sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A Água e a Águia, Mia Couto

Célia Gil

Couto, Mia (2018). A Água e a Águia. Alfragide: Editorial Caminho.


No livro A Água e a Águia, escrito por Mia Couto e brilhantemente ilustrado por Danuta Wojciechowska, tudo se passa e passo a citar “quando não era ainda nenhuma vez”, num céu de aves sobre o último rio do mundo.
Quando, certa vez, deixou de chover, a sede invadiu plantas e animais e tudo começou a morrer. Das aves caíam penas secas. Até que a águia mais velha teve uma ideia e, decidida a enfrentar a desgraça, engoliu a letra i da palavra águia e transformou-a na água com que saciou a sua sede. Imitada por todas as aves, começaram a saciar a sede nos iis até que estes acabaram por esgotar, voltando a sede a invadir e a dominar as águias. Sequiosas de letras, mas desconhecendo o alfabeto da vida, lançaram-se a todos os iis, deixando até o rio sem i.
Questionando-se sobre o que é a letra i, depois de muitas sentenças, foi uma avó águia que propôs uma solução que passo a citar “a letra i era uma mulher carregando água na cabeça. O que as águias iriam fazer seria regurgitar essa mulher." E esta águia avó, com as últimas forças que lhe restavam, subiu ao cume da montanha e regurgitou todos os iis que tinha bebido, voltando a encher o rio. Por isso as águias sobrevoam as montanhas e, ao som do seu estridente piar, caem iis como gotas de chuva.
Uma história brilhante pautada pela linguagem poética e metafórica a que já nos habituou Mia Couto. Um livro imperdível!
                                                               Célia Gil
                                                                                           

O Rosto da Avó, Simona Ciraolo

Célia Gil

Ciraolo, Simona (2017). O Rosto da Avó. Lisboa: Orfeu Negro.


Hoje trago uma sugestão um pouco diferente, um livro infantil para ser devorado em todas as idades.

Em O Rosto da Avó, de Simona Ciraolo, traduzido por Rui Lopes, no dia em que uma avó faz anos, questionada pela sua neta sobre a razão por que parece que está um pouco triste e preocupada até, a avó responde que talvez seja devido às linhas do seu rosto. 
Então, a neta decide questioná-la sobre cada uma das linhas do seu rosto e são deliciosas as respostas desta avó cujas memórias estão guardadas em cada ruga, como pequenos cofres que cobrem o seu rosto e o preenchem de vida.
                                                                                          Célia Gil
                                                                                                           

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Os Três Casamentos de Camilla S., Rosa Lobato de Faria

Célia Gil

Faria, Rosa Lobato de (2010). Os Três Casamentos de Camilla S. Alfragide: Edições ASA.

     Numa narrativa pessoal, biográfica e emotiva, Os Três Casamentos de Camilla S, de Rosa Lobato de Faria, é um romance envolvente, que cativa não só pela intensidade das vivências narradas pela protagonista, como pela beleza e expressividade da linguagem, num ritmo que envolve e prende desde a primeira página.
     Aos 90 anos, Camilla, entrega à sua neta os seus diários, para que ela os reveja, corrija e os transforme num livro de, e paço a citar, “leitura amena e portuguesa”.
Camilla vive desde cedo com os tios, após a morte precoce dos pais, vítimas de tuberculose. Paca é a sua ama de leite, uma adivinha, mestre em artes da bruxaria, que a cria, a educa e que a acompanha ao longo da sua vida e a quem Camilla considera como a sua verdadeira mãe.
     Aos doze anos, os tios comunicam-lhe que casará com um médico, Monsieur Seabra, de pouco mais de quarenta anos e, de casamento marcado, Camilla apenas questiona se pode levar consigo as suas bonecas.
     Paca ensina-lhe tudo o que Camilla tem de saber sobre o casamento, a puberdade e a entrega ao marido, aconselhando-a a que, para ser feliz, deverá escutar o seu sangue, abrir-se ao mistério e entregar-se ao prazer. O marido, entretanto, aguarda pacientemente que ela se torne numa mulher.
     Quando Camilla faz 15 anos, o marido organiza um baile para a apresentar à sociedade. Nesse baile, Camilla dança com André Sobral, a quem deixa elogiar, cortejar e murmurar o desejo de um encontro no dia seguinte.
     É quando a vê nos braços de outro, que o marido se apercebe que já é uma mulher e que lhe pertence.
     Paca prepara-a para a noite em que Emídio pretende ensiná-la, para que nunca se esqueça, do que significa ser casada.
     Mas terá o seu envolvimento com André terminado, mesmo com o afastamento que se vai impondo entre eles?
     É em Londres que Camilla é mãe pela primeira vez e que perde o marido.
Regressa a Portugal para tentar recuperar a casa da Estrela, quando recebe uma carta a mencionar as dívidas que o marido deixou em Lisboa.
     Começa a trabalhar como pianista para uma modista da época, uma tal Madame Armandine, momento da vida de Camilla de que não se orgulha, mas que contribuiu para o seu amadurecimento.
     Volta a casar, desta feita com Salomão, um engenheiro abastado, com quem também vive um período de felicidade. Tem, entretanto, outro filho, desta vez de André.
     Este acontecimento acaba por levá-la a um divórcio.
     Casa-se, depois de alguns anos, com Alexandre, um antigo amigo da família, sogro do seu filho mais velho, que lhe proporciona uma felicidade serena, um companheirismo, cumplicidade e confiança, levando-a a prescindir da paixão.

     Passo a citar duas passagens nas quais Camilla resume bem o que significaram para ela os seus casamentos e a forma como vivenciou as suas relações:
     “Não sei se conseguirei acabar de contar a minha vida, se é que ela já não se contou a si própria. Mas pelo menos, gostaria de falar dos meus três casamentos porque eles pautam a vivência de três mulheres diferentes que são todas eu. Poderia considerar três ciclos que se interligam e se separam, se sobrepõem e se distinguem, que entre si se criticam, se julgam e se perdoam: o ciclo do sonho, o ciclo do corpo e o ciclo do coração. Espero serenamente o ciclo da alma”.
     “Pensa-se que uma mulher se deita com um homem sempre pelo mesmo motivo, mas não é assim. Há mil razões para uma mulher receber um homem no seu corpo. Ao longo da minha aventurosa vida deitei-me por obrigação, por paixão, por medo, por necessidade, por amor ou por prazer mas nunca, como com o Alexandre, por ternura infinita, por repouso secreto, por procura da paz.”
                                                                               Célia Gil

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

A Última Colina, Urbano Tavares Rodrigues

Célia Gil


O livro de contos A Última Colina de Urbano Tavares Rodrigues é daqueles livros que pedem para ser lidos. Realista e crítico, não deixa de conciliar a intervenção social com um lirismo estonteante, bem como a realidade crua e dura com o fantástico, o onírico e um raio de luz a acender os olhos da esperança.

A abrir os contos, “Judas” é um conto que nos fala do confronto entre patrão e funcionários, no qual o patrão tenta convencer Jesualdo a ser seu mediador para com uma multidão em fúria. Jesualdo não se deixa subornar, nem mesmo quando é chamado de Judas por outros funcionários. Acaba por regressar a casa levando apenas na roupa as medalhas de sangue da derrota.
É do meio dos escombros, quando um grupo de jovens tenta socorrer os sobreviventes, após um sismo, que o narrador consegue ver um raio de esperança. Foi preciso um sismo para que em “Um Dia na Vida”, acordassem estes conservadores do seu ceticismo, para um empenho e fraternidade que o narrador pensara já não existirem.
Em “Aquém da Luz”, Jesualdo é um padre que cumpre os rituais de extrema-unção com a mesma aparente dignidade de sempre, apesar de há muito, depois de vastas leituras à margem da igreja, ter deixado de acreditar na religião e ter perdido a fé. Cumpre o ritual com Adosinda, sua iniciadora nos prazeres do corpo; com o Dr. Rego Cortês, um pecador que tentou violar a própria filha; uma mulher idosa que, vítima de maus tratos por parte do marido, confessa que o matou para se libertar. Sente-se dividido entre a repulsa e a solidariedade.
Nem sempre “A Mais Bela do Baile”, título de outro dos contos, acaba por ficar com o príncipe e vive feliz para sempre. Falena casa com um homem que lhe consome a herança no Casino do Estoril e que foge para Las Vegas, deixando-a com dois filhos. Nem sempre se aprende à primeira e Falena volta a envolver-se emocionalmente, desta vez com um homem casado, que acaba por optar pela família quando é descoberto pela mulher. O filho mais velho parte para a Alemanha em busca de riqueza e Falena fica a viver com o filho mais novo, um falhado, que não consegue arranjar emprego estável, vive às custas da mãe, deixa-se consumir pelo álcool e acaba por morrer num acidente.

Estes são apenas 4 dos 36 contos que compõem esta obra onde os nossos olhos descobrem frases tão belas como:
“Estávamos a meio da Primavera, o sol parecia latir nas paredes brancas e o seu peso aquecia-me os ombros”
“Adosinda, deitada de barriga para o ar, na cama baixa e um pouco descomposta, como um cobertor de lã excessivo sobre as ruínas do seu corpo, ergue para Jerónimo uns olhos implorativos”
 “…a divina mãe floresta…é a grande mãe universal, amantíssima consoladora, que por toda a parte se esconde e por vezes se recolhe na claridade dos rios, na névoa que outras vezes palpita nas matas. Ou nos lábios da própria terra gretada.”
“O dia amanheceu triste, com aves naufragando na brancura do espaço e sinais de ausência à minha volta”.

Entre contos que evocam memórias alentejanas, celebram os jubilosos dias de abril, trazem África e o desespero dos tempos coloniais, recordam Lisboa de outros tempos, lembram praias de Raúl Brandão, Urbano também aborda temas intensos como o nazismo, a Inquisição, o lesbianismo, a bruxaria, com um olhar atento, crítico, simultaneamente perplexo, onde a luz e os escombros se encontram e permanece a ideia de que a esperança se pode alcançar, ainda que seja necessário subir até à “Ultima Colina”.
                                                                               Célia Gil

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O Tempo entre Costuras, María Dueñas

Célia Gil

O Tempo Entre Costuras é um romance arrebatador de Maria Dueñas, com uma narrativa de ritmo imparável e que, apesar de extenso (624 páginas), se lê rapidamente, porque prende o leitor logo desde as primeiras linhas.

Num ambiente que contempla a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), somos convidados a conhecer a história de uma jovem espanhola, Sira Quiroga, que trabalha na costura com a mãe, no ateliê da D. Manuela, em Madrid. De casamento marcado, deixa-se envolver por Ramiro, um charmoso vendedor de máquinas de escrever, deixando para trás o noivo. Em pouco tempo, conhece o seu pai, Gonzalo Alvarado, um empresário de sucesso que resolve assumir a filha e lhe dá uma avultada quantia de dinheiro e jóias. Sira, na sua ingenuidade e cegueira de amor, confia tudo ao amante, que acaba por convencê-la a abandonar Madrid e a mãe e a partir com ele para Marrocos.

Em Tânger, depois de momentos envolventes, a relação amorosa começa a esmorecer e Ramiro acaba por fugir com a herança de Sira, deixando-lhe apenas as dívidas. É aqui que, quanto a mim, começa verdadeiramente a história de Sira. As pessoas com que se cruza, depois deste momento, serão determinantes para o seu futuro. Consegue provar que é uma grande costureira, à custa de situações em que acaba por se ver envolvida e que constituem autênticas missões de espionagem. Transforma-se numa mulher madura, segura de si, que pesponta a história ao ritmo dos seus interesses e consoante as circunstâncias com que se vai deparando.


Com excelentes críticas por parte da imprensa, é um livro com mais de um milhão de livros vendidos em Espanha.


                                                                                              Célia Gil 

sábado, 27 de outubro de 2018

Pai sem chão nem céu

Célia Gil




Sentia-se exausto. Mais uma vez, naquela postura cansada, sentado num banco, com o tronco a abalar-se nos joelhos, vergado pelo sentimento de derrota, pela frustração de quem falha na educação da filha, sabendo-se sozinho, sozinho há demasiados dias a fio, sentiu-se dominado por uma tempestade de lágrimas que o deixou encharcado, por um tufão de suspiros que lhe sorveu as poucas energias que lhe restavam, numa vida que deixara de ter chão e céu.
Pai e mãe, sem ninguém que lhe dissesse o caminho mais certo, as palavras ideais (se as há), aquelas palavras que aquecem, que mudam o rumo dos acontecimentos e criam uma bolha de ar em volta de qualquer tufão de emoções e onde apenas fica o que conforta, o que abraça, Júlio sentiu-se à beira do abismo, dele separado apenas pela sensação de dever, dele separado apenas por uma ínfima sensação de dependência (se é que esta existia para além do que é o estritamente material).
Porventura, fora muito duro, exigindo que fosse sempre boa estudante, que lutasse pelo seu futuro, que fizesse por si.
À procura dos seus erros, na memória dos últimos acontecimentos, Júlio só conseguia ouvir as palavras da filha a ferirem-lhe os ouvidos, deixando um rasto de dor em direção ao coração. “Eu faço o que quero. Quem és tu para me impores isto ou aquilo? Para me dares conselhos? Não vales nada. Não quero saber do que dizes. Não és pai, não és nada. Para ti, sou um empecilho. Eu é que sei da minha vida. Eu é que decido. E, se possível, o contrário daquilo que me dizes, que nada vale.” E tantas outras palavras que os ouvidos de um pai varrem da memória. Isto, entre gritos insolentes, palavras que ferem menos do que o olhar que as acompanha, um olhar de desprezo roçando o nojo, mais que uma chapada, um escarro na cara.
Nessas alturas, cai por terra tudo o que foi, os sacrifícios, o amor incondicional que sempre deu à filha, o quanto trabalhou para que nada lhe faltasse, as horas a passar a sua roupa, a limpar,  sem lhe pedir nada, para que ela não perdesse tempo e estudasse pelo seu futuro. Só nunca tivera consciência de que nesse futuro, ela não o incluía.
Afastados, meses sem se falarem, numa troca de olhares circunstanciais sem sentimento…
Sentado naquele banco, sozinho, agora abraçado aos joelhos, encharcava-se na sua tempestade de emoções. Sentia-se tão inútil, tão vazio… Errara na educação, errara na vida…Errara!

                                                                                                                   Célia Gil

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Oferendas

Célia Gil
Percorro um rasgo de luz
que embate no meu olhar.
A cada momento,
a cada novo olhar,
tudo se nos oferece,
tudo se nos revela.
À distância
de um olhar atento.
Alento que ilumina o dia,
lhe dá cor,
toque de sabor
a irradiar

luz, em mais um dia cinzento.

(https://unsplash.com/photos/qUFmzR-MKrs)

domingo, 7 de outubro de 2018

Por Monsanto e Penha Garcia

Célia Gil
A zona do interior, onde vivo, tem também, como em todo o meu país, paisagens lindíssimas e de cortar a respiração! Partilho para que possam apreciar!

Monsanto situa-se a nordeste das Terras de Idanha, aninhada na encosta de uma elevação escarpada - o Alcandorada num cabeço que se impõe ao olhar na maior parte dos horizontes, a Aldeia Histórica de Portugal de Monsanto detém um encanto singular, para o que contribuem os dois títulos atribuídos no séc. XX – Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, em 1938, e o de Aldeia Histórica em 1995. Ícone turístico da região, Monsanto é uma experiência peculiar para quem a visita. Concederam-lhe foral D. Afonso Henriques, D. Sancho I, D. Sancho II e D. Manuel. A parte mais antiga está no ponto mais alto, onde os Templários construíram uma cerca com uma torre de homenagem.
Monsanto (Mons Sanctus) - Trata-se de um local muito antigo, onde se regista a presença humana desde o paleolítico. Vestígios arqueológicos dão conta de um castro lusitano e da ocupação romana no denominado campo de S. Lourenço, no sopé do monte. 
In http://www.aldeiashistoricasdeportugal.com/monsanto










Penha Garcia
Na Beira Baixa, a poucos quilómetros de Espanha, uma povoação típica espraia-se pela encosta da serra. A sua posição privilegiada de defesa terá sido um dos motivos da fixação neste lugar de um povoado neolítico, mais tarde transformado num castro lusitano e, depois, numa povoação romana. Mas não terá sido menor a atração exercida durante séculos pela existência de ouro por explorar no leito do rio Pônsul. Hoje, os principais atrativos para quem visita Penha Garcia são, sem dúvida, a vista deslumbrante que rodeia a vila, a originalidade do seu castelo, empoleirado no cimo da penha, e as marcas que a natureza e a história deixaram neste lugar. Venha conhecer esta terra plena de lendas e tradições, com todo o encanto da Beira Baixa.
As muralhas de Penha Garcia
Construído, possivelmente, no reinado de D. Sancho I para ajudar a proteger a fronteira portuguesa das investidas de Leão, o castelo de Penha Garcia foi doado por D. Dinis aos Templários mais de cem anos depois, regressando à posse da coroa no século XVI, com a extinção das ordens.
Vale a pena subir ao cimo da penha para percorrer as imponentes muralhas e observar a magnífica paisagem que rodeia a povoação. As pedras contam-nos a lenda de que, naquele lugar, vagueia ainda o fantasma do antigo alcaide do castelo, D. Garcia. Depois de raptar a filha do governador de Monsanto, D. Branca, o nobre terá sido capturado e condenado à morte. Mas os apelos de D. Branca por misericórdia, valeram-lhe a redução da pena. Condenado a ficar sem um braço, D. Garcia é ainda hoje conhecido por “o decepado”.
Icnofósseis de Penha Garcia – as cobras pintadas
Se o homem deixou a sua marca em Penha Garcia, o mesmo se pode dizer da natureza. Um dos maiores tesouros da povoação encontra-se nas rochas quartzíticas com 490 milhões de anos. No tempo em que todos os continentes estavam unidos em torno do Pólo Sul, os mares eram habitados por organismos invertebrados que se deslocavam nos substratos arenoargilosos, deixando marcas. A essas marcas, que ficaram preservadas nas rochas sedimentares e são visíveis ainda hoje em Penha Garcia, o povo chama as cobras pintadas e os cientistas icnofósseis. E se as gentes de Penha Garcia se habituaram há muito à sua presença, os investigadores continuam a estudá-las, considerando-as um importantíssimo contributo para o conhecimento científico de um passado com milhões de anos.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Os Loucos da Rua Mazur, João Pinto Coelho

Célia Gil

Coelho, João Pinto (2017). Os Loucos da Rua Mazur. Alfragide: Leya.


Neste romance, João Pinto Coelho aborda a história de uma comunidade da “rua Mazur”, situada na Polónia, uma sociedade que convivia pacatamente, não fazendo prever a crueldade praticada pelos cristãos em relação aos judeus durante a II Guerra Mundial. O convívio inicial é substituído, de forma perversa, pela denúncia e antissemitismo extremistas, que acontecia entre os polacos, sem que fossem necessários campos de concentração para se viver uma situação infernal de fragmentação da sociedade e de execução.
Uma narrativa que nos prende desde o início e para a qual é necessária alguma concentração, uma vez que vai mudando o espaço, o tempo da ação e os próprios acontecimentos se vão intercalando.
Tudo começa com dois velhos, Yankel, cego, dono de uma livraria em Paris, que só aceitava como amantes quem se transformasse nos seus olhos e lhe prometesse “maratonas de leitura” e Eryk, amigo de infância de Yankel, que o procura para escrever um livro, depois de anos a fio a escrever supostos ensaios do único que queria escrever. Para tal, considera que precisa da ajuda de Yankel que, apesar de cego, teve sempre uma visão mais ampla de todos os momentos e acontecimentos. Apresenta-se na livraria com a sua mulher, Vivianne, a fria editora de Eryk. Mas quem seria mesmo esta Vivianne? EryK está doente e não quer morrer sem se redimir com o livro que quer escrever.
A narrativa, a partir deste momento, passa a ser a duas vozes, a de Yankel, que fala e a de Eryk, que escreve, dando dinamismo e diferentes perspetivas de cada acontecimento.
Eryk decide começar este romance pela inocência e é assim que conhecemos a história de Yankel, Eryk e Shionka, na adolescência. Um triângulo perturbador de amizade e amor. O primeiro, cego e judeu; o segundo, cristão e maquiavélico e a última, uma bela jovem convenientemente muda. E é neste ambiente inocente que começa a ser brilhantemente abordada a história de uma comunidade polaca de shtetl, uma pequena cidade no leste da europa, de cristãos e judeus, de sãos e loucos, que se fragmenta com a invasão de alemães e russos, uma invasão cruel que haveria de a dizimar.
“Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.”
Os Loucos da Rua Mazur, prémio Leya 2017, é, sem dúvida, um livro marcante que aconselho vivamente à leitura.
                                                                                                             Célia Gil

domingo, 16 de setembro de 2018

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón

Célia Gil

Ruiz Zafón, Carlos (2006). A Sombra do Vento. Lisboa: Dom Quixote. 8.ª edição.


Hoje venho sugerir a leitura de A Sombra do Vento, de Ruiz Zafón, um livro intrigante, emocionante e envolvente.  Com um ritmo alucinante, que prende o leitor nas primeiras páginas, é um livro de 507 páginas que apetece ler todo de seguida. A linguagem ora choca o leitor pela forma direta e abrupta como as palavras chicoteiam, ora deleita com a sua poeticidade.
Tudo começa na cidade espanhola de Barcelona, no ano de 1945. Daniel Sempere completou 11 anos. Ao ver o filho triste por não conseguir lembrar-se do rosto da mãe, que morrera, o pai dá-lhe um presente inesquecível: certa madrugada, leva-o a um lugar único e que se envolve em mistério, no coração do centro histórico da cidade, o Cemitério dos Livros Esquecidos. Um lugar desconhecido por quase todos. É uma biblioteca secreta e labiríntica que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo, à espera de que alguém as descubra. É lá que Daniel encontra um exemplar de A Sombra do Vento, de Julián Carax. Este livro desperta em Daniel um enorme encantamento por aquele autor desconhecido e pela obra, que ele descobre ser vasta. Obcecado, Daniel começa então a procurar os restantes livros de Carax e, para sua admiração, descobre que alguém tem queimado regularmente todos os exemplares de todos os livros que o autor já escreveu. Na verdade, o exemplar que Daniel tem em mãos pode ser o último existente. E ele logo irá entender que, se não descobrir a verdade sobre Julián Carax, ele e aqueles que ama poderão ter um destino terrível.

Quanto mais o interesse dele pelo livro aumenta, mais coisas estranhas acontecem e mais desconfortáveis ficam as pessoas que conhecem parte do mistério que envolve Carax. Outras personagens como Clara Barceló, Tomaz Aguilar, Beatriz Aguilar, o Inspetor Fumero e Fermín Romero são apresentados, todos contribuem para deixar a história cada vez mais envolvente, mas a personagem que se torna imprescindível para a compreensão do enredo, que deixa a Daniel uma carta esclarecedora antes de morrer, é Nuria Monfort.

Resultado de imagem para a sombra do vento


                                                                                                         Célia Gil

domingo, 9 de setembro de 2018

Gran Canária

Célia Gil
Este ano tive o prazer de conhecer Gran Canária, que é uma das Ilhas Canárias espanholas a noroeste de África. É conhecida pelas praias de areia branca e de lava negra. As praias a sul incluem a movimentada Playa del Inglés e Puerto Rico, bem como as mais tranquilas Puerto de Mogán e San Agustín. A norte, a capital, Las Palmas, é paragem obrigatória para os navios de cruzeiro e para compras isentas de impostos. O interior da ilha é rural e montanhoso.

Deixo algumas fotos para poderem apreciar esta bela ilha! 











  


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Escrever

Célia Gil



Com a mesma simplicidade
com que respiro,
com a mesma intensidade
com que suspiro,
com a mesma naturalidade
com que inspiro.
Sem imposições de moda,
sem técnicas ou tendências...
Escrever como quem acorda,
vê o mundo, faz inferências.
Escrever como a planta
que expande as suas raízes,
pela folha em branco,
ideias desconexas
conectadas por sentimento.
Escrever como quem ainda se espanta
em cada novo olhar,
em cada nova primavera, 
em cada novo lugar,
em cada nova esfera...
Apenas ser.
Escrever.
                          Célia Gil

terça-feira, 14 de agosto de 2018

A Casa Quieta, Rodrigo Guedes de Carvalho

Célia Gil

Carvalho, Rodrigo Guedes de (2009). A Casa Quieta. Leya.


     Este livro, que vai sendo narrado por diferentes personagens, permite-nos ter uma perceção do que pensa cada uma delas, pelo que facilmente ficamos íntimos destas personagens tão reais. Salvador, um arquiteto, é casado com Mariana, que se debate, em fase terminal, com um cancro que a vai consumindo. O irmão de Salvador, António, é um antigo combatente, sofre de um trauma de guerra. Todo este enredo triste é tão convincente que somos levados a sofrer com as personagens.
     Os capítulos têm sempre o mês a que se referem no início, não seguindo um tempo cronológico linear, com analepses que nos explicam pormenores anteriores, que, curiosamente, sentimos necessidade de ir percebendo.
     Com uma escrita oralizante, intimista, Guedes de Carvalho aborda uma temática quotidiana para quem já perdeu para o cancro um ente querido, de forma tão real que conseguimos sentir a dor das personagens, as suas dúvidas mais comezinhas e as suas considerações mais comuns.
     Passo a ler algumas passagens demonstrativas do poder das palavras de Guedes de Carvalho:
“É então isto a morte. Abrires os olhos à espera de uma revelação e esbarrares no nada.” (Pág. 9)
“Havia um relógio de parede que nunca funcionou mas de que gostávamos como se funcionasse, como se tivesse préstimo. Eram as nossas coisas. Agora são coisas.” (pág. 247)
Tu eras (…). Tu eras as luzes acesas. Eras uma casa à minha espera. (…) A fechares o mundo lá fora”. (Pág. 247)
“Filhos, doutor, (…) levam o que temos de melhor sem nunca nos devolverem, ainda que esperemos, (…)”
“Um bebé é só mais uma pessoa que vai morrer. Havemos de cuidar dele, de o entreter, de lhe comprar roupa e dar a papa, de o levar à escola, de o levar ao dentista. Ele há-de estudar, tirar boas ou más notas, vestir-se sozinho (…), tirar a carta, abrir guarda-chuvas e rir das tempestades, rebolar-se na cama com outros corpos igualmente frescos secos firmes robustos, consultará as pautas de notas afixadas, irá festejar a passagem de ano, há-de abrir e oferecer presentes, dizer amo-te e sofrer por amor. (…) Um bebé é só mais uma pessoa que vai morrer.” (pág. 242).

                                                               Célia Gil

quarta-feira, 25 de julho de 2018

A Livraria, Penelope Fitzgerald

Célia Gil

Fitzgerald, Penelope. A Livraria. Lisboa: Clube do Autor. 2011.
  
Penelope Fitzgerald é uma das mais notáveis escritoras da ficção britânica. Foi distinguida, em 1959, com o seu romance Offshore, com o Booker Prize.



A Livraria foi traduzido por Eugénia Antunes e conta a história de Florence Green, uma mulher de meia idade, viúva, que decide abrir uma livraria numa pequena vila costeira, em Inglaterra, a única livraria da terra. Para tal, adquire um casarão, o Old House, que, apesar de decrépito e com um suposto fantasma, é desejado por pessoas influentes que queriam transformá-lo num Centro de Artes.
Inesperadamente, Florence recebe um convite para uma festa do General e de Mistress Gamart, onde a cortesia com que é recebida, tem oculta a intenção subjacente de a convencer a não abrir a dita livraria. Mas, contra tudo e todos, Florence leva avante o seu sonho e abre a livraria. Tarefa pouco facilitada por alguns habitantes da aldeia.
Só uma jovem de 10 anos, Christine, se oferece para a ajudar nas suas horas livres, depois da escola.
Com a sua influência, os opositores e interessados na Old House conseguem determinar a criação de uma nova lei que determinava que os edifícios antigos deveriam ser sujeitos a aquisição compulsiva ainda que no momento se encontrassem ocupados, contando que se tivessem encontrado vagos no passado durante mais de cinco anos.
Quando Old House foi requisitada ao abrigo desta nova lei, Florence sentiu-se a mais naquela vila, apanhou o comboio para Liverpool Street, com a perfeita noção de que a vila nunca quisera verdadeiramente uma livraria.
                                                                                                    Célia Gil

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Teu Rosto Será o Último, João Ricardo Pedro

Célia Gil
Pedro, João Ricardo (2012). O Teu Rosto Será o Último. Alfragide: Leya.


  
Prémio Leya 2011, O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, é um livro que nos conta a história de uma família que, sem ser uma história linear, pois trata-se de três gerações, que vão sendo retratadas de forma alternada, encaixam-se todas no final, através de uma personagem que serve de elo de ligação entre elas, Duarte, uma criança. Uma família marcada por longos anos de ditadura, pela revolução de abril, pela repressão política e pela guerra colonial.
Em traços muito gerais, tudo começa com Augusto, o avô de Duarte, um médico que compra uma casa na Gardunha, entre o Fundão e Alpedrinha e que aí se estabelece (curiosamente, a certa altura é explicado que Gardunha quer dizer “refúgio, ou esconderijo. Em árabe”). Compra a propriedade a um amigo, Policarpo, que segue o seu sonho de viajar pela Europa e lhe vai escrevendo cartas que ele guardará na sua biblioteca. Estas cartas serão, mais tarde, lidas pelo próprio neto, o Duarte, ajudando a formar a sua personalidade.
António, o pai de Duarte, teve, por sua vez, uma vida de sacrifício, fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra, que havia de ser a mãe de Duarte, numa livraria.
Duarte, uma criança dotada de um grande talento, um pianista precoce e prodigioso, cresce no meio destas histórias, das cartas de Policarpo ao avô, de tragédias familiares, da morte do seu amigo Índio, da doença da mãe, e cresce nele uma revolta que o deixa de costas voltadas para o piano. Nem o médico o consegue ajudar a resolver esta incompatibilidade:

“Depois de um longo silêncio, o médico perguntou-lhe se, quando ouvia essas músicas tocadas por outros pianistas, experimentava a mesma sensação.
Duarte respondeu que nunca ouvia música. Não tinha discos. Não ia a concertos.
O médico perguntou-lhe se gostava de música.
Duarte não soube responder.
O médico perguntou-lhe porque começara a tocar piano.
Duarte disse: “Não fui eu que comecei a tocar piano. Foram as minhas mãos.”

Se ainda não leu, não pode deixar de conhecer esta família, os episódios hilariantes, contados com um grande sentido de humor, bem como os dramas que constituem a vida de tantos portugueses. Um romance a não perder, O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro. 
                                                                            Célia Gil

terça-feira, 10 de julho de 2018

As Velas Ardem até ao Fim, Sándor Márai

Célia Gil

Márai, Sándor. As Velas Ardem até ao Fim. Lisboa: Dom Quixote. 2001.


     Uma obra traduzida por Mária Magdolna Demeter, As Velas Ardem até ao Fim de Sándor Márai, lê-se num ápice.  Além de pequeno, prende o leitor, que quer saber a história de dois amigos, Konrád e Henrik, que se reencontram na velhice.
     Henrik, um velho general que vive num castelo recôndito e decadente, na Hungria, aguarda ansiosamente o regresso do amigo de longa data e recorda os tempos passados, a sua família, a forma como acolheram Konrád, até à sua partida inesperada para os trópicos. Espera ver esclarecidas algumas dúvidas que não o deixarão descansar em paz, dúvidas que apresenta com laivos de uma vingança decorrente de traição. O seu melhor amigo não o tinha apenas traído com a esposa, tinha, sobretudo, traído a sua amizade, a cumplicidade as vivências que tiveram, de quem cresceu e formou a sua personalidade em conjunto, de quem foi dependente, de quem amou profundamente. Precisava compreender por que razão Konrád o quisera matar, durante uma caçada, e por que não o fizera.
     O momento do reencontro, 41 anos depois, descrito como: “Era o momento em que a noite se separa do dia, o mundo de baixo do mundo de cima. (…) É o último segundo em que a profundidade e a altura, a luz e a escuridão, tanto universal como humana, ainda se tocam (…)”, foi um momento marcado por longos silêncios, pelo monólogo de Henrik, a que Konrád responde no seu silêncio, por recordações dolorosas, pela reflexão sobre o valor da amizade, os segredos, a solidão decorrente do afastamento, a desilusão ante a “fuga” inesperada e a noção da inutilidade do ciúme, da vingança e dos remorsos. Uma longa conversa, em que “As Velas Ardem até ao Fim”. Um livro de Sándor Márai que não pode deixar de ler. 
                                                                                              Célia Gil
                                                                                                                                              

domingo, 1 de julho de 2018

A Porta, Magda Szabó

Célia Gil

Szabó, Magda. A Porta. Cavalo de Ferro.



         Um romance escrito pela húngara Magda Szabó, traduzido por Ernesto Rodrigues, conta-nos a estranha história de uma relação entre duas mulheres – a patroa, jovem escritora e a sua empregada, Emerence, já idosa.
         Quando contrata Emerence, Magda percebe que ela é diferente das outras empregadas. É ela que sujeita a patroa a um exame que a fará perceber se quer ou não trabalhar para Magda. Aliás, chega a afirmar “Não lavo a roupa suja de qualquer um”.
           É ela que estabelece as regras.
         Emerence é dura, rude, fria e enigmática, mas também muito trabalhadora, atenta, e surpreendentemente dedicada. É esta personalidade que faz com que seja respeitada e até temida pela vizinhança.
         Da sua vida pessoal, nada dá a saber, mantendo o seu passado em segredo, a sua vida fechada a sete chaves, atrás de uma porta que não abre para ninguém.
         Apesar da aparente impossibilidade de se entenderem, Magda e Emerence, dadas as suas diferenças (Magda é escritora, Emerence não lê, nem sequer jornais; Magda é religiosa, Emerence despreza a religião; Emerence não compreende o emprego de Magda enquanto escritora, pois, segundo ela, um emprego era algo que exigia esforço físico), não conseguimos deixar de ficar surpreendidos, perturbadoramente fascinados, quando percebemos a forte relação existente entre elas.
         Magda chega a dizer “Segui-a com os olhos perguntando-me porque se agarrava a mim, quando era tão diferente dela, não percebia do que ela gostava em mim. Eu já escrevia, era ainda jovem, não analisara a fundo até que ponto a paixão é um sentimento lógico, mortal, imprevisível…”
         O certo é que, aos poucos, estabeleceu-se entre elas uma amizade, ainda que comandada por Emerence, que vai dizendo até onde esta amizade pode ir.
         Até o cão de Magda é a Emerence que obedece, é a ela que vê como dona. O magnetismo que tem com o cão, a quem deu o nome de Viola, é o mesmo com que atrai Magda para a sua vida, para o seu mundo secreto, para a sua porta.
         O seu passado é desvendado aos poucos, como se também não quisesse ser dado a conhecer.
         A Porta é um romance escrito na primeira pessoa, com laivos de autobiografia, onde a própria Magda Szabó nos fala desta amizade e dos erros que considera que vai cometendo. Um romance imperdível. Este é o meu conselho de leitura.
                                                                                                   Célia Gil


sábado, 23 de junho de 2018

Carochinha moderna

Célia Gil


Um pequeno filme que aprendi a fazer no Studio Stop Motion, ainda muito simples. Mas foi divertido!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Esvaziamento do ser

Célia Gil

(https://unsplash.com/photos/ll3fwwExWc0)

Dulce estava consciente de que a vida galgava a um ritmo alucinante. Entre milhares de tarefas diárias, sentia se, no entanto, só. Na sua luta diária, tantas vezes incompreendida, onde criara o hábito de corresponder ao que queriam dela - ia às compras, preparava as refeições, arrumava, limpava, tratava da roupa, dos horários e... esperava. Aprendeu a esperar calada, porque tudo o que espontaneamente dizia, era erroneamente interpretado. E ai dela se ousasse queixar-se! Não fazia nada de mais, tomara muita gente! Tinha uma vida de rainha! E todos os dias as tarefas de todos os dias se repetiam ao som dos ponteiros de um relógio inimigo e imparável.
Dulce aprendeu a calar-se, a consentir, a assentir. Porém, aos poucos, foi deixando de ser, até se esvaziar qual autómato que se limita a responder a vozes de comando, uma boneca de trapos cada vez mais velha e inútil.
Os olhos foram apagando o brilho. As lágrimas secaram, deixando um olhar baço de desamor. Os seus olhos ainda seguiam o rasto do afastamento dos que amava. Afastavam-se sob falsos pretextos, vivendo vidas paralelas, onde ela deixara de pertencer, onde  fora remetida ao mesmo valor dos objetos da casa.
Deixara de ser, de se pertencer. Apagara-se-lhe a sede de viver, de sorrir com as pequenas coisas, de chorar com outras tantas. A porta fechava-se-lhe irremediavelmente por fora e por dentro e o lugar que habitava na alma fora escurecendo até deixar de o ver, de o sentir, de o temer nas suas penumbras, onde a ausência de tudo são paredes vazias de encontro às quais a alma embate.
E se  o coração ainda lhe bate, é porque tenta ignorar e não se consciencializa da ausência de vida que arrasta.
Dulce, numa vida tão amarga quanto a demência. Mais amarga que a demência, porque lhe resta uma lucidez que a faz continuar a ter consciência da sua degradação, do seu não eu. 

                                                                                                                      Célia Gil

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