Jackson, Shirley (2026). O Relógio de Sol. Lisboa: Cavalo de Ferro.
Tradução: Miguel Romeira
N.º de páginas: 272
Início da leitura: 05/09/2026
Fim da leitura: 08/09/2026
**SINOPSE WOOK**
"A imponente mansão da família Halloran ergue-se isolada no meio de uma extensa propriedade. No seu jardim encontra-se um relógio de sol de pedra branca com a premonitória inscrição De Que Vale Este Mundo?
Após a morte suspeita do filho de Orianna Halloran, a despótica matriarca, a peculiar tia Fanny recebe uma mensagem sobrenatural do seu falecido pai anunciando que o mundo será destruído numa noite de catástrofe nunca vista e que apenas os habitantes da mansão serão salvos.
Convencidos de que o futuro da humanidade está nas suas mãos, toda a família, empregados e hóspedes preparam-se para o novo mundo que há de vir num ambiente sufocante de intriga, medo, violência e crescente paranoia.
Nesta apocalíptica comédia de costumes e hilariante sátira social, Shirley Jackson, nome maior do gótico literário, cria, por meio de um terror subtil e psicológico, um mundo movido por tensões familiares, personagens grotescas e acontecimentos sobrenaturais onde o maior perigo não vem de fora, mas de dentro."
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Há livros cuja sinopse nos desperta imediatamente a curiosidade e O Relógio de Sol, de Shirley Jackson, foi, para mim, um desses casos. A ideia de uma família poderosa, reunida numa casa isolada, perante a notícia de que uma grande catástrofe se aproxima, parece desde logo reunir os ingredientes para uma história de tensão, mistério e sobrevivência. No entanto, à medida que a leitura avança, percebe-se que Shirley Jackson está menos interessada na catástrofe em si do que naquilo que ela permite revelar sobre as pessoas.
A história começa com a morte suspeita de um dos membros da família Halloran, uma família habituada ao poder, ao privilégio e a uma existência em que as relações parecem ser determinadas mais pelos interesses individuais do que pelos afetos. Pouco depois, Fanny recebe uma mensagem atribuída ao pai, já falecido, anunciando que o mundo está prestes a terminar numa grande catástrofe e que apenas se slavarão as pessoas que ficarem na casa de família. A partir desse momento, a casa transforma-se num espaço fechado, onde um grupo restrito de personagens se vê obrigado a conviver com a expetativa de um fim que ninguém sabe exatamente como será.
É nesse confinamento que o romance ganha verdadeira força. As doze personagens começam a discutir o que fazer, como organizar o futuro e, sobretudo, quem terá direito a esse futuro. A possibilidade de o mundo exterior deixar de existir parece dar-lhes ainda mais liberdade para exporem aquilo que normalmente procurariam esconder. As convenções sociais tornam-se frágeis e as relações familiares revelam uma crueldade que, em circunstâncias normais, talvez permanecesse dissimulada.
Shirley Jackson constrói estas personagens sem procurar torná-las particularmente simpáticas. Pelo contrário, há uma certa perversidade na forma como lhes permite manifestar egoísmos, ressentimentos, ambições e pequenas crueldades. São pessoas que, perante a possibilidade do fim do mundo, continuam preocupadas com a sua posição, com o controlo sobre os outros e com aquilo que poderão ganhar ou perder. A ameaça exterior acaba, assim, por ser quase secundária: o verdadeiro perigo encontra-se dentro da própria casa.
É também aí que o humor negro assume uma importância fundamental. Há situações que, pela sua própria natureza, deveriam ser perturbadoras, mas que a autora apresenta com um sentido de absurdo que provoca um sorriso desconfortável. A ideia de preparar o futuro quando se acredita que o mundo está prestes a acabar poderia ser trágica; nas mãos de Shirley Jackson, torna-se frequentemente grotesca. As personagens planeiam, fazem exigências, disputam posições e estabelecem regras como se fosse possível organizar racionalmente aquilo que está para lá do seu controlo.
Gostei particularmente desta combinação entre o inquietante e o absurdo. A autora não precisa de recorrer permanentemente ao terror convencional para criar desconforto. O que assusta é, muitas vezes, a normalidade com que as personagens aceitam determinadas situações e a facilidade com que o instinto de sobrevivência se mistura com o desejo de poder. O fim do mundo funciona quase como uma experiência que retira às personagens a obrigação de fingirem ser melhores do que realmente são.
A casa assume, por isso, um papel quase tão importante como as próprias personagens. É simultaneamente abrigo e prisão, um espaço onde se procura segurança enquanto se torna cada vez mais evidente que ninguém está verdadeiramente protegido. Quanto mais tempo estas pessoas permanecem juntas, mais difícil se torna separar a ameaça exterior das tensões que crescem entre elas.
Confesso, contudo, que terminei o livro a desejar um desfecho diferente. Não necessariamente porque considere que o final escolhido por Shirley Jackson seja inadequado, mas porque, depois de uma premissa tão forte e de toda a tensão acumulada ao longo da narrativa, esperava uma resolução que correspondesse de outra forma às expectativas que fui criando. O final deixou-me, por isso, com alguma frustração. Ainda assim, compreendo a opção da autora e reconheço que seria provavelmente menos coerente com o espírito do romance oferecer uma conclusão mais convencional ou mais próxima daquilo que o leitor pudesse desejar.
A história começa com a morte suspeita de um dos membros da família Halloran, uma família habituada ao poder, ao privilégio e a uma existência em que as relações parecem ser determinadas mais pelos interesses individuais do que pelos afetos. Pouco depois, Fanny recebe uma mensagem atribuída ao pai, já falecido, anunciando que o mundo está prestes a terminar numa grande catástrofe e que apenas se slavarão as pessoas que ficarem na casa de família. A partir desse momento, a casa transforma-se num espaço fechado, onde um grupo restrito de personagens se vê obrigado a conviver com a expetativa de um fim que ninguém sabe exatamente como será.
É nesse confinamento que o romance ganha verdadeira força. As doze personagens começam a discutir o que fazer, como organizar o futuro e, sobretudo, quem terá direito a esse futuro. A possibilidade de o mundo exterior deixar de existir parece dar-lhes ainda mais liberdade para exporem aquilo que normalmente procurariam esconder. As convenções sociais tornam-se frágeis e as relações familiares revelam uma crueldade que, em circunstâncias normais, talvez permanecesse dissimulada.
Shirley Jackson constrói estas personagens sem procurar torná-las particularmente simpáticas. Pelo contrário, há uma certa perversidade na forma como lhes permite manifestar egoísmos, ressentimentos, ambições e pequenas crueldades. São pessoas que, perante a possibilidade do fim do mundo, continuam preocupadas com a sua posição, com o controlo sobre os outros e com aquilo que poderão ganhar ou perder. A ameaça exterior acaba, assim, por ser quase secundária: o verdadeiro perigo encontra-se dentro da própria casa.
É também aí que o humor negro assume uma importância fundamental. Há situações que, pela sua própria natureza, deveriam ser perturbadoras, mas que a autora apresenta com um sentido de absurdo que provoca um sorriso desconfortável. A ideia de preparar o futuro quando se acredita que o mundo está prestes a acabar poderia ser trágica; nas mãos de Shirley Jackson, torna-se frequentemente grotesca. As personagens planeiam, fazem exigências, disputam posições e estabelecem regras como se fosse possível organizar racionalmente aquilo que está para lá do seu controlo.
Gostei particularmente desta combinação entre o inquietante e o absurdo. A autora não precisa de recorrer permanentemente ao terror convencional para criar desconforto. O que assusta é, muitas vezes, a normalidade com que as personagens aceitam determinadas situações e a facilidade com que o instinto de sobrevivência se mistura com o desejo de poder. O fim do mundo funciona quase como uma experiência que retira às personagens a obrigação de fingirem ser melhores do que realmente são.
A casa assume, por isso, um papel quase tão importante como as próprias personagens. É simultaneamente abrigo e prisão, um espaço onde se procura segurança enquanto se torna cada vez mais evidente que ninguém está verdadeiramente protegido. Quanto mais tempo estas pessoas permanecem juntas, mais difícil se torna separar a ameaça exterior das tensões que crescem entre elas.
Confesso, contudo, que terminei o livro a desejar um desfecho diferente. Não necessariamente porque considere que o final escolhido por Shirley Jackson seja inadequado, mas porque, depois de uma premissa tão forte e de toda a tensão acumulada ao longo da narrativa, esperava uma resolução que correspondesse de outra forma às expectativas que fui criando. O final deixou-me, por isso, com alguma frustração. Ainda assim, compreendo a opção da autora e reconheço que seria provavelmente menos coerente com o espírito do romance oferecer uma conclusão mais convencional ou mais próxima daquilo que o leitor pudesse desejar.


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