O'Farrell, Maggie (2021). Hamnet. Lisboa: Relógio 'Água.
Tradução: Margarida Periquito
N.º de páginas: 320
Início e fim da leitura: 15/02/2026
**SINOPSE**
"Hamnet é um romance sobre o filho de Shakespeare. Mas esse é apenas o ponto de partida para Maggie O’Farrell construir uma obra actual, que interroga a origem da dor e envereda por caminhos menos conhecidos do amor e da maternidade.
Numa narrativa que mistura realidade e ficção, a autora irlandesa cria uma das mais importantes obras literárias deste início do século XXI.
«Um romance histórico excepcional.» [The New Yorker]
«A história de Hamnet aguardou mais de quatrocentos anos nas sombras. O’Farrell trá-la finalmente à luz, de forma deslumbrante e devastadora.» [Kamila Shamsie]
«Um livro maravilhoso.» [David Mitchell]
«O que poderia ser mais comum, através dos séculos e continentes, do que a morte de um rapaz? Ainda assim, O’Farrell, com frases perfeitas e coração irrequieto, torna-a num acontecimento.» [Emma Donoghue]
«Esplêndido. A escrita é requintada, imersiva e convincente.» [Marian Keyes]"
Que obra fenomenal. Entre a realidade histórica e a liberdade da ficção, Hamnet, de Maggie O'Farrell, reúne todos os ingredientes para se afirmar como um romance verdadeiramente inesquecível. Trata-se de uma narrativa intensa e profundamente humana, que revisita um episódio marginal da história literária, a morte precoce do filho de Shakespeare, para construir algo muito maior: uma reflexão poderosa sobre o luto, o amor e a fragilidade da vida.
O’Farrell escreve com uma precisão quase física. A linguagem é sensorial, atenta aos ritmos da natureza, aos silêncios das relações e às fissuras invisíveis que atravessam uma família. A escolha de recentrar a narrativa em Agnes, figura inspirada em Anne Hathaway, revela-se particularmente feliz. É através dela que o romance ganha espessura emocional: uma mulher intuitiva, ligada à terra e ao invisível, cujo amor maternal se apresenta como força motriz da história. Não um amor idealizado, mas um amor feroz, atento, por vezes impotente.
É aqui que o romance se torna verdadeiramente perturbador. Em Hamnet, o amor de mãe é absoluto, mas não é omnipotente. O’Farrell recusa a ilusão reconfortante de que o cuidado e a vigilância bastam para proteger os filhos do mundo. A doença, o acaso e a morte impõem-se como realidades incontornáveis, expondo os limites do amor humano perante forças maiores. A pergunta que atravessa o livro, chegará o amor de mãe para manter sempre a salvo os seus filhos?, permanece deliberadamente sem resposta, ecoando muito para além da última página.
No final, Hamnet não é apenas um romance histórico nem uma obra sobre Shakespeare. É uma meditação comovente sobre a perda e sobre aquilo que sobrevive a ela: a memória, a arte, e a tentativa de transformar a dor em significado. Forte, belíssimo e profundamente honesto, este é um livro que não se esquece, precisamente porque não oferece consolo fácil. Recomendo vivamente.






























