Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Trigiani, Adriana (2026). Uma Janela Sobre o Lago Como. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Ana Saldanha
N.º de páginas: 416
Início da leitura: 10/07/2026
Fim da leitura: 13/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Giuseppina, por-favor-chamem-me-Jess, está de regresso a casa dos pais após o fim do casamento com um marido tão perfeito que se confunde com uma estátua renascentista. Ela é a pessoa que renova o passaporte… para nunca o usar. É a filha que nunca falha: cuida dos pais, trata do almoço de domingo, aceita sempre ficar em último lugar.

É no negócio de mármore da família, dirigido pelo exuberante tio Louie, que se permite brilhar. O seu talento como desenhadora é imenso e Louie não tem dúvidas de que ela pode chegar longe (desde que invista num guarda-roupa melhor).

Mas será necessário um cataclismo familiar para acordar Jess da sua letargia. Movida pelos sonhos que adiou por demasiado tempo, ela decide por fim dar uso ao passaporte e ir para Itália, o país dos seus antepassados.

É aí que começa, finalmente, a descobrir-se… e a apaixonar-se.

Porém, quando a felicidade parece estar finalmente ao seu alcance, o passado ameaça arrastá-la de volta a casa, destruindo tudo o que conseguiu construir."

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No livro Uma Janela Sobre o Lago Como, Adriana Trigiani regressa a alguns dos temas que atravessam a sua obra: a força dos laços familiares, o peso das expetativas herdadas e a procura de uma identidade própria para lá dos papéis que a vida parece impor. A autora, reconhecida internacionalmente pelos seus romances centrados nas relações humanas e nas raízes familiares, constrói aqui uma história de recomeços, memórias e descobertas pessoais, com a Itália como cenário de transformação e reencontro.
A protagonista, Giuseppina, conhecida por Jess, é apresentada como a filha exemplar, aquela que permanece sempre disponível para a família e que aprendeu a colocar os desejos dos outros à frente dos seus. Depois de um casamento terminado, regressa a casa dos pais, em Nova Jérsia e retoma uma rotina confortável, mas limitadora, marcada pelo cuidado dos seus e pelas pequenas obrigações familiares. É uma personagem que vive num permanente adiamento de si própria, alguém que mantém o passaporte renovado, mas que nunca se permite partir.
O trabalho na empresa familiar de mármore, sob a orientação do carismático tio Louie, revela uma faceta diferente de Jess. Ali encontra espaço para a sua criatividade e para um talento artístico que durante demasiado tempo ficou escondido. Trigiani explora com sensibilidade a tensão entre aquilo que somos capazes de fazer e aquilo que nos permitimos realmente alcançar, mostrando como, por vezes, são as circunstâncias mais inesperadas que nos obrigam a olhar de frente para os sonhos abandonados.
A viagem a Itália surge, assim, não apenas como uma deslocação geográfica, mas como um percurso interior. Ao aproximar-se da terra dos seus antepassados, Jess começa a reconstruir a sua própria narrativa, confrontando-se com novas possibilidades, afetos inesperados e uma versão de si mesma que até então desconhecia. O Lago Como, com a sua beleza e o seu simbolismo, funciona como um espaço de pausa e de mudança, onde a protagonista finalmente se permite imaginar uma vida diferente. Já visitei este lago e devo dizer que é lindíssimo.
Apesar de seguir uma estrutura familiar ao romance de crescimento pessoal e de recomeço, Uma Janela Sobre o Lago Como destaca-se sobretudo pela forma calorosa como retrata as relações familiares e as contradições do amor entre gerações. Nem sempre o ritmo mantém a mesma intensidade e alguns desenvolvimentos poderão parecer previsíveis, mas a narrativa beneficia do olhar atento da autora sobre as fragilidades humanas e sobre a importância de encontrar coragem para escolher o próprio caminho.
Não é um romance que procura surpreender pelo choque ou pela inovação, mas antes envolver pela proximidade das personagens e pela mensagem de esperança que transmite. Uma leitura leve e reconfortante, ideal para quem aprecia histórias sobre família, pertença e a possibilidade de começar de novo quando a vida parece já estar definida.

Ishiguro, Kazuo (2017). O Gigante Enterrado. Lisboa: Gradiva.

Tradução: Ana Falcão Bastos
Nº de páginas: 412
Início da leitura: 04/07/2026
Fim da leitura: 10/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Tudo se passa há muitos, muitos anos, num local de fronteiras bem diferentes das actuais e marcado por grandes extensões de solo árido. Nalgumas zonas, os aldeões viviam em abrigos, parte dos quais cavados na encosta dos montes, ligados uns aos outros por passagens subterrâneas. Era num sítio assim que habitava o casal de idosos que tem lugar central nesta história: Axl e Beatrice. Um dia os dois decidiram ter chegado a hora de procurar o filho que há muito não viam e de quem pouco se recordavam. Naquele tempo longínquo esta era uma viagem que, previsivelmente, traria perigos. Mas aquela proporcionou muito mais do que isso. Uma amnésia colectiva parecia ter-se instalado naquela zona, como uma névoa que descera à terra para fazer esquecer em parte o passado, individual e colectivo. Mas a viagem de Axl e Beatrice revela-se um regresso à lembrança. E esta nem sempre deixa um rasto feliz.
Esta é uma história sobre memórias perdidas, amor, vingança e guerra. É ainda uma história que recua ao passado, transportando o leitor para terrenos percorridos por cavaleiros do rei Artur e monges, ogres e dragões. Um dragão em particular - Querig - é o foco das atenções. E, em relação a ele, as missões dividem-se. A diferença entre poupá-lo ou tirar-lhe a vida pouco tem de fantasia. Depois de dez anos sem publicar ficção de fôlego, Ishiguro apresenta-se agora com uma história inesperada que, por certo, fica na memória."

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O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro, é uma obra singular e profundamente reflexiva, que desafia as expectativas de quem procura uma narrativa de fantasia convencional. Não é um livro de leitura imediata ou fácil, sobretudo porque o autor privilegia a introspeção e o diálogo interior das personagens em detrimento de uma ação constante. Ao longo da história, as personagens expõem as suas inquietações, dúvidas e fragilidades, conduzindo o leitor por uma viagem mais emocional e filosófica do que propriamente aventureira.
Ishiguro mistura elementos da fantasia medieval com reflexão sobre a condição humana, criando uma atmosfera simultaneamente misteriosa e melancólica. A narrativa acompanha Axl e Beatrice, um casal de idosos que parte numa viagem por uma Inglaterra antiga, povoada por criaturas fantásticas como ogres e dragões, com o objetivo de reencontrar o filho que não veem há muitos anos. No entanto, à medida que avançam no caminho, torna-se evidente que existem memórias apagadas, segredos por revelar e acontecimentos do passado que ambos parecem não conseguir ou não querer recordar.
A presença de uma misteriosa névoa, que parece afetar a memória dos habitantes daquela terra, funciona como um dos grandes símbolos do romance. O esquecimento torna-se não apenas um elemento da narrativa, mas também uma metáfora poderosa para explorar temas como a culpa, o perdão, o amor e a forma como as pessoas lidam com as dores do passado. Ishiguro questiona até que ponto recordar é sempre uma bênção e se, por vezes, esquecer poderá ser uma forma de proteção.
A relação entre Axl e Beatrice é o centro emocional do livro. Através deles, o autor constrói uma reflexão delicada sobre o envelhecimento, a ligação entre duas pessoas e a importância das memórias partilhadas na construção de uma vida em comum. A viagem que empreendem é, ao mesmo tempo, uma procura exterior e uma descoberta interior, onde cada passo os aproxima de verdades que talvez nem sempre sejam fáceis de enfrentar. A forma como se tratam, "princesa" e "marido" é exemplo disso.
Apesar da riqueza das questões levantadas e da beleza da escrita de Ishiguro, esta é uma leitura que exige alguma paciência. Em determinados momentos, o ritmo torna-se demasiado lento e algumas passagens prolongam-se mais do que o necessário, havendo episódios que poderiam ter sido encurtados sem prejudicar a essência da obra. A forte componente contemplativa poderá afastar leitores que esperem uma narrativa mais dinâmica.
Ainda assim, O Gigante Enterrado é um livro que permanece na memória pela sua originalidade e pela forma subtil como aborda temas universais. Mais do que uma história de fantasia, é uma meditação sobre aquilo que escolhemos recordar, aquilo que preferimos esquecer e sobre as consequências das verdades que decidimos enfrentar. Uma leitura exigente, mas recompensadora, para quem aprecia romances que continuam a provocar reflexão depois da última página.

Castillo, Javier (2024). O Jogo da Alma. Lisboa: Suma das Letras.
Tradução: Lucília Filipe Castillo
N.º de páginas: 408
Início da leitura: 02/07/2026
Fim da leitura: 04/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Nova Iorque, 2011. Uma rapariga de quinze anos é encontrada crucificada numa igreja dos subúrbios da cidade. Miren Triggs, uma repórter de investigação do Manhattan Press, recebe inesperadamente um misterioso envelope. No seu interior, está uma fotografia de outra adolescente amordaçada e amarrada, com uma única legenda: «Gina Pebbles, 2002».

Miren Triggs e Jim Schmoer, o seu antigo professor de Jornalismo, seguem o rasto da rapariga da fotografia enquanto investigam a crucificação em Nova Iorque e, em pouco tempo, veem-se arrastados para as profundezas de uma instituição religiosa com estranhos rituais e para um enigma indecifrável em que terão de responder a três questões: o que aconteceu a Gina? Quem enviou a fotografia? E, o mais importante, estarão os dois casos relacionados? O que ambos não sabem é que, se entrarem neste jogo perigoso e revelarem o segredo obscuro que esconde, tudo irá mudar."

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Nunca tinha lido nenhum livro de Javier Castillo, mas O Jogo da Alma acabou por ser uma agradável descoberta. Desde as primeiras páginas, o autor consegue criar uma atmosfera de inquietação e mistério que me envolveu e me conduziu por uma narrativa marcada pelo suspense, pelas dúvidas e pela vontade constante de descobrir o que se esconde por detrás dos acontecimentos. É um policial que prende a atenção de imediato e que mantém a tensão até ao desfecho, explorando o lado mais sombrio da natureza humana.
Apesar de fazer parte de uma trilogia e de ser o segundo volume, a leitura revelou-se bastante fluida mesmo sem ter lido anteriormente A Menina de Neve. A história apresenta os elementos necessários para que o leitor acompanhe a investigação sem se sentir perdido, embora fique também a curiosidade de conhecer melhor os acontecimentos anteriores e a evolução das personagens.
Nesta obra, acompanhamos Miren Triggs, uma jornalista determinada e marcada por uma forte ligação à investigação criminal, que se vê envolvida num caso perturbador após o desaparecimento e morte de uma jovem. No momento em que se encontra a promover o seu novo livro, A Menina de Neve, Miren recebe uma fotografia misteriosa de uma rapariga desaparecida há vários anos, um acontecimento que abre caminho para uma investigação complexa e angustiante. Pouco depois, surge um crime de contornos chocantes, aparentemente relacionado com esse passado, lançando a jornalista numa procura pela verdade onde nada parece ser simples.
Javier Castillo constrói uma narrativa dinâmica, alternando diferentes momentos e perspetivas, criando uma sucessão de perguntas que alimentam a curiosidade do leitor. A escrita é acessível e cinematográfica, com capítulos curtos que favorecem um ritmo rápido e uma leitura envolvente.
Mais do que uma simples investigação policial, O Jogo da Alma explora temas pesados e desconfortáveis, relacionados com segredos, sofrimento e as marcas que determinados acontecimentos deixam nas pessoas.
Sem revelar mais detalhes para não retirar impacto à leitura, é um livro que recomendo a todos os apreciadores de thrillers e policiais psicológicos. Para quem gosta de histórias carregadas de tensão, com mistérios por desvendar e uma atmosfera sombria, este livro poderá ser uma boa escolha.

Seon-Ran, Cheon (2026). Mil Tons de Azul. Lisboa: Casa das Letras.

Tradução: Dinis Pires
N.º de páginas: 256
Início da leitura: 01/07/2026
Fim da leitura: 02/07/2027

**SINOPSE WOOK**
"Escondido num barracão, no meio de um ferro-velho, Coli espera pacientemente que alguém o encontre. Sentado no topo de uma pilha de lixo, contempla o céu e as suas maravilhosas tonalidades de azul. Coli é um robô especial. Possui uma poderosa capacidade de observação e algo que o distingue de todos os outros humanoides: a capacidade de sentir emoções.

A sua solidão é interrompida pela chegada de uma jovem fascinada por robôs. Juntos, embarcam numa missão improvável: resgatar Today, uma égua de corrida que, esgotada por uma vida de sobrecarga e competição, está destinada ao matadouro. Para a fazer feliz novamente, traçam um plano extraordinário: inscrevê-la numa última corrida e treiná-la para alcançar o tempo mais lento da sua vida.

Mas, no calor da competição, Coli percebe que Today está a correr demasiado depressa, em sofrimento, e prestes a lesionar-se gravemente. Para salvar a sua amada égua, Coli terá de cometer um último e derradeiro ato de coragem.

Uma história luminosa e inesquecível, Mil Tons de Azul é um hino à nossa Terra e à nossa humanidade, dando voz àqueles que são deixados para trás num mundo acelerado e toxicamente competitivo. Transbordando de esperança e fúria, esta obra mostra-nos, com empatia e ternura, como a amizade, a comunidade e o sacrifício nos podem libertar."

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Mil Tons de Azul, da escritora sul-coreana Cheon Seon-Ran, é um romance de ficção científica ao qual não ficamos indiferentes. A autora, que venceu o 4.º Korea Sci-fi Literature Award, um dos prémios mais prestigiados da ficção científica sul-coreana, apresenta-nos uma história que, apesar de falar do futuro, de abordar temas delicados como a substituição do homem pela máquina em grande parte das profissões, o faz com uma humanidade e emoção que nos comovem. Perante a desumanização que vivemos, poderá a máquina ser mais sensível e humana que muitos humanos? Esta obra faz-nos refletir sobre a condição humana, a empatia e a forma como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo que nos rodeia. Cheon Seon-Ran convida o leitor a pensar sobre o valor da empatia numa época em que a eficiência parece sobrepor-se às emoções.
A narrativa apresenta-nos Coli, um robô que acompanha uma égua nas suas corridas no hipódromo e que provoca estranheza aos humanos, quando acaricia a égua, tem pena da exaustão em que esta égua explorada se encontra e gosta de contemplar o céu. E, quando pensa em sacrificar-se pela égua, mostra uma sensibilidade, um cuidado e preocupação com o sofrimento do animal, que muitos humanos não possuem.
Apesar de duro, este romance apresenta temas que nos fazem acreditar que há alguma esperança. A amizade, a solidariedade e a capacidade de encontrar beleza nos pequenos gestos revelam-se forças transformadoras, lembrando-nos que ninguém é completo ou suficiente por si só. É precisamente na imperfeição das personagens e na forma como aprendem a confiar umas nas outras que reside uma das maiores qualidades do romance.
Com uma escrita delicada, sensível e envolvente, Cheon Seon-Ran demonstra que a ficção científica pode ser muito mais do que um exercício de imaginação tecnológica. Recomendo.

Ueda, Kenji (2026). As Cartas da Papelaria de Ginza. Barcarena: Editorial Presença.

Tradução: André Pinto Teixeira
N.º de páginas: 232
Início da leitura: 30/06/2026
Fim da leitura: 01/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Um tributo delicado ao poder das cartas escritas à mão.

Cinco histórias inesquecíveis passadas numa encantadora papelaria em Tóquio.

Escondida numa rua tranquila do bairro de Ginza, existe a antiga e encantadora papelaria Shihodo. Gerida pelo senhor Ken Takarada, entrar nesta loja é encontrar um universo mágico, pensado ao pormenor para todos os amantes da escrita: folhas delicadas como pétalas, canetas que assentam na mão com perfeição e tintas de cores profundas. O verdadeiro mistério desta loja revela-se no andar de cima, onde uma pequena mesa de madeira convida cada visitante a sentar-se e a escrever… Ali, as palavras começam a fluir, trazendo à superfície memórias esquecidas, desejos silenciosos e verdades há muito guardadas. Cinco vidas cruzam-se na Papelaria Shihodo: um jovem à procura do seu caminho, uma mulher presa ao passado, um estudante sob pressão, um homem confrontado com o arrependimento e outro em busca de redenção.

Cinco histórias sobre perda, memória, esperança e a extraordinária capacidade que as palavras têm de nos reconciliar, connosco e com os outros. Uma celebração sensível e luminosa da escrita e dos pequenos gestos que podem transformar uma vida."

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Com uma escrita serena e contemplativa, tão característica da literatura japonesa contemporânea, o autor constrói uma história onde as palavras escritas à mão assumem um valor que ultrapassa a mera comunicação: tornam-se um exercício de reflexão, sinceridade e aproximação ao outro.
A papelaria, mais do que um simples espaço comercial, transforma-se num lugar de encontro e de escuta. O cuidado com que o seu proprietário acompanha quem ali entra revela uma profunda atenção às necessidades humanas, lembrando que, muitas vezes, uma carta bem pensada consegue dizer aquilo que a conversa imediata não alcança. Num tempo dominado pela rapidez das mensagens instantâneas, o romance convida-nos a recuperar o significado do tempo investido nas palavras, da escolha cuidadosa de cada frase e do peso emocional que um texto manuscrito pode transportar.
Para além desta valorização da escrita, o livro aborda discretamente outros temas igualmente relevantes. Entre as várias personagens de que gostei, destaco a Mamã Fumi, cuja visão pragmática da vida transmite uma mensagem que permanece atual: a importância do estudo, da disciplina e do aproveitamento do tempo. O seu conselho às jovens que trabalham consigo, de que, quando chega o momento de aprender, não há espaço para distrações que desviem desse objetivo, surge como um lembrete de que o conhecimento continua a ser um dos caminhos mais sólidos para a autonomia e para a construção de um futuro melhor. Esta ideia é apresentada sem moralismos, integrada de forma natural na narrativa e nas vivências das personagens.
Uma das maiores qualidades do romance reside precisamente nessa capacidade de transmitir valores através de pequenos episódios e diálogos, sem necessidade de recorrer a grandes dramatismos. A narrativa avança ao ritmo das emoções, privilegiando os silêncios, os gestos e as mudanças subtis que vão ocorrendo em cada personagem. É um livro que convida à contemplação e recompensa um leitor disposto a desacelerar.

Verna, Nicoletta (2026). Dias de Vidro. Lisboa: Alma dos Livros. 

Tradução: Filipa Ramalho
N.º de páginas: 384
Início da leitura: 27/06/2026
Fim da leitura: 30/06/2026

**SINOPSE WOOK**
"Num tempo de brutalidade absoluta, uma mulher aprende a resistir sem perder a fé na humanidade.

Itália, 1924. Giacomo Matteotti, principal opositor de Benito Mussolini, é assassinado no dia em que Redenta vem ao mundo. O medo instala-se, o silêncio torna-se regra e a violência passa a ser instrumento de governo. A morte de um, marca o início definitivo da ditadura, o nascimento de outra, inaugura uma vontade obstinada de resistir.

Prometida em criança ao seu melhor amigo, Bruno, que desaparece sem explicação, é mais tarde escolhida para casar com Vetro, um dirigente fascista cujo sadismo parece não ter limites. Ainda assim, algo nela persiste. Uma força silenciosa, quase indestrutível. a vida de Redenta cruza-se com a de Iris, uma mulher rebelde e com desejos de liberdade.

Duas mulheres, duas formas de coragem, dois destinos que se entrelaçam num dos períodos mais austeros da História. Tão sombrio quanto luminoso, Dias de Vidro transforma o tempo do silêncio numa história de resistência íntima, feminina e radicalmente humana. A voz de Redenta permanece, clara, ferida e vibrante, muito depois de fechada a última página."

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Dias de Vidro, de Nicoletta Verna, é um romance de ficção histórica de grande intensidade, inspirado em acontecimentos e figuras reais que marcaram um dos períodos mais sombrios da história de Itália. Sem abdicar da ficção, a autora constrói uma narrativa credível, onde a violência do regime fascista se faz sentir não apenas nos grandes acontecimentos políticos, mas sobretudo nas vidas anónimas de quem tenta sobreviver a um quotidiano dominado pelo medo, pela repressão e pela arbitrariedade.
No centro da história está Redenta, uma protagonista de enorme força interior. É uma mulher de poucas palavras, mas de uma resistência impressionante, cuja coragem se manifesta mais nos gestos silenciosos do que em atos grandiosos. Através do seu percurso, Nicoletta Verna oferece um retrato duro da condição feminina num contexto em que o poder, a violência e o controlo sobre os corpos e as vidas das mulheres eram exercidos com uma crueldade devastadora. As restantes personagens que cruzam o seu caminho acrescentam diferentes perspetivas sobre a liberdade, a dignidade e a capacidade de preservar a humanidade mesmo nas circunstâncias mais adversas.
A autora escreve com uma linguagem simultaneamente elegante e incisiva para transmitir o peso emocional da narrativa. As cenas de maior brutalidade nunca parecem gratuitas; pelo contrário, surgem como um reflexo necessário da realidade histórica que o romance procura retratar. É precisamente esse equilíbrio entre contenção literária e intensidade emocional que torna a leitura tão envolvente.
Mais do que um romance sobre o fascismo, Dias de Vidro é uma reflexão sobre a resistência, a memória e a extraordinária capacidade humana para continuar a encontrar razões para viver quando tudo parece perdido. Sem romantizar o sofrimento, mostra o elevado preço da sobrevivência e a forma como as escolhas individuais são condicionadas por um contexto de violência permanente.
Foi uma leitura que me conquistou por completo. Gostei da escrita segura e envolvente, da construção das personagens e da forma como a narrativa consegue conciliar o rigor histórico com uma forte dimensão humana. É um romance exigente, por vezes duro, mas também profundamente marcante, daqueles que permanecem connosco muito depois de fecharmos a última página.

Agus, Milena (2026). Um Instante de Amor. Barcarena: Editorial Presença.

Tradução: Maria Jorge Vilar de Figueiredo
N.º de páginas: 96
Início da leitura: 25/06/2026
Fim da leitura: 26/06/2026

**SINOPSE**
"Ela é movida por um único desejo: encontrar o grande amor.

Um Instante de Amor conta-nos a história de uma mulher extraordinária que viveu em Cagliari, na Sardenha, durante a Segunda Guerra Mundial. A rigidez e os preconceitos do meio onde nasceu não se compadecem com a sua natureza sonhadora e romântica. Embora seja uma mulher linda, os homens estranham-na, e o amor teima em fazer-se esperar.

Atormentada pelo desejo que um casamento de conveniência não aplacou, reinventa a sua própria vida, num rasgo de erotismo e poesia, belo e assombroso como o próprio romance que deslumbrou a Itália e a França e veio confirmar Milena Agus como uma voz única, deliciosamente irreverente, da narrativa italiana."

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Ambientado em Cagliari, durante os anos conturbados da Segunda Guerra Mundial, Um Instante de Amor, de Milena Agus apresenta-nos uma protagonista singular, cuja forma de estar no mundo desafia as convenções sociais e familiares. Incompreendida pelos que a rodeiam, é facilmente catalogada como louca, quando talvez o seu maior desvio resida apenas na incapacidade de aceitar uma vida desprovida de afeto, de liberdade e de beleza.
A escrita de Milena Agus distingue-se pela delicadeza e por um lirismo discreto que atravessa toda a narrativa. É um texto que pede disponibilidade ao leitor, não tanto pela complexidade da ação, mas pela forma como privilegia o não dito, os silêncios e as ambiguidades. Muitas das emoções e motivações das personagens encontram-se nas entrelinhas, exigindo uma leitura atenta e uma certa predisposição para acolher a subtileza em detrimento da explicação.
Embora breve, o romance aborda temas universais como a solidão, o peso das convenções sociais, o desejo de pertença e a procura incessante de um amor que transcenda a banalidade do quotidiano. 
Reconheço plenamente o mérito literário da obra, tanto pela qualidade da escrita como pela construção de uma protagonista memorável, simultaneamente frágil e resistente. Ainda assim, a leitura deixou-me com a sensação de que poderia ter ido mais longe. Talvez por criar uma atmosfera tão envolvente e personagens tão interessantes, esperava uma maior profundidade no desenvolvimento de alguns aspetos da narrativa e um impacto emocional mais duradouro.
Apesar dessa reserva, Um Instante de Amor permanece um livro elegante, sensível e profundamente humano, daqueles que convidam mais à contemplação do que à ação e que encontram a sua força precisamente naquilo que escolhem não explicar por completo. É uma leitura que certamente agradará aos leitores que apreciam romances intimistas, escritos com contenção, delicadeza e uma forte carga poética.

 Natsuki, Shizuko (2026). Crime no Monte Fuji. Lisboa: Editorial Presença.


Tradução: Ana David
N.º de páginas: 248
Início da leitura: 22/06/2026
Fim da leitura: 24/06/2026

**SINOPSE**
"A estudante americana Jane Prescott não hesita em aceitar o convite da colega Chiyo para passar as férias de Ano Novo numa luxuosa mansão perto do Monte Fuji. Era a oportunidade perfeita para celebrar a chegada do novo ano num cenário idílico. Chiyo pertence a uma das famílias mais ricas do Japão e é herdeira de um império farmacêutico liderado pelo seu avô Wada.

Com toda a família reunida e a neve a cair lá fora, a festa decorre entre risos e tradição até que Chiyo irrompe pela sala, coberta de sangue, empunhando uma faca e gritando que matou o avô. Atónita, a família fecha-se em torno da jovem para a proteger. Mas Jane tem mais perguntas do que respostas. Poderá a sua amiga doce e reservada ser capaz de tal violência? Ou haverá outro membro do clã Wada com muito a ganhar com a morte do patriarca? E, se assim for, poderá o verdadeiro assassino ainda estar entre eles?

Um mistério sombrio e inquietante. Um clássico redescoberto do policial japonês."

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Crime no Monte Fuji, de Shizuko Natsuki, é um daqueles policiais que conquista o leitor desde as primeiras páginas, não apenas pelo mistério que apresenta, mas sobretudo pela forma como explora as tensões humanas que emergem quando a verdade se torna um fardo difícil de suportar.
A narrativa acompanha Jane, que viaja até à região do Monte Fuji para passar a passagem de ano com a amiga Chiyo e ajudá-la na preparação da sua tese. O cenário, marcado pelo rigor do inverno japonês e pela imponência silenciosa da montanha, cria desde logo uma atmosfera de aparente serenidade. Contudo, essa tranquilidade é rapidamente quebrada por um acontecimento trágico que altera o rumo das férias e arrasta as personagens para uma situação cada vez mais complexa.
A partir desse momento, o romance desenvolve-se em torno de uma sucessão de decisões tomadas sob pressão, revelando como o medo, a lealdade familiar e o instinto de proteção podem levar pessoas comuns a ultrapassar limites que jamais imaginariam cruzar. Mais do que um simples enigma policial, a obra transforma-se numa reflexão sobre a responsabilidade moral e sobre as consequências das escolhas feitas em circunstâncias extremas.
Shizuko Natsuki constrói a intriga com grande segurança, doseando a informação de forma eficaz e mantendo o suspense constante. O leitor é levado a questionar continuamente as motivações das personagens e a ponderar até onde estaria disposto a ir para proteger alguém de quem gosta. A tensão cresce de forma gradual, sustentada por um enredo sólido e por uma teia de relações familiares cuidadosamente delineada.
Outro dos pontos fortes do romance reside precisamente na caracterização das personagens. Nenhuma delas é apresentada de forma totalmente linear, o que contribui para uma leitura mais envolvente e credível. As dinâmicas familiares, os segredos acumulados ao longo dos anos e os conflitos de consciência conferem profundidade a uma história que vai muito além da investigação criminal.
Com um ritmo fluido, uma atmosfera envolvente e uma construção narrativa eficaz, Crime no Monte Fuji afirma-se como uma leitura recomendável para os apreciadores do género policial clássico, mas também para quem procura histórias centradas nos dilemas humanos. Um romance inteligente e bem estruturado, capaz de prender a atenção até às páginas finais sem depender de revelações gratuitas ou de reviravoltas artificiais. Aconselho muito!

 Pires, Maria José (2026). A Ilusão do Movimento do Sol. Lisboa: Edições Flamingo.

Ilustrador: José Luís Oliveira
N.º de páginas: 52
Início e fim da leitura: 18 de junho de 2026

**SINOPSE WOOK**
"Afonso é um menino curioso, observador e apaixonado pelo mundo que o rodeia. Sonha ser cientista e não perde uma oportunidade para questionar, explicar e partilhar aquilo que aprende, muitas vezes com uma clareza surpreendente para a sua idade.

A sua irmã, Matilde, admira-lhe essa sede de conhecimento, sobretudo quando ciência, crença e misticismo se cruzam em conversas ternurentas entre avós e netos, num lugar muito especial: a aldeia onde o tempo parece correr de outra forma. É numa visita à quinta do avô que uma simples observação sobre o Sol dá origem a um diálogo inesperado, capaz de pôr em causa aquilo que todos tomamos como certo.

Entre exemplos do quotidiano, encontros improváveis e um céu estrelado de cortar a respiração, Afonso conduz-nos numa viagem encantadora, onde a curiosidade é o motor principal e o Universo se revela tão fascinante quanto cheio de ilusões.

Um livro que convida pequenos e graúdos a olhar o mundo — e o céu — com outros olhos."

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Neste livro, voltamos a encontrar as personagens do primeiro livro da Maria José Pires. Desta vez, o Afonso e a Matilde vão passar uns dias de verão com os avós, que moram numa pequena aldeia do interior. Numa das idas à quinta, com o avô, o Afonso apercebe-se que o avô não sabe que o sol não gira em torno da terra, mas sim o contrário. Conseguirá o avô entender a sua explicação? Uma história que diverte, refresca, ensina e mostra valores que deviam ser preservados. E as ilustrações, são lindas lindas!


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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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  • S. João do Porto (quadras de amor ao gosto popular)
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  • Dias de Vidro, Nicoletta Verna
  • Gente Feita de Terra, Carla M. Soares
  • Crime no Monte Fuji, Shizuko Natsuki

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