Borboleta, Madeleine Pereira

Pereira, Madeleine (2025). Borboleta. Alfragide: Edições ASA.


Tradução: Alice Pereira e Hélio Pereira
N.º de páginas: 176
Início da leitura: 01/04/2026
Fim da leitura: 02/04/2026

**SINOPSE WOOK**
«"Ei, Madeleine, é óbvio que você é portuguesa, você até tem Pereira no apelido."

Constantemente trazida de volta às suas origens, o conhecimento de Madeleine sobre Portugal limita-se a Cristiano Ronaldo, piadas xenófobas sobre o Guesh e a língua, mesmo assim, algo que o seu pai lhe transmitiu. Mas este último, chegou a França aos doze anos, recusou-se a vida toda a falar do seu país natal e da sua infância sob a ditadura...

Como resultado, Madeleine mal sabe que Salazar era um ditador e não apenas um bruxo malvado em Harry Potter. Porém Madeleine sente uma necessidade profunda de se reconectar com suas raízes, e se seu pai não quiser ajudar, então ela terá de procurar respostas em outro lugar. Começando pelos muitos amigos, imigrantes portugueses, que têm.

Da região de Paris a Lisboa, Madeleine vai recolhendo as suas histórias de vida. Aos poucos, traça o fio da história de Portugal e, através dele, tenta conhecer mais sobre si mesma.»

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Borboleta, de Madeleine Pereira, é uma obra autobiográfica que cruza a memória individual com momentos decisivos da história recente de Portugal, nomeadamente o 25 de Abril de 1974 e as emigrações portuguesas para França, muitas vezes motivadas pela necessidade de fugir à prisão e à repressão do regime ditatorial. A autora constrói uma narrativa que avança sem esforço, despertando a curiosidade do leitor e evitando o cansaço, ao mesmo tempo que ilumina experiências comuns a muitas famílias portuguesas do século XX.
A estrutura do livro assenta numa autorrepresentação em diferentes tempos da vida da autora: a infância, a adolescência e a idade adulta. É já enquanto adulta que Madeleine Pereira procura convencer o pai a contar a história da família, no âmbito de um projeto de banda desenhada, e é desse diálogo, por vezes difícil, marcado por silêncios e resistências, que nasce grande parte da força emocional da obra. A memória surge aqui não apenas como recordação, mas como construção, negociação e, em certa medida, reparação.
Um dos grandes méritos de Borboleta reside na forma como o privado e o coletivo se entrelaçam. A história familiar nunca se fecha sobre si mesma: está sempre atravessada pela História com maiúscula, pelas marcas da ditadura, pela experiência do exílio, pela condição do emigrante e pela identidade portuguesa vivida fora de Portugal. Nesse sentido, trata-se de uma obra profundamente portuguesa, não por recorrer a lugares-comuns, mas por dar voz a vivências que fazem parte do imaginário e da memória coletiva do país.
Do ponto de vista gráfico, porém, o livro apresenta um aspeto mais discutível. A ilustração da capa é belíssima e cria uma expectativa que nem sempre se confirma no interior da obra. Embora o uso da cor seja interessante e expressivo, o traço das personagens revela-se pouco apelativo: são figuras marcadamente feias, por vezes difíceis de ler visualmente, obrigando o leitor a deter o olhar durante algum tempo para compreender o que está representado. Esse contraste entre a capa e as ilustrações internas constitui, na minha opinião, o principal ponto menos conseguido do livro.

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