A Parteira, Bibbiana Cau

Cau, Bibbiana (2026). A Parteira. Lisboa: Editorial Presença. 

Tradução: Inês Guerreiro
N.º de páginas: 376
Início da Leitura: 24/03/2026
Fim da Leitura: 28/03/2026

**SINOPSE WOOK**
"Uma história de coragem, redenção e liberdade.

Mallena não é uma deles. Chegou a Norolani dezasseis anos antes, vinda de fora, mas, com o tempo, tornou-se um verdadeiro ponto de referência. É que Mallena é uma llevadora, uma parteira que, aplicando um saber antigo transmitido pela mãe, ajuda todas as mulheres no momento do parto, mesmo as das famílias mais humildes, sem nunca pedir nada em troca.

No entanto, tudo se desmorona em 1917, quando o marido regressa da guerra, ferido no corpo e na alma. Para pagar os tratamentos médicos de que ele necessita, Mallena exige em voz alta ao conselho municipal que o seu trabalho seja fi­nalmente remunerado. Um pedido tão justo quanto mal recebido, que altera o rumo da sua história e traz para a aldeia outra mulher, outra parteira: Angelica.

Mallena e Angelica, destinadas a ser rivais, descobrem ser duas faces da mesma moeda: unidas pelo desejo de liberdade, pela traição sofrida e pela injustiça que recai sobre as mulheres. Quando o passado regressa e a situação se torna insustentável, toda a comunidade de Norolani é forçada a exigir, pela primeira vez, verdadeira justiça.

Uma grande história no feminino que retrata, através da língua, dos aromas, da poesia e da aspereza da vida, a Sardenha do início do século XX. Uma protagonista que, guiada por uma sabedoria ancestral e pela solidariedade entre mulheres, desperta para uma nova consciência."

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A Parteira, de Bibbiana Cau, é um romance que desafia a impaciência do leitor contemporâneo, habituado a ritmos mais imediatos. Numa primeira fase, a narrativa arrasta-se, com uma ação pouco dinâmica e uma cadência que pode facilmente ser vista como monótona. A construção do ambiente e das personagens, embora cuidada, não se revela de imediato cativante, o que pode levar à tentação de abandono precoce da leitura.
Contudo, é precisamente quando surge a nova parteira na aldeia que o romance sofre uma inflexão decisiva. A partir desse momento, a história ganha densidade e vitalidade, como se finalmente encontrasse o seu verdadeiro pulso narrativo. As relações entre as personagens tornam-se mais complexas, os conflitos adensam-se e o enredo passa a desenvolver-se com uma fluidez que prende o leitor até às últimas páginas.
Este contraste entre um início mais moroso e um desenvolvimento posterior envolvente acaba por funcionar como uma espécie de prova de persistência. 
Um dos aspetos mais conseguidos da obra reside na forma como retrata as tradições e o quotidiano da comunidade. Episódios como a matança do porco, onde nada se desperdiça, são descritos com um realismo quase etnográfico, revelando um modo de vida assente na subsistência e na valorização de cada recurso. Do mesmo modo, crenças ligadas à morte, como a necessidade de deixar um prato de comida ao falecido, para que o seu espírito possa usufruir de uma última refeição, contribuem para criar uma atmosfera rica em simbolismo e profundamente enraizada na cultura local.
Particularmente marcante é também a resistência das mulheres da aldeia à chegada de uma parteira formada. A sua revolta não é apenas um gesto de rejeição do novo, mas antes uma afirmação de confiança numa figura que faz parte da memória coletiva e afetiva da comunidade, a parteira tradicional, com as suas mezinhas e saber empírico, responsável pelo nascimento de grande parte das crianças da aldeia. Este confronto entre conhecimento científico e saber popular constitui um dos eixos mais interessantes do romance, levantando questões sobre autoridade, tradição e identidade.

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