sábado, 20 de abril de 2019

A Cidadela Branca, Orhan Pamuk

Célia Gil

Pamuk, Orhan. A Cidadela Branca. Ed.4. Lisboa: Editorial Presença, 2006.


     A Cidadela Branca, de Orhan Pamuk, autor que foi prémio Nobel da Literatura em 2006, é um livro enigmático e que confronta o leitor com as suas dúvidas existenciais, tão fortemente vivenciadas pelos protagonistas do livro.

     No séc. XVII, um jovem estudante aristocrata veneziano, numa viagem entre Veneza e Nápoles, é capturado por piratas turcos, tornando-se prisioneiro e escravo em Istambul.
     Entretanto, um cientista inventor, conhecido como o Mestre, toma-o como seu escravo e é assim que se decide a aprender com ele tudo o que tinha a ensinar-lhe sobre o Ocidente. Juntos, vão procurando também dar resposta às solicitações do Sultão. O Mestre vai transmitindo ao Sultão tudo o que vai aprendendo com o escravo, se bem que, no início, o Sultão, ainda demasiado jovem, se mostre mais interessado em profecias e histórias sobre animais.
     Quando a peste invade Istambul, o Sultão exige ao Mestre que lhe apresente uma solução eficaz para a diminuição do número de mortos.
     Entre eles, que possuem uma incrível e simbólica semelhança física, nasce uma cumplicidade que chega a ser doentia, uma relação de amor-ódio, que vai de uma total não aceitação do outro à conclusão de que não poderiam viver um sem o outro.
     No momento em que se veem obrigados a ficar em casa, para evitar contrair a peste, o Mestre e o escravo decidem escrever as suas respetivas autobiografias.
     É neste momento que se cria uma relação de dependência entre os dois em que, apesar das diferenças civilizacionais que os separam, são tremendamente assustadoras as semelhanças que os unem e que os levam, a partir das autobiografias, a um jogo de espelhos no qual se fundem as próprias identidades ao ponto de as questionarem e pensarem até que ponto não poderão viver a vida um do outro.
     O Mestre acaba por retomar a vida do escravo, antes de ter sido feito prisioneiro, tornando-se numa pessoa culta. Já o escravo, vive a vida do Mestre, tornando-se bárbaro, cruel e selvagem.
     Uma metáfora da vida em comum, onde, muitas vezes, as pessoas, na busca da sua identidade dentro de uma relação, sentem que deixaram de ser quem eram para passarem a ser como o outro, anulando-se e transformando-se nele. Afinal, alguém saberá dar a resposta à pergunta “Quem sou?”
     A Cidadela Branca de Orhan Pamuk é esta viagem psicológica e existencial à mente humana que esta semana convido a fazer, eu que sou a Célia Gil.

Célia Gil / Professora

É professora de português e professora bibliotecária. Gosta de ler e de escrever. Este é o seu espaço de partilha de alguns textos que escreve.

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