O Silêncio de Malka, Pellejero & Zentner

Pellejero & Zentner (2025). O Silêncio de Malka. Palmela: Devir.
Tradução: Maria Ramos
N.º de páginas: 112
Início da leitura: 08/08/2026
Fim da leitura: 09/08/2026

**SINOPSE WOOK**
"Vítimas das perseguições feitas aos judeus no final do século XIX, Malka e a sua família são obrigados a deixar a Rússia e emigram para a Argentina. Aí terão que se habituar à dura vida de agricultores e às diferenças culturais em que a mistura de magia da Torá com a magia local obtém um resultado que nem sempre é o melhor. O relato desenvolve-se em seis comoventes histórias, centradas em períodos específicos e iluminadas pelas cores magistrais de Pellejero."

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O Silêncio de Malka constrói-se a partir de seis histórias que atravessam diferentes momentos no tempo e que, em conjunto, compõem um retrato multifacetado da imigração de judeus russos para a Argentina. Mais do que acompanhar uma única trajetória, a obra procura recuperar uma experiência coletiva feita de deslocação, sobrevivência, perda e tentativa de reconstruir uma vida num território novo. É uma história de raízes arrancadas e de outras que, com dificuldade, procuram encontrar terreno onde possam voltar a crescer.
No centro desse percurso está Malka, cuja história se torna também a história de muitas outras mulheres e homens que chegam a uma terra desconhecida, carregando consigo a memória de um lugar que já não podem habitar da mesma forma. O silêncio de Malka assume, desde logo, uma dimensão que ultrapassa a ausência de palavras. É uma condição, mas também uma linguagem. É sinal de fragilidade e de exposição, mas pode transformar-se igualmente numa forma de resistência. Quando não se pode falar, sobreviver passa por encontrar outras maneiras de afirmar a própria existência.
É precisamente aí que a metáfora do silêncio ganha maior força. Há silêncios que dizem mais do que discursos inteiros, porque carregam aquilo que não pode ser explicado, aquilo que foi perdido e aquilo que permanece por dizer. No caso de Malka, o silêncio não significa necessariamente ausência: pelo contrário, torna-se uma presença constante, quase física, que acompanha a personagem e condiciona a forma como se relaciona com o mundo. A sua incapacidade de falar não a torna uma personagem passiva; obriga-a, antes, a desenvolver outras formas de resistência perante circunstâncias que parecem muitas vezes determinadas contra si.
A estrutura em seis histórias permite que o livro se afaste de uma narrativa linear e assuma uma dimensão quase de memória fragmentada. Cada episódio acrescenta uma camada ao retrato de Malka e ao universo em que se move, e é na relação entre essas diferentes partes que o livro encontra grande parte da sua riqueza. Não estamos perante uma simples crónica de imigração, mas diante de uma obra que procura perceber o que acontece às pessoas quando são obrigadas a abandonar um lugar e a reconstruir a sua identidade noutro.
A dimensão histórica está presente, mas não domina a narrativa. Zentner utiliza esse contexto para falar de pessoas concretas, das suas esperanças e dos seus receios, evitando transformar as personagens em meras peças de um processo histórico. A Argentina que encontramos no livro é simultaneamente lugar de promessa e de adversidade, espaço de possibilidade e de desilusão. Para quem chega, a mudança de continente não significa necessariamente começar de novo: significa transportar consigo um passado que insiste em permanecer.
É neste ponto que o elemento fantástico assume particular importância. O Silêncio de Malka não abandona a realidade histórica, mas permite que nela se introduzam acontecimentos, crenças e imagens de natureza mais mágica. As referências à tradição judaica e às crenças populares da Argentina rural não surgem como simples ornamentação ou como uma fuga à dureza do mundo real. Pelo contrário, ajudam a expressar aquilo que a realidade, por vezes, não consegue dizer diretamente.
O fantástico funciona, assim, como uma extensão da experiência das personagens. Dá forma aos medos, às esperanças, às crenças e às memórias que atravessam as suas vidas. A magia não destrói a verosimilhança do relato; acrescenta-lhe outra camada de interpretação. É uma espécie de linguagem paralela através da qual o livro consegue abordar temas como a identidade, a fé, a sobrevivência e a pertença sem os reduzir a explicações demasiado racionais.
Também o desenho de Rubén Pellejero merece atenção. A imagem não se limita a acompanhar o texto: contribui decisivamente para criar a atmosfera da obra. Há uma expressividade particular nas personagens e nos espaços, e a banda desenhada encontra aqui uma forma própria de trabalhar o tempo, a memória e o silêncio. Aquilo que não é dito pelo texto pode permanecer numa expressão, num enquadramento ou numa imagem, reforçando justamente a importância do que fica por escrever.

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