Magalhães, Helena (2025). Atos de Desobediência. Lisboa: Edições ASA.
N.º de páginas: 336
Início da leitura: 01/09/2026
Fim da leitura: 02/09/2026
**SINOPSE WOOK**
"O romance de estreia de Glória Brito foi aclamado pela crítica e adorado pelos leitores. O sucesso, porém, não se repetiu. A escritora está agora perto dos quarenta anos e começa a questionar o seu talento e o seu lugar no mundo. O medo instala-se.
Viver era mais simples no bairro onde cresceu, um tempo em que se sentia livre e a sua família ainda estava completa. Já não é assim. Glória abandonou o bairro, embora a sua memória teime em levá-la para lá. A liberdade não cumpriu a sua promessa de plenitude. A destruição da família alterou a sua relação com os outros e consigo mesma.
A única constante na sua vida é Lúcia, uma amiga que insiste em arrancá-la à solidão, mesmo quando Glória resiste. Serão as palavras crípticas de uma voz do seu passado a abalar essa resistência. Quem sabe, talvez o livro que precisa de escrever já esteja escrito.
Atos de Desobediência explora a intimidade feminina, as relações entre mulheres e homens, entre gerações e classes sociais, numa celebração tão apaixonada quanto crítica da literatura e da arte."
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Em Atos de Desobediência, Helena Magalhães constrói um romance centrado em Glória Brito, uma escritora cuja relação com a literatura está longe de ser pacífica. A dificuldade em encontrar leitores e reconhecimento para aquilo que escreve vai-se cruzando com um passado marcado por relações dolorosas e com uma visão desencantada das relações entre homens e mulheres. Entre a frustração profissional, a solidão e uma sucessão de relações que pouco ou nada parecem acrescentar à sua vida, Glória procura formas de preencher um vazio que a escrita, apesar de tudo, não consegue resolver.
A personagem vive também uma espécie de confronto permanente com aquilo que entende serem as desigualdades existentes no meio literário e na sociedade. A sua revolta perante o reconhecimento atribuído aos homens, por vezes independentemente do mérito que lhes reconhece, introduz no romance uma dimensão crítica que ultrapassa a história individual da protagonista. Helena Magalhães aborda, assim, questões relacionadas com as diferenças de oportunidades, com os papéis atribuídos a homens e mulheres e com a dificuldade de afirmação feminina num espaço que nem sempre parece oferecer as mesmas possibilidades a todos.
É neste contexto que surge Fernando, uma presença que altera o equilíbrio precário em que Glória se encontra. A relação que estabelece com ele coloca-a perante expetativas, ilusões e escolhas que revelam tanto a sua vulnerabilidade como a necessidade de acreditar que, finalmente, encontrou alguém capaz de dar um sentido diferente à sua vida. No entanto, aquilo que cada um está disposto a perder, ou a sacrificar, para que essa relação possa existir é uma questão que o romance vai deixando em aberto e que ganha importância à medida que a narrativa avança.
Apesar de reconhecer mérito à autora na forma como explora estas questões, terminei a leitura com sentimentos algo contraditórios. A escrita é, sem dúvida, um dos pontos fortes do livro, sobretudo na maneira como acompanha o mundo interior da protagonista e dá espaço às suas inquietações, ressentimentos e contradições. Há uma intenção clara de questionar determinadas estruturas sociais e profissionais, e essa dimensão crítica é interessante e, em vários momentos, pertinente.
Por outro lado, senti dificuldade em criar empatia com as personagens. Também algumas situações e conflitos me pareceram regressar demasiadas vezes aos mesmos lugares, contribuindo para um ritmo irregular e, em certos momentos, excessivamente repetitivo. Essa insistência acabou por retirar algum impacto a acontecimentos que, apresentados de forma mais contida, poderiam ter produzido maior efeito.
Talvez esta seja, em parte, uma questão de expetativas. A sinopse despertou em mim uma curiosidade que acabou por não encontrar correspondência total na leitura. Esperava uma narrativa com uma tensão diferente e uma maior capacidade de me envolver emocionalmente com as personagens. Encontrei, em vez disso, um romance sobretudo interessado nas suas inquietações, nas fragilidades das relações e nas questões de género e de reconhecimento que atravessam a protagonista.
A personagem vive também uma espécie de confronto permanente com aquilo que entende serem as desigualdades existentes no meio literário e na sociedade. A sua revolta perante o reconhecimento atribuído aos homens, por vezes independentemente do mérito que lhes reconhece, introduz no romance uma dimensão crítica que ultrapassa a história individual da protagonista. Helena Magalhães aborda, assim, questões relacionadas com as diferenças de oportunidades, com os papéis atribuídos a homens e mulheres e com a dificuldade de afirmação feminina num espaço que nem sempre parece oferecer as mesmas possibilidades a todos.
É neste contexto que surge Fernando, uma presença que altera o equilíbrio precário em que Glória se encontra. A relação que estabelece com ele coloca-a perante expetativas, ilusões e escolhas que revelam tanto a sua vulnerabilidade como a necessidade de acreditar que, finalmente, encontrou alguém capaz de dar um sentido diferente à sua vida. No entanto, aquilo que cada um está disposto a perder, ou a sacrificar, para que essa relação possa existir é uma questão que o romance vai deixando em aberto e que ganha importância à medida que a narrativa avança.
Apesar de reconhecer mérito à autora na forma como explora estas questões, terminei a leitura com sentimentos algo contraditórios. A escrita é, sem dúvida, um dos pontos fortes do livro, sobretudo na maneira como acompanha o mundo interior da protagonista e dá espaço às suas inquietações, ressentimentos e contradições. Há uma intenção clara de questionar determinadas estruturas sociais e profissionais, e essa dimensão crítica é interessante e, em vários momentos, pertinente.
Por outro lado, senti dificuldade em criar empatia com as personagens. Também algumas situações e conflitos me pareceram regressar demasiadas vezes aos mesmos lugares, contribuindo para um ritmo irregular e, em certos momentos, excessivamente repetitivo. Essa insistência acabou por retirar algum impacto a acontecimentos que, apresentados de forma mais contida, poderiam ter produzido maior efeito.
Talvez esta seja, em parte, uma questão de expetativas. A sinopse despertou em mim uma curiosidade que acabou por não encontrar correspondência total na leitura. Esperava uma narrativa com uma tensão diferente e uma maior capacidade de me envolver emocionalmente com as personagens. Encontrei, em vez disso, um romance sobretudo interessado nas suas inquietações, nas fragilidades das relações e nas questões de género e de reconhecimento que atravessam a protagonista.

