Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

(imagem do Google)

Quando eu era muito pequenina
pegava em pequenas lajes cinzentas
e construía uma casa de sonho
onde moravam as minhas emoções.

Discreta, sem grande alarido,
voltava a casa, feliz,
tinha arranjado uma casa
para o meu tesouro morar.

Se me tentassem roubar a auto-estima,
sairiam de mãos a abanar
perante o esplendor do meu olhar.

Quando me queriam roubar a infância,
não a encontrariam,
veriam apenas a menina responsável
a olhá-los com compaixão.

Mas se fosse a fé que quisessem levar,
restar-lhes-ia a desilusão perante
o meu olhar complacente e piedoso.

Na minha casinha de lajes cinzentas
dormiriam aconchegadas
a auto-estima, a infância e a fé.
Lá estariam sempre em segurança,
lá eu poderia beber delas
sempre que a vida me deixasse sequiosa.

E na minha casinha de lajes cinzentas
eu serei sempre a criança que sorri,
que nunca perde a auto-confiança
e cuja fé é inabalável.
                                       Célia Gil


(imagem do Google)

Este vídeo com um fado dedicado a Fernando Pessoa é apenas um mote de homenagem a todos os poetas que ainda sonham e nos fazem sonhar!
 
    Na infância os sonhos são formas de comunicação e processos de aprendizagem.
    Os contos preenchem o imaginário e as crianças vivem pensando que um dia tudo acabará bem como nos contos de fadas. Surgirá o príncipe ou a princesa ansiados. Os maus serão punidos e os bons recompensados, porque haverá sempre uma fada madrinha para amparar e proteger das quedas.
    Os olhos de uma criança têm o condão mágico de tudo transformar e o mundo ganha uma dimensão maior, um brilho mais destacado e uma beleza que brota da inocência dos corações.
    O poeta não perde totalmente a criança que há em si, ainda tem olhos mágicos que lhe permitem tornar o mundo num lugar melhor, ainda observa a mesma paisagem de sempre como se fosse a primeira vez. Ainda ama de forma total e plena. Ainda acredita no futuro da Humanidade.
    O poeta é uma eterna criança de espírito!
                                                                     Célia Gil
(imagens do Google)

A distância que nos separa
são olhos que se fecham ao sol,
são estrelas que se apagam
em céus cinzentos de nuvens,
olhos banhados em lágrimas
que brotam de infindas saudades.

Mas eu acredito que há uma ponte
que nos permitirá a união,
uma ponte de esperança
que findará em nós a solidão.
Uma ponte rendada de branco
onde se entrelaçam roseiras em flor,
orquídeas, jasmim e alecrim,
que se curvam para nos ver passar,
que inebriam com a essência do amor.

E a ponte é agora a única distância
que separa fisicamente os que se amam
e que correm um para o outro
perpetuando o amor num doce enlace.
O meu cabelo cheira à rosa
que os teus dedos repousaram em mim,
cheira a orquídeas, jasmim e alecrim.
O nosso amor sabe a cerejas sumarentas
e é suave como um branco véu de seda.

Promete-me: sempre que a distância vier,
haja uma ponte entre nós
e que toda a saudade que houver
se finde ao som da tua voz!
                             Célia Gil


(imagem do Google)

Vou elaborar um novo dicionário.
Urge alterar o sentido de alguns verbos,
urge uma evolução semântica da língua.
Começo pelo verbo amar,
o mais amado dos verbos.
Amar deixa de ser o simples ato de gostar,
passará a significar doar, entregar, compreender.
Deixará de ser um ato a dois,
passará a ligar toda a humanidade.

Prossigo com o verbo sonhar,
que ainda assim já tem um duplo sentido,
o sonho a dormir e o acordado.
Mas será mais do que isso,
será o romper barreiras, ultrapassar limites,
viajar numa nuvem de ilusões
e acreditar que o mundo será um lugar melhor.

Não podia esquecer-me do verbo falar.
Falar deixará de ser mera comunicação verbal,
passará a ser uma forma de amar e sonhar,
estará por isso ao serviço das nossas ilusões,
será um meio de atingir quimeras,
uma forma de corrigir atitudes,
uma dádiva de paz,
um cantinho quente onde morarão os sentimentos.

Ainda agora comecei e verifico
que demorarei uns aninhos até conseguir
concretizar tamanho empreendimento.
As ideias dos humanos estão muito estigmatizadas,
perde-se, a cada dia, a crença e a vontade,
acomoda-se à realidade que foi dada a conhecer,
e não se move um músculo para mudar.

É urgente modernizar o dicionário da vida!
                                                       Célia Gil


(imagem do Google)

O sol quente de Verão brilha, sereno;
árvores frondosas sob céu ardente,
perpassadas de uma luz fluorescente,
cujo calor entranha no terreno.

Esta é a paisagem que nos rodeia,
que nos aquece a alma e o coração.
Os meus olhos flamejam de paixão,
e o meu ser estremece porque te anseia.

O Verão é já todo o teu vasto olhar;
as tuas faces são o céu a arder;
a tua boca calor a abrasar.

Ó Demónio, ó Deus, ó Natureza,
que tornaste indecente este meu ser
abraça-o para sempre com fereza!
                                             Célia Gil

(imagem do Google)

Cor de contrastes…
A negro pinto a fome
que consome tanta gente,
cada vez mais gente…
Pinto os meus amigos de África
que me faziam rir,
meus companheiros de brincadeiras.
Pinto o luto,
espelho da escuridão da alma
que sofre com a perda de alguém.
Pinto uma longa e bela trança,
negra-azulada
a escorrer brilho por ela.
Pinto a terra fértil
onde proliferam árvores de fruto.
Pinto a diferença,
o racismo, a xenofobia.
Pinto a noite,
os sonhos e as ilusões,
as paixões dos amantes,
a inspiração…
                    Célia Gil

(imagem do Google)

Assim é a condição
de quem nasce selvagem.
Vê o perigo à espreita,
sempre desconfiado.
Mas os filhos tem protegidos,
crias que trata
com amor e dedicação.
Depressa se transforma
e, de fera bestial,
passa a mãe zelosa,
até mesmo possessiva.
E quando o amor surge,
os olhos feros suavizam,
as expressões se amenizam
e quase sorri…
Ama com entrega total,
que essa forma de entrega
é também ela animal.
Leva ao extremo a paixão,
capaz até de matar,
se alguém se intromete
perde de todo a razão.
É o instinto que a guia
se acaso a enfrentam,
mas quando a acarinham, mostra
que as feras também amam.
                                Célia Gil






Já Luís Vaz de Camões proferia num dos seus sonetos que “ todo o mundo é composto de mudança” e o que é certo é que o tempo não pára e as mudanças são cada vez mais visíveis e inexoráveis a vários níveis.

A sociedade está agora mais informada, graças às constantes evoluções, com a proliferação dos meios de comunicação, com a consciência, cada vez mais acesa, de que o Homem depende da colectividade, quer a nível social, cultural, político e económico. A comunicação é realmente um ”fourre-tout”, porque extensível a tudo - ao desenvolvimento dos meios de transporte, das estradas, da imprensa, da televisão e rádio, publicidade, grupos de encontro, entre outros. É a partir da evolução da comunicação que chegamos à ideia de “Aldeia Global”, no entanto esta aproximação entre os homens não significa, só por si, uma maior qualidade comunicacional, dado que o Homem afasta-se cada vez mais de si mesmo, rompe laços com a sabedoria popular, torna-se anónimo. Assim, o ser forma-se e deforma-se, já que a evolução incutiu no ser humano a ideia de um consumismo insaciável; a ilusão de bens fáceis de adquirir; o fascínio pelas marcas, pelas colecções de um valor incalculável e sem qualquer proveito a não ser a auto-estima ou arrogância; conduzindo a puras manifestações de exibicionismo e, essencialmente, ao cansaço da monotonia e a um vazio interior constante. Porquê, se está tudo mais facilitado? Porque começam a faltar metas, porque os objectivos são demasiadamente fáceis de alcançar, porque o ritmo interior muitas vezes não seguiu, ou não se adaptou, ao alucinante ritmo exterior.

Restringindo-me agora ao Fundão, cidade onde vivo, verificamos que as mudanças parecem não ter passado por aqui. Falso. Quanto a mim, são abismais. A ver pela quantidade de vivendas, prédios, hipermercados, rotundas... E, sobretudo, a ver pelas mentalidades, sobejamente despreocupadas. O que é certo é que rara é a pessoa que, sem heranças familiares abastadas, não contrai um ou mais empréstimos - para a casa, o carro, obras em casa, a firma, entre tantos outros. O lema é ter. Evidentemente, é difícil, nas circunstâncias actuais, comprar casa sem contrair um empréstimo. Mas não é preciso abusar. Atenção, fundanenses, não quero com isto apenas criticar, mas antes alertar: a ilusão conduz muitas vezes a becos sem saída. Sonhos sim, mas com a ponderação e moderação adequadas. Há que pensar no futuro, há que pensar na actual situação do país. Podemos, a qualquer momento, desmoronar, cair da nossa “torre de marfim”, e compreender, mais uma vez, que nada é eterno, tudo se transforma. É preciso encarar a vida com uma certa lucidez, conciliar sonhos com a realidade, estar mais atento às mudanças, pois “qualquer grande esperança é grande engano”.

Quando falo de mudanças, refiro-me essencialmente ao património humano. Olhando à minha volta,  penso que, desde os meus cinco anos até agora, já passou uma eternidade. Desde os cinco anos, porque com cinco anos vim de Angola. O facto de ser retornada permitiu-me perceber que a vida é uma constante luta. Desde cedo percebi que o trabalho dignifica as pessoas, quando é feito com alma. Só este nos permite continuar a sonhar por quanto dure a vida. Mesmo que alguém, a nível pessoal ou social o tente impedir, é a nossa entrega e o perfeccionismo que nos permitem aguentar novas derrocadas. É necessária a persistência para enfrentar a vida tal como se nos apresenta.

Quando caminho pelo Fundão, revejo-me nas escolas que frequentei, nos caminhos que percorri. Inclusive, a própria padaria onde comprava o pão com centavos faz parte desta memória. Mas, acima de tudo, revejo constantemente um pai e uma mãe formidáveis, que sempre me apoiaram e me incutiram a luta contra as dificuldades da vida. Vejo como tudo mudou, como desapareceram já tantas pessoas (pela idade, doença, tragédia...). E todas estas mudanças me levam a colocar a questão: valerá a pena continuar a lutar? Claro! Só assim a vida tem sentido, só assim enfrentaremos sempre as inevitáveis mudanças, os terramotos da vida, sem nos deixarmos cair no abismo da perversão, do suicídio, das drogas, da depressão, da marginalização...

Por isso, pensemos na mudança como um fenómeno natural, mas mantenhamos a nossa sanidade mental, os nossos valores e bases espirituais que nos permitam encarar a vida de forma realista, sem perder os sonhos e, ao mesmo tempo, sem nos deixarmos cair no abismo estrepitoso da desumanidade.
                                Célia Gil


(imagem do Google)

Nos dias sombrios,
naqueles em que a chuva
nos arrefece a alma,
o arrepio invade a pele,
perpetuando a dor
e a cabeça lateja…
O vazio invade a mente
e nela semeia a solidão…
Há dias assim!
Em que a solidão se impõe,
nos invade e se apodera de nós,
de tal maneira que,
ainda que haja gente à nossa volta,
estamos sós,
sentimos a dor lancinante da solidão,
uma solidão afiada, dor aguda
que craveja a pele e a alma,
corrói-nos, deixando-nos à deriva…
                                         Célia Gil

(imagem do Google)

O passado não é muito mais que isso: passado.
Experiências pontuais,
momentos,
pedaços que ficam nas malhas da memória,
doces recordações,
perdas dolorosas…
Mas foi o passado que fez o que hoje sou,
me fez amadurecer e compreender
que hoje sou feliz com o que tenho,
e que tudo o mais está em mim
qual tesouro guardado
que abro sempre que preciso,
sempre que a saudade aperta.

Mágoa? A perda.
Tristeza? A ausência.
Desejo? Prosseguir sempre com a mesma força.
Sonho? Viver.
Ambição? Ser feliz.

O passado ensina-nos a crescer
e a usufruir a vida em plenitude.
                                                 Célia Gil

(imagem do Google)

Heróis de todo o mundo,
vós que subis ao pódio todos os dias,
que vos vangloriais das vitórias,
erguei hoje essas almas vazias!
Admiti que a vitória
é muitas vezes a derrota da humildade,
não ficareis na história,
vivereis em falsidade vossa vaidade!
Vaidade vã,
porque é vão esse apego material,
porque é vã a vitória terrena
à vitória espiritual.
Descei à terra da vossa ignorância,
admiti que de nada vale a fama,
que semeia em vossas almas a inconstância,
pódio que acabará desfeito em lama.
Semi-deuses, heróis, campeões,
sede humanos, com virtudes e defeitos,
essas vossas ilusões,
transformar-vos-ão em seres ocos e imperfeitos.

Sejam heróis dos vossos sonhos,
enchei a alma de emoção!
Despojai-vos da glória inglória
e sejam apenas seres humanos com coração!
                                                       Célia Gil


(imagens do google)
A amarelo pinto a força
derramada por raios de sol sorridentes,
tocando as plantas com uma cálida carícia,
após um duro inverno,
fazendo-as abrir um sorriso
que os recebe de pétalas abertas.
A amarelo pinto a vitória,
a garra, a coragem, o optimismo.
Pinto a janela do meu quarto
quando brilha a madrugada.
Pinto o meu sorriso,
o teu sorriso,
o nosso amor fortalecido.
Pinto a minha pele
quando recebe os primeiros raios de sol,
ainda arrepiada pela brisa da aurora,
mas reconfortada pelo morno aconchego.
Pinto as searas
que se deleitam ao vento trigueiro.
Pinto o narciso silvestre,
frágil, pálido, mas intenso,
que cobre as encostas verdejantes
de salpicos amarelos
que beijam a verdura
que vem com a chuva
secando ao sol.
Pinto Apolo
e a sua magnitude.
Pinto a fruta madura e suculenta.
A amarelo pinto a própria vida!
                                                  Célia Gil






(imagem do Google)
Observo e vejo para além do ser.
Vejo alguém que abre um falso sorriso,
alguém que dá gargalhadas histéricas,
alguém que chora sem dor,
alguém que beija sem amor,
alguém que diz seguir os trilhos do futuro,
mas não vive o presente.
Pura hipocrisia de uma sociedade
falsa, actriz de profissão.
Actriz cabisbaixa perante superiores,
actriz arrogante perante dependentes,
actriz no seu auge, no palco da vida.
Ah, deixa essa máscara no palco
e vem para a rua nua da realidade.
Grita com os superiores, educadamente.
Mima os dependentes com a tua voz plácida.
Exprime o que sentes como verdadeiramente sentes.
Revolta-te, diz um palavrão,
faz asneiras, rasteja…
chafurda bem no fundo do teu ser,
mas sê! Sê por inteiro.
Assim só eu te conheço,
continuas a enganar todos mais que te rodeiam.
Só eu te sei, só eu…
E não gosto do que vejo.
Apetece-me arrancar a pele dessa máscara,
abanar-te até te reencontrares em ti
até seres tu próprio!
                                                         1990  
                                                  Célia Gil


(imagem do Google)

Gostaria de ter o dom
de eternizar momentos.
Guardá-los em esconderijos
secretos da memória.
Reter todos os pormenores,
os mais ínfimos e recônditos,
aqueles que dão sentido à vida,
nos renovam a auto-estima
e nos tornam pessoas melhores.
Se pudesse eternizar momentos,
povoaria a minha vida de amor,
borrifaria com a essência da paz
toda a minha vida.
Pintaria um quadro
que me espelhasse eternamente jovem
e onde me visse, para sempre,
rodeada dos que mais amo e amei.
E, nos momentos vazios,
bastaria esticar o braço
e pegar naqueles momentos inesquecíveis,
reaver os queridos que partiram,
voltar aos locais que me marcaram.
Seria o dom perfeito
o de tudo eternizar!
                                       Célia Gil
(imagem do Google)

Tudo na vida
requer aprendizagem.
E eu, que até sou boa estudante,
eterna estudante,
quero aprender até ser velhinha.
Saber mais e mais,
estimular o cérebro,
alimentá-lo de conhecimento,
não o deixando cair no vazio
do humano esquecimento.
Quero manter activos
os meus neurónios,
usufruir do que me é dado
a ver, a ler, a aprender
nas várias fases da vida.
Crescer sem, no entanto,
envelhecer mentalmente,
sem criar teias de aranha
entre neurónios vazios.
Mas mantê-los sempre activos.
Permite-me, Deus meu,
envelhecer com dignidade,
passar pelos anos
com pezinhos de lã,
sem acordar a idade…
Trapaceá-la
e ser uma eterna
jovem de espírito!
                             Célia Gil

(imagem do Google)

Quando foi que perdi
o céu azul que cobria os meus dias?
Quando foi que percebi
que o sol deixou de brilhar nas minhas fantasias?
Onde perdi eu o sorriso
que se abria prontamente?
Onde deixei eu a lágrima
sempre pronta a formar torrente?
Sinto que me ausentei de mim,
perdi a força que me fazia viver…
Essa força e a coragem, que fim
tiveram? Porque deixei de ser?
Como posso contemplar o rio
sem que os meus olhos naufraguem em ilusões?
Porque já não choro dias a fio
quando sofro? Onde perdi as emoções?
O que me fez tornar nesta pedra fria
sem sentimentos, desprovida de vida?
O que me fez ficar assim vazia,
do bem e do mal tão esquecida?
Não é possível que fique estática
perante alguém que vejo sofrer…
Onde está o eu, força enigmática
que tinha e dava aos outros força de viver?
Que apagão terá sofrido o meu olhar
para não reagir a nada?
Onde ficou o ser que sabia amar?
Em que noite? Em que alvorada?
Só sei que estou imune,
sou rocha fria e envelhecida,
que sem sorriso e sem queixume,
é simples ausência de vida.
Como nos deixamos nós fugir?
Como chegamos a este ponto
em que resta a ausência do sentir,
o esquecimento, o desencontro?
Perdi-me! Esqueci-me de quem sou!
Agora não sei para onde vou…
Nem se ainda vou…
Sei apenas que tudo mudou
e nada, nada mesmo, ficou!
                                       Célia Gil
(imagem do Google)

Nem sempre conseguimos cuspir as palavras
que nos irrompem na mente
perante uma atitude inadequada.
Asfixiamo-las na garganta,
impedindo-as de jorrarem,
com medo de as receber de volta.
Nem sempre a força e a coragem
nos permitem dizer o que pensamos,
o que nos vem prontamente à cabeça.
Limamos o pensamento de tal forma
que nada fica para dizer
de tudo o que não foi dito.

Por isso as crianças são genuínas,
não limam as palavras,
proferem-nas sem reservas,
ainda que constituam a maior barbaridade.

Quem me dera ser criança
para não ter o peso da consciência,
para poder dizer o que penso
quando penso e como penso.
Ser recebida com condescendência,
ser perdoada pela ignorância,
desculpada pela inocência
das palavras que soam à infância.
Que saudades, Deus meu,
desses tempos em que era genuína,
em que o limite era o céu
e os meus sonhos de menina.
Palavras brincalhonas, dançantes,
rebolando da mente para fora,
palavras agressivas, sonantes,
que irrompem da boca sem demora.
Palavras trôpegas, tropeçando em inocência,
soltas qual voos de ave embriagada,
recebidas com profunda benevolência.
Palavras mal ditas, inadequadas,
algumas inocentemente maldosas,
simplesmente desculpabilizadas,
ausentes de mensagens maliciosas.

Mas a idade é uma condição,
um posto, que traz a consciência.
E a palavra perde a expressão
remetida ao silêncio da sua incoerência,
não desculpável pela inocência!
                                             Célia Gil

(imagem do Google)



Quando sentimos que tudo é perfeito,
pensamos ter encontrado a paz.
Mas o mundo não é perfeito
e esses momentos são quimera…
De um momento para o outro
sentimos o chão fugir-nos,
tudo rui à nossa volta.
E a paz desmorona-se,
dissolvendo-se em partículas de nada.
Mas será a perfeição o ideal?

Provavelmente não!

A perfeição levar-nos-ia
à monotonia dos dias repetitivos,
conduzir-nos-ia à preguiça
face às escolhas a fazer,
todas tão perfeitas quanto irreais.
E o cansaço não nos deixaria
usufruir dos pequenos pormenores
que fazem toda a diferença.
Detenhamo-nos na irregularidade,
Aceitemos e apreciemos a diferença,
sedutoramente inigualável.
Fujamos dos estereótipos
e fruamos cada novo acontecimento,
aprendendo com os erros
e aceitando a imperfeição.
                                         Célia Gil

(imagens do Google)


Porque Deus te quis para Si

se me fazias ainda tanta falta?

Se não me basta o teu retrato

onde as tuas feições se vão esbatendo?

Sim, sou egoísta!

Queria-te só para mim!

Precisava tanto de ti...

Tinha tanto para te contar…

Tanto para desabafar…

Não há dia em que te não recorde

em palavras ditas,

em sorrisos lembrados,

em olhos meigos guardados

nas gavetas da memória.

Preciso de ti,

nem que seja apenas nessas memórias,

saber que estás algures,

me vês e olhas por mim.

Continuarei a desabafar contigo,

senão, a quem contaria as minhas desventuras?

Com quem partilharia a minha vida?

Como gostaria que pudesses ver os teus netos,

que crescidos estão!

Como os mimarias, avó babada!

Mas a vida é assim…

Quero acreditar que nos vês,

zelas por nós

e nos continuas a mimar!

E sempre que precisar dos teus mimos,

abrirei as gavetas que estimo

e abraçarei todas as recordações

que, apesar de me fazerem sofrer

por reviver toda a dor que sentiste,

me continuam a acalentar o coração,

a embalar a alma, ninando-a até acalmar,

como se fosse tocada pelos teus dedos

numa infinda carícia maternal!
                                                Célia Gil



Mensagens mais recentes Mensagens antigas Página inicial

Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

POSTS POPULARES

Arquivo

  • ▼  2026 (74)
    • ▼  junho (9)
      • Nas Palavras Dela, Alba de Céspedes
      • Gente Feita de Terra, Carla M. Soares
      • A Palavra Que Resta, Stênio Gardel
      • O Comboio da Meia-Noite, Matt Haig
      • Palavras Cheias de Amor, de Jake Beggin
      • A Sabedoria da Terra, Robin Wall Kimmerer
      • O Homem de Negro de Gregory Panaccione e Giovanni ...
      • Minha Sombria Vanessa, Kate Elizabeth Russell
      • Castelo de Cartas, Anabela Lopes
    • ►  maio (11)
    • ►  abril (16)
    • ►  março (12)
    • ►  fevereiro (14)
    • ►  janeiro (12)
  • ►  2025 (176)
    • ►  dezembro (14)
    • ►  novembro (11)
    • ►  outubro (13)
    • ►  setembro (13)
    • ►  agosto (19)
    • ►  julho (16)
    • ►  junho (16)
    • ►  maio (15)
    • ►  abril (12)
    • ►  março (19)
    • ►  fevereiro (11)
    • ►  janeiro (17)
  • ►  2024 (160)
    • ►  dezembro (7)
    • ►  novembro (17)
    • ►  outubro (13)
    • ►  setembro (12)
    • ►  agosto (18)
    • ►  julho (22)
    • ►  junho (20)
    • ►  maio (17)
    • ►  abril (7)
    • ►  março (9)
    • ►  fevereiro (10)
    • ►  janeiro (8)
  • ►  2023 (153)
    • ►  dezembro (18)
    • ►  novembro (13)
    • ►  outubro (12)
    • ►  setembro (7)
    • ►  agosto (20)
    • ►  julho (16)
    • ►  junho (12)
    • ►  maio (13)
    • ►  abril (9)
    • ►  março (10)
    • ►  fevereiro (11)
    • ►  janeiro (12)
  • ►  2022 (150)
    • ►  dezembro (13)
    • ►  novembro (9)
    • ►  outubro (15)
    • ►  setembro (13)
    • ►  agosto (17)
    • ►  julho (13)
    • ►  junho (13)
    • ►  maio (16)
    • ►  abril (14)
    • ►  março (9)
    • ►  fevereiro (7)
    • ►  janeiro (11)
  • ►  2021 (125)
    • ►  dezembro (9)
    • ►  novembro (4)
    • ►  outubro (8)
    • ►  setembro (15)
    • ►  agosto (20)
    • ►  julho (19)
    • ►  junho (13)
    • ►  maio (10)
    • ►  abril (6)
    • ►  março (6)
    • ►  fevereiro (6)
    • ►  janeiro (9)
  • ►  2020 (67)
    • ►  dezembro (5)
    • ►  novembro (5)
    • ►  outubro (5)
    • ►  setembro (5)
    • ►  agosto (11)
    • ►  julho (6)
    • ►  junho (6)
    • ►  maio (9)
    • ►  abril (3)
    • ►  março (4)
    • ►  fevereiro (5)
    • ►  janeiro (3)
  • ►  2019 (36)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  novembro (2)
    • ►  outubro (4)
    • ►  setembro (2)
    • ►  agosto (5)
    • ►  julho (3)
    • ►  maio (2)
    • ►  abril (7)
    • ►  março (3)
    • ►  fevereiro (5)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2018 (37)
    • ►  dezembro (4)
    • ►  novembro (1)
    • ►  outubro (4)
    • ►  setembro (2)
    • ►  agosto (2)
    • ►  julho (5)
    • ►  junho (4)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (4)
    • ►  março (3)
    • ►  fevereiro (3)
    • ►  janeiro (4)
  • ►  2017 (55)
    • ►  dezembro (2)
    • ►  novembro (4)
    • ►  outubro (9)
    • ►  setembro (10)
    • ►  agosto (8)
    • ►  julho (7)
    • ►  junho (5)
    • ►  maio (10)
  • ►  2015 (1)
    • ►  julho (1)
  • ►  2014 (9)
    • ►  junho (3)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (1)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2013 (34)
    • ►  dezembro (2)
    • ►  novembro (2)
    • ►  outubro (4)
    • ►  setembro (4)
    • ►  agosto (1)
    • ►  julho (2)
    • ►  junho (3)
    • ►  maio (3)
    • ►  abril (6)
    • ►  março (2)
    • ►  fevereiro (3)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2012 (102)
    • ►  dezembro (4)
    • ►  novembro (3)
    • ►  outubro (7)
    • ►  setembro (6)
    • ►  agosto (7)
    • ►  julho (12)
    • ►  junho (9)
    • ►  maio (10)
    • ►  abril (9)
    • ►  março (9)
    • ►  fevereiro (10)
    • ►  janeiro (16)
  • ►  2011 (279)
    • ►  dezembro (19)
    • ►  novembro (21)
    • ►  outubro (23)
    • ►  setembro (25)
    • ►  agosto (17)
    • ►  julho (36)
    • ►  junho (25)
    • ►  maio (29)
    • ►  abril (24)
    • ►  março (22)
    • ►  fevereiro (22)
    • ►  janeiro (16)
  • ►  2010 (25)
    • ►  dezembro (9)
    • ►  novembro (4)
    • ►  setembro (1)
    • ►  agosto (1)
    • ►  julho (3)
    • ►  junho (1)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (4)

Citar textos deste blog

Para citar textos deste blog utilize o seguinte modelo:

Gil, Célia , (*ano*), *título do artigo*, in Histórias Soltas Presas dentro de Mim, *data dia, mês e ano*, *Endereço URL*

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ - Esta licença permite que os reutilizadores copiem e distribuam o material em qualquer meio ou formato apenas de forma não adaptada, apenas para fins não comerciais e apenas enquanto a atribuição for dada ao criador.

O nosso Hulk (saudades)

O nosso Hulk (saudades)

O nosso cãozinho, o Dragão (saudades)

O nosso cãozinho, o Dragão (saudades)

O meu mais que tudo e eu

O meu mais que tudo e eu

O meu filho mais novo

O meu filho mais novo

O meu filho mais velho

O meu filho mais velho

Categorias

25 de Abril de 1974 5 500 anos Camões 1 acróstico 1 Agradecimento 1 banda desenhada 31 biografia 7 biografia romanceada 1 biologia 1 bullying 1 chaves da memória 4 cidadania 4 clássico 7 Conto 20 conto infantil 7 contos 6 Crónica 3 Crónicas 8 Daqui 1 Dedicatória 2 dissertação de mestrado 1 distopia 6 Divulgação 9 divulgação - leituras 908 divulgação de livros 881 escrita 1 espionagem 2 fábula 2 fantasia 9 gótico 1 halooween 1 higiene do sono 1 Hiroxima 1 histórias com vida 1 1 histórias com vida 3 1 Histórias com vida 7 1 Holocausto 16 homenagem 2 ilustração 4 LGBT 1 literatura brasileira 3 literatura de viagens 2 literatura portuguesa 4 livro 48 livro ilustrado 11 livro infantil 19 livro infanto-juvenil 14 magia 2 manga 1 mangá 2 memórias 8 motivação para a leitura 407 não ficção 4 Nobel 13 novela 1 novela gráfica 84 O Enigma mora cá dentro 2 opinião 857 opiniãooutono da vida 3 outono da vida 3 Outros 271 Paleta poética 5 pnl 6 poema declamado 9 poemas 402 Poesia 17 policial 9 pós 25 de Abril de 1974 1 prémio Leya 2 quadras ao gosto popular 1 realismo mágico 1 receitas 10 reedição 17 Reflexão 7 reflexões 26 relações humanas 8 releitura 2 resenha 324 romance 20 romance gráfico 13 romance histórico 13 soneto 29 sugestões de leitur 1 sugestões de leitura 803 terror 3 thriller 91 thriller de espionagem 2 thriller psicológico 14 trilogia 1 viagens 4

TOP POSTS (SEMPRE)

Link de Afiliada Wook

Comprar na Wook

Ficção Literária Wook

Pesquisa neste blog

Seguidores

Visualizações

TOP POSTS (30 DIAS)

Designed by OddThemes | Distributed By Gooyaabi