quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A outra face da dor - o poema que ouvi pelo coração

Célia Gil
(imagem do Google)

Filha,
quero que saibas
e me perdoes,
me autorizes a partir…
Sabes,
sinto-me tão cansada
deste viver que já não é vida.
Mas tu…
Sei que estás triste
E aguentarei a dor
para que sofras menos.
Aguentarei…por quanto tempo?
Mais uns meses, mais uns dias,
umas horas…quem sabe?
Não aguento ver a dor estampada no teu rosto,
a tua angústia, o teu desgosto.
Filha,
Aperta-me a mão com força,
a minha escasseia
mas está aqui
nos meus olhos abertos
que te vêem mesmo que o duvides.,
mesmo que me sintas já ausente.
Por favor,
Faz-me um carinho no rosto,
Quero sentir a tua pele,
o teu calor no frio que me assola.
Filha,
Dá-me um beijo
para levar comigo
esse elo de amor que nos une.
Sei que te vou fazer falta…
Sei bem demais!
Mas as dores vão aumentando.
Se soubesses como dói!
A dor física e a dor de te deixar
mais tarde ou mais cedo.
Eu não quero,
mas o meu corpo chora,
todo ele chora
e geme em agonia.
Como eu queria lutar contra tudo,
levantar-me e abraçar-te.
Ir para casa,
cuidar dos netos,
ser a tua Mãe!
Mas as dores voltam, filha,
e são mais fortes do que eu.
Sinto que perdi esta batalha com a morte,
essa toda poderosa
que está aqui, neste quarto de hospital
à minha espera
à nossa espera.
Queria tanto chamar por ti,
dizer mais uma vez o teu nome
o quanto te amo,
mas as palavras já não saem
e a minha boca abre-se num gesto vazio…
Sinto que perco esta guerra que travámos durante três anos,
com uma força inexplicável,
uma fé inabalável
uma esperança infindável.
Mas tudo termina,
as forças foram-se com a dor.
E eu estou cada vez mais longe de mim mesma.
Filha,
dá-me a tua mão,
quero repousar em paz.
Quero acabar com este suplício.
Eu vou, mas fico na tua memória,
sei que fico,
nas lembranças,
nos lugares,
nas alegrias e tristezas que vivemos…
Nas encruzilhadas da vida,
lá estarei para te sugerir o melhor caminho a seguir.
Apoiar-te-ei na tua dor,
Mesmo já não estando presente.
Preciso partir!
                                        Célia Gil

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Aventuras de um passarinho sonhador

Célia Gil


Certo dia, um passarinho,
tendo caído do ninho,
escondeu-se por detrás dum arbusto
julgando-se forte e robusto.
Decidiu então
viajar pelo mundo,
e, de mansinho,
foi de arbusto em arbusto,
entregue a um sonho profundo.
Encontrou um coelhote
já um pouco entradote
que lhe quis dar abrigo.
Coitado do passarito!
O coelho estava faminto.
Já na toca do coelho,
sentiu-se enclausurado
e resolveu fugir
olhando o coelho para outro lado.
Correu dias a fio,
já se sentia cansado…
Parou junto ao rio
Caiu e ficou molhado.
Por ali passava um cão
esperto, espertalhão,
convidou-o a acompanhá-lo.
Bela quinta o esperava,
não viu o passarinho
que queriam enganá-lo.
Chegados então à quinta,
viu muitos animais
Patos, porcos, vacas,
e outros tantos que tais,
mas não viu sequer pardais.
Logo estranhou o passarinho
quando o rodearam.
Cheirando-o todinho
a ele se atiraram.
Mas de entre a algazarra,
esgueirou-se o pobrezinho,
e enquanto bulhavam,
seguiu ele o seu caminho.
Depois de muito pensar,
decidiu regressar.
Era mesmo o mais prudente,
ficava mais quentinho
dentro do seu ninho.
A mãe o alimentava
e com mimo o tratava.
Só um dia,
sendo uma grande ave,
dali sairia,
pelo mundo viajaria.
De cabeça deitada
sonhava, sonhava…
enquanto a mãe o acarinhava.
                                  Célia Gil

Ti Elvira

Célia Gil

Era uma mulher estranha. Na terra diziam que era bruxa, fazia todo o tipo de feitiços que lhe encomendavam. No entanto, no seu ar enrugado, desenhava-se um mistério infindável. Dos rasgados olhos negros emanava uma aura que a arrepiava, fazendo-a mudar o rumo dos seus passos, mal a via, cortando por qualquer outra ruela. Os cabelos, ralos já, finos, ressequidos e cansados, pareciam untados com um escuro azeite rançoso. Nas mãos, veias profundas, sinuosas como o rio Douro, pareciam rebentar a qualquer momento. E a voz? Essa era assustadoramente profunda, grave e cava.

Para uma criança da idade de Maria da Luz, de apenas dez anos, a Ti Elvira era misteriosamente medonha. E aquela imagem dormia com ela, ensombrando as suas noites, perseguindo os seus dias. Tinha consciência de que ela exercia sobre si um grande fascínio e poder. A qualquer momento seria capaz de transformar a sua vida. A ela cabiam as decisões sobre o futuro de Maria da Luz. Da Ti Elvira teriam vindo todas as maleitas que a caracterizavam até então: as suas sardas, o seu corpo franzino, os seus olhos esbugalhados, o seu cabelo de arame, os seus lábios sempre rebentados. De cada vez que a olhava, lhe aparecia algo que a irritava, que detestava nela mesma.

Durante anos Maria da Luz foi perseguida por este ser estranho, que lhe determinou o destino, que a martirizou toda a juventude, traçando-lhe o futuro sinuoso com que se depararia. Todas as controvérsias da vida provinham dela, só dela.

A família acreditava Maria da Luz pouco saudável, não só fisicamente como psicologicamente. E quando tentava queixar-se dos seus receios, ninguém se dignava a ouvi-la. Sempre franzina e doente, constituía um estorvo para todos. Além disso, nascera sem ser desejada, tendo o seu irmão mais velho completado vinte cinco anos. Os seus pais ralhavam muito um com o outro, acusando-se mutuamente pelo surgimento da “fedelha”. A mãe acusava o pai, por ela não ser saudável, lembrando-o constantemente das sovas que lhe dera durante a gravidez. Ele dizia-lhe que já então era velha e recordava-lhe que devia ter interrompido a gravidez. “A Antónia podia tê-lo feito”, ele até falara com ela!” Mas a mãe de Maria da Luz logo se interpunha, arreganhando os dentes ferozes para lhe atirar à cara que ele tinha um caso com a Antónia. De todos, apenas a sua prima Teodora se dignava a falar-lhe, a perguntar-lhe como ia, sem, no entanto, lhe dar muita confiança, não fosse Luz abusar.

Foi precisamente a Teodora que, para ver se ela deixava de falar de bruxas, lhe levou um romance. Começou a lê-lo e a evitar, a todo o custo, a bruxa, nunca passando na sua rua, fugindo dos locais que frequentava e que ela conhecia tão bem, inclusive as horas a que os frequentava. Mas foi por pouco tempo. Aos poucos, o romance adquiriu novos contornos e a personagem principal passou a ser ela. Tudo quanto lia lhe fazia crer que, estando ela a evitá-la, lhe surgia de outra forma, por meio do romance que lia. Não aguentou muito mais tempo. Ao mesmo tempo que a receava, ansiava vê-la.

Certo dia, passando Luz à sua porta, ela chamou-a com a sua voz cava. Ao olhar para a janela, da qual lhe chegava a voz arrastada dela, pediu-lhe que lhe fizesse um favor, que estava doente e só ela poderia ajudá-la. Entregou-lhe uma lista de compras, no mínimo estranha, de onde constavam velas, incensos, azeite... Atirou-lhe um saco com uns trocos. Esse dia, marcado no calendário da sua vida há tanto tempo, surgiu como inevitável, como o dia previsto para a mudança que se efectuaria na vida de Luz. Quando chegou com as compras, o seu coração batia ansiosamente, desenfreadamente, com a previsibilidade da aproximação à bruxa. E ao receio se misturava uma curiosidade profunda. Da janela ainda, pediu-lhe que entrasse, a porta estava aberta. O coração começou a bater mais forte, e foi com toda a coragem possível que abriu o trinco da porta. Invadiu-a o cheiro a incenso. Por entre a escuridão das escadas, apenas se viam algumas velas quase derretidas. Era um ambiente, no mínimo, constrangedor, quanto mais não fosse, porque contrastava com a claridade do dia, de um sol profundo, e da casa de Luz, sempre iluminada. Subiu as escadas com pernas trémulas, não sabia se devia continuar ou fugir, deixando as compras ao fundo das escadas. No fundo, tinha vontade de prosseguir e continuou a subir as escadas, com os olhos ainda mais esbugalhados do que já eram.

Lá em cima, uma sala simples, em tons profundamente vermelhos, parecia repleta de chamas. Seria o inferno? Teria ela morrido e chegado ao julgamento final? Foi então que a viu, a um canto, numa cadeira de baloiço, a olhá-la, estranhamente. Pousou os sacos e, já se ia embora, quando ela proferiu “ deixa-te estar miúda! Podes ajudar-me, tenho muito que te ensinar”. Parou imediatamente, estupefacta. No olhar triste de Elvira brilhava uma nova luz, pareceu-lhe até que lhe nascera uma nova esperança.

Voltou, durante dias, meses, anos. Voltou e, aos poucos, deixou-se envolver por aquele ambiente fascinante, pelas rezas feitas com incenso a arder em azeite. Quando recebia clientes, Luz ficava atrás da cortina da sala. Não queria represálias por parte dos seus pais. Se eles soubessem, proibi-la-iam de frequentar aquele antro, segundo designação do seu pai, que condenava aquelas profanações, que nada tinham que ver com a religião católica, que professava. Ouvia as súplicas, os choros, os pedidos de ajuda e ficava estupefacta perante a ida de pessoas que supunha católicas, que diariamente criticavam a bruxa e que, agora, soluçavam para ela, como se fora ela o seu ente divino. Quando saiam, ajudava-a a fazer as rezas. Já as conhecia de cor e parecia ter nascido e vivido sempre naquele ambiente.

Um dia, a Ti Elvira, disse-lhe que sempre esperara por ela, que a sabia sua seguidora, antes mesmo de ter nascido. Teria aguardado ansiosamente pelo momento mais oportuno, pelo momento que lhe fora comunicado.

A certa altura, a mãe de Luz estranhou as suas longas ausências, já que nunca fora de sair de casa. Começou a matutar e concluiu, sem a questionar, que deveria andar enrolada com alguém, para os lados do rio. Foi procurá-la e, não a encontrando, disse ao pai. Este abordou-a. Nada lhe disse, limitou-se a olhar para ele com um olhar inexpressivo, que o levou a bater-lhe até a deixar de cama.

Durante uma semana Luz não pôde levantar-se, mas via que as coisas lá em casa não iam bem, a mãe queixava-se de que a horta não vingava, os animais definhavam e a comida iria escassear nesse ano. Não entendiam, porque o mal não era geral, o restante povo gabava o ano das colheitas como fértil. À cabeça de Luz acorreu a ideia de que a bruxa teria previsto o motivo da sua ausência e se vingava. Logo que pôde, pôs-se de pé e, sem que dessem pela sua ausência, foi a casa dela, que logo sorriu ao vê-la e lhe confessou que não quisera provocar mal à sua família, mas que os espíritos, apercebendo-se do seu sofrimento, ter-se-iam vingado.

O que é certo é que tudo continuava extremamente difícil e dias piores se avizinhavam.

Quando começaram a passar necessidades, parece que todos os males vieram atrás. O Zé, seu irmão mais velho, perdeu o emprego que tinha nas minas. O irmão do meio, o Tonho, sofreu um acidente de motorizada, ficando impossibilitado de trabalhar na fazenda. E Luz pouco ou nada sabia fazer. Não tinha capacidades intelectuais, segundo a sua mãe e “era uma tonta sem eira nem beira” nas palavras do pai. Assim, com os seus pais entregues a uma fazenda estéril, a fome começou a reinar em casa deles, trazendo com ela a discórdia, duplicando as sovas que o pai dava à mãe, dando vazão ao provérbio “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. E Luz foi praticamente encarcerada no seu quarto, saindo apenas para pequenas tarefas domésticas e para comer umas migas de pão seco com água.

Foi nesse isolamento que começou a conceber um plano diabólico. Sentiu-se confrontada com o ser maléfico que todos nós possuímos, mas que nem sempre se revela. E, naquela altura, era como se esse ser se impusesse, crescesse e adquirisse proporções que ela própria desconhecia. Até àquele momento, o seu pecado era a Ti Elvira, no entanto essa obsessão acordou o monstro em si adormecido, com um crescente ódio por ela. Se até então o que Luz sentia pela bruxa era uma admiração que ela própria não compreendia, percebeu exactamente o sentimento que por ela nutria- um ódio tão profundo que seria capaz de a levar a tomar atitudes horríveis e inconcebíveis.

Noite e dia costurou, nas paredes do seu quarto, o seu plano mirabolante. E aos poucos ela era a aranha que prendia, nas suas teias a pobre mosca Elvira. Agora, era ela que a dominava e não ao contrário, como sempre fora. Finalmente venceria os seus medos e revelaria o ser imundo que existia em si. Numa noite, em breve, sairia às escondidas de casa e acabaria com a vida dela, de uma forma como só um ser com muito ódio o faria...
                                                                      Célia Gil

As Fifis do “mete na conta”

Célia Gil


Não sei que rumo a vida vai tomar ou que destino lhe daremos nós, humanos. De dia para dia, se corrompem valores, se alteram costumes e se passa por cima da moral. Quando assim falo, note-se, não me refiro a valores, costumes e moral rígidos, pois nem sou freira, muito menos beata ou defensora dos ideais salazaristas. Apenas olho com algum desagrado o percurso que a vida segue. Senão reparem: há poucos dias, numa loja de pronto-a-vestir infantil, em que não falta roupa juvenil e de adulto, deparei com uma pretensa cliente que, peça aqui peça acolá, acabou por abarrotar o balcão de roupa que me questionei se alguma vez usufruiria. Logo me senti algo incomodada ao verificar que eu própria tinha seleccionado umas meias de lã, azuis, número oito. Comparadas às compras da senhora, que rapidamente alcunhei de Fifi, o que eu tencionava comprar era uma insignificância. Pior me senti quando a cliente da moda me dirigiu aquele olhar de cima a baixo, como quem pensa para com os seus botões” Olha p’ra esta, vir à boutique por uns reles collants! Coitada da pobrezinha!”.

Evitando o olhar usurpador e violador da Fifi da moda, dirigi-me a uma prateleira de camisolas de gola alta, procurando, sem precisar, uma camisola preta que não ia comprar. Desviada a atenção da Fifi da moda, concluí que a cliente de altíssimo prestígio teria, provavelmente, tanto dinheiro que não sabia como gastá-lo. Teria também uma fraca criatividade, levando peças repetidas, de cores diferentes. Dei por mim a sorrir ao pensar na proposta que lhe poderia fazer “ Excelentíssima Senhora, gostaria de informá-la de que, para o caso de não saber o que fazer a tanta roupa, há um recipiente, junto a um hipermercado, que recolhe roupas para África.” Mas, às tantas estou redondamente enganada e a Madame vai abrir alguma boutique nova no Fundão!

O que é certo é que eu estava realmente intrigada e repreendi-me por estar a pensar num assunto que não me dizia minimamente respeito. Que importância tinha o facto de a Fifi da moda levar metade da mercadoria da loja? Até estava a contribuir para o pequeno comércio. Era um acto de benevolência para com a dona da loja!

Chegada a estas conclusões, logo me voltei a surpreender. Desta feita com a dona da loja que, em vez de apresentar um ar radiante de quem já facturou umas massas, dirigia um olhar enjoado para o balcão repleto de roupa. “Não percebo. Devo estar a ter alucinações!” pensei e repreendi-me “ deixa lá o que se está a passar aqui e paga mas é as meias!”

Resoluta, dirigi-me novamente ao balcão, claro que um pouco encavacada com as simples meias que levava. “ Há dias em que mais vale ficar em casa!”

Foi então que o mais surpreendente aconteceu: a minha prezada Fifi, a minha fabulosa e misteriosa cliente da moda solicitava à dona da loja “Olhe querida, ponha-me a roupa em sacos e meta na conta!”. Meu Deus, vejam só a razão, mais que justa, do enjoo da nossa querida dona da loja. Tinha afinal razões de sobra para se sentir preocupada.

Agora, resta-me um conselho às “Fifis do mete na conta”: gastem dentro das vossas possibilidades. Não ensinem aos vossos filhos estes padrões de vida, que não correspondem à realidade. Sejam menos consumistas e mais ponderadas. Por que valores se regem? Que costume é este? Qual a moral da história? Afinal lucrou mais a dona da loja, naquele dia, com as meias que comprei do que com tudo quanto a Fifi levou e não pagou. Fifis da moda, não fiquem a dever em todo o lado – na farmácia, no café, na cabeleireira, no restaurante, e em muitas outras lojas onde acumulam dívidas sem o mínimo pudor, sem vergonha de tamanha falta de conduta!
                                                                                              Célia Gil

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