domingo, 6 de junho de 2010

A minha avó paterna

Célia Gil


Desde pequena que a minha avó paterna foi uma figura marcante na minha vida, porque foi sempre uma força da natureza. A imagem que retive da infância é a de uma mulher muito exigente com ela e com os outros. Atrevo-me a dizer que essa exigência a tornou numa pessoa implacável, dura e, muitas vezes, cruel na forma como falava com os demais. Mas foi também uma das minhas contadoras de histórias e uma das pessoas que me foi alertando, na adolescência, para todo o processo de transformações que o meu corpo sofreria. Foi ainda quem me levou à missa, orgulhosa com a presença da neta.
Mas não era a imagem da típica avozinha que acarinha os netos. Tinha vaidade e gostava de incutir essa vaidade. Tínhamos de ter o cabelo sempre impecável, os dentes esfregados com limão para branquearem, as costas direitas, estar bem vestidas e com óptima apresentação, correndo o risco, segundo ela, de afastarmos os maridos. Quantas vezes precisei de um carinho e recebi uma crítica? Talvez a minha auto-exigência comigo própria advenha destas exigências que ela me fazia.
Esta força da natureza era oriunda de famílias humildes, trabalhou desde criança, carregando um cesto de peixe que ia vender, a pé, às Minas da Panasqueira. Passava fome, chegando a arrancar ervas de muros para comer. Mas nunca desistia. A sua força de vontade era inata.
Esta força da natureza casou muito cedo, como seria de esperar, uma pessoa que vivia numa aldeia, onde uma rapariga casadoira era um estorvo em casa dos pais. Teve três filhos homens, o que sempre a deixou frustrada, porque queria meninas. Mas foi sempre uma mãe extremosa, apesar de muito dura, exigente e cruel. Num dos seus muitos relatos sobre a sua vida, fiquei a saber tudo aquilo por que passou com o filho mais velho, desde o momento em que uma menina que lhe pegou ao colo o deixou cair numa braseira, deixando-lhe o rosto queimado, a vinda a pé de Silvares para o Fundão, com ele numa cesta à cabeça, a procura insistente do médico, o sangue frio para ela própria fazer com que a cinza viesse ao de cima, arrancando-lhe a pele danificada, perante os gritos de aflição do filho. Outro momento em que veio também ao Fundão com ele com uma pneumonia em último grau, em que o médico a desenganou e lhe disse que só o salvaria se lhe conseguisse, com paciência, abrir uma chaga por baixo do peito, para que deitasse toda a infecção fora, mas que o mais provável era não resistir. A minha avó fechada em casa, não respondendo a quem lhe batia à porta para socorrer a criança que gritava de dores, mas não desistiu enquanto não lhe abriu a dita chaga e o curou, mesmo ante os protestos dos restantes familiares. E quantas outras viagens a pé, de Silvares ao Fundão, com os filhos numa cesta, à cabeça, cheios de febre, não descansando enquanto não fossem vistos por um médico.
Esta avó que emigrou para Angola, que teve de se adaptar a uma vida nova, que sempre trabalhou, já numa última fase em África numa cantina da messe. Que perdeu o meu avô, num acidente de viação, com cerca de quarenta anos. Que, quando viemos embora de Angola, ficou lá para tratar do meu pai e dos primos que fizeram lá a tropa e, consequentemente, a guerra. Era ela que tratava deles, lhes dava de dormir, comer e lhes lavava a roupa.
Como foi sempre ela a lutar por todos, habituou-se de tal forma a mandar, que sempre teve essa necessidade de saber de tudo, mandar em todos, qual matriarca responsável pela família. Isso fez com que os meus pais e tios nunca tivessem realmente vida própria, sem que ela tivesse de dar o seu parecer, sem que ela desse o seu aval em relação a tudo e todos. Controladora, inabalável, inesgotável…
É muito difícil caracterizar a minha avó. A mulher que, mesmo depois de tudo por quanto passou, quando regressou a Portugal se voltou a casar, que eu via em cima de escadotes a fazer as suas limpezas a fundo na casa, que estava sempre impecavelmente limpa e arrumada. Que foi trabalhar como auxiliar da acção educativa, primeiro na Covilhã, depois no Fundão e, finalmente, em Silvares. Que trabalhou enquanto pôde. Que a par da Escola, tinha um pequeno terreno onde cultivava um pouco de tudo. Que fazia belas refeições salgadas e sobremesas que a todos deliciavam. Cujos fins-de-semana serviam para fazer rissóis, filhoses, biscoitos e outras tantas coisas. Nunca a vi parada. Com os ossos danificados pelos grandes frios passados na infância, nunca vergava, apesar de se queixar com frequência. Com setenta anos, frequentava o grupo de ginástica da Casa do Povo de Silvares. Sempre se preocupou com a pele, a tratou com cremes, se perfumou, se vestiu bem e gostou de usar as suas jóias. Quando surgia uma coisa nova, gostava de ser das primeiras a tê-las, fosse a televisão, o microondas, o telemóvel… Ainda que com muito poucos estudos, sempre escreveu e leu. Gostava de ler romances, jornais e revistas, de estar informada e de informar.
Muitas vezes me questionei de onde lhe vinha esta força, mas nunca obtive resposta. O que é certo é que sempre a admirei, respeitei e até temi. Não se fazia igualmente rogada em dar um “sermão” quando não se fazia o que queria e como queria.
Passou ainda pela morte de um filho, o meu pai, com doença prolongada, tendo este apenas quarenta e nove anos. Sempre se reergueu, mesmo quando todos estávamos em baixo, sempre nos obrigou a levantar, ainda que, muitas vezes, sem um pouco de dó nem de piedade.
Hoje, com oitenta e oito anos, os ossos fazem-na usar um selo de morfina muito forte, mas ainda vai à missa a pé, corre para o telefone, vê televisão. E apesar de já se encontrar em casa dos meus tios/padrinhos, ainda faz questão de se meter em todas as conversas, opinar e querer controlar a sua vida. Não quer perder a sua função de matriarca, apesar de, às vezes, se revelar egoísta, egocêntrica e continuar implacável nos seus comentários.
Esta é a minha avó paterna e, apesar de todos os defeitos que possa ter, é, sem dúvida, um exemplo de coragem, de força e resistência às adversidades da vida. E é por isso que a admiro e sempre a admirarei!
                             Célia Gil

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