Tabucchi, Antonio. A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2022.
Tradução: Theresa de Lancastre
N.º de páginas: 224
Início da leitura: 29/03/2026
Fim da leitura: 30/03/2026
**SINOPSE WOOK"
«O cenário desta triste, tenebrosa e, acrescentaríamos ainda, truculenta história, é a risonha e laboriosa cidade do Porto. Nem mais: a nossa portuguesíssima Cidade Invicta, acariciada por doces colinas e sulcada pelo plácido Douro», afirma o enviado especial Firmino na sua matéria exclusiva para o jornal lisboeta O Acontecimento.
O artigo revela a identidade de Damasceno Monteiro, um rapaz que descobre o poderoso tráfico de droga comandado por um oficial da Guarda Nacional e acaba decapitado e abandonado num terreno baldio.
Em A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, uma mistura de thriller com investigação jornalística, o foco continua na opressão, abordando os problemas do abuso policial, da tortura e da marginalização social das minorias étnicas.»
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A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, de Antonio Tabucchi, apresenta-se, à superfície, como um romance policial, mas rapidamente se revela uma obra de maior densidade ética e política. Inspirado num caso verídico, o homicídio de Carlos Rosa, encontrado decapitado, o enredo instala desde o início um clima de inquietação que ultrapassa o mero mistério narrativo para se fixar numa reflexão mais ampla sobre a justiça, o poder e a dignidade humana.
A narrativa decorre maioritariamente no Porto, num espaço periférico marcado pela presença de comunidades marginalizadas, como os acampamentos ciganos. É precisamente aí que Manolo, figura a quem a mulher trata por “El Rei”, descobre o corpo sem cabeça, num episódio inaugural que define o tom perturbador do romance. A partir deste momento, o que poderia seguir os trilhos convencionais do género policial transforma-se numa investigação de contornos mais difusos e profundamente humanos.
A chegada de Firmino, jovem jornalista, enviado de Lisboa por um jornal sensacionalista, funciona como dispositivo narrativo que conduz o leitor pela trama. Contudo, Firmino não é apenas um observador: a sua progressiva imersão no caso traduz também um percurso de amadurecimento moral. No Porto, conta com o apoio de duas figuras marcantes - D. Rosa, a pragmática dona da pensão, e sobretudo o excêntrico advogado Dom Fernando - que desempenham papéis fundamentais não só no desenrolar da ação, mas também na dimensão reflexiva da obra.
É, aliás, nas conversas entre Firmino e Dom Fernando que o romance atinge o seu ponto mais alto. Longe de serem meros diálogos funcionais, estes momentos suspendem a narrativa policial para abrir espaço a discussões sobre filosofia, justiça, direitos humanos e o papel das instituições. Dom Fernando, com a sua excentricidade e erudição, surge como uma espécie de consciência crítica, questionando o funcionamento do sistema judicial e denunciando formas de abuso de poder que permanecem, muitas vezes, ocultas.
A construção do romance revela, assim, uma notável capacidade de equilíbrio entre tensão narrativa e profundidade reflexiva. O mistério do crime mantém o leitor envolvido, mas é a dimensão ética que confere verdadeira substância à obra. Tabucchi não se limita a contar uma história: problematiza-a, desmonta-a e obriga-nos, a nós leitores, a confrontarmo-nos com realidades incómodas.


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