Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

 Guedes, José Correia. O Aviador. Alfragide: Lua de Papel.

N.º de páginas: 240
Início e fim da leitura: 17/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Ser comissário de bordo não é fácil, mas comandante de aviões comerciais ainda menos. José Correia Guedes passou metade da sua vida a pilotar aviões. E aconteceu-lhe um pouco de tudo. À cabeça dos infortúnios, viu o avião que co-pilotava ser sequestrado - estávamos em 1980, Sá Carneiro era o então primeiro-ministro e a RTP o único canal de televisão.

 Houve outros problemas, claro. Aterradores para quem viaja de avião, mas quase corriqueiros para quem os pilota - desde o trem de aterragem encravado até "passageiros" clandestinos, passando por… partos improvisados a dez mil metros de altitude. E houve momentos gloriosos. Como o primeiro e único desfile de moda feito em pleno ar. Ou o voo dos campeões, que trouxe para Portugal um Mourinho vitorioso, com a taça da Liga dos Campões debaixo do braço.

O autor recorda-nos as suas muitas aventuras, que começaram nos tempos (ainda) dourados da aviação comercial, quando voar era um luxo, e Nova Iorque quase tão remota como a Lua. De então para cá houve o atentado às Torres Gémeas, nasceram as lowcost, o mundo ficou mais pequeno - e as ex-colónias, para onde o Comandante tantas vezes voou, ficaram estranhamente mais longe, ou pelo menos na memória.

Em O Aviador redescobrimos um Portugal em mudança, nas histórias ora divertidas, ora nostálgicas, de quem viu o nosso País lá de cima. E é um mundo à parte, onde o medo de voar ainda afecta muita gente. Este livro passa também por aí, mostrar aos leitores que não há nada a temer: o comandante tem tudo sob controlo."

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Em O Aviador, José Correia Guedes apartilha episódios vividos ao longo da sua carreira, num testemunho que alia a experiência de quem esteve durante décadas nos comandos de uma aeronave ao talento de quem sabe contar uma boa história.
Conhecido por ter desempenhado funções como comandante e, mais tarde, responsável máximo da TAP, José Correia Guedes revela-se também um narrador cativante. Escreve com simplicidade, clareza e um sentido de ritmo que torna a leitura extremamente agradável, conseguindo transmitir ao leitor a emoção, a tensão e, por vezes, o humor que marcaram muitos dos momentos vividos no exercício da sua profissão.
Ao longo do livro, sucedem-se episódios de natureza muito diversa. Alguns colocam à prova o sangue-frio, a capacidade de decisão e o espírito de equipa indispensáveis a quem tem nas mãos a responsabilidade de transportar centenas de passageiros em segurança. São relatos que permitem perceber a enorme preparação técnica e humana exigida a um piloto, bem como a confiança mútua que sustenta o trabalho de toda uma tripulação.
Mas nem tudo são momentos de elevada tensão. O autor intercala essas situações com episódios inesperados e francamente divertidos, demonstrando que a aviação também é feita de pequenos imprevistos e histórias que só a realidade consegue escrever. Essas memórias, narradas com um humor discreto e elegante, equilibram o tom do livro e aproximam o leitor do homem por detrás da farda.
Mais do que um conjunto de recordações, O Aviador oferece um olhar privilegiado sobre uma profissão que muitos imaginam conhecer, mas cuja complexidade raramente é revelada. osé Correia Guedes mostra-nos os bastidores da aviação, permitindo compreender melhor a responsabilidade, a disciplina e a serenidade que cada voo exige.
É também um livro sobre a confiança: confiança na preparação, na experiência acumulada, na equipa e na capacidade de tomar decisões sob enorme pressão. Talvez por isso, cada episódio seja mais do que uma simples história; é também um testemunho da dedicação e do profissionalismo de todos aqueles que trabalham para que um voo decorra sem sobressaltos, mesmo quando os passageiros nunca chegam a imaginar os desafios enfrentados.
O Aviador lê-se com enorme prazer, tanto por quem se interessa pelo mundo da aviação como por quem aprecia bons livros de memórias. José Correia Guedes demonstra que as melhores histórias são, muitas vezes, as que nasceram da experiência vivida e são contadas com autenticidade, inteligência e uma saudável dose de humor.

Pais, Carla (2026). A Sombra das Árvores no Inverno. Alfragide: Leya.

N.º de páginas: 288
Início da leitura: 15/07/2026
Fim da leitura: 16/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Céline, filha de uma prostituta que acabou esfaqueada no Bois de Boulogne, em Paris, passa a adolescência numa instituição e acaba por juntar-se a um imigrante do Mali, que se orgulha de ter uma farda com boné e tudo, mas é atropelado pelo destino e acusado de um crime que não cometeu.

Aïsha - filha de um sábio que entende a linguagem das pedras e lê nos sinais da natureza o presságio da destruição - vive numa cidade prestes a ser invadida pelos jihadistas e vê-se obrigada a esconder os filhos num abrigo improvisado, enquanto o marido permanece no hospital em ruínas, ajudando a salvar vidas Nadia, que carrega uma pesada culpa desde a infância, enfrenta a dor de ter um filho aliciado por redes extremistas. Desesperada, tenta sobreviver à ausência e encontra forças para acolher duas crianças refugiadas que chegam completamente sós, arrastando com elas o peso da guerra.

As vidas de todas estas personagens entrelaçam-se num percurso de separações, de perdas e de reconstrução possível. A Sombra das Árvores no Inverno - vencedor do Prémio LeYa por unanimidade - é um romance sobre famílias quebradas pela violência e pelo fanatismo, mas também sobre a ternura, o instinto de proteção e a coragem silenciosa capazes de renascer no meio do caos."

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A Sombra das Árvores no Inverno é um romance exigente do ponto de vista emocional, que aborda temas profundamente humanos sem nunca perder a delicadeza da sua escrita. O resultado é uma leitura que, simultaneamente, choca e comove, deixando uma marca difícil de apagar.
A autora conduz-nos por uma narrativa fragmentada, em que diferentes personagens e diferentes tempos se vão entrelaçando, desvendando lentamente um retrato complexo de vidas atravessadas pela perda, pelo desenraizamento e pela procura de um lugar a que possam verdadeiramente chamar casa. Esta construção não linear exige atenção, mas permite que cada revelação surja no momento certo, atribuindo maior profundidade às personagens e ao impacto das suas histórias.
Tendo como pano de fundo acontecimentos que marcaram profundamente a Europa na última década - a escalada do terrorismo e a crise dos refugiados -, Carla Pais propõe uma reflexão serena sobre o medo, os preconceitos e a facilidade com que se transformam pessoas em estereótipos. A partir da realidade francesa, onde a autora reside, o romance questiona as generalizações e recorda-nos que, por detrás de cada notícia ou estatística, existem vidas concretas, memórias, afetos e sonhos.
É sobretudo na linguagem que reside uma das maiores forças deste romance. Carla Pais escreve com uma delicadeza rara, recorrendo a uma prosa profundamente poética, capaz de conferir beleza mesmo aos momentos mais dolorosos. Nunca há excessos nem dramatizações gratuitas; há, antes, uma enorme sensibilidade na forma como as emoções são construídas e transmitidas ao leitor. É precisamente esse contraste entre a dureza dos acontecimentos e a suavidade da escrita que torna a leitura tão comovente.
Entre as muitas passagens memoráveis, algumas permaneceram particularmente comigo. «Aïsha tem dezanove anos e a certeza de que quer ensinar crianças. Reconstruir ninhos desfeitos.» Nestas poucas palavras concentra-se uma ideia de esperança que atravessa toda a obra: a possibilidade de reconstruir, de cuidar e de recomeçar, mesmo depois da destruição.
Igualmente marcante é a frase: «Agora já sei o que é a morte, é um buraco aberto na garganta, um poço onde caem todas as palavras bonitas.» Poucas imagens traduzem com tanta intensidade o vazio que a perda deixa em quem permanece.
E há ainda esta outra, de uma ternura desarmante: «O cheiro dela afastou-se de nós porque o teu lenço é uma casa que trago ao pescoço.» É um exemplo da forma como a autora transforma pequenos gestos e objetos quotidianos em lugares de memória, onde continuam a habitar aqueles que já não estão.
A Sombra das Árvores no Inverno é um romance que nos interpela sem levantar a voz. Fala-nos de perda e de luto, mas também de identidade, pertença, preconceito e esperança. É uma leitura que nos convida a olhar para o outro com mais empatia e menos julgamento. Fechamos o livro conscientes de que as grandes tragédias da História se refletem sempre nas pequenas histórias individuais e de que, por detrás de cada rosto, existe uma narrativa que merece ser escutada.

Couceiro, Rui (2026). A Mais Bela Maldição. Porto: Porto Editora.

N.º de páginas: 208
Início da leitura: 13/07/2026
Fim da leitura: 15/07/2026

**SINOPSE WOOK**

"O que podem ter em comum uma baronesa quase centenária da Toscana, um antigo pescador da Póvoa de Varzim, um ex-ministro brasileiro, um gasolineiro dos Açores, um socioeconomista francês a viver em São Tomé, um condutor de camiões do lixo de Bogotá, uma poetisa italiana, um alfarrabista de Rabat, um antigo recluso nova-iorquino e um padre alemão? Uma profunda e incontrariável ligação aos livros, que os levou a dedicarem-lhes toda ou boa parte das suas vidas. São eles e o seu amor por um objeto milenar os protagonistas do novo livro de Rui Couceiro.

Depois de publicar os romances Baiôa sem Data para Morrer e Morro da Pena Ventosa, o autor viajou pelo mundo para conhecer e contar histórias que apaixonarão todos os que, como ele e os protagonistas de A Mais Bela Maldição, adoram os livros e a leitura.


«Uma maravilhosa coleção de histórias literárias. Uma tapeçaria de vidas enfeitiçadas pelas letras. Um colar de histórias escritas lampejo a lampejo. Relatos biográficos que nos convidam a sentirmo-nos, ao mesmo tempo, leitores e protagonistas de sigilosas peripécias humanas em torno da leitura. Uma viagem a esses enigmas e mistérios também chamados bibliotecas pessoais. Com subtileza, inteligência e uma delicada musicalidade verbal, Rui Couceiro traça, de fisionomia em fisionomia, o retrato de todos nós, amantes incorrigíveis dos livros.»

Irene Vallejo"

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Há livros que nos lembram que ler é muito mais do que um hábito ou um passatempo: é uma forma de compreender o mundo, de nos aproximarmos dos outros e, muitas vezes, de nos encontrarmos a nós próprios. A Mais Bela Maldição, de Rui Couceiro, é um desses livros. Mais do que uma viagem por lugares ligados aos livros, é um percurso por vidas moldadas pela leitura e pela paixão silenciosa que ela desperta.
Foi um enorme prazer cruzar-me com personagens reais tão singulares, pessoas que, em diferentes momentos das suas vidas, foram conquistadas pelos livros e fizeram deles um modo de estar no mundo. São homens e mulheres de origens distintas, unidos por uma dedicação que transcende fronteiras, culturas e circunstâncias. As suas histórias revelam que o amor pelos livros pode assumir inúmeras formas, mas tem sempre a capacidade de transformar quem o vive.
Entre essas figuras, foi particularmente gratificante reencontrar Alba Donati, cuja voz já me tinha encantado em A Livraria na Colina. Voltar a encontrá-la nestas páginas foi como rever uma velha conhecida, integrada agora num conjunto de histórias igualmente marcantes, que se complementam e enriquecem mutuamente.
Rui Couceiro confirma, uma vez mais, o talento que possui para contar histórias. A sua escrita é elegante, envolvente e profundamente humana. Conduz o leitor com naturalidade entre geografias, bibliotecas, livrarias e encontros improváveis, sem nunca perder de vista aquilo que verdadeiramente importa: as pessoas e a forma como os livros se entrelaçam com as suas vidas.
Logo nas primeiras páginas, o autor partilha uma recordação dos avós que encerra uma ideia particularmente feliz. Ao recordar que a avó compreendia que «apesar da leitura ser um ato solitário, a leitura é, em simultâneo, uma magnífica forma de combater a solidão», sintetiza uma verdade que muitos leitores reconhecerão de imediato. Poucas atividades são tão íntimas e, ao mesmo tempo, tão capazes de criar ligações invisíveis entre pessoas que nunca se conhecerão.
Ao longo da leitura, sentimos que cada encontro acrescenta uma nova perspetiva sobre o poder dos livros: preservar memórias, alimentar a esperança, desafiar a ignorância ou simplesmente oferecer um lugar de refúgio. Rui Couceiro constrói um mosaico de histórias autênticas que convidam à reflexão e despertam uma vontade irresistível de conhecer os espaços e as pessoas que lhes deram origem.
Termino com uma passagem que resume de forma admirável o espírito desta obra. Numa conversa entre o autor e Aziz, o livreiro da medina de Rabat, este estabelece um paralelo entre a pesca e a leitura: ambas permitem esquecer o mundo. Quando o escritor lhe pergunta o que há para esquecer, Aziz responde com desarmante simplicidade: «A miséria e a ignorância.» Recomendo muito!

Trigiani, Adriana (2026). Uma Janela Sobre o Lago Como. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Ana Saldanha
N.º de páginas: 416
Início da leitura: 10/07/2026
Fim da leitura: 13/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Giuseppina, por-favor-chamem-me-Jess, está de regresso a casa dos pais após o fim do casamento com um marido tão perfeito que se confunde com uma estátua renascentista. Ela é a pessoa que renova o passaporte… para nunca o usar. É a filha que nunca falha: cuida dos pais, trata do almoço de domingo, aceita sempre ficar em último lugar.

É no negócio de mármore da família, dirigido pelo exuberante tio Louie, que se permite brilhar. O seu talento como desenhadora é imenso e Louie não tem dúvidas de que ela pode chegar longe (desde que invista num guarda-roupa melhor).

Mas será necessário um cataclismo familiar para acordar Jess da sua letargia. Movida pelos sonhos que adiou por demasiado tempo, ela decide por fim dar uso ao passaporte e ir para Itália, o país dos seus antepassados.

É aí que começa, finalmente, a descobrir-se… e a apaixonar-se.

Porém, quando a felicidade parece estar finalmente ao seu alcance, o passado ameaça arrastá-la de volta a casa, destruindo tudo o que conseguiu construir."

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No livro Uma Janela Sobre o Lago Como, Adriana Trigiani regressa a alguns dos temas que atravessam a sua obra: a força dos laços familiares, o peso das expetativas herdadas e a procura de uma identidade própria para lá dos papéis que a vida parece impor. A autora, reconhecida internacionalmente pelos seus romances centrados nas relações humanas e nas raízes familiares, constrói aqui uma história de recomeços, memórias e descobertas pessoais, com a Itália como cenário de transformação e reencontro.
A protagonista, Giuseppina, conhecida por Jess, é apresentada como a filha exemplar, aquela que permanece sempre disponível para a família e que aprendeu a colocar os desejos dos outros à frente dos seus. Depois de um casamento terminado, regressa a casa dos pais, em Nova Jérsia e retoma uma rotina confortável, mas limitadora, marcada pelo cuidado dos seus e pelas pequenas obrigações familiares. É uma personagem que vive num permanente adiamento de si própria, alguém que mantém o passaporte renovado, mas que nunca se permite partir.
O trabalho na empresa familiar de mármore, sob a orientação do carismático tio Louie, revela uma faceta diferente de Jess. Ali encontra espaço para a sua criatividade e para um talento artístico que durante demasiado tempo ficou escondido. Trigiani explora com sensibilidade a tensão entre aquilo que somos capazes de fazer e aquilo que nos permitimos realmente alcançar, mostrando como, por vezes, são as circunstâncias mais inesperadas que nos obrigam a olhar de frente para os sonhos abandonados.
A viagem a Itália surge, assim, não apenas como uma deslocação geográfica, mas como um percurso interior. Ao aproximar-se da terra dos seus antepassados, Jess começa a reconstruir a sua própria narrativa, confrontando-se com novas possibilidades, afetos inesperados e uma versão de si mesma que até então desconhecia. O Lago Como, com a sua beleza e o seu simbolismo, funciona como um espaço de pausa e de mudança, onde a protagonista finalmente se permite imaginar uma vida diferente. Já visitei este lago e devo dizer que é lindíssimo.
Apesar de seguir uma estrutura familiar ao romance de crescimento pessoal e de recomeço, Uma Janela Sobre o Lago Como destaca-se sobretudo pela forma calorosa como retrata as relações familiares e as contradições do amor entre gerações. Nem sempre o ritmo mantém a mesma intensidade e alguns desenvolvimentos poderão parecer previsíveis, mas a narrativa beneficia do olhar atento da autora sobre as fragilidades humanas e sobre a importância de encontrar coragem para escolher o próprio caminho.
Não é um romance que procura surpreender pelo choque ou pela inovação, mas antes envolver pela proximidade das personagens e pela mensagem de esperança que transmite. Uma leitura leve e reconfortante, ideal para quem aprecia histórias sobre família, pertença e a possibilidade de começar de novo quando a vida parece já estar definida.

Ishiguro, Kazuo (2017). O Gigante Enterrado. Lisboa: Gradiva.

Tradução: Ana Falcão Bastos
Nº de páginas: 412
Início da leitura: 04/07/2026
Fim da leitura: 10/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Tudo se passa há muitos, muitos anos, num local de fronteiras bem diferentes das actuais e marcado por grandes extensões de solo árido. Nalgumas zonas, os aldeões viviam em abrigos, parte dos quais cavados na encosta dos montes, ligados uns aos outros por passagens subterrâneas. Era num sítio assim que habitava o casal de idosos que tem lugar central nesta história: Axl e Beatrice. Um dia os dois decidiram ter chegado a hora de procurar o filho que há muito não viam e de quem pouco se recordavam. Naquele tempo longínquo esta era uma viagem que, previsivelmente, traria perigos. Mas aquela proporcionou muito mais do que isso. Uma amnésia colectiva parecia ter-se instalado naquela zona, como uma névoa que descera à terra para fazer esquecer em parte o passado, individual e colectivo. Mas a viagem de Axl e Beatrice revela-se um regresso à lembrança. E esta nem sempre deixa um rasto feliz.
Esta é uma história sobre memórias perdidas, amor, vingança e guerra. É ainda uma história que recua ao passado, transportando o leitor para terrenos percorridos por cavaleiros do rei Artur e monges, ogres e dragões. Um dragão em particular - Querig - é o foco das atenções. E, em relação a ele, as missões dividem-se. A diferença entre poupá-lo ou tirar-lhe a vida pouco tem de fantasia. Depois de dez anos sem publicar ficção de fôlego, Ishiguro apresenta-se agora com uma história inesperada que, por certo, fica na memória."

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O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro, é uma obra singular e profundamente reflexiva, que desafia as expectativas de quem procura uma narrativa de fantasia convencional. Não é um livro de leitura imediata ou fácil, sobretudo porque o autor privilegia a introspeção e o diálogo interior das personagens em detrimento de uma ação constante. Ao longo da história, as personagens expõem as suas inquietações, dúvidas e fragilidades, conduzindo o leitor por uma viagem mais emocional e filosófica do que propriamente aventureira.
Ishiguro mistura elementos da fantasia medieval com reflexão sobre a condição humana, criando uma atmosfera simultaneamente misteriosa e melancólica. A narrativa acompanha Axl e Beatrice, um casal de idosos que parte numa viagem por uma Inglaterra antiga, povoada por criaturas fantásticas como ogres e dragões, com o objetivo de reencontrar o filho que não veem há muitos anos. No entanto, à medida que avançam no caminho, torna-se evidente que existem memórias apagadas, segredos por revelar e acontecimentos do passado que ambos parecem não conseguir ou não querer recordar.
A presença de uma misteriosa névoa, que parece afetar a memória dos habitantes daquela terra, funciona como um dos grandes símbolos do romance. O esquecimento torna-se não apenas um elemento da narrativa, mas também uma metáfora poderosa para explorar temas como a culpa, o perdão, o amor e a forma como as pessoas lidam com as dores do passado. Ishiguro questiona até que ponto recordar é sempre uma bênção e se, por vezes, esquecer poderá ser uma forma de proteção.
A relação entre Axl e Beatrice é o centro emocional do livro. Através deles, o autor constrói uma reflexão delicada sobre o envelhecimento, a ligação entre duas pessoas e a importância das memórias partilhadas na construção de uma vida em comum. A viagem que empreendem é, ao mesmo tempo, uma procura exterior e uma descoberta interior, onde cada passo os aproxima de verdades que talvez nem sempre sejam fáceis de enfrentar. A forma como se tratam, "princesa" e "marido" é exemplo disso.
Apesar da riqueza das questões levantadas e da beleza da escrita de Ishiguro, esta é uma leitura que exige alguma paciência. Em determinados momentos, o ritmo torna-se demasiado lento e algumas passagens prolongam-se mais do que o necessário, havendo episódios que poderiam ter sido encurtados sem prejudicar a essência da obra. A forte componente contemplativa poderá afastar leitores que esperem uma narrativa mais dinâmica.
Ainda assim, O Gigante Enterrado é um livro que permanece na memória pela sua originalidade e pela forma subtil como aborda temas universais. Mais do que uma história de fantasia, é uma meditação sobre aquilo que escolhemos recordar, aquilo que preferimos esquecer e sobre as consequências das verdades que decidimos enfrentar. Uma leitura exigente, mas recompensadora, para quem aprecia romances que continuam a provocar reflexão depois da última página.

Castillo, Javier (2024). O Jogo da Alma. Lisboa: Suma das Letras.
Tradução: Lucília Filipe Castillo
N.º de páginas: 408
Início da leitura: 02/07/2026
Fim da leitura: 04/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Nova Iorque, 2011. Uma rapariga de quinze anos é encontrada crucificada numa igreja dos subúrbios da cidade. Miren Triggs, uma repórter de investigação do Manhattan Press, recebe inesperadamente um misterioso envelope. No seu interior, está uma fotografia de outra adolescente amordaçada e amarrada, com uma única legenda: «Gina Pebbles, 2002».

Miren Triggs e Jim Schmoer, o seu antigo professor de Jornalismo, seguem o rasto da rapariga da fotografia enquanto investigam a crucificação em Nova Iorque e, em pouco tempo, veem-se arrastados para as profundezas de uma instituição religiosa com estranhos rituais e para um enigma indecifrável em que terão de responder a três questões: o que aconteceu a Gina? Quem enviou a fotografia? E, o mais importante, estarão os dois casos relacionados? O que ambos não sabem é que, se entrarem neste jogo perigoso e revelarem o segredo obscuro que esconde, tudo irá mudar."

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Nunca tinha lido nenhum livro de Javier Castillo, mas O Jogo da Alma acabou por ser uma agradável descoberta. Desde as primeiras páginas, o autor consegue criar uma atmosfera de inquietação e mistério que me envolveu e me conduziu por uma narrativa marcada pelo suspense, pelas dúvidas e pela vontade constante de descobrir o que se esconde por detrás dos acontecimentos. É um policial que prende a atenção de imediato e que mantém a tensão até ao desfecho, explorando o lado mais sombrio da natureza humana.
Apesar de fazer parte de uma trilogia e de ser o segundo volume, a leitura revelou-se bastante fluida mesmo sem ter lido anteriormente A Menina de Neve. A história apresenta os elementos necessários para que o leitor acompanhe a investigação sem se sentir perdido, embora fique também a curiosidade de conhecer melhor os acontecimentos anteriores e a evolução das personagens.
Nesta obra, acompanhamos Miren Triggs, uma jornalista determinada e marcada por uma forte ligação à investigação criminal, que se vê envolvida num caso perturbador após o desaparecimento e morte de uma jovem. No momento em que se encontra a promover o seu novo livro, A Menina de Neve, Miren recebe uma fotografia misteriosa de uma rapariga desaparecida há vários anos, um acontecimento que abre caminho para uma investigação complexa e angustiante. Pouco depois, surge um crime de contornos chocantes, aparentemente relacionado com esse passado, lançando a jornalista numa procura pela verdade onde nada parece ser simples.
Javier Castillo constrói uma narrativa dinâmica, alternando diferentes momentos e perspetivas, criando uma sucessão de perguntas que alimentam a curiosidade do leitor. A escrita é acessível e cinematográfica, com capítulos curtos que favorecem um ritmo rápido e uma leitura envolvente.
Mais do que uma simples investigação policial, O Jogo da Alma explora temas pesados e desconfortáveis, relacionados com segredos, sofrimento e as marcas que determinados acontecimentos deixam nas pessoas.
Sem revelar mais detalhes para não retirar impacto à leitura, é um livro que recomendo a todos os apreciadores de thrillers e policiais psicológicos. Para quem gosta de histórias carregadas de tensão, com mistérios por desvendar e uma atmosfera sombria, este livro poderá ser uma boa escolha.

Seon-Ran, Cheon (2026). Mil Tons de Azul. Lisboa: Casa das Letras.

Tradução: Dinis Pires
N.º de páginas: 256
Início da leitura: 01/07/2026
Fim da leitura: 02/07/2027

**SINOPSE WOOK**
"Escondido num barracão, no meio de um ferro-velho, Coli espera pacientemente que alguém o encontre. Sentado no topo de uma pilha de lixo, contempla o céu e as suas maravilhosas tonalidades de azul. Coli é um robô especial. Possui uma poderosa capacidade de observação e algo que o distingue de todos os outros humanoides: a capacidade de sentir emoções.

A sua solidão é interrompida pela chegada de uma jovem fascinada por robôs. Juntos, embarcam numa missão improvável: resgatar Today, uma égua de corrida que, esgotada por uma vida de sobrecarga e competição, está destinada ao matadouro. Para a fazer feliz novamente, traçam um plano extraordinário: inscrevê-la numa última corrida e treiná-la para alcançar o tempo mais lento da sua vida.

Mas, no calor da competição, Coli percebe que Today está a correr demasiado depressa, em sofrimento, e prestes a lesionar-se gravemente. Para salvar a sua amada égua, Coli terá de cometer um último e derradeiro ato de coragem.

Uma história luminosa e inesquecível, Mil Tons de Azul é um hino à nossa Terra e à nossa humanidade, dando voz àqueles que são deixados para trás num mundo acelerado e toxicamente competitivo. Transbordando de esperança e fúria, esta obra mostra-nos, com empatia e ternura, como a amizade, a comunidade e o sacrifício nos podem libertar."

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Mil Tons de Azul, da escritora sul-coreana Cheon Seon-Ran, é um romance de ficção científica ao qual não ficamos indiferentes. A autora, que venceu o 4.º Korea Sci-fi Literature Award, um dos prémios mais prestigiados da ficção científica sul-coreana, apresenta-nos uma história que, apesar de falar do futuro, de abordar temas delicados como a substituição do homem pela máquina em grande parte das profissões, o faz com uma humanidade e emoção que nos comovem. Perante a desumanização que vivemos, poderá a máquina ser mais sensível e humana que muitos humanos? Esta obra faz-nos refletir sobre a condição humana, a empatia e a forma como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo que nos rodeia. Cheon Seon-Ran convida o leitor a pensar sobre o valor da empatia numa época em que a eficiência parece sobrepor-se às emoções.
A narrativa apresenta-nos Coli, um robô que acompanha uma égua nas suas corridas no hipódromo e que provoca estranheza aos humanos, quando acaricia a égua, tem pena da exaustão em que esta égua explorada se encontra e gosta de contemplar o céu. E, quando pensa em sacrificar-se pela égua, mostra uma sensibilidade, um cuidado e preocupação com o sofrimento do animal, que muitos humanos não possuem.
Apesar de duro, este romance apresenta temas que nos fazem acreditar que há alguma esperança. A amizade, a solidariedade e a capacidade de encontrar beleza nos pequenos gestos revelam-se forças transformadoras, lembrando-nos que ninguém é completo ou suficiente por si só. É precisamente na imperfeição das personagens e na forma como aprendem a confiar umas nas outras que reside uma das maiores qualidades do romance.
Com uma escrita delicada, sensível e envolvente, Cheon Seon-Ran demonstra que a ficção científica pode ser muito mais do que um exercício de imaginação tecnológica. Recomendo.

Ueda, Kenji (2026). As Cartas da Papelaria de Ginza. Barcarena: Editorial Presença.

Tradução: André Pinto Teixeira
N.º de páginas: 232
Início da leitura: 30/06/2026
Fim da leitura: 01/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Um tributo delicado ao poder das cartas escritas à mão.

Cinco histórias inesquecíveis passadas numa encantadora papelaria em Tóquio.

Escondida numa rua tranquila do bairro de Ginza, existe a antiga e encantadora papelaria Shihodo. Gerida pelo senhor Ken Takarada, entrar nesta loja é encontrar um universo mágico, pensado ao pormenor para todos os amantes da escrita: folhas delicadas como pétalas, canetas que assentam na mão com perfeição e tintas de cores profundas. O verdadeiro mistério desta loja revela-se no andar de cima, onde uma pequena mesa de madeira convida cada visitante a sentar-se e a escrever… Ali, as palavras começam a fluir, trazendo à superfície memórias esquecidas, desejos silenciosos e verdades há muito guardadas. Cinco vidas cruzam-se na Papelaria Shihodo: um jovem à procura do seu caminho, uma mulher presa ao passado, um estudante sob pressão, um homem confrontado com o arrependimento e outro em busca de redenção.

Cinco histórias sobre perda, memória, esperança e a extraordinária capacidade que as palavras têm de nos reconciliar, connosco e com os outros. Uma celebração sensível e luminosa da escrita e dos pequenos gestos que podem transformar uma vida."

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Com uma escrita serena e contemplativa, tão característica da literatura japonesa contemporânea, o autor constrói uma história onde as palavras escritas à mão assumem um valor que ultrapassa a mera comunicação: tornam-se um exercício de reflexão, sinceridade e aproximação ao outro.
A papelaria, mais do que um simples espaço comercial, transforma-se num lugar de encontro e de escuta. O cuidado com que o seu proprietário acompanha quem ali entra revela uma profunda atenção às necessidades humanas, lembrando que, muitas vezes, uma carta bem pensada consegue dizer aquilo que a conversa imediata não alcança. Num tempo dominado pela rapidez das mensagens instantâneas, o romance convida-nos a recuperar o significado do tempo investido nas palavras, da escolha cuidadosa de cada frase e do peso emocional que um texto manuscrito pode transportar.
Para além desta valorização da escrita, o livro aborda discretamente outros temas igualmente relevantes. Entre as várias personagens de que gostei, destaco a Mamã Fumi, cuja visão pragmática da vida transmite uma mensagem que permanece atual: a importância do estudo, da disciplina e do aproveitamento do tempo. O seu conselho às jovens que trabalham consigo, de que, quando chega o momento de aprender, não há espaço para distrações que desviem desse objetivo, surge como um lembrete de que o conhecimento continua a ser um dos caminhos mais sólidos para a autonomia e para a construção de um futuro melhor. Esta ideia é apresentada sem moralismos, integrada de forma natural na narrativa e nas vivências das personagens.
Uma das maiores qualidades do romance reside precisamente nessa capacidade de transmitir valores através de pequenos episódios e diálogos, sem necessidade de recorrer a grandes dramatismos. A narrativa avança ao ritmo das emoções, privilegiando os silêncios, os gestos e as mudanças subtis que vão ocorrendo em cada personagem. É um livro que convida à contemplação e recompensa um leitor disposto a desacelerar.

Verna, Nicoletta (2026). Dias de Vidro. Lisboa: Alma dos Livros. 

Tradução: Filipa Ramalho
N.º de páginas: 384
Início da leitura: 27/06/2026
Fim da leitura: 30/06/2026

**SINOPSE WOOK**
"Num tempo de brutalidade absoluta, uma mulher aprende a resistir sem perder a fé na humanidade.

Itália, 1924. Giacomo Matteotti, principal opositor de Benito Mussolini, é assassinado no dia em que Redenta vem ao mundo. O medo instala-se, o silêncio torna-se regra e a violência passa a ser instrumento de governo. A morte de um, marca o início definitivo da ditadura, o nascimento de outra, inaugura uma vontade obstinada de resistir.

Prometida em criança ao seu melhor amigo, Bruno, que desaparece sem explicação, é mais tarde escolhida para casar com Vetro, um dirigente fascista cujo sadismo parece não ter limites. Ainda assim, algo nela persiste. Uma força silenciosa, quase indestrutível. a vida de Redenta cruza-se com a de Iris, uma mulher rebelde e com desejos de liberdade.

Duas mulheres, duas formas de coragem, dois destinos que se entrelaçam num dos períodos mais austeros da História. Tão sombrio quanto luminoso, Dias de Vidro transforma o tempo do silêncio numa história de resistência íntima, feminina e radicalmente humana. A voz de Redenta permanece, clara, ferida e vibrante, muito depois de fechada a última página."

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Dias de Vidro, de Nicoletta Verna, é um romance de ficção histórica de grande intensidade, inspirado em acontecimentos e figuras reais que marcaram um dos períodos mais sombrios da história de Itália. Sem abdicar da ficção, a autora constrói uma narrativa credível, onde a violência do regime fascista se faz sentir não apenas nos grandes acontecimentos políticos, mas sobretudo nas vidas anónimas de quem tenta sobreviver a um quotidiano dominado pelo medo, pela repressão e pela arbitrariedade.
No centro da história está Redenta, uma protagonista de enorme força interior. É uma mulher de poucas palavras, mas de uma resistência impressionante, cuja coragem se manifesta mais nos gestos silenciosos do que em atos grandiosos. Através do seu percurso, Nicoletta Verna oferece um retrato duro da condição feminina num contexto em que o poder, a violência e o controlo sobre os corpos e as vidas das mulheres eram exercidos com uma crueldade devastadora. As restantes personagens que cruzam o seu caminho acrescentam diferentes perspetivas sobre a liberdade, a dignidade e a capacidade de preservar a humanidade mesmo nas circunstâncias mais adversas.
A autora escreve com uma linguagem simultaneamente elegante e incisiva para transmitir o peso emocional da narrativa. As cenas de maior brutalidade nunca parecem gratuitas; pelo contrário, surgem como um reflexo necessário da realidade histórica que o romance procura retratar. É precisamente esse equilíbrio entre contenção literária e intensidade emocional que torna a leitura tão envolvente.
Mais do que um romance sobre o fascismo, Dias de Vidro é uma reflexão sobre a resistência, a memória e a extraordinária capacidade humana para continuar a encontrar razões para viver quando tudo parece perdido. Sem romantizar o sofrimento, mostra o elevado preço da sobrevivência e a forma como as escolhas individuais são condicionadas por um contexto de violência permanente.
Foi uma leitura que me conquistou por completo. Gostei da escrita segura e envolvente, da construção das personagens e da forma como a narrativa consegue conciliar o rigor histórico com uma forte dimensão humana. É um romance exigente, por vezes duro, mas também profundamente marcante, daqueles que permanecem connosco muito depois de fecharmos a última página.

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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