domingo, 28 de julho de 2019

O Leitor do Comboio

Célia Gil
Didierlaurent, Jean-Paul (2017). O Leitor do Comboio. Lisboa: Clube do Autor.


O Leitor do Comboio, escrito por Jean-Paul Didierlaurent, um romancista francês e traduzido por Inês Castro, recebeu, de entre vários, o Prémio Michel Tournier e está traduzido em 30 países. 
Nesta parábola, que constitui uma homenagem à literatura e à leitura, as personagens são invulgares e únicas.
Guylain Vignolles é o leitor do comboio e narrador. Um homem frustrado, com uma profissão que odeia:  segundo ele, exerce e passo a citar o “sujo cargo de carrasco” ao reduzir diariamente uma série de livros a pasta numa máquina Zerstor 500 a que chama de “a Coisa”. Um cargo que desempenha com relutância, numa espécie de “piloto automático”, que lhe suga a vida e que, frequentemente, lhe traz pesadelos à noite. E quantas pessoas não se reveem nesta personagem? Em profissões que não gostam, que as desgastam e em vidas vazias e infelizes?  
Guylain vive sozinho, numa vida de rotinas, partilhada com o seu peixinho encarnado, Rouget de Lisle. Como amigo, conta apenas com um amputado, que só sabe falar em versos alexandrinos e que passa o tempo à procura das suas pernas numa edição de um livro feita com a pasta a que “a Coisa” lhe tinha reduzido as pernas. 
O que lhe vai dando algum alento é a leitura de páginas que vai salvando d’ “a Coisa” e que lê no comboio, à ida para o trabalho. Páginas únicas, sem continuidade, mas que lhe tornam a vida mais suportável, uma espécie de redenção em relação aos atos de selvajaria para com os livros, no dia a dia da sua profissão.
E porque é importante que haja um "mas" em todas as vidas sensaboronas, numa das suas viagens de comboio, Guylain encontra esse "mas", uma pen perdida. Em casa, ao abrir o conteúdo da pen, depara-se com escritos de uma mulher chamada Julie que imediatamente o prendem, lendo até meio da madrugada os 72 textos que contém. Passa, então, a ler no comboio, em vez das habituais páginas soltas, os textos de Julie, em gestos menos mecânicos, em tom mais estudado, que provoca nos passageiros da carruagem em que lê e passo a citar “um arzinho satisfeito de bebés fartos e saciados”, que contrasta com a “máscara de impassibilidade” dos passageiros das restantes carruagens. São estes escritos que passam a dar mais cor aos seus dias e a tornar mais suportáveis as suas angústias. Quando conta ao seu amigo sobre estes escritos, também ele os devora e lhe traça um plano para tentar encontrar essa Julie que poderia permitir-lhe o início de uma bela história. Terá Guylain encontrado Julie? Seria real ou uma criação literária?
Para encontrar as respostas a estas e outras perguntas, deixo o convite para uma viagem com O Leitor do Comboio de Jean-Paul Didierlaurent.
                                                                                             Célia Gil

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Pão de Açúcar, Afonso Reis Cabral

Célia Gil
Cabral, Afonso Reis (2018). Pão de Açúcar. Alfragide: Publicações Dom Quixote.


Pão de Açúcar é um livro escrito por Afonso Reis Cabral, que venceu o prémio Leya 2014 com o romance O Meu Irmão. É um livro que junta factos verídicos com ficção, por forma a tornar o enredo numa narrativa verosímil. A ideia de escrever um livro a partir do caso de Gisberto ou Gisberta, uma transexual brasileira que apareceu, em 2006 morta no fundo de um poço, num edifício abandonado, resultante de um projeto falhado para um Pão de Açúcar.
É uma história contada na 1ª pessoa, um rapaz, o Rafa, que vai desfiando o fio à narrativa.
Intercala o calão, que surge contextualizado e adequado, com alguma poeticidade, numa escrita fluente e intensa, que resulta também da riqueza e complexidade interior que as personagens revelam.
 A história é sobre o dia-a-dia de três rapazes adolescentes, que viviam num internato: Rafa, com uma vida difícil, pouca escolaridade e interessado em mecânica; Nelson, um jovem muito bruto e conflituoso e Samuel, com uma grande sensibilidade, mas antissocial. Rafa começa a interessar-se por Gis, uma toxicodependente, com sida e transexual, que vive no edifício abandonado e que vai definhando, com fome, à espera que a morte a leve. Rafa deixa a sua bicicleta ou projeto de bicicleta no edifício mencionado e vai lá arranjá-la e vigiá-la todos os dias. É assim que conhece Gis. Sente uma atração/repulsa que o leva a fazer-lhe e levar-lhe comida. Acaba por revelar este seu segredo aos amigos, levando-os com ele para a conhecerem. A partir do momento em que o segredo de Gis é desvendado, passa a ser insultada, tratada como “traveca” ou “paneleiro com mamas”, chegando a ser espancada, numa sociedade que não aceita a diferença e não sabe conviver com ela, que passa por ela alheia, sem se deter, sem questionar, sem intervir. Gis era um dos tantos esquecidos de que vários escritores falam. Manuel da Fonseca falava no seu conto “O Largo” dos marginalizados pela sociedade, a quem ninguém dava credibilidade; Luísa Ducla Soares, no seu conto “O Mundo é dos Jovens” fala mesmo dos esquecidos, aqueles de quem ninguém fala e que é mais fácil ignorar.
Este é um livro que nos faz, sobretudo, refletir sobre a nossa responsabilidade, enquanto cidadãos, perante estas situações para nos fazer questionar os padrões da educação e as questões culturais.


Célia Gil

domingo, 7 de julho de 2019

O Fim da Solidão, Benedict Wells

Célia Gil

Wells, Benedict (2019). O Fim da Solidão. Alfragide: Edições ASA.




O Fim da Solidão é um livro de Benedict Wells, traduzido por Paulo Rêgo, com muito de autobiográfico e muito bem escrito. É o quarto romance do escritor, que nasceu em Munique em 1984, e venceu o Prémio de Literatura da União Europeia
Apesar de ser um livro com uma temática triste, os sentimentos demonstrados e a própria forma como as personagens encaram e tentam superar a dor tem algo de belo, que conforta e na qual se revê quem já passou ou acompanhou situações semelhantes. 

Jules, o narrador do livro, tem apenas 11 anos quando ele e os dois irmãos mais velhos perdem os pais num acidente de viação. Acabam por ir para o mesmo internato, mas o afastamento entre eles é inevitável, até porque têm personalidades e temperamentos muito diferentes e a dimensão da tragédia que lhes aconteceu é vivida de forma diferente por cada um deles.
 Jules é um miúdo reservado, sendo alvo de gozo por parte dos colegas. O seu tempo é passado entre memórias, à procura de si mesmo e de um sentido para a sua existência através do sonho. Marty é um jovem muito dedicado aos estudos, sempre mergulhado nos livros e um pouco cético e Liz é uma jovem que quer viver e experimentar tudo, sem limites, sem prisões ou compromissos. Mais tarde Liz culpabiliza-se por não ter, como irmã mais velha, tomado conta dos irmãos, quando tanto precisavam de alguém. O certo é que nenhum deles conseguiu ultrapassar totalmente o trauma da perda repentina dos pais e as mudanças que esta perda traria inevitavelmente para as suas vidas.
No internato, Jules sente apenas apoio por parte de uma outra criança da sua idade, Alva, também ela muito reservada e também ela com um passado sofrido. Entre eles nasce uma amizade que se fortalecerá com o tempo. Mas nem todos os caminhos que se seguem ao lado de outra pessoa são caminhos de encontro. Alva acaba por partir e só muito mais tarde, Jules a volta a reencontrar. Também os irmãos se afastam. Mas a vida dá muitas voltas e, passados 15 anos, Jules vê a possibilidade de voltar a ser feliz. Trabalhava, entretanto, numa empresa discográfica, embora sonhasse em dedicar-se à escrita e à fotografia.
Conseguirá Jules libertar-se do passado e procurar o que o faz realmente feliz?
Um livro feito de perdas e reencontros, de dúvidas e desilusões, numa procura incessante da felicidade. E será que esta felicidade existe e, se existe, pode ser total? 
                                                                                            Célia Gil

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