Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Gonzaga, Manuela (2014). Moçambique. Lisboa: Bertrand Editora.


Nº de páginas: 360

Início da leitura: 12/08/2022

Fim da leitura: 14/08/2022

 

**SINOPSE**

O que é que se tinha passado, e porquê? E porque é que tudo aconteceu como aconteceu?

Esse trabalho começou agora a ficar concluído, pois, à medida que ajudei a levantar as névoas que ocultam o passado aos olhos da minha mãe, pude afastar algumas névoas da minha ignorância. Mas, e acima de tudo, este relato é uma grande história de amor. A nossa, da mãe e minha, e a de todos, ou quase todos, os que por ali tiveram o privilégio de passar.

Uma inolvidável história de amor por Moçambique de que não queremos abrir mão, porque ninguém dispensa uma luz que, de tão forte, ainda continua a cobrir-nos de bênçãos.

Adoro a escrita de Manuela Gonzaga, flui de forma elegante, abordando temáticas historicamente bem fundamentadas, o que resulta de um árduo trabalho de pesquisa.

Neste livro, que Manuela quis dedicar à mãe, para esta “se lembrar como foi”, aborda, de forma autobiográfica a viagem com a família para Moçambique, a estadia em vários pontos de Moçambique e mesmo, no fim, em Angola, os momentos de estudo, o convívio com as amigas, a emancipação, os lugares – sobretudo as cidades, já tão desenvolvidas para a época, como Lourenço Marques, explicando o motivo da atribuição desta toponímia à cidade, de uma forma que nos dá vontade de ir para lá, mas naqueles tempos, porque nenhum deste locais será o que já foi. Eu, que vim de Angola, compreendo o que a narradora nos conta, reconheço formas de vida, dificuldades e, sobretudo, os excelentes momentos de convívio. Mas, claro, nem tudo foram rosas e a guerra é também um tema que não poderia deixar de estar presente, se bem que não se lhe dê o destaque que tornaria a obra mais dura e dramática.

Não foi um livro que li num ápice, pois, ao aflorarem-me memórias decorrentes da leitura, vi-me, muitas vezes, perdida nos meus próprios pensamentos, nas minhas memórias, a calcorrear a fazenda dos meus avós, com os meus amigos negros, a ir à praia com o meu pai, onde fazia uma pausa para beber uma Seven Up, os jantares em Luanda, com montes de família e amigos onde, no fim, fazíamos uma caminhada até à geladaria perto de uma rotunda, de que já não sei precisar o nome, que tinha todos os sabores de gelado inimagináveis. O cinema na praia, onde, por detrás do ecrã, o mar continuava a espreitar-nos, os banhos de mangueira no jardim, os fartos almoços de domingo em casa dos avós, a minha mãe a costurar calças para o meu pai poder prosseguir os estudos… Que momentos bons!

Só pelo facto de me ter transportado a esses momentos que guardo no coração, já valeu a pena ter lido este livro, que recomendo. Muito bem escrito!

Natário, Anabela (2017). Mulheres Fora de Lei. Porto Salvo: Editora Desassossego.

Nº de páginas: 304

Início da leitura: 10/08/2022

Fim da leitura: 11/08/2022

**SINOPSE**

Cuidado com elas! São 23 mulheres, desde assassinas a vigaristas e gatunas. Uma desfez-se do marido, servindo-lhe um prato de arroz temperado com arsénio ao jantar. Outra, seguindo um plano mais elaborado, temperou um clister com a mesma intenção. Uma terceira ia buscar crianças para adotar e desfazia-se delas, asfixiando-as com uma tira de pano.

Menos violentas, mas não menos criminosas, são as larápias de mão leve, algumas verdadeiras figuras públicas, cujas aventuras nos dão a conhecer o Portugal de outros tempos. Mulheres Fora da Lei convida-nos a viajar pela vida das maiores criminosas dos últimos três séculos. E só o facto de já estarem todas enterradas no passado nos deixa alguma tranquilidade.

Este livro resulta da compilação pela editora Desassossego de 23 histórias, que foram inicialmente publicadas no jornal Expresso. São histórias reais, biográficas, de mulheres portuguesas criminosas, dos séculos XVIII, XIX e início do século XX.

Quantas vezes ouvimos dizer “esta nova geração está perdida”, “antigamente não havia crimes tão hediondos”. Quem ler este livro, aperceber-se-á precisamente do contrário.  Criminosos e criminosas sempre existiram e devo dizer que com laivos de grande loucura e muita violência. Também é interessante perceber que o nosso sistema judicial se revelou sempre bastante eficiente, se bem que na altura não houvesse a facilidade que hoje existe em descobrir certos crimes, por exemplos as análises forenses de casos por envenenamentos, o que dificultava o desvendamento de determinados crimes.

Gostei bastante deste livro, que revela uma exaustiva pesquisa nos arquivos criminais e nos apresenta 23 mulheres rebeldes, com condutas reprováveis, presas por homicídio, furto, prostituição…

A escrita é cuidada e adequada às histórias narradas.

Recomendo a leitura.

Colgan, Jenny (2022). A Pequena Livraria dos Recomeços. Porto Salvo: Edições Chá das Cinco.

Tradução: Neuza da Silva Faustino

Nº de páginas: 416

Início da leitura: 08/08/2022

Fim da leitura: 10/08/2022

**SINOPSE**

Nas Terras Altas, há uma pequena livraria à sua espera…

Zoe e o seu filho necessitam desesperadamente de uma mudança. Ela quer deixar Londres e construir uma nova vida. Entre o minúsculo estúdio que mal pode pagar e as buzinas que os mantêm acordados, Zoe sente que está prestes a enlouquecer.

Num impulso, ela aceita um emprego nas Terras Altas. A função exige alguém capaz de cuidar de três «crianças dotadas», duas das quais se comportam como pequenos animais selvagens. O pai está de rastos, e os filhos correm livremente pelo enorme castelo em ruínas nas margens de um lago repleto de urzes.

Com a ajuda de Nina, a simpática livreira local, Zoe começa a criar raízes na comunidade. Serão os livros, o ar fresco e a bondade suficientes para curar uma família destruída?


Já tinha lido A Livraria dos Finais Felizes da mesma autora, por isso, ao ver este livro, pensei que não poderia mesmo deixar de o ler.

E temos Nina de regresso, na sua biblioteca itinerante, uma carrinha antiga que foi adaptada como biblioteca. Porém, este é um livro que pode ser lido mesmo por quem não leu o anterior, uma vez que Nina deixa de ser a protagonista e, desta vez, é Zoe e o filho que ganham um papel relevante. Zoe é mãe solteira de Hari e passa por momentos de graves dificuldades financeiras, para além de o filho de quatro anos sofrer de mutismo seletivo. O pai era um jovem que tivera tudo e que não sabe lidar com as responsabilidades, muito menos em relação ao filho.

Zoe acaba por viajar com o filho para a Escócia, para, como ama, tomar conta de três crianças problemáticas, que vivem apenas com o pai. E, ao mesmo tempo, auxiliar Nina com a livraria, enquanto esta fica internada com uma gravidez de risco.

A partir daqui começa a aventura de Zoe em casa de Ramsay e das suas crianças, numa tentativa hercúlea para os educar minimamente.

E mais não conto, para não entrar em pormenores.

Jenny Colgan escreve de forma simples e revela um grande sentido de humor na condução da narrativa.

Confesso que gostei mais do livro anterior, se bem que este, mais para o final, me tenha surpreendido pela positiva, com a introdução de algum suspense e da temática da saúde mental, que veio dar mais dinâmica à narrativa.

Gostaria que a narrativa não tivesse fugido tanto à questão da livraria e dos livros.

Burdick, Serena (2020). Meninas Sem Nome. Alfragide: Edições ASA II.

Tradução: Joana Koehler

Nº de páginas: 384

Início da leitura: 06/08/2022

Fim da leitura: 07/08/2022

SINOPSE

Effie e Luella Tildon são duas irmãs privilegiadas e pouco habituadas à dureza das ruas de Nova Iorque. Mas perto da mansão da família, ergue-se a sombria House of Mercy, o lar austero onde as raparigas rebeldes da cidade são internadas. As irmãs crescem sem nunca se esquecerem de que nada - nem mesmo uma fortuna como a delas - lhes dará a liberdade de quebrarem as regras.

Effie nasceu no dia 1 de janeiro de 1900 com um coração imperfeito, um problema que deveria ter-lhe custado a vida na infância. No entanto, aos 13 anos, é uma menina cheia de imaginação e força de vontade, surpreendendo todos com o seu coração que teima em bater. A irmã mais velha, Luella, é bailarina como a mãe e sonha com uma vida diferente e menos convencional.

Quando as irmãs descobrem um segredo chocante sobre o pai, a ânsia de liberdade de Luella intensifica-se e a jovem torna-se cada vez mais ousada. Mas a sua rebeldia tem consequências e um dia ela desaparece misteriosamente. Destroçada, Effie traça um plano para resgatar a irmã, que acredita ter sido enviada para a House of Mercy por ordem do pai. Uma vez lá dentro, o que descobre deixa-a desesperada. Agora, fugir é impossível, e Effie necessitará de toda a sua força e coragem para sobreviver, pondo o coração e a esperança à prova.

Meninas Sem Nome dá vida a uma Nova Iorque no início do século XX, uma cidade prodigiosa em que as sufragistas marchavam nas ruas, os trabalhadores lutavam por melhores condições - mas a rebeldia das mais jovens era punida com a prisão na House of Mercy.

Gostei muito deste romance que é um drama familiar.

Tudo começa com uma família, com duas filhas, Luella – uma jovem corajosa e decidida e Effie, uma menina de 13 anos, doente e que vai contrariando os prognósticos iniciais, relativamente ao tempo que haviam previsto para a sua morte. Filhas de uma família abastada, mas infeliz, procuram, em todos os momentos em que conseguem escapar, um pouco de felicidade, num acampamento cigano. Temem ser apanhadas pelos pais e serem, como era hábito a raparigas que mostravam comportamentos reprovadores, enviadas para uma casa para mulheres desamparadas e “perdidas”, em Manhattan, a House os Merci. Curiosamente, esta casa existiu e encarcerava as mulheres, que eram submetidas a trabalhos forçados e isoladas numa cave à mínima infração.

Quando Luella e Effie surpreendem o pai a beijar uma mulher, traindo assim a mãe, Luella reage mal e acaba por fugir com um rapaz do acampamento que frequentavam. Os pais dizem a Effie que ela fora para um campo de férias. Porém, Effie sabe que a sua irmã nunca iria de livre vontade para um campo de férias e, como os pais já a tinham ameaçado, que a colocavam no reformatório para jovens, resolve ir atrás dela e acaba por entrar na instituição com um nome falso. Mas não será fácil sair de lá, quando se apercebe que a irmã não se encontra onde supunha. Afinal, mesmo que os pais a procurem, o nome que deu não é o dela...

A partir daqui a vida de Effie muda completamente.

Entretanto, cruzam-se outras histórias, da infância da mãe, de Edna e Mable, que conhece na House os Merci. É interessante o facto de a narrativa ser conduzida alternadamente por Effie, a mãe e a amiga Mable, o que nos permite recolher mais informações e formas de ver/compreender os acontecimentos.

Gostei muito de toda a história, da força narrativa e do ritmo que me prendeu do início ao fim. Aconselho!

Halfon, Eduardo (2021). Luto. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

Tradução: José Teixeira de Aguilar

Nº de páginas: 112

Início da leitura: 05/08/2022

Fim da leitura: 05/08/2022

**SINOPSE**

Prémio do Melhor Livro Estrangeiro (França)

Prémio Edward Lewis Wallant (EUA)

Prémio Internacional do Livro Latino (EUA)

Prémio das Livrarias de Navarra (Espanha)

Halfon viaja até à velha casa dos avós, nas margens do lago de Amatitlán, onde em criança costumava passar os fins de semana antes de a família se transferir para a Florida, devido à violenta situação política vivida na Guatemala em princípios da década de 1980. A partir do momento em que pisa o Amatitlán, tudo aquilo que o cerca desencadeia um turbilhão de memórias de infância — algumas ligadas à sua infância na Guatemala, outras dos primeiros anos passados nos Estados Unidos.

Em subtis, mas magistrais pinceladas, as recordações de Halfon vão-se conjugando aos poucos para desvendar segredos familiares profundos: a história de Salomón ou, talvez mais rigorosamente, a ausência dessa história, uma vez que ninguém na família falava abertamente dele. E aos poucos começamos a ver as informações dispersas que Halfon conseguiu reunir em criança.

Com Luto, traduzido por José Teixeira de Aguilar, Eduardo Halfon regressa ao universo que tem vindo a construir há anos em torno da personagem chamada Eduardo Halfon — que pode ou não ser o autor — e da história da sua família. Desta feita, centra-se no lado paterno da família: emigrantes judeus libaneses que se radicaram nos Estados Unidos e na Guatemala.

Este é um livro pequeno, mas bastante intenso, se bem que, no meu entender, a história pudesse ter sido mais desenvolvida pelo autor.

O narrador regressa a casa dos avós e às margens do rio Amatitlán, onde terá passado longos tempos nas suas férias, durante a infância. Este rio esconde segredos de família e a forma como é recordado pelo narrador prende-se com as memórias que foi guardando e explicações que foi formando para a estranha morte de um tio seu, Salomón, com apenas 5 anos. Ninguém falara mais do assunto, a família nunca mais relembrara Salomón, mas na memória do narrador ficou bem vincada uma trágica morte por afogamento no rio. Mas como a memória da infância é traída pela imensa criatividade que marca essa época, o narrador resolve procurar informações mais precisas e completas sobre o que de facto sucedeu. E enquanto investiga sobre o irmão do pai, vai-se construindo um jogo de memórias soltas, que se espelham entre a realidade e a imaginação que estiveram na base da criação de memórias. E o que é, de facto real? O que é fruto da imaginação? Para responder a estas questões e perceber o que sucedeu realmente ao tio do narrador, aconselho a leitura.

Uma vez que a narrativa não se constrói por capítulos e vão-se alternando várias épocas temporais, aconselho ume leitura atenta.

Craven, M. W. (2022). O Curador. Lisboa: Topseller.

Tradução: Pedro Póvoa

Nº de páginas: 400

Início da leitura: 03/08/2022

Fim da leitura: 04/08/2022

SINOPSE

É Natal. Um assassino em série expõe partes das suas vítimas por todo o condado de Cúmbria, deixando no local do crime sempre a mesma estranha inscrição: #BSC6.

Chamados para investigar, o inspetor Washington Poe e a analista de dados Tilly Bradshaw enfrentam um caso que não faz sentido. Por que razão algumas vítimas foram anestesiadas, enquanto outras morreram em terrível agonia? Porque é que, apesar das provas irrefutáveis, o único suspeito nega tudo, mas, ao mesmo tempo, admite coisas das quais nem os investigadores tinham conhecimento? E como explicar que todas as vítimas tenham tirado as mesmas duas semanas de férias três anos antes?

A investigação ganha contornos mais sombrios quando Melody Lee, uma agente do FBI caída em desgraça, entra em contacto com Poe. Ela não acredita que estejam a lidar com um assassino em série; ela crê que estão a perseguir alguém muito, muito pior: um homem que se autodenomina Curador.

Gosto muito dos livros de Craven, da forma como conduz a narrativa, dos inspetores Tilly e Poe, do fator surpresa e capítulos breves que nos mantêm irremediavelmente presos até ao fim.

Ainda assim, gostei mais dos dois livros anteriores. Depois de uma parte inicial arrebatadora, a ação fica um pouco presa à descrição e investigação de um papagaio que terá sido utilizado para um dos crimes. Por fim, retoma a força narrativa, o suspense e o ritmo a que o autor já nos habituou.

Depois, é sempre agradável ler os agradecimentos do autor, que comprovam o seu peculiar sentido de humor, que vai transparecendo na narrativa.

Aconselho aos amantes de um bom thriller.

Silva, Ana Cristina (2011). Cartas Vermelhas. Alfragide: Oficina do Livro.

Nº de páginas: 272

Início da leitura: 01/08/2022

Fim da leitura: 02/08/2022

**SINOPSE**

Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para a Formação de Adultos, como sugestão de leitura.

Nascida em Cabo Verde de família branca e abastada, Carol nunca se resignou à miséria das ilhas. E, movida pelo sonho de construir uma sociedade mais justa, ingressou ainda jovem no Partido Comunista. Não se importando de usar a beleza como arma ideológica, abraçou a luta revolucionária, apaixonou-se por um camarada e ficou grávida pouco antes de ser presa. Foi a sua mãe quem tratou de Helena nos primeiros tempos, mas, depois de libertada, Carol levou-a para Moscovo, onde trabalhou nas mais altas esferas do Comintern. Aí, o contacto com as purgas estalinistas não chegou para abalar as suas convicções, mas o clima de denúncia e traição catapultou-a para o cenário da Guerra Civil espanhola, obrigando-a a deixar Helena para trás; e, apesar de ter escapado aos fuzilamentos franquistas, a eclosão da Segunda Guerra Mundial impediu Carol de voltar à União Soviética para ir buscar a criança. Será apenas vinte anos mais tarde que mãe e filha se reencontrarão em Berlim; mas a frieza e o ressentimento de Helena farão com que, na viagem de regresso a Lisboa, Carol decida escrever um romance autobiográfico com o qual a filha possa, se não lhe perdoar, pelo menos compreender as circunstâncias do abandono, a clandestinidade, a prisão, a guerra, a espionagem e o inconcebível casamento com um inspetor da polícia política. Inspirado na vida de Carolina Loff da Fonseca, este romance extremamente empolgante vai muito além dos factos, confirmando Ana Cristina Silva como uma das mais dotadas autoras de romance psicológico em Portugal.

Esta é uma história ficcionada a partir de factos reais da vida de Carolina Loft, protagonista deste romance. Resultou de pesquisas da autora, que serviram de ponto de partida para este livro de ficção.

Numa escrita elegante e cuidada, Ana Cristina Silva conta-nos a vida de Carol, que, desde muito cedo, ainda em Cabo Verde, onde passou a sua infância, se apercebe de que os seus sonhos são mais altos e não quer viver reduzida à miséria das ilhas, onde o povo “não era formado por gente, mas por silhuetas famintas que se moviam lentamente.”

Carol vê-se obrigada a crescer com a morte da irmã, pois foi graças a ela e à sua força de vontade e apoio, que a mãe conseguiu sobreviver, “como se estivesse na sua mão reparar o luto da mãe”. Com 12 anos “via-se a viver num tempo de mudanças, em que invariavelmente assumia o papel de heroína”. Nunca cruzou os braços. Começou por procurar apoio na Igreja, que acaba por dececioná-la. Passa a interessar-se pela literatura, contactando com Zola, Vítor Hugo e Balzac, “que exaltavam a necessidade de terminar com servidões injustas e evitar misérias desnecessárias…”

Viaja para Lisboa, para prosseguir os seus estudos. Aí abraça a causa comunista, lendo Marx e Lenine, o que lhe permite subir hierarquicamente na hierarquia. Envolve-se amorosamente com um camarada. Engravida e dessa relação nasce Helena, uma filha que acaba por abandonar com apenas 4 anos, em Moscovo, quando se vê envolvida na Guerra Civil Espanhola. Quando pensa regressar para ir buscar a filha, vê-se impedida de o fazer devido à eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Ainda que bem escrito, reconheço que não entendi nem concordo com algumas das decisões da protagonista.

E mais não conto, se bem que a sinopse nos diga tudo. Recomendo a leitura!

Mãe, Valter Hugo (2020). A Desumanização. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 248

Início da Leitura: 29/07/2022

Fim da Leitura: 31/07/2022

 

**SINOPSE**

“Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.”

Desumanização

Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza.

Não sendo um livro fácil, é um livro completo. Um livro de um lirismo pungente, dolorosamente belo, escrito de forma fenomenal, tão ao jeito de Valter Hugo Mãe, que nos fala da dor da perda, que conduz à morte, à inveja, à dor, à atrocidade...

A narradora, Halldora, é uma criança de 12 anos, que vive nos fiordes da Islândia e que é constantemente confrontada com a perda umbilical da sua irmã gémea, Sigridur. Esta morte vem dominar toda a família, despedaçá-la.

Do pai, que foi sempre o seu maior companheiro, um poeta que vai mediando a relação desta com a mãe, pouco resta.

Da mãe, ficou um ser insano, agressivo e que vai massacrando a filha de forma totalmente desumana. Afinal, até onde pode ir uma mãe que perde um filho? “Quem sepulta um filho não tem idade”.

De Halldora, restou um coração que deseja arrancar do peito para “secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas”. Halldora sente uma profunda relação com a terra, a mesma em que está enterrada a irmã, porque ela é “a metade menos morta da criança plantada” e “A terra estava infestada de seres matadores, invejosos, gulosos da felicidade dos outros”. “A morte é um exagero. Leva demasiado. Deixa muito pouco.”

Deixo algumas passagens verdadeiramente surpreendentes, para além das que já fui referindo:

“Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia…”

“Pensava que os livros eram animais de barriga imensa para onde caíam os leitores, puxados por textos inquinados, maquiavélicos, feitos de malícias, maldades, mentiras, deturpações, transformações do que era certo em condutas erradas. Os livros tinham presas e dentes afiados e comiam gulosamente as pessoas. Não ler, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos. As pessoas que não liam não tinham sentidos. Andavam como sem ver, sem ouvir, sem falar. Não sabiam sequer o sabor das batatas. Só os livros explicavam tudo. As pessoas que não leem apagam-se do mapa de deus.”

E um excerto da nota do autor: "Quando nasci já o meu irmão Casimiro havia falecido. Durante a infância imaginava-o à minha imagem, um menino crescendo como eu, capaz de conversar comigo partilhando os mesmos interesses. Sabia embora, que estava deitado sob a terra, e pensava que a palavra coração era da família da palavra caroço, uma semente. Achava que os meninos mortos faziam nascer pessegueiros porque os pêssegos tinham pele. O primeiro pêssego que comi foi em idade adulta."

Aconselho vivamente!

Martin, Madeline (2022). A Última Livraria de Londres. Lisboa: Topseller.

Tradução: José João Leiria

Nº de páginas: 304

Início da leitura: 27/07/2022

Fim da leitura: 29/07/2022

 

**SINOPSE**

Uma cidade reprimida pelo medo, dilacerada pela guerra e reunida pelo poder dos livros.
agosto de 1939: à medida que as forças de Hitler se espalham pela Europa, Londres prepara-se para a guerra.

Grace Bennett sempre sonhara em mudar-se para a cidade, mas os abrigos e os blackouts obrigatórios que encontra à chegada nada têm que ver com o charme cosmopolita que idealizara. Além de que Grace sempre se imaginara a trabalhar num dos chiques armazéns de moda de Londres e não numa pequena e estranha livraria no coração da cidade.

A guerra, por fim, abate-se sobre Londres, provocando uma das suas maiores tragédias: noite após noite, as esquadrilhas de aviões da «guerra-relâmpago» alemã bombardeiam a cidade, arrasando-a impiedosamente. Sobrevivendo ao caos e à destruição, Grace resiste na livraria, descobrindo no poder das palavras uma força capaz de triunfar sobre as noites mais negras.

Uma homenagem ao poder da literatura, inspirada nas poucas livrarias londrinas que sobreviveram ao Blitz.

Quando a ficção se alia a acontecimentos históricos e quando, no meio de tudo isto, se fala de livros, ficamos imediatamente rendidos.

Grace, a protagonista, vai para Londres com a melhor amiga, Viv, à espera de arranjar emprego em chiques armazéns de moda, mas não traz carta de recomendação, o que, principalmente na época em que decorre a ação, 1939, era imprescindível.

Acaba por pedir emprego numa livraria antiga e caótica, onde procura provar ao dono, o Sr. Evans, um homem de idade e com cara de poucos amigos, que merece a oportunidade que lhe é dada. Desconhecendo os meandros das livrarias e dos próprios livros, que não lia, Grace começa por tentar organizar minimamente os livros espalhados pelo chão, ainda que com parcos conhecimentos. Resolve investigar outras livrarias para perceber como se organizavam, mas faltava-lhe a leitura para que pudesse recomendar livros aos clientes. Ainda assim é persistente e está decidida a superar as suas falhas.

Acaba por conhecer George Anderson, que marca um encontro com ela. Porém, no dia do encontro, George não comparece, porque, tendo-se oferecido como voluntário para a Força Aérea, acabara por ser convocado. Deixa um presente a Grace: o Conde de Monte Cristo. Uma profunda tristeza toma conta do seu coração. Conseguirá Grace ultrapassar esta contrariedade da vida? Seguirá o conselho de ler o livro que ele lhe deixou? Conseguirá George sobreviver à guerra? E quando a guerra se abate sobre Londres, com bombardeamentos que destroem a cidade, o que sucederá à livraria e a Grace?

Gostei, porém, esperava uma maior força narrativa, pelo menos nas descrições mais históricas. É um romance leve, apesar da temática.

Palomas, Alejandro (2017). Filho. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Catarina Gândara

Nº de páginas: 184

Início da leitura: 26/07/2022

Fim da leitura: 26/97/2022

SINOPSE

Guille é um rapazinho introvertido mas feliz, sempre com um sorriso nos lábios. Gosta muito de ler, é uma criança hipersensível e com uma grande imaginação. Nazia é a sua única amiga. Vive sozinho com o pai, Manuel, desde que a mãe se ausentou para trabalhar numa companhia saudita, tendo desde então perdido o contacto com ela.

Mas por trás de uma aparente tranquilidade esconde-se um mundo perturbado, frágil que nem um castelo de cartas, com um mistério por resolver. Na escola apercebem-se de que algo de estranho se passa com Guille e dá-se início a sessões de acompanhamento psicológico. E quando descobrem o que está na ponta do icebergue, convencem Manuel, que tem dificuldades em lidar com a hipersensibilidade do filho, a enfrentar a realidade e rumar até um futuro melhor.

Um romance comovente, que respira sentimento e ternura, e com um mistério surpreendente por descobrir. Um livro de leitura obrigatória que vai agradar tanto a jovens como a adultos. Do autor do bestseller Mãe, também publicado nesta coleção.

Desde o início da história que fiquei irremediavelmente presa. De forma muito bem articulada e doce, a narração vai sendo feita e intercalada por personagens diferentes: Guille (uma criança, que se mudara para uma nova escola e que sonha em ser como a Mary Poppins, que imita às escondidas do pai), Sonia (a nova professora, atenta e preocupada com o que se oculta na personalidade do sensível Guille), María (a psicóloga a quem a professora recorreu para analisar Guille, que acaba por conseguir que ele se vá progressivamente abrindo, ainda que permaneça, até ao final da história, um grande mistério). O pai de Guille é alguém que este vê como duro, inflexível, mas que, ao mesmo tempo, Guille vê chorar todas as noites. A mãe, supostamente uma hospedeira de bordo, estará longe e “vai enviando cartas” a Guille. Mas este é uma criança muito inteligente… E mais não posso revelar. Só posso afiançar que é uma novela fantástica e que vale a pena ser lido.

Gurnah, Abdulrazak (2022). Vidas Seguintes. Lisboa: Cavalo de Ferro.

Tradução: Eugénia Antunes

Nº de páginas: 304

Início da Leitura: 24/07/2022

Fim da Leitura: 25/07/2022

**SINOPSE**

Abdulrazak Gurnah foi agraciado com o Prémio Nobel de Literatura 2021 «pela forma determinada e humana com que aborda e aprofunda as consequências do colonialismo e o destino do refugiado no fosso entre culturas e continentes».

Após fugir da aldeia onde nasceu, numa região fustigada pela pobreza, pela fome e pela doença, o jovem Ilyas chega a uma pequena cidade costeira onde assiste a um desfile da Schutztruppe, a feroz tropa de proteção da África Oriental Alemã. Anos mais tarde, perante a iminência de uma grande guerra entre Britânicos e Alemães, que estalaria em Tanga, em 1914, Ilyas decide juntar-se a esse mesmo exército de mercenários africanos, prometendo à sua irmã mais nova voltar muito em breve. A promessa fica por cumprir, e o paradeiro desconhecido do irmão ensombra a vida de Afiya até que ela conhece Hamza, um desertor generoso e sonhador que conseguiu escapar aos horrores da guerra. Entre ambos nascerá uma história de amor improvável que ligará as duas famílias, e os continentes africano e europeu.

Entrelaçando história e ficção, Vidas Seguintes é um romance lúcido e trágico sobre África, o legado colonial e as atrocidades da guerra, bem como as infinitas contradições da natureza humana.

Tinha expetativas muito elevadas em relação a este livro, talvez pelo facto de o autor ter sido Nobel da Literatura em 2021. Este foi o seu primeiro livro.

Gostei da história em si, da articulação entre a história e a ficção, que nos relembra as atrocidades da guerra, o domínio exercido durante a colonização através da violência, que traz com ela a fome, a pobreza, as doenças. A ação retrocede a finais do século XIX e início do século XX e à colonização germânica.

Ilyas é um jovem que se junta às tropas africanas, mas que, antes de partir, diz à irmã, Afya, que voltará para a vir buscar. Entretanto, Afya conhece Hamza, um jovem que conseguiu fugir da guerra, por quem se apaixona. Afya não desiste de encontrar o irmão e empreende todos os esforços para o encontrar. Conseguirá ela encontrá-lo?

Apesar de ter sentido falta de uma linguagem mais trabalhada, mais literária, acho que é uma boa história e com um desfecho surpreendente. Recomendo.

Eloy, Moreno (2022). Terra. Lisboa: Suma das Letras.

Tradução: Inês Guerreiro

Nº de páginas: 568

Início da leitura: 22/07/2022

Fim da leitura: 23/07/2022

**SINOPSE**

Dentro de uma cabana escondida na floresta, um homem faz uma promessa aos dois filhos: «Pensem naquilo que mais vos agradaria neste mundo, no que gostariam de alcançar quando fossem mais velhos. Seja o que for, se conseguirem terminar o jogo, prometo que farei os possíveis para que se torne realidade.» Mas esse jogo nunca acabou.

Trinta anos depois, uma das crianças conseguiu realizar o seu desejo, mas a irmã não. É então que ela recebe um presente estranho, um objeto que lhe permitirá continuar o jogo.

Oito pessoas decidiram voluntariamente participar num reality show que consiste em isolar-se do mundo, para sempre. O público pensa que sabe tudo sobre elas, mas nem suspeita os motivos pelos quais tomaram essa decisão.

A criança que não conseguiu realizar o seu desejo, agora jornalista, deve descobrir a ligação entre o presente que recebeu e aqueles oito concorrentes, de modo a realizar o seu desejo, caso ainda seja essa a sua vontade. A resposta está na Islândia.

Este é um livro cuja temática remete para uma questão muito atual: a ficção dos “Reality Shows”, em formatos cada vez mais ousados e perigosos, apenas porque o elevado nível de audiências de pessoas que, não tendo vidas próprias, vivem a dos outros, leva ao enriquecimento dos canais televisivos, sem pensar nas consequências que poderão advir. Mas são mesmo estas as mentalidades atuais, em que se vive com a ideia de ganhar dinheiro de forma fácil e do desejo de fama de outros para se enriquecer absurdamente. Certo é que tudo tem um preço: o dinheiro e a fama não são eternos, os produtores e o público nunca estão satisfeitos e querem sempre mais e, do programa caseiro em que o pai fecha os filhos numa casa com uma câmara, ao programa que reúne uma série de pessoas numa casa, a um programa em que o público decide as grávidas que entram numa casa hão de ter ou não os filhos ou um programa de suicídios em direto numa casa ou…nem sequer falo do último, pode compreender-se que todos os limites são ultrapassados, perde-se a noção, perdem-se os valores e os princípios. E agora poderia questionar: quem são os verdadeiros culpados: a pessoa que pensou o formato ou o público?

Apesar de ser um romance fictício, tem muito de real e faz-nos refletir. As sequências narrativas estão engenhosamente articuladas em capítulos breves, de simples leitura, que nos prendem à história.

Aconselho!

Reid, Taylor Jenkins (2022). Malibu Renasce. Lisboa: Topseller.


Tradução: Pedro Santos Gomes

Nº de páginas: 416

Início da leitura: 20/07/2022

Fim da leitura: 21/07/2022

**SINOPSE**

Malibu, 1983. Chegou o dia da festa de final de verão organizada todos os anos por Nina Riva, e não há ninguém que não queira estar presente e conhecer pessoalmente os famosos irmãos Riva: a supermodelo Nina, o surfista Jay, o fotógrafo Hud e a promissora Kit. Filhos do lendário cantor Mick Riva, há muito que os quatro exercem um enorme fascínio, não só em Malibu mas um pouco por todo o mundo. Cada um dos irmãos tem as suas razões para ansiar pela festa, com exceção da própria Nina, que nunca desejou ser o centro das atenções. E talvez de Hud, que tem algo a confessar. Jay, por outro lado, espera impacientemente por alguém. e Kit decidiu tornar a noite especial. Porém, nenhum deles poderia antecipar o desfecho daquela celebração.

A meio da noite, a festa estará completamente fora de controlo. Pela manhã, a mansão de Nina estará irreconhecível. Mas, até que isso aconteça, haverá álcool a circular, música a soar bem alto e muita gente famosa animada naquela que se tornará a festa da década. E no meio de todo esse burburinho irão ressurgir memórias e segredos que marcaram várias gerações da família.

Não sendo este um livro que enquadre nos meus géneros preferidos, acabou por se revelar uma leitura relativamente agradável. Um livro de entretenimento para quem precise de algo muito leve para o verão.

Neste livro, cuja ação decorre entre os anos 50 e 80, Malibu serve de cenário a muitos amores e traições, loucas festas das celebridades dos anos 80, dramas familiares e histórias mal resolvidas.

Esta é a história de quatro irmãos, destacando-se Nina Riva, que, ainda muito jovem, se vê obrigada a deixar os estudos para tomar conta do restaurante da mãe e, assim, sustentar os irmãos, após a morte da mãe (que fora abandonada por duas vezes pelo pai, o famoso cantor Mick Riva). Confesso que odiei Mick Riva, um homem incapaz de ser fiel, não só à esposa, mas aos próprios filhos. Nina é a personagem mais forte e que mais se destaca na história.

Não posso adiantar muito mais sem entrar em “spoiler”, pelo que fico por aqui.

Não sendo um livro que se torne inesquecível ou com interesse literário, é um romance que aconselho a quem queira desanuviar de leituras mais densas.

Litteken, Erin (2022). A Guardiã da Memória de Kiev. Alfragide: Edições ASA II.

Tradução: Marta Jacinto

Nº de páginas:400

Início da leitura: 18/07/2022

Fim da leitura:

**SINOPSE**

Na década de 1930, os ativistas de Estaline percorreram a União Soviética, exaltando as maravilhas da agricultura coletiva. Foi o primeiro passo daquela que viria a ser conhecida como a Grande Fome, que ceifou cerca de quatro milhões de vidas na Ucrânia. Inspirada pela história que o mundo esqueceu e o governo russo nega, Erin Litteken tem a coragem de desenterrar o passado. Para que não voltemos a esquecer-nos.

Em 1929, Katya tem 16 anos e vive com a família numa quinta modesta mas próspera. Entre o trabalho nos campos, a escola e as animadas reuniões da família e amigos, os seus dias passam sem grandes preocupações. Katya tem para o futuro as angústias e os sonhos típicos de uma adolescente. A sua única certeza é o amor que sente por Pavlo, o rapaz da casa ao lado e companheiro de todas as suas aventuras. Mas no dia em que os ativistas de Estaline chegam à vila, tudo muda. Reina agora o medo. À medida que a fome se intensifica, instalam-se o desespero e a barbárie. As famílias - quer pela morte, quer pela deportação - fragmentam-se. Mas mesmo nos momentos de maior escuridão, a chama da esperança teima em brilhar.

Setenta anos depois, nos Estados Unidos, Cassie descobre o diário da avó. Nada podia tê-la preparado para a história que lê.

Nada pode preparar-nos a nós, leitores, para a história desta família, que contém em si a História tumultuosa da Ucrânia.

Um livro muito bom. Gostei das duas histórias que surgiram intercaladas, se bem que tenha apreciado mais a época referente ao passado – 1930, quando se deu o genocídio contra a população da Ucrânia, empreendido pelo comunismo soviético de Stalin. Este genocídio consistia no “holodomor” ou deixar morrer pela fome. Os acontecimentos narrados e as descrições feitas referentes a esta época são duras e não se consegue ler de ânimo leve. Fica uma revolta por toda a crueldade de que o ser humano foi capaz e cresce a incompreensão pelo facto de o Homem não ter aprendido nada com os erros do passado.

Neste momento da história, ficamos a conhecer Katya Shevchenko e a irmã Alina; Pavlo, com quem Katya se casa. O cunhado, marido de Alina, Koyla e uma menina, Hayla. Esta é uma história trágica de perdas, de luta pela vida, de muita fome e cativou-me a força de Katya perante todas as provações a que foi sujeita e a proteção constante de Hayla.

A outra história é a de Cassie, da filha Birdie, da mãe, Anna, da avó, Bobby e um amigo da família, Nick. O marido de Cassie morre de um acidente de viação e Birdie, que ia com ele, é hospitalizada e deixa de falar com o choque. Quando a avó, Bobby, começa a sofrer de problemas de memória, Anne sugere que Cassie e Birdie se mudem para casa dela, podendo ser um mútuo apoio, já que elas estão a passar por um mau momento. Cassie descobre um diário escrito em ucraniano, que parece conter alguns segredos do passado e dispõe-se a descobrir os segredos que a avó aí guardara. Mas não desvendo mais. Para conhecer o conteúdo do diário e de que forma se relaciona com a história de Katya, fica o convite para a leitura deste livro, que recomendo.

Barnet, S. K. (2022). Sã e Salva. Alfragide: Casa das Letras.

Tradução: Ana Lourenço

Nº de páginas:344

Início da leitura: 17/07/2022

Fim da leitura: 17/07/2022                   

**SINOPSE**

Jenny Kristal tinha seis anos quando foi levada do passeio do seu tranquilo bairro suburbano. Doze anos depois, ela regressa milagrosamente a casa, depois de fugir dos seus raptores - mas enquanto os seus pais e irmão mais velho a recebem de volta, as perguntas começam a surgir. Onde é que ela tem estado todos estes anos? Porque está de volta agora? E será aquele lugar realmente seguro para ela? Ou para qualquer um deles?

Um excelente livro para “devorar”, uma vez que prende do início ao fim. A escrita é fluída, a história empolgante, conseguindo surpreender-nos a cada página. Gostei de conhecer esta personagem que desapareceu aos seis anos e regressa passados doze anos. À medida que a história avança, vamos ficando a conhecê-la um pouco mais. Os seus pensamentos, que vão sendo partilhados, a vida difícil por que passou e que espelha a vida de muitas crianças, acaba por nos cativar e damos por nós a temer por ela, ainda que nem tudo seja uma verdade absoluta. E mais não posso dizer!

Aconselho a leitura!

Org. Zimler, Richard; Sekulovic, Rasa (2010). O Tempo das Crianças, Histórias de Infância. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Tradução: Helena Marujo, Lúcia Liba Mucznik e José Lima

Nº de páginas: 196

Início da leitura:15/07/2022

Fim da leitura: 16/07/2022

**SINOPSE**

Para apoiarem a organização SAVE THE CHILDREN no seu trabalho para acabar com a violência contra as crianças, grandes autores de todo o mundo juntaram-se para criar uma fascinante antologia de contos sobre a infância.

Ficções ou memórias pessoais, felizes ou amargas, exploram e celebram a infância: o abuso e a rejeição, a solidão e o amor, as alegrias da amizade e da descoberta, e os primeiros sentimentos confusos do amor adolescente.

Selecionada e prefaciada por Richard Zimler - autor do best-seller O Último Cabalista de Lisboa, entre outros êxitos - e Raša Sekulovic - tradutor, especialista em literatura contemporânea em língua inglesa e activista dos direitos das crianças - esta antologia inclui também contos originais de Dulce Maria Cardoso, Mia Couto, Lídia Jorge e Ondjaki, que quiseram dar o seu contributo a este generoso projecto, cujos direitos revertem a favor de SAVE THE CHILDREN.

A compilação destes contos de vários ficcionistas de renome, por Richard Zimler e Rasa Sekulvic, cujos direitos revertem para a Organização Save The Children, é, sem dúvida, uma delícia.

Escreveram os contos Margaret Atwood, André Brink, Dulce Maria Cardoso, Mia Couto, Junot Díaz, Nadine Gordimer, Elizabeth Hay, Lídia Jorge, Etgar Keret, Alberto Manguel, Ondjaki, Judith Ravenscroft, Ali Smith, Katherine Vaz, Patricia Volk e Richard Zimler.

Os contos fazem jus aos seus autores e abordam várias temáticas relacionadas com crianças. Um livro que traz a memória de tempos da infância, marcada de formas distintas: pelo amor, pela educação rígida, pela solidão, pela violência, pela guerra, pelas desigualdades sociais, pelo abuso, pela amizade, pelas difíceis relações familiares, pelo medo de crescer… As diferenças entre os contos, com as características de cada autor, tornam-no mais rico e completo.

Um bom livro para quem é apreciador de contos e da temática da infância. Recomendo.

 

Wiggs, Susan (2022). A Livraria das Lembranças Perdidas. Madrid: HarperCollins.

Tradução: Fátima Tomás da Silva

Nº de páginas: 400

Início da leitura:13/07/2022

Fim da leitura: 15/07/2022

**SINOPSE**

Após uma tragédia inesperada, Natalie Harper herda uma livraria com muito encanto, e muitos problemas económicos, em São Francisco. Também se converte na cuidadora do seu avô Andrew, que cresceu no prédio histórico de Perdita Street, onde fica a livraria. O seu avô começou a sofrer perdas de memória e Natalie planeia fechar a livraria e vender o prédio para pagar os seus cuidados. Só há um problema: o seu avô é o proprietário e recusa-se a vender.

Relutantemente, Natalie encarrega-se da loja, mas descobre que os livros lhe dão consolo para a sua dor. Contrata um ex-marine da Geórgia, Peach Gallagher, para remodelar o prédio antigo. Dorothy, a filha de Peach, é um raio de luz durante os longos dias de Natalie, e até consegue colocá-la em contacto com Trevor Dashwood, um atraente romancista que se interessa pela pequena livraria.

Para sua surpresa, o seu luto transforma-se numa viagem inesperada de descobertas e revelações, desde desenterrar objetos antigos escondidos nas paredes da livraria até descobrir a verdade sobre a sua família, o seu futuro e o seu coração.

Gosto de livros cuja ação decorre em bibliotecas e livrarias. Porém, este foi uma deceção.

A premissa inicial prometia mais: era um dia importante para Natalie, ia celebrar a sua promoção na empresa para a qual trabalhava. Porém, Natalie sente a falta da mãe neste momento tão importante na sua vida. Também o namorado, o Rick, fora fazer um voo de teste e não pudera comparecer. Afinal, o namorado, que ela tencionava deixar, estava a preparar-lhe uma surpresa, fora buscar a mãe dela para assistirem ao evento. Mas um terrível acidente acaba por lhes roubar a vida. Natalie vê-se só e com uma livraria cheia de dívidas para gerir. Vendê-la não era viável, uma vez que o proprietário era o avô, que vivia no edifício da livraria e começara a sofrer de demência.

Até aqui tudo bem, preparava-me para a mudança de planos na vida de Natalie, para uma história em torno de livros. Mas, infelizmente, fala-se de livros por alto. O relevo começa a ser dado ao pedreiro que a mãe contratara para obras de restauro no edifício, de forma a facilitar a vida do avô. É uma história de indecisões amorosas de Natalie entre o pedreiro e um escritor, o que não me permitiu criar qualquer empatia pela protagonista. A única qualidade que consigo atribuir-lhe é o facto de cuidar do avô.  Esta história poderia ter sido muito mais empolgante, se fosse canalizada para a recuperação da livraria, para o desvendar de segredos guardados e procurados pelo avô, para os livros, para as “lembranças perdidas”.

Depois de Vozes de Chernobyl, precisava de algo mais leve, mas não tão leve. É um livro ideal para quem gosta de histórias de amor e de relações complicadas.

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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