O Gigante Enterrado, Kazuo Ishiguro

Ishiguro, Kazuo (2017). O Gigante Enterrado. Lisboa: Gradiva.

Tradução: Ana Falcão Bastos
Nº de páginas: 412
Início da leitura: 04/07/2026
Fim da leitura: 10/07/2026

**SINOPSE WOOK**
"Tudo se passa há muitos, muitos anos, num local de fronteiras bem diferentes das actuais e marcado por grandes extensões de solo árido. Nalgumas zonas, os aldeões viviam em abrigos, parte dos quais cavados na encosta dos montes, ligados uns aos outros por passagens subterrâneas. Era num sítio assim que habitava o casal de idosos que tem lugar central nesta história: Axl e Beatrice. Um dia os dois decidiram ter chegado a hora de procurar o filho que há muito não viam e de quem pouco se recordavam. Naquele tempo longínquo esta era uma viagem que, previsivelmente, traria perigos. Mas aquela proporcionou muito mais do que isso. Uma amnésia colectiva parecia ter-se instalado naquela zona, como uma névoa que descera à terra para fazer esquecer em parte o passado, individual e colectivo. Mas a viagem de Axl e Beatrice revela-se um regresso à lembrança. E esta nem sempre deixa um rasto feliz.
Esta é uma história sobre memórias perdidas, amor, vingança e guerra. É ainda uma história que recua ao passado, transportando o leitor para terrenos percorridos por cavaleiros do rei Artur e monges, ogres e dragões. Um dragão em particular - Querig - é o foco das atenções. E, em relação a ele, as missões dividem-se. A diferença entre poupá-lo ou tirar-lhe a vida pouco tem de fantasia. Depois de dez anos sem publicar ficção de fôlego, Ishiguro apresenta-se agora com uma história inesperada que, por certo, fica na memória."

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O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro, é uma obra singular e profundamente reflexiva, que desafia as expectativas de quem procura uma narrativa de fantasia convencional. Não é um livro de leitura imediata ou fácil, sobretudo porque o autor privilegia a introspeção e o diálogo interior das personagens em detrimento de uma ação constante. Ao longo da história, as personagens expõem as suas inquietações, dúvidas e fragilidades, conduzindo o leitor por uma viagem mais emocional e filosófica do que propriamente aventureira.
Ishiguro mistura elementos da fantasia medieval com reflexão sobre a condição humana, criando uma atmosfera simultaneamente misteriosa e melancólica. A narrativa acompanha Axl e Beatrice, um casal de idosos que parte numa viagem por uma Inglaterra antiga, povoada por criaturas fantásticas como ogres e dragões, com o objetivo de reencontrar o filho que não veem há muitos anos. No entanto, à medida que avançam no caminho, torna-se evidente que existem memórias apagadas, segredos por revelar e acontecimentos do passado que ambos parecem não conseguir ou não querer recordar.
A presença de uma misteriosa névoa, que parece afetar a memória dos habitantes daquela terra, funciona como um dos grandes símbolos do romance. O esquecimento torna-se não apenas um elemento da narrativa, mas também uma metáfora poderosa para explorar temas como a culpa, o perdão, o amor e a forma como as pessoas lidam com as dores do passado. Ishiguro questiona até que ponto recordar é sempre uma bênção e se, por vezes, esquecer poderá ser uma forma de proteção.
A relação entre Axl e Beatrice é o centro emocional do livro. Através deles, o autor constrói uma reflexão delicada sobre o envelhecimento, a ligação entre duas pessoas e a importância das memórias partilhadas na construção de uma vida em comum. A viagem que empreendem é, ao mesmo tempo, uma procura exterior e uma descoberta interior, onde cada passo os aproxima de verdades que talvez nem sempre sejam fáceis de enfrentar. A forma como se tratam, "princesa" e "marido" é exemplo disso.
Apesar da riqueza das questões levantadas e da beleza da escrita de Ishiguro, esta é uma leitura que exige alguma paciência. Em determinados momentos, o ritmo torna-se demasiado lento e algumas passagens prolongam-se mais do que o necessário, havendo episódios que poderiam ter sido encurtados sem prejudicar a essência da obra. A forte componente contemplativa poderá afastar leitores que esperem uma narrativa mais dinâmica.
Ainda assim, O Gigante Enterrado é um livro que permanece na memória pela sua originalidade e pela forma subtil como aborda temas universais. Mais do que uma história de fantasia, é uma meditação sobre aquilo que escolhemos recordar, aquilo que preferimos esquecer e sobre as consequências das verdades que decidimos enfrentar. Uma leitura exigente, mas recompensadora, para quem aprecia romances que continuam a provocar reflexão depois da última página.

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