Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Haghenbeck, F. J. (2019). O Livro Secreto de Frida Kahlo. Amadora: Topseller.

Tradução: Dinis Pires

Nº de páginas: 304

Início da leitura: 16/09/2022

Fim da leitura: 20/09/2022

**SINOPSE**

Prefácio de Laura Esquivel.

Realismo mágico e irresistíveis receitas culinárias juntam-se numa biografia ficcionada da icónica artista mexicana, cuja vida foi tão impressionante quanto a sua arte.
Após sofrer um grave acidente e morrer pela primeira vez, Frida Kahlo teve um encontro com a Morte, que lhe propôs um acordo: para voltar a viver, a jovem teria de lhe preparar todos os anos uma oferenda no Dia dos Mortos. A partir de então, Frida cumpriu rigorosamente o ritual, confecionando pratos aos quais se dedicava com paixão, anotando cada um deles num pequeno caderno, onde juntava também memórias e vivências.

A existência de Frida continuou, embora desenrolando-se de modo impetuoso. Com o pintor Diego Rivera, na sua Casa Azul, viveria um amor intenso, mas tumultuoso. A vida da artista, feita tanto de dor como de talento, entrega e paixão, cruzar-se-ia ainda com personalidades marcantes como Leon Trotsky ou Georgia O'Keeffe.

Frida sabia, porém, que tinha uma vida a prazo: o seu corpo, destroçado pelo acidente, doía-lhe sempre, e a alma ia-lhe sendo arrancada aos poucos pela Morte, que a lembrava permanentemente do encontro inevitável e iminente entre ambas.

Depois de ler Frida e as Cores da Vida, de Caroline Bernard, não podia deixar de ler O Livro Secreto de Frida Kahlo, de Haghenbeck, que já tinha na estante há muito tempo à espera de ser lido. São, com efeito, livros diferentes, apesar de serem ambos livros ficcionais, a partir da vida de Frida Kahlo. Este “Livro Secreto” baseia-se num pequeno caderno preto a que Frida chamou o Livro de Hierba Santa”, constituído por uma série de receitas que confecionava para oferecer aos defuntos no “Dia dos Mortos”, para agradecer à sua “madrinha”, por ter sobrevivido à sua “primeira morte”, quando um elétrico embateu contra o autocarro no qual ela seguia.

Vão-se alternando as receitas com a história ficcional baseada na biografia de Frida, onde todos os sentidos se apuram e nos envolvem.

Frida fintou a morte e teve, sem dúvida, uma vida repleta de cor, de amor por Diego, de paixões arrebatadoras por outros homens e por mulheres, de cozinha farta, de dor, de raiva e revolta. A pintura dos seus autorretratos e a cozinha eram a forma encontrada por Frida para acalmar estados de alma.

Frida teve esse efeito, como artista que era, de despertar paixões e de mostrar uma força de viver tão grande e intensa. Aconselho!

Marías, Javier (2014). Coração Tão Branco. Lisboa: Editorial Alfaguara.

Tradução: Fátima Alice Rocha

Nº de páginas: 344

Início da leitura: 16/09/2022

Fim da leitura: 17/09/2022

**SINOPSE**

“Durante um almoço de família, Teresa, acabada de regressar de lua-de-mel, vai à casa de banho, olha-se ao espelho, desabotoa a blusa e mata-se com um tiro no coração. Muitos anos depois, este segredo continua a fascinar Juan, cujo pai foi casado com Teresa antes de casar com a sua mãe. Jovem e recém-casado, e ainda pouco adaptado à mudança de estado civil, Juan procura descobrir o motivo por trás do suicídio de Teresa. Só uma pessoa sabe porque Teresa o fez e guardou para si esse segredo obscuro durante muitos anos. À medida que procura saber mais, Juan sentirá um mal-estar crescente, uma sensação de «desastre iminente» em relação ao seu próprio casamento.

Coração tão Branco, profusamente premiado e unanimemente aclamado pela crítica espanhola e internacional, é já um clássico da literatura contemporânea.”

Ainda não conhecia a escrita do autor e comecei por este, por um lado pelos prémios que obteve com ele (Prémio da Crítica; Prix l'Oeil et la Letre; IMPAC Dublin Literary Award) e, por outro, pelo título.

E lerei com toda a certeza, outros títulos do autor, pois adorei. Prende-nos à leitura pela forma escrita, onde fluem pensamentos e memórias como numa conversa entre amigos. Consegue captar a mente humana, o que está por detrás de cada gesto, de cada atitude, de uma forma intensa e, ao mesmo tempo, tão verosímil, que nos envolve na narrativa, qual peixe numa rede em águas turvas. Porque turvas são as mentes humanas, porque insondáveis são as razões por detrás de alguns comportamentos, porque inexplicáveis são os sentimentos e a forma como cada um se entrega aos amores e ao que os motiva.

Tudo começa com uma jovem que, ao regressar da sua viagem de núpcias, entra na casa de banho e se mata com um tiro no coração. A que se terá devido esta atitude por parte de uma mulher recém-casada, supostamente a viver um momento feliz na sua vida? Terá sido mesmo suicídio?

E de que forma este acontecimento está relacionado com os protagonistas desta história, Juan e Luísa, também eles recém-casados e vindos da sua viagem de núpcias, onde a “mudança de estado se começou a operar”, deixando-os imersos em dúvidas relativamente a um futuro abstrato que talvez nem exista.

É minuciosa a análise dos sentimentos humanos. A título de exemplo, a reflexão sobre o próprio casamento:

“…duas pessoas que estavam habituadas a estar cada uma por sua conta e de estar cada uma em seu lugar, de acordarem sozinhas e, amiúde, também de se deitarem sozinhas, encontram-se de repente artificialmente unidas no seu sono e no seu despertar e nos seus passos pelas ruas…”

Desde o início do casamento, que Juan começou a ser acometido por pressentimentos catastróficos…

Um livro que angustia, porque acompanhamos estes pressentimentos e ficamos estarrecidos com o final.

Recomendo vivamente a leitura.

Bernard, Caroline (2022). Frida e as Cores da Vida. Porto: Porto Editora.

Tradução: Cláudia Abeling

Nº de páginas: 292

Início da leitura: 14/09/2022

Fim da leitura: 15/09/2022

**SINOPSE**

“México, 1925: Frida quer ser médica, mas um terrível acidente põe fim ao seu sonho. Anos mais tarde, apaixona-se pelo sedutor e grande pintor Diego Rivera e, ao lado dele, mergulha de vez no ambicionado mundo das artes. Sempre assombrada por problemas de saúde e percebendo que a sua felicidade pode ter os dias contados, Frida entrega-se à vida com paixão e descobre como trilhar o seu próprio caminho. Com roupas de cores vibrantes e postura de divindade asteca, a artista cria uma aura muito particular e torna-se uma das pintoras mais veneradas dos nossos tempos.

Frida e as cores da vida é um romance contundente sobre feminilidade, história, arte e liberdade a partir da trajetória de Frida Kahlo.”

Já tinha lido textos sobre Frida Kahlo e a vida desta mulher tão peculiar prendeu-me, desde logo, a atenção. Por isso, quando saiu este romance, não podia deixar de o ler. A autora parte de pesquisas sobre a vida da pintora, visita a Casa Azul, no México, e a emoção que Frida sempre lhe causou, levou-a a escrever este romance. Apesar disso, este é um livro de ficção a partir da biografia da pintora.

Quanto a mim, destaco que, apesar de Frida não ter tido uma vida fácil, em virtude de uma poliomielite sofrida na infância e de um acidente que quase a deixou paraplégica, havia nela uma luz que contagiava tudo e todos por onde passava. Sempre exuberante, usou e abusou das cores, das flores, das joias, de tudo o que a fizesse destacar, ainda que nunca mais tenha sido a mesma desde o fatídico acidente no autocarro. As suas pinturas são essencialmente retratos seus, que começou a pintar na cama, na Casa Azul, quando estava imobilizada e o pai arranjou forma de ela não deixar de pintar.

É surpreendente a sua força de viver, a resiliência, a forma como sempre contornou os seus problemas, de saúde e amorosos. Uma mulher exuberante, muito à frente no seu tempo, que desafiou tabus e estereótipos.

A autora traz-nos esta biografia de Frida romanceada de forma ficcional, numa escrita fluída, elegante e que nos capta a atenção logo desde o início do livro e se torna numa leitura muito agradável.

Aconselho vivamente a leitura deste livro.

Molloy, Aimee (2018). Uma Mãe Perfeita. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Ana Saldanha

Nº de páginas: 336

Início da leitura: 12/09/2022

Fim da leitura: 13/09/2022

**SINOPSE**

Quatro amigas encontram-se num jardim em Brooklyn, Nova Iorque. São mães há pouco tempo e debatem-se com as exigências das suas novas vidas. Colette é escritora e sonha em dedicar mais tempo à família. Nell é especialista em cibersegurança e quer fugir a um passado sombrio. Francie pretende ser mãe a tempo inteiro e, assim, expiar segredos antigos. E Winnie, atriz famosa…

Winnie quer apenas o filho de volta.

É que alguém aproveitou a única noite em que as amigas saíram sem as crianças para raptar o pequeno Midas. E agora que a investigação policial parece ter chegado a um impasse, Nell, Colette e Francie unem-se, determinadas a encontrá-lo… mesmo que tenham de agir a coberto das sombras.

Colette está a escrever um livro que lhe dá acesso a ficheiros policiais confidenciais.

Nell utiliza os seus dons de hacker para invadir sites privados.

Francie assiste a um talk-show sensacionalista que ninguém admite ver mas que segue obsessivamente o caso e transforma o rumo das vidas de todas.

E há ainda um pai. Um enigmático e afetuoso pai…

A história deste livro gira em torno de encontros de mães cujos bebés nasceriam em maio, que teve início num fórum sobre partilha de experiências e questões relacionadas com a maternidade. Quando os bebés nascem, começam a encontrar-se presencialmente para falarem dos seus bebés, colocarem dúvidas e trocarem ideias. Estes encontros, tornam-se também um momento de descompressão, onde a maior parte das mães se “liberta” por algum tempo das suas crias para aproveitar, conversar e até beber.

Tudo está bem até ao dia em que desaparece um dos bebés, o bebé Midas, de Winnie. A partir daqui, temos a investigação por parte da polícia e de algumas das mães. Mas não poderei contar o que sucedeu com o bebé nem por quem e por que motivo foi raptado.

Quanto a mim, mais do que um romance policial ou um thriller, este é um livro que aborda questões fulcrais por que todas as mulheres passam após a maternidade: saberão cuidar dos bebés, deverão dar mais atenção aos bebés em detrimento da relação conjugal, o peso com que ficam a mais e que diziam que se perdia após o parto, o que não sucede a todas, os empregos, o tempo de licenças pós-parto, a depressão… entre outras questões.

Confesso que, em alguns momentos, a história se tornou um pouco repetitiva, não avançando como era suposto num romance policial. Mas é uma leitura agradável para ler entre leituras mais densas e que serve o propósito de entreter. O final surpreende.

Portela, Patrícia (2021). Hífen. Lisboa: Editorial Caminho.


Nº de páginas: 280

Início da leitura: 09/09/2022

Fim da leitura: 10/09/2022

**SINOPSE**

«Flandia, o avesso desalinhavado de uma possibilidade hifanada. A discussão sobre o sexo dos anjos enquanto os portões cedem aos cavaleiros do Algoritmo.»

Hífen. um texto que, sendo de uma grande diversidade, tem do princípio até ao fim uma grande unidade e uma grande coerência, por um lado, e uma grande força. Quer quando se fala do amor de uma mãe por uma filha, e aqui chega-se a sentir um estrangulamento na garganta, quer quando Ofélia se dirige ao marido morto, e aqui sentimo-nos identificados com aquele sentimento de saudade, quer quando se evoca a luta por um mundo melhor, quer quando se grita contra a injustiça e contra o absurdo de um mundo onde nos sentimos muito bem desde que abdiquemos do essencial, isto é, do sal da vida. E já no fim, quando a resignação e o suicídio se confrontam como os dois destinos possíveis, a solução encontrada me parece a melhor: mesmo que não lhe encontremos um sentido, a vida é sempre a melhor solução.

Este não é um livro comum. Intercala pensamentos, crítica, acontecimentos, em que tudo se interliga numa distopia.

A ação desenrola-se na Flândia, um lugar inventado pela autora a partir de uma reflexão sobre o pudim flan, uma metáfora extraordinária de um preparado que nos facilita a vida a tal ponto, que já não se distingue um pudim de ovos de um pudim flan. É precisamente isso que acontece com o mundo, constantemente mais facilitador, mais “evoluído”, mas em que tudo perde a cor e o sabor e o saber.

De uma forma literária, com uma linguagem simples,mas muito bem trabalhada, Patrícia Portela leva-nos até este novo lugar pela voz de uma mãe de uma das muitas crianças vítimas da “doença do sono”, narração essa que acaba por ser assumida por uma enfermeira das enfermeiras androides, neste lugar tão tecnologicamente evoluído e, ao mesmo tempo, já tão pouco humano.

É pela voz da mãe, dos desabafos que vai tendo com a filha enquanto dorme, enquanto chora com dores, enquanto se debate com “batalhas noturnas”, que vamos conhecendo a evolução da doença, a angústia crescente que se apodera desta mãe, sempre receosa de que a filha a abandone no sono, já que “É no sono que nos abandonamos ao cuidado dos outros, deixando o frágil coração decidir se continua a bater amanhã”. É nestas horas que esta mãe se recorda do passado, desde o nascimento da filha, das promessas que lhe fez e nunca cumpriu. E verdade seja dita, passamos mesmo a vida a dizer “vamos lá este ano, ainda lá vamos este ano”, sem que, de facto, façamos por ir. É aqui que desabafa sobre as preocupações que sempre partilhou com a filha sobre os problemas ambientais, sociais, financeiros, tecnológicos e políticos e que, neste momento, de nada valem, de nada servem.

Esta Flândia criada pelo próprio homem é a mesma que o trai, porque “Alimentámos um monstro”.

E mais não digo. Apenas que gostei muito deste livro e recomendo a sua leitura. Uma leitura atenta a todos os sentidos que se escondem por detrás das palavras para lhes conferir vida própria.

Quintana, Pilar (2022). Os Abismos. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Tradução: Pedro Rapoula

Nº de páginas: 200

Início da leitura: 07/09/2022

Fim da leitura: 09/09/2022

**SINOPSE**

Claudia tem nove anos e é filha única. A sua vida gira à volta da mãe homónima, já que o pai - com idade para ser seu avô - passa os dias no supermercado que gere com a irmã, casada às escondidas com um tipo muito mais novo. Quando, porém, uma centelha de aventura parece disparar entre este rapaz e a jovem mãe de Claudia, a crise familiar instala-se abruptamente e mergulha a Claudia adulta numa depressão profunda, durante a qual se mete na cama a ler revistas, comentando com a filha como as mortes de Grace Kelly e Natalie Wood não podem ter sido senão suicídios. E, quanto mais a pequena Claudia precisa de esperança, mais a mãe lhe cria temores que a empurram para o abismo, donde nem as bonecas regressam.

Tomando como cenário um mundo em que as mulheres não conseguem escapar a casamentos impostos e prisões domésticas, esta é a história inquietante de como uma criança assume as revelações da mãe e os silêncios do pai para construir o seu próprio mundo, sem saber que, apesar de continuarem todos juntos, a família já ruiu há uma eternidade.

Depois do sucesso internacional de A Cadela, publicado nesta mesma coleção, a escritora colombiana Pilar Quintana consolida com Os Abismos - vencedor do Prémio Alfaguara de Romance de 2021 - o lugar de destaque que conquistou nas letras hispano-americanas.

Já tinha lido e adorado um outro romance da autora colombiana, A Cadela, e este também não defraudou as minhas expetativas.

Este é um livro que incomoda, porque retrata a vida de tantas crianças, que (sobre)vivem e crescem no meio de várias crises familiares. Sei que não é fácil ser mãe, que o livro retrata também esse aspeto, mas, na minha opinião, quem tem filhos, tem necessariamente de cuidar deles e não deixar que vivam como se não existissem, numa relação familiar há muito disfuncional.

Claudia tem o nome da mãe e 8 anos quando se inicia a narrativa. É a narradora da história. Acredita que sempre foi feia, não tendo saído à mãe, que descreve como sendo muito bela. É uma criança com grande imaginação e conta que se referiam ao apartamento onde viviam como “a selva”, por estar repleto de plantas, chamando a si a luz do sol, o vento fresco e os pássaros. Era nessa “selva” que Claudia corria e fechava os olhos para as ouvir. Mas, do segundo piso, parecia-lhe “a beira de um precipício, e os degraus uma encosta escarpada”.

A mãe ficava o tempo todo em casa e, quando ia buscar a filha ao colégio, pouco lhe ligava. Normalmente, Claudia “encontrava-a na cama com uma revista (…). Lia sobre a vida das mulheres famosas (…)”. E, enquanto Claudia almoçava ou via a Rua Sésamo, a mãe “passava as páginas”. E é neste ambiente que Claudia cresce, sempre muito preocupada com a mãe, mas percebendo que a vida tem “abismos” incontornáveis.

Temas como a maternidade, a depressão, o suicídio, as relações conjugais e a traição são aqui relatados tal como são filtrados pelos olhos de uma criança.

Um livro pequeno, mas muito bem conseguido. Aconselho!

Monginho, Julieta (2018). Um Muro no Meio do Caminho. Lisboa: Porto Editora.

Nº de páginas: 248

Início da leitura: 04/09/2022

Fim da leitura: 06/09/2022

SINOPSE

Trazem o que lhes restou: um caderno, um brinco, fotografias, a t-shirt do filho que morreu, um bebé a crescer na barriga, o barulho do seu quarto a ruir. Atravessado o mar, ergue-se o obstáculo inesperado: o muro construído pela hostilidade, esquecida dos que sucumbiram sem refúgio em território europeu, há menos de um século. À porta do muro alastram os campos de refugiados - chão de pedras, ratos, tendas fustigadas pelo sol, pela neve, pelas quezílias.

De todo o mundo acorrem os que ajudam. Levam as mãos para amparar, mimar, oferecer e cozinhar, os olhos para ver e entender.

As histórias são mais que mil e uma. A de Amina e Omid, os fugitivos, a de Dimitris, o grego cercado pelos seus próprios muros, as de Ann e Saud, Juan e Eleni. Vidas suspensas, à beira do muro, à porta da Europa.

Um Muro do Meio do Caminho é um livro realmente bom, que recebeu o Prémio Fernando Namora, em 2019.

Como refere a autora “Este é um livro de ficção. Nenhuma das personagens corresponde a uma pessoa real.” Ainda assim, a ficção foi criada a partir de conversas que a autora teve na ilha grega de Chios, numa viagem de aprendizagem pessoal feita em 2016 como voluntária, na qual contactou com as condições deploráveis no acolhimento de refugiados da Síria e do Afeganistão, desde a falta de casas de banho, de água, de eletricidade, de condições de saneamento e esgotos, lamentando profundamente o desprezo a que foram votados. O acolhimento por outros países da Europa constitui o sonho das jovens mulheres de hijab, dos rapazes mais rebeldes, das mulheres que tudo perderam, das crianças sem família e de todos os que lutam por eles, por melhores condições de vida ou apenas as previstas na convenção dos Direitos Humanos. Os que conseguiram trazer alguma coisa, o que terão escolhido e porquê? De que forma poderão sair daquela “prisão”? Quem poderá prestar-lhes auxílio? Serão livres para, por exemplo, irem ao encontro dos maridos que já estão algures na Europa? Quais as dificuldades por que passa quem tenta ajudar? Será possível prestar auxílio sem que se envolvam emocionalmente?

Este é um livro literário que incomoda, que denuncia, que questiona, que choca e que abana até os menos sensíveis a estas questões. É impossível ficar-se indiferente.

Deixo dois excertos para que fiquem com a noção da forma como a temática é abordada.

“O mundo dos desejos está reservado aos que moram no continente de marca, tanto mais altivo quanto mais se afasta da pobre costa sul. Aos que querem lá entrar exige-se que deixem à porta as ilusões e, se teimarem, ao menos que tomem o lugar de pessoal menor que lhes foi reservado à nascença”.

“O que seria do mundo sem as armas? O que seria a raiva, sem a possibilidade de eliminar o semelhante? Se o dinheiro desaparecesse por magia, o que fariam os homens à cobiça? Se as terras se unissem num único lugar, o que fariam os homens às disputas? Se os espelhos desaparecessem, o que fariam os homens à vaidade? O que fariam os homens à compaixão?...”

Adichie, Chimamanda Ngozi (2019). A Cor do Hibisco. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Tradução: Tânia Ganho

Nº de páginas: 368

Início da leitura: 01/09/2022

Fim da leitura: 03/09/2022

**SINOPSE**

Os limites do mundo da jovem Kambili são definidos pelos muros da luxuosa propriedade da família e pelas regras de um pai repressivo. O dia-a-dia é regulado por horários: rezar, dormir, estudar e rezar ainda mais. A sua vida é privilegiada, mas o ambiente familiar é tudo menos harmonioso. O pai tem expectativas irreais para a mulher e os filhos, e pune-os severamente quando se mostram menos que perfeitos.

Quando um golpe militar ameaça fazer desmoronar a Nigéria, o pai de Kambili envia-a, juntamente com o irmão, para casa da tia. É aí, nessa casa cheia de energia e riso, que ela descobre todo um novo mundo onde os livros não são proibidos, os aromas a caril e a noz-moscada impregnam o ar, e a alegria dos primos ecoa.

Esta visita vai despertá-la para a vida e o amor e acabar de vez com o silêncio sufocante que a amordaçava. Mas a sua desobediência vai ter consequências inesperadas...

Uma obra sobre a ânsia pela liberdade, o amor e o ódio, e a linha ténue que separa a infância da idade adulta, que marcou a estreia de uma escritora extraordinária.

Mais um livro extraordinário de Adichie. É tão fácil embrenharmo-nos nas suas histórias e acompanharmos as personagens tão bem construídas.

Neste livro, dois irmãos nigerianos, a jovem Kambili e  o irmão Jaja, vivem oprimidos pelo pai e pela religião católica que ele professa como líder responsável pela comunidade religiosa, sem disso se queixarem, uma vez que que para eles é natural obedecerem ao pai e acreditarem que a vontade de Deus está acima de tudo.

Vítimas de violência doméstica, mãe e filhos encaram essa como a única forma de vida, uma punição natural, sempre que contrariam os ideais do pai, não obedeçam ou não obtenham os resultados escolares que ele espera deles. Assim, estas crianças não sabem ser crianças, não sabem sorrir nem desfrutar dos pequenos prazeres da vida.

Quando Enugu é ameaçada por um golpe militar, o pai acaba por consentir que a tia deles, Ifeoma, os leve temporariamente para sua casa, em Nsukka. É aqui que contactam com outra forma de vida a que não estavam habituados, pois a família da tia sorri, brinca, conversa... Aqui conhecem o avô, que o pai reprovava referindo-o como pagão, conhecem um padre que terá um papel crucial na história. Segundo o pai, terá sido ali que se corromperam. 

Para finalizar, uma vez que não quero entrar no enredo, refiro apenas que os hibiscos têm cores diferentes em cada uma das localidades, simbolizando a forma como a religião e a própria vida são encaradas em cada uma. Desta forma, se acaba por perceber a escolha do título.

Aconselho vivamente a leitura deste livro.

Simões, Berta; Moreira, Fernanda Palhares (2018). Num Piscar de Olhos. Vila Nova de Famalicão: Editorial Novembro.

Nº de páginas: 178

Início da leitura: 01/09/2022

Fim da leitura: 03/09/2022

**SINOPSE**

Beatriz é vítima de um acidente grave que torna a sua vida num improvável carrossel de emoções. É-lhe diagnosticada uma síndrome rara que a obriga a passar largos meses no hospital. O que parecia um acidente por obra do acaso torna-se num mistério que terá de ser deslindado pela polícia.

(…) Conseguirá Beatriz recuperar?

Será capaz de superar um passado emocionalmente turbulento?

Terá a capacidade de desenhar o seu futuro?

O que gostei neste livro? O facto de não ser um mero romance romântico. Não gosto de leituras cheias de mel nem de romances cuja história não vai para além das relações amorosas.

Este livro não se fica pelo romance. Numa escrita muito simples e direta, aborda temáticas importantes, como o amor possessivo, as relações tóxicas, a bipolaridade, a síndrome do encarceramento… A conferir uma maior vivacidade a esta história de superação, surgem os sonhos visionários da protagonista e o crime de que é vítima.

Quem terá tentado matar Beatriz com o atropelamento que a levará ao hospital?

Para ver revelados esta e outras perguntas e descobrir a força de vontade desta protagonista, terá mesmo de ler este livro!

Mankel, Henning (2012). Sapatos Italianos. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Fátima Andrade

Nº de páginas: 288

Início da leitura: 30/08/2022

Fim da leitura: 31/08/2022

**SINOPSE**

Henning Mankell afasta-se do género policial a que já nos habituou para refletir neste romance sobre temas como o amor, a perda, a redenção e a autodescoberta.

Fredrik Welin passou os últimos doze anos da sua vida numa ilha do Báltico rodeada de gelo, tendo como única companhia o seu cão e a sua gata, e como única visita o carteiro. Um dia, vê uma figura aproximar-se e percebe que nada voltará a ser o mesmo. A pessoa que vem perturbar o seu exílio autoimposto é Harriet, a mulher que ele abandonou sem qualquer explicação há quase quarenta anos. Harriet diz vir obrigá-lo a honrar uma promessa que ele lhe fizera, mas Fredrik está prestes a descobrir que o seu reaparecimento esconde outra surpresa...

Gostei deste livro. Fugindo ao género habitual do autor – os policiais, este é um romance mais introspetivo, e gostei precisamente disso.

O protagonista, Fredrik Welin vive numa ilha do Báltico, numa profunda solidão, tendo por únicas companhias os seus animais e, de quando em vez a visita do carteiro que, sabendo que ele era médico e sendo o carteiro hipocondríaco, depressa o torna no seu médico pessoal. Diariamente, Fredrik faz um buraco no gelo para um banho matinal nas águas geladas. Porém, tirando estes hábitos pouco comuns e a questão que se nos coloca logo no início: «o que faz um médico numa ilha deserta?», pouco sabemos sobre esta personagem. Parece fugir de alguma coisa, mas o quê realmente?

Mas se não regressamos ao passado, por vezes é ele que vem ter connosco e foi o que sucedeu a Fredrik. Num dos seus banhos matinais, vislumbra a imagem de uma mulher, no seu andarilho, perto dele. Foge para casa e pega nos binóculos: afinal, não fora uma visão (partida que a solidão às vezes prega), mas sim Harriet, a mulher que ele abandonara há cerca de 40 anos. E, se é realmente ela, o que fará ali?

É a partir daqui que Fredrik inicia uma viagem de regresso ao passado, a todos os segredos que não chegou a conhecer, a uma luta com o consciente e com a noção de tudo o que ficou perdido nas malhas do tempo, a uma procura ontológica de autodescoberta e de procura de um novo sentido para a vida.

E qual a razão para ter fugido, inclusive da profissão que amava, a medicina cirúrgica?

Já agora, qual a razão para o título da obra, Sapatos Italianos?

Para obter as respostas a todas estas perguntas, nada melhor que ler e acompanhar o narrador, a quem o autor congratulou com um discurso fluído, sereno e enternecedor, como uma viagem física e interior.

Aconselho!

Nordberg, Jenny (2015). As Meninas Proibidas de Cabul. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Mário Dias Correia

Nº de páginas:400

Início da Leitura: 28/08/2022

Fim da leitura: 29/08/2022

**SINOPSE**

Nas cidades e aldeias afegãs, há raparigas que se movimentam livremente e sem medo de represálias. Num país onde a mulher não tem valor nem privilégios, há meninas que vão à escola e brincam na rua. Elas existem, mas ninguém sabe quem são. Porquê? Porque estão disfarçadas de rapazes. São as suas próprias famílias a fazê-lo ao abrigo de uma tradição secreta ancestral chamada bacha posh.

Para uma família afegã, não ter filhos varões é uma tragédia. De forma a contornar este estigma, muitos vestem e apresentam ao mundo as suas filhas como se fossem rapazes. Mas este estado de graça só dura até à puberdade, altura em que são obrigadas a assumir a sua identidade feminina. Para as meninas que tiveram um vislumbre de autonomia, o choque é dilacerante.

A jornalista premiada Jenny Nordberg deparou-se com este costume e ficou fascinada. Pouco a pouco, conseguiu reunir um grupo de mulheres corajosas. Os seus testemunhos são fascinantes e dão-nos uma perspetiva totalmente nova sobre o que significa ser mulher e os sacrifícios a que obriga ainda nos dias de hoje.

Este é um livro repleto de personagens reais, às quais seria impossível não ficar presa. E, como diz a autora na dedicatória inicial “Para todas as raparigas que perceberam que, de calças, conseguiam correr mais depressa e trepar mais alto”.

Foi um livro que levou à autora 6 anos a ser escrito, que exigiu muita investigação, muitas leituras e o contacto com estas mulheres, a quem entrevistou. E, como em muitas situações desta natureza, o relato não podia deixar de ser “subjetivo”. Os acontecimentos relatados sucederam essencialmente entre 2010 e 2011.

Ser mulher afegã não é nada fácil, nada justo, nada aceitável, e, apesar de já terem ocorrido alterações, a maior parte dos direitos das mulheres continua a ser violado e calado. É importante elevar a voz e contar ao mundo o que sucede e as injustiças de que são alvo, não apenas pelos homens, mas pelas normas e costumes sociais e religiosos, em que nascem e em que vivem toda a sua vida.

Nascer homem é uma bênção. Nascer mulher é uma tragédia.

Não vou recontar o livro, riquíssimo em testemunhos, na forma como nos são transmitidas as tradições, as maneiras de ser e de pensar condicionadas pelo próprio meio social em que estas mulheres nasceram, mas não posso deixar de falar de uma ou duas situações que, por mais que estejamos esclarecidos sobre o assunto, nos deixam indignados.

A um homem afegão é permitida a poligamia. À mulher, não. Se um homem tem muitas mulheres, é porque tem um excelente estatuto social que lhe permite “adquiri-las”.

Um homem afegão é livre de se vestir e agir como quer. A mulher não, é sempre vigiada e controlada até estar pronta para casar (algumas aos 13 anos ou mal tenha “as regras”).

Um homem afegão só é considerado verdadeiramente macho se tiver um filho varão. Se tiver apenas raparigas, a sua virilidade é questionada.

Um homem afegão exerce, na maior parte das vezes, atos de violência contra as mulheres e as filhas, o que, no seu entender, é considerado normal.

Uma mulher não pode rir, cantar, dançar, vestir-se sem a burka em público, porque, dessa forma, é considerada leviana e nenhum homem a quererá tomar por esposa.

Uma mulher deve ter muitos filhos, e pelo menos um filho varão. Caso isso não aconteça, para que a virilidade do homem não seja posta em causa, uma das meninas é convertida em rapaz – bacha posh – sendo-lhe cortado o cabelo, sendo vestida e tendo direito a tudo o que os rapazes têm. Se, entretanto, nascer um irmão, voltam à sua condição de raparigas. Se não, são mantidas assim até à adolescência, altura em que já não conseguirão esconder as suas formas e em que têm de casar para terem a sua descendência, enquanto não forem demasiado velhas.

Uma mulher estéril, é menosprezada e considerada fraca.

A mulher deve ficar em casa a tomar conta dos filhos e marido.

As mulheres vivem de tal forma dentro deste espírito, que são extremamente cruéis umas com as outras.

As sogras batem, na maior parte dos casos, nas noras.

Não é fácil pensarem de outra forma, parecem formatadas pelo meio social com a ideia de que viver assim está certo e tudo o que não seja assim, é errado.

Este é um livro que transmite conhecimento muito bem fundamentado e, por isso mesmo, apreciei bastante e não deixarei de recomendar!

Coben, Harlan (2016). Sinto a Tua Falta. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Maria José Figueiredo

Número de páginas: 368

Início da leitura: 25/08/2022

Fim da Leitura: 27/08/2022

**SINOPSE**

Autor vencedor dos três prémios mais prestigiados da literatura policial americana.
Kat Donovan, uma detetive de Nova Iorque, observa os perfis de um site de encontros amorosos. Subitamente depara-se com uma fotografia que a perturba: ali está a cara do homem que, anos antes, a abandonou em pleno noivado. Nisto, ao enviar-lhe uma mensagem, Kat vê-se enredada numa inesperada e tenebrosa conspiração. À medida que investiga, apercebe-se de que a sua vida e a dos seus pais assenta numa mentira. O mistério estende-se ao próprio homicídio do pai que permanece inexplicado. Mas Kat está disposta a tudo para desmantelar esta rede criminosa que opera através da Internet, nem que isso a force a remexer num passado doloroso.

**OPINIÃO**
Gostei muito deste policial, excelente para descomprimir nas férias. Como noutros policiais deste autor, ficamos presos à narrativa do início ao fim. 
Tudo se desenrola em torno de um "site" de encontros, em que Kat Donovan, uma detetive nova iorquina, se terá registado, num momento em que se sente muito só. A partir daqui, cruzam-se várias histórias: o caso do homicídio do pai, que Kate não descansa enquanto não resolver; o aparecimento de uma foto do ex-noivo de Kate no sítio de encontros, a quem não via há muitos anos e o desaparecimento de uma mulher, que, supostamente, teria combinado um encontro no mesmo sítio.  
É impossível não ficarmos presos a todas estas histórias que queremos ver resolvidas.
Aconselho!

Couto, Mia (2020).  O Mapeador de Ausências.  Alfragide: Editorial Caminho.

Número de páginas: 416

Início da leitura: 22/08/2022

Fim da leitura: 24/08/2022

**SINOPSE**

Diogo Santiago é um prestigiado e respeitado intelectual moçambicano. Professor universitário em Maputo, poeta, desloca-se pela primeira vez em muitos anos à sua terra natal, a cidade da Beira, nas vésperas do ciclone que a arrasou em 2019, para receber uma homenagem que os seus concidadãos lhe querem prestar.
Mas o regresso à Beira é também, e talvez para ele seja sobretudo, o regresso a um passado longínquo, à sua infância e juventude, quando ainda Moçambique era uma colónia portuguesa. Menino branco, é filho de um pai jornalista e sobretudo poeta, e de uma mãe toda sentido prático e completamente terra-a-terra. Do pai recorda o que viveu com ele: duas viagens ao local de terríveis massacres cometidos pela tropa colonial, a sua perseguição e prisão pela PIDE, mas sobretudo, e em tudo isto, o seu amor pela poesia. Mas recorda também, entre os vivos, o criado Benedito (agora dirigente da FRELIMO) e o seu irmão Jerónimo Fungai, morto a tiro nos braços da sua amada, a bela e infeliz Mariana Sarmento, o farmacêutico Natalino Fernandes, o inspector da PIDE Óscar Campos, a tenaz e poderosa Maniara, e muitos outros; e de entre os mortos sobressaem o régulo Capitine, que vê uma mulher a voar.

**OPINIÃO**

Neste livro, o autor regressa à infância em Moçambique, através da personagem ficcional Diogo Santiago, um escritor, professor em Maputo, que regressa à Beira em 2019 para ser homenageado. As razões da viagem acabam por ser outras e tornam-se reveladoras do seu passado, infância e juventude. 

Nesta viagem, o autor inspira-se no pai português,  "um homem ingénuo a quem entregam provas de um massacre cometido pelas tropas portuguesas em Moçambique no ano de 1973." 

Na Beira, Diogo conhece Liana, com quem se envolve amorosamente,  possuidora de documentos da PIDE sobre as atividades "reprováveis" do pai de Diogo.

A narrativa, não sendo tão poética como a dos restantes livros do autor, é intensa, repleta de acontecimentos, marcada por diálogos e cartas que a tornam riquíssima.  As personagens cativam, surpreendem e tornam-se inesquecíveis. 

Recomendo.

Harris, Sarah J. (2019). As Cores do Assassino. Lisboa: Bertrand Editora.

Tradução: Fernanda Oliveira

Número de páginas: 408

Início da leitura: 21/08/2022

Fim da leitura: 22/08/2022

**SINOPSE**

Um romance fascinante, repleto de suspense, em que um rapaz com sinestesia - que associa cores a sons -, tenta descobrir o que se passou com Bee Larkham, a sua bonita vizinha. Onde está ela? Porque é que ainda não voltou para casa?
Jasper não é uma criança vulgar. Com treze anos, vive num deslumbrante mundo colorido que mais ninguém consegue ver, nem mesmo o seu pai. Palavras, números, dias da semana, vozes das pessoas: tudo tem uma cor própria. Mas recentemente é atormentado por uma cor de que não gosta e que não entende a cor do homicídio.
Jasper tem a certeza de que alguma coisa aconteceu a Bee Larkham, mas parece que ninguém o compreende. Jasper tem de descobrir toda a verdade sobre o que se passou naquela noite, incluindo o seu envolvimento no que ocorreu. Aparentemente, alguém quer impedir isso a todo o custo.

**OPINIÃO**

Gostei muito deste livro.

Não é um thriller comum, em que seguimos os investigadores na resolução de um crime,  a partir de determinadas pistas.

O início,  mais lento, permite-nos entrar gradualmente na história, o que é positivo, uma vez que esta nos é narrada por uma criança de 13 anos, Jasper, um jovem autista que sofre de cegueira facial e que é através das cores queconhece as pessoas, o que sentem, dizem, fazem (sinestesia)...

Não poderíamos esperar uma narrativa linear, mas, a própria alternância entre momentos da ação,  permite-nos compreender o que poderá ter despoletado todos os trágicos acontecimentos.

A vítima é  Beatrice (ou Bee) Larkham que, apesar de Jasper ver nela uma tonalidade semelhante à da falecida mãe,  tinha comportamentos um tanto desequilibrados.

Penso que a autora foi muito inteligenteao escrever um thriller a partir de temáticas tão pertinentes como o autismo, a pedofilia, as relações interpessoais nem semore cordiais ou fáceis, as mágoas do passado e tudo isto em doses de suspense e de jogos psicológicos que nos captam a atenção. 

É um livro que, sem ser uma obra prima ou um bestseller, acaba por se tornar muma boa opção para as férias. 

Agualusa, José Eduardo (2014). A Rainha Ginga. Lisboa: Quetzal Editores.

Nº de páginas: 256

Início da leitura: 19/08/2022

Fim da leitura: 20/08/2022

**SINOPSE**

O novo romance de José Eduardo Agualusa, A Rainha Ginga, conta a vida fantástica de Dona Ana de Sousa, a Rainha Ginga (1583-1663), cujo título real em quimbundo, "Ngola", deu origem ao nome português para aquela região de África.

É a história de uma relação de amor e de combate permanente entre Angola e Portugal, narrada por um padre pernambucano que atravessou o mar e recorda personagens maravilhosos e esquecidos da nossa história - tendo como elemento central a Rainha Ginga e o seu significado cultural, religioso, étnico e sexual para o mundo de hoje. 

Neste seu romance histórico, Agualusa relembra a época em que os holandeses cobiçavam Luanda, no momento em que se aperceberam das fraquezas de Portugal tomado pelos Filipes de Castela. Ficamos a conhecer a história de uma personagem real – Ana de Sousa N’Ninga M’Bandi, a célebre rainha Ginga (1583-1663) do Dongo e da Matabam (norte de Angola), uma importante chefe africana, cujo título real em quimbundo, “Ngola”, deu origem ao nome do país – Angola.

A narração é conduzida pelo padre Francisco José de Santa Cruz, que terá sido designado como secretário de Ginga, viajando de Pernambuco para Angola. É através dele que vamos tendo acesso à história tão sui generis e polémica.

Destaco como questões que me prenderam a atenção: a linguagem das tribos, a escravidão (encarada de forma controversa), a religião e os mitos que conduziam a vida destes povos.

Gostei do livro, aliás gosto muito da escrita de Agualusa e este livro não constituiu uma exceção. Recomendo!

Tabucchi, Antonio (1991). Requiem – Uma Alucinação. Lisboa: Quetzal Editores.

Nº de páginas: 127

Início da leitura: 18/08/2022

Fim da leitura: 18/08/2022

**SINOPSE**

Como que suspenso entre a consciência e a inconsciência, entre a realidade Antonio Tabucchi e o sonho, um homem encontra-se ao meio-dia em ponto, sem perceber porquê, numa Lisboa deserta e tórrida de um domingo de julho. Sabe vagamente que tem umas tarefas a cumprir - uma última, sobretudo: encontrar-se com um ilustre poeta desaparecido que, como todos os fantasmas, talvez apareça só à meia-noite.

Entrega-se ao fluxo do acaso, segundo a lógica das livres associações do inconsciente, e dá consigo a cumprir um percurso que o leva a reviver aquilo que foi, a tentar desatar os nós cegos da sua vida passada que nunca conseguiu compreender. A alucinação, a errância, o sonho, duram doze horas, nas quais o tempo de uma vida se comprime e se dilata: passado e presente confundem-se e os vivos encontram-se com os mortos no mesmo plano.

Com este Requiem, Antonio Tabucchi, ao contar a experiência de uma viagem misteriosa e sapiencial, escreveu um livro que é um acto de amor a um país que lhe pertence profundamente e à língua na qual este livro está escrito.

Ao ler a sinopse pensei: tenho de ler este livro. Ainda não tinha lido nenhum livro do autor e fiquei surpreendidíssima. Este autor italiano optou por escrever este livro em português e a ação decorre em Lisboa. Por incrível que pareça, dei por mim a deambular pelas ruas que o protagonista percorreu por Lisboa, a encontrar-me com as personagens com as quais se foi cruzando, talvez pela forma como escreveu, pelos diálogos corridos ao estilo saramaguiano, pelo sentido de humor sempre presente e que me arrancou vários sorrisos e fiquei de tal forma presa à história que me foi quase impossível largar o livro por um instante que fosse. Posso até dizer que este escritor revelou um portuguesismo mais português do que muitos escritores portugueses. As personagens com que se cruza, o drogado que lhe pede dinheiro; o cauteleiro coxo; a cigana que vende t-shirts Lacoste verdadeiras e sem serem verdadeiras (umas com autocolante e outras não, que cola no momento da escolha do freguês) e que lhe lê a sina; o guarda do cemitério; o chauffeur de táxi que, ao vê-lo a transpirar em bica, se oferece para lhe dar a sua camisa e que, estando há pouco tempo em Lisboa, pouco conhece as ruas, valendo-se, assim, dos conhecimentos do protagonista; a Isadora da pensão, que se oferece para lhe fazer companhia enquanto dorme; o Barman frustrado, porque em Portugal só bebem laranjada (e vinho) e ele que era especialista em cocktails; o vendedor de histórias, que, não vendo os seus livros aceites para publicação, vende histórias; o convidado, de que não é mencionado o nome, mas que reconheci como sendo Fernando Pessoa; o tocador de acordeão, que acompanha o protagonista e o convidado, tocando baixinho, enquanto eles conversam e tantas outras personagens que reconhecemos do nosso país! É realmente um “requiem” por tantas pessoas que foram marcando o nosso passado e que ficam para sempre na nossa memória.

A gastronomia portuguesa, mencionada em vários momentos da narrativa, culminando no restaurante pós-moderno, em Alcântara, da Mariazinha, que tirara um curso de literatura em Évora, com uma “nouvelle cuisine”, onde servem “sopinha Amor de Perdição”, “salada Fernão Mendes Pinto”, “cherne trágico-marítimo”, “linguado interseccionista”, “bacalhau de escárnio e maldizer”... 

Tudo começou com uma alucinação, quando o protagonista estava a ler O Livro do Desassossego de Bernardo Soares. E ler este livro foi um total desassossego. Gostei mesmo muito e só tenho pena de ter terminado tão rápido, pois queria deambular um pouco mais à conversa com Pessoa.

Garmus, Bonnie (2022). Lições de Química. Alfragide: Edições ASA.

Tradução: Elsa T. S. Vieira

Nº de páginas: 464

Início da leitura: 15/08/2022

Fim da leitura: 17/08/2022

SINOPSE

Elizabeth Zott não é uma mulher comum. Aliás, Elizabeth Zott seria a primeira a dizer que a mulher comum não existe. Mas estamos no início dos anos sessenta e a sua equipa de trabalho no Instituto de Pesquisa Hastings é exclusivamente masculina. Elizabeth pode ter sido uma das melhores alunas do curso de Química (foi), mas todos os colegas esperam que seja ela a ir buscar cafés ou fazer fotocópias (não será). Há, porém, uma exceção: Calvin Evans, um jovem brilhante que se apaixona por ela. Entre eles, a química é a sério.

Mas tal como na ciência, a vida nem sempre segue uma linha reta. Anos mais tarde, Elizabeth é mãe solteira e a estrela relutante do programa de culinária mais amado da América, o Jantar às Seis. A sua abordagem à cozinha é extravagante ("combine uma colher de sopa de ácido acético com uma pitada de cloreto de sódio") e revolucionária (mais do que apresentar receitas, ela está a incentivar um número crescente de mulheres a desafiar o mundo). A sua popularidade irrita muita gente.

Longe dos holofotes, Elizabeth também usa a ciência para alimentar o corpo irrequieto e a mente subversiva da filha de quatro anos, Madeline, bem como o espírito crítico de Seis e Meia, o cão. Mas o seu destino parece eternamente adiado. Conseguirá ela cumprir o que em tempos um grande amor profetizou num sussurro?

Elizabeth Zott, ainda vais mudar o mundo.

Que livro fantástico! Gostei do livro no seu todo: na forma como está escrito – linguagem fluída e com uns apontamentos de humor muito bem tirados, a história em si, que nos fala de assuntos realmente sérios, que, apesar de ainda não estarem totalmente extintos no século XXI, nos anos 60 eram mais acentuados: a desigualdade de género em relação à forma como a mulher deveria agir, vestir, falar, até à profissão exercida. Na altura, era impensável uma mulher dedicar-se à química, a ponto de a protagonista, na empresa para a qual trabalhava, nunca ser retratada como mulher perante os investidores, pois supunha-se que os investimentos cessariam logo. Outra questão prende-se com a forma como a mulher era abordada no emprego pelos seus superiores homens, que se impunham pelo sexo e pelo assédio. Outra temática, a religião, era impensável uma pessoa assumir-se como ateia (que é o caso da protagonista), sem ser imediatamente enxovalhada e julgada. As raízes familiares e o casamento eram instituições que se impunham como fundamentais, e, havendo filhos, estes eram logo relegados a meros filhos ilegítimos. Mostra ainda como as pessoas eram cruéis nos seus julgamentos.

Porém, este livro é genial também pelo facto de mostrar, através de Elizabeth Zott, a protagonista, que a mulher não tem de ceder, precisa impor-se nesta sociedade desinformada, acabando por chegar às pessoas através do seu amor pela química, do incentivo à luta pelos sonhos por parte das mulheres, mesmo que os maridos se oponham. Se querem ser médicas, cientistas e desenvolver as profissões designadas como de homens, só precisam de acreditar em si e lutar por isso, sem se deixarem prender pelos preconceitos.

As personagens são admiráveis: Elizabeth Zoot, a cientista; a filha Madeline, uma criança que lê desde muito nova, dotada de uma inteligência muito acima da média; o pai Calvin Evans, um cientista de renome, muito pouco atraente fisicamente, mas que partilha a verdadeira química do amor com Elizabeth; Harriet, uma vizinha que se torna numa preciosa amiga de Elizabeth, marcada por um matrimónio do qual não se consegue libertar devido à crença religiosa em relação ao matrimónio, ainda que o marido alcoólico lhe infernize a vida; o padre Wilson, que vai adquirir um papel importante na narrativa e o cão Seis e Meia, um cão muito esperto, que reconhece imensas palavras.

Sobre a história não falo, esperando que se deliciem como eu me deliciei. Aconselho sem reservas!

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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