Márquez, Gabriel García (2009). Os Funerais da Mamã Grande. Lisboa: Publicações Dom Quixote.
Tradução: Luís Nazaré
N.º de páginas: 144
Início e fim da leituta: 22/02/2026
**SINOPSE WOOK"
"Sob o tema dos funerais mitológicos, em 1962, Gabriel García Márquez reuniu num pequeno volume sete contos e a curta novela que lhe dá o título. Neste livro aparece já, em todo o seu esplendor, o elemento mágico e telúrico que a partir daí definirá a sua obra. Estamos uma vez mais em Macondo e na sua região, entre episódios e personagens reconhecíveis, numa série de contos impossíveis de esquecer.
No último texto é preciso enterrar a Mamã Grande, soberana absoluta deste mundo, que faleceu com a fama de santidade aos 92 anos e a cujos funerais compareceu não só o Presidente da República, como até o Supremo Pontífice, na sua gôndola papal, além de camponeses, contrabandistas, cultivadores de arroz, prostitutas, feiticeiros e bananeiros, que ali se deslocaram propositadamente. Os seus bens, que datavam da época da conquista, eram incalculáveis. Abarcavam cinco municípios, 352 famílias e também a "riqueza do subsolo, as águas territoriais, as cores da bandeira, a soberania nacional, os partidos tradicionais, os direitos do homem, as liberdades dos cidadãos, o primeiro magistrado, a segunda instância, o terceiro debate, as cartas de recomendação", etc. Demora três horas a enumeração dos bens terrenos da Mamã Grande. Os seus herdeiros, no momento em que retiram do interior da casa o cadáver da defunta, fecham as portas e começam vorazmente a repartir a herança."
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Publicado em 1962, Os Funerais da Mamã Grande, de Gabriel García Márquez, reúne contos e uma novela que antecipam, de forma ainda embrionária, o universo literário que o autor viria a consolidar alguns anos depois. Não sendo, a meu ver, a obra mais conseguida do escritor colombiano, é, contudo, impossível não reconhecer nela a força de uma escrita já marcada por uma notável fluidez narrativa e por uma imaginação singular.
Há livros de Márquez que me tocaram mais profundamente, quer pela densidade emocional, quer pela arquitetura mais amadurecida do seu mundo ficcional. Ainda assim, a leitura desta colectânea impõe-se pelo prazer quase físico que proporciona: as histórias desenrolam-se com naturalidade, num ritmo envolvente, sustentadas por personagens caricatas que, apesar do exagero, nunca perdem a sua humanidade. O autor demonstra uma capacidade rara para transformar o grotesco em verosímil e o absurdo em quotidiano.
Importa também situar a obra no percurso literário de García Márquez. Aqui encontramos um escritor que se estreia, ou, pelo menos, ensaia de forma mais consciente, aquilo que viria a ser identificado como realismo mágico. O maravilhoso irrompe na narrativa com discrição, insinuando-se mais do que se impondo, ainda longe da mestria absoluta que o autor alcançaria posteriormente. Há, por isso, neste livro, uma dimensão experimental: percebe-se a construção de um território literário próprio, onde o insólito convive com a crítica social e política, e onde a hipérbole serve de lente de aumento à realidade latino-americana.
Um dos aspectos mais interessantes da obra é a forma como o autor constrói as figuras femininas e masculinas. As mulheres surgem, em regra, como entidades de sabedoria prática, prudência e sensibilidade, pilares silenciosos de comunidades desestruturadas. São elas que detêm a memória, a intuição e a capacidade de resistência. Em contraste, os homens aparecem frequentemente como criaturas desvairadas, movidas por impulsos, ambições desmedidas ou vaidades ridículas. Esta oposição, embora traçada com humor e ironia, revela uma leitura crítica das estruturas de poder e das fragilidades humanas.
Foi uma leitura agradável.





























