terça-feira, 14 de agosto de 2018

A Casa Quieta, Rodrigo Guedes de Carvalho

Célia Gil

Carvalho, Rodrigo Guedes de (2009). A Casa Quieta. Leya.


     Este livro, que vai sendo narrado por diferentes personagens, permite-nos ter uma perceção do que pensa cada uma delas, pelo que facilmente ficamos íntimos destas personagens tão reais. Salvador, um arquiteto, é casado com Mariana, que se debate, em fase terminal, com um cancro que a vai consumindo. O irmão de Salvador, António, é um antigo combatente, sofre de um trauma de guerra. Todo este enredo triste é tão convincente que somos levados a sofrer com as personagens.
     Os capítulos têm sempre o mês a que se referem no início, não seguindo um tempo cronológico linear, com analepses que nos explicam pormenores anteriores, que, curiosamente, sentimos necessidade de ir percebendo.
     Com uma escrita oralizante, intimista, Guedes de Carvalho aborda uma temática quotidiana para quem já perdeu para o cancro um ente querido, de forma tão real que conseguimos sentir a dor das personagens, as suas dúvidas mais comezinhas e as suas considerações mais comuns.
     Passo a ler algumas passagens demonstrativas do poder das palavras de Guedes de Carvalho:
“É então isto a morte. Abrires os olhos à espera de uma revelação e esbarrares no nada.” (Pág. 9)
“Havia um relógio de parede que nunca funcionou mas de que gostávamos como se funcionasse, como se tivesse préstimo. Eram as nossas coisas. Agora são coisas.” (pág. 247)
Tu eras (…). Tu eras as luzes acesas. Eras uma casa à minha espera. (…) A fechares o mundo lá fora”. (Pág. 247)
“Filhos, doutor, (…) levam o que temos de melhor sem nunca nos devolverem, ainda que esperemos, (…)”
“Um bebé é só mais uma pessoa que vai morrer. Havemos de cuidar dele, de o entreter, de lhe comprar roupa e dar a papa, de o levar à escola, de o levar ao dentista. Ele há-de estudar, tirar boas ou más notas, vestir-se sozinho (…), tirar a carta, abrir guarda-chuvas e rir das tempestades, rebolar-se na cama com outros corpos igualmente frescos secos firmes robustos, consultará as pautas de notas afixadas, irá festejar a passagem de ano, há-de abrir e oferecer presentes, dizer amo-te e sofrer por amor. (…) Um bebé é só mais uma pessoa que vai morrer.” (pág. 242).

                                                               Célia Gil

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

1 comentários:

  1. Gostei da amostrinha e trechos escolhidos. Bela apresentação! beijos, tudo de bom,chica

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