Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

 Kimmerer, Robin Wall (2023). A Sabedoria da Terra. Lisboa: Marcador.

Tradução: Isabel Alves
N.º de páginas: 384
Início da leitura: 03/06/2026
Fim da Leitura: 06/06/2026

**SINOPSE WOOK**
"Enquanto botanista, Robin Wall Kimmerer faz perguntas sobre a natureza com as ferramentas da ciência. Enquanto membro da Nação Potawatomi, partilha a ideia de que plantas e animais são os nossos mais antigos professores.

Neste livro, a autora une essas duas lentes de conhecimento para nos guiar numa «viagem que é tão mítica quanto científica, tão sagrada quanto histórica, tão inteligente quanto sábia», nas palavras de Elizabeth Gilbert, autora de Comer, Orar, Amar.

Baseando-se na sua vida como cientista, indígena, mãe e mulher, a autora mostra-nos como outros seres vivos nos oferecem dádivas e lições importantes, mesmo que nos tenhamos esquecido de como ouvir as suas vozes.

Numa densa trama de reflexões, que vão da criação de Ilha da Tartaruga às forças que ameaçam hoje o seu crescimento, Robin Wall Kimmerer desenvolve a sua ideia central: o despertar de uma consciência ecológica requer o reconhecimento e a celebração da nossa relação recíproca com o resto do mundo vivo.

Só quando conseguirmos ouvir as línguas de outros seres seremos capazes de entender a generosidade da terra e aprender a retribuir da mesma forma.

A Sabedoria da Terra está destinado a ser um clássico da escrita sobre a natureza."
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Nem sempre saio da minha zona de conforto no que toca a leituras. A ficção continua a ser o território onde mais facilmente me perco, mas, de vez em quando, surge um livro que nos recorda que o conhecimento, a reflexão e a beleza também podem habitar as páginas da não-ficção. Foi exatamente isso que encontrei em A Sabedoria da Terra, de Robin Wall Kimmerer.
A autora, bióloga e membro da nação indígena Potawatomi, constrói uma obra singular onde ciência, memória, espiritualidade e observação da natureza se entrelaçam de forma harmoniosa. Longe de apresentar uma visão dogmática ou moralista, Kimmerer convida-nos a reconsiderar a relação que mantemos com o mundo natural, sugerindo que a Terra não é apenas um conjunto de recursos ao nosso dispor, mas uma comunidade da qual fazemos parte.
Ao longo dos diversos ensaios que compõem o livro, somos conduzidos por histórias pessoais, tradições ancestrais e exemplos retirados da observação atenta dos ecossistemas. O resultado é uma leitura profundamente humana, capaz de despertar um olhar mais atento para aquilo que frequentemente ignoramos na correria do quotidiano.
Entre as muitas passagens memoráveis, uma das que mais me marcou foi a das chamadas “Três Irmãs”: o milho, o feijão e a abóbora. Nas tradições agrícolas indígenas, estas três culturas são plantadas em conjunto, numa associação exemplar de cooperação e equilíbrio. O milho cresce em altura e serve de suporte ao feijão; o feijão contribui para enriquecer o solo; a abóbora cobre a terra, protegendo-a e preservando a humidade. Mais do que uma simples técnica agrícola, esta relação surge como uma poderosa metáfora de interdependência, mostrando como diferentes seres podem prosperar quando colaboram em vez de competirem.
Foi precisamente esta capacidade de encontrar significado nas pequenas lições da natureza que mais apreciei na escrita de Kimmerer. Sem recorrer a discursos grandiosos, a autora demonstra como a observação dos ciclos naturais pode ensinar-nos sobre gratidão, reciprocidade e responsabilidade .
A Sabedoria da Terra não é um livro que se leia pela intriga ou pela urgência de descobrir o que acontece a seguir. É uma obra para ser saboreada lentamente, permitindo que as suas ideias assentem e germinem. Algumas passagens convidam à contemplação, outras à reflexão crítica, mas todas revelam um profundo respeito pelo mundo vivo.
Terminei a leitura com a sensação rara de ter aprendido algo verdadeiramente valioso. Mais do que um livro sobre natureza, esta é uma obra sobre a forma como escolhemos habitar o planeta. E, talvez por isso, permanece connosco muito depois de fecharmos a última página.

Panaccione, Gregory; Gregorio, Giovanni Di (2025). O Homem de Negro. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Helena Guimarães
N.º de páginas: 112
Início da leitura: 01/06/2026
Fim da Leitura: 02/06/2026

**SINOPSE WOOK**
"Mattéo é um rapaz que tem tudo para ser feliz.
Vive numa casa encantadora rodeado pelo carinho dos pais e Tommy, o seu cão e companheiro favorito.
No entanto, todas as noites, tem o mesmo pesadelo angustiante:
um homem de negro aterroriza-o até ele acordar.
Ele ainda não sabe que só um confronto lhe permitirá que se liberte das suas garras..."

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O Homem de Negro, de Panaccione, com ilustrações de Di Gregorio, é uma obra perturbadora, precisamente porque se aproxima demasiado da realidade. A narrativa aborda medos profundos e silenciosos, aqueles que muitas crianças carregam sem saber nomear, e expõe situações que, infelizmente, continuam a acontecer no mundo real. Não se trata de um livro para crianças, mas de um livro sobre crianças, sobre a sua vulnerabilidade e sobre a responsabilidade dos adultos perante essa fragilidade. Ao colocar o leitor perante o ponto de vista infantil, a obra obriga a uma leitura atenta dos medos e das suas causas, funcionando como um alerta claro para pais, educadores e futuros cuidadores.

A força do livro reside tanto no texto como na componente visual. As ilustrações de Di Gregorio reforçam o impacto emocional da história através de uma alternância eficaz entre a cor e o preto. A cor surge associada à alegria, à inocência e à normalidade do quotidiano infantil, enquanto o preto invade as páginas nos momentos em que o medo se instala, tornando-se quase uma presença física. Esta opção estética não é meramente decorativa: traduz visualmente o contraste entre a pureza da infância e a ameaça que a corrompe, intensificando o desconforto do leitor.

No seu conjunto, O Homem de Negro é uma obra dura, necessária e profundamente ética. Ao invés de oferecer respostas fáceis ou finais reconfortantes, exige consciência e vigilância. Recorda que a pureza da criança deve ser preservada ao máximo e que ignorar os seus medos é, muitas vezes, o primeiro passo para tragédias silenciosas. É um livro que incomoda, mas é precisamente nesse incómodo que reside o seu valor literário e humano.

Russell, Kate Elizabeth (2020). Minha Sombria Vanessa. Porto Salvo: Chá das Cinco.

Tradução: Susana Serrão
N.º de páginas: 336
Início da leitura: 29/05/2026
Fim da leitura: 31/05/2026

**SINOPSE WOOK**

"Em 2000, Vanessa Wye é uma adolescente de 15 anos ambiciosa e solitária. Sonhando ser escritora, não se importa de estar sempre sozinha, mas abre uma exceção quando Jacob Strane, o seu professor de inglês, lhe começa a dar mais atenção. Antes que Vanessa tenha consciência, iniciam uma relação, e ela acredita que ele realmente a ama.

Em 2017, uma ex-aluna acusa Strane de abuso sexual. Vanessa fica perante uma escolha impossível: ficar calada, acreditando que se havia envolvido voluntariamente naquela relação… ou redefinir a sua grande história de amor como mera violação. Por um lado, não quer rejeitar esse primeiro amor, o homem que a transformou e tem sido uma presença constante na sua vida. Por outro, será possível que ele seja muito diferente do que ela pensava? Será ela apenas mais uma vítima?

Alternando entre passado e presente, Minha Sombria Vanessa é um retrato excecional de uma adolescência conturbada e das suas consequências, levantando questões cruciais sobre liberdade, consentimento, abuso e vitimização, captando de forma brilhante uma cultura em mudança que transforma as nossas relações e a própria sociedade."

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Há livros que se leem com prazer e outros que se leem com desconforto. Minha Sombria Vanessa, de Kate Elizabeth Russell, pertence claramente à segunda categoria. Foi uma leitura que me perturbou e que me obrigou a confrontar emoções contraditórias, precisamente porque se move numa zona cinzenta onde a manipulação, a dependência emocional e a perceção da própria vítima se entrelaçam de forma inquietante.
Tive grande dificuldade em simpatizar com as personagens principais. O professor surge como uma figura profundamente perturbadora, não apenas pelos seus atos, mas pela forma calculada como explora as fragilidades de uma adolescente em formação, moldando-lhe a visão de si própria e da realidade. A autora consegue retratar com eficácia os mecanismos subtis de controlo e sedução que tornam possível uma relação desequilibrada permanecer durante tanto tempo sem ser plenamente reconhecida como abusiva por quem a vive.
Quanto a Vanessa, a minha reação foi mais complexa. Em muitos momentos senti frustração perante a sua incapacidade de romper com uma relação que a destrói gradualmente. A tendência para interpretar o sofrimento como algo merecido e a dificuldade em questionar as narrativas que construiu sobre si própria tornam-na uma personagem difícil de acompanhar. No entanto, essa mesma dificuldade acaba por constituir uma das maiores forças do romance, pois obriga o leitor a compreender como o abuso pode deixar marcas profundas na identidade e na forma como uma pessoa interpreta o seu passado.
A escrita de Russell é envolvente e revela uma grande capacidade para explorar a psicologia das personagens. Ainda assim, senti que a narrativa poderia beneficiar de maior contenção. Em determinados momentos, a repetição de certas ideias e estados emocionais transmite eficazmente a sensação de estagnação vivida por Vanessa, mas também contribui para que o romance pareça mais longo do que o necessário. Houve passagens em que tive a impressão de estar a percorrer territórios já explorados, sem que isso acrescentasse uma nova perspetiva ao desenvolvimento da história.

 Lopes, Anabela (2026). Castelo de Cartas. Lisboa: Penguin.

N.º de páginas:328
Início da leitura: 26/06/2026
Fim da leitura: 28/06/2026

**SINOPSE WOOK**
"Constança Boaventura sempre acreditou que o Hotel Esperança — o luxuoso refúgio que outrora fora um sanatório — era o seu legado perfeito. Criada pela imponente Alma Boaventura, a avó que lhe deu tudo: educação de elite, estatuto social e um amor firme, embora distante, Constança cresceu convencida de que nada lhe faltava.

Mas o destino começa a rachar essa fachada impecável. Fenómenos inexplicáveis perturbam os quartos do hotel, um apagão mergulha tudo em pânico, a cadela da família desaparece sem deixar rasto e a relação com um celebrado escritor desmorona-se diante dos seus olhos.

É então que o regresso inesperado de um familiar quase esquecido desencadeia revelações perturbadoras. Entre corredores que sussurram histórias antigas e paredes que escondem mais do que memórias, Constança descobre que o passado tem formas engenhosas de regressar.

Enredada entre traumas, segredos e jogos de poder, ela terá de montar o puzzle da própria vida antes que o seu brilhante castelo de cristal se revele, afinal, um frágil castelo de cartas prestes a ruir."

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Há livros que se distinguem pela forma como conseguem envolver o leitor desde as primeiras páginas, e Castelo de Cartas, de Anabela Lopes, é um desses casos. A autora constrói uma narrativa cativante, marcada por um ritmo equilibrado, uma atmosfera envolvente e uma sucessão de revelações que mantêm a curiosidade sempre desperta.
A história desenrola-se em torno de um antigo hotel de família, um edifício carregado de memórias e de segredos, cuja história remonta a tempos em que terá funcionado como sanatório. O cenário, por si só, revela-se um dos grandes trunfos do romance. Entre corredores silenciosos, histórias por contar e relatos de hóspedes que afirmam ouvir vozes, instala-se uma inquietação subtil que acompanha o leitor ao longo de toda a narrativa.
No centro da história encontramos Constança, herdeira de um legado construído pela avó, Alma, figura marcante que dedicou a vida à gestão do hotel. A relação entre passado e presente assume um papel fundamental no desenvolvimento da obra, levando-nos a refletir sobre o peso das heranças familiares, as expetativas que recaem sobre as novas gerações e a dificuldade de preservar aquilo que outros ergueram antes de nós.
Anabela Lopes demonstra particular habilidade na construção das personagens, conferindo-lhes profundidade e credibilidade. As suas motivações, dúvidas e fragilidades surgem de forma natural, permitindo que o leitor estabeleça uma ligação emocional com o seu percurso. Ao mesmo tempo, a autora sabe dosear a informação, revelando gradualmente os diferentes fios da trama e mantendo o suspense até ao final.
Mais do que uma história de mistério, Castelo de Cartas é também um romance sobre identidade, pertença e escolhas. A metáfora presente no título atravessa toda a narrativa: aquilo que parece sólido e duradouro pode revelar-se surpreendentemente frágil, dependendo das decisões de quem o sustenta. Resta saber quem está disposto a arriscar, quem procura preservar o passado e quem aceita o desafio de construir algo novo sobre alicerces incertos.
Com uma escrita fluida e acessível, capaz de prender a atenção sem recorrer a artifícios desnecessários, Anabela Lopes confirma-se como uma autora que merece ser acompanhada. Castelo de Cartas oferece uma leitura envolvente, repleta de mistério e emoção, que dificilmente deixará indiferentes os apreciadores de ficção contemporânea portuguesa.

Verghese, Abraham (2023). O Pacto da Água. Lisboa: Porto Editora.
Tradução: Francisco Agarez
N.º de páginas: 736
Início da leitura: 19/05/2026
Fim da leitura: 25/05/2026

**SINOPSE WOOK**
"O romance fenómeno que já conquistou 1,5 milhões de leitores nos Estados Unidos

Travancor, Costa do Malabar, 1900. Uma rapariga de doze anos tenta dormir nos braços da mãe. Amanhã deixará a casa onde cresceu para casar com o homem a quem foi prometida. O homem que será o seu marido, o novo senhor da sua vida, é trinta anos mais velho, viúvo, com um filho ainda criança. A jovem noiva vai ao encontro do seu futuro tal como foi decidido por outros, tal como a sua mãe e a mãe da sua mãe o fizeram antes dela.
«O pior dia da vida de uma rapariga é o dia do casamento. Depois, se Deus quiser, as coisas melhoram», dizem-lhe. O viúvo é um bom partido, pois, tal como ela, faz parte da antiquíssima comunidade de cristãos, mas é difícil entender a razão pela qual aceitou uma esposa sem dote, apesar dos rumores que correm de que a sua família é afetada por uma estranha aflição: em cada geração, pelo menos uma pessoa morre afogada. E no que hoje se chama Kerala, a água está em todo o lado, moldando a terra numa teia de lagos e lagoas, acompanhando as existências com o seu canto suave, alimentando-se das monções, ligando tudo no tempo e no espaço. A noiva é acolhida com afeto e, no decurso da sua longa e extraordinária vida, conhece a alegria de um grande amor, sofre a dor de infinitas perdas, assiste a mudanças importantes. A sua família alargar-se-á e retrair-se-á com nascimentos e mortes. Até à chegada de uma neta que receberá o seu nome, estudará medicina e fará uma descoberta chocante.
Evocação luminosa de uma Índia em vias de transformação política e cultural, O Pacto da Água, de Abraham Verghese, «expõe o leitor a uma beleza a que de outra forma não poderia aceder» (The New York Times); um livro-mundo de extraordinário poder que encerra todos os acontecimentos preciosos da experiência humana."

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O Pacto da Água, de Abraham Verghese, é um romance de grande fôlego narrativo que atravessa décadas da história indiana sem nunca perder de vista a intimidade das suas personagens. Situada em Kerala, entre o início do século XX e os anos posteriores à independência da Índia, a narrativa acompanha várias gerações de uma família cristã malaiala marcada por uma estranha fatalidade associada à água. Contudo, reduzir o livro a essa premissa seria ignorar a sua verdadeira ambição: mais do que um mistério familiar, trata-se de uma reflexão profunda sobre herança, pertença, memória e sobrevivência.
A entrada de Mariamma, ainda criança quando é entregue em casamento a um viúvo muito mais velho, estabelece desde cedo um dos grandes méritos do romance: a capacidade de representar vidas condicionadas pelas estruturas sociais do seu tempo sem transformar as personagens em meros símbolos. À medida que cresce e se torna Big Ammachi, ela emerge como o centro emocional da narrativa, uma figura cuja força silenciosa sustenta a família perante perdas, transformações e segredos antigos. Verghese constrói-a com subtileza e humanidade, evitando sentimentalismos fáceis mesmo nos momentos mais dramáticos.
Um dos aspectos mais conseguidos do romance é precisamente a forma como o autor articula a dimensão íntima com o contexto histórico. A presença britânica, as tensões do período colonial, as mudanças sociais trazidas pela independência e a modernização gradual da Índia surgem integradas na vida quotidiana das personagens, nunca como simples pano de fundo decorativo. Kerala aparece retratada com grande riqueza sensorial: os rios, as monções, as plantações, os rituais religiosos e as dinâmicas familiares conferem ao livro uma densidade atmosférica muito particular. Há um evidente fascínio pela cultura malaiala e pelas tradições da comunidade cristã de São Tomé, mas a escrita evita exotismos fáceis, privilegiando antes um olhar atento sobre os detalhes da vida comum.
A experiência médica de Verghese revela-se igualmente central. As várias linhas narrativas ligadas à medicina, sobretudo através de personagens como Digby Kilgour e Rune Orquist,  introduzem uma reflexão interessante sobre o progresso científico, a prática clínica e os limites do conhecimento humano. O romance mostra como certas doenças, durante décadas envoltas em superstição ou vergonha, foram sendo gradualmente compreendidas pela ciência, ao mesmo tempo que evidencia as implicações éticas e sociais dessa evolução. Ainda assim, o livro nunca se transforma num romance “sobre medicina”; estas componentes surgem integradas numa narrativa mais ampla sobre fragilidade humana e cuidado.  A escrita é deliberadamente detalhada e pausada, próxima da tradição dos grandes romances familiares clássicos. Verghese dedica tempo aos espaços, aos gestos e às rotinas, construindo um mundo ficcional sólido e plenamente habitado. 
Apesar da extensão considerável, a leitura mantém-se fluida graças à clareza estrutural e à consistência emocional das personagens. Há muitas figuras secundárias e diversos percursos paralelos, mas o autor consegue interligá-los de forma orgânica, sem cair em confusão ou artifício excessivo. O resultado é um romance vasto mas acessível, emocional sem ser melodramático, e profundamente atento às marcas que o tempo deixa sobre as famílias e os lugares.
Mais do que a resolução dos seus mistérios, o que permanece após a leitura de O Pacto da Água é a impressão de ter acompanhado vidas inteiras com todas as suas contradições, perdas e afectos. É um livro sobre aquilo que herdamos dos nossos antepassados, da História, do corpo e sobre a forma como tentamos, apesar de tudo, construir um sentido de continuidade.

Lamb, Wally (2026). Onde o Rio Espera. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Salomé Castro
N.º de páginas: 528
Início da leitura: 16 de maio de 2026
Fim da leitura: 19 de maio de 2026

**SINOPSE WOOK**
"Numa manhã igual a tantas outras, um instante muda tudo para sempre.

  Corby Ledbetter está no limite. Desempregado, com filhos pequenos em casa e um vício que alimenta em segredo, sente que a vida lhe está a escapar por entre os dedos. Até mesmo a relação com a mulher que adora, Emily, se degrada a cada dia. E é então que um momento irreversível destrói a família.

Após a tragédia, Corby é condenado a uma pena de prisão. Atrás das grades, esmagado por uma culpa avassaladora e pela dureza implacável do sistema prisional, é testemunha de atos de brutalidade inimagináveis. No meio da escuridão, porém, também há pequenos gestos de humanidade: a bondade discreta da bibliotecária, e a inesperada cumplicidade com outros reclusos — entre eles, um colega de cela generoso e um adolescente perdido, desesperado por alguém que lhe sirva de exemplo.

Sustentado por estas ligações e pelo apoio inquebrantável da sua mãe, Corby começa lentamente a transcender os limites do seu cativeiro. Mas será que aqueles que ama conseguirão alguma vez perdoar-lhe? Conseguirá ele perdoar-se?

Um livro perturbante, que fica connosco muito depois de virarmos a última página."

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Onde o Rio Espera é um romance duro e profundamente humano, daqueles que obrigam o leitor a confrontar-se com a fragilidade das pessoas comuns e com a forma como um único instante pode destruir uma vida inteira. Wally Lamb constrói uma narrativa marcada pela culpa, pela perda e pela tentativa de sobrevivência emocional.
O protagonista é, sem dúvida, o grande eixo do livro. Trata-se de uma personagem escrita com enorme densidade psicológica: imperfeita, contraditória e, precisamente por isso, credível. A tragédia que desencadeia toda a história nasce de um momento de negligência associado ao consumo excessivo de álcool e medicação, e o peso dessa responsabilidade acompanha-o de forma esmagadora ao longo de toda a narrativa. O autor evita transformar a personagem numa vítima absoluta ou num simples culpado; prefere explorar a complexidade moral da situação e o modo como a culpa pode tornar-se uma prisão tão severa quanto a própria condenação judicial.
Grande parte da força do romance reside na forma como o ambiente prisional é retratado. A prisão surge não apenas como espaço físico, mas como espaço social, onde convivem violência, injustiça, sobrevivência e, por vezes, inesperados gestos de humanidade. À medida que o protagonista conhece outros reclusos, o leitor percebe como o sistema judicial e penitenciário está longe de ser linear ou equilibrado. Wally Lamb expõe as falhas desse universo, deixando que sejam as experiências das personagens a revelar desigualdades, abusos e arbitrariedades.
Outro aspecto particularmente conseguido é a construção emocional da narrativa. Apesar do tema pesado, o romance nunca se limita ao sofrimento. Existe uma constante procura de redenção, ainda que incerta e imperfeita, e isso confere ao livro uma dimensão humana muito forte. O autor escreve com sensibilidade, mas também com contenção, o que torna os momentos mais duros ainda mais impactantes.
O desfecho merece igualmente destaque. Sem revelar demasiado, pode dizer-se que evita soluções fáceis e consegue surpreender sem parecer artificial. Tudo o que acontece no final resulta de um percurso narrativo cuidadosamente preparado, o que dá ao livro uma sensação de coerência e maturidade rara em romances desta dimensão emocional.

 

Kent, Minka (2026). As Filhas do Silêncio. Lisboa: Alma dos Livros.

Tradução: Rui Azeredo
N.º de páginas: 296
Início da leitura: 15/05/2026
Fim da leitura: 16/05/2026

**SINOPSE WOOK**
"Três irmãs escondidas pela mãe. A floresta é a sua casa. A mentira, a sua prisão.

Wren, Sage e Evie cresceram escondidas do mundo numa cabana perdida entre os pinheiros do interior do estado de Nova Iorque — longe de estradas, de vizinhos, de qualquer sinal de civilização. A mãe ensinou-lhes que, lá fora, só existe perigo e que o passado nunca deve ser questionado.

As regras são simples: não deixem que vos vejam, não saiam da floresta, não confiem em ninguém.

Mas, quando a irmã mais nova adoece gravemente, a mãe leva-a até à vila mais próxima em busca de ajuda — e desaparece. Os dias tornam-se semanas. As semanas tornam-se meses. As provisões diminuem. O inverno aproxima-se. E, pela primeira vez, o perigo deixa de estar apenas do lado de fora. Sozinhas, Wren e Sage começam a sentir o peso da ausência e das perguntas que nunca ousaram fazer.

De que é que sempre fugiram ao certo? Porque viveram escondidas durante tanto tempo? Que segredos se escondem por detrás das histórias que lhes foram contadas? Quando um estranho surge à porta da cabana, o frágil equilíbrio desfaz-se. Para sobreviver, terão de quebrar as regras que moldaram toda a sua infância e atravessar a floresta. Do outro lado, espera-as mais do que o mundo que aprenderam a temer. Espera-as a verdade.

Um thriller psicológico intenso e inquietante sobre a linha ténue que separa a mentira da proteção. As Filhas do Silêncio mergulha no coração de uma família construída sobre o medo e revela até onde pode ir o amor alicerçado no silêncio."

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As Filhas do Silêncio, de Minka Kent, é um daqueles thrillers que conquista sobretudo pelo ritmo acelerado e pela capacidade de manter o leitor constantemente em estado de alerta. A narrativa avança com fluidez, alternando momentos de tensão, revelações inesperadas e uma sensação persistente de inquietação que torna difícil pousar o livro antes da última página.
Embora algumas situações possam parecer excessivas ou pouco plausíveis, especialmente para leitores mais exigentes no que toca à construção narrativa, a verdade é que a autora consegue compensar essas fragilidades com uma escrita dinâmica e eficaz. O suspense é habilmente alimentado ao longo da história, levando o leitor a questionar continuamente as motivações das personagens e o que realmente se esconde por detrás das aparências.
Um dos aspetos mais interessantes do romance é precisamente a forma como trabalha temas como o isolamento, os segredos familiares e a manipulação emocional, explorando o lado mais sombrio das relações humanas. As personagens não são particularmente profundas, mas cumprem bem o seu papel dentro da atmosfera de tensão permanente que sustenta toda a intriga.
Não sendo um thriller particularmente inovador nem memorável do ponto de vista literário, é, ainda assim, uma leitura bastante eficaz para quem procura entretenimento, ritmo e algum suspense psicológico. Funciona sobretudo pela capacidade de prender a atenção e criar aquela curiosidade constante que faz avançar capítulos quase sem dar conta do tempo passar.

Rodrigues, Maria Cláudia (2026). A Conta Que Deus Fez. Lisboa: Guerra & Paz.

N.º de páginas: 224
Início da leitura: 13/05/2026
Fim da leitura: 15/06/2026

**SINOPSE**
"A morte inesperada da mãe, quando Luísa tem apenas onze anos, espoleta uma mudança de vida radical. Órfã também de pai, a jovem vê a irmã, Sara, de quatro anos, ser adotada, num processo tão rápido quanto suspeito. A ela, os serviços sociais entregam-na aos avós maternos, cuja existência até aí desconhecia.
Luísa mergulha então num contexto radicalmente diferente, indo viver para uma aldeia remota no Norte do país, onde, num tempo a roçar o início da década de 90 do século passado, falta quase tudo, desde o saneamento básico à eletricidade.
A Luísa faltará também o amor, mas sobrar-lhe-ão dúvidas: por que razão não há qualquer sinal da existência da mãe na casa dos avós? Porque o casal não toca sequer no nome da filha? E porque tratam Luísa como se ela fosse a personificação de um pecado?
Impelida a procurar a verdade sobre a sua origem e a estabelecer a sua identidade, Luísa não imagina como se arrisca a pôr em causa a imagem idealizada da mãe.
Num retrato duro do interior português no último terço do século passado, A Conta que Deus Fez espelha também o modo como a Justiça lidava com os crimes cometidos sobre as mulheres."

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Há livros que nos conquistam pela subtileza e outros que nos atingem pela violência emocional com que expõem certas realidades humanas. A Conta Que Deus Fez, de Maria Cláudia Rodrigues, pertence claramente ao segundo grupo. Depois de uma estreia muito conseguida, a autora confirma aqui uma escrita segura, direta e profundamente inquietante, capaz de transformar uma história familiar num retrato duro sobre abandono, culpa, silêncios herdados e sobrevivência.
O romance acompanha Luísa, uma rapariga de onze anos que vê a infância interrompida de forma brutal quando encontra a mãe morta, vítima de um ataque epilético. A partir desse momento, tudo se desagrega: a irmã mais nova é adotada, enquanto Luísa é entregue aos avós maternos, figuras frias e distantes, marcadas por um passado que a protagonista desconhece e tenta desesperadamente compreender. Existe uma ferida antiga naquela família, uma história nunca explicada sobre a expulsão da mãe de casa ainda em jovem, e é precisamente nesse ambiente de ressentimentos e segredos que o livro ganha a sua maior força.
Maria Cláudia Rodrigues constrói uma narrativa emocionalmente pesada, por vezes até sufocante, mas sempre credível. O que mais impressiona não é apenas aquilo que acontece a Luísa, mas a forma como a autora nos obriga a permanecer ao lado dela, a assistir ao desgaste progressivo da inocência e à solidão de uma criança entregue a adultos incapazes de amar. Há momentos particularmente difíceis de ler, não pela descrição explícita, mas pelo desconforto moral que provocam. Certas atitudes das personagens deixam uma sensação de revolta e impotência que permanece muito depois de se fechar o livro.
A escrita é simples sem ser simplista, fluída, muito eficaz na criação de ritmo e tensão emocional. O romance lê-se rapidamente, quase de um fôlego, mas deixa marcas. Há uma contenção interessante na forma como a autora evita explicar tudo ao leitor, permitindo que certas perguntas permaneçam em aberto e dando mais densidade às relações familiares. Essa economia narrativa acaba por reforçar o impacto da história.
Mais do que um romance sobre perda, este é um livro sobre as consequências da ausência de afeto e sobre a crueldade que pode existir dentro do espaço familiar, precisamente onde deveria existir proteção. Não é uma leitura leve nem conciliadora, mas é um daqueles livros que justificam plenamente o desconforto que provocam, porque conseguem tocar em algo profundamente humano e perturbador.
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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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