Velho, Susana Amaro (2026). Sou Uma Multidão Minúscula. Lisboa: Casa das Letras.
N.º de páginas: 320Início da leitura: 16/10/2026
Fim da leitura: 18/10/2026
**SINOPSE WOOK**
"Em 1971, numa aldeia esquecida, Margarida cresce no casarão da colina rodeada por uma felicidade postiça. Há o piano de Elvira, os salões antigos cheios de livros, a presença de Jaime, filho da casa, e os dias longos de uma infância que parece ainda protegida. Mas longe da delicadeza dos gestos e da ordem dos dias, a brutalidade repete-se, aceite como uma fatalidade doméstica. Margarida é empurrada para fora daquela beleza encenada e aprende cedo que crescer é ser expulso da própria infância.
Décadas mais tarde, viúva e mãe de dois filhos, procura equilibrar-se entre três empregos e a luta diária pela sobrevivência. Mas quando um novo ato de violência ameaça destruir aquilo que mais ama, é obrigada a regressar ao lugar exato que decidira abandonar no passado. Proteger a filha poderá exigir-lhe o impensável.
Cruzando duas histórias de violência atravessadas pela mesma protagonista, Susana Amaro Velho constrói uma narrativa de tensão crescente, onde a estrutura e o jogo de perspetivas desafiam continuamente o leitor, confirmando a sua singularidade na forma como desmonta o rumo dos acontecimentos.
Sou uma Multidão Minúscula é um romance profundamente humano sobre aquilo que herdamos sem escolha, o que tentamos esconder, e a forma como a violência atravessa gerações. Afirma-se como um tributo à memória das mulheres silenciadas pelo abuso."
"Sou uma Multidão Minúscula" é um verso de António Ramos Rosa, que dá título ao mais recente livro de Susana Amaro Velho. Nesta obra, a violência perpetua-se na vida da protagonista Margarida em duas gerações distintas, enquanto jovem, em 1971, por detrás das portas do casarão onde vivia, e, mais tarde, em 1994, enquanto mãe de uma jovem, uma mãe com três empregos e dois filhos. Preocupada com o filho, que se junta a más companhias, acaba por não se aperceber que a mesma violência que sofrera na infância se lhe adentra pela casa, agora em relação à filha. Salienta-se, desta forma, que em mais de 20 anos nada mudou, nada foi feito para travar a violência. Em 1994, o Código Penal ainda considerava os crimes sexuais como crimes contra os valores da sociedade, não contra pessoas.
Este é um livro que, pela temática abordada, nos choca, nos causa desconforto, mas é importante que assim seja, é importante deixar de legitimar estes comportamentos, os abusos sexuais de menores.
Gostei muito do livro, gosto da forma como Susana Amaro Velho escreve, das alternâncias temporais que tornam duas épocas distintas tão próximas, mostrando que, em muitos aspetos, a sociedade não evoluiu o que era suposto evoluir.
O único aspeto que me pareceu um pouco forçado foi a quantidade de citações de livros/autores, que, apesar da personagem leitora da obra, que enducava, também, através do que lia, me pareceu excessivo.
É, contudo, muito positivo ver os nossos escritores nacionais a escreverem cada vez melhor.










