A Conta Que Deus Fez, Maria Cláudia Rodrigues

Rodrigues, Maria Cláudia (2026). A Conta Que Deus Fez. Lisboa: Guerra & Paz.

N.º de páginas: 224
Início da leitura: 13/05/2026
Fim da leitura: 15/06/2026

**SINOPSE**
"A morte inesperada da mãe, quando Luísa tem apenas onze anos, espoleta uma mudança de vida radical. Órfã também de pai, a jovem vê a irmã, Sara, de quatro anos, ser adotada, num processo tão rápido quanto suspeito. A ela, os serviços sociais entregam-na aos avós maternos, cuja existência até aí desconhecia.
Luísa mergulha então num contexto radicalmente diferente, indo viver para uma aldeia remota no Norte do país, onde, num tempo a roçar o início da década de 90 do século passado, falta quase tudo, desde o saneamento básico à eletricidade.
A Luísa faltará também o amor, mas sobrar-lhe-ão dúvidas: por que razão não há qualquer sinal da existência da mãe na casa dos avós? Porque o casal não toca sequer no nome da filha? E porque tratam Luísa como se ela fosse a personificação de um pecado?
Impelida a procurar a verdade sobre a sua origem e a estabelecer a sua identidade, Luísa não imagina como se arrisca a pôr em causa a imagem idealizada da mãe.
Num retrato duro do interior português no último terço do século passado, A Conta que Deus Fez espelha também o modo como a Justiça lidava com os crimes cometidos sobre as mulheres."

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Há livros que nos conquistam pela subtileza e outros que nos atingem pela violência emocional com que expõem certas realidades humanas. A Conta Que Deus Fez, de Maria Cláudia Rodrigues, pertence claramente ao segundo grupo. Depois de uma estreia muito conseguida, a autora confirma aqui uma escrita segura, direta e profundamente inquietante, capaz de transformar uma história familiar num retrato duro sobre abandono, culpa, silêncios herdados e sobrevivência.
O romance acompanha Luísa, uma rapariga de onze anos que vê a infância interrompida de forma brutal quando encontra a mãe morta, vítima de um ataque epilético. A partir desse momento, tudo se desagrega: a irmã mais nova é adotada, enquanto Luísa é entregue aos avós maternos, figuras frias e distantes, marcadas por um passado que a protagonista desconhece e tenta desesperadamente compreender. Existe uma ferida antiga naquela família, uma história nunca explicada sobre a expulsão da mãe de casa ainda em jovem, e é precisamente nesse ambiente de ressentimentos e segredos que o livro ganha a sua maior força.
Maria Cláudia Rodrigues constrói uma narrativa emocionalmente pesada, por vezes até sufocante, mas sempre credível. O que mais impressiona não é apenas aquilo que acontece a Luísa, mas a forma como a autora nos obriga a permanecer ao lado dela, a assistir ao desgaste progressivo da inocência e à solidão de uma criança entregue a adultos incapazes de amar. Há momentos particularmente difíceis de ler, não pela descrição explícita, mas pelo desconforto moral que provocam. Certas atitudes das personagens deixam uma sensação de revolta e impotência que permanece muito depois de se fechar o livro.
A escrita é simples sem ser simplista, fluída, muito eficaz na criação de ritmo e tensão emocional. O romance lê-se rapidamente, quase de um fôlego, mas deixa marcas. Há uma contenção interessante na forma como a autora evita explicar tudo ao leitor, permitindo que certas perguntas permaneçam em aberto e dando mais densidade às relações familiares. Essa economia narrativa acaba por reforçar o impacto da história.
Mais do que um romance sobre perda, este é um livro sobre as consequências da ausência de afeto e sobre a crueldade que pode existir dentro do espaço familiar, precisamente onde deveria existir proteção. Não é uma leitura leve nem conciliadora, mas é um daqueles livros que justificam plenamente o desconforto que provocam, porque conseguem tocar em algo profundamente humano e perturbador.

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