Desde cedo, aprendemos a viver para os outros, em função dos outros e pelo que os outros pensam.
Aprendemos a viver para alcançar sucessivos objetivos: a formação escolar, o casamento, o lar, o marido, os filhos, a família, a profissão...
Na ânsia de querermos dar o melhor de nós em cada circunstância, constatamos que a vida foi passando e que não vivemos. Passámos por tudo a correr, continuamos a correr...
Para quê? Para onde?
Há que parar um pouco para nos questionarmos. Afinal onde queremos ir? O que procuramos tão desesperadamente? Que nos leva a não ter um minuto para o que realmente somos e gostamos?
Já paramos para nos questionarmos sobre a razão de viver nesta ansiedade, que nos consome as forças? Esperamos, porventura, que a tristeza em que vivemos o presente seja a cruz que nos permitirá a redenção futura? Que redenção? Estaremos à espera de viver quando já não tivermos força ou até vontade? Quando verificamos que a vida nos passou ao lado e que estamos cansados, cansados até de pensar em viver. Tão cansados, que já nem prazer sentimos quando alcançamos algo que desejamos a vida toda.
Não nos rimos desalmadamente, porque ficava mal. Não fizemos algo, porque era incorreto. Não saímos, porque tínhamos obrigações que nos encarceravam. Não ignorámos nunca o que a sociedade pensa, a forma como somos vistos, a imagem que queremos passar. Esquecemo-nos, isso sim, que, agindo desta forma, deixámos, muitas vezes, de ser quem somos, do que nos fazia realmente felizes e ficámos de tal forma acomodados a uma vida que vivemos, que nos esquecemos da vida que sonhámos. Isto pode ficar mal... Isto pode fazer-me mal...Podia, mas nunca fez, porque nunca nos demos a oportunidade de "pular a cerca" das suposições.
E andamos uma vida inteira com duas palas nos olhos, enxergando um objetivo predefinido pela própria sociedade, uma capa social que serve a todos, e que deixa a descoberto apenas o que poderemos ser, fazer ou viver. Uma capa social que restringe quem quer fazer a diferença, abafa a personalidade de cada um e não deixa respirar a felicidade.
A vida estava, afinal, ali mesmo, no que permanece para lá das palas, no que nos faz realmente felizes, no que não é programado ou exigido, no que seria genuinamente ser feliz.
Célia Gil
(imagem do google)
Sou folha que cai
a cada novo chão de outono.
Sou gemido que sai,
me invade, levando-me o sono.
E caio... Assim, lentamente...
contorcidamente, em direção ao chão.
Num amarelecer de gente
que rodopia pela vida sem razão.
Sou folha que vai, triste condição,
perder a cor, escurecer.
Ignorada, largada pelo chão,
à espera de apodrecer.
E o amarelo, dourada ilusão,
fez parte do processo de dissolução.
Sou aquela folha esquecida
numa página que se virou,
com uma mensagem perdida
no livro que se encerrou.
Célia Gil
Se tivesse uma varinha de condão,
voltaria a ser criança.
Teria o mundo na minha mão,
vivê-lo-ia numa eterna esperança,
como só quem é criança
tem esse dom, essa ilusão.
Um sono bem tranquilo
no colo com cheiro a amor.
Voltaria a viver tudo aquilo
que deu à minha vida mais calor.
Tudo o que o amor semeia,
tudo com que ele nos presenteia.
Os beijinhos repenicados dos avós
e o orgulho natural dos meus pais,
desfariam todos e quaisquer nós
que hoje teimam em tira-me a paz.
Porque o carinho é a condição,
para a vida ter mais razão.
Voltaria, criança rabina,
a cair, vezes sem conta, da bicicleta,
assim a vida ensina
em cada vitória, em cada queda.
Irromperia com a taça da vitória
dos meus tempos de atleta.
Voltaria, com entusiasmo genuíno, a escrever
histórias de sonho e de aventura,
histórias de quem gosta de se entreter,
e da escrita tirar toda a candura.
Linhas e linhas, em cadernos de prazer,
de tardes que guardo com ternura.
Tantas, tantas coisas faria,
histórias reais guardadas na memória.
E nada, nada mudaria,
escreveria sempre a mesma história.
Com um final feliz, isso assim seria,
com os meus pais a celebrar a minha glória.
Célia Gil
Que os dias se multiplicassem em momentos de alegria,
que em cada inverno houvesse mais primaveras,
que nada viesse escurecer o nosso dia a dia.
Mas a paz mora num local tão distante...
Para lá de íngremes caminhos de acesso quase impossível.
Que dificilmente qualquer caminheiro errante
encontra a porta que lhe apazigue o seu anseio irascível.
Célia Gil
O mundo desmorona, tudo perde sentido, os ombros descem,
a vontade esvai-se e o sonho cai por terra, quando algumas das
pessoas a quem dedicamos a vida o veem como obrigação e não
perdem uma oportunidade para magoarem, para lançarem
farpas em quem só quer para eles o melhor do mundo, em
quem continua a desejar um simples abraço, um mero
reconhecimento de uma vida a eles dedicada. Então, sentimos
que, de alguma maneira, erramos, restando a impotência e o
desejo de que a vida os torne mais condescendentes e afetuosos,
menos virados para o seu umbigo, mais dados aos que sempre
foram os seus mais verdadeiros amigos.
Célia Gil
Hoje trago a divulgação do último livro que li, espero que gostem!
O filho do Brâmane, Siddhartha, é um jovem que, com o seu amigo Govinda, aprendeu, desde cedo, a arte da meditação e da contemplação. Mas, a certa altura, apercebeu - se que não era feliz, nem com o banho diário da purificação, nem com os sacrifícios, nem com o amor dos seus pais e do seu amigo.
Decidiu, então, ir ter com os samanas, despojar-se de todos os bens materiais que o ligavam à terra. Govinda acompanhou-o e aprenderam muito: o caminho da autonegação através da dor, o sofrimento voluntário, a fome, a sede, o cansaço… Queriam esvaziar-se de ideias, abandonar o Eu para alcançar o Nirvana.
Porém, Siddhartha concluiu que aquela sabedoria “não tinha pior inimigo do que o desejo de sabedoria e de aprender”.
Tendo chegado a ele uns boatos sobre Buda, que se recusava a passar sacrifícios, que tinha derrotado os demónios e falado com os deuses, Siddhartha resolveu abandonar os samanas e ir conhecer o sublime Buda. Govinda seguiu-o, mais uma vez.
Reconheceram o Buda pela serenidade, genuinidade dos gestos e paz intocável. A sua voz perfeita ensinava que a libertação do sofrimento já fora encontrada e quem seguisse o caminho do Buda encontrava a libertação. Govinda avançou para que o Buda lhe desse a sua bênção, rendido à sua doutrina. Siddhartha não. Depois de falar com o Buda, a sós, na floresta, referiu que encontrara na sua doutrina uma falha. Ele estava disposto a abandonar todas as doutrinas para tentar, sozinho, encontrar o seu objetivo ou, simplesmente, para morrer.
Começou a olhar para tudo como se fosse a primeira vez. E o que viu? Seria, afinal, belo o mundo?
Quando chegou a uma cidade, conheceu Kamala, que iluminou o seu coração. Estaria Siddhartha disposto a trabalhar como um mercador para conseguir dinheiro a fim de alcançar o amor de Kamala? Como terá encarado a volúpia do poder e da riqueza? Deixaria de ser um samana? Os prazeres da vida modificá-lo-iam para sempre? Não se tornaria ele próprio mesquinho, vil e cobiçoso? Que futuro estaria reservado para Siddhartha? Terá encontrado a paz de espírito que tanto ansiava?
Tantas as questões lançadas por este livro que nos faz pensar na vida, questionar os ténues limites entre o certo e o errado, se é que existem…
Célia Gil
Hermann Hesse nasceu em 1877, em Calw (Alemanha), filho de missionários protestantes. Entra cedo em choque com os pais, que queriam o filho pastor; não se submete à disciplina da escola e foge para a Suíça.
Hesse trabalha, então, como livreiro. Dedica-se à poesia e publica "Poemas" (1902). Dois anos depois, o romance "Peter Camenzind" - história de um jovem que se rebela contra sua aldeia natal e foge - tem grande aceitação de crítica e público.O jovem escritor casa-se, mas continua revoltado contra o meio burguês e as convenções sociais - como se lê em "Gertrud" (1910). Muda-se para a Índia e conhece o budismo, que adotaria pelo resto da vida.
Após o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, engaja-se em atividades contra o militarismo alemão. Em 1919, publica "Demian", influenciado pelas idéias do psicanalista Carl G. Jung.
"Siddhartha" é de 1922. Sem encontrar a solução para seus problemas na Índia, conta a história de sua vida em "O Lobo da Estepe" (1927). Em 1943, publica "O Jogo das Contas de Vidro", romance utópico, situado no ano de 2200.
Entre seus outros livros, vale citar, em especial, os romances "Rosshalde" (1913), "Knulp" (1915) e "Narciso e Goldmund"(1930). Prêmio Nobel de literatura em 1946, Hermann Hesse morreu em 1962, na cidade de Montagnola (Suíça).
(in https://educacao.uol.com.br/biografias/hermann-hesse.jhtm)
Nas tardes de verão, na cidade,
tardes que nos fazem companhia,
é poderosa esta acalmia
que entra por mim adentro e me invade.
E o coração sussurra ao ouvido
uma lenta canção de embalar.
Sinto cada músculo relaxar,
tudo o que preocupa perde sentido.
Contemplo o sol projetado em cada monte,
uma brisa fresca chega, como uma carícia.
Esqueço o mundo, a maledicência e a malícia
que, como o sol, se dissipam no horizonte.
Célia Gil
Agradeço muito ao eu filho mais novo, que me ajudou a atualizar o meu blog. Gostaram?
Lembrei-me de partilhar uma das várias receitas de filhós doces, uma receita tradicional e antiquíssima:
Ingredientes:
- 6 kgs de farinha
- 3 dúzias de ovos
- 1 pitada de sal
- 1 litro de azeite
- meio Kg. de abóbora cozida (triturada)
- 1 copo (mal cheio e pequeno, se for forte) de aguardente
- 10 paus de canela fervidos num litro de água
- 1 tira de fermento em barra
- 1 kg de açúcar
- sumo de duas laranjas
- 3 litros de óleo
Confeção:
Comece por colocar a farinha de um lado da masseira.
Bata os ovos com a batedeira e coloque o recipiente dos ovos numa taça de água morna.
Em seguida, vá envolvendo a farinha com os ovos (à mão), amassando de forma circular.
Envolva o fermento até este se desfazer por completo.
Deite a pitada de sal.
Envolva os restantes ingredientes e amorne-os, como fez com os ovos.
Vá deitando o preparado, devagar, sob a massa já envolvida com os ovos, amassando sempre de forma circular.
Quando fizer folha e se soltar do fundo, vá dobrando a massa e amassando com força (dando uns murros na massa).
Envolva num lençol a masseira e num cobertor. Deixe fintar 2/3 horas.
Ligue a trempe e coloque o óleo a aquecer. Tenda as filhós numa tábua, com as mãos (não se esqueça de ir untando as mãos com óleo).
Frite a gosto (mais ou menos fritas. Eu gosto delas branquinhas).
No fim, se gostar, pode envolvê-as em açúcar e colocar canela. Eu prefiro sem nada. Ofereço, congelo e dão-me para algum tempo.
Bom apetite!
Material necessário: uma masseira grande, uma trempe a gás e uma frigideira das antigas.
Ingredientes:
- 6 kgs de farinha
- 3 dúzias de ovos
- 1 pitada de sal
- 1 litro de azeite
- meio Kg. de abóbora cozida (triturada)
- 1 copo (mal cheio e pequeno, se for forte) de aguardente
- 10 paus de canela fervidos num litro de água
- 1 tira de fermento em barra
- 1 kg de açúcar
- sumo de duas laranjas
- 3 litros de óleo
Confeção:
Comece por colocar a farinha de um lado da masseira.
Bata os ovos com a batedeira e coloque o recipiente dos ovos numa taça de água morna.
Em seguida, vá envolvendo a farinha com os ovos (à mão), amassando de forma circular.
Envolva o fermento até este se desfazer por completo.
Deite a pitada de sal.
Envolva os restantes ingredientes e amorne-os, como fez com os ovos.
Vá deitando o preparado, devagar, sob a massa já envolvida com os ovos, amassando sempre de forma circular.
Quando fizer folha e se soltar do fundo, vá dobrando a massa e amassando com força (dando uns murros na massa).
Envolva num lençol a masseira e num cobertor. Deixe fintar 2/3 horas.
Ligue a trempe e coloque o óleo a aquecer. Tenda as filhós numa tábua, com as mãos (não se esqueça de ir untando as mãos com óleo).
Frite a gosto (mais ou menos fritas. Eu gosto delas branquinhas).
No fim, se gostar, pode envolvê-as em açúcar e colocar canela. Eu prefiro sem nada. Ofereço, congelo e dão-me para algum tempo.
Bom apetite!
Hoje trago uma sugestão de leitura a não perder:
Zafón, Carlos Ruíz (2010). Marina. Grupo Planeta: Lisboa.
Marina é um romance mágico de memórias, escrito numa prosa ora poética ora
irónica, assente numa mistura de géneros literários (entre o romance de
aventuras e os contos góticos) e onde o passado e o presente se fundem de forma
inconfundível.
Este livro propõe ao leitor uma reflexão continuada sobre os mistérios
da condição humana através do relato alternado de três histórias de amor e
morte.
Ambientada na cidade de Barcelona, a história decorre entre Setembro de
1979 e Maio de 1980 e depois em 1995 quando Óscar, o protagonista, recorda a
força arrebatadora do primeiro amor e as aventuras com Marina, recupera as
anotações do seu diário pessoal e revisita os locais da sua juventude.
«Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu.
Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale
começar pelo princípio, que neste caso é o fim.»
Um misto de segredos, perseguições, morte, doença, amizade, amor, espionagem,
sofrimento, saudade, que nos absorvem numa leitura que se torna voraz,
empolgante e emocionante, quer pela história em si, quer pela dança de palavras
com que o autor nos presenteia. É esta forma de escrita que nos leva a querer
voltar um pouco atrás para reler certas passagens, que ficam a martelar pelo
seu conteúdo e beleza.
Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Inicia a sua carreira literária em 1993 com El
Príncipe de la Niebla (Prémio Edebé), a que se seguem El
Palacio de la Medianoche, Las Luces de Septiembre (reunidos
no volume La Trilogía de la Niebla) e Marina. Em 2001
publica A Sombra do Vento, que rapidamente se transforma num
fenómeno literário internacional. Com O Jogo de Anjo (2008)
regressa ao Cemitério dos Livros Esquecidos. As suas obras foram
traduzidas em mais de quarenta línguas e conquistaram numerosos prémios e
milhões de leitores nos cinco continentes. Atualmente, Carlos Ruiz Zafón reside
em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances e colabora habitualmente
com La Vanguardia e El País.
Sobre mim
Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.
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