Céspedes, Alba de (2026). Nas Palavras Dela. Lisboa: Alfaguara.
Tradução: Ana Cláudia Santos.
N.º de páginas: 568
Início da leitura: 11/06/2026
Fim da leitura: 15/06/2026
**SINOPSE WOOK**
Alessandra sempre quis mais do que a vida lhe oferecia: construindo a sua vida interior à imagem da mãe - artista, livre, apaixonada -, confessa-nos o que pode e sonha uma mulher. Alba de Céspedes, autora de o caderno proibido, deslumbra-nos com um clássico da literatura do pós-guerra.
A infância de Alessandra, em Roma, é marcada pela lenda da mãe, Eleonora, mulher prodigiosa que sonhava ser uma pianista célebre, mas foi somente uma professora de piano infeliz por se ter casado com um homem sem interesse. Após a morte da mãe, Alessandra muda-se para uma casa de família longe da capital. Regressa a Roma quando deflagra a guerra. Conhece então Francesco, um antifascista com quem se casa, e descobre o frémito de colaborar na resistência clandestina. Sente-se, contudo, sempre invisível, e confessa: «Quem conhece estas páginas já sabe que ficar a uma janela sozinha e em silêncio é, desde a minha mais remota infância, uma das minhas condições de felicidade.»
Nas Palavras Dela escrutina impiedosamente o casamento, o mal-estar feminino, o jugo da domesticidade conservadora, o negrume da vida em guerra. Lembrando as vozes literárias de Morante, Ginzburg, Woolf ou Duras, encontramos aqui todo o esplendor da escrita refinada e do imaginário subversivo de Alba de Céspedes, uma das mais intrigantes escritoras do século XX.
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Depois de ter lido outra obra de Alba de Céspedes, aproximei-me de Nas Palavras Dela com expetativas elevadas e, uma vez mais, a autora não desiludiu. Há algo de particularmente cativante na sua escrita: a capacidade de construir personagens densas, humanas e contraditórias, que rapidamente deixam de ser figuras de papel para se tornarem presenças familiares. Não são apenas descritas; são observadas com uma sensibilidade rara, revelando-se pouco a pouco através dos seus gestos, hesitações e silêncios.
Neste romance, Alba de Céspedes mergulha nas complexidades das relações familiares e nas limitações impostas às mulheres numa sociedade marcada por convenções rígidas. No centro da narrativa encontra-se uma mulher de espírito artístico, cuja sensibilidade e desejo de realização pessoal contrastam dolorosamente com a vida que lhe foi destinada. Presa a um casamento infeliz e confrontada com a infidelidade do marido, vê surgir a possibilidade de uma existência diferente quando encontra alguém com quem partilha afinidades intelectuais e emocionais. No entanto, aquilo que poderia representar um caminho para a liberdade esbarra nas normas legais e sociais da época, que restringiam severamente a autonomia feminina e colocavam as mães perante escolhas impossíveis.
Mais do que contar uma história de amor ou de ruptura, a autora explora as consequências íntimas dessas decisões e a forma como elas ecoam ao longo dos anos. O olhar através do qual os acontecimentos são filtrados acrescenta uma dimensão particularmente interessante ao romance, permitindo observar não apenas os factos, mas também a forma como são recordados, interpretados e compreendidos por quem os viveu de perto. A memória, a identidade e a construção das narrativas familiares assumem, assim, um papel central.
Um dos maiores méritos do livro reside precisamente na recusa de julgamentos fáceis. Alba de Céspedes não procura dividir as personagens entre culpados e inocentes, nem apresentar respostas definitivas para os dilemas que coloca. Pelo contrário, mostra como as circunstâncias, os desejos individuais e as imposições sociais se entrelaçam de forma complexa, gerando feridas, incompreensões e também gestos de coragem.
A escrita é elegante e fluida, sem excessos nem artifícios, mas carregada de emoção contida. A autora tem o talento de dizer muito através de pequenos detalhes, criando uma proximidade quase imediata com as personagens e convidando o leitor a partilhar as suas inquietações mais íntimas. É precisamente essa combinação de delicadeza e lucidez que torna a leitura tão envolvente.
Nas Palavras Dela confirma Alba de Céspedes como uma das vozes mais interessantes da literatura italiana do século XX. Aconselho sem reservas.



















