Histórias Soltas Presas Dentro de Mim
Rodrígues, Eider e Ribas, Julen (2022). Santa Família. Prior Velho: A Seita.
Tradução a partir do castelhano: Pedro Cleto
N.º de páginas: 48
Início e fim da leitura: 03/10/2026

**SINOPSE WOOK**
"Os nossos amigos, a nossa forma de vida, a nossa roupa, a música... tudo isso são coisas que escolhemos. Mas a família... a família não, essa é-nos imposta à nascença. Só que Nora decidiu romper com essa regra. E há algum tempo que guarda um segredo, um segredo tremendo, e chegou a altura de o revelar, o que vai fazer com que a mais sagrada instituição da sua vida vá ser abalada. A sua família. A sua santa família, que está quase a ir pelos ares! Mas se esta história nos ensina alguma coisa, é que às vezes são necessárias pequenas revoluções para que tudo volte a ser... como dantes!

Um álbum de BD representativo da nova geração de autores espanhóis bascos, num tom entre a crítica social e de costumes da nossa sociedade moderna, e um realismo fantástico desarmante."

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Em Santa Família, Eider Rodríguez e Julen Ribas constroem uma novela gráfica que parte de uma realidade aparentemente familiar para explorar as relações, os silêncios e as feridas que podem existir dentro de uma família. O título, desde logo, encerra uma certa ironia: por detrás da ideia de família, tantas vezes associada à união, à proteção e ao afeto, podem esconder-se conflitos, ressentimentos, segredos e sentimentos difíceis de verbalizar.
A história coloca-nos perante personagens cujas relações são marcadas por aquilo que dizem, mas sobretudo por aquilo que não dizem. Há uma tensão que se vai instalando progressivamente e que resulta menos de grandes acontecimentos do que da acumulação de pequenos gestos, memórias e comportamentos. É nesse espaço entre o que é mostrado e o que permanece oculto que a narrativa encontra grande parte da sua força.
Eider Rodríguez demonstra uma particular atenção às relações humanas e à complexidade dos afetos.  Cada personagem carrega a sua própria história, as suas fragilidades e a sua maneira de interpretar aquilo que aconteceu. A família surge, assim, como um lugar simultaneamente de pertença e de conflito, onde o amor pode coexistir com a mágoa e onde nem sempre é fácil distinguir o cuidado do controlo, a preocupação do julgamento ou a proximidade da obrigação.
A novela aborda também questões relacionadas com a passagem do tempo e com a forma como as relações familiares se transformam. Há acontecimentos que não desaparecem simplesmente porque os anos passam. Pelo contrário, podem permanecer silenciosamente presentes e reaparecer quando determinadas circunstâncias os trazem novamente à superfície. A memória desempenha, por isso, um papel importante, sobretudo porque aquilo que cada personagem recorda nem sempre corresponde àquilo que os outros recordam.
Santa Família é também uma reflexão sobre as expetativas que depositamos na família. Existe uma ideia socialmente construída de que os laços familiares devem ser naturalmente fortes e incondicionais, mas a realidade é bastante mais complexa. As famílias podem ser espaços de amor e de segurança, mas também podem reproduzir padrões, alimentar conflitos e deixar marcas profundas. Reconhecer essa complexidade não significa negar o afeto, mas aceitar que as relações mais próximas são, muitas vezes, também as mais difíceis.
O que mais me interessou nesta novela gráfica foi precisamente essa capacidade de partir do quotidiano para chegar a questões mais profundas. Não é necessário recorrer a acontecimentos extraordinários para falar de culpa, ressentimento, envelhecimento, perda, amor ou dificuldade de comunicação. Muitas vezes, é dentro de uma casa, entre pessoas que se conhecem há anos, que se encontram os conflitos mais difíceis de resolver.

Burke, Caro Claire (2026). Yesteryear. Porto: Porto Editora.
Tradução: Rui Filipe
N.º de páginas: 436
Início da leitura: 01/10/2026
Fim da leitura: 04/10/2026

**SINOPSE WOOK**

"Natalie Heller Mills é uma mulher americana tradicional: uma esposa e mãe deslumbrante que vende um estilo de vida pioneiro aos seus milhões de seguidores nas redes sociais. O rancho onde vive tem um charme rústico irresistível, o marido é um cowboy atraente, e cada um dos seus seis filhos é mais perfeito do que o anterior.

Que importa se há amas e produtores nos bastidores, se a cozinha esconde eletrodomésticos de nível industrial, se o marido é herdeiro de uma dinastia política? Se os seguidores de Natalie não sabem é como se não existisse. E as “Mulheres Zangadas”? As elitistas que a acusam de ser uma iconoclasta antifeminista? Estão doentes de inveja. Porque Natalie não está apenas a viver a vida perfeita — está a construir um império.

Até que, numa manhã, acorda numa vida que não é a sua. A casa, o marido, os filhos — tudo lhe é familiar, mas está errado. A cozinha não tem eletricidade; os filhos estão sujos e estranhos; e o marido é agora um agricultor competente. Na trave de madeira sobre a porta, está gravada uma data: 1855.

Ainda ontem selecionava fotografias para o Instagram; agora, espera-se que carregue lenha e lave roupa à mão até os dedos sangrarem. Ter-se-á tornado a estrela involuntária de um reality show? Será possível que tenha viajado no tempo?
Quando sofre um ferimento brutal, Natalie percebe duas coisas: esta não é a sua vida; e tem de escapar, custe o que custar."

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Natalie é uma influenciadora que representa a mulher tradicional, que casa com um homem rico e tem muitos filhos. Passa, através das redes sociais, a ideia de uma vida perfeita, no campo - Rancho Yesteryear, enquanto mãe perfeita e esposa exemplar, contrariando a ideia de emancipação da mulher através do trabalho, algo com que discorda, considerando que as mulheres que trabalham vão ser sempre subalternas e ter uma vida miserável. Vende a imagem de uma mãe carinhosa e atenciosa, de felicidade (que não existe, com efeito) e de uma preocupação com uma vida natural com alimentos cultivados na quinta, sem químicos. Acontece que toda a vida perfeita que proclama não passa de uma fachada, pois, na verdade, nem sequer tem espírito maternal e tem uma série de criados e amas para manter esta ideia de vida perfeita. A relação com o marido também não é perfeita. Afinal, a perfeição não existe e esta situação aqui retratada é uma crítica à sociedade atual.
E se Natalie acordasse numa época em que realmente viveriam como ela proclama enquanto criadora de conteúdos? É o que acontece, quando acorda nos anos de 1850, num regresso a uma espécie de "Casa na Pradaria", com todas as dificuldades que essa vida, de facto implica?
Convido-vos a lerem este livro e a surpreenderem-se com esta personagem tão (im)perfeita e à forma como reage ao se confrontar com as dificuldades da vida que proclama como perfeita.

Spencer, Charles (2026). O Canto do Cisne - Diana, a minha irmã. Lisboa: Penguin.
Tradução: Susana Sousa e Silva e Margarida Pacheco Nunes
N.º de páginas:368
Início da leitura: 28/09/2026
Fim da leitura: 30/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Em setembro de 1997, na Abadia de Westminster, com os olhos do mundo postos em si, Charles Spencer partilhou a dor que sentia pela morte da sua querida irmã, Diana. Quase trinta anos depois, chegou o momento de contar a incrível história da vida que partilhou com Diana e a trágica semana da sua morte.

Durante a infância, Charles e Diana, os membros mais jovens da família Spencer, tinham uma ligação profunda, tratando-se pelas alcunhas secretas Duch e Carlos. Confidentes e inseparáveis, exploravam juntos os limites da propriedade da família, suportaram internatos extremamente difíceis, sobreviveram a amas pavorosas e apoiaram-se mutuamente durante a agonia do divórcio dos pais.

Tudo mudou, porém, quando Diana casou com o príncipe de Gales, atual rei Carlos III, e se tornou, de um momento para o outro, o rosto mais reconhecido do planeta. Charles viu a irmã mais velha socorrer os membros mais frágeis da sociedade e desfrutar da maternidade com os seus amados filhos.

No entanto, perseguida pela imprensa bárbara durante o desmoronar do seu casamento, Diana achou-se abandonada à sua sorte. O irmão Charles sempre tentou estar a seu lado, até àquela fatídica noite de agosto, em 1997.

Em O Canto do Cisne, Charles Spencer traça o retrato mais íntimo, honesto e afetuoso da sua irmã, a princesa Diana."

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Em O Canto do Cisne - Diana, a minha irmã, Charles Spencer propõe-se contar a história da irmã a partir de um lugar necessariamente particular: o de irmão. Não é, por isso, apenas uma biografia de Diana, mas também o testemunho de alguém que partilhou com ela parte da infância, acompanhou de perto alguns dos momentos mais marcantes da sua vida e viveu, à sua maneira, as consequências da enorme exposição mediática que rodeou a família.
Ao longo do livro, Spencer regressa aos primeiros anos de Diana e às circunstâncias familiares que contribuíram para moldar a mulher em que viria a transformar-se. A separação dos pais, a disputa pela guarda dos filhos, os colégios internos e as experiências vividas durante a infância são revisitados com especial atenção. Mais do que acontecimentos isolados, são apresentados como peças de uma história pessoal que ajuda a compreender algumas das fragilidades, expectativas e necessidades afetivas que Diana carregaria consigo ao longo da vida.
É particularmente interessante acompanhar a imagem que o irmão constrói de uma Diana ainda distante da figura pública que o mundo viria a conhecer. Antes da princesa, existia uma jovem com sonhos relativamente simples: apaixonar-se, casar, construir uma família e ter muitos filhos. O encontro com Carlos surge, nesse contexto, como a concretização de uma possibilidade que parecia corresponder àquilo que ela desejava para a sua vida. A realidade, contudo, revelar-se-ia bastante diferente da expetativa.
Quando Diana percebe que os sentimentos de Carlos não correspondem aos seus, o casamento já se encontra demasiado próximo para que seja fácil recuar. A partir daí, Spencer acompanha uma história marcada pelo desencanto, pela solidão e pela crescente consciência de que a relação estava longe de corresponder ao sonho que Diana tinha alimentado. O casamento, que aos olhos do público representava um conto de fadas, escondia uma realidade muito mais dolorosa.
É neste contraste entre a imagem pública e a experiência privada que o livro encontra uma das suas dimensões mais interessantes. Diana tornou-se uma das mulheres mais conhecidas do mundo, mas a celebridade não significou necessariamente felicidade. Pelo contrário, a enorme atenção dos meios de comunicação conviveu com problemas pessoais que, durante muito tempo, foram conhecidos apenas de forma fragmentada. Spencer procura recuperar precisamente essa dimensão menos visível da irmã, abordando episódios relacionados com a infelicidade no casamento, os problemas alimentares, a relação difícil com Carlos e o longo processo que conduziria ao divórcio, formalizado em 1996.
A perspetiva do autor é, inevitavelmente, marcada pelo afeto e pela experiência pessoal. Charles Spencer não escreve como um observador distante e isso tanto constitui uma das forças do livro como uma das suas limitações. Há momentos em que se sente claramente a necessidade de defender a memória da irmã e de dar uma versão dos acontecimentos que contrarie determinadas imagens construídas ao longo dos anos. 
Outro dos aspetos relevantes do livro é a reflexão, ainda que indireta, sobre o preço da exposição pública. Diana viveu praticamente toda a idade adulta sob o olhar dos outros, num ambiente em que os acontecimentos privados eram transformados em notícias e em que cada gesto podia ser interpretado, ampliado ou julgado. O livro permite perceber como essa permanente vigilância coexistia com uma vida pessoal marcada por dificuldades que não podiam ser resolvidas pela fama ou pelo estatuto.
No final, fica a imagem de uma mulher cuja vida esteve muitas vezes dividida entre aquilo que o mundo via e aquilo que realmente vivia. A princesa que milhões de pessoas admiravam era também uma irmã, uma filha e uma mãe, com sonhos, fragilidades e desilusões. É essa dimensão mais humana que Charles Spencer procura resgatar, dando voz a acontecimentos que, segundo a sua perspetiva, permaneceram durante demasiado tempo à margem da narrativa pública.

Evans, Virginia (2026). A Correspondente. Alfragide: Casa das Letras. 

Tradução: Sebastião Sousa
N.º de páginas: 320
Início e fim da leitura: 26/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Sybil Van Antwerp sempre usou cartas para dar sentido ao mundo e ao seu lugar nele. Aos 70 anos, esta advogada aposentada dedica as suas manhãs a corresponder-se com família, amigos, vizinhos, antigos colegas e até com os seus autores preferidos. Teimosa, ranzinza, excessivamente opinativa e, ainda assim, imensamente cativante, Sybil partilha as suas reflexões sobre tudo: do casamento à maternidade, da amizade à perda, do luto ao envelhecimento.

Através das suas cartas, conhecemos o mundo fascinante de Sybil e as personagens que o habitam. Mas há uma carta que ela escreve há anos e que nunca teve coragem de enviar. Sybil espera que o seu mundo continue como sempre foi. Contudo, quando cartas de alguém do seu passado a forçam a examinar um dos períodos mais dolorosos da sua vida, ela percebe que não pode mais adiar o inevitável. Para seguir em frente, terá de encontrar no seu coração a força para perdoar e, finalmente, enviar a carta mais difícil da sua vida.

Uma história comovente e agridoce sobre o poder transformador da palavra escrita e a beleza de abrandar para nos reconectarmos com as pessoas que amamos. Sybil é uma personagem que permanecerá consigo muito depois de pousar as suas cartas."

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Nem sempre entramos imediatamente num livro. Foi o que me aconteceu com A Correspondente, de Virginia Evans. O formato epistolar, numa primeira fase, não me conquistou particularmente e a sucessão de cartas pareceu-me, por momentos, demasiado maçadora. Faltava-me ainda perceber o que se escondia por detrás daquela correspondência aparentemente quotidiana. Foi à medida que fui conhecendo melhor as personagens e as histórias que as ligavam que a leitura começou a ganhar outra dimensão e percebi que este é um livro que está muito para além das cartas que o compõem.
A protagonista é Sybil Van Antwerp, uma septuagenária, advogada reformada, que desde muito jovem encontrou na escrita de cartas a sua forma privilegiada de comunicar com os outros. A correspondência faz parte da sua vida e atravessa diferentes relações: escreve à família, aos amigos, aos vizinhos e também a escritores, a quem não hesita em enviar as suas opiniões sobre os livros que lê. Entre assuntos aparentemente banais, confidências, preocupações, memórias e questões que ficaram por resolver, vamos conhecendo uma mulher atenta ao mundo e às pessoas que a rodeiam, com uma personalidade vincada e uma maneira muito própria de observar aquilo que acontece à sua volta.
É através dessas cartas que o leitor vai, progressivamente, entrando na intimidade de Sybil. A escrita permite-lhe dizer aquilo que nem sempre seria fácil dizer de viva voz, revisitar o passado, expressar afetos, formular juízos e, sobretudo, manter uma ligação com os outros. Há qualquer coisa de profundamente humana nesta necessidade de escrever e de ser lida, numa época em que a comunicação se tornou cada vez mais imediata, mas nem sempre mais próxima.
À medida que a narrativa avança, percebe-se que as cartas são apenas o meio através do qual se revelam histórias muito mais profundas. Por detrás das palavras estão pessoas com as suas fragilidades, escolhas, perdas, segredos e arrependimentos. A correspondência funciona, por isso, quase como uma porta de entrada para diferentes vidas e para uma reflexão sobre aquilo que nos une aos outros, mesmo quando o tempo, a distância ou as circunstâncias parecem criar separações.
Um dos aspetos que mais me interessou no livro foi precisamente a forma como aborda a velhice sem a reduzir a uma fase de perda ou de apagamento. Sybil é uma mulher que continua a ter opiniões, desejos, curiosidade e vontade de participar no mundo. A sua idade não lhe retira voz; pelo contrário, a experiência acumulada dá-lhe uma perspetiva particular sobre as pessoas e sobre as relações humanas. Existe, ainda assim, uma consciência muito presente da passagem do tempo e daquilo que se vai perdendo pelo caminho, o que confere à narrativa uma dimensão inevitavelmente melancólica.
A perda e o luto ocupam igualmente um lugar importante, mas o livro não se limita a retratar a dor. Há também espaço para a amizade, para os afetos, para a possibilidade de recomeçar e para o papel que os outros podem desempenhar nos momentos mais difíceis. As relações humanas surgem aqui com todas as suas contradições: há proximidade e distância, compreensão e incompreensão, palavras que aproximam e outras que podem ferir.
E depois há a própria palavra escrita. A Correspondente é, de certa forma, uma defesa da escrita como instrumento de ligação e transformação. Uma carta pode preservar uma memória, esclarecer um mal-entendido, revelar um sentimento ou alterar a forma como alguém olha para determinado acontecimento. Escrever implica parar, escolher as palavras e pensar no que queremos realmente transmitir. Talvez por isso as cartas de Sybil acabem por adquirir um peso muito maior do que aquele que inicialmente lhes atribuímos.
Também os valores e os princípios pessoais atravessam o romance. Sybil não é uma personagem indiferente ao que acontece à sua volta e a sua correspondência revela uma mulher com convicções, capaz de questionar comportamentos e de defender aquilo em que acredita. Nem sempre será uma personagem fácil de acompanhar ou de compreender, mas é precisamente essa personalidade vincada que lhe confere autenticidade.

O'Farrel, Maggie (2025). A Primeira Mão Que Segurou a Minha. Lisboa: Relógio D'Água.
Tradução: Inês Dias
N.º de páginas: 344
Início da leitura: 22/09/2026
Fim da leitura: 25/09/2026 

**SINOPSE WOOK**
"Quando o sofisticado Innes Kent aparece à sua porta, Lexie Sinclair percebe que não pode esperar mais para começar a viver e decide partir para Londres, onde, no coração da cena artística de Soho na década de 1950, constrói uma nova vida.

Anos depois, Elina e Ted estão a lidar com o nascimento do primeiro filho. Ela luta para conciliar as exigências da maternidade com a sua vida artística, enquanto Ted é assombrado por memórias da sua infância que não coincidem com as histórias contadas pelos pais.

À medida que Ted começa a procurar respostas, é revelado um retrato de duas mulheres — separadas por cinquenta anos mas ligadas de formas que nenhuma poderia ter previsto."

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Em A Primeira Mão Que Segurou a Minha, Maggie O’Farrell constrói uma narrativa assente em duas histórias separadas no tempo, que avançam em paralelo até se aproximarem de forma subtil e reveladora. A autora não tem pressa em explicar as ligações entre as personagens ou em esclarecer todas as perguntas que vai deixando pelo caminho.
Em Londres, nos anos 1950, acompanhamos Lexie, uma jovem que deixa para trás a terra onde cresceu e parte em busca de uma vida mais ampla. Na capital, encontra um mundo muito diferente daquele que conhecia e começa a afirmar-se profissionalmente como jornalista e crítica de arte. A sua trajetória é também a de uma mulher que procura conquistar independência num contexto em que as expetativas sociais ainda lhe impõem limites bastante definidos. O’Farrell acompanha essa transformação com atenção aos pequenos gestos, às relações e às escolhas que, aparentemente insignificantes, acabam por determinar o rumo de uma vida.
Décadas depois, a narrativa conduz-nos até Ted e Elina. A chegada do primeiro filho, que poderia representar apenas um momento de felicidade e renovação, surge marcada por um parto traumático e pelas consequências físicas e emocionais que este deixa em Elina. Enquanto ela tenta recuperar e adaptar-se à maternidade, Ted vê regressar memórias fragmentadas de uma infância que julgava distante. Há nele uma sensação persistente de ausência e de estranheza, relacionada com um passado sobre o qual pouco consegue ou quer falar.
É interessante perceber como as duas histórias, apesar de muito diferentes à superfície, são atravessadas por questões semelhantes: a maternidade, a identidade, a memória, a passagem do tempo e a forma como acontecimentos do passado podem continuar a influenciar vidas muito depois de terem acontecido. O corpo e a memória assumem, aliás, um papel particularmente importante no romance. 
A autora revela também uma especial atenção à experiência feminina. Lexie e Elina pertencem a épocas distintas e enfrentam circunstâncias muito diferentes, mas ambas procuram encontrar o seu lugar num mundo que, de maneiras diversas, lhes impõe determinadas expetativas. A maternidade não é apresentada de forma idealizada, e a recuperação de Elina depois do parto é tratada com uma dimensão física e emocional que confere ao romance uma particular intensidade.
Um dos aspetos mais conseguidos do livro é precisamente a forma como O’Farrell trabalha o mistério sem transformar a narrativa num simples exercício de suspense. Existem perguntas que se acumulam e pequenas pistas que vão adquirindo significado à medida que avançamos, mas o interesse do romance não depende apenas de descobrir como as histórias se relacionam. O percurso das personagens é, por si só, suficientemente rico para sustentar a leitura.
O ritmo é, quanto a mim, deliberadamente pausado, sobretudo porque a autora privilegia a construção das personagens e a atmosfera em detrimento de uma sucessão rápida de acontecimentos. Há momentos em que essa opção pode exigir alguma paciência, mas acaba por ser coerente com uma história em que o essencial está muitas vezes nas emoções, nas lembranças e naquilo que permanece por dizer.

Talbot, Bryan (2016). A História de um Rato Mau. Lisboa: Levoir.
Tradução: Pedro Vieira de Moura
N.º de páginas: 136
Início da leitura: 22/09/2026
Fim da leitura: 23/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Bryan Talbot é um dos grandes autores britânicos. Iniciou a sua carreira nos comics underground, quando ainda estudava no liceu. Depois de colaborar em várias revistas inglesas de BD, tem trabalhado também para o mercado americano, ilustrando histórias para as mais emblemáticas séries de comics, como "The Sandman", "Hellblazer" ou "Fables". É igualmente um argumentista conceituado e criador de duas grandes séries, «Luther Arkwright» e «Grandville». "A História de um Rato Mau" é considerado o seu melhor livro. Helen Potter, uma jovem vítima de abuso sexual, empreende uma viagem de descoberta pela Inglaterra, seguindo os passos da célebre autora de livros infantis, Beatrix Potter, na esperança de reencontrar a paz...neste diálogo entre duas épocas e duas Potter, Helen irá descobrir a verdadeira força interior com que confrontará os seus demónios pessoais, numa história de heroísmo e coragem."

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A História de um Rato Mau, de Bryan Talbot, é uma uma novela gráfica que aborda temas muito duros, mas que encontra na sensibilidade e na contenção uma forma de lhes dar voz, sem nunca perder de vista a humanidade da sua protagonista.
Helen Potter, uma adolescente de dezasseis anos, vive nas ruas de Londres, acompanhada pelo seu rato de estimação. Marcada por uma infância traumática, em que os abusos sexuais perpetrados pelo pai se cruzam com a indiferença da mãe, Helen carrega consigo feridas que condicionam a forma como olha para si própria e para o mundo. Sem um lugar a que possa verdadeiramente chamar casa, procura, através de uma viagem por Inglaterra, encontrar algum sentido para a sua existência e uma forma de escapar à dor que a acompanha.
A viagem de Helen segue os passos de Beatrix Potter, autora que assume um significado particular nesta narrativa. Mais do que uma deslocação física, este percurso representa uma tentativa de reencontro consigo própria, de recuperação de alguma esperança e de descoberta de um lugar onde possa sentir-se segura. A referência a Beatrix Potter estabelece também um contraste significativo entre o universo associado à infância e a realidade de uma jovem a quem foi negada a segurança e a proteção que deveriam fazer parte dessa etapa da vida.
Um dos aspetos mais marcantes desta novela gráfica é a forma como Bryan Talbot aborda as consequências do abuso e da negligência. Helen não é apenas uma personagem que procura sobreviver às circunstâncias em que se encontra; é alguém que luta contra as marcas de um passado que continua a interferir no seu presente e que, em determinados momentos, torna difícil imaginar um futuro. A ideia de suicídio acompanha-a como expressão de um sofrimento atroz, tornando ainda mais delicado o caminho que terá de percorrer.
A dureza daquilo que Helen viveu está presente, mas o centro da narrativa é a própria jovem: os seus medos, as suas fragilidades, a sua necessidade de afeto e a possibilidade, ainda que incerta, de voltar a acreditar na vida. É essa atenção à dimensão humana da personagem que confere à obra uma força particular.
Também o rato que acompanha Helen merece destaque. Num mundo em que tantas das relações humanas falharam, este pequeno companheiro representa uma presença constante, uma ligação afetiva e uma forma de companhia que não exige explicações. A sua presença acrescenta uma dimensão de ternura à narrativa e reforça a solidão da protagonista.
A escolha da novela gráfica revela-se particularmente adequada a esta história. A combinação entre texto e imagem permite transmitir emoções e estados de espírito que nem sempre precisam de ser verbalizados. Os silêncios, os espaços e a expressão das personagens contribuem para a construção de uma atmosfera que acompanha a experiência de Helen e dá ao leitor tempo para assimilar aquilo que lhe é mostrado.
Aquilo que mais me parece relevante nesta obra é a forma como nos leva a olhar para uma jovem que, apesar de tudo o que sofreu, não se reduz à sua condição de vítima. Helen é uma personagem vulnerável, mas também alguém que procura uma saída, que tenta encontrar um lugar no mundo e que, mesmo perante a possibilidade de desistir, continua a avançar. 

Tremayne, S.K. (2016). A Criança de Fogo. Amadora: Topseller.

Tradução: Miguel Martins
N.º de páginas: 352
Início da leitura: 20/09/2026
Fim da leitura: 22/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Quando Rachel se casa com David, tudo parece encaixar-se. Ao mudar-se de uma vida de mãe solteira para a bela mansão Carnhallow na Cornualha, ela ganha riqueza, amor e até um irmão para a sua filha, Millie. É então que o seu enteado, Jamie, faz uma previsão assustadora, e a vida perfeita de Rachel começa a desmoronar-se. Assombrada pelo fantasma da falecida mulher de David, a mãe de Jamie, e à medida que suspeita que a morte daquela não tenha sido suicídio, Rachel começa a temer que as palavras do enteado se tornem realidade: «Irás morrer no Natal»."

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A Criança de Fogo, de S. K. Tremayne, foi um thriller que iniciei com bastante expetativa e que, desde as primeiras páginas, conseguiu despertar a minha curiosidade. A narrativa envolve-nos rapidamente numa atmosfera de mistério e inquietação, criando aquela necessidade de continuar a ler, sempre na esperança de descobrir o que se esconde por detrás dos acontecimentos.
O autor demonstra uma boa capacidade para construir suspense e manter o leitor preso à história. Existe, desde cedo, uma sensação de desconforto que atravessa a narrativa e que contribui para alimentar a curiosidade. A pouco e pouco, vamos sendo envolvidos numa sucessão de dúvidas e suspeitas, numa leitura que se revela bastante viciante, sobretudo na primeira parte.
Um dos aspetos que mais contribuiu para o meu envolvimento com o livro foi precisamente essa capacidade de manter a tensão narrativa. Tremayne sabe dosear a informação, lançar pistas e criar uma atmosfera de permanente incerteza, levando-nos a questionar aquilo que julgávamos compreender. É um daqueles thrillers em que sentimos vontade de avançar mais um capítulo, na esperança de encontrar respostas para as perguntas que vão surgindo.
Contudo, apesar de ter mantido o meu interesse durante grande parte da leitura, senti que a narrativa começou a perder alguma da sua força já próximo do último quarto do livro. O que até então me parecia uma história bem conduzida, acabou por tomar um rumo que não me convenceu inteiramente.
Confesso que não gostei tanto do desfecho. Na minha perspetiva, a resolução dos acontecimentos torna-se demasiado rebuscada e acaba por comprometer, em certa medida, a credibilidade da história. A sucessão de explicações e revelações parece afastar-se da consistência que eu esperava encontrar, deixando a sensação de que o autor procurou surpreender o leitor a qualquer custo. E, embora um thriller possa naturalmente recorrer a reviravoltas inesperadas, considero que estas funcionam melhor quando permanecem coerentes com aquilo que foi sendo construído ao longo da narrativa.

Ginzburg, Natalia (2019). Léxico Familiar. Lisboa: Relógio D'Água.

Tradução: (do italiano) Miguel Serras Pereira
N.º de páginas: 200
Início da leitura: 16/09/2026
Fim da leitura: 19/09/2026

**SINOPSE WOOK**
"Léxico Familiar é o principal livro de Natalia Ginzburg e um clássico da literatura italiana contemporânea. A narrativa acompanha a vida dos Levi, que viveram em Turim entre 1930 e 1950, período em que se assiste à ascensão do fascismo, à Segunda Guerra Mundial e aos acontecimentos que se lhe seguiram.

Natalia, uma das filhas do professor Levi, foi testemunha dos momentos íntimos da família e dessa conversa entre pais e irmãos que se converteu num idioma secreto. Nesta narrativa de pendor autobiográfico, os acontecimentos quotidianos misturam-se com reflexões que mantêm toda a atualidade.

O livro venceu em 1963 o Prémio Strega."

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Em Léxico Familiar, Natalia Ginzburg revisita a história da sua família, recuperando memórias, episódios e personagens que fizeram parte da sua vida. Mais do que uma narrativa autobiográfica convencional, a obra é um retrato íntimo de uma família muito própria, cuja identidade se constrói não apenas através das experiências partilhadas, mas também das palavras, expressões e frases que, repetidas ao longo dos anos, acabam por adquirir um significado exclusivo para quem delas faz parte.
Uma das características que mais me chamou a atenção foi a aparente distanciação da autora relativamente aos acontecimentos que narra. Existe uma contenção na forma como apresenta as personagens e relata os episódios familiares, como se a narradora procurasse observar o passado com um olhar quase documental, sem se deixar dominar pela emoção ou pela tentação de interpretar excessivamente aquilo que recorda. A escrita é despojada, pouco dada a sentimentalismos e essa opção confere à narrativa uma particular sobriedade.
Natalia Ginzburg não parece interessada em construir uma memória idealizada da família, nem em transformar as recordações numa sucessão de momentos especialmente comoventes. Pelo contrário, apresenta os acontecimentos com uma naturalidade que, em determinados momentos, pode até criar alguma distância entre o leitor e as personagens. É como se a autora nos permitisse observar aquela família a partir de um lugar discreto, sem procurar impor-nos uma determinada leitura dos seus comportamentos ou sentimentos.
No entanto, à medida que entramos na história, essa distância inicial vai adquirindo outros contornos. Por detrás da aparente neutralidade da narração, começam a surgir os afetos, as cumplicidades, os conflitos e as pequenas particularidades que tornam aquela família tão singular. A emoção não é declarada, nem sublinhada pela autora; vai-se revelando de forma subtil, através dos gestos, dos episódios quotidianos e, sobretudo, da linguagem que une aquelas pessoas.
É precisamente no léxico familiar que reside uma das maiores riquezas desta obra. As expressões, as frases repetidas vezes sem conta e as palavras que atravessam gerações tornam-se uma espécie de código íntimo, reconhecível apenas por aqueles que partilham a mesma história. São palavras que, fora daquele contexto, poderiam parecer banais ou até desprovidas de sentido, mas que, dentro da família, transportam memórias, sentimentos e uma identidade comum.
Este léxico não é apenas um elemento curioso da narrativa. É, na verdade, o fio condutor que permite à autora reconstruir o passado e preservar a memória daqueles que fizeram parte da sua vida. As palavras tornam-se testemunhas de uma existência partilhada e revelam como a linguagem pode ser uma forma de pertença, um lugar onde a família continua a existir, mesmo quando o tempo e as circunstâncias alteram irremediavelmente as relações.

 Alvarado, Mayte (2023). A Ilha. Lisboa: Levoir.
Tradução: Carlos Xavier
N.º de páginas: 152
Início e fim da leitura: 14/09/2026

**SINOPSE WOOK**
Os habitantes da Ilha vivem de acordo com uma antiga lenda: a história de um marinheiro que diz que uma grande onda chegará um dia para varrer tudo o que estiver no seu caminho e afundar as suas casas nas profundezas do oceano. As personagens que dão vida a esta história vagueiam pela paisagem nua e crua: uma rapariga que reflecte sobre os limites do seu pequeno mundo, um homem que vive com o luto após uma perda grave e um cão que parece ser o sonho vivo da lenda da ilha. Os Três Mosqueteiros!

Por entre complôs e missões perigosas, estes corajosos aventureiros vão unir-se em torno de um lema que sela a sua aliança e amizade: «Um por todos... todos por um!»

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A Ilha, de Mayte Alvarado, é uma novela gráfica que se constrói, sobretudo, através da imagem. O texto é breve, quase sempre poético, e surge como complemento de uma narrativa que não precisa de muitas palavras para criar uma atmosfera própria. É nas ilustrações, nos silêncios e naquilo que fica por dizer que a obra encontra grande parte da sua força.
A premissa é simples, mas encerra uma dimensão simbólica que se vai ampliando à medida que avançamos na leitura: aquilo que ao mar é tirado ao mar retornará. A partir desta ideia, Mayte Alvarado constrói uma narrativa profundamente ligada ao ciclo da vida, ao tempo e à inevitabilidade da transformação. O mar surge não apenas como espaço físico, mas como uma presença constante, quase intemporal, que recebe, guarda e devolve.
Existe nesta obra uma sensação permanente de passagem. Nada parece verdadeiramente definitivo e tudo se encontra sujeito a um movimento de retorno. Pessoas, objetos, memórias e acontecimentos parecem fazer parte de um ciclo maior, sobre o qual não temos controlo. É uma perspetiva que pode ser lida como uma reflexão sobre a vida e a morte, sobre a perda ou simplesmente sobre a impossibilidade de permanecermos iguais ao longo do tempo.
Talvez por isso A Ilha seja uma obra de interpretação necessariamente aberta. O que nela encontramos dependerá, em grande medida, da sensibilidade de quem a lê e das experiências que leva consigo para aquelas páginas. Uma mesma imagem poderá sugerir perda a um leitor, renascimento a outro, ou simplesmente evocar a passagem inexorável do tempo. Não há propriamente uma resposta certa, e essa ambiguidade parece ser uma das características mais interessantes da obra.
Também a ilha e o mar adquirem uma dimensão simbólica particularmente forte. A ilha pode representar isolamento, permanência ou mesmo a nossa existência individual, enquanto o mar sugere movimento, mudança e aquilo que está para além do nosso alcance. Entre os dois estabelece-se uma relação de tensão e de dependência que permite múltiplas leituras.
É uma novela gráfica que pede, por isso, uma leitura diferente daquela que fazemos de uma narrativa convencional. Não é tanto um livro para ler rapidamente e procurar compreender de imediato, mas uma obra para observar. As imagens merecem tempo e atenção, e há uma beleza particular na possibilidade de regressarmos a determinadas páginas e encontrarmos nelas significados que não tínhamos percebido numa primeira passagem.
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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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