Hinds, Gareth (2026). A Odisseia de Homero. Lisboa: Bertrand Editora.
Tradução: Miguel Freitas da Costa
N.º de páginas: 252
Início da leitura: 13/08/2026
Fim da leitura: 15/08/2026
**SINOPSE WOOK**
"A Odisseia de Homero como nunca a viu.
Ulisses, rei de Ítaca, regressa dos seus triunfos na guerra de Troia sem imaginar que a sua verdadeira aventura começaria agora. Entre deuses caprichosos, monstros aterradores e tentações irresistíveis, a sua odisseia transforma-se numa luta pela sobrevivência, pela honra e pelo reencontro com a família.
Gareth Hinds, mestre da adaptação literária para a linguagem da novela gráfica, dá nova vida ao clássico imortal de Homero com ilustrações deslumbrantes e uma narrativa vibrante. O resultado é uma obra que combina fidelidade épica e emoção contemporânea, acessível a novos leitores e fascinante para quem já conhece a epopeia original.
Uma viagem visual e literária única - para descobrir, redescobrir e nunca mais esquecer uma história de heroísmo, aventura e ação que foi contada e recontada por mais de dois mil e quinhentos anos!"
Recontar A Odisseia em banda desenhada é, por si só, um desafio considerável. A obra de Homero vive não apenas da sucessão de aventuras de Ulisses, mas também da dimensão épica da viagem, da intervenção dos deuses, da riqueza do imaginário e de uma linguagem profundamente marcada pela poesia. Gareth Hinds enfrenta esse desafio através de uma adaptação que procura preservar o espírito da obra original, ao mesmo tempo que a transforma numa experiência dominantemente visual. O resultado é uma novela gráfica de grande impacto, capaz de aproximar este clássico de leitores que talvez nunca tenham contactado directamente com a epopeia de Homero.
Um dos aspetos mais interessantes da abordagem de Hinds está precisamente na relação entre fidelidade e liberdade artística. O autor realizou uma investigação considerável sobre o mundo da Idade do Bronze, mas não procurou reproduzi-lo com um rigor histórico absoluto. O próprio Hinds reconhece as limitações do conhecimento que existe sobre esse período e opta por conservar elementos históricos suficientes para conferir autenticidade ao universo de Ulisses, sem deixar que a preocupação histórica condicionasse excessivamente a sua imaginação.
Essa opção parece-me particularmente acertada. A Odisseia é, afinal, uma obra em que o real e o fantástico convivem constantemente, e tentar submetê-la a um realismo histórico demasiado rígido poderia retirar-lhe parte da sua força. Hinds encontra um equilíbrio interessante entre referências visuais inspiradas na Antiguidade e uma interpretação própria, permitindo que o mundo de Ulisses mantenha simultaneamente uma sensação de distância histórica e uma enorme vivacidade.
Também a adaptação do texto merece atenção. Hinds consultou diversas traduções e tomou como referências principais as versões de Robert Fitzgerald e Robert Fagles, recorrendo igualmente a outras traduções para o trabalho de adaptação e condensação. Não se trata, portanto, de uma simples transposição ilustrada de uma tradução existente: o autor teve de reescrever grande parte do material para o adequar ao ritmo e às características da novela gráfica, procurando conservar algo da musicalidade e da solenidade de Homero sem tornar o texto excessivamente arcaico ou pesado.
É, contudo, nas imagens que esta adaptação verdadeiramente se distingue. As ilustrações de Hinds não funcionam apenas como acompanhamento da narrativa; são uma parte essencial dela. O mar, os monstros, os deuses, as batalhas, as paisagens e os diferentes espaços por onde Ulisses passa ganham uma dimensão quase cinematográfica. A utilização da cor contribui fortemente para criar ambientes distintos e para acentuar as mudanças de tom da história, passando da luminosidade e do encanto de determinados episódios para ambientes mais sombrios e ameaçadores.
Há, por isso, momentos em que as imagens dizem tanto quanto o texto, ou até mais. A linguagem visual permite transmitir rapidamente determinadas situações, a violência de alguns acontecimentos ou a pequenez do ser humano perante as forças que o rodeiam. O resultado é particularmente eficaz nas cenas de maior dimensão épica, mas também nos momentos mais íntimos, em que as expressões das personagens e a composição das páginas ajudam a transmitir emoções que poderiam exigir uma descrição muito mais extensa.
Outra qualidade da obra está no ritmo. Hinds percebe que não seria possível transportar integralmente para este formato toda a extensão e todas as repetições do poema homérico. A adaptação é, inevitavelmente, uma seleção, mas procura preservar os episódios fundamentais e, sobretudo, a sensação de viagem. O próprio autor explicou que não queria reduzir a aventura de Ulisses a uma simples sequência de acontecimentos, mas fazer com que o leitor sentisse que estava a acompanhar essa viagem.
Parece-me que a adaptação ganha valor precisamente por não tentar competir com o original, mas por oferecer outra forma de o experienciar. Aconselho!
Um dos aspetos mais interessantes da abordagem de Hinds está precisamente na relação entre fidelidade e liberdade artística. O autor realizou uma investigação considerável sobre o mundo da Idade do Bronze, mas não procurou reproduzi-lo com um rigor histórico absoluto. O próprio Hinds reconhece as limitações do conhecimento que existe sobre esse período e opta por conservar elementos históricos suficientes para conferir autenticidade ao universo de Ulisses, sem deixar que a preocupação histórica condicionasse excessivamente a sua imaginação.
Essa opção parece-me particularmente acertada. A Odisseia é, afinal, uma obra em que o real e o fantástico convivem constantemente, e tentar submetê-la a um realismo histórico demasiado rígido poderia retirar-lhe parte da sua força. Hinds encontra um equilíbrio interessante entre referências visuais inspiradas na Antiguidade e uma interpretação própria, permitindo que o mundo de Ulisses mantenha simultaneamente uma sensação de distância histórica e uma enorme vivacidade.
Também a adaptação do texto merece atenção. Hinds consultou diversas traduções e tomou como referências principais as versões de Robert Fitzgerald e Robert Fagles, recorrendo igualmente a outras traduções para o trabalho de adaptação e condensação. Não se trata, portanto, de uma simples transposição ilustrada de uma tradução existente: o autor teve de reescrever grande parte do material para o adequar ao ritmo e às características da novela gráfica, procurando conservar algo da musicalidade e da solenidade de Homero sem tornar o texto excessivamente arcaico ou pesado.
É, contudo, nas imagens que esta adaptação verdadeiramente se distingue. As ilustrações de Hinds não funcionam apenas como acompanhamento da narrativa; são uma parte essencial dela. O mar, os monstros, os deuses, as batalhas, as paisagens e os diferentes espaços por onde Ulisses passa ganham uma dimensão quase cinematográfica. A utilização da cor contribui fortemente para criar ambientes distintos e para acentuar as mudanças de tom da história, passando da luminosidade e do encanto de determinados episódios para ambientes mais sombrios e ameaçadores.
Há, por isso, momentos em que as imagens dizem tanto quanto o texto, ou até mais. A linguagem visual permite transmitir rapidamente determinadas situações, a violência de alguns acontecimentos ou a pequenez do ser humano perante as forças que o rodeiam. O resultado é particularmente eficaz nas cenas de maior dimensão épica, mas também nos momentos mais íntimos, em que as expressões das personagens e a composição das páginas ajudam a transmitir emoções que poderiam exigir uma descrição muito mais extensa.
Outra qualidade da obra está no ritmo. Hinds percebe que não seria possível transportar integralmente para este formato toda a extensão e todas as repetições do poema homérico. A adaptação é, inevitavelmente, uma seleção, mas procura preservar os episódios fundamentais e, sobretudo, a sensação de viagem. O próprio autor explicou que não queria reduzir a aventura de Ulisses a uma simples sequência de acontecimentos, mas fazer com que o leitor sentisse que estava a acompanhar essa viagem.
Parece-me que a adaptação ganha valor precisamente por não tentar competir com o original, mas por oferecer outra forma de o experienciar. Aconselho!
















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