Russell, Kate Elizabeth (2020). Minha Sombria Vanessa. Porto Salvo: Chá das Cinco.
Tradução: Susana SerrãoN.º de páginas: 336
Início da leitura: 29/05/2026
Fim da leitura: 31/05/2026
**SINOPSE WOOK**
"Em 2000, Vanessa Wye é uma adolescente de 15 anos ambiciosa e solitária. Sonhando ser escritora, não se importa de estar sempre sozinha, mas abre uma exceção quando Jacob Strane, o seu professor de inglês, lhe começa a dar mais atenção. Antes que Vanessa tenha consciência, iniciam uma relação, e ela acredita que ele realmente a ama.
Em 2017, uma ex-aluna acusa Strane de abuso sexual. Vanessa fica perante uma escolha impossível: ficar calada, acreditando que se havia envolvido voluntariamente naquela relação… ou redefinir a sua grande história de amor como mera violação. Por um lado, não quer rejeitar esse primeiro amor, o homem que a transformou e tem sido uma presença constante na sua vida. Por outro, será possível que ele seja muito diferente do que ela pensava? Será ela apenas mais uma vítima?
Alternando entre passado e presente, Minha Sombria Vanessa é um retrato excecional de uma adolescência conturbada e das suas consequências, levantando questões cruciais sobre liberdade, consentimento, abuso e vitimização, captando de forma brilhante uma cultura em mudança que transforma as nossas relações e a própria sociedade."
Há livros que se leem com prazer e outros que se leem com desconforto. Minha Sombria Vanessa, de Kate Elizabeth Russell, pertence claramente à segunda categoria. Foi uma leitura que me perturbou e que me obrigou a confrontar emoções contraditórias, precisamente porque se move numa zona cinzenta onde a manipulação, a dependência emocional e a perceção da própria vítima se entrelaçam de forma inquietante.
Tive grande dificuldade em simpatizar com as personagens principais. O professor surge como uma figura profundamente perturbadora, não apenas pelos seus atos, mas pela forma calculada como explora as fragilidades de uma adolescente em formação, moldando-lhe a visão de si própria e da realidade. A autora consegue retratar com eficácia os mecanismos subtis de controlo e sedução que tornam possível uma relação desequilibrada permanecer durante tanto tempo sem ser plenamente reconhecida como abusiva por quem a vive.
Quanto a Vanessa, a minha reação foi mais complexa. Em muitos momentos senti frustração perante a sua incapacidade de romper com uma relação que a destrói gradualmente. A tendência para interpretar o sofrimento como algo merecido e a dificuldade em questionar as narrativas que construiu sobre si própria tornam-na uma personagem difícil de acompanhar. No entanto, essa mesma dificuldade acaba por constituir uma das maiores forças do romance, pois obriga o leitor a compreender como o abuso pode deixar marcas profundas na identidade e na forma como uma pessoa interpreta o seu passado.
A escrita de Russell é envolvente e revela uma grande capacidade para explorar a psicologia das personagens. Ainda assim, senti que a narrativa poderia beneficiar de maior contenção. Em determinados momentos, a repetição de certas ideias e estados emocionais transmite eficazmente a sensação de estagnação vivida por Vanessa, mas também contribui para que o romance pareça mais longo do que o necessário. Houve passagens em que tive a impressão de estar a percorrer territórios já explorados, sem que isso acrescentasse uma nova perspetiva ao desenvolvimento da história.



