D'Alte, Miguel (2024). A Origem dos Dias. Lisboa: Suma das Letras.
N.º de páginas: 264
Início da leitura: 10/03/2026
Fim da leitura: 13/03/2026
**SINOPSE WOOK**
"«Em janeiro de 1998, eu tinha trinta anos, era pobre e um escritor falhado.»
Tomás Franco mudou-se para a cidade há dez anos para escrever e fugir de uma infância lacerada por uma tragédia, mas também para perseguir a história do seu avô, Pierre Lacroix, um escritor outrora premiado, fugido de França durante a Segunda Guerra, e do qual ninguém quer falar.
No entanto, nada corre como esperado, e tudo o que encontra são noites que passam como clarões, camas geladas, a agonia do silêncio e da solidão, empregos precários. Até que conhece Leonor, uma rapariga envolta em mistério que lhe muda o destino.
No Porto, França, Florida ou Marrocos, Tomás Franco persegue a literatura proibida e indecente, os passos dos escritores imortais, enquanto caminha sobre a ténue linha que separa as personagens dos livros das reais. O amor impossível e visceral, a paixão como doença, apartamentos assombrados trancados para sempre, a aparição de uma figura do passado, as diferentes versões de nós próprios, a finitude da vida.
«Muitas vezes penso no que teria acontecido se nunca tivesse ligado a Leonor.»
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A Origem dos Dias, de Miguel D'Alte, constrói-se como um romance de procura de identidade, de sentido e, sobretudo, de reconciliação com o passado. No centro da narrativa está Tomás Franco, um homem que aspira a tornar-se escritor e que decide mudar-se para o Porto numa tentativa de escapar aos seus próprios demónios. A perda da irmã, o silêncio e as ambiguidades em torno da história do avô, e um persistente bloqueio criativo formam o núcleo das inquietações que o acompanham ao longo do livro.
A figura do avô, Pierre Lacroix, surge como uma presença simultaneamente luminosa e enigmática. Refugiado em Portugal depois de fugir de França durante a Segunda Guerra Mundial, Lacroix terá sido um escritor de grande talento, mas também alguém marcado por uma aura de marginalidade literária, um “escritor maldito”, devido a textos que terão provocado desconforto ou incompreensão. Para Tomás, porém, o avô permanece sobretudo como uma memória afetiva e inspiradora: é nele que reconhece a origem do seu próprio desejo de escrever. A investigação sobre a vida e o destino de Lacroix torna-se, assim, mais do que uma curiosidade familiar; transforma-se numa tentativa de compreender a própria herança emocional e criativa.
O romance acompanha esse percurso de procura através de deslocações, encontros e episódios que vão expondo a fragilidade interior da personagem. Tomás conhece pessoas, viaja, observa o mundo à sua volta, mas não encontra respostas imediatas. Pelo contrário, o caminho é irregular e, muitas vezes, autodestrutivo: a entrega ao álcool e à droga revela a dificuldade em enfrentar o luto e as perguntas que o perseguem. Nesse sentido, o livro evita soluções fáceis e mostra que o processo de autoconhecimento raramente é linear.
Um dos aspectos mais marcantes da obra é a forma como a escrita de Miguel D’Alte se cruza constantemente com a tradição literária. As referências a outros autores e a outras obras surgem integradas na narrativa, funcionando não apenas como homenagem, mas também como parte do universo mental de Tomás. Esse diálogo permanente com a literatura reforça a ideia de que escrever é sempre conversar com aqueles que vieram antes.
Apesar do peso das memórias e das crises pessoais que atravessam a história, o romance conduz o leitor com paciência até um desfecho em que as várias linhas narrativas se vão entrelaçando. As pontas soltas encontram gradualmente o seu lugar, permitindo compreender melhor as motivações das personagens e o significado dos acontecimentos que, ao longo do livro, pareciam fragmentados.
Com uma escrita segura e frequentemente de grande intensidade, A Origem dos Dias apresenta-se como um romance introspetivo sobre a herança, o luto, o amor e a vocação literária. É uma obra que exige a atenção do leitor, mas que recompensa esse investimento com uma narrativa rica em referências e emoções contidas. No final, fica a sensação de ter acompanhado não apenas a história de um homem que procura respostas, mas também uma reflexão sobre o próprio ato de escrever. Um livro que, pela densidade da sua escrita e pela forma como fecha o círculo da narrativa, vale claramente a pena ler.


























