O Menino, Fernando Aramburu

 Aramburu, Fernando (2025). O Menino. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

Tradução: J. Teixeira de Aguilar
N.º de páginas: 224
Início da leitura: 05/01/2026
Fim da leitura: 07/01/2026

**SINOPSE**
Inspirado num acidente real ocorrido no País Basco em 1980, este romance mergulha na devastação de uma família. Uma história comovente, uma história de resistência, como só Aramburu sabe contar.
Nicasio, já reformado, costuma ir às quintas-feiras ao cemitério de Ortuella visitar a sepultura do neto. É um dos muitos falecidos na sequência de uma explosão de gás numa escola daquela localidade, um acidente que sacudiu o País Basco e toda a Espanha em 1980.
Pelas andanças do avô, uma figura que se afirma até se tornar indelével, pelo testemunho da mãe, muitos anos depois, pela crónica objetiva do que sucedeu à família, descobriremos como aquela tragédia dilacerante trouxe à baila aspetos desconhecidos das suas personalidades e como transtornou para sempre as suas vidas.
Com a mestria habitual de Aramburu, o leitor ver-se-á imerso numa história de emoções inesperadas, uma exploração psicológica e literária que o manterá preso até à última linha, para entender e se comover com o destino das personagens. Pelo tratamento extremamente humano que lhes é dado, e pelos recursos estilísticos utilizados, O Menino é um romance memorável, um prodígio literário do melhor Aramburu.
Em adaptação pela Netflix."
Fernando Aramburu regressa, em O Menino, a um território que lhe é particularmente caro: o da dor coletiva e íntima que nasce de um acontecimento traumático. Inspirado num facto real ocorrido em 1980, na localidade basca de Ortuella - uma explosão de gás numa escola primária que matou cinquenta crianças entre os cinco e os seis anos e três adultos -, o romance afasta-se de qualquer tentação sensacionalista para se concentrar no impacto humano da tragédia.
A narrativa organiza-se em torno de Nuco, uma das crianças vitimadas, e da sua família: os pais, Mariaje e José Miguel, e o avô Nicasio. A morte do menino funciona gera uma sucessão de ondas de choque emocionais, revelando diferentes formas de viver o luto. Cada personagem carrega a perda à sua maneira, num retrato subtil e profundamente humano da dor, da culpa e da incomunicabilidade.
É precisamente Nicasio quem assume maior relevo. Um avô devastado pela consciência de ter sido ele a levar o neto à escola naquele dia, vive um luto marcado por uma culpa obsessiva que o isola da comunidade. A sua dor, silenciosa e persistente, não encontra compreensão em Ortuella, onde a tragédia é rapidamente absorvida por uma necessidade coletiva de seguir em frente. Aramburu expõe assim, com grande sensibilidade, a tensão entre o sofrimento individual e a memória social, mostrando como o tempo não cura de forma igual todas as feridas.
A escrita de O Menino é contida, despojada de artifícios retóricos, o que reforça o impacto emocional do texto. Aramburu opta por uma linguagem clara e direta, que não dramatiza em excesso nem procura comover pelo exagero. É precisamente essa sobriedade que torna a leitura tão tocante: a emoção surge de forma natural, quase inevitável, sem nunca resvalar para o sentimentalismo.
Outro dos aspetos mais marcantes do romance é a sua construção formal, invulgar e eficaz. A narrativa articula-se a três vozes, a do narrador, a da mãe e a do próprio livro, criando um jogo metanarrativo que se revela um dos grandes trunfos da obra. Nos momentos em que o testemunho da mãe é interrompido, o livro “ganha vida” e dirige-se diretamente ao leitor, comentando, esclarecendo ou acrescentando informação. Esta alternância entre narradores não só quebra a linearidade do relato, como reforça a consciência de estarmos perante uma construção literária que reflete sobre si própria e sobre os limites da representação da dor.

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