segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O Último Cabalista de Lisboa, Richard Zimler

Célia Gil
Hoje trago uma proposta de leitura, que me tem absorvido inteiramente neste mês. Intenso, dramático, verídico são alguns dos adjetivos com que ouso classificar este romance histórico.

Zimler, Richard (1996).O Último Cabalista de Lisboa. Lisboa: Livros Quetzal.
  
O Último Cabalista de Lisboa baseia-se num acontecimento verídico (o que faz com que a sua mensagem se torne mais forte e pesada, levando o leitor a uma grande repulsa por determinados acontecimentos), um grande massacre de cristãos-novos e judeus, ocorrido em Lisboa, no reinado de D. Manuel, em 1506, na Páscoa judaica. Os frades incitavam o povo à matança, acusando os cristãos-novos de serem responsáveis pela ira de Deus que terá causado a fome e a peste que assolavam a cidade. O rei foi complacente com os acontecimentos, permitindo inclusivamente grandes fogueiras no Rossio, onde muitos judeus foram queimados.

Berequias Zarco, sobrinho e discípulo de Abraão Zarco (iluminador e membro respeitado da célebre escola cabalística de Lisboa), encontra mortos o tio e uma jovem desconhecida, na cave que servia de templo secreto desde que a sinagoga fora encerrada pelos cristãos-velhos. Um valioso manuscrito também desapareceu do seu esconderijo. Estarão os dois incidentes relacionados? Terá sido um cristão ou um judeu, como os indícios fazem crer, a assassinar o tio? Quem será a rapariga morta?  É  pela voz de Berequias, narrador e protagonista da obra, que somos conduzidos numa investigação impressionante, policial e histórica, durante a qual Berequias enfrenta vários perigos, pondo constantemente em risco a sua própria vida. As investigações de Berequias levam-no a descobrir que o tio, pressagiando a violência que se abateria sobre os judeus portugueses, se dedicava a fazer sair do país, através de uma rede de passadores clandestinos, importantes manuscritos para a fé hebraica. Para confirmar as suas suspeitas, precisava encontrar a última Haggada (livro hebraico) de seu tio, desaparecida. Também nos sonhos premonitórios que vai tendo, o tio lhe aparece constantemente, dizendo-lhe frases enigmáticas, que o ajudarão a encontrar coragem para não desistir da vingança a que se propusera (por ex: “Lembra-te: a nossa sombra é a tua luz. A nossa maior simplicidade é o teu maior paradoxo. Escuta, Berequias. Não deves nunca enviar as tuas iluminuras por um portador que não seja capaz de se reconhecer a si próprio ao espelho de um dia para o outro.”- pág.147 e “Caro Berequias, a vida propõe-nos muitas veredas que não levam a lado nenhum, portas que se abrem sobre meros abismos, escadas que sobem até portões fechados a cadeado. ” – pág. 226 ).
Uma realidade cruel, exposta através de uma linguagem que não suaviza essa realidade, mas que, pelo contrário, a mostra de tal forma chocante e direta, que o leitor se vê no meio de uma barbárie que faz estremecer e, ao mesmo tempo, imaginar estes tempos tão negros da História - o fanatismo, a frieza, o ódio, a violência, a crueldade total que se propagava em Portugal. Muitos destes judeus tinham sido expulsos de Castela, em 1492, pelo rei D. Fernando (cognominado O Católico). Mas não é a paz que eles encontram em Portugal. É a insanidade total de um ódio tão cego quanto inexplicável.
É igualmente incrível a amizade que une Berequias e Farid (um muçulmano). Uma amizade muito intensa, que mostra ser possível a boa convivência entre judeus ou cristãos-novos (aqueles que haviam sido forçados à conversão) e os mouros, em oposição ao fanatismo e violência demente dos cristãos.
Berequias não descansa enquanto não descobre o assassino de seu tio. Quem terá tido a ousadia de matar Abraão? Provavelmente, quem menos se espera…
Teria o tio pensado que Berequias poderia ser o salvador bíblico? E responde a esta pergunta, afirmando “A resposta está nas vossas mãos: acho que meu tio pressentiu que só o pesadelo da sua morte me poderia levar a escrever este livro que vós agora ledes. Que só a sua partida violenta da Esfera Terrena poderia mostrar-me que o nosso futuro na Europa estava acabado. Que só a mais terrível das tragédias poderia convencer-me a pedir a todos os judeus…que partissem para  onde estivéssemos a salvo da Inquisição ou de quaisquer outros horrores que os reis cristãos pudessem algum dia vir a conceber contra nós. ” – pág. 311.

Publicado originalmente em Portugal, O Último Cabalista de Lisboa é um extraordinário romance histórico, que catapultou o seu autor para um sucesso internacional, tendo sido publicado em toda a Europa, nos Estados Unidos e Brasil, onde depressa se tornou um bestseller.



Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

2 comentários:

  1. Oi Celia,
    O tema é intrigante, mas eu me envolvo demais em livros muito realistas, ao ponto de ter que parar de ler, como foi o caso de "A Ilha do dia Seguinte", do Eco. Não sei se eu conseguiria ler este...
    Bjs

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  2. Gosto deste escritor. Já li obras dele. Beijinhos

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