Verna, Nicoletta (2026). Dias de Vidro. Lisboa: Alma dos Livros.
Tradução: Filipa Ramalho
N.º de páginas: 384
Início da leitura: 27/06/2026
Fim da leitura: 30/06/2026
**SINOPSE WOOK**
"Num tempo de brutalidade absoluta, uma mulher aprende a resistir sem perder a fé na humanidade.
Itália, 1924. Giacomo Matteotti, principal opositor de Benito Mussolini, é assassinado no dia em que Redenta vem ao mundo. O medo instala-se, o silêncio torna-se regra e a violência passa a ser instrumento de governo. A morte de um, marca o início definitivo da ditadura, o nascimento de outra, inaugura uma vontade obstinada de resistir.
Prometida em criança ao seu melhor amigo, Bruno, que desaparece sem explicação, é mais tarde escolhida para casar com Vetro, um dirigente fascista cujo sadismo parece não ter limites. Ainda assim, algo nela persiste. Uma força silenciosa, quase indestrutível. a vida de Redenta cruza-se com a de Iris, uma mulher rebelde e com desejos de liberdade.
Duas mulheres, duas formas de coragem, dois destinos que se entrelaçam num dos períodos mais austeros da História. Tão sombrio quanto luminoso, Dias de Vidro transforma o tempo do silêncio numa história de resistência íntima, feminina e radicalmente humana. A voz de Redenta permanece, clara, ferida e vibrante, muito depois de fechada a última página."
Dias de Vidro, de Nicoletta Verna, é um romance de ficção histórica de grande intensidade, inspirado em acontecimentos e figuras reais que marcaram um dos períodos mais sombrios da história de Itália. Sem abdicar da ficção, a autora constrói uma narrativa credível, onde a violência do regime fascista se faz sentir não apenas nos grandes acontecimentos políticos, mas sobretudo nas vidas anónimas de quem tenta sobreviver a um quotidiano dominado pelo medo, pela repressão e pela arbitrariedade.
No centro da história está Redenta, uma protagonista de enorme força interior. É uma mulher de poucas palavras, mas de uma resistência impressionante, cuja coragem se manifesta mais nos gestos silenciosos do que em atos grandiosos. Através do seu percurso, Nicoletta Verna oferece um retrato duro da condição feminina num contexto em que o poder, a violência e o controlo sobre os corpos e as vidas das mulheres eram exercidos com uma crueldade devastadora. As restantes personagens que cruzam o seu caminho acrescentam diferentes perspetivas sobre a liberdade, a dignidade e a capacidade de preservar a humanidade mesmo nas circunstâncias mais adversas.
A autora escreve com uma linguagem simultaneamente elegante e incisiva para transmitir o peso emocional da narrativa. As cenas de maior brutalidade nunca parecem gratuitas; pelo contrário, surgem como um reflexo necessário da realidade histórica que o romance procura retratar. É precisamente esse equilíbrio entre contenção literária e intensidade emocional que torna a leitura tão envolvente.
Mais do que um romance sobre o fascismo, Dias de Vidro é uma reflexão sobre a resistência, a memória e a extraordinária capacidade humana para continuar a encontrar razões para viver quando tudo parece perdido. Sem romantizar o sofrimento, mostra o elevado preço da sobrevivência e a forma como as escolhas individuais são condicionadas por um contexto de violência permanente.
Foi uma leitura que me conquistou por completo. Gostei da escrita segura e envolvente, da construção das personagens e da forma como a narrativa consegue conciliar o rigor histórico com uma forte dimensão humana. É um romance exigente, por vezes duro, mas também profundamente marcante, daqueles que permanecem connosco muito depois de fecharmos a última página.
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