Tabucchi, Antonio. Cartas ao Capitão Nemo. Alfragide:Publicações Dom Quixote, 2026.
Tradução: Ana Cláudia Santos
N.º de páginas: 144
Início da leitura: 18/10/2026
Fim da leitura: 19/10/2026
**SINOPSE WOOK**
"Uma mãe melancólica e distante, que ouve no gramofone a canção Amado mio; um pai fotografado com o braço eternamente estendido; um tio que colecciona bonecas; uma cave onde algo terrível aconteceu. E também uma Aprilia vermelha, um piano, um rato morto. E, por fim, Duccio, a quem chamam Cino, um rapazinho que descobre o lado mais abjecto da vida e tenta esconjurá-lo com os meios que tem. Por exemplo, escrevendo ao Capitão Nemo...
Eis os protagonistas deste romance breve e enigmático, ambientado numa villa na costa toscana, na véspera de um Ano Novo da década de 1950. Uma obra a que Tabucchi se dedicou por muitos anos, sem nunca a publicar, e que declarou até ter destruído.
Recuperado por entre os papéis guardados numa gaveta na casa do escritor, e pacientemente reconstruído por Thea Rimini, Cartas ao Capitão Nemo é, nas palavras do autor, «crónica de uma dissociação psíquica, metáfora da solidão ou radiografia de um futuro vingador». Um livro onírico e pleno de sugestões, além de um retrato muito eficaz da Itália do pós-guerra."
Cartas ao Capitão Nemo, de Antonio Tabucchi (1943-2012) é um texto inédito, publicado apenas em setembro, muitos anos depois de ter sido dado como destruído pelo próprio autor. Recuperado entre os seus papéis e reconstruído por Thea Rimini, o manuscrito chega-nos, por isso, envolto numa espécie de aura póstuma que não é apenas editorial: faz parte da própria experiência de leitura.
A história acompanha Duccio, um rapaz que cresce, na década de 1950, no ambiente simultaneamente solar e inquietante de uma villa na costa toscana. À sua volta, a família, as relações entre os adultos e os silêncios que atravessam a casa compõem um universo onde nada parece inteiramente explicável. A infância de Duccio é, assim, menos um lugar de inocência do que um território de descoberta, em que a percepção gradual da crueldade e das ambiguidades do mundo obriga o protagonista a procurar uma forma de compreender aquilo que os adultos não dizem.
É nesse momento que surge o Capitão Nemo. Mais do que uma personagem no sentido convencional, Nemo funciona como interlocutor imaginário, destinatário de cartas que permitem a Duccio deslocar para outro plano aquilo que não consegue enfrentar diretamente. O recurso tem uma dimensão claramente literária: Tabucchi estabelece uma ponte entre a realidade e o sonho, entre a experiência concreta de uma criança e o universo da imaginação, recuperando uma figura que pertence ao imaginário de tantas gerações de leitores. Mas, nas mãos do autor, essa referência não se reduz a uma homenagem ou a um jogo intertextual. Nemo torna-se uma espécie de confidente distante, alguém a quem se pode escrever quando o mundo real deixa de oferecer respostas.
O que torna o livro particularmente interessante é precisamente a forma como essa fronteira entre realidade, memória, sonho e imaginação se vai tornando instável. Tabucchi não conduz o leitor por um caminho linear nem procura esclarecer tudo o que apresenta. Há episódios que parecem pertencer à lógica da recordação, outros que se aproximam do pesadelo ou da fábula, e outros ainda que permanecem deliberadamente suspensos entre esses territórios. O leitor é chamado a aceitar essa ambiguidade, mais do que a resolvê-la.
Também por isso, Cartas ao Capitão Nemo não é um livro de leitura imediata. Exige atenção, disponibilidade e alguma paciência perante uma narrativa que não entrega facilmente todas as suas chaves. Há momentos em que o ritmo abranda e a atmosfera se sobrepõe à ação. A escrita pede que se leia não apenas o que acontece, mas também aquilo que fica por dizer, os silêncios, as imagens recorrentes e a estranheza que se instala pouco a pouco.
Apesar de partir do olhar de uma criança, este não é propriamente um livro sobre a infância. É antes um livro sobre o momento em que a infância começa a perder a sua proteção e o mundo adulto revela a sua dimensão mais obscura. Duccio descobre que as pessoas podem ser contraditórias, que os afetos podem esconder outras coisas e que a realidade nem sempre coincide com aquilo que parece ser. A imaginação surge então não como fuga, mas como uma forma de resistência e de conhecimento.
A história acompanha Duccio, um rapaz que cresce, na década de 1950, no ambiente simultaneamente solar e inquietante de uma villa na costa toscana. À sua volta, a família, as relações entre os adultos e os silêncios que atravessam a casa compõem um universo onde nada parece inteiramente explicável. A infância de Duccio é, assim, menos um lugar de inocência do que um território de descoberta, em que a percepção gradual da crueldade e das ambiguidades do mundo obriga o protagonista a procurar uma forma de compreender aquilo que os adultos não dizem.
É nesse momento que surge o Capitão Nemo. Mais do que uma personagem no sentido convencional, Nemo funciona como interlocutor imaginário, destinatário de cartas que permitem a Duccio deslocar para outro plano aquilo que não consegue enfrentar diretamente. O recurso tem uma dimensão claramente literária: Tabucchi estabelece uma ponte entre a realidade e o sonho, entre a experiência concreta de uma criança e o universo da imaginação, recuperando uma figura que pertence ao imaginário de tantas gerações de leitores. Mas, nas mãos do autor, essa referência não se reduz a uma homenagem ou a um jogo intertextual. Nemo torna-se uma espécie de confidente distante, alguém a quem se pode escrever quando o mundo real deixa de oferecer respostas.
O que torna o livro particularmente interessante é precisamente a forma como essa fronteira entre realidade, memória, sonho e imaginação se vai tornando instável. Tabucchi não conduz o leitor por um caminho linear nem procura esclarecer tudo o que apresenta. Há episódios que parecem pertencer à lógica da recordação, outros que se aproximam do pesadelo ou da fábula, e outros ainda que permanecem deliberadamente suspensos entre esses territórios. O leitor é chamado a aceitar essa ambiguidade, mais do que a resolvê-la.
Também por isso, Cartas ao Capitão Nemo não é um livro de leitura imediata. Exige atenção, disponibilidade e alguma paciência perante uma narrativa que não entrega facilmente todas as suas chaves. Há momentos em que o ritmo abranda e a atmosfera se sobrepõe à ação. A escrita pede que se leia não apenas o que acontece, mas também aquilo que fica por dizer, os silêncios, as imagens recorrentes e a estranheza que se instala pouco a pouco.
Apesar de partir do olhar de uma criança, este não é propriamente um livro sobre a infância. É antes um livro sobre o momento em que a infância começa a perder a sua proteção e o mundo adulto revela a sua dimensão mais obscura. Duccio descobre que as pessoas podem ser contraditórias, que os afetos podem esconder outras coisas e que a realidade nem sempre coincide com aquilo que parece ser. A imaginação surge então não como fuga, mas como uma forma de resistência e de conhecimento.










