Histórias Soltas Presas Dentro de Mim

(imagem do Google)

Porque pesa a consciência?
Penso que não tenho resposta…
Só sei que sou obesa de consciência,
sinto o seu peso nos ombros
se acaso me desleixo,
se deixo o dia correr
deitada no sofá…
Se acaso tenho trabalho
e durmo até tarde.
Se não me apetece sorrir
quando o devo fazer.
Se não choro
quando só me ficava bem.
Se ignoro o pobre
virando as costas à sua súplica.
Se tenho uma atitude inadequada
com alguém…

A consciência pesa
apenas a quem a tem,
a quem pondera as suas atitudes,
a quem aprende com os erros,
a quem quer crescer e aprender.

Mas a obesidade da minha consciência
chega a ser mórbida
e arrasto a minha existência
ao seu peso excessivo.

Preciso urgentemente de entrar
numa séria dieta mental
para usufruir plenamente a vida
sem excessivos pesos de consciência.
                                             Célia Gil




(imagem do Google)

O ser humano tem o dom de ansiar.
Vive ansiando…
Em criança anseia crescer,
ter dezoito anos, ser adulto.
Em adulto anseia voltar a ser criança
e não ter preocupações.
Anseia a passagem do tempo
quando os tempos são difíceis.
Anseia ir de férias
e que estas se prolonguem.
Anseia uma razão para não ir trabalhar
e anseia curar uma doença para ir trabalhar.
Anseia mudar de vida
e ter força de vontade para o fazer.
Anseia dormir, acordar, descansar, viajar…
Anseia encontrar o grande amor
(e, às vezes, anseia estar só).
Tantas as ânsias
que lhe levam a paz para partes d’além…
Insatisfação (des)humana
que o faz correr atrás dos sonhos
ansiando sempre o que não tem!
                                              Célia Gil







Quem somos nós para julgar os outros?
Quem somos nós para destruir os outros?
Ah, ser humano, sempre com falsas razões!
Tão cheio e inchado das suas razões!
Que deixa de agir com lucidez,
ao ponto de prejudicar os demais,
de fazer sofrer os que o rodeiam
por questões mesquinhas,
egoistamente mesquinhas.
Não sereis condecorados por Deus
como seus sósias em terra.
Apenas espezinhareis os que até erram,
mas que não deverão ser julgados por vós,
pois não vos compete julgar e crucificar ninguém.
Quem sois vós para espezinhar quem quer que seja?
Errar é humano,
e nós somos apenas humanos,
não devemos ter pretensões
de sermos donos da razão absoluta.
Descei à terra da vossa insignificância,
também um dia errareis
e lá estará alguém como vós
para vos julgar e condenar…
Um eterno ciclo de candidatos a sósias de Deus!
                                                           Célia Gil




Dias vadios são aqueles dias
em que nada espero de mim,
nada peço, nada exijo.

E tem dias que preciso deles,
de dormir de cabeça vazia
de preocupações…
Fechar os olhos e ignorar
o rumo que o mundo toma.
Viajar no meu mundo interior
a campos de flores perfumados.
Ouvir uma boa música
e deixá-la a ecoar na alma.
Ver ou rever um filme marcante
sem pensar nas horas e afazeres.

Ah, como eu queria dias vadios!
Vagabundamente vadios…
Como preciso desses dias!
Dias só para mim!
                               Célia Gil




Chega uma altura na vida
em que se olha para trás
e se pondera…
Pondera-se o tempo vivido,
longo caminho percorrido…
Duros acontecimentos
que nos fizeram amadurecer.
Épocas áureas
cheias do brilho das saudades.
E esse passado
deixa de ser aquele que vivemos,
porque a memória trai
e a saudade tudo ficciona.
Quem me dera voltar
aos meus melhores momentos,
frui-los-ia segundo a segundo
sabendo-os irrepetíveis.
Até os piores momentos
seriam suportados
com outra maturidade.
O futuro é uma névoa
feita de desejos e aspirações.
                                  Célia Gil

Em meu redor
há uma imensidão de gente…
Uma vasta imensidão de sentimentos…

Tristezas mergulhadas
em olhos-barragens estancadas,
alegrias estampadas
em rostos corados de felicidade,
dúvidas angustiadas
em corações a pulsar ao pé da boca,
paixões extasiadas
saindo em palavras-corações,
balões de amor de algodão doce
a saber ao mel das vibrações,
cansaços de vidas vazias
sem metas para alcançar…

Tantos sentimentos dispersos
em objetivos individuais,
caminhando desencontrados…
                                  Célia Gil




A tristeza
é uma casa vazia
de sentimentos
e de memórias.
É uma janela fechada
poeirenta e empenada.
Cheira a mofo,
à naftalina das ausências.
É um adeus à chegada,
uma meta esquecida,
o que resta do nada.
É uma estrada por galgar,
um passo atrás
no caminho da esperança.
É não saber amar
por não ter amor para dar.
É a derrota sem aposta,
é o fracasso sem luta,
é a queda antes de se levantar.

A tristeza
é o fado por cantar,
a lágrima por cair,
o sorriso por libertar.

É um modo de se anular.
                        Célia Gil

(imagem do Google)



Caminho de mãos dadas com a solidão,
com ela me procuro sem me encontrar,
é ela que, quando caio, me dá a mão,
me ergue e me faz continuar.

Andamos, por aí, a passear,
sem rumo certo ou direção…
Mas só a solidão me deixa raciocinar
e não perder de todo a razão.

Quantas vezes me repreende sem dó,
me dá um tabefe bem merecido,
me abana e ameaça deixar só,
quando tenho um ato irrefletido!

Minha solidão!

                                 Célia Gil



Quando escrevo
as palavras ganham vida,
tornam-se sentimentalmente humanas.
Choram sentidamente
a dor d’alma.
Riem despropositadamente
qual crianças inconsequentes
quando excessivamente inocentes.
Gritam desesperadamente
face à incompreensão e à injustiça.
Gracejam inadvertidamente
quando transbordam de felicidade
sem nuvens no horizonte.

Quando escrevo
sou aquilo que escrevo!
                          Célia Gil

(imagem do Google)

Sou agricultora
de palavras,
numa horta de amor.
Vejo germinar
pequenas sementes
de paz.
Regozijo-me
com as folhas tenras
da piedade.
Vejo o fruto
do meu trabalho
crescer viçoso
em harmonia
e humildade.

E o fruto da minha horta
será maior do que eu,
melhor do que eu,
mas fico feliz
por ter contribuído para tal.

Assim é a vida de um professor...
Horticultor dos seus discípulos!
                                 Célia Gil

(imagens do Google)
O sol abriu-se hoje
num amplo clarão de poesia.
Poisou os seus raios inspirados
nas minhas mãos de pedra,
implorando-lhes que escrevessem.
Mas eu estava fechada
no meu mundo deprimente
e não deixei que a poesia
entranhasse na minha pele.
Mas a poesia é paciente.
Sentou-se ao meu lado,
na relva do jardim,
embalou-me até adormecer.
Invadiu o meu sono,
remexeu no meu sonho,
até a sentir em mim.
A minha lágrima secou,
o sorriso abriu-se
e a mão procurou a caneta
para fazer a folha de papel
dançar ao som da poesia.
O sol da poesia
inspirou, finalmente, o meu dia!
                                            Célia Gil


(imagem do Google)

Ignóbil sociedade corrupta,
que, de dia para dia,
desilude e inflama a desunião,
semeia a discórdia,
distorce as palavras,
oprime os bons sentimentos.

Ignóbil sociedade corrupta,
que vê maldade em tudo,
que destrói com a sua maledicência,
que se considera supra-sumo,
mas cuja supremacia é a cobardia.

Ignóbil sociedade corrupta,
que não podes ver ninguém feliz,
que logo destilas o fel da inveja,
que pisas e espezinhas
tudo por onde passas.

Ignóbil sociedade corrupta,
que, do alto do teu pedestal,
vês apenas a tua própria supremacia
e ignoras os que estão abaixo,
os que rastejam,
que se espojam no chão da miséria,
espezinhados por ti,
pobres formigas persistentes
numa inglória luta
contra os trovões
da sociedade corrupta!
                          Célia Gil
Aos meus filhos, com todo o amor:

(fotos daqui)

Os filhos
são a árvore que plantamos.
Ansiamo-los,
germinamo-los,
falamos com eles antes de nascerem,
regando todos os dias
a relação maternal.
E é no seio do amor
que desponta esse pedacinho de vida,
que acarinhamos,
a que nos entregamos de corpo e alma.
Regamos com sábias palavras
esses seres que dão razão à vida.
Podamo-los, limando arestas
de atitudes e valores.
Prescindimos de nós
para os vermos crescer viçosos.
E, mesmo depois de crescidos,
continuam a ser os nossos feijõezinhos
que vimos nas ecografias.
Limpamo-los das folhas
secas da discórdia,
ensinando-os a amar os outros
e a respeitar os demais.
Mostramos-lhes que a humildade,
a fé, a confiança e a bondade
são o fertilizante das suas vidas.
Tornam-se árvores indestrutíveis,
prontas, elas próprias,
a darem os seus frutos,
neste ciclo da vida.
                                  Célia Gil

(imagem do Google)

O meu cérebro acordou hoje
com as luzes fundidas.
Quero pensar…
Mas o discernimento
é uma névoa indistinta
no fundo dos meus olhos.
Quero sorrir,
mas o sorriso está contraído
por qualquer trejeito
que vem, assim, do peito
e morre antes de distender
os músculos faciais
num aberto movimento de felicidade.
Quero amar,
mas só vejo desprezo, inveja e ódio
à minha volta…
Quero ser feliz,
mas a felicidade é miragem
perdida na juventude,
quando ainda fazia projectos.
Tantos quereres, simples quereres
que, às vezes, se tornam inatingíveis…
                                                  Célia Gil


(imagem do Google)



Que esta noite
não seja apenas mais uma noite…
Que os sonhos bons
invadam a sua mente
e repousem na parte interior
das suas pálpebras.
Que esta noite
pinte um quadro
repleto de flores de todas as cores,
com fragrâncias que dele se desprendam.
Que esta noite
os sonhos o levem em voo
sobre um mar cristalino,
e a brisa permaneça no seu corpo
à espera de ser beijada pelas estrelas.
Que esta noite
morra a tristeza e a angústia
perante sorrisos de alegria contagiante,
que a felicidade, a esperança, a fé
sejam reforçadas…
Que esta noite
seja passada com quem ama
e que o amor invada as paredes da alma.
Que esta noite
não seja apenas mais uma noite,
mas uma noite especial!
                                       Célia Gil





(imagem do Google)



Se realmente me amasses,
dizias as trivialidades
que as mulheres gostam de ouvir.
Dirias que eu tinha irrompido
na tua vida, sem bater à porta,
sem esperar que a abrisses;
que eu havia preenchido
todos os espaços vazios da casa,
que me tornara o teu sol
a entrar pela janela entreaberta,
que iluminara a tua vida
com a luz das estrelas dos meus olhos.
Construirias canteiros de rosas
com um caminho para eu passar,
ladrilhado de pedras alvas
para mais facilmente te encontrar.
Se realmente me amasses…
                                         Célia Gil

(imagem do Google)

Era tão bom ter poderes!
Simplificar a vida,
tornar as pessoas mais crentes,
menos desconfiadas…

Às vezes gostaria
de poder tocar o mundo
com uma varinha mágica,
delinear sorrisos em rostos sisudos,
infundir esperança onde esta escasseia,
semear amor em corações áridos,
despoletar a capacidade de sonhar
em quem nunca soube sonhar,
em quem nunca teve tempo para sonhar,
em quem não ousa sonhar!
Pudesse tocar os teus lábios contraídos
e arrancar deles palavras de afecto,
conseguir que expressassem palavras de amor,
ouvir deles palavras de dádiva.
Somos e recebemos aquilo que damos
e o que damos de nós
a cada segundo da nossa vida.
E tu és a negação dessa dádiva
Recebes, de bom grado,
mas não correspondes.
Entende que sou gente,
a minha varinha de magia
um dia será mais uma vara
num campo de videiras secas
e os poderes perdidos
secarão as plantas
do sofrimento que me escorre pela face.
Face fria face à falta de afecto.
Um dia, quando pensares em retribuir
o amor que por ti sinto,
o meu coração terá secado
numa estiagem de sentimentos!
                                     Célia Gil

(imagem do Google)
Deixei a criança feliz de outrora
em Angola, numa calçada vazia,
sentada numa laje fria,
à espera que eu fosse embora.

Parti naquele avião,
com medo de olhar para trás
e não ser, assim, capaz
de partir com a necessária determinação.

Mas fui muito corajosa,
abandonei os sonhos de meus pais e meus
abracei com garra os céus
sem me deixar destruir pela mente ansiosa.

Mas a criança ali se quedou,
ao pé da casa que não habitou,
sonho de uma vida que findou
quando o seu corpo bem longe a levou.

Levou uma precoce mulherzinha,
sem risos, brincadeiras, ilusões,
feita mulher nas horas de aflições
sem tempo ou direito a ser menina.
                                       Célia Gil


(imagem do Google)

Poema dedicado ao meu marido, com carinho:

Não digas nada,
deixa-me fazer companhia
ao teu silêncio.
Encontrar paz
no fundo dos teus olhos
e adormecer
embalada pela tua compreensão.
Não digas nada,
olha-me apenas
com a tua admiração
e não me recuses nunca
reconhecer nos teus olhos
a pessoa que amo.
Não preciso que mo digas,
isso são meras palavras
que ficam a ecoar na distância
e se perdem no tempo.
Apenas preciso que mo mostres,
com atitudes, com o olhar,
com o sorriso que ainda te desperto,
com as saudades das minhas ausências,
com o teu silêncio,
o nosso tão precioso silêncio!
                                   Célia Gil

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Sobre mim

Professora de português e professora bibliotecária, apaixonada pela leitura e pela escrita. Preza a família, a amizade, a sinceridade e a paz. Ama a natureza e aprecia as pequenas belezas com que ela nos presenteia todos os dias.

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