O'Farrel, Maggie (2025). A Primeira Mão Que Segurou a Minha. Lisboa: Relógio D'Água.
Tradução: Inês Dias
N.º de páginas: 344
Início da leitura: 22/09/2026
Fim da leitura: 25/09/2026
**SINOPSE WOOK**
"Quando o sofisticado Innes Kent aparece à sua porta, Lexie Sinclair percebe que não pode esperar mais para começar a viver e decide partir para Londres, onde, no coração da cena artística de Soho na década de 1950, constrói uma nova vida.
Anos depois, Elina e Ted estão a lidar com o nascimento do primeiro filho. Ela luta para conciliar as exigências da maternidade com a sua vida artística, enquanto Ted é assombrado por memórias da sua infância que não coincidem com as histórias contadas pelos pais.
À medida que Ted começa a procurar respostas, é revelado um retrato de duas mulheres — separadas por cinquenta anos mas ligadas de formas que nenhuma poderia ter previsto."
Em A Primeira Mão Que Segurou a Minha, Maggie O’Farrell constrói uma narrativa assente em duas histórias separadas no tempo, que avançam em paralelo até se aproximarem de forma subtil e reveladora. A autora não tem pressa em explicar as ligações entre as personagens ou em esclarecer todas as perguntas que vai deixando pelo caminho.
Em Londres, nos anos 1950, acompanhamos Lexie, uma jovem que deixa para trás a terra onde cresceu e parte em busca de uma vida mais ampla. Na capital, encontra um mundo muito diferente daquele que conhecia e começa a afirmar-se profissionalmente como jornalista e crítica de arte. A sua trajetória é também a de uma mulher que procura conquistar independência num contexto em que as expetativas sociais ainda lhe impõem limites bastante definidos. O’Farrell acompanha essa transformação com atenção aos pequenos gestos, às relações e às escolhas que, aparentemente insignificantes, acabam por determinar o rumo de uma vida.
Décadas depois, a narrativa conduz-nos até Ted e Elina. A chegada do primeiro filho, que poderia representar apenas um momento de felicidade e renovação, surge marcada por um parto traumático e pelas consequências físicas e emocionais que este deixa em Elina. Enquanto ela tenta recuperar e adaptar-se à maternidade, Ted vê regressar memórias fragmentadas de uma infância que julgava distante. Há nele uma sensação persistente de ausência e de estranheza, relacionada com um passado sobre o qual pouco consegue ou quer falar.
É interessante perceber como as duas histórias, apesar de muito diferentes à superfície, são atravessadas por questões semelhantes: a maternidade, a identidade, a memória, a passagem do tempo e a forma como acontecimentos do passado podem continuar a influenciar vidas muito depois de terem acontecido. O corpo e a memória assumem, aliás, um papel particularmente importante no romance.
A autora revela também uma especial atenção à experiência feminina. Lexie e Elina pertencem a épocas distintas e enfrentam circunstâncias muito diferentes, mas ambas procuram encontrar o seu lugar num mundo que, de maneiras diversas, lhes impõe determinadas expetativas. A maternidade não é apresentada de forma idealizada, e a recuperação de Elina depois do parto é tratada com uma dimensão física e emocional que confere ao romance uma particular intensidade.
Um dos aspetos mais conseguidos do livro é precisamente a forma como O’Farrell trabalha o mistério sem transformar a narrativa num simples exercício de suspense. Existem perguntas que se acumulam e pequenas pistas que vão adquirindo significado à medida que avançamos, mas o interesse do romance não depende apenas de descobrir como as histórias se relacionam. O percurso das personagens é, por si só, suficientemente rico para sustentar a leitura.
O ritmo é, quanto a mim, deliberadamente pausado, sobretudo porque a autora privilegia a construção das personagens e a atmosfera em detrimento de uma sucessão rápida de acontecimentos. Há momentos em que essa opção pode exigir alguma paciência, mas acaba por ser coerente com uma história em que o essencial está muitas vezes nas emoções, nas lembranças e naquilo que permanece por dizer.










