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terça-feira, 26 de maio de 2020

Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa

Célia Gil

Schmitt, Eric-Emmanuel (2013). Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa. Barcarena: Marcador.
Páginas: 104
Leitura iniciada em 25-05-2020
Leitura terminada em 25-05-2020

Óscar e a Senhora Cor-de-Rosa é um livro escrito por Eric-Emmanuel Schmitt, traduzido por Ivone de Moura e Lídia Franco. É um livro enternecedor, que nos comove e, ao mesmo tempo, transmite uma mensagem dura de uma forma tão suave que a dor é amenizada e, muitas vezes, damos por nós a sorrir.
Óscar é um menino de dez anos, que sofre de uma doença terminal oncológica e a cuja vida, uma senhora de idade, de bata-cor-de-rosa, que faz voluntariado na ala pediátrica, enriquece, dando-lhe mais sentido e amenizando-a. São muito interessantes as conversas entre eles.
Óscar reage mal com os pais, porque não lhe falam do problema dele, optando por lhe levar presentes e entreterem-se com eles, em vez de conversarem sobre as suas dores e dúvidas. Revolta-se mesmo com eles, não entende que a dor deles não lhes permite falar sobre o assunto. A Senhora Cor-de-Rosa, a quem chama de vovó, é a única que o ouve, que lhe faz propostas boas que lhe permitem viver o melhor possível o tempo que ainda tem de vida. Explica-lhe muitas coisas. Conta-lhe histórias dos tempos em que seria lutadora de Wrestling. Aconselha-o a escrever a Deus, o que ele inicialmente recusa, acabando por aceitar. São estas cartas a Deus, nas quais pode fazer um pedido por dia, que nada tem de material, mas de interior, que temos a oportunidade de ler, de saber tudo o que lhe vai na alma.
E quando Óscar pensa que gostaria de fazer algo, mas que não deve, não pode, a Senhora Cor-de-Rosa lá está para desmistificar tudo e desmistificar até a sua própria idade. A idade que temos pode ser a correspondente à que vivemos e não à que realmente temos e que a vida deve ser encarada como um presente. Uma lição de vida que convido todos a lerem e a aprenderem com ela. Como eu gostaria de ter uma Senhora Cor-de-Rosa na minha vida!
                                                                                                              Célia Gil

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Eva, Arturo Pérez-Reverte

Célia Gil

Pérez-Reverte, Arturo (2018). Eva. Alfragide: Edições ASA.
368 páginas
Início da leitura: 22/05/2020
Fim da leitura: 25/05/2020


Eva é um livro escrito por Arturo Pérez-Reverte, traduzido por Cristina Rodriguez e Artur Guerra. É um policial, repleto de ação.
Tudo se inicia em Lisboa, com a frase de Falcó, e passo a citar “Não quero que me mate esta noite, pensou Lorenzo Falcó. Desta maneira não.” O leitor fica irremediavelmente preso e tem todo o interesse em saber quem persegue Falcó e porque o pretende matar. Tudo acontece num ritmo rápido, estilo cinematográfico. Atrás de si, passos soavam cada vez mais próximos e, ainda antes de conhecermos a personagem, já sofremos com ela. O coração pulsa mais rápido, à medida que se aproximam. Todo o itinerário decorre em Lisboa, desde o café Martinho da Arcada, o teatro Éden, ao restaurante do Hotel Avenida Palace, entre tantos outros espaços que vamos reconhecendo.
Não é, no entanto, um romance histórico, Pérez descreve-o como “um romance policial negro de espiões situado nos anos 1930-40 e com uma abordagem nova.”
Falcó é o ex traficante de armas, agente secreto ao serviço do franquismo, sedutor, bonito, elegante, bem-educado, cínico, machista, violento e cruel, com um grande sentido de humor e despudor. É o estilo lobo manhoso e inteligente, o que lhe permite sobreviver num meio hostil. Um vilão honrado, que nos vai surpreendendo à medida que a intriga avança, que ama a aventura pela aventura, as mulheres pelas mulheres, o risco pelo risco.
Eva é uma mulher fatal, espia soviética, comunista, obediente a Estaline.
Estamos em 1937 e Falcó tem de se apoderar de 30 toneladas de barras de ouro do banco de Espanha, guardadas num navio com destino à Rússia.
Falcó e Eva parecem viver uma relação escaldante, um franquista e uma espiã soviética, que não se encaixa no seu perfil de relacionamento com mulheres, mas a única a quem é leal e ama. São eles os sobreviventes que regressam a Salamanca.
E mais não digo. Terão de descobrir todos este tramas e vigarices com a leitura de Eva de Arturo Pérez-Reverte.
                                                                                                                     Célia Gil

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O Segredo da Minha Irmã, Diane Chamberlain

Célia Gil
Chamberlain, Diane (2015). O Segredo da Minha Irmã. Braga: TopSeller.
384 páginas
Início da leitura: 18/05/2020
Fim da leitura: 21/05/2020


O Segredo da Minha Irmã é um livro com uma capa belíssima, escrito por Diane Chamberlain, traduzido por Maria do Carmo Figueira. É um livro que nos prende desde a primeira página, em que a ação decorre, com efeito, a um ritmo surpreendente, sem momentos mortos e, por isso mesmo, foi possível, em 4 dias, ao deitar, ler as suas 384 páginas.  
Riley, após a morte do pai, regressa a casa dos pais, para organizar, dividir e vender os bens. Depois da leitura do testamento, apercebe-se que o pai tem outros herdeiros. Começa então a descobrir que nada sabia sobre a sua família. Desconhecia que o pai vivia com a suposta melhor amiga da mãe, desconhecia as circunstâncias do suicídio da irmã, quando ela tinha ainda dois anos, ou até mesmo se se tinha suicidado, desconhecia que era adotada. Tantas vão sendo as revelações ao longo da história, que vai ser impossível não pensar sempre “vou ler só mais um capítulo!”.
Até personagens como a amiga da mãe, Jeannie, nos vai surpreendendo e prendendo ao longo da história. No início, é difícil simpatizar com ela, porque Riley também não gosta dela e ela surge de rompante na sua vida, intrometendo-se e invadindo a casa, como se fosse dela (ainda). Acontece que Riley desconhece o que está por trás das atitudes de Jeannie, o que esconde, porque tem determinadas atitudes que ela não compreende e não gosta. Outras personagens, com quem Riley simpatiza inicialmente, tal como Verniece Kyle, esposa de Tom, acabam por surpreender pela negativa, o que nos mostra que “quem vê caras não vê corações”. 
A partir da segunda parte do livro, capítulo 17, vão sendo narradas quase alternadamente as histórias de Riley e do irmão Danny e a de Lisa, agora Jade, o que torna ainda mais estimulante a leitura, pois, quando queremos saber como acaba um determinado episódio, surge a outra personagem, também ela com uma história que nos prende e, só no fim de cada história, é retomada a outra. É, portanto, impossível não ficar preso ao livro.
Aconselho vivamente a descobrir O Segredo da Minha Irmã de Diane Chamberlain com a leitura deste livro magnífico.

terça-feira, 19 de maio de 2020

O Teu Olhar Ilumina o Mundo, Susana Tamaro

Célia Gil

Tamaro, Susana (2019). O Teu Olhar Ilumina o Mundo. Barcarena: Editorial Presença
Nº de páginas: 136
Início da leitura: 10 de maio de 2020.
Fim da leitura: 17 de maio de 2020.

O Teu Olhar ilumina o Mundo é o mais recente livro de Susana Tamaro, traduzido por Maria Mercês Peixoto. É um livro que surge da promessa que fez com o poeta Pierluigi Cappello, antes da morte deste, de escreverem um livro em conjunto.
Neste livro, Susana Tamaro relembra os momentos passados com Pierluigi, a amizade que existiu sempre e que serviu de amparo nos momentos menos bons. Ambos incapacitados, Pierluigi fisicamente, desde um acidente que o deixara confinado a uma cadeira de rodas e Susana, cujo distúrbio neurológico, a síndrome de Bordeline, lhe criou uma invalidez mental e social, com a qual teve de se habituar a viver, a sua “cadeira de rodas invisível”, como ela lhe chama. É um livro que fala do direito à diferença, dos mistérios do amor, da vida e da morte e da escrita, elo de ligação entre os dois escritores.
É impossível, ao ler este livro, fazê-lo a um ritmo apressado. Sente-se a necessidade de saborear as palavras e a mensagem transmitida, pois cada frase nos faz pensar e partilhar com a autora desta dor que pautou principalmente a sua infância e adolescência. É assim que temos conhecimento das suas vivências terríveis com a mãe, que a ignorava e com o padrasto cruel e passo a citar um exemplo “Vivia na violência, no ódio, ninguém se importava comigo”. Estas partilhas em jeito de confissão, vão sendo intercaladas com poemas de Pierluigi, numa linguagem delicada, sincera e despojada. Se já antes admirava a escritora e a sua capacidade de exprimir sentimentos, emoções, de nos remeter para os espaços referidos através de descrições belíssimas, fiquei, sem dúvida, a admirá-la ainda mais. E esta caixinha de surpresas é equiparável à casinha de madeira mágica onde escreve, no bosque.
Não posso deixar de mencionar um excerto com que me identifico particularmente, em que a autora explica como foi recebido um dos seus livros de referência, que eu adorei, e passo a citar: “Quando saiu Vai Aonde Leva o Coração, a coisa que mais me impressionou foram as reações pálidas que suscitava nas elites culturais a palavra «coração». O livro era considerado lixo cultural, coisa para pessoas ignorantes fáceis de enganar, trivialidades… Agora já não me surpreendo. A remoção da alma e a remoção do coração são a mesma coisa. A nossa identidade deve estar toda concentrada na cabeça e nos genitais; no meio não deve haver nada.” (pág. 57).
                                                                                             Célia Gil



sexta-feira, 15 de maio de 2020

O Céu Numa Gaiola, Christine Leunens

Célia Gil

Leunens, Christine (2020). O Céu Numa Gaiola.  Barcarena: Editorial Presença.
Nº de páginas: 272
Leitura iniciada no dia 10/05
Leitura Terminada no dia 14/05

O Céu numa Gaiola é um livro de Christine Leunens, traduzido por Manuela Madureira. É um livro que se lê muito bem, mas que nos faz sentir uma crescente raiva pelo desprezível protagonista, um jovem austríaco fanático da Juventude Hitleriana.
O livro começa por abordar a temática da lavagem cerebral que a escola fazia às crianças e jovens, antes da II Guerra. Cedo estes jovens proclamavam a ideologia nazi de forma absolutamente fanática, ignorando os valores humanos que deviam ser os pilares da sua formação enquanto cidadãos.
O narrador é um destes jovens, Johannes, que, ferido num ataque aéreo, se vê obrigado a confinar-se em casa dos pais, em Viena. Aqui, acaba por descobrir que os pais escondem ilegalmente, no sótão, atrás de uma falsa parede, uma mulher judia. Na forma como fora educado para os ideais nazis, Johannes sente imediatamente uma repulsa por esta mulher. Acaba por se lembrar que ela era Elsa, a professora de violino da irmã, que frequentava a casa. Sentiu-se traído pelos pais, pelo facto de esconderem uma judia. Mas, com o passar do tempo, vai começando a sentir-se obcecado por ela.
Os pais desaparecem sem ele saber para onde e ele fica com a avó e encarrega-se de cuidar de Elsa.
Esperava eu, aqui, que Johannes mudasse, porque o amor é capaz das mais incríveis mudanças no ser humano. Mas não foi o que aconteceu. Este protagonista narrador é um rapaz frio e cruel, egoísta e maquiavélico.
Quando a guerra termina cá fora, continua uma guerra lá dentro, pois Johannes apossa-se de Elsa, tornando-se dominador, absurdamente ciumento, como se ela fosse um objeto que lhe pertencesse e que ele estimava de forma obsessiva, impedindo-a inclusive de exercer o direito à sua liberdade. Vários foram os momentos em que ele poderia ter-se redimido. Mas, sempre que ela lhe pedia para fugir, ele impedia-a, mantendo-a enclausurada.
                                                                                                                    Célia Gil

domingo, 10 de maio de 2020

A Vida Secreta das Abelhas, Sue Monk Kidd

Célia Gil

Kidd, Sue Monk (2005). A Vida Secreta das Abelhas. Porto: Asa Editores, S.A.
288 páginas
Leitura iniciada em: 05/05/2020
Leitura terminada em: 09/05/2020



A Vida Secreta das Abelhas é um romance escrito pela americana Sue Monk Kidd e traduzido por Teresa Curvelo.
É um livro que nos faz pensar, nos comove, que se pode considerar um louvor à vida, à amizade, à família (ainda que esta possa não ser a de sangue) e a Deus (este visto numa faceta feminina). Muito bem escrito, com força e vitalidade que nos prendem à narrativa desde o início.
Neste livro, a protagonista é Lily, que, com 14 anos, vive com o pai, a quem chama T. Ray, uma pessoa violenta e autoritária que, à mínima desobediência dela, a castiga, fazendo-a estar ajoelhada, pelo menos durante duas horas, sobre milho, até não poder suportar a dor e ficar com marcas terríveis. Lily tem consciência de que ele a odeia e sente sempre o peso da culpa a impedi-la de ser feliz. Um episódio tê-la-á marcado para sempre: tinha 2 anos quando viu a mãe sair do roupeiro, onde estava a tirar roupa para colocar numa mala, com uma arma na mão a ameaçar o pai. Este fez com que ela largasse a arma e foi Lily que lhe pegou e, sem querer, disparou e matou a mãe. Esse incidente deveria estar na origem daquele ódio que o pai nutria por ela. Lily tem apenas uma amiga, a Rosaleen, uma criada negra, de semblante duro, mas coração de manteiga. Tudo se passa na década de 60. E quando Rosaleen vai tentar exercer o seu recém-ganho direito de voto, é presa e espancada. Lily, que vive atemorizada pelo pai, resolve fugir para Tiburon, C.S., local que a mãe registara no verso de uma fotografia da Virgem Negra. Acaba por ir dar a uma casa cor-de-rosa, onde vivem três irmãs negras que a acolhem e que lhe ensinam a cuidar de abelhas. São devotas da Mãe Negra e organizam festas em sua honra. É no seio desta família que Lily vai tentar recuperar o seu equilíbrio interior, encontrar o amor que não teve até àquela data, até se sentir realmente em família e amada.
Mas Lily sabe que é inevitável, mais cedo ou mais tarde, contar tudo a August, a dona da casa. Tem a esperança de August ter conhecido a sua mãe e precisava de saber se a mãe a tinha amado ou se devia acreditar no que não queria e que o pai lhe dissera: a sua mãe tinha-os abandonado. Estas e muitas outras questões, os rituais religiosos em torno da Mãe Negra, a história da chegada ali desta Mãe Negra, a morte de duas das irmãs de August, a relação entre a vida das abelhas e a de Lily, são acontecimentos que poderá acompanhar e compreender ao ler este livro maravilhoso.
                                                                                           Célia Gil

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A Aluna Americana, João Pedro Marques

Célia Gil

Marques, João Pedro (2019). A Aluna Americana. Porto: Porto Editora


288 páginas
Leitura iniciada em 01-05-2020
Leitura terminada em 04-05-2020

A Aluna Americana é um livro de João Pedro Marques, autor de Uma Fazenda em África, a sua obra mais conhecida. Bem escrito, com um ritmo rápido e ações constantes que nem deixam respirar.
A história decorre em 1968, quando Isabel Botelho, uma estudante de românicas recém-chegada dos Estados Unidos da América, começa a assistir às aulas de um professor universitário de História, de meia idade, José Duarte de Sousa. Este fica encantado com esta aluna americana, que o questiona e o desperta da monotonia do seu dia-a-dia de docência, e que o terá levado a investir mais nas suas aulas, num maior cuidado na sua preparação, aulas que eram claramente dadas para ela. É assim que nasce uma relação fogosa entre ambos, despertando este professor para a existência, passando a preocupar-se com aspetos, mesmo em termos de aparência, a que antes não dava valor. Mas este não é um romance linear. Enquanto o professor se apaixona irremediavelmente por Isabel, esta, pássaro livre sem pousio, não se conforma com uma relação de posse, que tenderia, mais tarde ou mais cedo, por cair na rotina e tornar-se monótona. Ela quer viver. Mas, como lhe é dito mais tarde por Nara, uma intuitiva mulher de uma aldeia africana por onde viaja, “A sede de viver tem sempre homens no fundo do copo”. Isabel sempre teve essa sede de viver, conhecer o mundo, conhecer-se a si mesma e sempre esteve rodeada de muitos homens. Esta sua sede de viver chegava a ser, como mais tarde lhe dirá José Sousa, egocêntrica e egoísta.  Mas Isabel tinha algo que a tornava única, compadecia-se com os mais desfavorecidos, ajudava-os se pudesse, revoltava-se contra os opressores e marcava sempre a sua posição.
Este livro, porém, não se fica por aqui. Quando nos é contado o passado de Isabel, entramos no contexto histórico dos anos sessenta nos Estados Unidos, onde se viveu intensamente a liberalização dos costumes, o sexo, droga e rock n’roll, dos festivais de música, da libertação da mulher e da contestação dos valores tradicionais. Em Portugal, depositam-se esperanças no governo de Marcelo Caetano, mas as vivências de Isabel, a figura libertina que representava intensificam a admiração de José Sousa por ela.
Mas estaria José Sousa disposto a aceitá-la sempre nos seus regressos, depois de longos momentos de ausência, sempre acompanhada por outros homens? Até que ponto a ética e a moral dele, o desejo de estabilizar, casar com ela, aceitariam a sua maneira de ser e de viver?

sábado, 2 de maio de 2020

Mulheres Sem Nome, Martha Hall Kelly

Célia Gil
Kelly, Martha Hall (2017). Mulheres Sem Nome.  Lisboa: Minotauro.
Nº de páginas: 483
Leitura iniciada no dia 25/04
Leitura Terminada no dia 01/05

Mulheres Sem Nome é um romance escrito por Martha Hall Kelly, traduzido por Marta Neves da Cruz, a que ninguém fica indiferente. Bem escrito, poderoso e com uma história feita de várias histórias que se cruzam na perfeição. Uma história verídica, tendo em conta que duas das personagens existiram na vida real e foram representadas pela escritora, neste livro, de forma justa e realista.
Não é fácil falar de um livro quando este nos arrebata e nos deixa completamente rendidos à história e às personagens. Quando irrompemos pelas vidas delas e elas pela nossa, para nos deixar mais ricos, mais conscientes, mais despertos e com a noção de que a força de alguns só existe quando exercida sobre os mais suscetíveis. Por isso mesmo, não é força, é tirania.
Esta é a história de mulheres diferentes, no que concerne à nacionalidade, idade, personalidade e vivência, cujos caminhos acabam por se entrelaçar a dada altura da sua vida.
Caroline Ferriday é uma ex atriz socialite de Nova Iorque, que trabalha como voluntária no Consulado de França e que se dedica ainda a causas nobres, como a ajuda voluntária de crianças órfãs e, mais tarde, à causa das “Coelhas”, vítimas do Holocausto.
Kasia Kuzmerick é uma jovem, que mora na Polónia, que é levada, com a mãe e irmã para um campo de concentração. Ela e a irmã Zuzanna acabam por ser operadas no campo de concentração, com outras 62 mulheres. Nessas operações, eram-lhes introduzidas bactérias, lenha, vidro, sílica moída e outros materiais. Eram cosidas e engessadas até desenvolverem gangrena. Em seguida, eram introduzidas sulfamidas. Estas operações afetavam irremediavelmente os ossos, os músculos, o sistema gástrico e, posteriormente, o cérebro. A mãe de Kásia e Zuzanna era uma das prisioneiras enfermeiras. No meio de todos estes acontecimentos e apesar dos traumas consequentes, Kásia foi sempre o pilar da família, a força que permitiu que ela e a irmã se mantivessem sempre juntas.
Herta Oberheuser era uma ambiciosa médica alemã, que aceitou o cargo de médica do Regime Nazi e, apesar de, inicialmente, parecer reprovar tudo o que se fazia no campo de concentração, acabou por se integrar, fazendo apenas o que lhe pudesse dar alguma projeção. Foi ela que operou as “Coelhas”. No fim de tudo, foi julgada, fugindo ao enforcamento, com uma pena de 20 anos, de que só cumpriu 5 anos, retomando a medicina na Alemanha como médica de família.
Mas estas mulheres acabam por se cruzar, o que marca uma reviravolta nas suas vidas. De que forma se conheceram, em que circunstâncias? Que influência teve esse facto nas suas vidas?

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Os Imperfeitos, Cecelia Ahern

Célia Gil

Ahern, Cecelia (2017). Os Imperfeitos. Lisboa: Editorial Presença


Os imperfeitos, de Cecelia Ahern, é uma obra cuja ação decorre num futuro, em que a sociedade, depois de uma grave crise, se organizou em perfeitos e imperfeitos.
Celestine North é perfeita, tem o namorado perfeito, a família perfeita e um futuro garantidamente perfeito. Esforça-se para agradar ao namorado e futuro sogro, o juiz Crevan, que todos os dias julga, no Tribunal, pessoas como perfeitas ou imperfeitas. Tudo corre bem, até ao dia em que, a caminho da escola, numa viagem de autocarro, com a irmã e o namorado, Celestine se questiona como pode ser perfeito alguém que não pode ajudar um imperfeito a precisar urgentemente de ajuda. Compadece-se de um senhor imperfeito, que se está a sentir mal e, pelo facto de o ajudar a sentar-se, é levada a Tribunal.
O juiz Crevan promete-lhe que correrá tudo bem, porque ela vai negar que ajudou um imperfeito e será ilibada. Porém, durante o julgamento, Celestine é incapaz de mentir e acaba por confessar que ajudou o imperfeito.
Como todos os imperfeitos, e para dar o exemplo, Celestine é marcada como imperfeita, com tatuagens, com que os costumavam marcar. Cada parte do corpo que é tatuada tem um significado condizente com o crime cometido. Porém, o juiz, despeitado pela insubordinação de Celestine, decide puni-la marcando-a com mais tatuagens que algum imperfeito tenha. 5 seria o máximo das tatuagens, mas nela são feitas seis, algo nunca visto. As pessoas que a viram a ser tatuada, acabam, mais tarde, por desaparecer, não podendo interceder a seu favor. E Carrick que também viu, antes de ela ir para casa, disse-lhe que ainda se iriam encontrar. É ele a única esperança de Celestine para provar que o juiz fez algo de proibido.
Tudo se desmorona, até na escola, onde era uma aluna perfeita, uma vez que passa a ser rejeitada nas aulas pelos professores, a ser gozada e ignorada pelos colegas, como se tivesse sarna. Ela começa à procura das pessoas que pudessem ter visto o momento em que foi marcada, mas não encontra ninguém, nem mesmo Carrick.
Aos poucos Celestine percebe, que mesmo sem qualquer intenção, tornou-se uma espécie de símbolo para todos os imperfeitos, porque a sua atitude em Tribunal, não dizendo exatamente o que o seu futuro sogro queria ouvir, deu coragem a muitos, que passaram a vê-la como um rosto para uma possível revolução.
Conseguirá Celestine voltar a ter uma vida minimamente normal, mesmo sendo imperfeita? Conseguirá ela reencontrar Carrick?
Penso que tiramos deste livro uma grande lição: as pessoas estão cada vez mais a agir por si e a pensar apenas em si, não se importando com os outros. E, muitas vezes, quem ajuda, acaba por ser mal-interpretado e julgado.
                                                                                  Célia Gil

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A Mãe, Melanie Golding

Célia Gil

Golding, Melanie (2019). A Mãe. Lisboa: Planeta Manuscrito.
Nº de páginas: 327

A Mãe é um livro escrito por Melanie Golding e traduzido por Mário Dias Correia. A história tem início com Lauren, que se encontra na maternidade, a ter os seus gémeos, Morgan e Riley. Confesso que este momento não me prendeu de imediato ao livro, pois revelou-se um pouco repetitivo. Porém, foi-se tornando cada vez mais envolvente, acabando por se revelar um thriller arrebatador.
Ainda na maternidade, Lauren encontra uma mulher, também ela com gémeos, que lhe quer roubar os filhos. Mas ela tudo faz para proteger os proteger e impedir que alguém lhos roube. Fecha-se na casa de banho, de onde telefona a pedir ajuda. Mas ninguém acredita nela. Ninguém viu aquela mulher por ela descrita. Pensam que está a ser alvo de stresse pós-parto, com tudo o que este traz de ansiedade, medo e até paranoia. O próprio marido, Patrick, acredita que seja apenas ansiedade e cansaço.
Já em casa, Patrick, ao aperceber-se de que Lauren não está bem, não cuida da casa, tranca-se a sete chaves, não quer nada aberto para o exterior, sugere-lhe que saia, que vá estar com as amigas, porque lhe iria fazer bem e poderia fazê-la perceber que não havia razões para aquelas paranoias. Apesar de contrariada, Lauren acaba por aceder e ir ter com as suas amigas, levando os seus bebés. No regresso para casa, sente-se mal, resolve parar e sentar-se com os bebés num banco de jardim. Mas, no seu estado de exaustão, acaba por adormecer e, quando acorda, os bebés já lá não estão. A partir daqui, sentimo-nos completamente presos à história, na tentativa de descobrir se é Lauren que não está bem ou se há mesmo alguém que lhe raptou os filhos. Realço aqui a antipatia que senti para com o marido, que sabia apenas exigir dela, ia dormir para outro quarto não a ajudando com as crianças, pensando apenas no seu bem-estar, não acreditava nela e, ainda por cima, andara envolvido com outra mulher. Mulher essa que encontra os bebés no rio. Quando Lauren observa os bebés, apercebe-se de que aqueles não são os seus filhos, mas os da mulher que tentou raptar os seus, se bem que a aparência com os seus filhos seja óbvia. Senti uma grande ansiedade e sensação de injustiça, por ninguém acreditar nela.
Lauren pensa que, devolvendo aqueles ao rio, encontrará os seus. Acaba por ser detida e internada numa clínica de saúde mental. A partir daí, assistimos com uma grande angústia a todas as tentativas de Lauren para sair dali e ir salvar os seus filhos, a repulsa por estas falsas crianças que, quando as enfermeiras não estavam ou adormeciam, cantavam e falavam, embora ainda só tivessem 4/5 semanas de vida. Repulsa essa que Lauren teve de combater, fingindo aceitar que eram os seus filhos até lhe ser dada alta.
Um conto de fadas aterrorizador, que nos domina, que termina de forma inesperada, pelo que ficamos durante um tempo a pensar no que lemos, no que de facto aconteceu. A questionarmo-nos…
A Mãe, de Melanie Golding é a minha sugestão de leitura para esta semana, eu que sou a Célia Gil. Aconselho a que prepare bem o coração, porque as emoções vão ser mais que muitas!

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Os Inocentes, David Baldacci

Célia Gil

Baldacci, David (2013). Os Inocentes. Lisboa: Clube do Autor.



    Os Inocentes é um romance policial escrito por David Baldacci, um escritor que nasceu na Virgínia e foi traduzido por Maria Dulce Guimarães da Costa.
    Este é um livro de 433 páginas, que nos deixa sem fôlego, em que a ação se apresenta a um ritmo alucinante, envolvente, viciante, de leitura fácil e com uma generosa dose de suspense, que nos surpreende até ao fim, fim este totalmente e surpreendentemente imprevisível.
    Robie, a personagem principal, é um assassino profissional oficial do governo americano, profissional e eficiente, atendendo ao sucesso de todas as suas missões.  Porém, quando lhe entregam a missão de matar uma mãe e os dois filhos, sente que há algo que não está bem, que é diferente das outras missões e não consegue matar. Alguém que vigia a missão, mata por ele, com um único tiro, cuja bala entra pela janela e atinge a mãe e um dos filhos. Sabe que, ao não cumprir a missão, será ele também um alvo a abater. Depois de deixar a outra criança à porta de uma vizinha do prédio onde foi cometido o crime, ao fugir da cena do crime, Robie cruza-se, num autocarro armadilhado, com uma adolescente em fuga. Julie é uma adolescente muito inteligente, sobredotada, cujos pais foram assassinados, estando ela agora em perigo. Robie salva-a de um perseguidor e decide ajudá-la a descobrir a verdade sobre os pais. Entre eles vai crescendo uma amizade, que nos permite ver que Robie não é um simples assassino, é protetor e tudo faz para manter Julie em segurança.
    Interessa-se pelo caso da jovem, iniciando uma investigação que envolve as mais altas esferas do poder numa conspiração política internacional. Começa a sentir-se responsável pela sua segurança, se bem que a jovem queira estar sempre a par das investigações. 

    Haverá alguma ligação entre os casos de Julie e Robie?

    Juntamo-nos a eles e a duas mulheres que se cruzam na sua vida: Anne Lambert, que trabalhava na Casa Branca e Nicole Vance, uma agente especial do FBI. Alvos de várias ciladas, seguimos estas personagens e sentimos com elas o medo e a incerteza durante as várias etapas da investigação.

Título: Os Inocentes
Autor: David Baldacci
N.º de páginas: 433
Editora: Clube do Autor

sexta-feira, 27 de março de 2020

Sangue Frio, Robert Bryndza

Célia Gil

Bryndza, Robert (2018). Sangue Frio. Loures: Alma dos Livros.


Nº de páginas: 318

Sangue Frio é o quinto livro da série Érika Foster, de Robert Bryndza, traduzido por Ana Lourenço. Mais um thriller que se lê ininterruptamente, alternando entre a investigação da equipa de Erika Foster e a história de dois assassinos cruéis.

A ação inicia-se com a descoberta de dois corpos, cortados e acondicionados dentro de malas de viagem. Apesar de não terem sido encontradas no mesmo local, os corpos tinham, de alguma forma, uma ligação, pois tinham sido acondicionados da mesma maneira e, diga-se de passagem, dificilmente um crime exatamente igual poderia ser atribuído a diferentes assassinos.

Nina, uma jovem ingénua e inexperiente, conhece Max numa loja de fish & chips e sente-se atraída por ele, fazendo tudo para que aquele rapaz de cabelo loiro comprido e bonito olhe para ela. Maldito o dia em que ele resolve aproximar-se dela e a envolve nos seus esquemas (venda de droga, relacionamentos estranhos…). E Nina deixa-se envolver, perdidamente apaixonada. Aos poucos, apercebe-se de que está em apuros, que ele é um criminoso, mas já está de tal maneira presa e amedrontada, que se limita a evitar que ele se zangue com ela, tentando ao máximo passar despercebida. Mas Max envolve-a nos seus crimes e torna-a a ela também numa criminosa.
Cabe à equipa de Érika deslindar esta situação.

Quando os criminosos raptam duas crianças, as filhas gémeas de um colega de Érika, tudo fazem para resolver a situação sem dano para as crianças.
Conseguirão salvar as gémeas? Max não tem nada a perder e tem as balas necessárias para matar Nina e as gémeas.

Para o descobrir, aconselho vivamente a leitura deste livro. Eu, por meu turno, continuo com a clara certeza de querer descobrir todos os livros deste escritor. Mesmo não os lendo pela ordem por que foram escritos.

                                                                    Célia Gil

sábado, 21 de março de 2020

Um Pingo na Água, Ann Yeti

Célia Gil

Yeti, Ann (2020). Um Pingo na Água. Castro Verde: Editorial Grupo Narrativa






Um Pingo na Água, de Ann Yeti é um livro jovem, repleto de vida e de todas as expetativas, anseios e paixões da juventude.
A protagonista, Ana, é uma mulher profissionalmente realizada e bem resolvida. Porém, revela-se uma mulher sensual, com a vida “à flor da pele”, que facilmente se entrega às paixões, sejam ou não duradouras. Vive essas paixões de forma exacerbada, não controlando os seus instintos, mesmo quando a razão lhe diz que não devia e que era melhor parar. Um pouco perversa, não hesita em trair, quando se lhe oferece a oportunidade para o fazer. Quanto a mim, revela-se um pouco fraca na questão amorosa, pois não sabe dizer que não, não resiste e persiste no logro das suas emoções. Tudo dá a entender que termina bem, mesmo depois de um momento de muito sofrimento, com a perda de João. Porém, na minha ótica, não sei se terminará assim tão bem. Numa relação, não basta um amar. Ana não me pareceu ser mulher de um homem só, por isso, acredito que o fim poderá se poderá considerar em aberto.
Yeti escreve muito bem, uma escrita leve, mas bem ponderada. Apresenta-nos as ações de forma direta, sem momentos mortos, o que faz com que o leitor entre na narrativa e só dela saia ao terminar o livro.
Este é mais um livro de Yeti com uma capa lindíssima, onde o horizonte se contempla como infinito ou inalcançável, como inalcançáveis são os sentimentos de Ana.
Gostaria, agora, de ver Yeti num outro registo, de que se vislumbrou um pouco em Um Fio de Sangue, um thriller, pois penso que a sua capacidade de escrita fluente seria totalmente adequada a um livro desse género. Fico a aguardar e expectante de que vai ser, com certeza, também muito bom!
                                                                                                                Célia Gil

sexta-feira, 20 de março de 2020

A Paciente Silenciosa, Alex Michaelides

Célia Gil

Michaelides, Alex (2019). A Paciente Silenciosa. Lisboa: Editorial Presença.


A Paciente Silenciosa é um livro escrito por Alex Michaelides e traduzido por Marta Mendonça. É um livro que nos absorve logo nas primeiras páginas e que só conseguimos largar se tivermos mesmo algo urgente para fazer. Caso contrário, as suas 333 páginas são devoradas compulsivamente.
Alicia era pintora. Encontra-se internada e, desde que supostamente matou o marido, não voltou a proferir nenhuma palavra. No Grove, onde se encontra internada, já tinham desistido de tentar que ela falasse.
Théo Faber, cuja infância foi bastante conturbada, tornou-se psicoterapeuta para resolver o seu caos interior. Conseguiu uma entrevista de trabalho para a Grove, porque queria ajudar Alicia a falar. Todos lhe diziam que ela era louca, que nunca mais falara e que ele não iria conseguir, era uma perda de tempo. Além disso, ela era perigosa. Mas Théo não desiste, considera que Alicia está demasiado medicada e consegue interceder para que lhe seja reduzida a dose de medicação. Na primeira sessão, depois de reduzida a medicação, Alicia atacou Théo, apertando-lhe o pescoço com o intuito de o matar. Estava já a sufocar, quando conseguiu premir o alarme.
A par das sessões que vai tendo com Alicia, nas quais não se notam grandes progressos, vai-nos sendo apresentado o diário dela e momentos da vida pessoal de Théo. Este era casado com Kathy, que era a sua esposa e a mulher da sua vida. Certo dia, Théo encontra, sem querer, mensagens de cariz pessoal e sexual, no computador da mulher. Esta estaria a traí-lo e isso era inconcebível para ele. No entanto, também não a queria perder, por isso não a abordou. A mulher era atriz e uma boa atriz no que toca a não dar a entender o que se passava na sua vida pessoal. Théo resolve adotar a mesma estratégia e, apesar de ferver por dentro, sorria para ela como se nada fosse.
Entretanto, é ponderada a continuação das sessões de terapia de Théo com Alicia, uma vez que não estão a surtir efeito. Mas este não desiste. Na última sessão, Alicia não fala, no entanto entrega-lhe o seu diário. Théo lê o diário de um só fôlego e começa a investigar por conta própria, mesmo sabendo que não o deve fazer, pois é apenas o terapeuta. Questiona todos os que pudessem estar envolvidos na morte do marido de Alicia, Gabriel, e todos os que, de alguma maneira, o pudessem ajudar a chegar ao âmago de Alicia, para perceber que acontecimentos a terão levado a calar-se voluntariamente para sempre. Não acredita que tenha sido ela a matar o marido. Acredita, isso sim, num homicídio.
No diário, Alicia conta que sentia que era perseguida por um homem, mas, nem o marido nem o médico que a seguia na altura, acreditavam nela. Mas Théo acreditava.
Entretanto, na narrativa encaixada nesta sobre a vida pessoal de Théo, este começa a seguir a esposa para ver com quem ela o traía.
Chegaria Théo a descobrir quem era o seu rival?
Conseguiria Théo que Alicia falasse?
Muito mais haveria a contar, mas não quero revelar mais. Só posso afiançar que o fim é totalmente inesperado e incrível.

segunda-feira, 16 de março de 2020

A Bailarina de Auschwitz, Edith Eger

Célia Gil
Eger, Edith (2018). A Bailarina de Auschwitz. Porto Salvo: Saída de Emergência.

Poderia ser apenas mais um relato sobre o Holocausto, mas não é. É uma obra muito bem escrita, que se lê com o coração nas mãos, mas que vai para além de uma vivência traumatizante, uma vez que nos apresenta um exemplo, o exemplo de uma mulher que viveu os piores horrores, que passou por todas as dificuldades, traumas pós-holocausto, exclusão social, mas que conseguiu repensar e refazer a sua vida. Hoje, com 92 anos, continua uma força da natureza, mesmo depois de tudo o que vivenciou. Tornou-se psicóloga, e especialista em stress pós-traumático, tendo decidido escrever um livro para contar o que aconteceu, mas, principalmente, para mostrar que todas as pessoas têm alternativas na vida.
Numa madrugada de 1944, a família - que residia em Kassa, na Hungria - foi acordada pelos nazis. Viveram quase toda a guerra sem saberem o que se passava com os judeus na Europa. Edith sonhava ser bailarina e, até ser deportada, trabalhava diariamente para atingir esse objetivo.
"Não sabíamos de nada. Os meus pais tinham bilhetes para irmos para a América e não os usaram. Não fazíamos ideia do que se estava a passar. Nunca ouvir falar de Auschwitz até ao dia em que cheguei lá vi a tabuleta a dizer: O trabalho traz a liberdade. Mesmo assim não sabia onde estava até ver o Dr. Mengele que me separou da minha mãe. Os meus pais morreram nas câmaras de gás nessa mesma noite. Eu vi a chaminé e o fogo sair e disseram-me que eles estavam lá a arder."
Acompanhada pela irmã mais velha, Magda, Edith começou o percurso pelas mãos dos nazis frente a Joseph Mengele, o homem que ficou conhecido como Anjo da Morte, pelas experiências que realizou em seres humanos, em especial em crianças e gémeos.
A jovem foi obrigada a dançar, e foi nessa noite, que descobriu a primeira estratégia para sobreviver - "Fechei os olhos quando dancei para o doutor Mengele, imaginei a música de Tchaikovsky e estava a dançar o Romeu e Julieta na Opera House de Budapeste".
Ela reconhece que muita da resistência lhe vem da forma como decidiu encarar o mundo, logo aos 16 anos "Não sei de onde me veio a ideia mas imaginei, que de alguma forma, seriam os nazis a pagar com a consciência o que estavam a fazer. Eram eles os verdadeiros prisioneiros. Não sei como criei dentro de mim esse mundo em que me podiam espancar, enviar para a câmara de gás, mas nunca poderiam matar o meu espírito."
Em dezembro de 1944, Edith e a irmã mais velha, Magda, foram retiradas de Auschwitz e seguiram numa marcha da morte através da Europa. Em maio de 1945 foram libertadas na Áustria, quando ambas davam já poucos sinais de vida. Um soldado americano notou a mão de Edith mover-se ligeiramente numa pilha cadáveres.
De regresso à terra natal Edith e Magda reencontram a irmã, Klara, que passou o último ano da guerra com um professor católico. As três são os únicos elementos da família que residia na Europa a sobreviverem.
Durante os 20 anos seguintes a jovem sobrevivente esconde totalmente a experiência que teve em Auschwitz. Ninguém sabe que ela foi vítima dos nazis. Escondeu-o porque pensou que assim poderia esquecer mais depressa.
Foi já como psicóloga que percebeu que a estratégia não estava a resultar. Nos anos 80 regressou ao antigo campo de concentração na Polónia "Perdoar-nos é muito difícil e ainda estou a fazê-lo. Demorei cerca de 40 anos até começar realmente a dar-me autorização para libertar a culpa e a vergonha. Não sei porque é que tinha a vergonha e a culpa de ser sobrevivente, mas foi ao ponto de faltar à minha licenciatura porque achava que não o merecia porque os meus pais estavam mortos".

A História deve ser contada para que não se repita.
                                                                                               Célia Gil

sábado, 29 de fevereiro de 2020

O Retorno, Maria Dulce Cardoso

Célia Gil
Cardoso, Dulce Maria (2012). O Retorno. Lisboa: Tinta-da-China.

Ler O Retorno de Maria Dulce Cardoso é fazer uma viagem de retorno à infância, às minhas memórias, sendo eu própria uma retornada, que voltou de Angola com apenas 5 anos, em 1975. Estive em casa com a leitura deste livro, com os hábitos, a linguagem, a cultura do país que me viu nascer. Estive com os dramas, a angústia e o medo das personagens nas quais me reconheci, ainda que mais nova. Revi-me nesta realidade de passar de uma vida tranquila, sem necessidades, para uma vida incerta, onde o Bullying assumia uma outra forma, mas era da mesma violência. Também eu voltei sem o meu pai. Voltaria? Não voltaria? Tantas incertezas, tantas dificuldades, tantos sonhos…
Este é realmente um grande livro, só o pode ser, quando nos revemos nas personagens, nas situações, deixando-nos envolver e confundir com a própria história.

Mal chegam a Portugal, Rui e a família e milhares de refugiados vêem-se obrigados a habitar por tempo indeterminado num hotel de cinco estrelas no Estoril, disponibilizado pelo Governo para receber os “retornados”. A mãe, que tinha problemas psicológicos, vê agravar-se o seu estado de saúde, ao regressar sem o marido (quem a ia mantendo mais ou menos estável) e ao deparar-se com a falta total de apoio dos parentes que residem em Portugal.

As condições de vida no hotel rapidamente se degradam devido à sobrelotação. Os hóspedes “especiais” sentem-se a viver numa colmeia ou num formigueiro. Surgem os conflitos com a direção do hotel, que emite normas cada vez mais apertadas. As chamadas de atenção tornam-se constantes. O Rui, com apenas quinze anos de idade opta por exibir uma atitude bastante hostil em relação ao meio social lisboeta.
Conseguiriam estas personagens ultrapassar os seus dramas e refazer as suas vidas? Não foi o que todos tiveram de fazer? Não baixar os braços e partir para uma luta de adaptação, inserção social, procura de trabalho e luta, luta constante para esquecer os fantasmas passados.

“No IARN as secretárias eram velhas e sujas e as cadeiras onde os retornados se sentavam quando chegava a sua vez estavam desconjuntadas, tenho a certeza que nem aguentariam um corpo pesado como o do pai. Estavam lá retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber.” (pág. 86)


                                                                                   Célia Gil

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Princípio de Karenina, Afonso Cruz

Célia Gil

Cruz, Afonso (2018). Princípio de Karenina. Lisboa: Companhia das Letras.

O Livro Princípio de Karenina, de Afonso Cruz, foi um livro que adorei. Parte do princípio de Anna Karenina (romance de Tolstoi sobre a felicidade/infelicidade, e de uma derivação anterior de Aristóteles, sobre a bondade e a maldade),  construindo-se uma história que contraria, de alguma maneira, este princípio. Nem todas as famílias felizes se parecem, nem todas as infelizes são infelizes à sua maneira, porque, e passo a citar “…a felicidade não obedece a essas regras. Estar no lugar errado pode ser fonte de felicidade (…) Disposições imperfeitas, cada uma à sua maneira, mas felizes, cada uma à sua maneira (…) As famílias felizes terão de ser imperfeitas (ou seja, diferentes umas das outras), é impossível ser feliz sem dor (…) Sem desequilíbrio, nada se move”.
A história que nos permite chegar a estas conclusões é a do narrador, que fala para a sua filha, que não conhece e a quem conta a história da sua vida. Conta-lhe sobre si, desde criança, uma criança disforme;sobre os seus pais, como o pai fechava a sua vida dentro das janelas de casa e não gostava que o filho saísse, erguendo sempre muros de silêncio à sua volta, muito recatado, tradicional, afinal, porque, segundo o filho, tinha medo de tudo, tinha medo do que não conhecia, tinha medo do mundo. O pai ter-lhe-á incutido estes princípios e o medo de sair da aldeia. A mãe revela-lhe as costuras do Mundo, ela que sempre gostou da sua deformidade, mimando-a com suavidade. A mãe gostava de cantar, dizia que não cantava sozinha, pois considerava que cantava com diversas pessoas, através da rádio, numa espécie de comunhão, especialmente mulheres que, nas suas lides domésticas cantavam para engolir o choro. Conta sobre o seu amigo Dois Metros, que se chamava assim porque, na infância, parecia que atingiria uma altura excecional. Mas, afinal, ficou com pouco mais de 1,65 m, continuando, no entanto, sempre com a mesma alcunha. Conta das suas aventuras, das desavenças constantes.
A Fernanda da Farmácia foi, desde cedo, a sua grande paixão; mas, na altura, a sua noção de amor era uma noção de propriedade, algo que se constrói, devendo a escolha ser racional e não passional. Mas entre os dois havia a sombra de um rapaz perfeito, o Arnaldo da Herdade Nova. Desde que este lhe sussurrara ao ouvido que ela não prestava, que esta ideia o fez perder o interesse que tinha anteriormente por ela e será determinante para a indiferença com que a tratará mais tarde, quando se casa com ela. Quem começa a trabalhar em casa deles é a que será a mãe da sua filha, que lhe terá aberto as janelas, uma mulher oriental, de uma “beleza incomodativa”. Quando ela engravidou, mentalizou-se de que ia deixar a mulher e ficar com a mãe da sua filha. Mas foi adiando. E quando ela se foi embora, prometeu ir ter com ela, mas foi novamente adiando…. Terá ele ido ter com a mãe da sua filha? Como terá corrido este reencontro?
Um livro fabuloso, no qual é impossível não assinalar passagens de uma grande beleza. Uma história muito bem concebida e que vale a pena ler com atenção.
O Princípio de Karenina de Afonso Cruz é a minha sugestão de leitura desta semana, eu que sou a Célia Gil.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Nadar para Casa, Deborah Levy

Célia Gil

Levy, Deborah (2011). Nadar para Casa. Alfragide: Publicações Dom Quixote



Nadar para Casa é um livro de Deborah Levy, poeta e dramaturga britânica, traduzido por Ana Saldanha. A história, que nem sempre é linear e fácil de perceber, dada a quantidade de enigmas que se vão colocando ao leitor, é a de Joe, Isabel e a filha Nina, quando vão passar férias numa casa alugada em Nice, Côte D’Azur, com um casal amigo, Laura e Micthell. Acontece que não vai ser uma estadia regular, pois aparece-lhes Kitty, uma botânica, que veem, pela primeira vez, a nadar nua na piscina. Esta tudo faz para se tornar hóspede deles.

A história concentra-se nos oito dias em que Kitty estará hospedada na casa de férias, junto com a família de Joe e dos seus amigos. Joe passa por uma crise conjugal, Laura e Mitchell estão à beira da falência da sua loja de antiguidades, Isabel compensa o seu casamento falhado, dedicando-se exclusivamente ao trabalho e Nina está na fase de se descobrir sexualmente. Todas estas situações são-nos dadas a descobrir com o estranho surgimento de Kitty.

Mas estará Kitty sozinha? Quem é o seu companheiro de viagem, que ora se sente amado ora ameaçado por ela? E por que razão pretende Kitty seduzir o poeta Joe Harold Jacobs? E passo a citar “o poeta famoso, o poeta britânico, o poeta judeu, o poeta ateu, o poeta modernista, o poeta pós-Holocausto, o poeta mulherengo”, um poeta que se divide numa pluralidade de seres, que torna tão difícil perceber as suas intenções. Kitty pretende entregar um poema seu ao poeta, ansiando pela sua opinião. Afirma que sabe tudo sobre Joe e que ala veio para França para o salvar dos seus pensamentos. É uma personagem estranha, que começa a cativar o poeta, que o convida a um inevitável mergulho no desconhecido, no inconsciente.

                                                                       Célia Gil

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Aguas Profundas, Robert Bryndza

Célia Gil
Bryndza, Robert (2018). Águas Profundas. Loures: Alma dos Livros.
Nº de páginas: 326

Águas Profundas é um livro de Robert Bryndza, traduzido por Ana Lourenço. É um Thriller que não nos deixa respirar entre uma página e outra, entre um e outro capítulo, mantendo-nos presos do início ao fim, com um suspense avassalador.
A ação inicia com a equipa da inspetora-chefe Erika Foster, que, com os seus mergulhadores, procuram, numa pedreira abandonada a sul de Londres, uma mala com droga, que Jason Tyler terá atirado à água, para, mais tarde, quando o ambiente acalmasse, a ir buscar. Encontraram, após longas horas de mergulho em grande profundidade, heroína com um valor comercial de quatro milhões de libras. 
Porém, um dos seus mergulhadores encontrou outra coisa submersa no lodo do fundo da pedreira, um saco preto com um corpo muito pequeno. 
Erika, apesar de não lhe competir investigar este caso, fica imediatamente presa nas suas teias. 
De acordo com o a autópsia feita por Isaac Strong, tratava-se do esqueleto de Jéssica Collins, uma menina de 7 anos, que desaparecera há 26 anos, num dia em que se dirigia a casa de uma amiga para celebrar o seu aniversário. 
Consegue, depois de várias diligências, que o caso lhe seja atribuído. 
Torna-se, porém, um caso de muito difícil solução, uma vez que, tendo já passado tantos anos, muitas das pessoas implicadas, não estavam vivas e outras estavam longe. Também a família parece, apesar de devastada com a notícia, esconder vários segredos…
Os capítulos são breves, conduzindo o leitor juntamente com a equipa de investigadores pelo adensar do mistério, em direção a possíveis suspeitos, pistas falsas, novos suspeitos, num estado de ansiedade e emoção constantes, até um final realmente surpreendente.
Quem matou efetivamente Jéssica Collins?
Isso terá de descobrir com a leitura deste livro. Eu, por meu turno, fiquei com a clara certeza de querer descobrir todos os livros deste escritor.
                                                                  Célia Gil

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