domingo, 6 de janeiro de 2019

Terra de Neve, Yasunari Kawabata

Célia Gil

Kawabata, Yasunari (2009).  Terra de Neve. Espanha: Sant Vicenç dels Horts. Biblioteca Sábado.



Em Terra de Neve, de Yasunari Kawabata, que ganhou o prémio Nobel em 1968, traduzido por Armando da Silva Carvalho, o protagonista, Shimamura, viaja de comboio, de Tóquio para um balneário das montanhas, no norte do Japão, com a intenção de descansar nas termas e de se reencontrar com Komako, que conheceu numa viagem anterior e que se teria tornado gueixa para pagar os tratamentos de Yukio, filho de uma professora de música. A relação entre eles prolonga-se durante o tempo em que o livro decorre, e que se concretiza durante as inúmeras viagens que Shimamura faz para estar com ela.

As paisagens, atitudes e acontecimentos são descritos de forma extremamente minuciosa, numa poética observação que o narrador faz constantemente de tudo o que observa, até ao mais ínfimo pormenor. Tudo o que descreve relativamente ao exterior, tem, no interior do protagonista um efeito meditativo, levando-o a empreender várias reflexões. Apesar de se sentir amado, Shimamura não deixa de sentir uma tristeza inexplicável que o domina, uma sensação de que ele e Komako se afastarão inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo.

Este livro permite ainda conhecer lugares e tradições da cultura japonesa, imaginar as tecedeiras de chijimi, um raro tecido de uma brancura imaculada feito a partir do “cânhamo colhido nos campos em declive na montanha”, que Shimamura comprava em Tóquio e com que mandava fazer alguns dos seus quimonos de Verão.

Ao longo da história paira a sombra de outra mulher, que Shimamura contempla no reflexo do vidro do comboio, cuja voz o seduz, quando fala e quando canta, Yoko. É uma personagem que não se chega a conhecer bem e que tem um fim dramático. Nunca se chega a saber a relação entre KomaKo, Yoko e Yukio, mistério sobre o qual Komako se recusa a falar. O fim dramático desta mulher é, quanto a mim, simbólico, pois com a morte dela, algo deixa de fazer sentido, perdido o brilho do seu reflexo. Estaria a relação de Shimamura e Komako também condenada?

O ritmo da narrativa é tão lento quanto a descrição é contemplativa, como a própria passagem do tempo nas montanhas. É como se se sentisse, ao ler, o frio, a aragem de uma Terra de Neve a perder de vista, um frio que repele e, ao mesmo tempo, prende e cativa.
                                                                  Célia Gil

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

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