Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

Lundberg, Sofia (2019). A Agenda Vermelha. Porto: Porto Editora.

Tradução: Elsa T.S. Vieira

Nº de páginas: 320

Início da leitura: 24/02/2023

Fim da leitura: 26/02/2023

**SINOPSE**

"Doris pode ter noventa e seis anos e morar sozinha em Estocolmo, mas tal não significa que não continue ligada ao mundo. Todas as semanas, aguarda ansiosamente o telefonema por Skype com Jenny, a sobrinha-neta americana que é, simultaneamente, a sua única parente. As conversas com a jovem mãe levam-na de volta à sua própria juventude e tornam mais suportável a iminência da morte, que Doris sente a rondá-la. De uma forma muitíssimo lúcida, escolhe, de entre as inúmeras memórias que uma vida longa carrega, as que estão relacionadas com aqueles que conheceu e amou e cujo nome inscreveu numa pequena agenda vermelha.

As histórias desse passado colorido - o amor platónico pelo pintor modernista Gösta Adrian-Nilsson; o trabalho como manequim de alta-costura em Paris, na década de 1930; a fuga clandestina num barco que é bombardeado pelos soldados alemães do III Reich, no auge da Segunda Guerra Mundial - recriam uma existência plena que, embora se aproxime do derradeiro final, não está isenta de surpresas: um lembrete agridoce de que, na vida, os finais felizes não são apenas ficção."
Este é daqueles livros quentinhos, que nos reconfortam. Doris é uma personagem que irradia doçura, força de vontade, amor. Tem 96 anos, uma mente lúcida, é inteligente, resiliente, persistente e deixa a sua história de vida contada na sua "Agenda Vermelha", que lhe foi oferecida pelo pai, na infância. E, apesar de ir registando também na sua agenda as perdas (que, nesta idade, foram já muitas), as dificuldades por que passou, nunca se deixou vergar pelos infortúnios da vida, sendo que esta agenda é também uma história de conquistas, de sobrevivência e, sobretudo, de amor, um amor que "move montanhas" e pelo qual estaria disposta até a uma fuga clandestina num barco, em plena II Guerra Mundial. É uma história de amor e de esperança. Aconselho vivamente a leitura! 

Hunter, Cara (2021). Pura Raiva. Porto: Porto Editora.

Tradução: Cláudia Ramos

Nº de páginas: 404

Início da leitura: 21/02/2023

Fim da leitura: 23/02/2023

**SINOPSE**

UMA RAPARIGA É RAPTADA NAS RUAS DE OXFORD. MAS ESTE É UM RAPTO DIFERENTE, PARA O INSPETOR FAWLEY.
Uma adolescente é encontrada a vaguear pelos arredores de Oxford, desorientada e angustiada. A história que Faith Appleford conta é assustadora: amarraram-lhe um saco de plástico na cabeça e levaram-na para um local isolado. Por milagre, sobreviveu. Mesmo assim, recusa-se a apresentar queixa.
O Inspetor Fawley investiga, mas há pouco que ele possa fazer sem a cooperação de Faith, que parece esconder alguma coisa. Mas o quê? E porque será que Fawley continua com a sensação de que já viu um caso como este?
Quando outra rapariga desaparece, Adam Fawley não tem escolha e tem mesmo de enfrentar o seu passado.
Gostei muito deste policial. Este é o segundo livro que leio da autora e, se bem que tenha o primeiro, ainda não o li e não tenho muito o hábito de ler por ordem. Li No Escuro e, agora, este. Porém, entendi e acompanhei perfeitamente. Claro, com mais vontade fiquei de ler os restantes!
Envolve-nos, desde o início, com a história de uma jovem, Faith, que é raptada e violentada e que se recusa a apresentar queixa para que o seu segredo não seja revelado. A polícia acredita que se tratou de uma questão de ódio, de raiva, provocado pela sua beleza e inteligência.
Porém, passado pouco tempo, outra jovem, que estuda na mesma escola, desaparece. Começa a ser lançada a suspeita de que o "violador da beira da estrada" terá regressado...Porém, a autora tem este dom de mudar o rumo à história... E mais não posso dizer. Apenas refiro que é um livro que, além de servir ao entretenimento, aborda questões sociais muito atuais e preocupantes. Depois, a história é narrada, muito ao jeito da autora, com uma detalhada investigação, que nos faz acompanhar os inspetores nas suas investigações (também em jornais, redes sociais, que são hoje uma excelente ferramenta de trabalho, uma vez que revelam, quase sempre, demasiado...), nos interrogatórios...
Um livro que aconselho.

Peixoto, José Luís (2000). Morreste-me. Lisboa: Temas e Debates.

Nº de páginas: 40

Data da releitura: 20/02/2023

**SINOPSE**

"Morreste-me, texto que deu a conhecer o jovem escritor José Luís Peixoto, é uma obra intensa, avassaladora e comovente: é o relato da morte do pai, o relato do luto, e ao mesmo tempo uma homenagem, uma memória redentora.
Um livro de culto há muito tempo indisponível no mercado português." [Porto Editora]
Este pequeno grande livro foi-me oferecido por uma amiga num momento em que passei pelo mesmo.
Regresso a ele várias vezes, porque tudo o que Peixoto descreve com uma grande qualidade literária, é a expressão do que senti e sinto quando perdi os meus pais (o meu pai, com 49 anos e a minha mãe, com 55). Ler este livro é voltar ao passado, é entrar nas salas de tratamentos, é ver o vazio num olhar que não sabemos ao certo se ainda nos vê e conhece, é estar à cabeceira da cama até ao último suspiro (depois da respiração ofegante que ainda quer prender à vida) é passar por tudo outra vez e é ouvir um testemunho que fica para sempre a ecoar nos nossos corações, é, como diz o autor, o desespero, o vazio total.
Voltar a este livro é olhar-me por dentro, porque José Luís Peixoto consegue dizer tudo o que sentimos e que sempre pensei que seria inenarrável. 
Ao ler algumas opiniões depreciativas, penso que falta a esse leitor passar por tudo isto. não que o deseje, não o desejo a ninguém. Mas falta-lhe sentir esta obra em toda a sua plenitude, senti-la nas entranhas, senti-la em tudo aquilo em que a vida nos tornou, em tudo o que passamos para sermos o que somos (ou não) hoje. E o autor fá-lo, de forma tão intensa, tão poética, tão gritante e desesperadamente boa... Através deste livro, sinto que há um grito interior que se liberta nestas linhas, um grito que vou sufocando cá dentro.
Volto a este livro sempre que me sinto perdida, sempre que preciso olhar para dentro de mim. Só assim me reencontro. Obrigada José Luís Peixoto!

Frankl, Viktor E. (2012). O Homem em Busca de um Sentido. Alfragide: Lua de Papel.

Tradução: Francisco J. Gonçalves

Nº de páginas: 160

Início da leitura: 18/02/2023

Fim da leitura: 19/02/2023

**SINOPSE**

"Nos seus momentos de maior sofrimento, no campo de concentração, o jovem psicoterapeuta Viktor E. Frankl entregava-se à memória da sua mulher - que estava grávida e, tal como ele, condenada a Auschwitz. Conversava com ela, evocava a sua imagem, e assim se mantinha vivo. Quando finalmente foi libertado, no fim da guerra, a mulher estava morta, tal como os pais e o irmão. No entanto, ele alimentara-se de outro sonho enquanto estava preso, e, este sim, viria a realizar-se: projetava-se no futuro, via-se a falar perante um público imaginário, e a explicar o seu método para enfrentar o maior dos horrores. E sobreviver. Viktor E. Frankl sobreviveu. E até morrer, aos 92 anos, divulgou por todo o mundo o método desenvolvido no campo de concentração - a Logoterapia.

O psicoterapeuta descobriu que os sobreviventes eram aqueles que criavam para si próprios um objetivo, que encontravam um sentido futuro para a existência - fosse ele, por exemplo, cuidar de um filho ou escrever um livro. Em O Homem em Busca de um Sentido, escrito em 1946, o autor narra na primeira parte a sua dramática luta pela sobrevivência. E na segunda, em breves páginas, sintetiza os mais de 20 volumes ao longo dos quais desenvolveu o seu método - aplicável a qualquer pessoa, em qualquer circunstância da vida."

Este é um livro que nos apresenta factos pouco abordados pelos sobreviventes do Holocausto. Não é um livro de ficção, mas o testemunho de um psicoterapeuta. Conta-nos os vários estádios por que passaram os prisioneiros, tentando responder à questão: "como se refletia no espírito de um prisioneiro comum a vida diária num campo de concentração?" Conta-nos que as atrocidades por que passaram, chegava a impedi-los de terem sentimentos e conferia-lhes apatia, morte emocional, uma frieza total face à morte, face à dor, face à própria vida. Refugiam-se no sonho de voltar para casa e dependem dessa esperança. A partir do momento em que desistem de viver, são os primeiros a morrer, porque, para se viver, é preciso encontrar um sentido por que viver. Mas será que quem conseguiu, de facto, voltar para casa rejubilou de alegria? Que sentimento dominou os prisioneiros libertados dos Campos de Concentração? Estas são algumas questões sobre as quais o psicoterapeuta se debruça. Gostei, mas tive pena de o autor não ter aprofundado um pouco mais essas reflexões.

 Sepúlveda, Luis (2019). História de uma Baleia Branca. Porto: Porto Editora.

Nº de páginas: 136

Início da leitura: 18/02/2023

Fim da leitura: 18/02/2023

**SINOPSE**

"De uma concha apanhada por uma criança numa praia chilena, ao Sul do Mundo, uma voz se eleva, cheia de lembranças e sabedoria. É a voz da baleia branca, o mítico animal que durante décadas tem guardado as águas que separam a costa de uma ilha sagrada para os povos nativos daquele lugar, o Povo do Mar. O cachalote da cor da lua, a maior das criaturas do oceano, conheceu a imensa solidão e a imensa profundidade do abismo e dedicou a sua vida a cumprir fielmente a tarefa misteriosa que lhe foi confiada por um cachalote-ancião, resultado de um pacto há muito tempo estabelecido entre baleias e marinheiros. Para cumpri-lo, a grande baleia branca teve de proteger aquele mar de outros homens, estranhos, que com os seus navios ali chegavam para tirar tudo sem respeitar nada.

Foram sempre eles, os baleeiros, a contar a história da temida baleia branca, mas agora é chegado o momento de ouvirmos a sua voz na velha língua do mar." [Porto Editora]
Como é bom ler Sepúlveda! E esta pequena fábula é simplesmente maravilhosa! Conta-nos da ligação que, há muitos anos atrás, existia entre a baleia e o homem e de como o homem conseguiu, com a sua ambição desmedida, destruir essa ligação. É interessante percebermos esta relação, tentarmos perceber, na perspetiva da baleia enquanto narrador, o que poderia levar uma baleia a afundar o navio Essex. A crueldade e ambição do homem fazem com que nada o detenha, nem que para isso tenha de sacrificar algo ou alguém. Como nos diz esta baleia, a primeira vez em que viu os homens a lutarem: "Parece que os homens são a única espécie que ataca os seus semelhantes...".
Que cada humano colha desta fábula o exemplo da baleia cor de lua: a amizade, o espírito de sacrifício, a resiliência...Recomendo muito a sua leitura!

Whitaker, Chris (2022). O Fim É o Princípio. Lisboa: Bertrand Editora.

Tradução: Vasco Teles de Menezes

Nº de páginas: 400

Início da leitura: 15/02/2023

Fim da leitura: 17/02/2023

**SINOPSE**

"Aclamado como um dos melhores livros de 2021 pela crítica e pelos leitores do Reino Unido, vencedor dos mais prestigiantes prémios literários do género e fenomenal êxito de vendas nos Estados Unidos e um pouco por toda a Europa, este romance brilhante, cuja ação se desenrola entre uma pequena cidade na costa da Califórnia e a vastidão do Montana, surpreende pela forma como, a partir de um crime, cresce para lá da demarcação de um género literário e transforma-se num épico americano sem limites, belíssimo e com uma galeria de personagens, cenários e situações inesquecíveis.

A narrativa gira em torno de Duchess, uma jovem de treze anos que se autointitula «fora da lei», e Walk, chefe de esquadra da polícia de Cape Haven, um homem com o olhar fixo no passado e que nunca saiu da pequena cidade onde cresceu. Duchess diz que as regras são para os outros, e razão não lhe falta. Desde cedo se fez protetora feroz do irmão mais novo, Robin, e figura adulta na vida de Star, mãe solteira incapaz de cuidar de si própria ou de velar pelos interesses dos dois filhos. Também Walk faz tudo para proteger Duchess e Robin, mas por motivos distintos.

A ele move-o a necessidade de sarar uma ferida antiga, para sempre por fechar, a de ter sido o seu testemunho a enviar Vincent para a cadeia, o seu melhor amigo, condenado pelo homicídio da irmã de Star. Culpado ou inocente, volvidos trinta anos Vincent está prestes a sair em liberdade. Cape Haven fica em suspenso, e cabe a Duchess e a Walk enfrentar o problema que o regresso de Vincent impõe.

Assassínio, vingança, justiça. Por vezes inquietante, outras animado por um otimismo vital, O Fim É o Princípio submerge-nos na luta comovente que o ser humano tem de travar para discernir o bem do mal, uma interrogação cuja resposta, por vezes, só conhecemos no fim do caminho."
Neste livro tão intenso acompanhamos um ano da vida de uma adolescente, Duchess Day Radley, de apenas treze anos (se bem que às vezes pareça mais velha) que se autointitula «fora da lei», e de Walk, o chefe da esquadra de polícia, numa pequena cidade da Califórnia. Duchess é uma jovem destemida e protetora, preocupada sobretudo com a segurança do irmão, Robin, acabando por agir de forma corajosa mas também um pouco irrefletida, provocando graves consequências em muitas das pessoas que a rodeiam. Também Walk tudo faz para proteger Duchess e Robin, havendo razões que se prendem com um crime, sobre o qual testemunhara no passado, a motivar essa preocupação. 
O que todos querem é, afinal, "um fim correto e justo", mas, como diz o próprio Walk "A esperança é secular. E a vida é frágil. E às vezes agarramo-nos a ela com demasiada força, embora saibamos que ela vai quebrar."
Confesso que, no início, me custou entrar dentro da narrativa. Mas este é daqueles livros que nos vai prendendo à medida que o vamos lendo, até estarmos irremediavelmente dentro da história, a sofrer com as personagens, a acompanhá-las em todos os momentos. Depois, há uma solidão que perpassa toda a obra e que nos comove (por exemplo, quando Duchess pensa em ligar para alguém, mas, depois de cair em si, apercebe-se que não tem a quem telefonar, a quem pedir ajuda). 
É um livro muito bom e cuja leitura recomendo muito.

Haddon, Mark (2003). O Estranho Caso do Cão Morto. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Sílvia Serrano Santos

Nº de páginas: 233

Início da leitura: 12/02/2023

Fim da leitura: 13/02/2023

**SINOPSE**

"Referido pelo The Times como «um dos melhores livros de 2003» O Estranho Caso do Cão Morto é muito divertido. Conta a história de Christopher Boone, um miúdo autista, com apenas 15 anos que vive enredado no seu próprio mundo, longe de tudo e de todos. Possui uma memória fotográfica e é um aluno excelente a matemática e a ciências mas detesta o amarelo e o castanho e não suporta que alguém lhe toque. Absorvido pela sua doença, Christopher desperta um dia quando encontra o cão da sua vizinha morto, no meio do jardim, com uma forquilha atravessada. A partir daqui nunca mais será o mesmo pois só descansará quando descobrir quem cometeu tão atroz crime."

Este livro é uma verdadeira delícia. Christopher Boone é um jovem de 15 anos, autista e um verdadeiro ás da matemática. A história é narrada por ele. Christopher encontra o cão da vizinha morto e decide empreender uma investigação até encontrar o assassino. Mas essa investigação trará consigo outras revelações e obrigá-lo-á a enfrentar medos, mas também lhe permitirá algumas conquistas. Uma história doce, muito diferente do habitual e com uma numeração dos capítulos muito original. Recomendo vivamente!

Letria, José Jorge (2002). Mouschi, o Gato de Anne Frank. Lisboa: Edições ASA.

Nº de páginas: 38

Início e fim da leitura: 11/02/2023

**SINOPSE**

Mouschi existiu realmente e foi levado para o anexo por Peter van Pels, um jovem companheiro de cativeiro de Anne Frank. O dia-a-dia no anexo, a rotina de um grupo de pessoas refugiadas do terror nazi e a esperança numa libertação que acabou por não chegar, são assim contados neste livro por um animal de estimação que se transformou em testemunha singular de uma tragédia humana.

É curioso como um livro infantil nos pode dar tanto! Um pequeno livro com uma grande mensagem. Este é um livro ficcional, que parte da história real contada no Diário de Anne Frank. É sobejamente conhecida a paixão do autor por animais e é extremamente interessante a perspetiva deste acontecimento real, contado ficcionalmente pelo gato de Anne Frank, deixando também o gato a sua visão deste acontecimento tão triste da história mundial. Ao mesmo tempo, é de uma ternura e de uma sensibilidade incríveis, o que permite explicar aos mais jovens acontecimentos passados na II Guerra, de uma forma que eles entendem e que convém mesmo que não esqueçam.
Não vou recontar a história, mas deixo-vos esta passagem: "Se eu soubesse chorar, mesmo transformado em personagem deste livrinho de memórias, teria sempre duas lágrimas guardadas, uma para Anne e outra para o meu amor por ela. Quem matou esta menina merece ser castigado eternamente por todas as estrelas que há no céu."
Um livro que nos enternece, nos entristece e nos comove. Recomendo muito a sua leitura!

Lopes, Joana M. (2019). Cabeça de Andorinha. Lisboa: Livros Horizonte.

Nº de páginas: 28

Início e fim da leitura: 11/02/2023

**SINOPSE**

O nosso planeta é um lugar cheio de cabeças: umas andam sempre nas nuvens, outras baralham as ideias todas.

No meio de tantas cabeças, há algumas muito especiais - são cabeças de andorinha e é delas que nascem as ideias que fazem do mundo um lugar mais bonito.

Um livro cheio de cor e sensibilidade, pensado para ajudar as crianças a descobrir a importância dos afetos e da imaginação.
Gosto muito de ler livros infantis. E temos escritoras muito boas, realmente boas. Fiquei surpreendidíssima com a mensagem que a autora passa através deste pequeno livrinho. 
Logo desde o início, percebemos que todos chamam à nossa pequena protagonista e narradora "cabeça de andorinha", o que é algo que não lhe desagrada. Porém, discorda da avó, quando esta lhe diz que "cabeça de andorinha" é o mesmo que "cabeça de vento" e distraída, porque não considera ter "cabeça de vento", nem se considera distraída.. Esta é a cabeça de quem já está esquecido das coisas. Ela não, ela tem uma boa memória e os seus pensamentos estão ligados à sua cabeça como os papagaios, por um cordel. E esses pensamentos estão apenas concentrados em coisas mais importantes do que as que são visíveis aos olhos. Afinal, parece que o mundo seria bem melhor se mais pessoas tivessem "cabeça de andorinha"! Recomendo a leitura deste livro e não só por crianças. Há por aí muita gente aborrecida que precisava de ver o mundo com os olhos do coração.

Shattuck, Jessica (2017). As Mulheres no Castelo. Lisboa: Planeta Manuscrito.

Número de páginas: 360

Início da leitura: 05/02/2023

Fim da leitura: 10/02/2023

**SINOPSE **

"Baseado numa história verídica.
Na guerra fizeram escolhas impossíveis, agora têm de viver com elas.

Três mulheres, assombradas pelo passado. Marianne von Lingenfels volta ao castelo abandonado, dos antepassados do marido.
Para cumprir a promessa que fez aos corajosos companheiros do marido: encontrar e proteger as suas mulheres no meio das cinzas da derrota da Alemanha nazi.

Um livro com uma pesquisa histórica rigorosa e que oferece um novo olhar e novas realidades da Segunda Guerra Mundial, um dos períodos mais lidos da nossa história."

Escolhi ler este livro, porque me pareceu mais tranquilo e, depois da leitura anterior, "Fome", precisava de algo mais leve. Confesso que não tive uma relação muito fácil com o livro, porque me senti, em vários momentos, pela quantidade de personagens em torno das protagonistas, um pouco perdida, tendo, por várias vezes, de recuar para apanhar o fio à meada. Pensei que estas mulheres, no castelo, pudessem, de alguma forma, ter um papel mais representativo na II Guerra e no pós guerra. Esperava mais delas, pelas próprias qualidades que lhes vão sendo atribuídas. Depois, alguns erros de português impediram-me de a usufruir em plenitude. Digamos que fui arrastando a leitura, tendo sido um dos livros que, ultimamente, mais tempo me demorou a ler.
A premissa é muito boa, mas o resultado final não foi exatamente o que eu esperava. Carece de personagens mais intensas, que nos fosse permitido conhecer melhor através de uma visão omnisciente do narrador. A forma vaga como são retratadas, esvazia-as um pouco da personalidade que eu tinha idealizado na minha mente.

Hamsun, Knut. Fome. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2008.

Tradução: Liliete Martins

Nº de páginas: 190 

Início da leitura: 01-02- 2023

Fim da leitura: 04-02- 2023

**SINOPSE**

Os delírios solitários e as tortuosas reflexões de um jovem escritor, errando através das ruas da cidade de Kristiania, a atual Oslo, acompanhado pela sua inexorável antagonista, a fome. Um romance marcante, considerado o início da grande literatura do século xx, que antecipou e influenciou a obra de nomes como Franz Kafka, Albert Camus ou John Fante.


Há livros em que entramos imediatamente na história. Neste caso, é o livro que entra em nós, de forma visceral, nos suga as forças, nos perturba, nos faz perceber que o que nos parece um grande problema, é, afinal de contas, tão pequeno comparativamente ao que nos é narrado nesta história. 
Publicado em 1890, este livro terá influenciado grandes escritores, revelando-se um marco na literatura do século XX: Franz Kafka, Thomas Mann, Hermann Hesse, Henry Miller, Ernest Hemingway, Bertolt Brecht, André Breton, H. G. Wells, Stefan Zweig, Charles Bukowski, entre outros.
Numa linguagem simples, sem artifícios, é-nos contada uma história muito complexa, a de um suposto jornalista, que vai sobrevivendo com a publicação de alguns textos em jornais (quando são aceites, o que se vai tornando cada vez mais raro). Este homem, vai morrendo aos poucos, primeiro porque se esquece de comer; depois, porque não tem o que comer. Sempre que se vê com algum dinheiro no bolso, tenta ajudar quem precisa. Porém, aos poucos, vai-se deparando com a dificuldade em manter o que sempre prezou: a sua honestidade. E penso que é a consciência de estar a agir mal, de não se reconhecer em determinadas atitudes, que o faz sentir-se humilhado e no limiar da loucura e da morte. 
Há um crescendo de intensidade, à medida que a fome também vai dominando o protagonista, operando nele um esboço cadavérico que nem ele próprio reconhece.
Uma história perturbadora, que, se tivesse lido, sem saber a data em que foi escrita, julgaria mais atual, porque intemporal.
Ainda bem que li o livro antes de ler a biografia do autor, pois acredito que o facto de este se ter aliado a Hitler durante a ocupação nazi à Noruega na Segunda Guerra Mundial poderia ter-me provocado alguma repulsa. Afinal, grande ironia, o autor que sabe o que é a fome e nos fala dela da forma intensa como o faz neste seu livro, acabar por, ele próprio, ter-se aliado a alguém que tanta gente deixou morrer à fome...
Independentemente das suas escolhas políticas, tenho de admitir que este é um livro fantástico e que vale a pena ser lido.

Ryan, Jennifer (2017). As Mulheres do Coro de Chilbury. Lisboa: Editorial Presença.

Tradução: Maria João Freire de Andrade

Nº de páginas: 408

Início da leitura: 28/01/2023

Fim da leitura: 31/01/2023

**SINOPSE**

Kent, 1940. Chilbury, uma idílica povoação inglesa, vê os seus homens - maridos, filhos, irmãos - partirem para a guerra. Entregues a si próprias, as mulheres da aldeia confrontam-se com uma outra batalha: salvar o coro local que o pároco decidiu encerrar, para, através do canto, desafiarem o grande conflito que se trava na Europa. e com esse objetivo juntam-se à carismática Miss Primrose Trent, professora de música recém-chegada a Chilbury.

Entre elas, destacam-se Mrs. Tilling, uma viúva tímida; Venetia, a sedutora da aldeia; Silvie, a jovem refugiada judia; Edwina, uma parteira pouco escrupulosa que procura fugir de um passado sórdido. Bisbilhotices, ciúmes, medos, angústias, amores secretos marcam este romance inspirador e profundamente comovente que explora o modo como uma pequena comunidade consegue enfrentar as vicissitudes e os horrores de uma guerra violenta e destruidora.

Entre risos e lágrimas, e inspirando-se nas prodigiosas histórias que lhe contava a avó, que viveu no período da 2ª Guerra Mundial, numa pequena aldeia de Kent, Jennifer Ryan explora as almas deste coro que nenhum leitor jamais irá esquecer.

Um pequeno tesouro, inteligente e com um humor tipicamente britânico.
Esta é uma narrativa histórica, cuja ação decorre durante a II Guerra, em Chilbury. A partir do momento em que o pároco decide encerrar o coro, uma vez que os homens partiram para a guerra, as mulheres juntam-se para formarem um coro feminino e evitarem que o coro termine. Têm, no entanto, de ultrapassar a visão cética de uma época em que as mulheres não deviam cantar sozinhas.
Várias são as personagens que se destacam e que vão narrando a sua parte da história, quer através de diários (da Sra. Tilling e de Kitty), quer através de cartas (de Venetia e Edwina). Estas formas de narração permitem-nos conhecer melhor as personagens e saber o que motiva as suas ações. São personagens riquíssimas, que nos vão prendendo às suas histórias. Kitty, a jovem apaixonada e que, sem querer (por ciúmes), acaba por prejudicar a irmã; Venetia, a irmã de Kitty, irreverente e atrevida; Edwina, uma parteira interesseira que não hesita em trocar bebés por dinheiro; Prim, a professora de música, que impulsiona o coro são algumas dessas personagens, que se revelam verosímeis, dando força e credibilidade à narrativa. 
Aconselho a leitura!

Williams, John. Stoner. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2014.

Tradução: Tânia Ganho

Nº de páginas: 263

Início da leitura: 23/01/2023

Fim da leitura: 27/01/2023

**SINOPSE**

Romance publicado em 1965, caído no esquecimento. Tal como o seu autor, John Williams - também ele um obscuro professor americano, de uma obscura universidade.
Passados quase 50 anos, o mesmo amor à literatura que movia a personagem principal levou a que uma escritora, Anna Gavalda, traduzisse o livro perdido. Outras edições se seguiram, em vários países da Europa. E em 2013, quando os leitores da livraria britânica Waterstones foram chamados a eleger o melhor livro do ano, escolheram uma relíquia.
Julian Barnes, Ian McEwan, Bret Easton Ellis, entre muitos outros escritores, juntaram-se ao coro e resgataram a obra, repetindo por outras palavras a síntese do jornalista Bryan Appleyard: "É o melhor romance que ninguém leu". Porque é que um romance tão emocionalmente exigente renasce das cinzas e se torna num espontâneo sucesso comercial nas mais diferentes latitudes? A resposta está no livro. Na era da hiper comunicação, Stoner devolve-nos o sentido de intimidade, deixa-nos a sós com aquele homem tristonho, de vida apagada. Fechamos a porta, partilhamos com ele a devoção à literatura, revemo-nos nos seus fracassos; sabendo que todo o desapontamento e solidão são relativos - se tivermos um livro a que nos agarrar.

Um livro esquecido entre 1965, data da primeira publicação, e 2013, em que foi recuperado e reconhecido pela crítica. Foi lançado em Portugal em 2014. 
Este livro conta-nos a vida se Stoner, um jovem oriundo de famílias pobres que trabalhavam no campo, desde os tempos em que foi para a Universidade, e que, para estudar, tinha de trabalhar na quinta do casal que o acolheu. Foi durante os seus estudos na Escola Agrária, que descobriu a sua paixão pela literatura inglesa. Acaba por se tornar professor. Mas corresponderá a sua carreira à diferença que ele sonhou fazer? Conseguirá ele demonstrar e instigar nos seus alunos o amor que sente pela literatura? 
Todos sonhamos, seguimos os nossos ideais de vida, mas tornar-nos-ão esses ideais naturalmente felizes? 
Stoner apaixonou-se por uma rapariga reservada e casou-se com ela. Porém, casou-se não apenas com ela, mas com todos os seus medos e reservas. Poderá um amor platónico vingar? O que sente, afinal, Stoner por esta mulher tão complicada, tão fria, tão esquiva? Esta mulher que apenas alterou o seu comportamento relativamente à intimidade com Stoner para ter uma filha e repudiá-lo logo a seguir. E Stoner passa por tudo isto, a nível profissional e familiar como um espectador, cada vez mais solitário, cada vez mais fechado nas suas rotinas.
Quantas vidas não foram tecidas desta forma, sem questionar a verdadeira felicidade? Afinal, o que é a felicidade? Não terá Stoner, à sua maneira, sido feliz?
Um livro de escrita leve mas elegante e que vos fará refletir. Recomendo.

Ferrandez, Jacques (2019). O Primeiro Homem - Novela Gráfica. Porto: Porto Editora.

Tradução: Artur Lopes Cardoso

Nº de páginas: 184

Início da leitura: 19/01/2023

Fim da leitura: 22/01/2023

**SINOPSE**

"A adaptação gráfica do manuscrito inacabado de Camus conta a história de Jacques Cormery, um menino que teve uma vida semelhante à de Camus. Esta edição impressionante convoca o panorama, os sons e as texturas de uma infância circunscrita pela pobreza e pela morte de um pai, mas redimida pela beleza austera de Argel, pelo amor que Jacques tem à mãe e à avó, e por um professor que transformará a sua visão do mundo."


Novela gráfica adaptada da obra póstuma de Albert Camus, O Primeiro Homem, um manuscrito inacabado, a que Jacques Ferrandez deu uma nova vida. Esta obra de Camus foi encontrada entre os destroços do acidente de viação que o vitimou, em 1960. Só em 1994, a filha, Catherine, o publicou pela primeira vez. 
Uma obra autobiográfica, na qual Jacques Cormery, uma criança cuja vida se assemelha à de Camus, nos conta uma infância marcada pela perda do pai, por uma grande pobreza, mas também pelo amor familiar e pela importância de um professor que lhe terá ensinado uma nova forma de ver e interpretar o mundo. A obra vai alternando entre o passado dessa criança e a personagem na fase adulta, sobrepondo-se, muitas vezes, as duas imagens, o que nos permite compreender como foi a sua infância, o que mais o marcou e o que o levou a tornar-se no homem que é e que já consegue compreender os silêncios da mãe. E o livro que escreve ou tencionava escrever é precisamente sobre a relação mãe-filho...
Uma obra muito bem conseguida.
Deixo uma prancha de que gostei particularmente.

Kawabata, Yasunari (2000). Kyoto. Alfragide: Publicações Dom Quixote.

Tradução: Virgílio Martinho

Nº de páginas: 150

Início da leitura: 21/01

Fim da leitura: 22/01

**SINOPSE**

"Kyoto, é uma das mais belas obras de Yasunari Kawabata, autor galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1968. Considerado a sua obra-prima, este romance mergulha profundamente no Universo da psicologia feminina. O tema do amor impossível, já tratado noutros romances de Kawabata, aflora novamente nesta obra de uma tão delicada e subtil narrativa."

Kawabata é tão bom! Sempre que me sinto mais cansada e stressada, ler Kawabata é a melhor forma de descontrair. Tem o poder de nos levar a viajar, desta vez por Kyoto. Com belíssimas descrições que deslumbram e, ao mesmo tempo, algum sentido crítico em relação às mudanças negativas que o homem vai operando na sublime paisagem, somos transportados para lugares repletos de violetas, borboletas, santuários rodeados de cerejeiras em flor de cor avermelhada, as folhas verdes dos lírios, o verde do lago, as varas de bambu, as árvores que tombavam os ramos nas águas do lago, o pinhal, os cedros do monte Kitayama, os crisântemos, os carvalhos, a chuva, ao frio, o granizo a acinzentar a paisagem
Acompanhamos essas descrições de cortar a respiração ao longo da passagem das estações do ano, cada estação com a sua beleza muito própria, refletindo e refletindo-se nos estados de espírito, amadurecimento e personalidade das personagens. Estas tão bem construídas, tão inspiradoras e, ao mesmo tempo, tão reais, tão humanas... Até os tecidos, inspirados nas cores e padrões da natureza, são descritos de forma belíssima. As tradições, a forma de pensar, os costumes, tudo nos remete para Kyoto e nos faz sentir lá, a acompanhar as vidas das personagens.
A par destes espaços de contemplação, de elevação, de fascínio, temos a história da separação de duas gémeas à nascença (na altura em que nasceram, eram mal vistos os pais de gémeos), Chieko e Naeko: a primeira, criada com algumas mordomias, no seio de uma família remediada; a segunda, criada nas montanhas, no árduo trabalho do campo. Chieko só fica a saber da existência desta irmã, já são umas mulherzinhas, pois os pais tinham-lhe mentido sempre acerca das suas origens, dizendo-lhe que a tinham roubado e adotado, para que ela não fosse criada sob o estigma de uma filha enjeitada, abandonada pelos pais à porta dos pais adotivos.
Como correrá o encontro entre as irmãs? Que sentimentos se apoderarão de cada uma delas?
Temos ainda o despontar de uma história de amor. De Chieko ou Naeko ou de ambas? Nem sempre o amor é conquista, por vezes é renúncia...
Aconselho vivamente a leitura deste magnífico escritor. No fim de cada livro seu, fica uma doce nostalgia, mas um coração pleno de cor e esplendor e a noção de que viajamos em cada história e ficamos mais ricos.

Bei, Aline (2017). O Peso do Pássaro Morto. São Paulo: Editora Nós.

Nº de páginas: 168

Início da leitura: 19/01/2023

Fim da leitura: 20/01/2023

**SINOPSE**

"A vida de uma mulher, dos 8 aos 52, desde as singelezas cotidianas até as tragédias que persistem, uma geração após a outra. Um livro denso e leve, violento e poético.

É assim O peso do pássaro morto, romance de estreia de Aline Bei, onde acompanhamos uma mulher que, com todas as forças, tenta não coincidir apenas com a dor de que é feita."
Escolhi este livro um pouco às cegas. Depois, antes de avançar para lá da primeira página, fui ler a biografia da autora, uma jovem de São Paulo, contando já com um prémio literário. Avancei. Confesso que, inicialmente, a configuração ótico-grafemática na folha de papel me deixou um pouco confusa: é texto poético? É narrativa? É prosa poética? é uma narrativa em verso? Penso que será mais narrativa em versos fluídos, ao sabor dos pensamentos e com alguma poeticidade. Certo é que acaba por nos envolver.
A história contada é a de uma mulher, desde criança até aos 52 anos. O seu percurso de vida é marcado pela dor, a dor da perda, a dor da violação, a dor de ser mãe sem se sentir mãe, a dor de reconhecer que desconhece o filho que criou, o afastamento entre mãe e filho. Quando andava na escola, um acontecimento marca-a para sempre: a violenta morte de uma colega de escola, estraçalhada por um cão feroz. A morte vai acompanhando a personagem, que "no tempo" da sua "memória" acreditava que eram "pra sempre", não existia "morrer dentro, é como uma canção".
Quando o filho vai para a faculdade, fica só, e é nessa solidão que se reencontra. Num certo dia, quando vai viajar para rever o filho que não vê há muito tempo, encontra um cão enorme, abandonado numa bomba de gasolina e, ao aperceber-se da sua docilidade e necessidade de afeto, toma uma decisão, que mudará o rumo dos seus dias.
Deixo esta passagem, com a qual me identifiquei: 
"...o trabalho é 
por tantas vezes 
a maior tristeza da vida de uma pessoa e é só nisso
que certos pais pensam, no filho
crescendo e sendo alguém sendo que esse alguém envolve 
tudo menos Ser."
Aconselho!

Cachapa, Possidónio (2019). Materna Doçura. Lisboa: Companhia das Letras.

Número de páginas: 320

Início da leitura: 15/01/2023

Fim da leitura: 17/01/2023

**SINOPSE**

"Ao perder tragicamente a mãe, Sacha entra numa busca desequilibrada para reencontrar a sua imagem no corpo e rosto de todas as mulheres. Viajando das ruas luminosas de Lisboa aos corredores escuros do metro parisiense, o protagonista perseguirá a figura maternal de forma obsessiva. Tem um buraco no peito que precisa desesperadamente preencher.

Um pai inesperado, prostitutas de coração grande e produtores de cinema capazes de verem para lá do imediato, são algumas das personagens inusitadas que se cruzarão no caminho de Sacha, num universo em que as mulheres podem abraçar um lado masculino e os homens deixar bater um coração de mulher. Materna Doçura é um romance sobre o amor materno, mas, ao mesmo tempo, um manifesto sobre a importância de olhar todas as pessoas com compaixão e respeito. Escrito com irreverência e imaginação, leva o leitor da primeira à última página com uma voracidade feita de humor, emoção e drama."

Não é muito fácil falar deste livro. Apesar de muito bem escrito, de abordar o tema da perda da mãe e da dificuldade em viver com a falta do afeto maternal, chocou-me com a forma irreverente e inusitada de abordar esta "materna doçura". A ausência materna é, de certa forma, atenuada pela presença do Professor na vida de Sacha. Partilham a ausência da mãe e tornam-se essenciais um para o outro. Mais não revelo. Cachapa é um autor a ler. 

Chabouté (2020). Acender uma Fogueira. Lisboa: Levoir.

A partir do conto de Jack London.

Tradução: João Miguel Lameiras

Nº de páginas: 96

Início da leitura: 16/01/2023

Fim da leitura: 16/01/2023

**SINOPSE**

Um homem em busca de fortuna ou aventura, perdido no meio do Grande Norte, tenta juntar-se aos companheiros. Neste deserto de neve e gelo, apenas ele e um cão... Confrontado com as forças da natureza e com o frio cortante, a sua vida depende dos poucos fósforos com os quais espera acender uma fogueira.

Uma história simples e poderosa, servida por um desenho que nos faz sentir o frio como nunca experimentámos na BD.

Esta novela gráfica é simplesmente fabulosa. Tudo se conjuga, texto e sobretudo imagem, para nos contar uma história de cortar a respiração.
Tudo se passa em 1896, no norte do Canadá, Klondike, onde terão sido descobertas várias jazidas de ouro. 
O protagonista é um desses "prospectores improvisados", levados pela "febre do ouro". Para viajar até Klodike, teria de enfrentar muitas dificuldades. Sem quaisquer meios de comunicação, teria de seguir os trilhos difíceis da montanha a partir da Costa do Alasca. Mas, segundo o protagonista, estariam cerca de - 45 graus; segundo o cão que o acompanha nesta viagem, estarão - 60 graus.
É incrível como a ilustração nos conduz a este espaço, gerando-se em nós um ansiedade, um medo, uma angústia que vão crescendo até quase nos faltar o ar.
Fabuloso!
Aconselho vivamente.

 Innocenti, Roberto (2018). Clementine. Matosinhos: Edições Kalandraka.



Tradução: Carla Maia de Almeida

Nº de páginas: 40

Início da leitura: 15/01/2023

Fim da leitura: 15/01/2023

**SINOPSE**

"Um grande temporal e um naufrágio marcam o início de "Clementine", a história fictícia de um leal capitão e do seu amado navio de carga que durante quase meio século - desde a sua construção no início da década de 1930 até ao seu final no fundo do mar - percorreu os portos do mundo inteiro: do Pacífico aos confins do continente africano, passando pelas costas árticas e asiáticas, tanto em tempos de paz como durante a II Guerra Mundial, altura em que foi utilizado pela Marinha dos Estados Unidos na contenda bélica.

Através de um texto simples e pelo recurso a flashbacks, Roberto Innocenti transporta-nos do presente ao passado, fazendo uma viagem pelo solo geográfico e cronológico, ao mesmo tempo que percorre a biografia do protagonista."
O narrador começa a sua história com o naufrágio do seu navio Clementine. Só depois nos conta como tudo começou, desde que "era rapaz" e como chegou ao naufrágio, através de uma analepse. Dá-nos conta da construção do navio, do momento do embarque e dos vários países do mundo que conheceram...Mas, não fala apenas dos momentos agradáveis, conta-nos também sobre o momento em que "Clementine foi chamado a combater". Dá-nos ainda conta da efemeridade do tempo pois, quando regressa a casa, tanto o capitão do navio quanto a sua esposa Alice, são já velhos.
É curiosa a personificação constante de Clementine, que, quanto a mim, era o primeiro grande amor do capitão.
Depois, de realçar, em termos de aprendizagem para os mais novos, que são explicados todos os elementos que constituem um navio, bem como é apresentado um mapa do mundo com uma legenda onde constam os produtos que o capitão comercializava em cada paragem.
Recomendo!

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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