quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O Tatuador de Auschwitz

Célia Gil
Morris, Heather (2018). O Tatuador de Auschwitz. Queluz de Baixo: Editorial Presença.

Hether Morris, a autora de O Tatuador de Auschwitz (livro traduzido por Miguel Romeira) entrevistou um idoso, nos últimos anos da vida deste, momento em que ele acedeu a contar a sua história para que o seu testemunho e passo a citar “ficasse registado” e "jamais torne a acontecer”.

Esta obra conta a história de duas pessoas que se conheceram em circunstâncias terríficas, privadas da liberdade e que vivenciaram todos os horrores do holocausto, em Auschwitz II – Birkenau, entre 1942 e 1945.

Lale, judeu recém-chegado a Auschwitz, é incumbido de tatuar o número de prisioneiro nos braços de todos os que ali chegavam, tornando-se o tetovierer. É neste local, quando tatua Gita, que descobre o amor.

O relato dos tempos passados em Auschwitz é comovedor e avassalador. No meio de tanta tristeza, dor, fome, desespero e morte, Lale é perseverante e continua a acreditar que há de sobreviver. Aprende que a obediência e o silêncio o poderão ajudar a conseguir atingir o seu principal objetivo – continuar vivo.

Trava conhecimento com dois dos homens que foram contratados para ajudar a construir os crematórios, Vítor e Yuri, que começam a trazer-lhe alimentos em troca de jóias e dinheiro, que algumas raparigas que trabalham na triagem do que os prisioneiros levam consigo, lhe dão em troca de comida. Passa a trazer comida e a dividi-la. Entretanto, vai-se desenvolvendo o relacionamento amoroso entre Lale e Gita que, sempre que podem, se encontram às escondidas, por exemplo, quando Lale suborna com comida e jóias a Kapo que tomava conta do edifício em que Gita se encontrava. Lale promete a Gita que, quando saírem dali, farão amor onde e quando quiserem.

Quando são descobertos o dinheiro, as jóias e a comida que escondia debaixo do seu colchão, Lale julgou que seria o seu fim. Foi levado para o bloco 11, onde eram castigados até à morte. Mas, os conhecimentos travados, a coragem de Lale e o amor por Gita são os grandes impulsionadores que o movem para a vida e o levam a trapacear a própria morte.

No entanto, o destino não lhe traz a felicidade de mão beijada, nem mesmo quando, em 1945, se abrem os portões que os encarceraram durante três anos e que testemunharam tantas mortes e sacrilégios. Passa por muitas situações em que entre a vida e a morte existe apenas um ténue fio, uma simples palavra, um gesto irrefletido.

Lale, apesar de não saber se Gita está viva, nem onde se encontra, não desiste de a procurar.
Um amor que resiste a tudo e que os faz acreditar que a felicidade talvez até exista.

Como dizia Gita, mais tarde, ao filho, em momentos mais difíceis das suas vidas “O que importa é estarmos vivos e com saúde; tudo o resto se resolve.”

Foi esse o espírito que os ajudou a reerguer a cada nova queda, sempre que a vida lhes pregou rasteiras.

O Tatuador de Auschwitz de Heather Morris é um livro emocionante, numa escrita fluida, pungente e cativante.
                                                                                                 Célia Gil

domingo, 6 de janeiro de 2019

Terra de Neve, Yasunari Kawabata

Célia Gil

Kawabata, Yasunari (2009).  Terra de Neve. Espanha: Sant Vicenç dels Horts. Biblioteca Sábado.



Em Terra de Neve, de Yasunari Kawabata, que ganhou o prémio Nobel em 1968, traduzido por Armando da Silva Carvalho, o protagonista, Shimamura, viaja de comboio, de Tóquio para um balneário das montanhas, no norte do Japão, com a intenção de descansar nas termas e de se reencontrar com Komako, que conheceu numa viagem anterior e que se teria tornado gueixa para pagar os tratamentos de Yukio, filho de uma professora de música. A relação entre eles prolonga-se durante o tempo em que o livro decorre, e que se concretiza durante as inúmeras viagens que Shimamura faz para estar com ela.

As paisagens, atitudes e acontecimentos são descritos de forma extremamente minuciosa, numa poética observação que o narrador faz constantemente de tudo o que observa, até ao mais ínfimo pormenor. Tudo o que descreve relativamente ao exterior, tem, no interior do protagonista um efeito meditativo, levando-o a empreender várias reflexões. Apesar de se sentir amado, Shimamura não deixa de sentir uma tristeza inexplicável que o domina, uma sensação de que ele e Komako se afastarão inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo.

Este livro permite ainda conhecer lugares e tradições da cultura japonesa, imaginar as tecedeiras de chijimi, um raro tecido de uma brancura imaculada feito a partir do “cânhamo colhido nos campos em declive na montanha”, que Shimamura comprava em Tóquio e com que mandava fazer alguns dos seus quimonos de Verão.

Ao longo da história paira a sombra de outra mulher, que Shimamura contempla no reflexo do vidro do comboio, cuja voz o seduz, quando fala e quando canta, Yoko. É uma personagem que não se chega a conhecer bem e que tem um fim dramático. Nunca se chega a saber a relação entre KomaKo, Yoko e Yukio, mistério sobre o qual Komako se recusa a falar. O fim dramático desta mulher é, quanto a mim, simbólico, pois com a morte dela, algo deixa de fazer sentido, perdido o brilho do seu reflexo. Estaria a relação de Shimamura e Komako também condenada?

O ritmo da narrativa é tão lento quanto a descrição é contemplativa, como a própria passagem do tempo nas montanhas. É como se se sentisse, ao ler, o frio, a aragem de uma Terra de Neve a perder de vista, um frio que repele e, ao mesmo tempo, prende e cativa.
                                                                  Célia Gil

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