe, talvez o livro que precisa de escrever já esteja escrito.

Atos de Desobediência explora a intimidade feminina, as relações entre mulheres e homens, entre gerações e classes sociais, numa celebração tão apaixonada quanto crítica da literatura e da arte."

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Em Atos de Desobediência, Helena Magalhães constrói um romance centrado em Glória Brito, uma escritora cuja relação com a literatura está longe de ser pacífica. A dificuldade em encontrar leitores e reconhecimento para aquilo que escreve vai-se cruzando com um passado marcado por relações dolorosas e com uma visão desencantada das relações entre homens e mulheres. Entre a frustração profissional, a solidão e uma sucessão de relações que pouco ou nada parecem acrescentar à sua vida, Glória procura formas de preencher um vazio que a escrita, apesar de tudo, não consegue resolver.
A personagem vive também uma espécie de confronto permanente com aquilo que entende serem as desigualdades existentes no meio literário e na sociedade. A sua revolta perante o reconhecimento atribuído aos homens, por vezes independentemente do mérito que lhes reconhece, introduz no romance uma dimensão crítica que ultrapassa a história individual da protagonista. Helena Magalhães aborda, assim, questões relacionadas com as diferenças de oportunidades, com os papéis atribuídos a homens e mulheres e com a dificuldade de afirmação feminina num espaço que nem sempre parece oferecer as mesmas possibilidades a todos.
É neste contexto que surge Fernando, uma presença que altera o equilíbrio precário em que Glória se encontra. A relação que estabelece com ele coloca-a perante expetativas, ilusões e escolhas que revelam tanto a sua vulnerabilidade como a necessidade de acreditar que, finalmente, encontrou alguém capaz de dar um sentido diferente à sua vida. No entanto, aquilo que cada um está disposto a perder, ou a sacrificar, para que essa relação possa existir é uma questão que o romance vai deixando em aberto e que ganha importância à medida que a narrativa avança.
Apesar de reconhecer mérito à autora na forma como explora estas questões, terminei a leitura com sentimentos algo contraditórios. A escrita é, sem dúvida, um dos pontos fortes do livro, sobretudo na maneira como acompanha o mundo interior da protagonista e dá espaço às suas inquietações, ressentimentos e contradições. Há uma intenção clara de questionar determinadas estruturas sociais e profissionais, e essa dimensão crítica é interessante e, em vários momentos, pertinente.
Por outro lado, senti dificuldade em criar empatia com as personagens. Também algumas situações e conflitos me pareceram regressar demasiadas vezes aos mesmos lugares, contribuindo para um ritmo irregular e, em certos momentos, excessivamente repetitivo. Essa insistência acabou por retirar algum impacto a acontecimentos que, apresentados de forma mais contida, poderiam ter produzido maior efeito.
Talvez esta seja, em parte, uma questão de expetativas. A sinopse despertou em mim uma curiosidade que acabou por não encontrar correspondência total na leitura. Esperava uma narrativa com uma tensão diferente e uma maior capacidade de me envolver emocionalmente com as personagens. Encontrei, em vez disso, um romance sobretudo interessado nas suas inquietações, nas fragilidades das relações e nas questões de género e de reconhecimento que atravessam a protagonista.

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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