Cruz, Afonso (2024). O Que a Chama Iluminou. Lisboa: Penguin Random House.
N.º de páginas: 160
Início da leitura: 01/03 a 03/03/2026
**SINOPSE**
"Santiago do Chile, Setembro de 2019. Num beco escuro, encurralados por dois blindados conduzidos por carabineros, dois vultos temem pela vida. Um deles é Afonso Cruz.
Punta Arenas, Outubro de 2019. Um jipe em contramão embate num carro a caminho do Museu de História Natural. Afonso Cruz é um dos passageiros.
A partir de uma viagem atribulada ao Chile, Afonso Cruz escreve sobre a eminência do fim, pessoal (também o seu) e colectivo, daí resultando esta novela-ensaio, reflexão terna e desapiedada sobre o fim das coisas: o fim do mundo, nas suas mais variadas versões; o deserto de Atacama, onde as mulheres continuam a revolver a areia em busca de partes do corpo dos maridos e dos filhos, vítimas da ditadura de Pinochet; o fim das tribos indígenas, das línguas; o planeta que se afunda; vidas trocadas por botões; o pó de onde todos viemos e a que todos regressaremos… Mas, numa nota de esperança e como uma vela na escuridão, Afonso Cruz lembra-nos, parafraseando Saint-Exupéry, que não é a cera que fica, mas o que a chama iluminou."
O Que a Chama Iluminou, de Afonso Cruz, é uma obra difícil de enquadrar em categorias rígidas. Situada algures entre a novela e o ensaio, constrói-se sobretudo a partir de memórias e de reflexões filosóficas que emergem de uma experiência pessoal. O ponto de partida é uma viagem ao Chile, em 2019, que se transforma num episódio traumático: no meio dos protestos que tomaram conta de Santiago, o autor sofre um acidente quase fatal. A proximidade da morte torna-se, assim, o eixo em torno do qual se constroem as páginas do livro.
Mais do que relatar factualmente o sucedido, Afonso Cruz utiliza esse momento-limite como catalisador para uma meditação sobre a fragilidade da vida e a inevitabilidade do fim. A narrativa avança em tom introspetivo, frequentemente ensaístico, interrogando a efemeridade das coisas, a consciência da mortalidade e o modo como os acontecimentos inesperados nos obrigam a reavaliar prioridades, valores e memórias. A escrita mantém a marca distintiva do autor: culta, precisa e atravessada por referências que ampliam o horizonte reflexivo do texto.
Este confronto com a morte não é tratado de forma sensacionalista. Pelo contrário, o livro prefere o registo ponderado da interrogação filosófica, onde o episódio vivido se transforma num pretexto para pensar a condição humana. A experiência concreta, o acidente, o ambiente de tensão social nas ruas chilenas, o sentimento de vulnerabilidade, é gradualmente transfigurada em matéria de reflexão, num movimento que aproxima o livro de um diário intelectual.
Para quem acompanha sobretudo a vertente ficcional de Afonso Cruz, O Que a Chama Iluminou pode surgir como uma obra menos imediata ou narrativa. A força do livro reside menos na intriga do que na densidade das ideias e na capacidade de transformar uma experiência traumática em pensamento literário. Ainda assim, permanece intacta a qualidade da sua escrita, simultaneamente rigorosa e sensível, bem como a cultura vasta que atravessa o texto.
Apesar de ser mais fácil, para muitos leitores, encontrar maior prazer nas suas obras de ficção, esta incursão mais ensaística confirma a solidez intelectual do autor e a consistência do seu percurso literário. E se o livro nasce de um confronto brutal com a possibilidade do fim, termina com um discreto mas significativo rasgo de esperança, como se, no meio da escuridão, permanecesse algo do que a chama iluminou.
As fotos no final do livro são impactantes.

