Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Wilkerson, Charmaine (2022). Bolo Negro. Porto: Porto Editora.

Tradução: Carla Ribeiro

Nº de páginas: 404

Início da leitura: 21/11/2022

Fim da leitura: 26/11/2022

**SINOPSE**

"Conta uma história tão intensa quanto deliciosa. - Taylor Jenkins Reid
Os irmãos Byron e Benedetta não se veem há oito anos, mas a súbita morte da mãe obriga-os sentarem-se finalmente à mesma mesa. Eleanor deixou-lhes um bolo no congelador com a críptica instrução de que o deverão partilhar «na altura certa».
Para além do bolo, uma homenagem às origens caribenhas da família, há ainda uma longa gravação áudio que abre com uma revelação impensável: Byron e Benedetta têm uma irmã.
Este, porém, é apenas o primeiro dos muitos segredos que a mãe quer agora, depois de morta, revelar, na esperança de emendar alguns erros do passado.
Nesta estreia surpreendentemente madura, Charmaine Wilkerson explora com fina sensibilidade as questões difíceis da identidade pessoal e social, numa saga familiar intensa, que cruza o tempo e a geografia, fazendo-nos acreditar que é sempre possível regressar a casa.
Bestseller do New York Times em adaptação para a televisão por Oprah Winfrey"
Uma boa estreia da escritora. Este é um drama forte e envolvente e que, apesar de, no início, parecer um pouco confuso pela quantidade de personagens e pela alternância entre vários momentos temporais e personagens, acaba por nos envolver.
Nem sempre o que parece é e os segredos acompanham Eleanor até à sua morte. Os filhos, Benny e Byron, só verão desvendados os segredos da mãe, após a sua morte, através de uma gravação áudio que deixou com o seu advogado. E é precisamente este acontecimento que volta a juntar os irmãos, antes inseparáveis, que viveram os últimos anos tão afastados. Mas é também esse acontecimento que vem desvendar muitos segredos guardados por esta mulher. As personagens são muito verosímeis, com virtudes e defeitos, o que lhes confere credibilidade. É o bolo negro, que passou de geração em geração, que volta a juntar os irmãos.
De salientar também toda a relação da família com o mar, através do surf; a questão do preconceito social em relação aos negros; a questão das crianças dadas para adoção; a orientação sexual (nem sempre fácil de aceitar pelos pais); os conflitos geracionais; as tradições; o multiculturalismo...Tem todos os ingredientes para uma boa história. É excecional? Não, apenas boa. Pelo menos na minha ótica.
Aconselho a quem gosta de um bom drama familiar!

García-Márquez, Gabriel (1995). Crónica de uma Morte Anunciada. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 4ªed.

Tradução: Fernando Assis Pacheco

Nº de páginas: 112

Início da leitura: 19/11/2022

Fim da leitura: 20/11/2022

**SINOPSE**

"Vítima da denúncia falaciosa de uma mulher repudiada na noite de núpcias, o jovem Santiago Nasar foi condenado à morte pelos irmãos da sua hipotética amante, como forma de vingar publicamente a sua honra ultrajada e sob o olhar cúmplice ou impotente da população expectante de uma aldeia colombiana: é esta a história verídica que serve de base a este romance, e que, logo nas suas primeiras linhas, é enunciada.

A capacidade de Gabriel García Márquez em reconstruir um universo possuído pela nostalgia, mágica e encantatória da infância e a sua genial mestria em contar histórias fazem deste romance mais uma das obras-primas que consagraram definitivamente este autor."
Este autor colombiano também não engana, escrevia muito bem, o que lhe valeu o Prémio Nobel em 1982. A 1ª edição deste livro saiu em 1981.
Uma história verídica serve de base a esta obra, muito bem ficcionada pelo autor que era, sem dúvida, um excelente contador de histórias. 
É um livro pequeno (daí o ter intitulado de "Crónica"), que se lê num ápice, e que nos conta os meandros de uma morte anunciada: a de Santiago Nasar. Uma morte que poderia ter sido evitada, se as pessoas da vila a quem tinha sido dada a conhecer a intenção de matarem Nasar ou as premonições sentidas, tivessem sido levadas a sério. Parece que, mesmo que tenham acreditado nessa possibilidade, não o conseguiam evitar e nada fizeram para que tal não acontecesse, como se algo as prendesse à decisão tomada e anunciada. E é precisamente a necessidade de saber como mataram Nasar, o enredo em si, e não tanto quem matou e porquê, que isso nos é dito logo no início, ou o clímax da ação com a morte de Nasar, que nos aguça a curiosidade e nos prende à narrativa.
Há mortes que se fazem anunciar, como se estivessem predestinadas...

Aconselho a leitura!

Figueiredo, Isabela (2022). Um Cão no Meio do Caminho. Lisboa: Editorial Caminho.

Nº de páginas: 296

Início da leitura: 18/11/2022

Fim da leitura: 19/11/2022

**SINOPSE**

"Este novo romance de Isabela Figueiredo, a que ela deu o sugestivo e justificado título de Um Cão no Meio do Caminho, conta-nos as histórias de um homem e de uma mulher que sofrem, cada um à sua maneira, um dos grandes males da vida moderna - a solidão.

Neles a solidão é a resposta aos violentos acidentes com que a vida os agrediu. As sociedades modernas vivem sobre a violência. Mas há quem a recuse, como é aqui o caso de José Viriato e da sua misteriosa vizinha, Beatriz, que todos conhecem como a Matadora. O acaso junta-os, como o leitor verificará com a leitura deste livro.

Que resultado obtemos quando se juntam duas solidões? É esta a questão que este novo romance da autora do aclamado A Gorda vem equacionar, deixando a resposta ao critério de cada leitor. Eventualmente um cão pode ajudar."
Que livro tão, mas tão bom! Se já tinha gostado de A Gorda, este correspondeu e ultrapassou quaisquer expetativas criadas. 
Primeiro: as canções sugeridas na ficha técnica para nos acompanharem durante a leitura enquanto "som ambiente" são, já de si, uma excelente companhia e um estímulo à leitura. A música tem o poder de me ajudar a relaxar, a descontrair, criando, assim, o ambiente ideal à concentração na leitura.
Segundo: a abertura da narrativa: "O futuro não está escrito (...) O futuro está em aberto até à sua revelação, cujo calendário desconheço. A surpresa é que nos catapulta para o passo seguinte. Um encontro inesperado, um acidente, uma história…"
Terceiro: duas personagens riquíssimas: a vizinha do narrador, que prende a sua solidão à dele quando lhe conta o seu caso de amor decorrido "há muito tempo", que é uma mulher solitária, uma acumuladora de lixo, lixo esse que são as suas recordações, especialmente da mãe, junto com as fotos que tirou e que continua a tirar, que guarda religiosamente, tudo muito organizado, em caixas. As histórias "fortes" dela, do seu passado, que ele escuta com interesse, porque "gostava de uma boa história". Depois, temos o narrador, um homem igualmente solitário, por opção, que vive apenas com os seus cães e que, durante a noite, vasculha os contentores do lixo à procura de "coisas" que possa vender. Enquanto nos é descrito o dia a dia destas personagens, vamos (re)conhecendo as ruas da Margem Sul, de 2019.
Quarto: a narrativa é magnífica. O passado é recuperado através de analepses, através de conversas entre estas duas personagens, uma vez que "A memória de cada um é o seu bilhete de identidade íntimo": os dramas familiares do narrador, o divórcio dos pais, a entrega da mãe ao álcool, o resgate de "um cão no meio do caminho", a morte da mãe, a mudança para casa da avó, o seu amor pelos animais, a necessidade de ser livre… são muitas as recordações. Também aqui surge a perspetiva histórica sobre a cidade da sua infância: a visão crítica dos "de cá" em relação aos "retornados" (que o ajudaram a resgatar o cão ferido, a quem chamou, mais tarde, Cristo), como "os que têm o rei na barriga", "uns vândalos", enxotados pelos vizinhos...
Quinto: a elegância da linguagem, a oralidade das "gentes" que nos vão sendo descritas, sempre sem momentos mortos, adensando o interesse do leitor a cada passagem.
Poderia continuar a enumerar qualidades, que são muitas, mas não quero adiantar mais sobre este magnífico livro.
Um livro que não pode mesmo deixar de ler!

Cachapa, Possidónio (2019). A Vida Sonhada das Boas Esposas. Lisboa: Companhia das Letras.

Nº de páginas: 240

Início da leitura: 15/11/2022

Fim da leitura: 17/11/2022

**SINOPSE**

"Madalena viveu, durante décadas, uma vida exclusivamente dedicada a um marido que nunca a amou, à casa que não escolheu e aos filhos que pouco se importavam com ela. A morte Súbita do marido e o segredo que lhe foi desvendado levam-na a embarcar num navio de cruzeiro, o que vai alterar a sua perspetiva de vida e o olhar sobre si própria. A par das amigas hilariantes de carne e osso, as personagens dos romances de Corín Tellado ou Emily Brontë saltam das prateleiras para lhe assombrar os sonhos e fazer questionar o seu direito a ser, finalmente, livre. O encontro com um galã hiper-romântico, semelhante aos dos livros que a tinham feito sonhar, e um tsunami muito real colocarão definitivamente em causa a possibilidade de voltar a ocupar o lugar de viúva recatada e submissa a que parecia condenada."

Mais um autor que estou a descobrir e de quem, com certeza, lerei outros títulos. É um livro leve, divertido, mas bem escrito e com grande criatividade na forma como o autor introduz na narrativa os livros que assaltam os sonhos da protagonista. Além disso, coloca-nos questões importantes: quem era eu na infância? De que gostava? Continuo a ser a mesma ou anulei a minha personalidade? Estas e outras questões são feitas pela protagonista a si própria e acredito que poderiam ser respondidas por muito mais mulheres de carne e osso. 

Desta forma, aliam-se nesta ficção personagens com que nos cruzamos no dia a dia,  personagens ficcionais de outros livros e, ainda, personagens improváveis. 

Temos uma filha que, infelizmente, representa muitos filhos, na realidade: pouco importada com o que a mãe sente e quer, convenceu a mãe a ter a sua conta bancária em conjunto com ela e considera, dá-se ao direito de lhe cancelar o acesso à conta, considera que a mãe  deveria ser uma devota viúva, pensar mais nos netos...Mas não teria o direito de ser livre, de viver a vida que lhe fora negada todos os anos em que fora casada e até filha? Já o filho, tem uma outra perspetiva, mas isso deixo para que saibam através da leitura do livro. Isso e muitos outros pormenores!

Aconselho!

Gardeazabal, José (2021). Quarentena: Uma História de Amor. Lisboa: Companhia das Letras.

Nº de páginas: 208

Início da leitura: 12/11/2022

Fim da leitura: 15/11/2022

**SINOPSE**

"Um casal, decidido a separar-se e de malas feitas, é obrigado pelas autoridades de saúde a uma quarentena. O seu apartamento transforma se numa arena de proximidade física e distâncias calculadas, onde os restos da vida amorosa e o trautear televisivo de uma pandemia mudam o mundo por dentro e por fora.

Ali, sob o regime forçado de uma intimidade perdida, percebemos como, entre antigos amantes, vizinhos e desconhecidos, a saudade das multidões e dos sentimentos sempre estiveram à altura de nos resgatar do peso do presente.

Um olhar provocador sobre uma experiência coletiva.
Uma introspeção inesperada, à porta fechada, sobre o que é o amor, onde começa, acaba e recomeça.

Uma história de amor em 40 dias."

Ainda não tinha lido nada do autor português, que desconhecia. Quando vi o livro, chamou-me a atenção, mas o facto de o tema se centrar na pandemia, deixava-me sempre reticente. Quando vi que ganhou, em 2016, o Prémio INCM/Vasco Graça Moura e que, em 2018, foi finalista do Prémio Oceanos, decidi-me à leitura. Entretanto, já comecei a pesquisar outros livros do autor para ler.
Gostei da forma como escreve e, apesar de o tema ser um pouco penoso para quem vivenciou e se ressentiu com esta pandemia por COVID19, a forma como Gardeazabal o aborda, capta-nos a atenção. É uma espécie de história de amor invertida, uma vez que o casal, quando decide separar-se, vê-se obrigado a fazer a quarentena em casa, o que impede a separação imediata. E esta permanência em casa, este confinamento, separados pelo muro de "papel higiénico" que colocaram a dividir a sala, leva o protagonista a várias reflexões, não só em termos pessoais, mas também sociais e políticos. 
Confesso que gostei mais da parte inicial e final, pois considero que, pelo meio, se perde um pouco em divagações. Mas, no seu todo, é uma obra bem escrita, com uma linguagem cuidada. Deixo algumas passagens que assinalei:
"...a morte não tem conteúdo, pensamos nela, na melhor das hipóteses, como uma linha reta no céu, acima do horizonte,"
"A paciência é o tempo com pessoas dentro..."
"O tempo é invisível, é o contrário do espaço. O espaço entra-nos pelos olhos dentro."
"A paz é um eufemismo do fim. Na guerra ansiamos pelo fim, não pela paz."

Antunes, António Lobo (2022). O Tamanho do Mundo. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Nº de páginas: 288

Início da leitura: 09/11/2022

Fim da leitura: 11/11/2022

**SINOPSE**

Por entre os estalos dos móveis da sua casa em Lisboa, um idoso observa o outro lado do Tejo enquanto se perde nas memórias sobre uma cave e um pequeno jardim com um baloiço.

Independentemente de ter acabado por se tornar presidente de uma grande empresa, o sucesso jamais debelou a perda daquele tempo, acorrendo repetidas vezes ao local e imaginando que as pequenas coisas e as personagens (mais significativas, como a filha, ou mais casuais, como uma senhora que passa com um carrinho das compras) se mantêm intactas, tal qual um tempo impoluto.

A escrita de Lobo Antunes deixa-nos sem fôlego. Para acompanharmos a história, temos de nos deixar ir ao sabor da narrativa que, inicialmente, parece tão desfragmentada quanto a forma escrita (com as suas frases inacabadas, mudanças repentinas de narrador, mudanças repentinas das histórias dentro da história...) e temos de o fazer sem perder muito tempo, sem pousarmos o livro por muitas horas seguidas, pois corremos o risco de nos perdermos na narrativa, de sentirmos necessidade de voltar atrás para retomar o "fio à meada". 
É incrível como, aos poucos, todas essas histórias se juntam e fazem tanto sentido! É como se acompanhássemos um caso policial de difícil resolução, que nos desorienta mas, ao mesmo tempo, nos cativa. Assim foi ler este livro. 
Uma forma linguística de nos manter presos está num certo coloquialismo, numa narrativa que nos parece dialogar com os nossos pensamentos, o que Lobo Antunes consegue pelas inúmeras repetições ao longo do livro. Essas repetições avivam-nos a memória em relação a acontecimentos narrados anteriormente, captam-nos a atenção para os pormenores e, ao mesmo tempo, encaixam perfeitamente na personagem do idoso que é invadido por recordações e cuja "memória é um sótão onde tudo acaba por se misturar num nada sem nexo".
E há um vaivém entre memórias de um passado economicamente difícil numa cave, mas em que recorda momentos felizes, como aquele em que, no "jardinzeco", empurrava a filha no baloiço, quando "o relógio do corredor, cheio de ancas, baloiçava horas gordas"; o baloiço abandonado, quando se tornou num homem de sucesso nos negócios e se afastou, tornando-se num homem pretensioso, arrogante, mulherengo... Sempre um vaivém, do baloiço, do amor, da cama que rangia na parede, das histórias, da própria vida.
Agora, resta-lhe uma solidão que se mede "pelos estalos dos móveis", "pelo pânico das ambulâncias na rua", com um relógio "a tricotar minutos graças às agulhas dos ponteiros, tecendo o cachecol do tempo a caminho da noite". 
Aconselho vivamente! Para quem gosta do género, claro!

Rodrigues, José (2020). Dias de Outono. Porto: Porto Editora.

Fotografias: Sara Augusto

Nº de páginas: 304

Início da leitura: 07/11/2022

Fim da leitura: 08/11/2022

**SINOPSE**

“«O sentimento de felicidade pode dar medo. Medo de que, de repente, tudo se desmorone. Que o coração gele, depois de aquecer. Que a pele esfrie, depois de recolher os melhores pedaços do Sol.»

Os dias de Miguel são divididos entre a intensa atividade profissional e o apoio a Teresa, a sua tia, institucionalizada com uma doença irreversível. Na família encontra o conforto dos seus dias agitados, com Catarina e os filhos André e Tiago.
As alterações recentes na administração do banco onde trabalha, a degradação do casamento e os problemas vividos pelo filho adolescente levam Miguel a questionar as opções de vida. Ao mesmo tempo, retoma as memórias mais antigas, incluindo a sua vila no interior e a casa onde nasceu e viveu, criado por Teresa, num ambiente de permanente felicidade.

Quando o mundo de Miguel parece desabar, passado e presente unem-se numa longa jornada de salvação e de mudança de prioridades, onde o amor se transforma no principal caminho para a reconstrução da felicidade, mesmo quando a perda e a saudade pareciam não querer dar tréguas…”

Gostei deste livro. Primeiro, pela forma despojada como está escrito. E malgrado todos os acontecimentos negativos, que poderiam tornar-se facilmente em clichês melodramáticos, são antes tratados com uma subtileza, uma delicadeza e um carinho, que os preenche de emoções e nos enternece ao lê-lo.

Muitas são as temáticas que passam por esta história e sobre as quais é preciso que esta sociedade consumista, sem tempo, freneticamente dedicada ao trabalho, reflita: o abandono dos filhos por parte de pais que se limitam a existir na casa, absorvidos toda uma vida pelos seus trabalhos e interesses; o refúgio de um jovem na droga, no álcool, nas amizades perigosas; a vivência do amor, que também arrefece pelas distâncias sem pontes que se vão interpondo na vida dos casais; a morte de um filho...

Penso que tem todos os ingredientes para ser uma boa história. Está bem escrito e aconselho a leitura.

As fotografias da Sara Augusto estão muito bem integradas ao longo da narrativa e o facto de serem a preto e branco, traz o cinza do outono que se coaduna com o cinza em que as almas por vezes ficam, precisando, qual Fénix Renascida, voltar a empreender o seu voo.

Algumas das fotografias, captaram-me a atenção, trouxeram-me memórias, fizeram-me pensar... quase como se fosse construindo a minha narrativa pessoal dentro da narrativa da obra. 

Cruz, Afonso (2016). Nem Todas as Baleias Voam. Lisboa: Companhia das Letras.


Nº de páginas: 280

Início da leitura: 05/11/2022

Fim da leitura: 06/11/2022

**SINOPSE**

"Será possível vencer a guerra com a música? Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, que tinha como missão cativar a juventude de Leste para a causa americana. 

É neste pano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista de blues, exímio e apaixonado, capaz de visualizar sons e de pintar retratos nas teclas do piano. A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro. Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que encontrará dentro de uma caixa de sapatos um caminho para recuperar a alegria."

Afonso Cruz tem definitivamente o dom da escrita! 

A delicadeza e, ao mesmo tempo, força da linguagem, a criatividade das construções, o coloquialismo que consegue através das repetições de palavras e frases, em jeito de conversa com o leitor, as metáforas criativas, o corpo e a credibilidade que dá às personagens (que facilmente visualizamos na nossa mente), a história que nos prende de imediato até ao fim, onde se conjugam múltiplos ingredientes: a música, que através das teclas do piano, tocado por Erik Gould, consegue adentrar-se e deixar em êxtase quem a escuta, ainda que nasça de muita dor infligida pelo próprio; o amor quase insano que Gould nutre por Natasha, que o deixou, mas que ele acredita que regressará, a quem envia cartas em garrafas atiradas ao mar; o fantástico, através da morte que a criança, Tristan, consegue ver, cuidar, guardar lugar para ela, até se ir desprendendo, gradualmente; o livreiro Isaac Dresner, que publica textos de um desconhecido, porque os acha muito bons, mas nem ele sabe que resultam de pessoas que ele tortura para lhe contarem histórias; Clementine, a prostituta que sabia falar latim, personagem crucial no crescimento e libertação de Tristan, a quem chama "meu príncipe" e a pintora, mulher de Isaac, a Tsília. 
A par, o Relatório Gould, dá-nos a conhecer melhor os factos e as personagens, ao se tecerem comentários sobre os vários acontecimentos e pessoas envolvidas.

Verdadeiramente brilhante e imperdível!

Algumas (poucas) passagens de entre as muitas que selecionei:

"À noite, na cama, os sonhos de Gould eram uma forma de Natasha se deitar dentro da sua cabeça... Acreditava que Natasha pudesse voltar quando ele não estivesse em casa para a receber e beijar dos pés até ao coração." (pág. 20)

"- Porque estás tão sério?

Se as suas emoções pudessem traduzir-se em palavras, seriam assim: Por causa da nota que tocas na cabeça, por causa das paredes que tens nos olhos, por causa das cicatrizes todas na tua pele, das rosas e da tristeza (...) por causa dos sonhos que ainda não cumpri e porque me sinto sozinho como se estivesse pendurado no meio do Universo, preso a uma estrela muito distante (...) Mas Tristan não saberia verbalizar assim as emoções..." (pág. 41)

"Tristan pegou na esponja e no sabão e deu banho à morte(...)lavou os pés à morte e as coxas e as virilhas e as costas e os sovacos e os cabelos grisalhos (...) A morte levantou o rosto velho, olhou Tristan nos olhos e sorriu enquanto ele lhe tirava o champô." (pág. 90)

"...a arte é um desvio da norma. Corrompe. Desfaz. A arte é uma doença da expressividade humana." (pág. 130)

Ferrante, Elena (2014). A Amiga Genial. Lisboa: Relógio D’Água.

Tradução: Margarida Periquito

Nº de páginas: 272

Início da Leitura: 01/11/2022

Fim da leitura: 04/11/2022

**SINOPSE**

A Amiga Genial é a história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente.

Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro.
Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas ações. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja.
Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração.

O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue.

A Amiga Genial tem o andamento de uma grande narrativa popular, densa, veloz e desconcertante, ligeira e profunda, mostrando os conflitos familiares e amorosos numa sucessão de episódios que os leitores desejariam que nunca acabasse.

«Elena Ferrante é uma das grandes escritoras contemporâneas.»

The New York Times

Este livro conta-nos a história de duas meninas, Elena e Lila, na Nápoles dos anos 50 e num bairro pobre, de pessoas da “plebe”, muito marcado pela violência. Destacam-se nos estudos, Elena pela dedicação e estudo e Lila através da sua inteligência natural e curiosidade que faziam dela uma leitora voraz.

Mas num bairro pobre, nem todos conseguem prosseguir os estudos e acabam a trabalhar nos negócios dos pais. É o que acontece com Lila.

A amizade que as vai acompanhar durante a fase da infância até à adolescência é, quanto a mim, pouco saudável, uma vez que Elena, a narradora da história, fala da amiga sempre como sendo melhor que ela em tudo, melhor nos estudos, melhor a escrever, melhor em questões de beleza. Inclusive menciona que muito do que aprendeu foi com Lila. Neste processo de crescimento de Elena, há claramente um rol de preocupações que mais não são que as preocupações de todas as adolescentes: baixinha, com borbulhas, nariz largo… É assim que ela se vê, sempre que olha para o espelho, especialmente depois de se ver obrigada a usar óculos. Assim, penso que grande parte da infância/adolescência de Elena é vivida em função de Lila, do que ela pensa, do que ela diz, do que ela faz, das suas opções, numa dependência total. Mas esta é a perspetiva de Elena. Em determinados momentos, gostaria de saber um pouco mais sobre os pensamentos de Lila. O que realmente sentiu quando se viu impedida de continuar a estudar e a amiga prosseguiu os estudos?

Ficamos a conhecer grande parte dos jovens do bairro e as voltas que as suas vidas amorosas vão sofrendo.

Gostei da forma como Elena Ferrante nos prende à história, como as suas descrições cativam, como as palavras têm a força necessária para nos absorver por completo.

Agora, faltam-me os próximos três livros...

 

Arlidge, M. J. (2019). A Casa de Bonecas. Amadora: Topseller, 3ª edição.

Tradução: Rui Azeredo

Nº de páginas: 320

Início da leitura: 29/10/2022

Fim da leitura: 31/10/2022

**SINOPSE**

O corpo de uma jovem é desenterrado numa praia remota, mas o seu desaparecimento nunca tinha sido denunciado. Alguém a mantivera «viva» ao longo do tempo, enviando à família, regularmente, mensagens em seu nome.

Para a detetive Helen Grace, todas as provas apontam para um assassino em série, um monstro distorcido, mas engenhoso e hábil — um predador que já matou antes.

À medida que Helen se esforça por destrinçar as motivações do assassino, ela compreende que se trata de uma verdadeira corrida contra o tempo. Uma única falha pode significar a perda de mais uma vida.

Neste terceiro livro da saga da detetive Helen Grace, acompanhamos a detetive em mais um caso complicado. O corpo de uma rapariga aparece numa praia de difícil acesso. Entretanto, uma outra rapariga é dada como desaparecida. Helen começa a ligar os fios e acaba por descobrir que se trata de um serial killer.

Descobre ainda que os familiares destas raparigas, normalmente adotadas, continuam a receber mensagens dos seus telemóveis, provavelmente enviadas pelo raptor para despistar suspeitas de rapto por parte das famílias. Mas, quando começam a procurar os indícios, descobre-se que estas duas raparigas não foram as únicas vítimas deste raptor…

Os capítulos são curtos e é um livro que se lê bem e, apesar de não o ter considerado excecional, a função de entretenimento é bem conseguida. Ainda que saibamos que Helen também carrega várias mágoas de um passado atormentado, pouco ficamos a saber mais em relação a esse passado, o que mantém a personagem envolta numa aura de mistério que, julgo, propositado.

Apesar de na capa dizer que é “arrepiante até aos ossos”, não concordo, penso que não se revelou uma história assim tão arrepiante, ainda que seja macabra q.b.

Aconselho a quem aprecie thrillers.

Kang, Han (2018). O Livro Branco. Alfragide: Edições Dom Quixote.

Tradução: Maria do Carmo Figueira

Nº de páginas: 152

Início da leitura: 27/10/2022

Fim da leitura: 28/10/2022

**SINOPSE**

O Livro Branco é uma meditação sobre a cor, que começa com uma simples lista de coisas brancas: a neve, o sal, a espuma das ondas, o papel, o arroz, os cabelos dos velhos, as cobertas em que a mãe da autora embrulhou a primeira filha, que nasceu prematura, muitos anos antes de existir este livro. É também uma reflexão sobre o luto, o renascimento e a tenacidade do espírito humano e uma investigação sobre a beleza, a fragilidade e a estranheza da vida: se, por exemplo, a sua irmã tivesse sobrevivido, teria Han Kang chegado a nascer? Poderíamos nós ler a sua história tão tocante?

O mais autobiográfico e simultaneamente experimental livro de Han Kang até ao momento: uma pequena obra-prima inesquecível, a dor transformada em promessa pela mão de uma grande escritora contemporânea.

Este é um livro difícil de definir, entre a ficção e a não ficção. É narrado na primeira pessoa, quase em jeito de monólogo, em que o “eu” vai desfiando orações, confissões e recordações que, de tão palidamente frias, nos deixam uma sensação de que, como diz a própria narradora, o nosso corpo “é uma casa de areia. Que fora despedaçada e continuava a despedaçar-se. Fugindo-lhe teimosamente por entre os dedos”.

Uma recordação assombra todo o livro, perpassando-o como gelo cortante: a morte da irmã mais velha duas horas depois de ter nascido, em casa, sem ajuda de ninguém. De “um rosto tão branco como um bolo de arroz em forma de meia-lua.”

O branco é tudo o que é puro, e, apesar de fazer a narradora estremecer, ela queria acreditar que poderia ser regenerador e sarar as feridas marcadas pelo tempo na sua alma. Mas nem sempre o branco é puro, pode também impulsionar-nos “da beira de um penhasco invisível em direção aos contornos afiados dos dias”, pode ser o vazio, um livro em branco, a morte, o luto, o pelo branco do velho cão, o acinzentado a macular o branco, o fio de leite materno que já não servirá para ninguém (já que o ténue fio de vida se desprendeu), entre tantos outros brancos, que se enlaçam e nos enlaçam em pensamentos.

Recomendo!

Coelho, João Pinto (2022). Mãe, Doce Mar. Alfragide: Publicações Dom Quixote.


Nº de páginas: 200

Início da leitura: 25/10/2022

Fim da leitura: 26/10/2022

**SINOPSE**

Depois de passar a infância num orfanato, Noah conhece finalmente Patience, a mãe, aos doze anos. Mas, apesar de ela fazer tudo para o compensar, nunca se refere ao motivo do abandono; e, por isso, seja na casa de praia de Cape Cod, onde passam temporadas, seja no teatro do Connecticut onde acabam a trabalhar juntos, há um caminho de brasas que teima em separá-los, mas que nenhum ousa atravessar.
Quando Noah encontra Frank O’Leary - um jesuíta excêntrico que guia um Rolls-Royce às cores -, descobre nele o amparo que procurava. Mesmo assim, há coisas que o padre prefere guardar para si: os anos de estudante; o bar irlandês de Boston onde ele e os amigos se encharcavam de cerveja e recitavam poemas; e ainda Catherine, a jovem ambiciosa que não temeu desviá-lo da sua vocação.

É, curiosamente, a terrível experiência de solidão num colégio religioso o primeiro segredo que Patience partilhará com Noah; contudo, quando essa confissão se encaixar no relato do padre Frank, ficará no ar o cheiro da tragédia e a revelação que se lhe segue só pode ser mentira.

Mal saiu este livro, fiquei imediatamente “em pulgas” para o ler, acreditando que este autor não defraudaria as minhas expetativas, criadas e confirmadas pela leitura de todos os seus livros anteriores.

Bastou ler o incipit “Tinha doze anos quando conheci a minha mãe – esta frase dá para tudo, até para abrir um romance”, para ficar ainda mais expectante.

Apesar de ser um romance diferente dos anteriores, mexe igualmente connosco: é duro, é muito verosímil (conhecemos situações idênticas) e muito bem escrito. O facto de o narrador ser o jovem Noah, abandonado à nascença pela mãe, criado num orfanato, rejeitado por várias famílias, devolvido ao orfanato, deixa-nos rendidos e empatizamos imediatamente com ele.

Quando, passados doze anos, a mãe o quer de volta a casa, começa para Noah uma vida nova, não necessariamente perfeita, mas com uma mãe…Mas Patience não é uma mãe carinhosa, muito menos presente e Noah acaba por se refugiar nos seus passeios de bicicleta, junto ao mar e dos três faróis de Three Sisters. É aí que conhece O’Leary, um padre muito pouco convencional, com o qual vai criando uma amizade.

Com a mãe o relacionamento é mais difícil, há muitas nuvens a toldar-lhe os olhos e a assombrar a sua existência. E, no fundo, Noah sabia que “mãe é um verbo, de todos o mais regular; não ia chamá-lo a Patience”. Do que ela gostava mesmo, era de dançar e de coreografar no teatro, o que a levava a passar dias a fio fora. Quando Noah lhe propõe trabalhar também no teatro, Patience acaba por aceitar e penso que, nesse momento, começa uma aproximação entre eles, ainda que tecida com linhas muito frágeis.

A partir daqui não conto mais, apenas digo que a história nos surpreende até ao final e que, só mesmo no fim, se ligam todas as pontas que foram sendo deixado soltas, para culminar num desenlace incrível.

Aconselho muito e deixo-vos com algumas passagens de que gostei particularmente, de entre muitas outras:

“Lembro-me da maçã (…) roxa, maior do que uma meloa. Peguei-lhe, saí de casa e fui a estalar dentadas até chegar à floresta.”

“…noite sinistra em que o céu caiu ao mar. Assim que isso aconteceu, a praia desapareceu engolida pelas águas, desgrenhou-se a tempestade em disparos de luz azul capazes de rachar tudo, cabelos incandescentes desse louco furioso, Deus de cabeça perdida”.

“O que deslumbra no mar é tudo o que o mar não mostra, esse além para onde se somem os navios…”

“As mães ligam-nos ao mundo, cada vez mais me convenço; perdes a tua, deixas de fazer parte, fica tudo mais hostil.”

Outras haveria, mas, como desvendam demasiado da história, aguardo que as encontrem nas páginas deste belíssimo livro.

Carmo, Isabel do (2014). Histórias Que as Mulheres Contam. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Nº de páginas: 136

Início da leitura: 22/10/2022

Fim da leitura: 22/10/2022

**SINOPSE**

«As histórias que aqui se contam são reais. Nada do que aqui é posto na boca destas mulheres é inventado, nem mesmo as expressões ou os comentários.
[…] Por outro lado, todas as histórias estão relacionadas com a condição feminina, conduzindo muitas vezes a situações dramáticas na vida das mulheres, que são nossas contemporâneas.»

Um livro pequenino, que li em duas horas e que conta a história de muitas mulheres remetidas à discriminação pela sua condição feminina, a vivências que se tornaram, na maior parte das vezes, bastante dramáticas. Antes de cada história, surge uma fotografia alusiva ao tempo, não correspondendo, porém, a nenhuma das mulheres retratadas nas histórias. A narração é dura, direta, sem contemplações. Gostaria, apenas, de as ver mais desenvolvidas.

Desde a mulher cuidadora do marido com Alzheimer; a mulher que tinha muitos filhos, mas que poucos resistiam e que era vítima de violência doméstica; a filha que era destinada a cuidar dos pais quando envelhecessem; a rapariga que só saía de casa com o irmão e que, quando injustamente acusada de desonra, se suicida; o suicídio das mulheres já retratado por muitos escritores; as conquistas de direitos que as mulheres foram alcançando ao longo dos anos; o casamento das professoras; as traições dos maridos; a mulher que nunca aceitou a maternidade; a vítima de abusos por parte de um familiar; a menina que viveu sempre sob o estigma de ser considerada feia, porque fora dos padrões de beleza da época; a mulher que era impedida de sentir prazer; mulheres que ficaram na história, desde as bósnias às rainhas, entre muitas outras. Histórias no singular que retratam as vivências, angústias, sentimentos, medos e perdas de muitas outras mulheres.

Recomendo!

Ruiz Zafón, Carlos (2016). O Labirinto dos Espíritos. Lisboa: Editorial Planeta.

Tradução: Mário Dias Correia

Nº de páginas: 848

Início da leitura: 19/10/2022

Fim da leitura: 22/10/2022

**SINOPSE**

Na Barcelona de fins dos anos de 1950, Daniel Sempere já não é aquele menino que descobriu um livro que havia de lhe mudar a vida entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos. O mistério da morte da mãe, Isabella, abriu-lhe um abismo na alma, do qual a mulher Bea e o fiel amigo Fermín tentam salvá-lo.

Quando Daniel acredita que está a um passo de resolver o enigma, uma conjura muito mais profunda e obscura do que jamais poderia imaginar planta a sua rede das entranhas do Regime. É quando aparece Alicia Gris, uma alma nascida das sombras da guerra, para os conduzir ao coração das trevas e revelar a história secreta da família… embora a um preço terrível.

O Labirinto dos Espíritos é uma história eletrizante de paixões, intrigas e aventuras. Através das suas páginas chegaremos ao grande final da saga iniciada com A Sombra do Vento, que alcança aqui toda a sua intensidade, desenhando uma grande homenagem ao mundo dos livros, à arte de narrar histórias e ao vínculo mágico entre a literatura e a vida.

Os livros de Zafón são de perder o fôlego, intensos, mágicos, muito bem urdidos, acompanhados de um sentido de humor muito refinado e extremamente bem escritos.

Ler este livro não foi fácil, não pela história em si (que põe um ponto final à tetralogia intitulada “O Cemitério dos Livros Esquecidos”), mas pela noção de que finalizei o último livro que me faltava ler do escritor e que não haverá mais. Resta-me, quando sentir saudades desta magnificente escrita, reler, reler e reler toda a sua obra.

Para além da narrativa imparável, da criatividade do autor mais uma vez demonstrada, de uma necessidade de ler sempre “só mais umas páginas”, este livro vem encerrar de forma magistral a tetralogia já mencionada, de forma muito engenhosa. As personagens são de uma riqueza ímpar. Gosto de todas, muito bem construídas, muito completas, muito cheias de vida, mas destaco o Fermín, pelo sentido de humor, pela forma como encarava a vida. Mas são todas verdadeiramente deliciosas.

Destaco algumas passagens que fui registando, de entre muitas outras que permanecerão, com certeza, na minha memória.

Uma delas, é sobre o próprio Cemitério dos Livros esquecidos:

“- Este lugar é um mistério, Julián, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem uma alma. A alma de quem o escreveu, e as almas daqueles que o leram e viveram e sonharam com ele.”

Uma das muitas passagens, onde o sentido de humor me fez sorrir:

“…perguntou-me se fora para Paris para estudar, em busca de glória e fortuna ou para aperfeiçoar o meu francês, que mais do que aperfeiçoamento precisava de uma cirurgia de coração aberto e um transplante de cérebro.”

E, por fim, uma das mais deliciosa de todas:

“Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada. Escrever é reescrever (…) Escrevemos para nós e reescrevemos para os outros.”

Sigurðardóttir, Yrsa (2022). Campo de Lava. Lisboa: Quetzal Editores.

Tradução: Maria José Figueiredo

Nº de páginas: 416

Início da leitura: 15/10/2022

Fim da leitura: 16/10/2022

**SINOPSE**

“Esta é, provavelmente, a mais cativante e surpreendente história interpretada pela dupla islandesa formada pelo detetive Huldar e a psicóloga infantil Freyja.

Um jovem e abastado investidor é encontrado enforcado num antigo lugar de execuções, o campo de lava de Gálgahraun. Quando o seu corpo é trazido para o chão, constata-se que não se trata de um suicídio: tem um prego enterrado no peito e tudo o que resta da mensagem que segurava é uma farripa de papel. Quando Huldar entra no apartamento do morto, encontra Freyja, chamada a tomar conta de um rapazinho de cinco anos encontrado no interior da casa que não sabe explicar por que está ali.

Enquanto decorre a investigação e a busca pelos pais da criança, um grupo de amigos recebe um vídeo que, num primeiro momento, parece uma brincadeira de mau gosto, mas que os vai inquietando progressivamente. Um romance policial que conduz o leitor com mestria através de uma intriga empolgante e cheia de surpresas, até ao fim - nunca nada é o que parece.”

Um thriller bem conseguido, bem escrito e envolvente. Começa com a descoberta de um corpo de um jovem, enforcado, num campo de lava em Gálghraun. Depois, o facto de ser encontrada uma criança de 5 anos sozinha no apartamento da vítima, leva a uma investigação que procura chegar aos pais da criança. Facilmente nos deixamos conduzir nesta investigação, como se dela fizéssemos parte. É uma narrativa que envolve, surpreende e absorve. Um bom policial, sem dúvida. Recomendo para quem aprecia o género.

Bowen, Kelly (2022). O Apartamento de Paris. Lisboa: Bertrand Editora.

Tradução: Ana Mendes Lopes

Nº de páginas: 368

Início da leitura: 10/10/2022

Fim da leitura: 14/10/2022

**SINOPSE**

“Uma história belíssima sobre a paixão, a intriga e a coragem durante a hora mais negra do mundo e a batalha de uma mulher para desvendar a verdade mais de meio século depois.

Paris, 1940: As tropas nazis podem ter ocupado Paris, a cidade do amor, mas a glamorosa Estelle Allard brilha num mundo alheio às agruras da guerra. Porém, quando assiste impotente ao desaparecimento dos seus amigos e conhecidos, promete a si própria tudo fazer para ajudar à derrota dos alemães. Custe o que custar. Ao mesmo tempo que combate o inimigo que pretende destruir tudo o que lhe é mais precioso, Estelle não pode adivinhar que as suas ações se estenderão até às gerações seguintes...

Paris, 2017: Quando Aurelia Leclaire obtém por herança um faustoso apartamento em Paris - que se revela uma cápsula no tempo intacta desde a Segunda Guerra Mundial -, fica chocada ao descobrir aquilo que parece ser um passado de segredos da sua avó, incluindo uma surpreendente coleção de obras de arte e vestidos de alta-costura. Uma pintura obscura, em particular, levá-la-á até Gabriel Seymour, um avaliador e restaurador de obras de arte que tem ele próprio o seu passado misterioso.... Juntos, tentarão descobrir a verdade que se esconde no interior das paredes do apartamento de Paris.

A 75 anos de distância, sob a luz de uma Paris ameaçada e de uma Paris resplandecente, tanto Estelle quanto Lia terão de convocar toda a coragem para enfrentar os perigos de um mundo ameaçado, e em mudança, influenciando diretamente o curso da história - e o futuro da sua família - para sempre.”

Este é um livro que se lê muito bem, com um ritmo fluído, linguagem simples, com uma alternância de tempos que nos prende, e uma história envolvente, que nos absorve do início ao fim. Apesar de não ter de histórico muito mais que a contextualização, na Segunda Guerra, em Paris, levanta uma questão pertinente: o que terá acontecido às muitas obras de arte durante a guerra?

O facto de serem mencionadas muitas personagens, quebra ligeiramente o ritmo, nada que não nos permita acompanhar todos os acontecimentos e entendê-los.

Não me refiro à história, pois essa está na sinopse.

Vale a pena ler, para quem gosta do género e da temática.

Ernaux, Annie (2022). O Acontecimento. Porto: Livros do Brasil.

Tradução: Maria Etelvina Santos

Nº de páginas: 96

Início da leitura: 14/10/2022

Fim da leitura: 14/10/2022

**SINOPSE**

“Uma jovem de 23 anos, estudante universitária brilhante, descobre que está grávida. Tomada pela vergonha, consciente de que aquela gravidez representará um falhanço social para si e para a sua família, sabe que não poderá ter aquela criança. Mas, na França de 1963, o aborto é ilegal e não existe ninguém a quem possa acorrer.

Quarenta anos mais tarde, as memórias daquele acontecimento continuam presentes, num trauma impossível de ultrapassar e cujas sombras se estendem para além da história individual.

Escrito com uma clareza acutilante, sem artifícios, este é um romance poderoso sobre sofrimento, justiça e a condição feminina. Escrito por Annie Ernaux em 1999, foi adaptado ao cinema em 2021 por Audrey Diwan, num filme vencedor do Leão de Ouro em Veneza.”

Quantas jovens não terão passado pelo mesmo?

Este livro dá-nos conta dos medos e angústias de uma jovem de 23 anos que nos conta, na primeira pessoa, “o acontecimento” por que passou, constituindo esta narrativa uma forma de expurgação do sentimento de culpabilidade que terá advindo de uma decisão tomada.

É necessário filtrar o acontecimento à luz do momento em que se passou e onde se passou – 1963, em França. A narradora era uma jovem estudante universitária, com um futuro promissor. Quando confrontada com a gravidez, sendo que o pai não quis assumir responsabilidades, uma sociedade que condenava as jovens grávidas, os pais que não esperavam isso da parte dela, vê-se a braços com uma decisão que tem de tomar sozinha – fazer um aborto. Mas, sendo o aborto proibido, havia que pensar numa forma de o fazer: uma agulha de tricô, uma “fazedora de anjos” … certo é que o desespero da jovem é quase palpável nesta narrativa tão dura e crua. Impossível julgá-la se nos pusermos no lugar dela, se tentarmos perceber a dor que a perpassou e que a levou a dizer, por exemplo “Nesse momento, matei em mim a minha mãe” ou “Sem o saber, aquela mulher certamente gananciosa (…) libertou-me da minha mãe e lançou-me no mundo”.

Aconselho vivamente este livro, como já havia aconselhado Os Anos da mesma autora.

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Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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