Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

O'Farrell, Maggie (2021). Hamnet. Lisboa: Relógio 'Água.
Tradução: Margarida Periquito
N.º de páginas: 320
Início e fim da leitura: 15/02/2026

**SINOPSE**
"Hamnet é um romance sobre o filho de Shakespeare. Mas esse é apenas o ponto de partida para Maggie O’Farrell construir uma obra actual, que interroga a origem da dor e envereda por caminhos menos conhecidos do amor e da maternidade.
Numa narrativa que mistura realidade e ficção, a autora irlandesa cria uma das mais importantes obras literárias deste início do século XXI.
«Um romance histórico excepcional.» [The New Yorker]
«A história de Hamnet aguardou mais de quatrocentos anos nas sombras. O’Farrell trá-la finalmente à luz, de forma deslumbrante e devastadora.» [Kamila Shamsie]
«Um livro maravilhoso.» [David Mitchell]
«O que poderia ser mais comum, através dos séculos e continentes, do que a morte de um rapaz? Ainda assim, O’Farrell, com frases perfeitas e coração irrequieto, torna-a num acontecimento.» [Emma Donoghue]
«Esplêndido. A escrita é requintada, imersiva e convincente.» [Marian Keyes]"
Que obra fenomenal. Entre a realidade histórica e a liberdade da ficção, Hamnet, de Maggie O'Farrell, reúne todos os ingredientes para se afirmar como um romance verdadeiramente inesquecível. Trata-se de uma narrativa intensa e profundamente humana, que revisita um episódio marginal da história literária, a morte precoce do filho de Shakespeare, para construir algo muito maior: uma reflexão poderosa sobre o luto, o amor e a fragilidade da vida.
O’Farrell escreve com uma precisão quase física. A linguagem é sensorial, atenta aos ritmos da natureza, aos silêncios das relações e às fissuras invisíveis que atravessam uma família. A escolha de recentrar a narrativa em Agnes, figura inspirada em Anne Hathaway, revela-se particularmente feliz. É através dela que o romance ganha espessura emocional: uma mulher intuitiva, ligada à terra e ao invisível, cujo amor maternal se apresenta como força motriz da história. Não um amor idealizado, mas um amor feroz, atento, por vezes impotente.
É aqui que o romance se torna verdadeiramente perturbador. Em Hamnet, o amor de mãe é absoluto, mas não é omnipotente. O’Farrell recusa a ilusão reconfortante de que o cuidado e a vigilância bastam para proteger os filhos do mundo. A doença, o acaso e a morte impõem-se como realidades incontornáveis, expondo os limites do amor humano perante forças maiores. A pergunta que atravessa o livro, chegará o amor de mãe para manter sempre a salvo os seus filhos?, permanece deliberadamente sem resposta, ecoando muito para além da última página.
No final, Hamnet não é apenas um romance histórico nem uma obra sobre Shakespeare. É uma meditação comovente sobre a perda e sobre aquilo que sobrevive a ela: a memória, a arte, e a tentativa de transformar a dor em significado. Forte, belíssimo e profundamente honesto, este é um livro que não se esquece, precisamente porque não oferece consolo fácil. Recomendo vivamente.

 Vareille, Marie (2026). A Frágil Luz do Mundo. Lisboa: Marcador.

Tradução: Helder Guégués
N.º de páginas: 272
Início da leitura: 13/02/2026
Fim da leitura: 14/02/2026

**SINOPSE WOOK**
"Há mais de vinte anos, Abigaëlle retirou-se para um convento na Borgonha, onde os seus dias decorrem em solidão. Do passado, guarda apenas memórias turvas, sem conseguir sequer recordar o acontecimento que mudou o seu destino e a obrigou a afastar-se do mundo, deixando para trás a casa onde vivia com a família.

O irmão de Abigaëlle, Gabriel, visita-a quinzenalmente e, à distância, ela acompanha a vida dele, que, já adulto, se tornou um escritor de sucesso. Entretanto, chega o dia em que um acaso junta Gabriel à deslumbrante Zoé.

Embora a história comece de forma luminosa, Abigaëlle não consegue deixar de ter medo, porque só ela sabe contra que demónios o irmão luta, o inferno que foi a sua infância ao lado de um pai imprevisível e perigoso, que maltratava a mãe, incapaz de fugir, e que mantinha a família num clima de terror."

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A Frágil Luz do Mundo, da autora francesa Marie Vareille, é um romance que se afirma, antes de mais, pela solidez da sua escrita e pela capacidade de manter o interesse do leitor do início ao fim. A autora constrói uma narrativa emocionalmente densa sem recorrer a excessos, optando antes por uma abordagem contida, mas eficaz.
O livro centra-se na vivência de duas crianças que crescem num ambiente marcado pela violência doméstica exercida pelo pai sobre a mãe. Esta escolha de perspetiva revela-se particularmente feliz: ao acompanhar os acontecimentos através do olhar dos irmãos, o leitor é confrontado com uma violência que raramente se mostra de forma explícita, mas que se infiltra nos silêncios, nos gestos interrompidos e nas rotinas deformadas pelo medo. É precisamente nesta subtileza que reside grande parte da força do romance.
Marie Vareille explora com sensibilidade as dúvidas e contradições próprias da infância em contextos de abuso: a dificuldade em nomear o que se passa, o amor ambíguo por quem fere, a culpa silenciosa e a tentativa de normalizar o inaceitável. As marcas deixadas por esta experiência não são apresentadas como feridas que o tempo apaga, mas como cicatrizes profundas que moldam identidades e relações futuras.
Ao longo da narrativa, a autora evita julgamentos simplistas e não procura soluções fáceis. A violência é retratada como um fenómeno complexo, cujas consequências se prolongam muito para além do espaço doméstico e do tempo da infância. Ainda assim, A Frágil Luz do Mundo não é um livro desesperado: existe nele uma luz ténue, frágil, mas persistente, que se manifesta na resistência silenciosa, nos laços entre irmãos e na possibilidade, ainda que imperfeita, de reconstrução.

Montes, Raphael (2019). Uma Mulher no Escuro. São Paulo: Companhia das Letras.

N.º de páginas: 256
Início da leitura: 11/02/2026
Fim da leitura: 12/02/2026

**SINOPSE**

"Um crime brutal cometido há vinte anos, uma única sobrevivente, o retorno calculado do assassino. Em quem Victoria deve confiar? Neste thriller psicológico, Raphael Montes une romance e suspense em uma narrativa intrincada e sedutora. Compre na pré-venda e ganhe card com autógrafo autêntico do autor.Victoria Bravo tinha quatro anos quando um homem invadiu sua casa e matou sua família a facadas, pichando seus rostos com tinta preta. Única sobrevivente, ela agora é uma jovem solitária e tímida, com pesadelos frequentes e sérias dificuldades para se relacionar. Seu refúgio é ficar em casa e observar a vida alheia pelas janelas do apartamento onde mora, na Lapa, Rio de Janeiro. Mas o passado bate à sua porta, e ela não sabe mais em quem pode confiar. Obrigada a enfrentar sua própria tragédia, Victoria embarca em uma jornada de amadurecimento e descoberta que a levará a zonas obscuras, mas também revelará as possibilidades do amor. Um psiquiatra, um amigo feito pela internet e um possível namorado ? qual dos três homens está usando tudo o que sabe para aterrorizar a vida de Vic? E o que afinal ele quer com ela? Na literatura nacional, Raphael Montes é unanimidade quando se trata de livros de suspense. Uma mulher no escuro traz sua primeira protagonista feminina e confirma o autor como um dos mais originais da atualidade ? além de deixar o leitor intrigado do começo ao fim."
Raphael Montes reafirma, em Uma Mulher no Escuro, o domínio que já se lhe reconhecia na arte do thriller psicológico. A narrativa, construída com precisão cirúrgica, mantém o leitor em permanente tensão, confirmando o estatuto de “page turner” que caracteriza a obra do autor.
O romance explora a complexidade da mente humana através de personagens densas e moralmente ambíguas. Montes não se limita a contar uma história de suspense; ele mergulha nas sombras psicológicas dos protagonistas, criando um ambiente claustrofóbico e imprevisível, onde cada viragem de página traz uma nova revelação ou ameaça.
O ritmo é meticulosamente calculado. Capítulos curtos e uma narrativa fluida contribuem para uma leitura ágil, tornando quase impossível interromper a imersão. A tensão é alimentada não apenas pelos eventos externos, mas também pelo jogo psicológico entre os personagens, o que confere à obra uma profundidade rara no género.
Se há um ponto em que Uma Mulher no Escuro se distingue é na capacidade de surpreender sem recorrer a soluções forçadas ou clichés. Montes equilibra suspense e realismo, criando uma história crível, mas suficientemente perturbadora para manter o leitor em alerta até à última página.

Arouca, Manuel (2002). Filhos da Costa do Sol. Alfragide: Oficina do Livro.

N.º de páginas: 368 páginas
Início da leitura: 08/02/2026
Fim da leitura: 10/02/2026

**SINOPSE WOOK**
"Filhos da Costa do Sol é uma história de amor e morte, passada nos dias agitados da revolução de Abril.
Fala-nos da vida despreocupada e doce da Costa do Estoril, mas também da recusa de uma sociedade fechada e dos seus preconceitos. Filhos da Costa do Sol é o retrato impiedoso de uma geração inquieta mas cheia de romantismo e ideais. Será que tudo se perdeu?"

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Filhos do Sol, de Manuel Arouca, dá-nos a conhecer um conjunto de temas marcantes do período pós-25 de Abril, nomeadamente a dissolução das estruturas familiares tradicionais, a vivência da sexualidade, o consumo de drogas, a emancipação da mulher e a afirmação de novos valores políticos. Trata-se de uma história onde o amor e a morte se cruzam, situada numa época difícil, protagonizada por jovens confrontados com inquietações que continuam, em muitos aspetos, a ser atuais. O romance traça, simultaneamente, um retrato da vida aparentemente despreocupada e luminosa da Costa do Estoril e uma crítica clara a uma sociedade fechada, conservadora e marcada por preconceitos.
Apreciei particularmente a forma como a narrativa é conduzida. Na minha opinião, o autor consegue transmitir com eficácia o modo de vida de alguns jovens durante o período revolucionário, recorrendo a descrições que permitem ao leitor visualizar os espaços e ambientes, mesmo sem os conhecer diretamente. Contudo, nem tudo me agradou na obra. Considero que, em certos momentos, a linguagem utilizada não é a mais adequada ao tom da história. Um exemplo disso é o uso da palavra “beiços” para descrever um beijo romântico, opção que me pareceu pouco cuidada e dissonante, quando “lábios” teria conferido maior delicadeza e coerência ao momento.
Filhos do Sol é, assim, o retrato de uma geração inquieta, mas simultaneamente marcada pelo romantismo e por ideais fortes. Xico, o protagonista, começa por fazer, no início da sua relação com Marta, uma promessa que acaba por não cumprir, tornando-se, ao longo da narrativa, um verdadeiro “vencido da vida”: mimado, incapaz de manter um emprego e de assumir responsabilidades. Quanto ao desfecho… esse fica reservado ao leitor.



Amaral, Ana Luísa (2013). Ara. Porto: Sextante Editora.

N.º de páginas: 88
Início e fim da leitura: 07/02/2026

**SINOPSE WOOK**
"Primeiro: a prosternação diante do altar. A hesitação diante da proliferação dos ritos: sacrifício, louvor, cântico, narrativa. Figuras e vozes, acólitos. Insurgências. Japoneiras e túneis do sentido. Discrepância a todas as vozes acumulando num sentido. Não único, mas unívoco. Desde a infância.

Segundo (como se diz de um andamento ou de um painel): o tríptico dentro do tríptico das DUAS IRMÃS: a narrativa oblatória e clara da paixão sáfica. Ardente e casta. Sem falso pudor. Vergonha é não te amar. A oferenda lírica.

Terceiro: não é coisa de rasgar como romance este romance. Assente na pedra do lar um prisma multifacetado e translúcido: o amor único, a palavra. A brisa do arado sobre a ara.

Maria Velho da Costa"

À venda na Wook: https://www.wook.pt?a_aid=698b2dc997d71
Ara, de Ana Luísa Amaral, não é um romance consensual nem procura sê-lo. A sua receção dependerá, em grande medida, da disponibilidade do leitor para aceitar uma escrita profundamente poética, que se afasta das convenções narrativas mais habituais. Quem conhece a obra da autora reconhecerá desde logo a poetisa: a linguagem é densa, reflexiva, por vezes fragmentária, mais próxima do poema em prosa do que do romance tradicional. Nesse sentido, Ara pode afastar leitores que procuram uma narrativa linear ou uma intriga bem definida, mas oferece uma experiência literária singular a quem se dispõe a entrar nesse jogo.
Um dos aspetos mais interessantes do livro reside na forma como se inicia, com duas vozes que dialogam entre si sobre o próprio romance e sobre a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade, de o escrever. Há uma consciência metanarrativa constante: a narradora (ou narradoras) questiona-se sobre o que deve ou não fazer parte do texto, sobre a necessidade de construir personagens com corpo, forma e presença, e sobre a sensação persistente de nunca ter escrito verdadeiramente um romance. O texto constrói-se, assim, a partir dessa hesitação, desse pensamento em movimento, dando ao leitor acesso ao processo criativo em si.
Durante grande parte da obra, a ausência de personagens é sentida como um vazio deliberado, quase um espaço em suspenso. No entanto, esse vazio vai sendo progressivamente preenchido e, no último capítulo, surgem finalmente “os outros”: aqueles que vivem o Natal e a passagem de Ano, em contraste com os que passam fome, mesmo em épocas tradicionalmente associadas à abundância e à celebração. Este contraste introduz uma dimensão ética e social que reforça o alcance do livro, ligando a reflexão íntima à realidade coletiva.
Ao longo de Ara, destaca-se ainda a importância da ideia de amor, entendida de forma ampla e plural, seja ele humano, solidário, íntimo ou abstrato. É esse fio que, de algum modo, atravessa a obra e lhe confere unidade, apesar da sua estrutura pouco convencional. Ara não é um romance fácil, nem pretende agradar a todos, mas é um livro que desafia, interroga e permanece. Para quem aceita esse desafio, a leitura revela-se profundamente estimulante. Eu gostei, se bem que gostasse de ter visto alguns acontecimentos e ideias mais desenvolvidos.

Giogio, Cínzia (2022). As Cinco Irmãs. Lisboa: Editorial Presença.


Tradução: Filipe Guerra
N.º de páginas da obra: 
Início da leitura: 04/02/2026
Fim da leitura: 06/02/2026

**SINOPSE WOOK**
«A história de uma das famílias mais influentes da alta-costura e de uma marca que simboliza, até hoje, a elegância italiana no mundo.
Um romance sobre família, feminilidade e amizade que revive o extraordinário legado de uma poderosa dinastia feminina.

Imaginemos uma pequena o­ficina de couros e peles na Roma de 1918, gerida por uma mulher. Adele Casagrande é determinada, visionária, destemida. a força e a paixão desta mulher vão aliar-se, em 1925, à inspiração e à vontade de Edoardo: juntos, abrem uma pequena boutique, ao lado da o­ficina de Adele. Rapidamente, o atelier torna-se um sucesso dentro e fora de Itália e é inundado por mais e mais mulheres da alta sociedade. Maddalena Splendori é uma delas.

De raízes humildes, Maddalena começou por ser modelo do pintor inglês John William Godward. Com ele, viveu uma turbulenta história de amor, antes de se casar com aquele que, em breve, será ministro. Assim que se veem pela primeira vez, Adele e Maddalena reconhecem uma na outra o espelho de si próprias: ambas são inconformistas, boémias, apaixonadas. Entre elas, nasce uma amizade tão profunda, que vai passar para as mulheres das gerações futuras.

Ao longo das décadas que se seguem, as descendentes de Maddalena trabalham como modelos para a maison, enquanto a visão de Adele passa para as suas cinco filhas: Paola, Anna, Carla, Franca e Alda. São estas mulheres, depois de braço dado com Karl Lagerfeld, que farão da marca um ícone do luxo internacional.

Abrangendo noventa anos agitados na vida desta família, Cinco Irmãs faz-nos entrar nas salas e nos ateliers da maison, enquanto vemos des­filar o século XX e acompanhamos uma inigualável saga familiar.»

À venda na Wook: https://www.wook.pt?a_aid=698b2dc997d71

Cinco Irmãs, de Cínzia Georgio, propõe-se como um romance de forte pendor intimista, centrado nas dinâmicas familiares e na forma como a memória, o silêncio e a herança emocional moldam identidades. A narrativa constrói-se a partir do vínculo entre cinco irmãs, explorando as tensões que nascem tanto da proximidade afectiva como das diferenças de carácter, de escolhas de vida e de expectativas não cumpridas. O livro destaca-se pela atenção ao detalhe psicológico e pela recusa de soluções fáceis, optando antes por um retrato gradual e, por vezes, desconfortável das relações humanas.
Um dos méritos centrais da obra reside na forma como a autora trabalha a multiplicidade de vozes e perspectivas. Cada irmã surge como um universo próprio, com fragilidades e contradições bem delineadas, evitando estereótipos ou hierarquias morais evidentes. Esta opção narrativa contribui para uma leitura equilibrada, em que o leitor é convidado a compreender, mais do que a julgar, os comportamentos das personagens. A escrita é contida e sensível, privilegiando a sugestão em detrimento do dramatismo excessivo, o que reforça a densidade emocional do texto.
Ao mesmo tempo, o romance pode revelar-se exigente para quem procure uma intriga acelerada ou acontecimentos marcadamente espectaculares. O ritmo é deliberadamente pausado, acompanhando o movimento interior das personagens e dando espaço à reflexão sobre temas como a lealdade familiar, o peso do passado e a dificuldade de comunicação. Esta escolha estilística, embora coerente com o projecto literário da obra, pressupõe um leitor disponível para uma leitura atenta e contemplativa.

Sparks, Nicholas e Shyamalan, M. Night (2025). Além do Amor. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Ana Saldanha
N.º de páginas: 352
Início da leitura: 01/02/2026
Fim da leitura: 03/02/2026

**SINOPSE**
"O arquiteto nova-iorquino Tate Donovan é chamado a ajudar o melhor amigo na construção da sua casa de verão. Em Cape Cod, rodeado por praias a perder de vista, dunas dramáticas e densas florestas de pinheiros, Tate sente-se capaz de começar de novo após a depressão provocada pela morte da irmã.

O que não esperava era sentir uma ligação profunda com uma desconhecida - que é exatamente o que acontece com uma jovem chamada Wren. A intensidade dos sentimentos entre ambos é inédita. Mas aos poucos, Tate descobre que, sob a superfície da idílica cidade pequena, o ódio, o ciúme e a cobiça espalham as suas sementes, ameaçando a frágil relação.

O destino de Wren afigura-se inquietante. Para a ajudar, ele terá de descobrir a verdade sobre o seu passado... uma busca que o fará pôr em causa as suas convicções mais profundas.

Uma história sobre a transcendência da experiência humana, Além do Amor levanta a eterna questão: poderá o amor transpor a fronteira entre a vida e a morte."
Além do Amor, assinado por Nicholas Sparks em colaboração com M. Night Shyamalan, revela-se uma obra singular dentro do percurso literário do primeiro, sobretudo para leitores pouco dados a romances excessivamente sentimentais ou a incursões pelo fantástico. Partindo de uma premissa aparentemente simples, o romance constrói uma narrativa que surpreende pela forma como se afasta do registo mais previsível a que Sparks habituou o seu público.
A história centra-se em Tate, um arquiteto fragilizado por um recente internamento em psiquiatria, que aceita ajudar um amigo e a sua esposa na reconstrução de uma casa de férias. Este ponto de partida realista e intimista serve de base a uma progressiva alteração de tom, quando a antiga proprietária da casa, morta em circunstâncias prematuras, começa a visitar Tate. A partir daqui, o romance entra num território mais ambíguo, onde o sobrenatural não é um mero artifício romântico, mas antes um elemento catalisador de tensão psicológica e narrativa.
O grande mérito do livro reside precisamente nessa recusa em se limitar a uma história de amor convencional. Embora a dimensão emocional esteja presente, ela é constantemente atravessada por momentos de suspense, inquietação e até terror, incluindo homicídios e tentativas de homicídio que adensam a atmosfera e mantêm o leitor em permanente expetativa. A influência de Shyamalan faz-se sentir na construção do mistério e na gestão do não-dito, conferindo à obra um ritmo mais contido e uma ambiência sombria que contrasta eficazmente com o lirismo associado a Sparks.
Sem revelar demasiado, importa sublinhar que Além do Amor funciona melhor quando lido como um romance híbrido, onde o amor é apenas uma das camadas de uma narrativa mais complexa, marcada pela fragilidade da mente humana, pela culpa e pela necessidade de redenção. É precisamente essa combinação improvável de géneros que torna o livro interessante, para leitores cépticos em relação ao romance tradicional. Uma leitura que vale a pena não perder.

Pinel, Victor L. (2025). Peças. Benavente: Ala dos Livros.

Tradução:Helena Romão
N.º de páginas: 176
Início da leitura: 28/01/2026
Fim da leitura: 30/01/2026

**SINOPSE**
"«A vida é como um jogo de xadrez. Fácil de aprender, divertido de jogar, difícil de ganhar… impossível de controlar!»

As portas de um eléctrico abrem-se e um jovem vislumbra uma mulher que nunca mais voltará a ver, mas pela qual se apaixona. É este o ponto de ponto de partida desta obra em que os protagonistas, todos com relações pessoais falhadas, são como peças num jogo de xadrez. Os peões perguntam-se se não estará na altura de sacrificar uma peça para continuarem a avançar. Os bispos cruzam-se sem nunca se encontrarem verdadeiramente. O cavalo, livre, capaz de saltar por cima das outras peças, mas vulnerável porque, por mais esquivo que seja, um cavalo pode ser apanhado por um simples peão. Todos avançam, confrontam-se, movimentam-se nas suas vidas como num tabuleiro de xadrez. Estão todos ligados sem o saberem e prestes a jogarem um jogo que irá mudar as suas vidas."
Peças, de Víctor L. Pinel, afirma-se como uma novela gráfica de grande inteligência narrativa e visual, na qual o jogo de xadrez funciona simultaneamente como dispositivo estrutural e metáfora central da condição humana. As personagens são-nos apresentadas a partir desse tabuleiro simbólico e é nele que se desenham as suas relações, escolhas e conflitos. Cada movimento parece calculado, mas a ilusão de controlo é constantemente posta em causa, lembrando-nos que, tal como no xadrez, a vida raramente se resolve de forma linear ou previsível.
Pinel constrói um universo onde ganhar ou perder não são categorias absolutas. As personagens avançam, recuam, sacrificam peças e, por vezes, cometem erros que condicionam todo o jogo. Há espaço para a hesitação, para a falha e até para a batota, elemento que introduz uma interessante ambiguidade moral: até que ponto as regras são invioláveis quando a sobrevivência emocional ou social está em causa? Esta tensão confere profundidade psicológica à narrativa e impede leituras simplistas.
Visual e tematicamente coesa, Peças é uma obra que convida à reflexão sem perder fluidez nem capacidade de envolvimento. Trata-se de uma novela gráfica que alia forma e conteúdo com notável equilíbrio, oferecendo ao leitor uma experiência rica, simultaneamente lúdica e inquietante. Pela originalidade da abordagem e pela forma como espelha, com subtileza, as estratégias e fragilidades da vida quotidiana, é uma leitura que se recomenda vivamente.

Aboott, Jeff (2021). Não Me Perguntes. Porto: Porto Editora. 

Tradução: Carlos Sousa de Almeida
N.º de páginas: 373
Início da leitura: 26/01/2026
Fim da leitura: 29/01/2026

**SINOPSE**
"Em Lakehaven, um próspero e pacato bairro de Austin, Texas, o corpo de Danielle Roberts é descoberto num banco de jardim pelo próprio filho, Ned. Estimada naquela comunidade, Danielle era uma advogada especialista em processos de adoção internacional, que ajudara a levar as alegrias da parentalidade a muitas famílias locais. A violência do crime choca profundamente Lakehaven.
No entanto, talvez ninguém esteja tão devastado como os Pollitts, que viviam a duas casas de Danielle e que a viam quase como um membro da família. O homicídio e a investigação policial subsequente desencadearão um turbilhão de suspeitas e intrigas. «Farei o que for preciso para o salvar», promete Julia Pollitt, referindo-se a Ned. «Os teus pais sempre te mentiram» é dito num e-mail anónimo para o filho adotivo dos Pollitts, Grant. «Ninguém poderá saber a verdade agora», pensa o pai, Kyle. «Não me perguntem o que faria para proteger a minha família», afirma convictamente a mãe, Iris.
Os Pollitts sempre acreditaram que estariam lá uns para os outros. Porém, quando começam as suspeitas no seio da família, a força dos laços que os unem será duramente testada, resultando num thriller fascinante sobre as consequências fatais de determinadas perguntas."

Não me perguntes, de Jeff Abbott, constrói-se como um thriller contido e metódico, assente mais na progressão psicológica e moral do que na ação imediata. A narrativa decorre em Lakehaven, um bairro próspero e aparentemente pacato de Austin, no Texas, cenário que o autor explora com eficácia enquanto espaço de contrastes: por detrás da normalidade suburbana escondem-se segredos, silêncios cúmplices e zonas de sombra que só a violência extrema vem expor. A descoberta do corpo de Danielle Roberts, advogada respeitada na comunidade, encontrada morta num banco de jardim pelo próprio filho, Ned, funciona como o detonador de uma história que se recusa a avançar por caminhos simples ou lineares.
Danielle era especialista em processos de adoção internacional, tendo sido responsável por ajudar várias famílias locais a concretizar o desejo de parentalidade. Entre elas destacam-se os Pollitt, um casal com dois filhos: uma rapariga, filha biológica, e um rapaz adotado na Rússia através dos contactos profissionais da advogada. A proximidade entre Ned e o filho adotivo dos Pollitt introduz, desde cedo, uma tensão subtil, que se adensa à medida que os interrogatórios policiais avançam. Estes surgem transcritos em capítulos próprios, intercalados com a narrativa principal, e são conduzidos por Jamika Ponder, detetive do Departamento do Xerife do Condado de Travis, e Carmen Ames, da polícia de Lakehaven, com o acompanhamento de Juan Castillo, conselheiro juvenil e advogado. Este dispositivo narrativo confere ao romance um ritmo deliberadamente lento, quase claustrofóbico, obrigando o leitor a ouvir, interpretar e desconfiar de cada testemunho.
A questão central, se as adoções acompanhadas por Danielle estarão na origem do seu assassinato e por que motivo, sustenta-se numa construção paciente, feita de pequenas revelações e de memórias fragmentadas, em particular as da Sra. Pollitt, que revisita o passado e o período da adoção do filho. Abbott opta por um registo contido, onde a verdade nunca é imediata nem confortável, e onde a moralidade das personagens se revela ambígua. O peso da culpa, do medo e da proteção familiar atravessa todo o romance, conferindo-lhe uma densidade que ultrapassa o simples enigma criminal. Gostei!

Sepúlveda, Luís e Cever (2025). História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar. Lisboa: Porto Editora.

Tradução: Pedro Tamem
N.º de páginas: 104
Início da leitura: 21/01/2026
Fim da leitura: 25/01/2026

**SINOPSE**
"O clássico do escritor chileno Luis Sepúlveda numa nova versão com desenhos apelativos de Cever, que amplificam a magia de uma história intemporal
Junto ao porto de Hamburgo, Zorbas, um gato grande, preto e gordo, promete a uma gaivota que veio morrer na varanda de sua casa que não só chocará o ovo que esta acabara de pôr, como criará a pequena gaivota e ensiná-la-á a voar. Comprometidos pela mesma promessa, o bando dos gatos do porto vai mobilizar-se para o ajudar, por muito difícil que a invulgar tarefa seja...
As aventuras de Zorbas, o gato, de Ditosa, a jovem gaivota, e dos seus amigos foram imaginadas pelo grande escritor chileno Luis Sepúlveda, tendo conquistado milhões de leitores em todo o mundo, tocados pela poesia e pelos valores universais desta história que tem a graça de uma fábula e a força de uma parábola.
Cever, que se «apaixonou» por este texto, oferece-nos uma magnífica personificação desenhada da improvável amizade entre um felino e um pássaro, conseguindo combinar na perfeição o humor e a fantasia com temas muito atuais como o ambiente, o respeito pela diferença e a solidariedade."

História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luís Sepúlveda, é já um clássico da literatura contemporânea, cuja força reside na aparente simplicidade com que aborda temas profundamente humanos. A adaptação para novela gráfica, com argumento de Sepúlveda e ilustração de Cever (adaptação gráfica por Adams), revela-se particularmente feliz pela fidelidade ao espírito da obra original, conseguindo transpor para a linguagem visual a delicadeza ética e emocional do texto.
Trata-se de uma narrativa que, sob a forma de fábula, constrói uma reflexão clara sobre valores como a amizade, a confiança, a responsabilidade e o cumprimento da palavra dada. A relação improvável entre uma gaivota moribunda e o gato Zorbas funciona como metáfora de um humanismo generoso, em que o respeito pela diferença e a solidariedade se sobrepõem a qualquer fronteira natural ou social. A promessa feita à gaivota, cuidar do ovo, proteger a cria e ensiná-la a voar, estrutura toda a narrativa e confere-lhe uma dimensão ética central: a palavra empenhada como compromisso moral inquebrável.
A novela gráfica consegue preservar esta dimensão simbólica sem a empobrecer. Pelo contrário, o suporte visual intensifica a carga emotiva do texto, tornando mais palpável a ternura, o humor e a melancolia que atravessam a história. A escrita mantém-se clara, acessível e profundamente eficaz, sem excessos retóricos, mas com uma sensibilidade que toca leitores de todas as idades. Cada leitura, seja do texto original, seja desta adaptação, renova a capacidade de comoção, confirmando o carácter intemporal da obra.
Mais do que uma história destinada ao público infantojuvenil, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar afirma-se como uma lição universal sobre convivência, empatia e coragem. A novela gráfica honra plenamente o clássico que lhe dá origem, provando que a fidelidade a uma obra não impede a recriação, antes a enriquece quando é feita com respeito, inteligência e sensibilidade.

 Adlam, Carol (2025). A Detetive Russa. Alfragide: Edições ASA II.

Tradução: José Menezes
N.º de páginas: 112
Início da leitura: 16/01/2026
Fim da leitura: 20/01/2026

**SINOPSE**
"Nesta impressionante reimaginação de um thriller policial russo do século XIX do mundo de Dostoiévski, Carol Adlam apresenta Charlie Fox, jornalista, mágica, mentirosa e ladra, que relutantemente retorna à sua cidade natal, Nowheregrad, para investigar o assassinato de Elena Ruslanova, filha de um fabricante de vidro fabulosamente rico.
Em Nowheregrad, Charlie vê-se envolvida numa história de múltiplas camadas que é contada através dos dispositivos visuais ricamente variados da época. com a ajuda involuntária da sua amante, Netochka, Charlie desvenda o mistério da família Bobrov, apenas para enfrentar a verdade sobre si mesma.
Requintadamente desenhada e contada de forma convincente, a narrativa complexa e elegante de Adlam dá vida aos legados perdidos da ficção policial antiga e das primeiras mulheres jornalistas e detetives."

A Detetive Russa, de Carol Adlam, apresenta-se como uma reinvenção singular do thriller policial russo do século XIX, dialogando com o universo literário de Dostoiévski, não apenas na atmosfera sombria e moralmente ambígua, mas também na complexidade psicológica das personagens. Trata-se de uma novela gráfica pouco convencional, que desafia as expetativas habituais do género e exige do leitor um envolvimento atento e paciente.
A obra não se revela de leitura imediata ou linear. Em vários momentos, a articulação entre a componente gráfica e a narrativa torna-se exigente, chegando mesmo a parecer dispersa, o que pode dificultar a compreensão global da história. A linguagem visual não funciona aqui como mero apoio ao texto, mas como um elemento autónomo, por vezes enigmático, que obriga o leitor a interpretar e a estabelecer ligações nem sempre evidentes.
Carol Adlam apresenta como protagonista Charlie Fox, uma figura deliberadamente ambígua: jornalista, mágico, mentiroso e ladrão, cuja identidade oscila entre o masculino e o feminino. É esta personagem que, de forma relutante, regressa à cidade natal, Nowheregrad, para investigar o assassinato de Elena Ruslanova, filha de um fabricante de vidro extraordinariamente rico. Este acontecimento serve de ponto de partida para uma narrativa marcada por investigações sinuosas, intrigas constantes e sucessivas reviravoltas.
A leitura pode tornar-se complexa, e por vezes confusa, à semelhança de muitas investigações criminais, devido à multiplicidade de personagens suspeitas, às mentiras sobrepostas e à abundância de detalhes que exigem atenção permanente. 

Jónasson, Ragnar (2024). Morte no Sanatório. Lisboa: TopSeller.

Tradução: Maria da Fé Peres
N.º de páginas: 256
Início da leitura: 17/01/2026
Fim da leitura: 19/01/2026

**SINOPSE**
"Akureyri, Norte da Islândia, 1983
Outrora um hospital dedicado ao tratamento da tuberculose, o Sanatório de Akureyri é agora assombrado apenas pelos fantasmas do seu passado. Uma única ala permanece aberta, que se dedica a investigação científica, albergando seis funcionários: dois médicos, três enfermeiras e o zelador.

Quando Yrsa, uma das enfermeiras, é brutalmente assassinada, torna-se evidente que a morte nunca abandonou aquele lugar. É aberta uma investigação em torno dos cinco suspeitos, mas o caso é rapidamente encerrado.

2012
Helgi Reykdal, um jovem criminologista, decide regressar à Islândia após lhe ser oferecido emprego na polícia de Reiquiavique, no seguimento da reforma de Hulda Hermannsdóttir, uma das investigadoras responsáveis pelo caso de Yrsa. Embrenhando-se cada vez mais no passado, Helgi decide tentar encontrar os antigos suspeitos. o que encontra, no entanto, é uma teia terrível de segredos, traições e mentiras."
Morte no Sanatório, de Ragnar Jónasson, foi o segundo contacto que tive com a obra do autor, o que acabou por despertar a necessidade de recuar ao início e ler também o primeiro livro. Esta experiência revelou-se bastante gratificante, não só por permitir compreender melhor o universo narrativo do escritor islandês, mas também por confirmar a consistência do seu estilo e da sua abordagem ao género policial.
A ação decorre num antigo sanatório, outrora destinado ao tratamento de doentes com tuberculose, um espaço carregado de memória, isolamento e um certo peso histórico que o autor explora de forma muito eficaz. Embora a maior parte do edifício esteja desativada, uma ala permanece aberta para fins de investigação científica, criando um contraste interessante entre passado e presente. É neste cenário claustrofóbico e isolado que ocorre o assassinato de uma das enfermeiras envolvidas no projeto, transformando imediatamente os restantes cinco membros da equipa nos principais suspeitos.
Ragnar Jónasson constrói a narrativa com mestria, apostando mais na atmosfera, na psicologia das personagens e na tensão silenciosa do que na ação frenética. O ambiente fechado do sanatório funciona quase como uma personagem adicional, intensificando a sensação de desconfiança e de inevitabilidade. O leitor é constantemente levado a questionar as motivações e segredos de cada interveniente, num jogo subtil de pistas e falsas certezas.
Um dos grandes méritos do romance é a forma como o autor consegue envolver o leitor e surpreendê-lo quanto à identidade do assassino. A revelação final é coerente, mas inesperada, o que demonstra um domínio sólido da estrutura do enredo policial. Nota-se claramente a influência dos policiais clássicos, tanto na construção do mistério como no ritmo contido e na importância dada à dedução, mais do que ao espetáculo.
Morte no Sanatório confirma Ragnar Jónasson como um autor que respeita a tradição do género, mas que lhe imprime uma identidade própria, marcada por ambientes frios, isolados e psicologicamente densos. A sua escrita é segura, elegante e eficaz, tornando este livro uma leitura envolvente e recomendável para os amantes de romances policiais clássicos com um toque nórdico e contemporâneo.

Jónasson, Ragnar (2025). O Misterioso Caso da Escritora Desaparecida. Lisboa: TopSeller.

Tradução: Maria da Fé Peres
N.º de páginas: 272
Início da leitura: 16/01/2026
Fim da leitura: 17/01/2026

**SINOPSE**
"Numa noite de inverno, a autora bestseller de livros policiais, Elín S. Jónsdóttir, desaparece.

Não há quaisquer pistas sobre o seu desaparecimento, e cabe ao jovem inspetor Helgi Reykdal desvendar o caso antes que este chegue às mãos da imprensa.

Ao entrevistar as pessoas que lhe são mais próximas — uma editora, um contabilista, uma juíza reformada — percebe que a vida de Elín não era o que parecia. Na verdade, o seu passado é ainda mais estranho do que a sua ficção.

À medida que o caso da escritora de policiais desaparecida se torna mais misterioso a cada hora que passa, Helgi tem de descobrir os segredos inesperados de uma vida, antes que seja tarde demais…"

O Misterioso Caso da Escritora Desaparecida, de Ragnar Jónasson, confirma a habilidade do autor islandês para construir narrativas policiais depuradas, de leitura fluida e eficaz, onde o essencial nunca é sacrificado em nome do efeito fácil. Partindo de uma premissa simples, o desaparecimento súbito de uma escritora antes que a imprensa tenha conhecimento do caso, o romance aposta menos na espectacularidade da ação e mais na tensão psicológica e na progressiva revelação de camadas humanas. O jovem inspetor Helgi Reykdal, ainda a afirmar-se na polícia, funciona como um olhar atento e contido, cuja inexperiência relativa contribui para uma investigação marcada pela prudência e pela observação meticulosa.
A estrutura do romance, assente numa sucessão de entrevistas a figuras próximas de Elín, uma editora, um contabilista e uma juíza reformada, imprime ao texto um ritmo constante, quase inexorável, em que “os ponteiros do relógio estão sempre a mexer”. Jónasson sabe explorar o silêncio, as omissões e as pequenas contradições, transformando cada depoimento numa peça que tanto esclarece como adensa o mistério. A vida da escritora, que à superfície parecia organizada e respeitável, revela-se progressivamente fragmentada, marcada por dissimulações e zonas de sombra que colocam em causa a própria ideia de identidade.
Sem recorrer a reviravoltas artificiais ou a pistas evidentes, o romance assume-se sobretudo como um exercício de contenção narrativa e de entretenimento inteligente. É um livro que se lê com prazer, sustentado por uma escrita sóbria e precisa, fiel à tradição do noir nórdico, mas acessível a um público mais vasto. Jónasson não pretende reinventar o género; prefere afiná-lo, oferecendo uma história bem construída, atmosférica e envolvente, que mantém o leitor preso até à última página e confirma que, por vezes, o maior mistério não é o desaparecimento em si, mas aquilo que se esconde por trás de uma vida aparentemente comum.

Montes, Rafael (2014). Dias Perfeitos. Lisboa: Companhia das Letras.

N.º de páginas: 280
Início da leitura: 13/01/2026
Fim da leitura: 14/01/2026

**SINOPSE**

"Téo é um solitário estudante de Medicina que divide o seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e investigar cadáveres nas aulas. Durante uma festa, conhece Clarice. Obcecado por ela, começa então uma aproximação doentia, que o leva a tomar uma atitude extrema que estabelece entre o casal uma rotina repleta de tortura psicológica e sordidez.
Dias Perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão."
Dias Perfeitos, de Raphael Montes, é um romance que confirma o autor como uma das vozes mais eficazes da literatura brasileira contemporânea no domínio do suspense psicológico. Montes não escreve com intenções pedagógicas nem morais; o seu propósito é claramente o entretenimento, e cumpre-o de uma forma muto bem conseguida. A narrativa é conduzida por uma escrita ágil, envolvente e calculada, que transforma o romance num verdadeiro page-turner, mantendo o leitor num estado constante de inquietação e expectativa.
Neste livro, Raphael Montes constrói uma história onde o terror psicológico se cruza com a obsessão, o amor distorcido e o desespero. Acompanhamos Téo, um estudante de medicina reservado, metódico e socialmente isolado, cuja vida se resume às exigências académicas e aos cuidados prestados à mãe, Patrícia, uma mulher dependente de uma cadeira de rodas e totalmente subordinada ao filho nas tarefas mais íntimas do quotidiano. Este contexto inicial, marcado por uma rotina opressiva e por uma relação ambígua de dependência, prepara o terreno para a progressiva perturbação emocional do protagonista.
O encontro com Clarice, forçado por uma situação banal, um churrasco ao qual Téo é obrigado a comparecer, funciona como o elemento catalisador da narrativa. Clarice não corresponde a um ideal convencional de beleza, mas a sua inteligência, espontaneidade e diferença face ao universo fechado de Téo despertam nele uma obsessão avassaladora. A partir desse momento, o romance mergulha numa espiral de comportamentos extremos, em que o leitor assiste, com desconforto crescente, à transformação psicológica do protagonista e à normalização do absurdo e da violência no seu discurso interior.
Um dos grandes méritos de Dias Perfeitos reside precisamente na construção da voz narrativa. Raphael Montes consegue colocar o leitor dentro da mente de Téo, obrigando-o a acompanhar o seu raciocínio frio e aparentemente lógico, mesmo quando as suas ações se tornam moralmente inaceitáveis. Esta proximidade cria um efeito perturbador: não há julgamentos explícitos, apenas a exposição crua de uma mente obsessiva que confunde amor com posse e cuidado com controlo.
O autor constrói uma narrativa tensa, claustrofóbica e eficaz, onde o desconforto psicológico é mais relevante do que o choque explícito. Dias Perfeitos não pretende oferecer respostas nem lições; o seu impacto reside na capacidade de envolver, inquietar e prender o leitor até à última página. 

 Dillies, Renaud e Padula, Grazia La (2017). Jardim de Inverno. Lisboa: Kingpin Books.

Tradução: Mário Miguel Freitas
N.º de páginas: 64
Início da leitura: 12/01/2026
Fim da leitura: 13/01/2026

**SINOPSE**
"A gota de água. O transbordar do copo. Ou como o gotejar periódico e crescente vindo do andar de cima levará Sam, um jovem barman de um clube de jazz, a conhecer um velho afável, mas aparentemente senil. Poderá ser ele, porém, o providencial jardineiro das coisas simples e belas que Sam negligenciou durante tanto tempo?

Um relato invernoso feito de cruéis abandonos, adiados reencontros e chuvosos recontros, e de uma rotina aparente capaz de encerrar, afinal, inusitadas revelações. Inusitadas e belas como um jardim."


Jardim de Inverno, de Renaud Dillies, com ilustrações de Grazia La Padula, apresenta-se como uma obra de leitura silenciosa e contemplativa, em que a aparente simplicidade da narrativa esconde uma reflexão profunda sobre a vida contemporânea e a erosão dos laços humanos. O livro constrói um retrato de existências repetitivas, marcadas por dias iguais entre si, onde a rotina mecanizada vai esvaziando o verdadeiro sentido de família, de amizade e de relação. As personagens surgem como figuras quase autómatos, semelhantes a bonecos de corda, presas a movimentos previsíveis e a emoções amortecidas, num mundo onde o hábito substitui o afeto e a presença do outro se torna cada vez mais distante.
É neste cenário de imobilidade emocional que Jardim de Inverno introduz a ideia de libertação. A obra fala da reaprendizagem dos sentimentos, do lento regresso à empatia e ao cuidado pelas pessoas de quem gostamos, num processo que não é súbito nem fácil, mas profundamente humano. O jardim assume aqui um valor simbólico central: espaço de pausa, de reconexão e de esperança, capaz de abrir pequenas fendas de luz mesmo nos dias mais cinzentos e chuvosos do inverno. Trata-se de um convite à redescoberta do que nos liga aos outros e ao mundo.
As ilustrações de Grazia La Padula são particularmente eficazes na tradução visual destas ideias. Com uma linguagem gráfica expressiva e sensível, acompanham e aprofundam o discurso do texto, reforçando a sensação de clausura inicial e, progressivamente, a abertura emocional que a narrativa propõe. Texto e imagem dialogam de forma harmoniosa, transmitindo com clareza a intenção do autor e conferindo ao livro uma coerência estética e temática notável. Jardim de Inverno afirma-se, assim, como uma obra delicada e reflexiva, que interpela o leitor sobre a forma como vive, sente e se relaciona, deixando no final uma impressão de esperança discreta, mas persistente.

Campaniço, Carlos (2025). A Cinco Palmos dos Olhos. Lisboa: Casa das Letras.

 

N.º de páginas: 272
Início da leitura: 08/01/2026
Fim da leitura: 12/01/2026

**SINOPSE**
"Pouco depois do 25 de Abril, os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas. Em Aldeia Velha - o lugar onde decorre a acção deste romance - a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da Guerra Colonial e as novas liberdades trazidas pela Revolução.

Veremos, por isso, como reagem os que perderam as propriedades (e se insurgem ou resignam com a situação) e os que continuam a trabalhar de sol a sol, embora agora para seu próprio sustento. E também os que, depois de terem lutado anos pela democracia, são agora membros do Partido e ocupam funções de relevo, ou os que acreditaram no mundo perfeito e veem os seus sonhos esfarelar-se todos os dias. Mas há também coisas que nunca mudam, por mais que os tempos tenham mudado: a bisbilhotice, a mentira, a má-língua, a maldade, o sofrimento.

Num romance em que a verdadeira personagem é a própria aldeia - na qual o bulício das vidas individuais funciona como uma espécie de música de fundo - é curiosamente o carteiro - aquele que passa em todas as ruas e portas - o elo de ligação entre o padre, o merceeiro, o médico, a amante, o corno, o ricaço, o presidente da Junta e muitos outros, trazendo-nos a forma como cada um assimila os novos tempos e perspectiva o futuro. Porém, o muito que este homem cala é talvez aquilo que mais importa.

Carlos Campaniço, no seu estilo inconfundível e uma linguagem que é um tremendo veículo sensorial, oferece-nos com A Cinco Palmos dos Olhos mais uma obra profundamente original."

A Cinco Palmos dos Olhos, de Carlos Campaniço, é um livro que se constrói na delicada fronteira entre a intimidade das personagens e a memória coletiva de um país em transformação. Situado na pequena Aldeia Velha, espaço simbólico e concreto nos confins de um Portugal rural do pós-25 de Abril, o romance revela-se menos interessado nos grandes gestos históricos do que nos seus ecos silenciosos, aqueles que se infiltram na vida quotidiana de quem ficou à margem da mudança.

Campaniço demonstra uma notável capacidade de observação humana. Cada personagem surge desenhada com rigor e empatia, carregando consigo segredos, traumas antigos, marcas de pobreza material e afectiva, mas também uma obstinada vontade de sobreviver. Não há aqui figuras idealizadas: há homens e mulheres imperfeitos, frágeis, por vezes duros, que aprendem a viver com aquilo que lhes foi dado ou retirado. É precisamente nessa imperfeição que o romance encontra a sua força, permitindo ao leitor reconhecer-se nos silêncios, nas culpas e nos afectos contidos.

A Aldeia Velha funciona como microcosmo de um país que acorda lentamente para a liberdade, mas que continua preso a estruturas sociais, económicas e emocionais profundamente enraizadas. O Portugal que emerge destas páginas é um território de contrastes: entre a esperança e o desencanto, entre o desejo de mudança e o peso da tradição, entre a proximidade física das pessoas e a distância emocional que tantas vezes as separa, esses “cinco palmos” que dão título ao livro e que sugerem tanto intimidade como incomunicabilidade.

A escrita de Carlos Campaniço é contida, mas carregada de densidade emocional. Não cede ao sentimentalismo fácil nem à nostalgia excessiva; antes opta por uma linguagem precisa, que confia no não dito e no ritmo lento da narrativa. O tempo do romance é o tempo da aldeia e da memória: pausado, circular, atento aos pequenos gestos que revelam mais do que longos discursos.

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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