A Palavra Que Resta, Stênio Gardel

Gardel, Stênio (2024). A Palavra Que Resta. Lisboa: Publicações Dom Quixote. 

N.º de páginas: 176
Início da leitura: 08/06/2026
Fim da leitura: 09/06/2026

**SINOPSE WOOK**
"Uma carta guardada durante mais de cinquenta anos - e jamais lida. É essa a relíquia que Raimundo Gaudêncio traz consigo. Homem analfabeto que, na sua juventude, teve um amor secreto brutalmente interrompido, aos setenta e um anos resolve que ainda é tempo de aprender a ler e, talvez, decifrar essa ferida aberta do passado.

Nascido e criado na roça, Raimundo não frequentou a escola, pois cedo precisou de ajudar o pai na lida diária. Mas há muito que foi obrigado a deixar a família e a vida no sertão para trás. Desse tempo, Raimundo guarda apenas a carta que recebeu de Cícero, quando o amor escondido entre os dois foi descoberto. Cícero partiu sem deixar outra pista senão aquela carta que Raimundo não sabe ler - pelo menos até agora.

Com uma narrativa sensível e magnética, Stênio Gardel leva-nos pelo passado de Raimundo, permeado de conflitos familiares e da dor do ocultamento da sua sexualidade, mas também das novas formas de afeto e de vida que estabeleceu depois de ter fugido de casa.

Explorando o poder universal da palavra escrita e da linguagem, e o modo como elas afetam os nossos relacionamentos, A Palavra que Resta é um romance arrebatador sobre repressão, violência e vergonha, mas acima de tudo sobre a coragem de lhes resistir."

Há livros que nos desafiam pela complexidade formal e há outros que nos exigem sobretudo resistência emocional. A Palavra Que Resta, de Stênio Gardel, pertence ao segundo grupo. Não se trata de uma leitura difícil por obscuridade ou excesso de artifício literário; pelo contrário, a escrita é limpa, contida e precisa. O que torna o romance duro é a matéria humana que transporta: a violência íntima, o abandono afetivo e a lenta corrosão de uma vida marcada pela rejeição.
O romance acompanha um homem numa fase já avançada da vida, que, confrontado com uma carta nunca lida, revisita a sua história. A estrutura é simples, mas eficaz: o presente desencadeia a memória, e a memória abre espaço para um percurso de exclusão e sobrevivência. Gardel, em vez de acumular cenas chocantes, deixa que a brutalidade se revele no quotidiano, nos silêncios, nos gestos secos e nas humilhações repetidas.
A infância do protagonista é particularmente devastadora. A não aceitação por parte dos pais não surge apenas como desaprovação moral; transforma-se em violência física e simbólica. O pai tenta eliminar aquilo que considera uma vergonha, e a mãe descarrega sobre o filho a culpa pela morte dos gémeos recém-nascidos, como se o rapaz pudesse ter contaminado a família inteira. Estes episódios são narrados com uma sobriedade que aumenta o impacto.
Um dos aspetos mais interessantes do livro é a forma como trabalha a linguagem e o analfabetismo. A carta que permanece por ler durante décadas é reveladora de uma vida interrompida: não saber ler é, aqui, não ter acesso pleno à própria história. O romance liga intimamente alfabetização, dignidade e possibilidade de existir socialmente. Mostra como a exclusão afetiva e a exclusão cultural se alimentam mutuamente.
A sucessão de episódios de violência emocional torna-se opressiva e dura, e eu confesso que precisei de pausas para respirar. Mas talvez seja precisamente essa dificuldade que dá ao romance a sua força ética: A Palavra Que Resta não procura conforto rápido nem redenção fácil. Obriga-nos a permanecer diante da dor e a reconhecer aquilo que tantas vezes é empurrado para as margens. Recomendo.

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