quinta-feira, 29 de abril de 2010

"As fofurinhas mal-educadas"

Célia Gil


Hoje em dia deparamo-nos cada vez mais com crianças mal-educadas, cujas vontades feitas e refeitas estragam com mimos. Perante estas “fofurinhas”, os papás, avós e tios, curvam-se desde a nascença, como se de um Deus se tratasse. E até certo ponto é, de facto, um Deus, um pedacinho de céu, a estrela que nos ajuda a sorrir. Sem dúvida, o que temos de mais querido. Mas, nem por isso se deve acreditar que em vez de sermos nós a tomar conta deles, sejam eles a tomarem conta de nós, a dominar-nos, fazendo “gato e sapato” dos que os rodeiam.
Muito me surpreendi, quando, certo dia, em pleno Hospital no centro do país, numa sala de espera das urgências, uma simples “fofurinha” conseguiu fazer com que os doentes perdessem as poucas resistências que tinham, chegando provavelmente mesmo a pensar que teriam chegado ao inferno. A dita “fofurinha” começou por mudar a disposição da sala de espera, arrastando as cadeiras vazias, perante o ar incrédulo de todos os utentes, sem que a mãezinha ou a avozinha se manifestassem. Após tamanho esforço, pensei eu que seria lógico que a criança caísse num sono profundo ao colo da mãe.
Para surpresa minha, começou a chamar “estúpida” à avó, entre outros nomes que não considero próprios, muito menos por parte de uma criança de quatro anos. Mentalizei-me que, desta vez, haveria certamente uma reacção por parte da família da “fofurinha”. Mais espantada fiquei quando desataram a rir com as gracinhas da criança, afinal devia ter cometido um feito memorável e eu não me apercebi.
Já apreensiva e até repugnada observo o passo seguinte com desconfiança. Desta feita, a “fofurinha” recolheu três guarda- chuvas do bengaleiro para, “salve-se quem puder”, picar as pernas mais inchadas das senhoras com aspecto de quem sofre dos ossos, especialmente das pernas. “É agora”, pensei, “desta vez não ficas sem umas merecidas palmadas!”. Para espanto total, a avozinha limitou-se a olhar enternecida, e a mãezinha solicitou à “fofurinha” que se portasse bem, atitude que, como é lógico, não resultou.
Incomodadas, as senhoras das pernas inchadas levantaram-se, com grande esforço, para evitarem as picadelas e a vontade reprimida pela educação de dar um bom puxão de orelhas à criança mal-educada que tanto as estava a massacrar.
No limiar da sala de espera, também eu já não conseguia suportar tamanho despropósito, mesmo provindo de uma criança, observo o rebento que se dirigiu a uma senhora e lhe pediu pomada para um “dói-dói”. Esta, também já vermelha de raiva, e para calar a criatura, na ausência de pomada, pôs-lhe um penso rápido que, passados segundos a “fofurinha” tirou, alegando já ter passado. Como lhe deu atenção, a criança achou-se no direito de pedir, à paciente senhora, um lenço de papel, com que esfregou o chão e o nariz.
Consegui ficar tão irritada que, ao ser atendida, o médico me perguntou se queria um copo de água e me aconselhou a, para além da gripe que ele podia curar, consultar um neurologista ou um psiquiatra.
Já fora do pesadelo e antes de ligar o carro, reflecti e cheguei a uma conclusão: como professora, de que forma poderei ambicionar valores de respeito na escola, se os alunos são vítimas de familiazinhas que fizeram um esforço imenso para os deseducar? Respeito? Como poderá este termo fazer parte do seu vocabulário, se nunca souberam o que significa?
Como mãe, deparo-me também com problemas, como todas as mães, pois nem sempre é fácil, nos nossos dias, educar uma criança, quando nos colégios e escolas, um ou outro colega os elucida que se deve reivindicar tudo, agredir, discutir, elevar o tom de voz, não aceitar o que dizem os adultos...
Mas, em casa, deve haver um esforço contínuo de polimento comportamental, uma autoridade paternal, que em nada priva as crianças de receberem o carinho que por elas sentimos. Tudo, é claro, com peso e medida, de forma a não contribuir para uma sociedade de futuras “fofurinhas” mal-educadas. Remédio? Os pais devem começar a ponderar melhor as atitudes e valores que incutem aos filhos, servir de exemplo positivo. Mas com a desordem que vai em algumas mentes, o melhor talvez seja começar por formar e informar os pais, com acções que promovam reflexões sobre o futuro da nossa sociedade e das relações familiares, em que cada vez se perde mais a noção da importância do respeito pelo outro.
                                    Célia Gil

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

2 comentários:

  1. É verdade, Narciso Silvestre! As crianças dominam as famílias, que desconhecem como lidar com elas, que valores lhes devem transmitir. Dizer NÃO está a tornar-se uma raridade e as crianças cedo aprendem a manipular situações e adultos. Que futuro lhes está reservado? Que papel deverá ter a escola perante este estado de coisas? Nós, professores, como deveremos agir, se as próprias famílias se aborrecem connosco quando enfrentamos os seus filhos?
    É, na verdade, uma situação difícil, com a qual nos confrontamos na escola, mas também no dia-a-dia, em qualquer sala de urgências de um hospital, como em qualquer outro lado!

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  2. a ñ tem coisa mais feia q criança mal-educada, principalmente aquelas q xingam! foi o tempo em q uma criança ao receber um olhar d um adulto, logo se aquietava... hj em dia, é motivo de elas perguntarem "o que foi?" em um tom bem ignorante!

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