Madeira, Carla (2026). Quando. Lisboa: Particular Editora.
N.º de páginas: 266
Início da leitura: 24/10/2026
Fim da leitura: 25/10/2026
**SINOPSE WOOK**
"Viridiana é a mãe amorosa e atenta de Margarida, Valquíria e Tito. no calor de um acontecimento trágico, será capaz do ato impensado: denunciar o próprio filho à polícia, abrindo um abismo entre eles. Depois de vinte anos sem se verem, quando o tempo parece ter dissolvido todas as possibilidades, Carla Madeira nos colocará diante da extraordinária força dos afetos."
Quando, de Carla Madeira, é um romance intenso, por vezes incómodo, construído sobre uma situação familiar extrema e sobre uma pergunta que se vai tornando cada vez mais difícil de afastar: até onde pode ir o amor de uma mãe quando amar o próprio filho entra em conflito com a necessidade de reconhecer o mal que ele foi capaz de fazer?
Viridiana é mãe de Margarida, Valquíria e Tito. É apresentada como uma mulher atenta, afetuosa, profundamente ligada aos filhos. Mas um acontecimento trágico coloca-a perante uma decisão que rompe aquilo que parecia ser a ordem natural das coisas: denuncia o próprio filho à polícia. A partir desse gesto, abre-se uma distância que atravessa duas décadas e que o romance vai explorando, não como uma simples história de culpa e arrependimento, mas como uma complexa teia de afetos, responsabilidades, silêncios e feridas.
Carla Madeira coloca o leitor numa posição desconfortável. Seria fácil transformar Viridiana numa mãe que fez o que tinha de fazer ou, pelo contrário, numa mãe que traiu o próprio filho. O romance recusa essa facilidade. A denúncia não é apresentada como uma decisão que possa ser avaliada de forma absolutamente limpa, porque qualquer que seja a escolha haverá uma consequência impossível de evitar. Proteger o filho significaria pactuar com aquilo que aconteceu; denunciá-lo significa aceitar a possibilidade de destruir uma relação que, até esse momento, fazia parte do próprio sentido da sua existência.
O que interessa a Carla Madeira é permanecer nesse lugar de conflito.
E é também por isso que o título, Quando, adquire uma força particular. É uma palavra que sugere espera, suspensão e possibilidade. Quando? Quando será possível voltar a ver o outro? Quando será possível perdoar? Quando deixará de doer? Quando é que uma pessoa deixa de ser aquilo que fez? E, talvez mais profundamente, quando é que o amor consegue sobreviver àquilo que parece incompatível com o próprio amor?
O tempo assume, por isso, uma importância decisiva. Não se trata simplesmente de vinte anos que passam. O tempo não apaga o acontecimento; transforma a maneira como cada personagem o carrega. A narrativa desloca-se entre diferentes momentos, recua e avança, aproxima-se de personagens distintas e vai revelando aos poucos as circunstâncias que ajudam a compreender o que aconteceu.
Essa opção formal é particularmente feliz porque reproduz a própria natureza da memória. Ninguém recorda uma vida como quem consulta uma cronologia. As lembranças aparecem por associação, regressam quando menos se espera, misturam-se com aquilo que sentimos no presente. Em Quando, a estrutura narrativa parece obedecer a essa lógica: uma recordação conduz a outra, um gesto ganha significado muitas páginas depois, uma personagem que julgávamos compreender revela uma dimensão diferente quando a vemos através de outro olhar.
O leitor é, assim, obrigado a reconstruir a história. Mas essa reconstrução não é apenas narrativa. É também moral. À medida que conhecemos as personagens e as circunstâncias que as moldaram, somos obrigados a rever os nossos próprios julgamentos. Carla Madeira não parece interessada em criar personagens absolutamente inocentes ou absolutamente culpadas. Interessa-lhe sobretudo perceber de que maneira uma pessoa se torna aquilo que é e como as famílias, mesmo quando se amam, podem ser lugares de formação e também de deformação. A família é o grande laço do romance. É dentro dela que se aprende a amar, a obedecer, a proteger, a esconder e a julgar. É também dentro dela que determinados preconceitos podem ser transmitidos quase sem serem questionados. Quando mergulha nesse espaço familiar para mostrar que a violência raramente começa no momento em que explode. Muitas vezes começa muito antes, em frases aparentemente inofensivas, em comportamentos normalizados, em modelos de educação, em silêncios que se repetem de geração em geração. Ser mãe não significa necessariamente proteger o filho de todas as consequências dos seus atos. Mas também não significa deixar de o amar quando ele erra de uma maneira que parece imperdoável.
Outro aspeto importante é a presença da homofobia e da violência enquanto forças que atravessam a história. O romance situa-se no Brasil dos anos 1980 e utiliza esse contexto não como mero cenário histórico, mas como parte da compreensão das personagens e das estruturas sociais que as condicionam.
A violência, neste livro, não aparece apenas como ato individual. Existe uma dimensão social que importa reconhecer: determinados comportamentos são ensinados, tolerados ou desculpados por uma cultura que os normaliza.
Há ainda uma questão particularmente interessante: o que significa perdoar?
Perdoar a mãe por ter denunciado o filho? Perdoar o filho pelo que fez? Perdoar o pai, a família, a sociedade, as circunstâncias? Ou, antes de tudo, perdoar-se a si próprio?
Viridiana é mãe de Margarida, Valquíria e Tito. É apresentada como uma mulher atenta, afetuosa, profundamente ligada aos filhos. Mas um acontecimento trágico coloca-a perante uma decisão que rompe aquilo que parecia ser a ordem natural das coisas: denuncia o próprio filho à polícia. A partir desse gesto, abre-se uma distância que atravessa duas décadas e que o romance vai explorando, não como uma simples história de culpa e arrependimento, mas como uma complexa teia de afetos, responsabilidades, silêncios e feridas.
Carla Madeira coloca o leitor numa posição desconfortável. Seria fácil transformar Viridiana numa mãe que fez o que tinha de fazer ou, pelo contrário, numa mãe que traiu o próprio filho. O romance recusa essa facilidade. A denúncia não é apresentada como uma decisão que possa ser avaliada de forma absolutamente limpa, porque qualquer que seja a escolha haverá uma consequência impossível de evitar. Proteger o filho significaria pactuar com aquilo que aconteceu; denunciá-lo significa aceitar a possibilidade de destruir uma relação que, até esse momento, fazia parte do próprio sentido da sua existência.
O que interessa a Carla Madeira é permanecer nesse lugar de conflito.
E é também por isso que o título, Quando, adquire uma força particular. É uma palavra que sugere espera, suspensão e possibilidade. Quando? Quando será possível voltar a ver o outro? Quando será possível perdoar? Quando deixará de doer? Quando é que uma pessoa deixa de ser aquilo que fez? E, talvez mais profundamente, quando é que o amor consegue sobreviver àquilo que parece incompatível com o próprio amor?
O tempo assume, por isso, uma importância decisiva. Não se trata simplesmente de vinte anos que passam. O tempo não apaga o acontecimento; transforma a maneira como cada personagem o carrega. A narrativa desloca-se entre diferentes momentos, recua e avança, aproxima-se de personagens distintas e vai revelando aos poucos as circunstâncias que ajudam a compreender o que aconteceu.
Essa opção formal é particularmente feliz porque reproduz a própria natureza da memória. Ninguém recorda uma vida como quem consulta uma cronologia. As lembranças aparecem por associação, regressam quando menos se espera, misturam-se com aquilo que sentimos no presente. Em Quando, a estrutura narrativa parece obedecer a essa lógica: uma recordação conduz a outra, um gesto ganha significado muitas páginas depois, uma personagem que julgávamos compreender revela uma dimensão diferente quando a vemos através de outro olhar.
O leitor é, assim, obrigado a reconstruir a história. Mas essa reconstrução não é apenas narrativa. É também moral. À medida que conhecemos as personagens e as circunstâncias que as moldaram, somos obrigados a rever os nossos próprios julgamentos. Carla Madeira não parece interessada em criar personagens absolutamente inocentes ou absolutamente culpadas. Interessa-lhe sobretudo perceber de que maneira uma pessoa se torna aquilo que é e como as famílias, mesmo quando se amam, podem ser lugares de formação e também de deformação. A família é o grande laço do romance. É dentro dela que se aprende a amar, a obedecer, a proteger, a esconder e a julgar. É também dentro dela que determinados preconceitos podem ser transmitidos quase sem serem questionados. Quando mergulha nesse espaço familiar para mostrar que a violência raramente começa no momento em que explode. Muitas vezes começa muito antes, em frases aparentemente inofensivas, em comportamentos normalizados, em modelos de educação, em silêncios que se repetem de geração em geração. Ser mãe não significa necessariamente proteger o filho de todas as consequências dos seus atos. Mas também não significa deixar de o amar quando ele erra de uma maneira que parece imperdoável.
Outro aspeto importante é a presença da homofobia e da violência enquanto forças que atravessam a história. O romance situa-se no Brasil dos anos 1980 e utiliza esse contexto não como mero cenário histórico, mas como parte da compreensão das personagens e das estruturas sociais que as condicionam.
A violência, neste livro, não aparece apenas como ato individual. Existe uma dimensão social que importa reconhecer: determinados comportamentos são ensinados, tolerados ou desculpados por uma cultura que os normaliza.
Há ainda uma questão particularmente interessante: o que significa perdoar?
Perdoar a mãe por ter denunciado o filho? Perdoar o filho pelo que fez? Perdoar o pai, a família, a sociedade, as circunstâncias? Ou, antes de tudo, perdoar-se a si próprio?










